Uma Revolução Inacabada



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1917: Uma Revolução Inacabada
Carlos José Rodrigues Silva
As transformações na História estão se dando numa tal velocidade que podemos afirmar que elas acompanham a dinâmica do homem do século XX. Tal processo, porém, nos deixa perplexos, procurando encontrar um novo caminho, uma nova ordem mundial em que a humanidade possa basear-se. Neste aspecto, a história do que se passa no presente ganha importância sem precedentes no tempo, devido à exigência de se entender o nosso momento, a nossa atualidade, e, enfim, compreendermos que ela é fruto da ação humana; e que o homem é o construtor de sua própria história.

Dentro dessa tentativa de compreender a nossa atualidade, é que o presente texto precisa ser entendido. Ele irá buscar na Perestroika, e em 1917, a linha para a compreensão deste final de século; tem por objetivo a vontade de conhecer melhor o mundo em que vivemos, procurando entendê-lo não somente pela observação do passado, mas a partir da visão do presente.

Para o projeto da Perestroika e Glasnost, 1917 foi uma revolução por acabar, tendo em vista que seu ideário original desvirtuou-se nos anos posteriores, levando o país a um regime totalitário e a uma estrutura de poder monolítica, ineficiente, burocrática e corrupta, com a estatização das atividades econômicas e sua futura estagnação na década de 70 e início dos anos 80. Retomar, como queria Gorbatchev, a bandeira de 1917 significava reformar o projeto socialista soviético, dando novo dinamismo à economia; colocando o país na revolução científico-tecnológica por que passava o mundo ocidental e democratizando a sociedade e as demais estruturas de poder, com destaque para o Partido e para o Estado.

Em 1917, doze anos após sobreviver ao terremoto de 1905, a autocracia czarista lançou-se numa guerra de dimensão mundial, na qual, aliada a Inglaterra e a França, a Rússia sofreu reveses de toda ordem, que prepararam o caminho para a revolução.

Em fevereiro de 1917, na cidade de Petrogrado, uma onda de greves sacudiu o país. Ao longo de sete dias o movimento ampliou-se, conquistando a cada momento um maior apoio popular. Os soldados, confraternizando-se com os operários, passaram a expressar a degeneração do aparelho repressivo, precipitando o fim do regime.

De março a outubro, as forças bolcheviques amargaram frustrações, mas o período de dualidade de poder (Soviets X Governo Provisório) terminaria fazendo emergirem os sovietes como poder supremo na Rússia.

A revolução proletária triunfara, mas a classe operária por sua vez desintegrava-se praticamente. A guerra civil devorava aquela parcela mais experiente e consciente do proletariado. Os novos operários, na sua maior parte de origem rural, acabaram por vir a ocupar o lugar do proletariado de 1917, mas dificilmente podiam constituir-se numa base politicamente experiente e consciente, ou num contraponto democrático no processo de constituição de um estado e de um partido cada vez mais monolíticos e burocráticos.

O ideário socialista de 1917, que possibilitou a vitória da revolução, começou na década de 20 a ganhar novo rumo e orientação. Em janeiro de 1924, Lênin morreu; quase cinco anos depois Trotsky foi expulso da União Soviética. A constituição de uma sociedade libertária, bandeira da revolução, foi substituída pela supressão de toda liberdade, com a construção de um estado policial que ocuparia todos os espaços para a vigilância de todos os soviéticos. O Partido se fez presente nas fábricas, nas escolas, universidades, sindicatos, nas forças armadas, em qualquer agrupamento humano, constituindo-se na única opção política e no único meio de ascensão profissional.

“Todo poder aos Soviets” foi substituído por “todo poder ao partido”, que impôs a ditadura à nação. A centralização do poder no período stalinista fez-se com a eliminação de qualquer sinal de discórdia; toda a velha guarda bolchevique que com Lênin comandara o país foi, pouco a pouco, eliminada durante os “processos de Moscou” (expurgos) da década de 30, que mutilaram toda a nação, tornando absoluto o poder de Stálin.

Num mundo hostil, o novo Estado lutou pela defesa da Revolução, fortalecendo as forças policiais e o poder central, cada vez mais opressor e mais distante do ideal de 1917.

Neste contexto, o projeto social da revolução tornou-se um fato inacabado, postergado em prol da defesa do estado soviético !

Em termos mundiais, e considerando o peso soviético no cenário europeu, coexistia um equilíbrio de poder tanto no nível das armas convencionais quanto no dos armamentos nucleares. Os dirigentes do Kremlin acreditavam que alcançada a paridade militar, poderiam através de acordos de controle de armas (como o SALT I) levar o governo de Washington a restringir seus gastos militares, o que possibilitaria aos soviéticos manter seu poderio e ao mesmo tempo cuidar do desenvolvimento dos outros setores da economia, que acumulavam problemas desde os momentos iniciais da revolução, indicando que, em algum momento, o equilíbrio interno poderia ser rompido, sendo urgente dar-lhes solução.

No final dos anos 70, dois fatores golpearam as esperanças de diminuir os investimentos no setor militar. Em dezembro de 1979 os senhores do Kremlin autorizaram a invasão do Afeganistão, para colocar no poder uma das facções do partido comunista afegão (PDPA) – o Parcham. Em 1980, Ronald Reagan, eleito presidente dos EUA, deu início a uma política externa agressiva, enfatizando a restauração do poderio militar dos Estados Unidos, e a modernização do equipamento nuclear, de modo a encurralar a URSS: era o anúncio do que, posteriormente, se concretizaria no projeto de Iniciativa de Defesa Estratégica (IDE), mais popularizado como “Guerra nas Estrelas”. Representando uma renovação estratégica, o projeto acabava com a idéia do “Equilíbrio pelo terror”, já que a iniciativa passava àquele que tivesse maior capacidade defensiva. Apesar de dominar a tecnologia espacial tão bem como os norte-americanos, faltava aos soviéticos os recursos financeiros para acompanhar o jogo. A projeção de custos do projeto era algo em torno de 1 trilhão de dólares, algo inimaginável para a economia soviética. Um escudo espacial para um território tão vasto como o da União Soviética representaria um custo ainda maior, que significaria o desequilíbrio da sociedade e a manutenção de uma estrutura econômica altamente comprometedora para o futuro da revolução.

Num quadro de estagnação e dificuldades, o líder soviético Gorbatchev lançou a Perestroika. Esta palavra, para ele, tinha vários significados, mas o que melhor a expressava era: Revolução. Para o novo dirigente do Kremlin, o atraso econômico e científico, em que estava a União Soviética não podia mais ser tolerado: como manter no espaço uma estação orbital; ter a maior produção de energia e petróleo do mundo e viver um cotidiano de escassez, marcado por enormes filas.

A Perestroika era um projeto ambicioso. Sua justificativa histórica era a retomada do ideal revolucionário de 1917, a partir da observação de que, na história, as revoluções do século XIX haviam sido complementadas com revoluções subseqüentes. Retomar 1917, naquele momento, significava desmontar um Estado-Partido excessivamente burocratizado, gigante e ineficiente. Neste sentido, o mais perigoso era separar o governo do partido, o que significava mexer em inúmeros privilégios cristalizados; descentralizar a economia e afrouxar os laços de coação sobre as repúblicas da União.

Exaustivamente pregada por Gorbatchev pelos quatro cantos do país, a Perestroika tinha uma necessidade prioritária: conquistar o apoio popular. Era fundamental fazer com que a sociedade participasse do projeto para que as transformações necessárias fossem adiante. Descentralizar a economia, dando maior poder e autonomia às fábricas, era uma política que deveria ter a participação dos trabalhadores. Para tanto, o dirigente do Kremlin incentivava a formação de cooperativas de trabalhadores. Quebra a apatia da sociedade era, entretanto, um objetivo de encaminhamento difícil. Para uma parcela significativa da população a Perestroika expressava mais uma propaganda de Moscou, depois das experiências fracassadas de Kruschev e de Kossiguin. A sociedade mergulhada no imobilismo e na alienação, em virtude da ditadura burocrática, preferia esperar para ver realmente o que significava o discurso e prática do novo “senhor” do Kremlin.

Vencer o imobilismo era tarefa árdua, mas necessária, ainda que nos momentos iniciais isto parecesse impraticável, Esta, porém, não era a única dificuldade. O partido, afetado pela burocratização, corroído pela difusão da corrupção, era um obstáculo ainda maior. Era necessário que este também fosse mobilizado para que se tornasse o ponto de partida em direção à mudança social. No período de Stálin e no de Brejnev, o partido acabou por abarcar negociantes da economia obscura, juntamente com a elite comercial do governo, o que resultou na formação de um mecanismo poderoso e sólido que obtinha rendas elevadas e não provenientes do trabalho, às custas do braço da massa trabalhadora. O efeito social desse fenômeno foi a alienação em massa das pessoas em relação aos objetivos e valores sociais, além de profundo rancor e desconfiança para com o partido, que era visto como o grande culpado pela decadência social e econômica do país. Atacar o descrédito que pesava sobre o partido, modificando, ao mesmo tempo, sua estrutura, era básico para que qualquer mudança fosse possível.

Para Gorbatchev era evidente que para enfrentar a “Nomenklatura” era necessário vincular o processo de reformas (ou seja, a Perestroika) à democratização da vida política do país, observando as tentativas fracassadas do passado, para não cair no mesmo erro. Democratizar as relações sociais e as instâncias do poder era o caminho, segundo ele, para desobstruir os canais de críticas, o que iria acordas as rivalidades reprimidas de operários e intelectuais, revitalizando o interesse pelos assuntos políticos e comunitários. Neutralizando e anulando os setores de conservadores, poderia ser reanimada a ala ética e jovem do partido comunista. Desenvolvendo e fortalecendo a nascente democracia soviética na sociedade, os setores privilegiados no governo e no partido poderiam ser bloqueados e a inércia das massas, rompida, surgindo uma nova União Soviética. A Perestroika, desta forma, só poderia ser consumada através da democracia.

A política da Glasnost, entretanto, aliviada a pressão, desencadeou resultados inesperados, permitindo que as tensões sociais e nacionais viessem a público com revoltas e confrontos “pipocando” em vários pontos da União. A questão da nacionalidade ressurgiu, com uma força inesperada, mostrando a fragilidade da cooperação tão decantada pelo próprio Gorbatchev:

« Se a questão da nacionalidade não tivesse sido resolvida desde os primórdios da República Soviética, a URSS nunca teria o potencial econômico, cultural e de defesa que possui agora. Nosso Estado não teria sobrevivido se as repúblicas não tivessem formado uma comunidade baseada na fraternidade e cooperação, respeito e assistência. »i

O problema original da Perestroika não contemplava realmente o problema das nacionalidades, admitindo a premissa implícita de que esse problema inexistia. Mais uma as autoridades de Moscou, fantasiavam a realidade da União, mantida pela coação.

Para Gorbatchev, mudar a relação com a comunidade internacional era importante para os soviéticos, pois seria a oportunidade de cessar a corrida armamentista e, dessa maneira permitir à economia soviética recuperar fôlego, destinando recursos maiores à produção de bens de consumo e aos gastos sociais. A onerosa estrutura militar soviética que, no campo internacional, assumiu compromissos de fornecimento de armas a países aliados como Vietnã e várias nações do Terceiro Mundo, efetuava-se com financiamento a fundo perdido, já que estes não tinham capacidade de pagamento. No polo oposto, os norte-americanos faziam do fornecimento de armas um grande comércio lucrativo. A lógica da paridade militar do governo Brejnev complicou ainda mais a situação econômica do país, já que a economia soviética representava metade da americana, o que tornava os gastos militares duas vezes mais onerosos. O país pagou um preço altíssimo com a corrida armamentista. Durante o governo de Reagan (1980-1988), os Estados Unidos duplicaram a despesa militar do orçamento nacional e fortaleceram o combate ao comunismo, intensificando o isolamento da União Soviética e ampliando a corrida armamentista para o espaço.

Para o programa de recuperação econômica de Gorbatchev o programa “Guerra nas Estrelas” era inaceitável, além dos sérios problemas militares que ele acarretava. O receio era compreensível, pois se os norte-americanos conseguissem desenvolver um escudo protetor de seu território contra os mísseis balísticos soviéticos, teriam de fato a capacidade do primeiro ataque. Mesmo se o escudo não garantisse proteção absoluta, alteraria de modo substantivo o equilíbrio estratégico. Um sistema de defesa com base no espaço representava pois um princípio tecnológico totalmente novo, e os Estados Unidos, com sua superioridade tecnológica, detinham a liderança neste processo. A União Soviética, para equiparar-se ao polo ocidental, seria obrigada a substituir quase todo o seu armamento estratégico, o que representava o fim de qualquer liberalização econômica ou política.

As dificuldades, porém, eram inúmeras: contestação dos mais radicais, que reclamavam da lentidão das reformas; contestação dos conservadores que pediam desaceleramento; aprofundamento da crise econômica; movimentação nacionalista crescente; inquietação das forças armadas, pouca ou quase nenhum apoio econômico do Ocidente; desmoronamento dos regimes comunistas aliados de Moscou na Europa Oriental; perda de apoio popular. « Atravessar um momento crucial sem verter sangue »ii transformou-se, cada vez mais, numa utopia distante. A Revolução que deveria concluir o processo iniciado em outubro de 1917, como queria Gorbatchev, permaneceu, assim, um projeto por terminar. Como um castelo de cartas, ruiu a União Soviética, e ruíram os sonhos da Revolução.

Em última instância, seu projeto de retomada do ideal revolucionário de 1917, continua inacabado, derrotado pela retomada de processos que pareciam terminados. Resta o futuro, que possibilitará o surgimento de novas reconstruções, já que a História, sem dúvida, continua.


i GORBATCHEV, Mikhail. Perestroika: Novas idéias para meu país e o mundo. São Paulo: Best Seller, 1987, p. 134

ii Jornal do Brasil – 22 de dezembro de 1991, p. 9

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