Uma Teoria Psicossexual: o complexo de Édipo em crianças filhas de pais separados. A psychoxual Theory: The Oedipus complex in children of divorced parents. Lara Cristina Queiroz Ferreira



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Uma Teoria Psicossexual: O Complexo de Édipo em crianças filhas de pais separados.

A Psychoxual Theory: The Oedipus complex in children of divorced parents.

Lara Cristina Queiroz Ferreira – lara.cristina2105@hotmail.com

Prof. Mariana Rosa Cavalli Domingues – mrosacavalli@yahoo.com.br



RESUMO

Este estudo se constitui como um exercício de compreensão do complexo de Édipo para a psicanálise, neste sentido, além de traçar o desenvolvimento do conceito na obra de Freud, esta pesquisa abordará o histórico da família contemporânea com o objetivo de evidenciar as possíveis manifestações do fenômeno edipiano. Sigmund Freud delineou toda sua teoria sexual e o complexo de Édipo dentro da família nuclear burguesa. Neste trabalho pretendeu-se confrontar suas afirmações com as características familiares da atualidade. Como metodologia a pesquisa se classifica como qualitativa e foi utilizada a teoria psicanalítica para analisar os dados. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com a criança e o adulto responsável por ela. Também foi feito a aplicação do teste projetivo H.T.P. na criança. Sendo assim, servem para a melhoria do processo de formação profissional, atingindo diretamente a prática de profissionais, que podem melhor orientar pais e crianças que enfrentam esta situação.



Palavras-chave: Complexo de Édipo; Família Contemporânea; Separação e Desenvolvimento infantil.

ABSTRACT

This study represents an exercise of understanding of the Oedipus complex in psychoanalysis, in this sense, also traces the development of the concept in Freud's work, this research will address the history of the contemporary family in order to highlight the possible manifestations of the phenomenon Oedipal. Sigmund Freud outlined his entire sexual theory and the Oedipus complex within the bourgeois nuclear family. This work aimed to confront their claims with the familiar features of today. As the research methodology is classified as qualitative and psychoanalytic theory was used to analyze the data. Interviews were conducted semi-structured interviews with the child and the adult responsible for it. It was also made the application of the projective HTP in children. Thus, they serve to improve the training process, directly affecting the practice of professionals who can better counsel parents and children facing this situation.


Keywords: Oedipus Complex; Contemporary Family; Separation and Child Development.


INTRODUÇÃO

Esta pesquisa abordou questões teóricas e práticas sobre o Complexo de Édipo emergente na composição familiar contemporânea, especialmente em crianças inseridas em famílias com pais separados.



A teoria psicossexual freudiana

Nos escritos sobre as pacientes histéricas de Freud encontramos a primeira aparição do temor “complexo de Édipo” (FREUD, 1939). A partir de seus estudos sobre as histéricas desenvolveu a teoria da sexualidade neurótica e da idéia de que a relação transferencial da paciente era marcada por uma repetição de suas relações arcaicas com a figura paterna. Dessa maneira, o complexo de Édipo tem seus primeiros estudos em função da transferência.

A transferência é ambivalente, ela abrange atitudes positivas (de afeição), bem como atitudes negativas (hostis) para com o analista que, via de regra é colocado no lugar de um ou outro, dos pais do paciente, de seu pai ou de sua mãe. (FREUD, 1939, 202)

Freud acreditava que o desejo sexual era a energia motivacional primária da vida humana, e sua técnica se modifica, pois passa a valorizar a interpretação dos sonhos e a livre associação, como fontes dos conteúdos inconscientes.

Freud em sua prática clínica sobre as causas e o funcionamento das neuroses, no estudo sobre as histéricas, percebeu que a maioria dos pensamentos e desejos reprimidos referia-se a conflitos de ordem sexual tendo referência nos primeiros anos de vida dos indivíduos. Portanto, defende a concepção de que a função sexual existe desde o princípio da vida, logo após o nascimento, e não só a partir da puberdade como afirmavam as idéias dominantes.

No processo de desenvolvimento psicossexual, nos primeiros anos de vida a função sexual do bebê é ligada à sobrevivência, por este motivo se volta ao próprio corpo, sendo este corpo erotizado e passando pelas fases do desenvolvimento sexual; fase oral, fase anal, fase fálica e fase genital quando seu objeto de desejo se volta à outra pessoa. (BOCK, 2008)

Durante o desenvolvimento sexual infantil destaca-se o complexo de Édipo. Freud especifica este processo tanto para os meninos quanto para as meninas, que irá ser importantíssimo para definições de padrões de comportamento e escolha de gênero.

Desta forma o nome de Freud está intimamente ligado à importância decisiva atribuída às experiências infantis, à afirmação do surgimento precoce do prazer, e a noção de que os adultos escolhem seus amores de acordo com os modelos familiares.


Fases do Desenvolvimento Psicossexual Infantil

A primeira teoria a ser estruturada foi a teoria do trauma, a qual foi superada e substituída pela descoberta da sexualidade infantil, associada às funções de alimentação (fase oral) e de excreção (fase anal). Mais tarde, realizou modificações devido à descoberta de outro período, a fase fálica, na qual o fator imperante não é mais biológico, mas a fantasia, sendo o complexo de Édipo “descoberto” ou postulado após quase duas décadas de experiência clínica. Desta forma a sexualidade infantil vivencia as emoções que mais tarde, após a puberdade, serão convenientemente atribuídas a outro, Freud dirá então que existe uma “realidade psíquica” a ser distinguida da “realidade” dos fatos. (GOLDBRUG, 1989)

Freud (1905) distinguiu cinco fases fundamentais para o desenvolvimento psicossexual infantil:


  1. Fase Oral: seu ponto de tensão e gratificação se volta para a boca, língua e lábios, incluindo o morder e a sucção. Nesta fase a criança é egocêntrica e tudo ao seu redor se volta para este ponto de tensão como o ponto de conhecimento dos objetos que se fazem presente ao seu redor.

  2. Fase Anal: o ânus é a maior fonte de interesse, a criança agora esta aprendendo a utilizar-se do vaso sanitário, a controlar voluntariamente seu esfíncter.

  3. Fase fálico-edipiano: foco genital de interesse há a estimulação e excitação do pênis, sendo este o órgão de interesse de ambos os sexos, a masturbação se torna comum.

Neste momento a preocupação com a ansiedade de castração de torna intensa, ocorre o temor de perda ou danos aos genitais, já a menina sente inveja deste órgão masculino ocorrendo uma insatisfação com os próprios órgãos genitais e desejando possuir genitais masculinos. Aqui se faz presente o Complexo de Édipo.

Conclui-se que o complexo de Édipo é algo constitutivo do próprio ser humano, mas não se trata de uma menção a impulsos biológicos porque o drama edipiano centra-se nas figuras trocadas do amor e do ódio, muito mais que na satisfação sexual, pura e simples.



  1. Fase de latência: estado de relativa inatividade da pulsão sexual, com resolução do Complexo de Édipo, as pulsões sexuais são canalizadas para objetos mais apropriados socialmente.

  2. Fase genital: estágio final do desenvolvimento psicossexual infantil, começa com a puberdade e a capacidade para a verdadeira intimidade.


A aparição do Complexo de Édipo

Para Freud o fenômeno central do período sexual da primeira infância do indivíduo é o complexo de Édipo que se revela e, após alcançar seu ápice, passa por sua dissolução, ele sucumbe à regressão e é seguido pelo período de latência. Nesta fase o desenvolvimento sexual da criança é interrompido e sua energia psíquica é destinada a fortalecer o seu ego, e logo depois, com o ego fortalecido e o superego em desenvolvimento, a criança se volta para outras atividades.

A destruição do complexo de Édipo na criança, pode ocorrer devido a sua falta de sucesso, pelos efeitos de sua impossibilidade interna, seu término ocorre de maneira típica e em conjunção com acontecimentos de recorrência regular, sendo umas delas a repressão.

Em extensão sempre crescente, o complexo de Édipo revela sua importância como o fenômeno central do período sexual da primeira infância. Após isso, se efetua sua dissolução, ele sucumbe à regressão, como dizemos, e é seguido pelo período de latência. Ainda não se tornou claro, contudo, o que é que ocasiona sua destruição. As análises parecem demonstrar que é a experiência de desapontamentos penosos. A menina gosta de considerar-se como aquilo que seu pai ama acima de tudo o mais, porém chega a ocasião em que tem de sofrer parte dele uma dura punição e é atirada para fora de seu paraíso ingênuo. O menino encara a mãe como sua propriedade, mas um dia descobre que ela transferiu seu amor e sua solicitude para um recém-chegado. A reflexão deve aprofundar nosso senso da importância dessas influências, porque ela enfatizará o fato de serem inevitáveis experiências aflitivas desse tipo, que agem em oposição ao conteúdo do complexo. Mesmo não ocorrendo nenhum acontecimento especial tal como os que mencionamos como exemplos, a ausência da satisfação esperada, a negação continuada do bebê desejado, devem, ao final, levar o pequeno amante a voltar as costas ao seu anseio sem esperança. Assim, o complexo de Édipo se encaminharia para a destruição por sua falta de sucesso, pelos efeitos de sua impossibilidade interna.” (FREUD, 1925, p. 89-90)

Segundo Freud (1925), o complexo de Édipo é inato, ou seja, não pode ser aprendido pelo ser humano, apresenta-se instintivamente.
Repressão

Segundo Freud (1925), quando o interesse da criança se volta para os seus órgãos genitais, durante a fase fálica, ela revela o fato manipulando-o freqüentemente, e então descobre que os adultos reprovam esse comportamento.

Isto pode gerar um processo de repressão, pois os pais repudiam esta atitude e podem haver ameaças de que seu órgão genital seja tirado. Desta forma, a criança se vê frente a frente com a ameaça de castração.

A repressão é um mecanismo mental inconsciente, pelo qual as idéias ou os impulsos indesejáveis e inaceitáveis para a consciência são suprimidos por ela e impedidos de entrar no estado inconsciente. Este material indesejável não está geralmente sujeito à recordação voluntária inconsciente. (FREUD, 1905, p. 165-178)

Segundo Freud (1905), a repressão é um processo que recai sobre representações e se desenvolve na fronteira entre os sistemas Inconsciente e Consciente (Pré-Consciente).

A essência da repressão consiste em afastar uma determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância (no inconsciente). Entretanto, o material reprimido continua a fazer parte da psique, apesar de inconsciente, e continua a causar problemas.


A castração

A castração é um conceito importante para se entender o desfecho do Complexo de Édipo. As crianças quando se encontram na fase fálica de seu desenvolvimento sexual pensam que todas as outras crianças possuem pênis. A menina, não possuindo pênis sente-se castrada e culpa a mãe por esta situação dirigindo agressividade à ela e, conseqüentemente, se aproxima do pai, levando-a assim efetivamente ao Complexo de Édipo. A menina, por sentir-se castrada, sentiria a inveja do pênis. (FREUD, 1905, p. 74 – 75)

Já o menino, quando conhece os genitais femininos, sente o medo de ser castrado, pelo motivo da castração ser posterior ao Complexo de Édipo, este medo é fortificado, pois o menino já havia dirigido agressão para o pai e teme que o pai possa vingar-se, castrando-o. Este temor acaba inibindo os desejos incestuosos.

O aparecimento dos desejos incestuosos cria um conflito moral, além do sentimento de culpa pelos desejos incestuosos, o medo da castração reforça o abandono do objeto incestuoso. Para solução deste conflito, o indivíduo desloca suas pulsões a um objeto não incestuoso, no caso, uma pessoa do sexo oposto que não seja uma figura parental, fato este que se concretiza na fase genital do desenvolvimento.

O Complexo de Castração ocorre na última fase do desenvolvimento psicossexual da criança, a fase fálica, marcada pelo interesse e sentimentos associados ao pênis.
Estruturação Familiar

A família a qual Freud se atém em suas observações é a chamada “família nuclear burguesa”, em especial a relação mãe e filho, que tem aparecido como referencial explicativo para o desenvolvimento sexual da criança. Esta família, a qual se refere se compõe exclusivamente de pai, mãe e algumas crianças vivendo na mesma casa, sendo assim, a família que se afastava da estrutura do modelo, era chamada de “desestruturada” ou “incompleta”, compreendida como a geradora de problemas emocionais em seus respectivos filhos, diferentemente da família tradicional.

Segundo Danda Prado (1981, p. 07):

A palavra família, no sentido popular e nos dicionários, significa pessoas aparentadas que vivem em geral na mesma casa, particularmente o pai, mãe e os filhos. Ou ainda, pessoas de mesmo sangue, ascendência, linhagem, estirpe ou admitidos por adoção.

Antes a família era pensada, estruturada, hoje ela já se encontra sendo vivida, ou seja, definida como um grupo de pessoas vivendo numa estrutura hierarquizada que convive com a proposta de uma ligação afetiva duradoura incluindo uma relação de cuidados. Por isso é possível chamar de família, núcleos em que convivem netos e avós, tio e sobrinho, casais homoafetivos que adotem uma criança e outros.

Na contemporaneidade, como antigamente, o homem e a mulher quando se tornam pais entram em uma nova situação psicológica real, cada um leva para dentro da composição familiar concepções e esperanças anteriormente relacionadas com a paternidade, como Freud já havia descrito.

Com a chegada de um filho há, nos pais, uma reorganização do afeto e do amor, pois com o recém-chegado os pais necessariamente se privam de certa parcela da atenção antes recebida. A reorganização de emoções depende das experiências infantis de cada membro do casal, podendo se tornar patológica emocionalmente de ambos os pais. Os aspectos patológicos de relacionamento entre pais e filhos são influenciados pelas figurações paterna ou materna, que eles internalizaram.

Com a presença de um novo membro familiar, filhos, que necessitam de cuidados e atenção, a tensão libidinal do casal é severamente posta à prova. Um dos motivos é a diminuição entre o casal de atenção. Freud percebeu um aumento do afeto entre pais e filhos do sexo oposto de forma evidente e contínua, se delineando as emoções sexuais. O complexo de Édipo é considerado o principal evento da infância pois norteia a formação do superego e das configurações de gênero; posicionamento diante da vida como passivo ou ativo. (FREUD, 1924)


A família contemporânea

Apesar de se predominar a família nuclear burguesa, composta de pai, mãe e alguns filhos, hoje se fazem também presente: famílias recompostas, monoparentais, uniões consensuais, casais sem filhos por opção, famílias unipessoais e família por associação. (FRANÇOISE, 2003)

Os papéis familiares se alteram conseqüentemente, as mulheres trabalham fora de casa, alguns homens desempenham papéis domésticos, a criação dos filhos depende da presença de ambos e a sexualidade deixa de estar exclusivamente associada ao casamento. São dois os movimentos históricos que contribuíram para a inserção de papéis familiares, como a Revolução Industrial e o Movimento Feminista.

Pode-se concluir, então, que não existe um único modelo familiar. A família pela perspectiva histórica, têm-se apresentado em diversas composições e características.


Papéis familiares

A entrada da mulher em larga escala no mercado de trabalho contribui para a alteração dos papeias familiares e para a emergência de um novo modelo de família. Deste modo, o modelo de segmentação de papéis masculinos e femininos foi substituído por um modelo de paridade entre o casal. Quer isso dizer que os dois conjugues passam a ter estatutos idênticos e a partilhar responsabilidades na gestão da vida familiar, na educação e no cuidado com os filhos. O que anteriormente era considerado exclusivo da função materna, agora passou a ser compartilhado com o pai.

Na contemporaneidade as funções parentais se modificaram e se modernizaram frente a um novo discurso sobre a infância, à séculos passados as funções parentais eram delineadas sistematicamente pela sociedade, onde as mulheres desempenhavam as tarefas domésticas e educavam seus filhos e os homens deveriam trabalhar para sustentar sua família; nesta época predominava o patriarcalismo.

Baseada durante séculos na soberania divina do pai, a família ocidental foi desafiada, no século XVIII, pela irrupção do feminino. Foi então que se transformou, com o advento da burguesia, em uma célula biológica que concedia lugar central à maternidade. A nova ordem familiar conseguiu represar a ameaça que esta irrupção do feminino representava à custa do questionamento do antigo poder patriarcal. A partir do declínio deste, cuja testemunha e principal teórico foi Freud ao revisitar a história de Édipo e de Hamlet, esboçou-se um processo de emancipação que permitiu às mulheres afirmar sua diferença, às crianças serem olhadas como sujeitos e aos “invertidos” se normalizarem. Esse movimento gerou uma angústia e uma desordem específicas, ligadas ao terror da abolição da diferença dos sexos, com a perspectiva de uma dissolução da família no fim do caminho. Nessas condições, estará o pai condenado a não ser mais que uma função simbólica? [...] Deve ele, ao contrário, se transformar em educador benevolente, como desejam os modernistas? (ROUDINESCO, 2003, p. 11)

É a partir deste novo cenário que se abre a possibilidade para pensar em novas exigências imaginárias relativas às funções parentais.
Processo de Separação

O divórcio, pode ser um fator de amadurecimento para o desenvolvimento da criança, sendo notável este avanço social e de autonomia.

A partir de colocações anteriormente citadas, percebe-se que as concepções particulares dos membros do casal são projetadas na organização familiar e no desenvolvimento sexual infantil. A reorganização de emoções gerada pela chegada de um filho e pelo divórcio, acarreta interesse dos pesquisadores e o novos debates sobre o complexo de Édipo proposto por Sigmund Freud.

Portanto, quando ocorre o processo de separação os referenciais de orientação, os pais, se tornam oscilantes para a criança, ela se sente desorientada entre os pais. Numa família com pais casados as funções paternas já se mostram menos claras, quando ocorre uma separação os referencias para a criança ficam definitivamente abalados.

Segundo Dolto, a criança vive as dissociações acarretadas pelo divórcio sob três continuum:

O continuum na criança são seu corpo e sua afetividade. Seu corpo construiu-se num determinado espaço, com os pais que estavam presentes. Quando os pais vão embora, caso o espaço já não seja o mesmo, a criança não mais se reconhece nem mesmo em seu corpo, ou seja, em seus referenciais espaciais e temporais, já que uns dependem dos outros. Se, ao contrário, quando o casal de desfaz, a criança pode permanecer no espaço em que os pais tinham sido unidos, há uma mediação e o trabalho do divórcio é feito de maneira muito melhor para ela. Não sendo assim, como seu corpo se identifica com a casa em que vive, e já que essa casa fica destruída para ela pela ausência de um dos pais ou pela mudança do casal, ou quando ela própria tem de deixá-la, a criança vivencia ela própria dois níveis de desestruturação: no nível espacial, que repercute no corpo, e no nível da afetividade, através de sentimentos dissociados. (DOLTO, 2003, p. 21)



RESULTADOS

Através dos procedimentos técnicos, estrevistas semi-estruturadas e aplicação do teste H.T.P. na criança, pode-se atingir os objetivos específicos aos quais pretendia-se concretizar o estudo científico. Desta forma a análise e discussão dos procedimentos técnicos foi dividido em três etapas para melhor compreensão do estudo de caso.

I – Dinâmica Familiar:

A dinâmica familiar, ou seja, a composição familiar do estudo de caso presente se refere às novas configurações familiares que se apresentam atualmente, tendo seu auge no século XX. Como público-alvo apresentou-se uma família composta por pais separados, de um lado temos a criança, inserida em um ambiente onde convive com a mãe e avés maternos e por outro lado se encontra o pai com a nova esposa.

Tendo esta estrutura familiar como estudo de caso pode-se compreender que algumas relações estabelecidas se apresentam fortificadas e se interlaçam as funções materna e paterna, enquanto outras relações se encontram frágeis.

Segundo Sigmund Freud (1905), a função materna se aplica a cuidadora, acolhedora, e alimentação ao bebê, que a relação se restringe à uma simbiose a qual a função paterna se interpõe, sendo estão o interditor do complexo de édipo e genitor de socialização para a criança.

Em extensão sempre crescente, o complexo de Édipo revela sua importância como o fenômeno central do período sexual da primeira infância. Após isso, se efetua sua dissolução, ele sucumbe à regressão, como dizemos, e é seguido pelo período de latência. Ainda não se tornou claro, contudo, o que é que ocasiona sua destruição. As análises parecem demonstrar que é a experiência de desapontamentos penosos. A menina gosta de considerar-se como aquilo que seu pai ama acima de tudo o mais, porém chega a ocasião em que tem de sofrer parte dele uma dura punição e é atirada para fora de seu paraíso ingênuo. O menino encara a mãe como sua propriedade, mas um dia descobre que ela transferiu seu amor e sua solicitude para um recém-chegado. A reflexão deve aprofundar nosso senso da importância dessas influências, porque ela enfatizará o fato de serem inevitáveis experiências aflitivas desse tipo, que agem em oposição ao conteúdo do complexo. Mesmo não ocorrendo nenhum acontecimento especial tal como os que mencionamos como exemplos, a ausência da satisfação esperada, a negação continuada do bebê desejado, devem, ao final, levar o pequeno amante a voltar as costas ao seu anseio sem esperança. Assim, o complexo de Édipo se encaminharia para a destruição por sua falta de sucesso, pelos efeitos de sua impossibilidade interna.” (FREUD, 1925, p. 89-90)

A relação entre a mãe e a avó materna se estabelece fortificada, sendo uma relação de cumplicidade, deveres e dedicações, principalmente pelo fato relatado por ambas nas entrevistas, que nos momentos da gravidez a avó materna compartilhava dos enjõos e desconfortos da mesma. Tendo como pressuposto a abordagem psicanalítica esta relação faz com que a função materna se desenvolva em ambas e que a função paterna também se aplique à avó, esta compreensão se expõe claramente nos depoimentos da criança e em seu desenho que representa a família.

A criança descreve a avó como seu referencial de decisões e afetividade, a pessoa que impõe as condições e concede permissões tendo a mãe as vezes como aliada. No desenho da família a avó é desenhada primeiro, como se a mesma representasse o alicerce e organização da estrutura familiar; já a mãe aparece no desenho da pessoa humana e é representada como referencial de amor, adoração e cuidados.

O pai não concedeu autorização para entrevista, a qual se buscaria conhecer a dinâmica familiar e a relação com filho, mas através da entrevista com a criança pode-se perceber a figura paterna como referencial de identificação, mesmo não sendo exposto no desenho da família o mesmo o descreve como seu herói. Esta relação se constitui harmônica, de companheirismo entre ambos, apesar da relação da mãe com o pai ainda se basear sob algumas projeções dolorosas que a criança aparenta compreender, como pode verificar no desenho da árvora, a qual é representada pela figura materna, de posse do pai e que se encontra machucada, conforme descreve a criança.

Os pais se encontram envolvidos em novos relacionamentos amorosos, o novo companheiro da mãe foi o único que apareceu no desenho da família e na fala da criança diz ter um relacinamento bom com o padrasto, viajaram juntos e que tem amizade com seus dois filhos; já a madrasta não é citada em suas falas e nem nos desenhos.

A ausência do avô materno foi explícito entr as falas da criança, mãe e avó, sendo apenas confirmada no teste, este seria uma figura compreendida como o fundo da estrutura familiar exposta e suas relações, sem estabelecer referencial de relacionamento entre os membros da família.

II – Fenômenos Edípicos:

Os fenômenos edípicos se destacam nesta estrutura familiar, como Freud mesmo citou em um de seus estudos sobre a sexualidade infantil, aparece quando a criança destaca o pai em sua admiração e deseja o lugar do mesmo, para que simbolicamente tome a mãe para si. (FREUD , 1906). Deste modo a criança em estudo destaca a figura do pai quando o coloca como seu herói, figura de admiração e identificação.

O pai em regra tem preferência pela filha, a mãe pelo filho: a criança reage desejando o lugar do pai se é menino, o da mãe se trata da filha. Os sentimentos nascidos destas relações entre pais e filhos, e entre um irmão e outros, não são somente de natureza positiva, de ternura, mas também negativos, de hostilidade. O complexo assim formado é destinado à pronta repressão, porém continua a agir do inconsciente com intensidade e persistência. Devemos declarar que suspeitamos represente ele, com seus derivados, o complexo nuclear de cada neurose e nos predispusemos a encontrá-lo não menos ativo em outros campos da vida mental. O mito do Rei Édipo que, tendo matado o pai, tomou a mãe por mulher, é uma manifestação pouco modificada do desejo infantil, contra o qual se levantam mais tarde, como repulsa, as barreiras do incesto. ( FREUD, 1906 – 1908, p. 44).

Outras figuras familiares são também destacadas, através do desenho da figura humana pode-se perceber a mãe como seu referencial de admiração, afetividade, e amor; mesmo que a própria não tenha desenvolvido todo o papel da função materna, é ela que o filho exalta também na entrevista. Sua avó materna representa nessa dinâmica familiar uma relação de identificação e autoridade tanto para a criança quanto para sua mãe, se caracteriza como o alicerce para a estrutura familiar e a interdição do complexo de édipo, ou seja, o desenvolvimento da função paterna.

O desenvolvimento psicossexual referente a criança foi um tema que pouco apareceu neste estudo, foram limítrofes as falas da avó materna e da mãe quando se refere ao desenvolvimento sexual da criança.

III – Separação e novas configuração familiares:

Dentro desta estrutura familiar os pais da criança se encontram separados e ambos estão em um momento no qual se conguram novas estruturas familiares com novos companheiros.

Na entrevista com a criança pode-se compreender que a mesma entende o motivo da separação dos pais e lhe é aceitável. Este momento pode ser observado quando a mãe relata que o motivo da separação foram as brigas, momentos de agressões e que a compreensão da criança aparece no desenho da árvora, quando diz que a mesma pertence ao pai, mas se encontra distante e um pouco machucada.

Em relação ao novo parceiro da mãe a criança já o inclui no contexto familiar, como é representado no desenho da família. Na entrevista disse não conversar muito com o namorado de sua mãe, mas que gosta dele. Já a relação com a esposa de seu pai se mostra um pouco conflituosa, principalmente em seus relatos, diz frequantar apenas a loja (franquia) em que o pai está frequentemente e pouco visita sua residência. Nesta relação pode-se observar que a criança e o pai fazem programas a sós e fora de casa, no sítio.

CONCLUSÃO

Desta forma, como foi disposto a análise e discussão dos procedimentos técnicos, pode obter com precissão e clareza o alcance aos objetivos específicos.

Dentre esses objetivos foi aprofundado os resultados na pesquisa elaborada sobre os pressupostos psicanalíticos referentes ao complexo de édipo, descreveu-se a ocorrência dos fenômenos edípicos como observados no item II e detectou-se duas figuras de destaque as quais a criança transfere seu desenvolvimento sexual, o pai e a avó materna.
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Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 2., n. 5, mai./2012.


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