Uma sociedade e sua natureza



Baixar 25.02 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho25.02 Kb.






EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Formação de valores ético-ambientais para o exercício da cidadania
APOSTILA DO CURSO DE CAPACITAÇÃO

Junho/2009


OS ESPAÇOS LIVRES DO MUNICÍPIO DE NOVA IGUAÇU:

UMA SOCIEDADE E SUA NATUREZA

Prof.ª Dra. Rita de Cássia Martins Montezuma
Principais Tópicos:


  • O que é paisagem?

  • Quais são as causas da transformação da paisagem?

  • Onde está?

  • Quais são as conseqüências da transformação da paisagem?

  • O que, como e por que preservar?

A reflexão que aqui consideramos se propõe discutir a Paisagem, tendo como estudo de caso o município de Nova Iguaçu. Entretanto, há que se ressaltar que esta considerará a Paisagem como um produto da relação Sociedade, Cultura e Natureza. Sendo assim, a paisagem aqui concebida remete-nos ao conceito de Augustin Berque, o qual tratando-a como plurimodal que é, define:


“A paisagem e o sujeito são co-integrados em um conjunto unitário que se auto-produz e auto-reproduz. Paisagem-marca expressa uma civilização e paisagem-matriz participa dos esquemas de percepção, da concepção e de ação-cultura” (BERQUE, 1984)1.
Neste sentido, a co-integração natureza e sociedade têm na cultura a mediadora dos processos de transformação da natureza geobiofísica pela sociedade que dela se

apropria, resultando em uma paisagem transformada, vivida, construída, embora os marcos dessa relação nem sempre estejam claramente impressos.


Sachs (2000)2 atribui à cultura 2 sentidos principais: o primeiro como um conjunto de conhecimento que temos do meio em que vivemos. Com isso, o conceito de recurso passa a ser entendido como sendo eminentemente cultural e, portanto, histórico. O segundo conceito é interpretado como o conjunto dos valores, dos usos e das instituições, e isto influi no estilo de vida e determina o padrão da demanda por parte da sociedade nela presente. Segundo o autor esse conceito não é objetivamente dado, posto que é um conhecimento da sociedade sobre o seu meio, estando sujeito aos valores dessa sociedade e, portanto, à sua dinâmica:
“é recurso aquela parcela do meio que eu considero útil. É recurso hoje o que não era recurso ontem. Não é mais recurso hoje o que era recurso ontem. Será recurso amanhã o que não é um recurso hoje.”
Em assim sendo, a concepção de paisagem remete ao que Naveh (2005)3 denomina de Espaço Humano Total, onde natureza e sociedade inter-atuam e se auto-regulam, resultando, portanto, numa relação co-evolutiva. Desta forma, nenhum elemento da paisagem pode ser compreendido como um elemento isolado, posto que é prenhe das múltiplas dimensões que compõem a paisagem: seja nas suas dimensões físicas, químicas, biológicas, sociais, etc.

Dadas as considerações acima expostas, colocam-se as seguintes questões:




  • Como definir a paisagem novaiguaçuana?

  • Quais foram as causas da(s) paisagem(ns) que hoje vemos e interpretamos?

  • Que paisagem desejamos ter?

Para responder tais questões consideramos necessário:

  • conhecer as condições geobiofísicas locais;

  • identificar inicialmente as raízes históricas que resultaram na configuração atual;

  • analisar quais foram os principais vetores de transformação dessa paisagem;

  • investigar como cada grupo social vê, reconhece, interpreta e se relaciona com a paisagem que o cerca;

  • tentar prognosticar qual será a paisagem resultante desse processos que agora vigoram a partir dessa relação com esses grupos sociais e, por fim,

  • estabelecer qual deve ser a paisagem que se deseja ter.

Sem dúvida que a última pergunta é a mais difícil de ser respondida, uma vez que a paisagem de Nova Iguaçu não é absolutamente homogênea, posto que se diferencia tanto no que tange às condições ambientais físicas quanto à forma em que o espaço é construído/concebido pela sociedade que nele reside/utiliza.

Dada a heterogeneidade espacial observada nesta paisagem, por razões logísticas propomos analisá-las em recortes relativamente homogêneos, adotando como critério seletivo seus domínios geomorfológicos, os quais são fundamentais na configuração da natureza física desse espaço.

Começaremos por discutir as caraterísticas geobifísicas a partir do compartimento cristalino, delimitado pela área correspondente ao maciço do Tinguá, ao norte do município e à Serra de Madureira, que juntos comportam grande parte da vegetação


correspondente à Floresta Ombrófila Densa e funcionam como o divisores da drenagem das principais bacias hidrográficas do município. A maior relevância deve-se à Reserva Biológica (REBIO) do Tinguá, com 26 mil hectares no total, sendo 15 mil hectares localizados neste município. A segunda é a APA (Área de Proteção Ambiental) do Gericinó-Mendanha, localizada ao sul, na Serra de Madureira. Além destas existem mais 8 unidades de conservação, sendo 7 APA e 1 Parque Municipal que, juntamente com as demais, perfazem um total de 67% da área total de 52.400 ha do município.

Entretanto, embora o percentual possa ser considerado alto, cabe destacar que o estado de conservação dessas áreas é, em sua maioria, bem precário. Tal situação obriga-nos a avaliar quais são os vetores responsáveis pela transformação desses espaços, que outrora correspondiam às florestas de maior desenvolvimento dentro do domínio do bioma da Mata Atlântica. Para tanto necessitamos fazer uma breve investigação sobre o histórico de ocupação do município iniciando no período colonial até os dias de hoje.

Ao nos remetermos à história, poderemos caracterizar a população e sua condição de existência, buscando integrar a paisagem geobiofísica a sociedade que sobre ela vem deixando suas marcas e por ela, paisagem, é forçada a novas buscas para contornar as condições adversas, ou não, impostas pelo meio físico. Ressalte-se aqui o fato de que grande parte do adensamento urbano está situado no compartimento das terras baixas – planície - e, por isso, em sua maioria alagável.

Isto posto, a análise versará sobre as condições de existência e deverá contemplar a qualidade das moradias, a infra-estrutura das localidades, os recursos que caracterizam a qualidade de vida de cada unidade e em que medida as condições de vida da sociedade são compatíveis com a preservação do ambiente físico que os abrigam e circundam. O esquema da figura abaixo sintetiza a abordagem de que trata o presente texto.



Figura 1: O conflito da sociedade e seus interesses. Como proceder?


Bibliografia Recomendada
DEAN, W. A Ferro e fogo - a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Cia das Letras, 1997.

DIEGUES, A. C. (Org.). Etnoconservação: Novos Rumos para a Proteção da Natureza nos Trópicos. São Paulo. Hucitec. 2000.

FORMAN, R.T.T. GODRON, R. Landscape Ecology. John Wiley & Sons, Inc. New York. 1986.

FORMAN, R.T.T. Land Mosaics. Cambridge University Press, Great Britain1995.

NAVEH, N. What is a landscape ecology? A conceptual introduction. Landscape and Urban Planning. v.50. pp. 7 – 26. 2000.

ODUM, E.P. Ecologia. Ed. Guanabara, Rio de Janeiro. 1988.

PRIMACK, R.B. E RODRIGUES, E. Biologia da Conservação. 2001.

RICKLEFS, R. E. A Economia da Natureza. Rio de Janeiro, Ed. Guanabara/Koogan. 1993.



ROSENDAHL, Z.; CORRÊA, R. L. (ORG). Paisagem, Imaginário e Espaço. Rio de Janeiro. EdUERJ. 2 Edição. 2004.

1 In: ROSENDAHL, Z.; CORRÊA, R. L. (ORG). Paisagem, Imaginário e Espaço. Rio de Janeiro. EdUERJ. 2 Edição. 2004.


2 SACHS, I. Sociedade, cultura e meio ambiente. Mundo & Vida, v.2, n.1. p. 7-13. 2000.

3 NAVEH, N. What is a landscape ecology? A conceptual introduction. Landscape and Urban Planning. v.50. p. 7 – 26. 2000.








©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal