Uma proposta de Modelo para Ensino baseado em Casos



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Uma proposta de Modelo para Ensino baseado em Casos 

Miriam Struchiner

Flávia Rezende 

It is said that there's nothing so practical as a good theory. It may also be said that there's nothing so theoretically interesting as a good practice. (Gaffney and Anderson, 1991) 

Apresentação

      O objetivo deste trabalho é introduzir um modelo conceitual que auxilie a estruturação de "casos" ou "situações problema" para serem utilizados na construção de ambientes informatizados de aprendizagem a distância, orientados por uma abordagem construtivista da educação. "Casos" são situações contextualizadas onde, o aluno é estimulado a desenvolver uma compreensão da situação, buscando informações, formulando o problema e as hipóteses para solucioná-lo, verificando suas ações, opções e/ou decisões, e refletindo sobre os resultados produzidos.

      Inicialmente, será apresentado um breve histórico da utilização desta metodologia no processo de ensino-aprendizagem, sua fundamentação teórico-conceitual e algumas aplicações. Posteriormente, será desenvolvida a proposta de modelagem de "casos" e a descrição de seus principais elementos.

Conceituação e Histórico: Case-based Learning e Problem-based Learning

      Ao longo de sua história, o ensino médico tem sido pioneiro na adoção de novas metodologias e tecnologias educacionais, motivado por intensas discussões sobre a filosofia, estrutura, conteúdo e processo de formação profissional. Para superar a tradicional transmissão de grande quantidade de informações, que transforma os alunos em agentes passivos deste processo, procuram-se meios para responder às necessidades de desenvolverem suas habilidades para a resolução de problemas, partindo da visão integral do indivíduo, através de coleta de informações, análise da situação/contexto, geração de hipóteses e investigação sobre teorias, até atingir o diagnóstico e a tomada de decisões sobre as formas de intervenção.

    Como um modelo geral, o ensino baseado em problemas foi desenvolvido para a educação médica nos anos 50, com o objetivo de substituir a aula expositiva tradicional de anatomia, fisiologia, farmacologia etc., totalmente desintegradas e descontextualizadas dos problemas do mundo real (Savery e Duffy, 1996).

      "Aprendizagem baseada em casos" e "aprendizagem baseada em problemas" são metodologias que, embora apresentem diferenças significativas, estão enraizadas nos mesmos princípios fundamentais: formação de um aluno autônomo, capaz de relacionar teoria e prática, de buscar informações e utilizá-las no processo de tomada de decisão nas mais diversas áreas do conhecimento.

      A principal diferença entre problem based e case based learning é que o primeiro é um modelo integral aplicado ao currículo completo de um curso. Isto é, no início do programa, os alunos são apresentados a um problema cuja análise será o eixo central do desenvolvimento curricular do curso e onde diversas disciplinas serão abordadas integradamente ao longo do processo de análise e solução do problema. Por exemplo, alunos de primeiro ano, primeiro semestre do curso médico, são apresentados a um problema (caso de um paciente) com o objetivo de diagnosticar e, muitas vezes, também chegar a prescrever o tratamento; a partir de algumas informações iniciais, geram hipóteses e passam a buscar elementos nos diferentes campos que possam confirmar ou negar as hipótese geradas.

      Já o uso do ensino baseado em casos pode ser apenas umas das estratégias utilizadas para a aprendizagem, convivendo com outros modelos de implementação curricular mais tradicional. Em ambientes de aprendizagem baseados no uso da informática, os "estudos de caso" ou "casos" são segmentos do sistema que apresentam de forma contextualizada e problematizada algumas situações e conceitos críticos, selecionados de acordo com sua relevância para a área de estudo ou de prática. Sua finalidade é dar aos alunos a oportunidade de perceber e compreender os conceitos aplicados à prática profissional.

      Casos são problemas baseados em situações reais que possibilitam aos alunos vivenciarem as etapas de coleta de informação, de análise e de tomada de decisões para a solução dos problemas pelas quais um profissional passa quando encontra-se diante destas situações em seu cotidiano do trabalho. Podem, também, reconstituir historicamente o processo pelo qual um cientista passou para chegar a uma determinada descoberta que acarretou na construção de novos conceitos e abordagens, implicando em avanços consideráveis para o campo da pesquisa e da prática numa determinada área do conhecimento.

      Alguns casos são mais importantes, para o domínio e para a prática da população alvo, que outros. Os casos devem ser selecionados em função do quanto eles podem ajudar os estudantes a pensar (Schank & Cleary, 1995). Nesse sentido, um caso pode ser considerado pertinente para a aprendizagem porque contém fatos, porque não é usual ou porque representa uma classe de coisas que ocorrem repetidamente.


      A construção do conhecimento a partir de estudos de caso


      Com o enfoque baseado em casos, pretende-se dar ao aluno a possibilidade de uma participação ativa no processo de solução e na reflexão sobre seus aspectos críticos: nas situações de caso interativo, pretende-se que o aluno participe do desenrolar do caso, possa obter feedback e analisar as conseqüências de suas decisões.

      Porém, outros formatos de casos podem ser desenvolvidos, como um modelo de demonstração, por exemplo, acompanhado de questionamentos para que o aluno reflita sobre aspectos críticos do problema. Isto pode ser apresentado de duas maneiras: através de perguntas prévias à apresentação propriamente dita, que levem os alunos a discutirem as possíveis hipóteses e os métodos apropriados e confirmem suas respostas ou dúvidas com a demonstração, ou através de questões posteriores, que poderão levar os alunos a reverem segmentos, para elaborar suas respostas. No segundo modelo,  o desenvolvimento da solução do caso é apresentada e, a posteriori, o aluno é estimulado a refletir sobre a natureza do problema apresentado e as estratégias e soluções apresentadas pelo profissional através de perguntas e respostas.

      O maior valor pedagógico da adoção de um modelo de ensino baseado em casos está em possibilitar ao aluno não apenas o exercício de solução de problemas mas, essencialmente, que este possa desenvolver uma postura que conduza à geração de questões e à coleta informações que o auxiliem para que, ele próprio, se torne capaz de definir e conceituar os problemas e persiga soluções compatíveis diante de cada nova situação.

      Para Schank & Cleary (1995) a aprendizagem baseada em casos é comum no mundo real e o raciocínio envolvido neste processo é a forma predominante com que as pessoas pensam sobre o mundo. Por exemplo, quando se toma uma decisão sobre o que fazer em uma dada situação, em geral estamos nos baseando em registros de experiências anteriores muito semelhantes que nos servem de guias. Uma outra forma de enfrentarmos um problema é discuti-lo com alguém que pode não ser um especialista no assunto mas que pode dar um bom conselho. Esta pessoa pode nos responder com uma estória (ou um caso) de sua vida, e se a estória é bem contada e parece semelhante ao nosso problema, nós tomamos o passo seguinte de adaptá-la para torná-la relevante para nossas vidas.

      Essencialmente, o raciocínio baseado em casos significa resolver novos problemas adaptando velhas soluções, e interpretando novas situações à luz de situações anteriores. Há três processos básicos envolvidos nesse tipo de raciocínio: a recuperação de um caso similar, a adaptação da informação registrada à nova situação levando em consideração as diferenças entre elas e a integração do novo conhecimento.

      Um ambiente de aprendizagem baseado em casos deveria exibir, segundo Riesbeck (1996), algumas características importantes para cobrir os processos envolvidos no raciocínio descrito anteriomente: (I) simular um mundo no qual os estudantes possam ter experiências; (II) fornecer acesso a uma base de casos de experiências do mundo real (não apenas simulações); (III) incluir papéis e tarefas claras para os estudantes; (IV) desafiar os estudantes com problemas complexos; e (V) possibilitar a construção de explanações por parte dos estudantes.   



Características construtivistas de estudo de casos

      Do ponto de vista pedagógico, os casos ou estudo de casos são estratégias de aprendizagem que se caracterizam pelos seguintes aspectos, compatíveis com as finalidades de um ambiente de aprendizagem construtivista de acordo com Cunningham, Duffy e Knuth (1993):

(1) possibilitam que o aluno experimente o processo de construção do conhecimento, assumindo a responsabilidade pela decisão dos tópicos e subtópicos do domínio a serem explorados, isto é, decidindo sobre o nível de abrangência e profundidade que desejam alcançar, além dos métodos de estudo e das estratégias para a solução de problemas - uma vez que o aluno, a partir da descrição da situação problema e do contexto, tem liberdade para buscar informações de diversas fontes, de acordo com suas necessidades para a tomada de decisões;

(2) podem oferecer experiência e múltiplas representações dos fenômenos e problemas estudados, possibilitando que os alunos avaliem soluções e decisões alternativas, já que no mundo real dificilmente existe uma única abordagem ou solução correta para um problema;

(3) podem envolver a aprendizagem em contextos realistas e relevantes, isto é, mais autênticos em relação às tarefas da aprendizagem, possibilitando ao aluno vivenciar a complexidade dos fenômenos/problemas aprendidos na escola de forma mais realista, aumentanto a capacidade de transferência das experiências do processo de aprendizagem para o seu dia a dia, fora do ambiente escolar;

(4) desafiam o aluno, encorajando "apropriação" e "voz" (ownership) no processo de aprendizagem, colocando o professor no papel de um consultor que apenas auxilia os alunos a organizarem seus objetivos e caminhos na aprendizagem, ao invés de conduzi-los neste processo;

(5) encorajam e oferecem a possibilidade de uso de múltiplas formas de representação além dos meios tradicionais, para enriquecer o olhar dos alunos sobre a realidade dos problemas estudados, na medida em que cada meio tem sua especificidade e linguagem e, portanto, oferece um olhar específico e parcial da realidade;

(6) encorajam a auto-conscientização dos alunos sobre o processo de construção de conhecimento, a compreensão de como aprende e toma decisões e a capacidade de explicar porque e como um determinado problema foi resolvido, isto é, possibilitando a formação de uma atitude  "reflexiva"  em relação aos fenômenos e problemas do mundo real (extensão de atividades metacognitivas).     



Modelo de aplicação

      Apresentamos a seguir um modelo geral para servir de base para a construção de casos em sistemas interativos. Não deve ser encarado como uma camisa de força, já que não é o único modelo possível e pode ser adaptado, alterado ou mesmo substituído de acordo com a necessidade do problema em questão. 


 

Descrição contextualizada da situação problema ou questão a ser investigada (1)


Formulação do Problema (2)




Informações




  • Referências

  • Experts

  • Dados

  • Perguntas já esclarecidas

  • Casos semelhantes

  • Orientação

(3)





Visão 1

Visão 2

Visão n...

Verificação

(6)



(4)


FIM

Discussão

(5)



       O caso é introduzido a partir da descrição detalhada do problema/situação (1) e seu contexto. É importante que esta explicação seja rica o suficiente para possibilitar que o aluno, por ele mesmo, possa identificar os elementos críticos da situação, em meio às diferentes informações que a descrição pode oferecer. Por isso, não devem ser apenas colocados os aspectos relativos à solução, mas vários detalhes que exercitem a capacidade de análise e seleção de fatos relevantes pelo aluno. Este poderá, então, partir para a definição e formulação do problema (2), se se sentir capaz (e isso dependerá da experiência de cada um), ou buscar informações que o auxiliem nesta tarefa. Existem vários elementos que podem ser identificados como importantes nesse processo: Informações (3) podem ser referências bibliográficas e acesso a especialistas, a bancos de dados, a bancos de perguntas/dúvidas e suas respostas (FAQ = frequently asked questions) e a casos semelhantes. Poderá, também, buscar orientação individualizada. O aluno poderá analisar o caso sob diversos olhares e/ou especialidades e formas de representação do problema, através das diferentes visões (4) disponibilizadas. As visões podem englobar depoimentos de atores envolvidos no problema, suas hipóteses iniciais e opiniões em diferentes níveis de especificidade. As informações (3) e visões (4) são elementos que devem oferecer informação, suporte e orientação para o aluno, tanto para formular o problema como para analisá-lo e discuti-lo  (5); aliás no processo de aprendizagem baseada em casos, a formulação do problema, a análise e discussão estão intimamente interligados e são críticos para a aprendizagem. A verificação (6) é um elemento de análise (se por um especialista) e de auto-análise do aluno para rever e refletir sobre os seus processos de decisão vivenciados na resolução do caso e chegar a conclusões sobre seu desempenho.  



Proposta de fluxo para a produção de casos em ambientes de aprendizagem baseados no uso de Informática  

  • Levantamento de casos relevantes para a compreensão dos conceitos e elementos críticos do conteúdo;

  • Levantamento do material necessário para cada caso (documentação, imagens etc) e avaliação do material disponível;

  • Seleção dos casos a serem elaborados;

  • Elaboração do texto relativo a cada situação e suas diferentes "visões", seleção/redação das informações relevantes e dos caminhos para solução e, finalmente avaliação;

  • Elaboração de roteiro e acompanhamento da produção.

Referências bibliográficas
SAVERY, John R. e DUFFY, Thomas M. Problem Based Learning: An Instructional Model and its Constructivist Framework. In: Wilson, Brent G. (ed.). Constructivist Learning Environments: Case Studies in Instructional Design. Englewood Cliffs, NJ: Educational Technology Publications, 1996, p.1-8.

SCHANK, Roger C. e  CLEARY, Chip. Case-Based Teaching. Engines For Education. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 1995, p.123-137.



WILSON, Brent G. What is Constructivist Learning Environment? In: Wilson, Brent G. (ed.). Constructivist Learning Environments: Case Studies in Instructional Design. Englewood Cliffs, NJ: Educational Technology Publications, 1996, p.1-8.  


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