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Encontro04.08.2016
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Pronunciamento proferido pelo Senhor Deputado Federal Julio Lopes (PPB/RJ), na Sessão Solene em Homenagem ao Dr. Roberto Campos, em 10/04/2003.

(O SENHOR JULIO LOPES (PPB/RJ), PRONUNCIA O SEGUINTE DISCURSO). Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,


Quero iniciar agradecendo o comparecimento de todos os Senhores e principalmente dos alunos de Pós Graduação , mestrado e também de 5ª e 8ª serie e 2ª grau que darão a esta cerimonia um sentido acadêmico e pratico tão importante para o nosso homenageado


A justa homenagem que hoje prestamos à memória de Roberto de Oliveira Campos, às vésperas do 17 de abril, quando completaria 86 anos, vai muito além do formalismo do reconhecimento à sua incansável pregação em defesa dos princípios democráticos e das liberdades econômicas.
Porque obriga-nos a refletir sobre as teses e a resgatar o receituário de racionalidade prescrito por ele, tão atuais e oportunos neste momento, em que a Câmara dos Deputados se mobiliza para debater as reformas fundamentais ao desenvolvimento econômico e social brasileiro.
Os anais desta Casa são pródigos em registros das inteligentes perorações de Roberto Campos, às vezes irônicas, às vezes sarcásticas, porém sempre elegantes, mesmo com uma ponta de malícia, quando contraditado em apartes pouco prudentes.
Uma rápida visita ao seu best seller “A Lanterna na Popa”, lançado em 1994; ao “Século Esquisito”, em 1990; ao “Reflexões do Crepúsculo”, em 1991; ao “Antologia do Bom Senso”, em 1997; e ao “Na Virada do Milênio”, em 1998, seria suficiente para entender o título da matéria da revista “Veja”, quando de sua morte, em 9 de outubro de 2001: “O homem que tinha razão”.

Poucos brasileiros, respeitados mundialmente e aplaudidos nos fóruns internacionais, foram tão condenados, perseguidos e vilipendiados quanto Roberto Campos, quando, no Brasil, pregava com humildade franciscana, aurida nos seminários católicos de Minas Gerais, a necessidade de o País parar de acusar inimigos externos por suas mazelas, para encarar de frente os equívocos cometidos pelo facilitário paternalista e demagógico.


Dele, herdamos o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, hoje com o apêndice de Social, que fomentou o crescimento da indústria brasileira após os anos 50. E, quando ministro do Planejamento e Coordenação Econômica, durante o governo Castelo Branco, a reforma bancária e a Lei de Remessa de Lucros, que regulamentou o mercado de capitais; a Lei das Sociedades Anônimas, o Sistema Financeiro da Habitação, o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, a caderneta de Poupança e o Banco Central do Brasil, originalmente independente, mas castrado em sua autonomia logo depois.
Dele herdamos, também, uma rara demonstração de desapego ao poder, quando se negou a assinar o ato de cassação dos direitos políticos de Juscelino Kubitschek, dizendo ao presidente Castelo Branco que, se indispensável a unanimidade do ministério, ele entregaria, imediatamente, sua carta de demissão para evitar constrangimentos ao governo..
Castelo respondeu-lhe que votasse de acordo com a sua consciência.
Inexiste a assinatura de Roberto Campos no documento que afastou Juscelino da vida pública brasileira.
Como parlamentar, habitou o Senado Federal durante oito anos, representando Mato Grosso, seu estado natal. E, por duas legislaturas seguidas, nesta Casa, o Rio de Janeiro, que adotou para viver ao lado de Dona Maria Stella Tambelini de Oliveira Campos, e dos filhos Roberto Campos Junior, Sandra e Luiz Fernando, cujo testemunho de seu neto Rafael Campos, cuja presença agradeço ,é significativa e gratificante neste momento, para engrandecer esta homenagem.

As verdades ditas e defendidas por Roberto Campos custaram-lhe angústias, decepções e amarguras. Mas não o tiraram do caminho da teimosa coerência, quando renegava a panacéia da igualdade geral, argumentando que “Se Deus fosse socialista, teria feito todos os homens iguais”.


Ainda em vida, assistiu vitoriosa grande parte de seus prognósticos, como a queda do Muro de Berlin e a derrocada da União Soviética, até então o símbolo da prevalência do socialismo sobre o liberismo, como preferia o amigo e colaborador na Embaixada da Inglaterra, José Guilherme Merchior.
Ao se despedir desta Casa, em 29 de janeiro de 1999, Roberto Campos, que foi constituinte e só assinou a Carta Magna após muita insistência de Ulysses Guimarães, por não concordar com ela, fez mais uma de suas proféticas advertências, ao criticar a Constituição de 1998:
Ela é intervencionista no econômico, utópica no social e híbrida no político. Exagerou a carga fiscal, engessou as relações trabalhistas e criou uma briga com o cálculo atuarial.
Verdadeiras, estas assertivas estão moduladas nos sinais emitidos pelo atual Governo, que demonstra interesse em promover a reforma da Previdência, a adequação do sistema fiscal e tributário e a flexibilização das relações trabalhistas. Sem olvidar do controle dos gastos públicos e da estabilidade monetária.
Tudo o que Roberto Campos desejou e defendeu aos extremos, mas não viu transformado em realidade.
Talvez agora ele seja ouvido. Talvez agora seja compreendido. Talvez agora seja entendido por aqueles que não quiseram ou não conseguiam alcançar seus sábios ensinamentos.
Ainda é tempo de evitarmos mais uma década perdida.

E de mudarmos o antigo bordão que dizia ter o Brasil “um enorme futuro no seu passado”, para proclamar: O Brasil tem um grande presente para garantir o seu futuro.


Quero terminar como Roberto Campos o fez aqui nesta casa ao se despedir
Os que ficam nesta casa tem pela frente uma formidável tarefa reformista. Desejo-lhes como na oração do Teólogo Reinhold Niehbuhr, que Deus lhes dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que possam mudar e sabedoria para saber a diferença.

Muito obrigado.



Júlio Lopes


Deputado Federal – PPB/RJ


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