"Uma obra de peso, consciente e cuidadosamente trabalhada." John Updike



Baixar 1.8 Mb.
Página1/39
Encontro25.07.2016
Tamanho1.8 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   39





Contra capa:

“Uma obra de peso, consciente e cuidadosamente trabalhada.” John Updike — The New Yorker

Neve não é só um triunfo da narrativa, mas também uma leitura essencial do nosso tempo.” Margaret Atwood — The New York Times Book Review

“Um livro profundamente relevante para o momento atual. O debate entre o secularismo e o fanatismo religioso é conduzido com sutil e doloroso conhecimento das fraquezas humanas que podem estar por trás dos dois.” The Times

Neve é enriquecido por misturas hipnóticas: crueldade e farsa, poesia e violência, e uma voz cujos timbres vão da diversão do narrador até o tormento de um explorador perdido.” The New York Times

“Pamuk é o tipo de escritor para o qual o prêmio Nobel foi inventado.” Daily Telegraph

“Esta é a mágica de Pamuk:

um texto de malabarismos

que ultrapassa épocas e fronteiras.”

Lire

Mais de 100 mil exemplares vendidos EM LÍNGUA INGLESA

Tradução de Luciano Machado
Orelha: Na década de noventa, depois de anos de exílio na Alemanha, o poeta turco Ka volta a Istambul para o enterro da mãe. De lá, segue para a remota Kars, na fronteira com a Geórgia, a pretexto de fazer uma reportagem sobre uma onda de suicídios entre jovens islâmicas. Durante essa visita, uma nevasca bloqueia todas as estradas, insulando a cidade do resto do mundo, e é nesse clima de isolamento que um veterano ator e sua mulher aproveitam para liderar um golpe militar. Embora tenha se distanciado da política há muitos anos, Ka é alçado a protagonista involuntário dessa revolução.

Nada menos apropriado para o escritor cujo desejo — além de se casar com İpek, antiga colega de escola que reencontrou em Kars — é apenas registrar as poesias que lhe escapam há anos, mas que agora passam a fluir com extrema naturalidade. O confronto intransigente e muitas vezes sangrento dos islamitas radicais com um estado que quer ser secular, a violência do aparelho repressivo, o medo de que os radicais cheguem ao poder pela democracia e os crimes cometidos pelos dois lados: é nesse turbilhão que Ka vaga por três dias, tentando salvar a si mesmo e a seu recém-descoberto amor por İpek. Enquanto o poeta tenta se equilibrar entre as diversas facções em choque, vê a cidade se tornar um microcosmo dos conflitos raciais, políticos e étnicos da Turquia, além de palco da sua tragédia pessoal.

A ação de Neve se passa alguns anos após o golpe e a fatídica nevasca. Um amigo de Ka, obcecado por encontrar seu caderno de poesias, visita Kars a fim de refazer os passos do poeta e de entender as mudanças radicais que aqueles três dias provocaram em sua vida. A grande habilidade de Pamuk está em combinar um tema presente, atual — a relação entre islamismo e política — com questões atemporais, que se manifestam nas inquietações espirituais e artísticas de Ka. Ao expor as relações intrínsecas do motor social com a subjetividade de suas engrenagens — são jornalistas, políticos, terroristas, cidadãos — Pamuk criou um romance complexo, multifacetado, uma visão original e arrebatadora da realidade, como só a ficção permite.

Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Hoje, é o principal romancista turco, traduzido em mais de 40 idiomas. Foi apontado pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo. Neve recebeu os prêmios Medicis e Méditeranée Étranger, na França. Dele, a Companhia das Letras também publicou Meu nome é vermelho (2004). Em 2006, Pamuk ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.


NEVE


http://groups-beta.google.com/group/digitalsource

ORHAN PAMUK

Neve


Tradução de

Luciano Machado

3a reimpressão


Copyright © 2002 by Iletisim Yayincilik A. S.

A Companhia das Letras agradece o Ministério Turco de Turismo e Cultura pelo apoio na publicação deste livro.

A presente tradução foi feita com base na tradução inglesa. Snow, de Maureen Freely.



Título original

Kar


Capa

Raul Loureiro



Imagem da capa

© Steve McCurry/ Magnum Photos



Preparação

Beti Kaphan



Revisão

Isabel Jorge Cury

Carmen S. da Costa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Pamuk, Orhan

Neve / Orhan Pamuk ; tradução de Luciano Macha­do. —

São Paulo : Companhia das Letras, 2006.

Título original: Kar.

ISBN 85-359-0922-2

1. Ficção turca I. Título.

06-7145 CDD-894.35

Índice para catálogo sistemático:

1. Ficção : Literatura turca 894.35

[2006]

Todos os direitos desta edição reservados à



EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32

04532-002 — São Paulo — SP

Telefone (11) 3707-3500

Fax (11) 3707-3501

www.companhiadasletras.com.br



Para Rüya

Nosso interesse vai para a perigosa fímbria das coisas.

O ladrão honesto, o assassino delicado,

O ateu supersticioso.

Robert Browning, “Bishop Blougram’s Apology”

A política numa obra literária é um tiro de pistola no meio de um concerto, uma coisa bruta, mas que não se pode ignorar. Logo vamos falar de coisas muito desagradáveis.

Stendhal, A Cartuxa de Parma



Está bem então: eliminem o povo, reprimam-no, reduzam-no ao silêncio. Porque o iluminismo europeu é mais importante do que o povo.

Dostoiévski, apontamentos para Os irmãos Karamazov



O ocidental em mim estava desagregado.

Joseph Conrad, Sob os olhos ocidentais

Sumário

1. A viagem para Kars



2. Os bairros da periferia

3. Pobreza e história

4. Ka se encontra com İpek na Confeitaria Vida Nova

5. A primeira e última conversa entre o assassino e sua vítima

6. Amor, religião e poesia: a triste história de Muhtar

7. Na sede do partido, na delegacia de polícia e novamente nas ruas

8. Azul e Rüstem

9. Um descrente que não quer se matar

10. Neve e felicidade

11. Ka com o sheik efêndi

12. A triste história de Necip e Hicran

13. Uma caminhada na neve com Kadife

14. A conversa durante o jantar versou sobre amor, mantos e suicídio

15. No Teatro Nacional

16. Necip descreve sua paisagem e Ka recita seu poema

17. Uma peça sobre uma jovem que queima seu manto

18. Uma revolução no palco

19. A noite da revolução

20. Enquanto Ka dormia e quando acordou na manhã seguinte

21. Ka nas frias salas do terror

22. As carreiras militar e teatral de Sunay

23. No QG, em companhia de Sunay

24. O floco de neve hexagonal

25. Ka com Kadife no quarto do hotel

26. Manifesto de Azul para o Ocidente

27. Ka incita Turgut bei a assinar o manifesto

28. Ka com İpek no quarto do hotel

29. Em Frankfurt

30. Uma felicidade efêmera

31. A reunião secreta no Hotel Ásia

32. Sobre o amor, a insignificância e o desaparecimento de Azul

33. O medo de ser morto a tiros

34. O mediador

35. Ka com Azul em sua cela

36. Barganha em que a vida rivaliza com o teatro, e a arte, com a retórica

37. Preparativos para a peça que deve pôr fim a todas as peças

38. Uma visita

39. Ka e İpek encontram-se no hotel

40. Capítulo que ficou pela metade

41. O caderno verde perdido

42. Do ponto de vista de İpek

43. O último ato

44. Quatro anos depois, em Kars

Glossário

1. O silêncio da neve

A viagem para Kars

O silêncio da neve, pensou o homem que estava sentado logo atrás do motorista do ônibus. Se aquilo fosse o começo de um poema, poderia cha­mar o que sentia em seu íntimo de o silêncio da neve.

Pegara o ônibus de Erzurum para Kars, com apenas alguns segundos de folga. Mal chegara à estação rodoviária num ônibus vindo de Istambul — depois de dois dias de viagem, sob tempestade e neve — e começara a an­dar para cima e para baixo nos corredores úmidos e sujos arrastando a mala e procurando a sua conexão, quando alguém lhe disse que o ônibus para Kars partiria imediatamente.

Ele conseguiu encontrar o ônibus, um velho Magirus, mas o motorista acabara de fechar o bagageiro e, como estava “com pressa”, recusou-se a abri-lo novamente. Assim, nosso viajante foi obrigado a entrar no ônibus com a bagagem. A grande mala vermelho-escura Bally estava agora enfiada entre suas pernas. Ele estava sentado perto da janela e trajava um grosso casaco cor de carvão que comprara na Kaufhof, em Frankfurt, cinco anos antes. É bom deixar claro, desde já, que aquele casaco macio e delicado seria motivo de vergonha e inquietação para ele nos dias que passaria em Kars, ao mesmo tempo que lhe proporcionaria uma sensação de segurança.

Assim que o ônibus partiu, nosso viajante grudou os olhos na janela; es­perando talvez ver alguma coisa nova, esquadrinhava as lojinhas, as padarias ordinárias e os cafés arruinados que se alinhavam nas ruas dos subúrbios de Erzurum. E, enquanto isso, começou a nevar. Era uma neve mais densa e pesada que a que vira cair entre Istambul e Erzurum. Se não estivesse tão cansado e tivesse prestado atenção aos flocos de neve que revoluteavam no céu como plumas, teria percebido que avançava diretamente para uma nevasca; teria visto desde o começo que estava embarcando numa viagem que iria mudar sua vida para sempre e teria voltado atrás.

Mas esse pensamento nem sequer lhe passou pela cabeça. Quando caiu a noite, ele se abandonou à luz que tardava no alto do céu; nos flocos de ne­ve que redemoinhavam ao vento ainda com mais fúria, ele não via o anún­cio de uma nevasca iminente mas antes uma promessa, um sinal indicando o caminho de volta à felicidade e à pureza que conhecera em criança. Nosso viajante passara os anos de felicidade e infância em Istambul; voltara uma se­mana antes, pela primeira vez em doze anos, para os funerais de sua mãe e, tendo lá permanecido durante quatro dias, resolvera fazer essa viagem a Kars. Anos mais tarde ele ainda haveria de rememorar a extraordinária beleza da neve naquela noite; a felicidade que ela lhe proporcionou fora, de longe, muito maior que qualquer outra que experimentara em Istambul. Era um poeta e, como ele próprio escrevera — num de seus primeiros poemas, ainda desconhecido dos turcos —, neva apenas uma vez em nossos sonhos.

Enquanto olhava a neve cair do lado de fora da janela, lenta e silencio­samente como num sonho, o viajante mergulhou num devaneio havia muito esperado e desejado; purificado pelas lembranças inocentes da infância, ele se rendeu ao otimismo e ousou acreditar estar à vontade neste mundo. Logo depois ele sentiu mais uma coisa que não sentia fazia muito tempo e ador­meceu em seu banco.

Vamos aproveitar essa calmaria para sussurrar alguns dados biográficos. Embora tivesse passado os últimos doze anos em exílio político na Alema­nha, nosso viajante nunca se envolvera muito com política. Sua verdadeira paixão, seu único pensamento, era a poesia. Tinha quarenta e dois anos, era solteiro, nunca tinha se casado. Ele era alto para um turco, embora não fosse fácil perceber isso vendo-o encolhido em seu banco; tinha cabelos castanhos e um rosto pálido, que ficara ainda mais pálido durante a viagem. Era tími­do e gostava de ficar sozinho. Se pudesse imaginar o que iria acontecer tão logo adormecesse — com o balanço do ônibus sua cabeça iria descair primeiro sobre o ombro do homem ao seu lado, depois em seu peito —, ele se sentiria muito envergonhado. Pois o viajante que estamos vendo recostado no passageiro ao seu lado é um homem honesto e bem-intencionado, cheio de melancolia, como aqueles personagens de Tchekhov tão cheios de virtu­des, que não conseguem nada na vida. Teremos muito a dizer sobre melan­colia mais adiante. Mas como, ao que parece, ele não vai ficar dormindo por muito mais tempo nessa posição incômoda, por agora basta dizer que o no­me do viajante é Kerim Alakuşoğlu, que ele não gosta desse nome e prefere ser chamado de Ka (suas iniciais) e que assim eu farei neste livro. Ainda nos tempos de escola, nosso herói insistia em se assinar como Ka em suas tare­fas e provas; ele assinou Ka nos formulários de inscrição da universidade e aproveitava todas as oportunidades para defender seu direito de continuar a fazê-lo, ainda que isso implicasse conflito com professores e funcionários pú­blicos. Sua mãe, sua família e seus amigos o chamavam de Ka e, tendo tam­bém publicado uma coletânea de poesias sob esse nome, gozava de uma pe­quena fama enigmática como Ka, tanto na Turquia como nos círculos turcos da Alemanha.

Isso é tudo o que posso adiantar por enquanto. Como o motorista do ônibus desejou aos passageiros uma boa viagem quando partimos da estação rodoviária de Erzurum, permitam-me acrescentar apenas estas palavras: “Que sua estrada esteja aberta, meu caro Ka”. Mas não quero enganá-los. Sou um velho amigo de Ka e começo esta história sabendo tudo o que vai acontecer com ele em Kars.

Depois de deixar Horasan, o ônibus rumou para o norte, indo direta­mente para Kars. Enquanto subia pela pista tortuosa, o motorista teve de pi­sar com força no freio para evitar chocar-se contra um cavalo que surgira do nada, puxando uma carroça, numa das curvas fechadas, e Ka acordou. O medo já havia criado um forte sentimento de solidariedade entre os passagei­ros, e não demorou muito para Ka sentir-se um deles. Embora estivesse sentado logo atrás do motorista, Ka logo estava agindo exatamente como os pas­sageiros atrás dele: toda vez que o ônibus diminuía a velocidade para fazer uma curva ou evitar cair num precipício, ele se levantava para ver melhor; quando o passageiro diligente que se dispusera a ajudar o motorista limpan­do a condensação do pára-brisa deixava de limpar uma área do vidro, Ka a apontava com o indicador (colaboração que passava despercebida), e quando a nevasca ficou tão forte que os limpadores já não conseguiam impedir que a neve se acumulasse sobre o pára-brisa, Ka juntou-se ao motorista para ten­tar adivinhar o caminho.

Era impossível ler as placas rodoviárias, que estavam cobertas de neve. Quando a tempestade de neve começou a mostrar sua fúria, o motorista des­ligou o farol alto e diminuiu as luzes dentro do ônibus, na esperança de fazer a estrada surgir da penumbra. Os passageiros caíram num silêncio apreensi­vo, olhos fitos na cena lá fora: a neve cobrindo as ruas das aldeias pobres, as casas periclitantes de um só pavimento, parcamente iluminadas, as estradas para aldeias mais distantes, já fechadas, e as ravinas que mal se podiam ver para além das luzes dos postes. Quando falavam, era num murmúrio.

Assim, foi quase cochichando que o passageiro ao lado de Ka, o homem em cujo ombro Ka adormecera pouco antes, perguntou-lhe por que estava indo para Kars. Era fácil perceber que Ka não era do lugar.

“Sou jornalista”, respondeu Ka baixinho. O que era mentira. “Estou interessado nas eleições municipais — e também nas jovens que se suicida­ram.” Isso era verdade.

“Quando o prefeito de Kars foi assassinado, todos os jornais de Istambul deram a notícia”, respondeu o vizinho de Ka. “E tem sido a mesma coisa com as mulheres que estão se matando.” Ka não saberia dizer se o tom de voz do homem deixava transparecer orgulho ou vergonha. Três dias depois, parado na neve que cobria a avenida Halitpaşa, com lágrimas nos olhos, Ka veria no­vamente aquele aldeão delgado.

Durante a conversa sem rumo certo que se seguiu pelo resto da viagem de ônibus, Ka ficou sabendo que o homem acabara de levar a mãe para Erzurum porque o hospital de Kars não era muito bom, que revendia animais de granja nas aldeias próximas de Kars, que enfrentara muitas dificuldades mas não se tornara um rebelde, e que — por motivos misteriosos que não re­velou a Ka — lamentava não a própria sorte mas a de seu país e estava feliz em ver que um homem culto, um cavalheiro como Ka se dera ao trabalho de viajar de Istambul para se inteirar dos problemas da cidade. Havia uma tal nobreza na simplicidade de sua fala e no orgulho que exibia, que Ka sen­tiu respeito por ele.

A própria presença dele inspirava calma. Nem uma vez nos doze anos de Alemanha, Ka sentira tanta paz interior; fazia muito tempo que tivera o prazer fugaz de experimentar empatia com alguém mais fraco que ele. Ele se lembrou de ter tentado ver o mundo pelos olhos de um homem capaz de sentir amor, simpatia e ternura. Ao fazer a mesma coisa naquele momento, já não sentia tanto medo da nevasca incessante. Sabia que não estavam des­tinados a cair num abismo. O ônibus iria se atrasar, mas chegaria ao destino.

Quando, às dez horas da noite, três horas depois do previsto, o ônibus começou a avançar lentamente pelas ruas cobertas de neve de Kars, Ka não reconheceu a cidade de modo algum. Ele nem ao menos viu a estação fer­roviária, aonde ele chegara vinte anos antes numa maria-fumaça, nem tam­pouco qualquer sinal do hotel para o qual o motorista o levara naquele dia (depois de percorrer toda a cidade): o Hotel República, “um telefone em cada quarto”. Era como se tudo tivesse sido apagado, estivesse perdido sob a neve. Ele teve um vislumbre dos velhos tempos nas charretes ali e acolá, es­perando em garagens, mas a cidade parecia muito mais pobre e mais triste que aquela de que ele se lembrava. Pelas janelas geladas do ônibus, Ka viu os mesmos prédios de apartamentos de concreto que tinham se multiplica­do por toda a Turquia nos últimos dez anos, os mesmos painéis de Plexiglas; viu também faixas com slogans da campanha eleitoral penduradas em todas as ruas.

Ele desceu do ônibus. Quando seu pé afundou no macio tapete de neve, uma lufada de ar frio cortante entrou-lhe pelas pernas da calça. Ele reservara um quarto no Hotel Palácio de Neve. Quando procurou o motorista para lhe perguntar onde ficava o hotel, viu duas ou três fisionomias que lhe pareceram familiares entre os passageiros que esperavam a bagagem, mas, com a neve caindo tão densa e rapidamente, ele não conseguiu descobrir quem eram.

Ka os viu novamente no Café Campos Verdejantes, para onde foi depois de deixar a bagagem no hotel: um homem cansado e preocupado, mas ainda bonito e atraente, com uma mulher gorda porém vivaz que parecia ser sua companheira de toda a vida. Ka os vira representar em Istambul na década de 70, quando eles eram os expoentes do teatro revolucionário. O nome do homem era Sunay Zaim. Enquanto contemplava o casal, deixou a cabeça di­vagar e finalmente chegou à conclusão de que a mulher lhe lembrava uma colega do primário. Havia outros homens na mesa deles, todos com aquela palidez mortal que revela uma vida passada no palco; o que uma pequena companhia de teatro estaria fazendo naquela cidade esquecida, ele se per­guntou, numa nevoenta noite de fevereiro? Antes de sair do restaurante, que vinte anos antes estivera cheio de funcionários públicos de alto escalão, em paletó e gravata, Ka pensou ter visto um dos heróis da esquerda militante sentado a outra mesa. Mas era como se um manto de neve tivesse recoberto suas lembranças daquele homem, do mesmo modo como fizera com o res­taurante e com a própria cidade combalida e ofegante.

As ruas estavam vazias por causa da neve, ou aquelas calçadas geladas vi­viam sempre desertas? Enquanto andava, ia observando atentamente os anún­cios que se viam nas paredes — cartazes da campanha eleitoral, anúncios de escolas e restaurantes e os novos cartazes com que as autoridades municipais esperavam conter a onda de suicídios: OS SERES HUMANOS SÃO OBRAS-PRIMAS DE DEUS, E O SUICÍDIO É UMA BLASFÊMIA. Pelas vidraças cobertas de gelo de uma casa de chá meio vazia, Ka avistou um grupo de homens amontoados ao redor de um aparelho de tevê. Ele se alegrou um pouco ao ver ainda de pé aquelas velhas casas de pedra em estilo russo, que tinham feito de Kars um lugar tão especial em sua lembrança.

O Hotel Palácio de Neve era um desses elegantes edifícios em estilo bál­tico. Tinha dois andares, com janelas compridas e estreitas, que davam para um pátio, e uma arcada voltada para a rua. A arcada tinha cento e dez anos e era alta o bastante para dar passagem, com facilidade, a charretes puxadas por cavalos; Ka sentiu um arrepio de excitação ao passar por baixo dela, mas estava cansado demais para se perguntar por quê. Digamos apenas que tinha algo a ver com uma das razões que o levaram a Kars.

Três dias antes, Ka visitara a redação do Republicano em Istambul, para ver um amigo de juventude. E aquele amigo, Taner, lhe falara das eleições municipais que se aproximavam e também do extraordinário número de jo­vens mulheres que — como na cidade de Batman — sucumbira à onda de suicídios. Taner chegou a dizer que se Ka quisesse escrever sobre esse assun­to e ver qual era realmente a situação da Turquia depois de sua ausência de doze anos, devia pensar em ir a Kars; como não havia ninguém disponível para essa tarefa, ele podia lhe conseguir uma credencial de jornalista; e além do mais, disse ele, Ka poderia estar interessado em saber que sua ex-colega de escola İpek residia agora em Kars. Embora separada do marido, Muhtar, ela continuava na cidade e estava morando com o pai e a irmã no Hotel Palá­cio de Neve. Enquanto ouvia as palavras de Taner, que escrevia comentários políticos para o Republicano, Ka se lembrava de quanto İpek era bonita.

Cavit, o recepcionista, estava no saguão do hotel com pé-direito muito alto, assistindo à televisão. Ele entregou a chave a Ka, que subiu ao segundo andar, encaminhando-se para o quarto 203; tendo fechado a porta atrás de si, sentiu-se mais calmo. Depois de cuidadosa análise, concluiu que, apesar dos temores que o assaltaram durante a viagem, nem seu coração nem sua cabe­ça estavam perturbados ante a possibilidade de İpek se encontrar no hotel. Depois de uma vida em que toda experiência amorosa trazia a marca da ver­gonha e do sofrimento, a perspectiva de apaixonar-se deixava Ka tomado de um medo intenso, quase instintivo.

No meio da noite, antes de ir dormir, Ka atravessou o quarto de pijama, abriu as cortinas e observou os flocos grossos e pesados de neve que caíam sem cessar.

2. Nossa cidade é um lugar tranqüilo



Os bairros da periferia

Escondendo, como de costume, a sujeira, a lama e a escuridão, a neve continuaria a falar de pureza a Ka mas, depois do seu primeiro dia em Kars, já não lhe prometia inocência. A neve ali era tediosa, irritante, assustadora. Nevara a noite inteira. Continuou a nevar durante toda a manhã enquanto Ka percorria as ruas bancando o repórter intrépido — entrando nos cafés cheios de curdos desempregados, entrevistando eleitores, tomando notas — e , ainda estava nevando mais tarde, quando ele subiu as ruas íngremes e gela­das para entrevistar o ex-prefeito, o subprefeito e as famílias das moças que tinham se matado. Mas aquilo não o levava mais de volta às ruas cobertas de neve da sua infância; não o fazia mais pensar — como quando era criança ao olhar pelas janelas das sólidas casas de Nişantaş — que estava contem­plando a paisagem de um conto de fadas; ele não tinha mais voltado a um lugar onde podia desfrutar a vida de classe média de que sentia tanta falta que chegava a visitá-la em sonhos. Em vez disso, a neve lhe falava de deses­pero e de aflição.

Naquela manhã bem cedo, antes que a cidade acordasse, e antes de se deixar vencer pela neve, ele fez uma rápida caminhada, passando pela fave­la logo abaixo do Atatürk Boulevard, e tomou o rumo da região mais pobre de Kars, um bairro chamado Kalealti. As cenas que ele contemplou enquanto andava a passos rápidos sob os galhos cobertos de gelo dos plátanos silves­tres e dos oleandros — os velhos edifícios russos decadentes, com chaminés apontando de cada janela, a centenária igreja armênia sobranceando os de­pósitos de madeira e os geradores de eletricidade, o bando de cães latindo pa­ra cada transeunte de uma ponte de pedra de quinhentos anos enquanto a neve caía nas águas semicongeladas do rio que corria lá embaixo, as finas fi­tas de fumaça elevando-se dos minúsculos barracos de Kalealti que queda­vam sem vida sob o manto de neve — fizeram-no sentir uma tal melancolia que lhe vieram lágrimas aos olhos. Havia duas crianças na margem oposta, uma menina e um menino que tinham saído cedinho para comprar pão e lá se iam, ora balançando os pães quentes para a frente e para trás, ora apertando-os contra o peito, parecendo tão felizes que Ka não pôde deixar de sorrir. Não era a pobreza ou o desamparo que o perturbavam, mas o que ele have­ria de ver inúmeras vezes durante os dias seguintes — as vitrines vazias das lojas de artigos fotográficos, as vidraças cobertas de gelo das casas de chá apinhadas de gente onde os desempregados da cidade passavam o tempo jogan­do cartas, e as praças vazias cobertas de neve. Aquelas visões lhe falavam de uma estranha e densa solidão. Era como se ele estivesse num lugar de que o mundo inteiro se esquecera, era como se nevasse no fim do mundo.

A boa sorte acompanhou Ka durante toda a manhã, e quando, ao per­guntar, as pessoas ficavam sabendo quem ele era, todas queriam apertar-lhe a mão; elas o tratavam como a um famoso jornalista de Istambul — do subpre­feito ao homem mais humilde, todos abriam suas portas e conversavam com ele. Foi apresentado à cidade por Serdar bei, o editor da Gazeta da Cidade Fronteiriça (tiragem de trezentos e vinte exemplares), que por vezes mandava notícias locais para o Republicano de Istambul (que em geral não eram publi­cadas). Tinham recomendado a Ka que fizesse uma visita ao “nosso corres­pondente local” antes de mais nada, logo que deixasse o hotel pela manhã. Assim que encontrou o velho jornalista escondido em seu escritório, perce­beu que o homem sabia tudo o que havia para se saber em Kars. Foi Serdar bei quem primeiro lhe fez a pergunta que ele ouviria centenas de vezes durante sua estada de três dias.

“Bem-vindo à nossa cidade fronteiriça. Mas o que o senhor veio fazer aqui?”

Ka explicou que viera cobrir as eleições municipais e talvez escrever so­bre o suicídio das jovens.

“Da mesma forma como aconteceu em Batman, essas histórias de sui­cídio foram exageradas”, respondeu o jornalista. “Vamos, vou apresentá-lo a Kasim bei, o subchefe de polícia. Por via das dúvidas, eles devem saber que você chegou.”

Que todos os recém-chegados, mesmo os jornalistas, devessem visitar a polícia, era um costume provinciano que remontava à década de 40. Como era um exilado político recém-chegado ao país depois de muitos anos de au­sência e porque — embora ninguém tivesse tocado no assunto — sentira a presença dos guerrilheiros separatistas curdos (pkk) na cidade, Ka não fez ob­jeção.

Eles saíram para a nevasca, atravessando um mercado de frutas e pas­sando pelas lojas de autopeças e ferragens da avenida Kâzim Karabekir, pelas casas de chá onde homens desempregados, deprimidos, olhavam a televisão e a neve caindo, e por lojas de laticínios que exibiam grandes queijos ama­relos redondos; levaram quinze minutos para cruzar a cidade em diagonal.

No caminho, Serdar bei parou para mostrar a Ka o lugar onde o ex-pre­feito fora assassinado. Conforme um boato, ele fora morto por causa de uma simples disputa municipal: a demolição de uma sacada ilegal. Pegaram o agressor três dias depois, na aldeia para onde tinha fugido; quando o encon­traram escondido num celeiro, ele ainda estava com a arma. Mas houvera tanta fofoca durante os três dias de sua captura que ninguém queria acredi­tar que ele era o verdadeiro culpado: a simplicidade de sua motivação desa­pontava.

O quartel da polícia de Kars ocupava um comprido edifício de três an­dares na avenida Faikbey, onde as velhas construções de pedra, outrora per­tencentes a russos e armênios abastados, agora, em sua maioria, sediavam ór­gãos do governo. Enquanto esperavam pelo subchefe de polícia, Serdar bei chamou a atenção para os altos tetos ornamentados e explicou que entre 1877 e 1918, durante a ocupação russa da cidade, aquela mansão com qua­renta quartos fora a princípio a residência de um rico armênio, e depois, um hospital russo.

Kasim bei, o subchefe de polícia, veio com sua barriga de cerveja rece­bê-los no corredor e os conduziu à sua sala. Ka logo percebeu que estavam diante de um homem que não lia jornais nacionais como o Republicano, pois os considerava de esquerda. Notou também que ele não ficou especialmente impressionado ao ver Serdar bei elogiar alguém simplesmente por ser poeta, mas que o temia e respeitava pelo fato de ser proprietário do principal jornal local. Depois que Serdar bei terminou de falar, o subchefe de polícia voltou-se para Ka.

“Você quer proteção?”

“Como?”


“Estou sugerindo apenas um policial à paisana. Para que você fique tranqüilo.”

“Será que preciso mesmo disso?”, perguntou Ka no tom inquieto de um homem cujo médico tivesse acabado de recomendar que passasse a usar uma bengala.

“Nossa cidade é um lugar tranqüilo. Pegamos todos os terroristas que es­tavam semeando a discórdia entre nós. Mas ainda assim eu recomendo que se faça isso, por via das dúvidas.”

“Se Kars é um lugar tranqüilo, eu não preciso de proteção”, disse Ka. No íntimo ele esperava que o subchefe de polícia lhe garantisse novamente que Kars era um lugar tranqüilo, mas Kasim bei não repetiu a afirmação.

Eles rumaram em direção norte, para Kalealti e Bayrampaşa, os bairros mais pobres. Ali os barracos eram feitos de pedra, tijolos e alumínio corrugado dos lados. Sob a neve que continuava a cair, foram andando de casa em ca­sa: Serdar bei batia numa porta e, se uma mulher atendia, ele perguntava se podia falar com o homem da casa; quando Serdar bei o reconhecia, falava-lhe, num tom que inspirava confiança, que seu amigo, jornalista famoso, via­jara de Istambul a Kars para escrever sobre as eleições e também para desco­brir algo mais sobre a cidade — para escrever, por exemplo, sobre o porquê de tantas mulheres estarem se suicidando —, e se aqueles cidadãos pudes­sem dividir com ele suas preocupações, estariam fazendo uma boa coisa para Kars. Uns poucos se mostraram muito amistosos, talvez porque pensassem que Ka e Serdar bei eram candidatos e estavam lhes trazendo latas de óleo de girassol, caixas de sabão ou pacotes de biscoitos e de macarrão. Se eles re­solviam convidar os dois homens para entrar por curiosidade ou simples hos­pitalidade, a primeira coisa que diziam a Ka era que não tivesse medo dos cães. Alguns abriam suas portas temerosos, imaginando, depois de tantos anos de intimidação por parte da polícia, que se tratava de mais uma batida, e mesmo depois de perceberem que aqueles homens não eram do governo, mantinham-se em silêncio. Quanto às famílias das jovens que se tinham sui­cidado (em pouco tempo, Ka ouvira falar de seis casos), todas insistiam que suas filhas não tinham dado previamente nenhum motivo para preocupa­ção, deixando-os a todos horrorizados e consternados com o acontecido.

Eles se sentavam em velhos sofás e cadeiras tortas nas minúsculas salas geladas com pisos de terra cobertos por carpetes feitos à máquina, e toda vez que passavam de uma casa a outra, o número de moradias parecia ter se mul­tiplicado. Toda vez que eles saíam de uma casa, tinham de abrir caminho por entre crianças que chutavam de um lado para outro carros de plástico que­brados, bonecas de um braço só, ou garrafas e caixas de chá e remédio vazias. Quando se sentavam junto de fogareiros que só aqueciam se continuamente atiçados, de aquecedores que funcionavam à base de ligações elétricas clan­destinas e de aparelhos de televisão silenciosos que ninguém nunca desliga­va, ouviam as aflições intermináveis de Kars.

Eles ouviam mães em lágrimas porque seus filhos estavam desemprega­dos ou na cadeia, atendentes de casas de banho que trabalhavam em turnos de doze horas no hamam,* sem ganhar o bastante para sustentar uma família de oito pessoas, e homens desempregados que já não sabiam se podiam dar-se ao luxo de ir à casa de chá por causa do alto preço de uma xícara de chá.




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   39


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal