Unip – Universidade Paulista Pós-Graduação em Psicopedagogia



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Independência é a faculdade de decidir sem depender de outras pessoas, tais como: membros da família, profissionais especializados (ou Escotistas, no caso específico do Escotismo). “Uma pessoa com deficiência pode ser mais independente ou menos independente em decorrência não só da quantidade e qualidade de informações que lhe estiverem disponíveis para tomar a melhor decisão, mas também da sua autodeterminação e/ou prontidão para tomar decisões numa determinada situação”.14 Pode-se falar de “independência pessoal”, “social” ou “econômica” e a autodeterminação e prontidão para decidir podem ser aprendidas ou desenvolvidas. E, quanto mais cedo na vida a pessoa tiver oportunidades para fazer isso, melhor.

A Inclusão Social é o processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais, enquanto estas se preparam para assumir seu papel na sociedade. A educação é um dos pilares para se alcançar a almejada sociedade inclusiva. Uma sociedade sem segregação e preconceitos, onde todos se sentem cidadãos úteis, dando sua parcela de contribuição para a construção de um país forte e justo. E, nesse esforço, o Movimento Escoteiro trem sua parte a cumprir. É começando pelas crianças, com a conscientização delas de que as necessidades especiais devem ser vistas como algo natural, que faz parte da natureza humana, que poderemos alcançar toda a sociedade.

Ao longo da história da humanidade, foram diversas as atitudes assumidas pela sociedade para com as pessoas com deficiência visual, auditiva, física e mental. Tais atitudes foram se alterando por influência dos fatores econômicos, culturais, filosóficos e científicos.

Segundo a Unesco15 a comunidade humana passou por cinco estágios na relação com as pessoas deficientes que são os seguintes:



  1. Estágio filantrópico. Domínio do conceito de doença; a incapacidade é percebida como uma característica do sujeito, ou seja, as pessoas portadoras de deficiências são consideradas pessoas doentes, acarretando seu isolamento para tratamento e cuidados com a saúde.

  2. Estágio da assistência pública. Institucionalização da ajuda aos inválidos necessitados;

  3. Estágio dos direitos fundamentais. Aparecimento da noção de direitos universais dos quais ninguém pode ser privado – como é o caso do direito à educação.

  4. Estágio da igualdade de oportunidades. No momento em que o desenvolvimento econômico e cultural arrasta e implica a entrada na escola de todas as crianças, onde um número expressivo dessas crianças e jovens não apresenta um rendimento escolar adequado aos objetivos da instituição escolar e passam a engrossar o grupo das crianças e jovens deficientes mentais ou com dificuldades de aprendizagem.

  5. Estágio do direito à integração. Noção de norma e normalidade posta em causa. (O estágio precedente transportava em si o gérmen da extensão indefinida da deficiência, ou seja, “promovia” o aumento das “deficiências”). Se a competição entre os indivíduos e a desigualdade das condições como resultado da desigualdade dos talentos conduziram ao desenvolvimento econômico que se conhece, a sociedade começa a se inquietar com a ausência de comunicação entre os homens, com a existência de minorias cada vez mais numerosas que conduzem cada cidadão a se interrogar sobre os objetivos da vida, sobre o “sentido da vida”16.

Mais recentemente, o conceito de inclusão tem substituído com vantagens o conceito de integração, como poder-se-á concluir da leitura do presente trabalho. Fazemos, portanto, questão de diferenciar os termos integração e inclusão, pois um entendimento claro do conceito de inclusão pode evitar muitos erros na implantação e operacionalização do Escotismo para Todos no Brasil. O fato é que existe um movimento mundial pela INCLUSÃO da pessoa portadora de deficiência, e não mais uma simples integração. Vejamos:

Integrar significa adaptar-se, acomodar-se, incorporar-se. Não é a melhor palavra porque se presume sempre que se trata da reunião de grupos diferentes. Reflete sempre uma ação do portador de deficiência para tentar adaptar-se, incorporar-se, acomodar-se. O mesmo não ocorre com a inclusão. Incluir significa envolver, fazer parte, pertencer. Representa uma ação da sociedade que vem envolver parte dessa mesma sociedade que está excluída por falta de condições adequadas. Significa trazer para dentro de um conjunto alguém que já faz parte dele.

Não se trata de uma mera troca de verbos, mas de novo olhar sobre o portador de deficiência como sendo alguém que cabe no “nós”, no “todos”. No momento em que alcançarmos esse progresso, esse grau de desenvolvimento humano, essa naturalidade diante da diversidade, o preconceito e a segregação serão uma realidade muito distante. No momento ainda em que alcançarmos a verdadeira inclusão, o fato de uma pessoa sofrer um acidente e transformar-se num portador de deficiência significará apenas que suas aptidões mudaram e que ela deve adequar-se a uma nova condição de vida, também repleta de oportunidades.

Para simplificar, podemos conceituar da seguinte maneira:

Tanto a integração quando a inclusão, constituem formas de inserção social das pessoas com deficiência. Mas a prática da integração – definida mais claramente nas décadas de 60 e 70 – era baseada no “modelo médico”, cuja proposta visa modificar (habilitar, reabilitar, educar) a pessoa com deficiência, para torná-la apta a satisfazer os padrões aceitos no meio social (familiar, escolar, profissional, recreativo, ambiental).

Já a prática da inclusão, que se inicia na década de 80 e se consolida nos anos 90, vem seguindo o “modelo social”, segundo o qual a nossa tarefa é modificar a sociedade para torná-la capaz de acolher todas as pessoas que, uma vez incluídas nessa sociedade em modificação, poderão ser atendidas em suas necessidades comuns e/ou especiais.

Assim:

Integração: inserção da pessoa deficiente devidamente preparada para conviver na sociedade.

Inclusão: modificação da sociedade como pré-requisito para a pessoa com necessidades especiais buscar seu desenvolvimento e exercer a cidadania.

“As necessidades de aprendizagem dos incapacitados exigem atenção social. São necessários passos para se oferecer igualdade de acesso à educação a todas as categorias de pessoas incapacitadas como parte integral do sistema educacional”.17





10. Escotismo – um Movimento Educacional

O Escotismo é um Movimento de Educação não-formal para jovens, atuando em âmbito mundial há 95 anos. É um movimento de auto-educação para jovens, com a colaboração de adultos voluntários. Tendo recebido em suas fileiras mais de 550 milhões de membros, desde sua fundação, e estando presente hoje em mais de 150 países com 28 milhões de participantes, o Movimento Escoteiro provou oferecer uma proposta pedagógica eficaz e universal, produzindo seus efeitos em crianças e jovens das mais diferentes raças, línguas e culturas deste planeta. Apesar de ter quase um século de existência, o método escoteiro tem provado sua eficácia na formação de jovens de ambos os sexos com caráter reto e com elevados valores morais e espirituais. O programa escoteiro18, contudo, tem acompanhado a evolução social e tecnológica, inserindo-se sempre no contexto sócio-cultural das nações. No Brasil, atualmente, são aproximadamente 60 mil crianças e jovens de ambos os sexos, acompanhados por aproximadamente 10 mil adultos voluntários, capacitados em cursos de formação de Escotistas e de Dirigentes Institucionais.

O Escotismo é representado no Brasil pela União dos Escoteiros do Brasil (UEB), entidade filiada à Organização Mundial do Movimento Escoteiro (WOSM – World Organization of the Scout Movement), com sede em Genebra, Suíça.

A finalidade da educação é contribuir para o pleno desenvolvimento de pessoas autônomas, solidárias, responsáveis e comprometidas. A educação pode ser formal (nas escolas), informal (na família,nos grupos de amigos da mesma idade, nos meios de comunicação) e não-formal (em movimentos juvenis, clubes), sendo que cada forma de educação desempenha seu papel, sendo todas interdependentes e complementares entre si.

Dentre os autores que se dispõe a discutir a educação não-formal, podemos citar Almerindo Janela Afonso, que trata o assunto com bastante clareza:

“Por educação-formal, entende-se o tipo de educação organizada com uma determinada seqüência e proporcionada pelas escolas enquanto que a designação educação informal abrange todas as possibilidades educativas no decurso da vida do indivíduo, constituindo um processo permanente e não organizado. Por último, a educação não-formal, embora obedeça também a uma estrutura e a uma organização (distinta, porém, das escolas) e possa levar a uma certificação (mesmo que não seja essa a finalidade), diverge ainda da educação formal no que respeita à não fixação de tempos e locais e à flexibilização na adaptação dos conteúdos de aprendizagem a cada grupo concreto”.19

“É necessário reconhecer a validade universal da educação não-formal, em especial a que é desenvolvida por organizações mundiais dedicadas a educação de jovens”. 20

O Propósito do Movimento Escoteiro é contribuir para que os jovens assumam seu próprio desenvolvimento, especialmente do caráter, ajudando-os a realizar suas plenas potencialidades físicas, intelectuais, sociais, afetivas e espirituais, como cidadãos responsáveis, participantes e úteis em suas comunidades, podendo, assim, contribuir para o desenvolvimento de um mundo melhor.

Seus membros, onde quer que estejam, estão comprometidos com os Princípios do Movimento Escoteiro (isto é, com seus valores), que formam a base do código de ética que governa o Movimento como um todo e um código de honra pessoal ao qual cada membro adere (Promessa e Lei escoteiras). Esses princípios referem-se ao compromisso ativo e construtivo da pessoa com os valores espirituais, com a sociedade e consigo mesmo.



O Método Educativo do Movimento Escoteiro é um sistema de auto-educação progressiva, com o objetivo de que os jovens assumam seu próprio desenvolvimento. Trata-se de uma estrutura educacional composta por elementos que atuam em sinergia e sistemicamente, a fim de proporcionar aos jovens um ambiente precioso de aprendizagem ativa. O método é baseado em como os jovens desenvolvem-se naturalmente, levando em conta suas características, necessidades e interesses em diferentes estágios de desenvolvimento (faixas etárias).

Juntos, o propósito, os princípios e o método do Movimento Escoteiro formam a essência do sistema educacional escoteiro. Para que alcance seus objetivos educacionais, o Movimento Escoteiro deve caracterizar-se por ser: Um movimento de jovens; apoiado por adultos; aberto a todos; voluntário; não político; independente; complementar a outras formas de educação; e relevante para os jovens.

O Método Escoteiro é composto por diversas ferramentas educacionais, a saber: a lei e a promessa, aprendizagem pelo serviço, aprendizagem pela ação (aprender fazendo), sistema de equipes, marco simbólico, sistema de progressão pessoal de objetivos e atividades (Programa de Jovens), vida ao ar livre e a presença estimulante do adulto. Essas ferramentas são parte de um todo e não devem ser tomadas separadamente, mas devem ser usadas como um sistema. “O Escotismo é um remédio composto por vários elementos que, se não forem misturados na proporção adequada, conforme a receita, os usuários não poderão culpar o médico se os efeitos no paciente não forem satisfatórios”.21 (Baden-Powell)

Podemos descrever um sistema como uma rede de elementos, na qual, cada elemento tem uma função específica, interage com os demais elementos para reforçar a eficácia de cada um, e contribui para o objetivo a ser alcançado.

Uma característica importante de um sistema é a sinergia que é criada – em outras palavras, os efeitos do sistema são maiores que a soma dos efeitos de suas partes.

O mesmo ocorre com o Método Escoteiro. Cada elemento tem uma função educacional, cada elemento complementa o impacto dos demais. A fim de se alcançar o desenvolvimento holístico do jovem, nenhum elemento do Método Escoteiro pode faltar e todos devem ser usados adequadamente.



Método Escoteiro

O Método Escoteiro foi concebido para estimular o desenvolvimento de jovens por toda a faixa etária servida pelo Escotismo (7 a 21 anos). É, além disso, um sistema natural de auto-educação progressiva, cujo objetivo é ajudar a cada jovem a usar e desenvolver suas capacidades e interesses, edificando sobre o que já possui; encontrar maneiras construtivas de suprir suas necessidades em diversos estágios de desenvolvimento; e abrir as portas para próximos estágios de desenvolvimento no ritmo próprio de cada jovem.

Cabe esclarecer que as divisões de faixas etárias aplicadas no Escotismo visam contemplar as características das crianças e jovens em cada período de desenvolvimento, segundo a ótica das seis áreas de desenvolvimento cobertas no Programa de Jovens, a saber: desenvolvimento físico, intelectual, social, afetivo, espiritual e de caráter. Cada faixa etária tem uma denominação própria (Ramo) e um programa específico que visa alcançar os objetivos educacionais daquela faixa etária em cada uma das áreas de desenvolvimento anteriormente citadas. Os Ramos são os seguintes:



Ramo Faixa Etária Nome

Lobinho 7 a 10 anos Lobinhos e Lobinhas

Escoteiro 11 a 14 anos Escoteiros e Escoteiras

Sênior 15 a 17 anos Seniores e Guias

Pioneiro 18 a 20 anos Pioneiros e Pioneiras

Cada Ramo tem seus objetivos educacionais a serem perseguidos, de forma a assegurar a conquista dos Objetivos Finais, definidos de acordo com o Projeto Educativo do Movimento Escoteiro (anexo). Contudo, não se deve esquecer que cada indivíduo tem seu tempo e seu ritmo de desenvolvimento. O desenvolvimento é um processo decorrente de múltiplas causas e é condicionado por fatores endógenos (próprios de cada indivíduo) e por fatores exógenos (meio ambiente), sendo afetado pela maturidade e pela aprendizagem. Cada situação gera condições diferentes de desenvolvimento que, em cada criança ou jovem, vão repercutir de uma forma diferenciada, ensejando maior ou menor desenvolvimento desse ou daquele aspecto, fazendo com que varie, por exemplo, a época do surgimento de algumas características físicas.







11. Um paralelo entre o Método Educacional Escoteiro e a

visão pedagógica de Vigotsky

Lev Semenovich Vigotsky é hoje considerado um dos mais importantes psicólogos do nosso século, cuja obra tem provocado significativa influência na psicologia e na educação em muitos países do ocidente, inclusive o Brasil. Seus trabalhos pertencem ao campo da psicologia genética. Cabe aqui observar que o termo “genético” não está associado a genes, à transmissão dos caracteres hereditários, mas refere-se ao estudo da origem, da formação das características psicológicas nos indivíduos.

Escolhemos como fundamentação teórica para o trabalho a teoria sócio-interacionista (também conhecida como teoria histórico-cultural) de Vigotsky, pela consonância que apresenta com os fundamentos do escotismo e com a proposta por nós apresentada. De fato, “o interesse de Vigotsky pela psicologia acadêmica começou a se delinear a partir de seu contato, no trabalho de formação de professores, com os problemas de crianças com defeitos congênitos, tais como: cegueira, retardo mental severo, afasia, etc. Essa experiência o estimulou a encontrar alternativas que pudessem ajudar o desenvolvimento de crianças portadoras dessas deficiências (tema a que se dedicou durante vários anos) tinha, não somente o objetivo de contribuir na reabilitação das crianças mas também significava uma excelente oportunidade de compreensão dos processos mentais humanos, assunto que viria a ser o centro de seu projeto de pesquisa”.22 Vale lembrar que Vigotsky criou, na Rússia, o Instituto da Deficiência (entidade de excelência até hoje existente na cidade de Moscou), com o objetivo de estudar o desenvolvimento de crianças deficientes e também escreveu um trabalho intitulado: Problemas da Educação de Crianças cegas, surdo-mudas e retardadas. Quanto à importância da inclusão, Vigotsky ressalta que os fatores biológicos têm preponderância sobre os sociais somente no início da vida da criança. Aos poucos, as interações com seu grupo social e com os objetos de sua cultura passam a governar o comportamento e o desenvolvimento de seu pensamento.

Dentre as teses básicas, presentes na obra de Vigotsky, as abaixo citadas poderiam perfeitamente conferir autoridade para a formação do arcabouço teórico-filosófico do Movimento Escoteiro, não tivesse este último sido concebido e implantado pouco antes dos estudos do psicólogo russo:



  1. As características tipicamente humanas não estão presentes desde o nascimento do indivíduo, nem são mero resultado das pressões do meio externo. Elas resultam da interação dialética do homem e seu meio sócio-cultural. Ao mesmo tempo em que o ser humano transforma o seu meio para atender suas necessidades básicas, transforma a si mesmo. Em outras palavras, quando o homem modifica o ambiente através de seu próprio comportamento, essa mesma modificação vai influenciar seu comportamento futuro.

  2. A questão da mediação simbólica presente em toda atividade humana. Os sistemas simbólicos funcionam como elementos mediadores que permitem a comunicação entre os indivíduos, o estabelecimento de significados compartilhados por determinado grupo cultural. A relação do homem com o mundo não é uma relação direta, pois é mediada por meios, que se constituem nas “ferramentas auxiliares” da atividade humana.

11.1. Marcos Simbólicos

Vigotsky atribui uma enorme importância à dimensão social, que fornece instrumentos e símbolos (assim como todos os elementos presentes no ambiente humano impregnados de significado cultural) que medeiam a relação do indivíduo com o mundo. Na perspectiva vigotskiana o desenvolvimento das funções intelectuais especificamente humanas é mediado socialmente pelos signos e pelo outro. A internalização dos sistemas de signos produzidos culturalmente, provoca mudanças cruciais no comportamento humano.


11.2. Método Escoteiro e o Papel do Adulto

Com a ajuda do adulto, as crianças assimilam ativamente aquelas habilidades que foram construídas pela história social ao longo de milênios: ela aprende a sentar, a andar, a controlar os esfíncteres, a falar, a sentar-se à mesa, a comer com talheres, a tomar líquidos em copos, etc. Através das intervenções constantes do adulto (e de crianças mais experientes) os processos psicológicos mais complexos começam a se formar. As conquistas individuais resultam de um processo compartilhado.

Segundo Vigotsky, desenvolvimento do psiquismo humano é sempre mediado pelo outro (outras pessoas do grupo cultural), que indica, delimita e atribui significados à realidade. Por intermédio dessas mediações, os membros imaturos da espécie humana vão pouco a pouco se apropriando dos modos de funcionamento psicológico, do comportamento e da cultura, enfim, do patrimônio da história da humanidade e de seu grupo cultural. Quando internalizados, estes processos começam a ocorrer sem a intermediação de outras pessoas.

Baden-Powell definia o papel do adulto no método escoteiro da seguinte maneira: “O Chefe Escoteiro apenas provoca no jovem a ambição e o desejo de aprender por si próprio, somente sugerindo-lhe atividades que o atraiam e que ele vai realizando até que, com a experiência, executa-as corretamente”.23

O aprendizado é o responsável por criar a zona de desenvolvimento proximal, na medida em que, em interação com outras pessoas, a criança é capaz de colocar em movimento vários processos de desenvolvimento que, sem a ajuda externa, seriam impossíveis de ocorrer. Esses processos se internalizam e passam a fazer parte das aquisições do seu desenvolvimento individual. É por isso que Vigotsky afirma que “aquilo que é zona de desenvolvimento proximal hoje será o nível de desenvolvimento real amanhã – ou seja, aquilo que uma criança pode fazer com assistência hoje, ela será capaz de fazer sozinha amanhã”.24

Vigotsky afirma que o processo de formação de conceitos amadurece, se configura e se desenvolve somente na puberdade; mas se o meio ambiente não desafiar, exigir e estimular o intelecto do adolescente, esse processo poderá se atrasar ou mesmo não se completar, ou seja, poderá não chegar a conquistar estágios mais elevados de raciocínio.

11.3. Propósito do Escotismo

O desenvolvimento pleno do ser humano depende do aprendizado que realiza num determinado grupo social, a partir da interação com outros indivíduos da sua espécie.

Vigotsky identifica o desenvolvimento potencial como aquele que se relaciona às capacidades em vias de serem construídas. O desenvolvimento potencial refere-se àquilo que a criança é capaz de fazer, só que mediante a ajuda de outra pessoa (adultos ou crianças mais experientes). Nesse caso, a criança realiza tarefas e soluciona problemas através do diálogo, da colaboração, da imitação, da experiência compartilhada e das pistas que lhe são fornecidas.

A distância entre aquilo que ela é capaz de fazer de forma autônoma (nível de desenvolvimento real) e aquilo que ela realiza em colaboração com os outros elementos de seu grupo social (nível de desenvolvimento potencial) caracteriza aquilo que Vigotsky chamou de “zona de desenvolvimento potencial ou proximal”. Nesse sentido, o desenvolvimento da criança é visto de forma prospectiva pois a “zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentes em estado embrionário”.25

11.4. Aprender Fazendo e o Papel do Adulto Voluntário

“O único educador capaz de formar novas reações no organismo é a sua própria experiência. Sá aquela relação que ele adquiriu na experiência pessoal permanece efetiva para ele. É por isso que a experiência pessoal do educando se torna a base principal do trabalho pedagógico. Em termos rigorosos, do ponto de vista científico não se pode educar o outro. É impossível exercer influência imediata e provocar mudanças no organismo alheio, é possível apenas a própria pessoa educar-se, ou seja, modificar as suas reações inatas da própria experiência. ... O conhecimento que não passou pela experiência pessoal não é conhecimento coisa nenhuma”.26 Contudo, Vigotsky não descarta a importância do adulto no papel de educador, reconhecendo que o processo de educação deve basear-se na atividade pessoal do aluno, e toda a arte do educador deve consistir apenas em orientar e regular essa atividade – princípio absolutamente de acordo com o preconizado por Baden-Powell, que defende a educação não diretiva, com o adulto desempenhando um papel de orientador e de “irmão mais velho” para os jovens. Vigotsky afirma que “a educação se faz através da própria experiência do aluno, a qual é inteiramente determinada pelo meio, e nesse processo o papel do mestre consiste em organizar e regular o meio”.27 Assim, mostrando que, no processo de educação também cabe ao mestre um papel ativo – “o de cortar, talhar e esculpir os elementos do meio, combiná-los pelos mais variados modos para que eles realizem a tarefa de que ele, o mestre, necessita” – Vigotsky afirma que o processo educativo se torna “trilateralmente ativo”, ou seja, é ativo o aluno, é ativo o mestre, é ativo o meio criado entre eles”. O Movimento Escoteiro utiliza em sua metodologia pedagógica a chamada mediação educativa, isto é, a ação de um agente educativo que serve como intermediário entre a pessoa que aprende e aquilo que ela aprende. O caráter relacional da mediação educativa, no Movimento Escoteiro, está relacionado fundamentalmente à ação do Escotista, que supervisiona o valor educativo das atividades e estabelece vínculos pessoais que ajudam as crianças a conquistar seus objetivos.

11.5. Objetivos Educacionais

Vigotsky afirma que: “Cada sistema educacional tem seus próprios fins inclusive cada período da educação pode ter os seus, e independentemente da expressão que possam ter sempre irão formar certos aspectos e o caráter do comportamento que a educação quer desencadear para a vida. Só esses fins da educação podem ter significado real na escolha e na orientação do processo educacional, pois só eles podem oferecer regras para a seleção dos efeitos educacionais necessários e sua correta combinação em sistema pedagógico harmonioso”.28

Entendemos que, embora a teoria sócio-interacionista de Vigotsky esteja hoje tão em voga no mundo pedagógico, ela é e sempre foi muito mais aplicável no Escotismo – por ser um Movimento de educação não-formal – do que em escolas tradicionais, onde o aluno, geração após geração, desempenha um papel mais passivo que ativo no processo educacional e grande parte dos professores ainda seguem o antigo sistema diretivo de ensino. Vigotsky pode ter conhecido o Movimento Escoteiro, pois, o mesmo foi fundado na Rússia em 1909, mas devido à Revolução Comunista de 1917, o Escotismo russo passou a ser praticado no exílio por filhos de exilados e depois por seus descendentes, e voltou para aquele país, filiando-se à WOSM, somente no ano 2000. Quando da revolução russa de 1917, Vigotsky já tinha 21 anos de idade, tendo sido esse exatamente o período em que começou sua produção científica, ocasião em que começou a escrever temas ligados à literatura, ciência e psicologia. Contudo, não conhecemos qualquer documento que afirme que Vigotsky tenha conhecido o Escotismo e a Pedagogia Escoteira.

Acreditamos, porém, que Vigotsky ficaria muito entusiasmado com o Movimento Escoteiro que, em poucos anos, alastrou-se por toda a terra, contagiando e influenciando a vida de milhões de jovens, de ambos os sexos e das mais variadas culturas. De fato, o Movimento Escoteiro, que só tem crescido em número nos últimos 20 anos, tem provado ser um excelente método educacional, tendo cativado até mesmo a Dra. Maria Montessori, uma das grandes autoridades no campo da educação ativa. “A Dra. Montessori via no Escotismo uma oportunidade para que as crianças de mais de 7 anos viessem a ter uma continuação natural daquilo que o Método Montessori proporcionava às crianças menores”.29


12. Escotismo para Todos (Escotismo e Inclusão)

Os jovens devem ser os principais agentes de seu próprio desenvolvimento, mesmo aqueles com incapacidades, e o Movimento Escoteiro deve oferecer-lhes – assim como faz aos demais jovens – plenas oportunidades para envolvimento e participação.

A fim de se evitar as palavras deficientes, incapazes, etc, o Movimento Escoteiro tem usado, em diversos países, outros termos para referir-se ao Escotismo com deficientes, como: “Escotismo de Extensão” ou “Escotismo para Todos”, sendo que a primeira expressão não transmite adequadamente a idéia de inclusão, buscada por nós. Assim, o Movimento Escoteiro no Brasil optou pela expressão “Escotismo para Todos”, sendo esse o tema para o ano de 2002.

Embora o conceito e a prática universal da inclusão sejam muito recentes, os mesmos já eram preconizados pelo Movimento Escoteiro, praticamente desde sua fundação. O fundador do Escotismo afirmava que “queremos especialmente ajudar o mais fraco a não sentir suas fraquezas, e a ganhar esperança e força”.30 Já em 1919, em seu livro “Aids to Scoutmastership”, Baden-Powell afirma: “Por toda parte no Escotismo há inúmeros meninos aleijados, surdo-mudos e cegos que agora estão ganhando mais saúde, alegria e esperança do que tinham antes.31 B-P, como Baden-Powell é chamado carinhosamente no Movimento Escoteiro, percebeu que algumas adaptações se faziam necessárias: “A maioria desses meninos não é capaz de passar nas provas escoteiras normais, sendo supridos com provas especiais ou alternativas”. Além disso, em consonância com a orientação dos nossos dias (isto é, 80 a 90 anos a sua frente), ele adverte que deve-se evitar a superproteção ou paternalismo: “O que é admirável nesses meninos é sua alegria e entusiasmo para fazer tudo o que lhes for possível no Escotismo. Eles não querem provas e tratamento mais especiais do que o estritamente necessário.”32 Seguindo o mesmo princípio, ele enfatiza a regra geral da educação: ajudá-los a tornarem-se autônomos o máximo possível e a adquirirem auto-estima: “O Escotismo os ajuda unindo-os à uma fraternidade mundial, dando-lhes algo que fazer e pelo que esperar, oferecendo-lhes uma oportunidade de provar a si mesmos e aos outros que eles podem fazer coisas por si mesmos – e coisas difíceis também”33.



Escoteiros em atividade ao ar-livre



12.1. Evolução Histórica34

No começo do século XX, quando foi fundado o Movimento Escoteiro, as pessoas portadoras de necessidades especiais eram isoladas e excluídas da sociedade para qualquer atividade, pois eram consideradas inúteis, inválidas e incapazes para trabalhar. Até certo ponto, as próprias associações escoteiras consideravam as pessoas deficientes um problema, que precisava de um programa especial. Durante muitos anos falava-se de “Escotismo para deficientes” em vez de “Escotismo com deficientes”. Naquela época, o Escotismo de Extensão era em grande parte o “escotismo comum praticado em hospitais, orfanatos e centros de reabilitação”.35

Nesse período – entre 1922 e 1968 – as associações escoteiras buscaram recrutar jovens de todas as vertentes da sociedade, incluindo os portadores de deficiências físicas. O tratamento que era dado a esses meninos variava, segundo a visão que tinham as associações ou grupos escoteiros que os acolhiam.

Em 1924 o New York Times publica uma reportagem sobre uma tropa de escoteiros fundada no Instituto Estadual para Cegos, do Estado da Pensilvânia (EUA). A reportagem diz que os meninos faziam suas atividades “como qualquer outro escoteiro”, com jornadas, acampamentos, excursões, jogos ao ar livre, natação, etc.

Em 1925 a associação de escoteiros do Estados Unidos – BSA – cria uma insígnia para meninos com limitações físicas.

Em 1949 o Escritório Internacional Escoteiro publica o livreto: “Scouting with the handicapped boy” – Escotismo com o menino deficiente, mais tarde traduzido para o espanhol.

Em 1956 a associação escoteira do Reino Unido publica a primeira edição do livreto: “Games for the handicapped” – Jogos para deficientes, com 124 jogos.

Até 1968, umas poucas publicações foram lançadas nessa área, na Nova Zelândia, Estados Unidos e França.

A partir de 1968, verificam-se mudanças significativas tanto no Escotismo como no ambiente social; fatos esses que caracterizam outro período de desenvolvimento do escotismo com portadores de necessidades especiais. No âmbito do Escotismo, as mudanças ocorreram a partir da Conferência Escoteira Mundial de 1967, em Seattle com a apresentação do “Relatório sobre o Escotismo Mundial”, preparado pelo Doutor Laszlo Nagy e a mudança do escritório mundial de Ottawa (Canadá) para Genebra (Suíça). No âmbito social, “a atitude geral da sociedade para com as pessoas com deficiência física ou mental, mudou significativamente, especialmente nos últimos 20 anos, fato que veio influenciar o próprio conceito de Escotismo de Extensão”.36 O ano de 1981 foi declarado “Ano Internacional das Pessoas com Deficiência”, fato esse que despertou a consciência internacional para o assunto.

Desde o estabelecimento do Escritório Escoteiro Mundial em Genebra, diversos fatos marcaram a evolução do Escotismo com deficientes, dos quais ressaltamos apenas alguns:

Criação, em 1971 da Comissão Mundial de Programa, com a Força Tarefa Mundial de Escotismo de Extensão. Publicação, em 1976, de versões atualizadas do livrete “These our brothers” em inglês, francês e espanhol. Parceria com a Organização Mundial da Saúde, em 1976/77, na área de Cuidados Primários de Saúde. Nomeação, em 1982, de Beatriz Lienhard-Fernandez como executiva encarregada do Escotismo de Extensão no Escritório Mundial. De 1982 a 1986, foram realizados seminários nas regiões Ásia-Pacífico, Inter-Americana, Árabe, e Européia; foi publicado o boletim “Together” (Juntos). Um dos resultados importantes desses seminários e publicações foi o uso de terminologia comum no Escotismo e a adoção de uma estrutura teórica facilmente compreensível, fatos esses que não apenas vieram facilitar a comunicação entre associações escoteiras como também acompanhar a terminologia internacional.

Em março de 1989 o Escritório Mundial publicou um kit composto de seis elementos, intitulado “Nós Podemos!”. O kit era dirigido aos líderes adultos responsáveis pelo Programa Escoteiro em geral e, em especial, pelos responsáveis pelo Escotismo de Extensão. Com uma linguagem positiva, o material inclui um resumo do Escotismo com deficientes, as pessoas que trabalham com os deficientes – suas atitudes, e o apoio que lhes é oferecido – e as habilidades necessárias para ajudar os deficientes.

Publicação (de 1988 a 1992) do boletim “AWARE”, que, além de divulgar as experiências pioneiras em termos de Escotismo com deficientes em diversos países, era uma ferramenta pedagógica do Escritório Mundial, que tornou-se um excelente material de leitura de referência no assunto. Além disso, o AWARE chamava a atenção da comunidade escoteira para as iniciativas e programas de outras Organizações Não Governamentais (ONGs).

Além disso, os Jamborees37 Mundiais introduziram em sua programação, a partir de 1991, a chamada Aldeia Mundial de Desenvolvimento que, entre outras dezenas de atividades educativas, incluía jogos e atividades relacionados à experiência dos portadores de necessidades especiais, que iam desde ajudar os participantes a entender como é ser um deficiente visual até a questão das milhões de minas anti-pessoais que mutilam dezenas de milhares de crianças a cada ano.

12.2. Experiências em Diversos Países

Nos últimos anos, diversas Organizações Escoteiras Nacionais adotaram abordagens originais para lidar com o assunto, a saber:

A Associação dos Escoteiros do Reino Unido publicou um livreto intitulado “Se eu empurrá-lo, ele quebra?”,38 a fim de ajudar os chefes escoteiros a trabalhar com jovens deficientes, e a recrutar mais jovens deficientes para o Movimento.

A Associação dos Escoteiros da Austrália publicou cinco manuais intitulados “Idéias Saudáveis para Membros Jovens”, visando a cinco faixas etárias – Castores, Lobinhos, Escoteiros, Seniores e Pioneiros.39

Os Escoteiros Católicos da Irlanda publicaram um livro sobre “Escotismo Integrado”, que combina teoria e prática a fim de receber e integrar jovens deficientes em seções escoteiras “normais”. O livro mostra que, longe de ser uma tarefa penosa, o processo de integração pode ser empolgante e divertido.40

A Federação dos Escoteiros Católicos da Bélgica desenvolveu um livreto sobre a integração de jovens portadores de necessidades especiais ao Escotismo. O título do livreto é: “Basta Passar a Ponte”. Essa publicação mostra aos chefes das diversas Seções que receber portadores de necessidades especiais não apenas é possível e desejável, como também enriquece todos os membros capazes da unidade.41

O “Movimiento Scout Católico” da Espanha, também publicou um livreto na mesma linha, chamado “Integrar: Uma Nova Aventura”. O livreto fala da integração de jovens deficientes ao Movimento Escoteiro e trata de três tipos de deficiência: física, mental e social.42

Nos Estados Unidos, a Boy Scouts of América editou diversas publicações, como: 1. Guia do Chefe Escoteiro para Trabalhar com Escoteiros com Incapacidade; 2. Escotismo para Rapazes com Incapacidades Físicas; 3. Entendendo os Lobinhos com Incapacidades; 4. Escotismo para Deficientes Auditivos; 5. Escotismo para Cegos e Deficientes Visuais; 6. Pioneiros com Incapacidades – Ajudas ao Programa; 7. Escotismo para Jovens com Incapacidades Emocionais; e 8. Escotismo para Jovens com Retardamento Mental. Hoje há, aproximadamente, 100.000 Lobinhos, Escoteiros e Pioneiros portadores de deficiências registrados na Boy Scouts of América, em mais de 4.000 unidades credenciadas por organizações comunitárias.

Os exemplos acima são apenas alguns entre muitos outros levados a cabo por Associações Escoteiras Nacionais, em consonância com a resolução da Conferência Escoteira Mundial de 1988 (vide o item Introdução deste trabalho). Hoje, podemos compartilhar das experiências positivas de todos esses anos de esforços no Movimento Escoteiro em diversas partes do planeta. Há centenas de jogos e atividades para cada tipo de deficiência, que podem ser jogados junto com as demais crianças, que foram testados e plenamente aprovados.43

A Patrulha de escoteiros “deficientes” (um é cego, outro usa somente uma perna, outro apenas uma mão, um é surdo e outro é mudo) é desafiada a montar uma barraca. O resultado é um exemplo de trabalho em equipe.

12.3. Experiências no Brasil

Em nosso país, alguns Grupos Escoteiros, em vários Estados, têm recebido em suas fileiras crianças portadoras de necessidades especiais. Trata-se, na maioria dos casos, de experiências isoladas e sem uma retaguarda institucional para a empreitada, isto é, sem o apoio de um programa oficial da União dos Escoteiros do Brasil que estabeleça princípios, oriente ações e defina limites, assim como uma estrutura de capacitação de voluntários adultos e jovens líderes para tarefa de tamanha responsabilidade como essa. A principal conseqüência dessa carência é a descontinuidade das iniciativas, por mais bem intencionadas que sejam.

Podemos citar como exemplos do esforço individual de Grupos Escoteiros, a experiência do Grupo Escoteiro Cruzeiro do Sul (49o/SP) na cidade de São Paulo, que, em parceria com a Associação de Assistência à Criança Defeituosa – AACD, promoveu, entre os anos 1963 e 1975, a integração de crianças portadoras de necessidades especiais às Alcatéias44 do Grupo.

Alguns Grupos Escoteiros, em diversos Estados do país, têm recebido isoladamente crianças ou jovens deficientes, principalmente parentes de membros do Movimento Escoteiro. Contando com a boa vontade dos Escotistas45 e dos membros jovens, esses meninos e meninas são recebidos com entusiasmo, mas logo tanto os adultos como os jovens sentem o peso da falta de conhecimento para lidar com essas pessoas portadoras de necessidades especiais. Outros Grupos ou Seções de Grupos Escoteiros tentam atuar junto a entidades de assistência a portadores de necessidades especiais. Nesse caso, trata-se de promover periodicamente atividades conjuntas entre escoteiros e as crianças atendidas por essas instituições, que na verdade são “atividades especiais”, estanques e periódicas. Em outras palavras, essas “atividades especiais”, apesar de instantaneamente compensadoras, não estão inseridas em um programa educativo que contemple o potencial de cada criança ou jovem nas seis áreas de desenvolvimento preconizadas pelo Movimento Escoteiro, assim como não estabelece metas nem realiza avaliações com as próprias crianças. Na maioria dos casos, a falta de conhecimento das deficiências – sua etiologia, manifestações, limitações e possibilidades de tratamento – assim como a falta de preparo e apoio institucional da própria UEB, resultam em desânimo de ambas as partes e a conseqüente cessação das ações.

Neste paradigma, reconhece-se que os atuais programas e estratégias de Escotismo para Todos são insuficientes ou carecem de ajustes conceituais e técnicos, tendo em vista a inclusão das crianças e jovens com necessidades especiais. Como afirmamos acima, nos lugares onde existem atividades voltadas apenas a grupos específicos, elas funcionam com programas especiais, instituições especializadas e docentes especializados, estando, portanto, à margem do programa educativo regular – Programa de Jovens – que no nosso país ainda não contempla a inclusão. Admite-se que essas experiências, embora com a maior boa vontade dos participantes, conduzem muitas vezes à exclusão: a diferenciação torna-se uma forma de discriminação, as crianças que têm necessidades especiais acabam por ficar de fora da vida normal de um Grupo Escoteiro, continuando, mais tarde, sua vida social e cultural excluídas da comunidade.

Em 1998, Seniores e Pioneiros dos Grupos Escoteiros Marechal Rondon (108o/RS) e Léo Borges Fortes (80o/RS), no Estado do Rio Grande do Sul, assumiram a primeira atividade do Projeto Basta Passar a Ponte (anexo ao presente trabalho). Trata-se de projeto desenvolvido pela Federação dos Escoteiros Católicos da Bélgica, traduzido e adaptado para as condições brasileiras por uma equipe de líderes e jovens líderes desses Grupos Escoteiros. Desde então, outros 11 G.E.s do Rio Grande do Sul e um do Paraná engajaram-se ao Projeto, que envolve também 9 instituições de ensino do Rio Grande do Sul. O Projeto, que visa “criar as condições necessárias para que, através da capacitação, divulgação e atividades, os Grupos Escoteiros consigam acolher com maturidade e segurança, portadores de necessidades especiais, na busca de uma efetiva integração social”46 tem crescido e produzido alguma repercussão, principalmente no Rio Grande do Sul e tem encontrado boa receptividade por parte da UEB, que pensa em torná-lo oficial para todo o país.

Contudo, como expusemos anteriormente, ao discutir os conceitos de inclusão e integração, encontramos alguns pontos que acreditamos devem ser mais bem considerados para que possamos falar efetivamente de “Escotismo para Todos” no Brasil. Esses pontos são tratados no item a seguir.


Ser diferente não é ser desigual.

Escotismo inclusivo – uma maneira divertida de desenvolver o ser humano integralmente, valorizando o potencial e a beleza que cada um traz.



13. Programa “Escotismo para Todos”

O Programa de Jovens do Movimento Escoteiro foi desenvolvido para exercer influência sobre as áreas de desenvolvimento – físico, intelectual, social, afetivo, espiritual e de caráter – que se interligam na personalidade de cada indivíduo. Baseado em objetivos educacionais finais e intermediários para cada uma dessas seis áreas, o Programa pode perfeitamente ser aplicado aos portadores de necessidades especiais, uma vez que, desde que inicia o período introdutório, o jovem decide, de comum acordo com o Escotista encarregado de seu acompanhamento, os objetivos para essa etapa. O Programa de Jovens já prevê, como vimos, a figura de um Escotista encarregado do acompanhamento de um certo número de jovens. No caso do jovem portador de necessidades especiais, esse Escotista deve ter feito o Curso Técnico de Escotismo para Todos (abaixo descrito).

A avaliação da progressão é pessoal e contínua e visa acompanhar “o avanço que o jovem alcança paulatinamente na obtenção das condutas previstas em seus objetivos. Compreende todos os aspectos de sua personalidade e incorpora as idéias afins de crescimento e desenvolvimento. Mesmo quando essas expressões têm matizes que as diferenciem, podem ser usadas como sinônimos de progressão pessoal (grifo nosso). O ‘acompanhamento’, por seu turno, não consiste apenas em recolher e acumular informação com o objetivo de determinar até que ponto a conduta do jovem se aproxima ou se afasta daquela prevista em seus objetivos pessoais. É um processo ameno que acompanha o desenvolvimento, estimula a participação do jovem na Tropa, eleva sua auto-estima e o ajuda a melhorar o nível de conquista de seus objetivos. É acompanhamento, e não controle”.47 De fato, todo o Programa se desenvolve de maneira a possibilitar a inclusão, desde o Ramo Lobinho até o Ramo Pioneiro.

13.1. Normas para Implantação do Programa



  1. Antes de aderir ao Programa de Escotismo para Todos, deve-se consultar, discutir e motivar os jovens, os Chefes e os pais da Seção que está disposta a incluir CPNE, assim como da Diretoria do G.E. Somente com o acolhimento de todos o Projeto pode ser bem sucedido. Tomando-se a decisão de aderir ao Programa, o primeiro passo é capacitar um ou dois Escotistas da Seção com o Curso Técnico de Escotismo para Todos.

  2. O trabalho com crianças e jovens portadores de necessidades especiais pode originar-se basicamente de duas fontes: O próprio G.E. decide aderir ao Programa e procura uma instituição que trabalha com CPNE, ou o G.E. é procurado pelo interessado (o jovem, os pais deste ou uma instituição).

  3. Em qualquer dos casos acima, deve-se buscar um adulto que esteja disposto a colaborar, como voluntário, na Seção onde o jovem vai participar. Podem ser os pais ou parentes do jovem, que normalmente estão envolvidos com sua educação, ou alguém do corpo de voluntários da instituição. Esses adultos já têm um bom conhecimento e experiência acerca da incapacidade ou desvantagem da criança ou jovem postulante.

  4. O adulto captado recebe a Palestra Informativa, no próprio G.E. e é encorajado a fazer o Curso Preliminar da linha Escotista, uma vez que trabalhará não apenas com a CPNE, mas com um grupo – Matilha, Patrulha ou Equipe – necessitando, portanto, ter mais familiaridade com o Movimento Escoteiro.

  5. Enquanto aguarda o primeiro Curso Preliminar da linha Escotista disponível, o adulto captado começa sua integração na Seção, antes da entrada do jovem postulante, ao mesmo tempo em que cumpre as tarefas prévias para o Curso Preliminar. Nesse período – que deve ser o mais curto possível – o novo voluntário instrui os Escotistas que fizeram o Curso Técnico de Escotismo para Todos, assim como o líder da Matilha, Patrulha ou Equipe que receberá o jovem, nas peculiaridades das necessidades especiais daquele jovem. O voluntário também orienta os Escotistas do G.E. a respeito das adaptações físicas que precisam ser feitas na sede. Nessa fase o novo voluntário fica dispensado de firmar Acordo Mútuo e Acordo com Assessor Pessoal.

  6. Terminado o Curso Preliminar, o voluntário assina Acordo Mútuo com o Grupo Escoteiro e com Assessor Pessoal de Formação, e é registrado na UEB.

  7. Agora que a Seção está estruturada e as instalações do G.E. estão preparadas para receber o jovem, este ingressa no Movimento Escoteiro, onde deverá iniciar uma nova etapa de sua vida.

13.2. Considerações Adicionais



A participação dos pais é mais que bem-vinda, pois estes, além de conhecer a fundo o problema do filho, têm enfrentado, vencido ou desenvolvido estratégias que funcionam no âmbito familiar no que se refere às necessidades especiais de seu filho. Sem dúvida, os pais têm muito a acrescentar em experiência, sendo sua presença mais um fator de segurança emocional para a criança. Portanto, deve-se apresentar-lhes a Palestra Informativa e encorajá-los a fazer o Curso Preliminar da linha Escotista, para que possam ajudar na Seção, não apenas cuidando de seu próprio filho, mas de um grupo de crianças nos princípios da inclusão.

Acolhimento por parte dos jovens Não importando quão entusiasmados estejam os pais e os Escotistas, o sucesso ou fracasso da inclusão de uma criança com necessidades especiais dependerá muito da atitude dos jovens que já pertencem ao grupo. É importante envolvê-los ativamente no planejamento e nas tomadas de decisão.

Deve-se pedir aos jovens líderes (Monitores de Patrulhas) que discutam no Conselho de Patrulha48 e, posteriormente, na Assembléia de Tropa49, ou na Roca do Conselho50 (no caso de Lobinhos). A fim de ajudá-los nessa tarefa, pode-se entregar a cada Monitor uma mensagem com o seguinte teor: “Imaginem que um(a) jovem deficiente, que só pode locomover-se em cadeira de rodas, deseja tornar-se membro de nossa Patrulha/Tropa. Os Chefes querem saber a nossa opinião sobre o assunto, e, se nos pedissem para recebê-lo(a), se o(a) acolheríamos e o(a) ajudaríamos a tornar-se um(a) bom(boa) Escoteiro(a).” Pode-se fazer algumas perguntas para estimular a discussão: “Se tivéssemos um portador de necessidades especiais na Patrulha/Tropa, como as atividades seriam afetadas? Que outras coisas precisaríamos para ajudá-lo(a)? Vocês acham que um jovem portador de necessidades especiais gostaria de ser Escoteiro?”

Após discutirem o assunto por uns 15 minutos, sem a presença dos adultos, deixe que relatem a reunião. O que eles falarem poderá levar a uma explanação sobre Escotismo para Todos e a uma oportunidade para corrigir mal-entendidos. Esse tipo de abordagem pode dar à Patrulha (ou Tropa/Alcatéia/Clã) o sentimento de envolvimento com a questão e ajudar a encorajá-los a pensar em termos reais e pessoais.

Outra abordagem pode ser um jogo, onde os Escoteiros jogam com os olhos vendados, ou com apenas uma perna tocando o chão, ou comunicando-se apenas por meio de sinais, de maneira que possam considerar como uma pessoa com deficiência visual, ou com deficiência física ou auditiva sente-se ao fazer algo que para eles é absolutamente simples. Vale lembrá-los de que um portador de necessidades especiais tem dificuldade para fazer determinadas coisas, mas pode fazer outras coisas tão bem quanto eles (ou melhor).



Parcerias Encorajamos, também, os Grupos Escoteiros a desenvolver parcerias com entidades de assistência a crianças portadoras de necessidades especiais. Muitas dessas organizações podem ajudar no desenvolvimento e publicação de material de apoio aos Escoteiros portadores de necessidades especiais e aos Escotistas que os acompanham, como literatura, peças audiovisuais, e guias em Braile. Nessas organizações também encontraremos pessoas dispostas a ingressar no Movimento Escoteiro, como voluntários, com o fim de ajudar no trabalho de inclusão.

A progressão pessoal Uma vez que os tipos de deficiências, assim como seu grau de intensidade, variam de caso para caso, seria impossível produzir um documento que leve em conta todas essas variações para efeito do acompanhamento da progressão pessoal do jovem. Por isso, são absolutamente necessários um bom entendimento e a implementação criativa de critérios de progressão que ajudem a alcançar os objetivos educacionais em cada caso particular.

Adaptação do espaço físico Quando se recebe uma criança portadora de necessidades especiais no Grupo Escoteiro, deve-se preocupar com a preparação do espaço físico, provendo acessos adequados e instalações físicas que satisfaçam às necessidades específicas. Quão difícil é mudar uma reunião de Seção a fim de acomodar uma CPNE? Surpreendentemente não é muito difícil – se os Escotistas planejarem com antecedência. Além disso, a própria criança pode surpreender também por sua capacidade de adaptação a determinadas situações.

Especialidades A introdução do Programa “Escotismo para Todos” cria imensas possibilidades de aperfeiçoamento, adaptação e criação de novas especialidades, como: a criação de Especialidade de Intérprete para Surdo-mudos; adaptação, quando possível, de exigências para a conquista de especialidades, segundo o grau de incapacidade ou desvantagem do jovem.

A UEB pode instituir um instrumento específico de reconhecimento de mérito (diploma, medalha, troféu) para os Escotistas e jovens líderes que se destacaram no ano anterior, tendo demonstrado excepcional serviço e liderança no campo do Escotismo para Todos; e para Grupos Escoteiros que incluíram pelo menos cinco crianças no mesmo período. Essa recompensa pode ser concedida pelo Conselho de Administração Nacional por indicação das Diretorias Regionais.


13.3. Curso Técnico de “Escotismo para Todos”

A seguir, apresentamos uma proposta de conteúdo programático para um Curso Técnico de Escotismo para Todos. Essa proposta, depois de discutida pela Comissão Nacional de Programa de Jovens deve ser submetida à Comissão Nacional de Gestão de Adultos para aprovação e posterior proposta ao Conselho de Administração Nacional, a fim de se incluir oficialmente nas Diretrizes Nacionais de Gestão de Recursos Adultos da UEB.

O Curso é obrigatório para, pelo menos dois Escotistas de qualquer Seção que deseje trabalhar com criança portadora de necessidades especiais. Somente então, a Seção será devidamente credenciada pela UEB, mediante emissão de Certificado, para trabalhar com CPNEs.

Os pré-requisitos são: ter pelo menos 18 anos e ter sido aprovado no Curso Preliminar de qualquer uma das três linhas de formação de adultos da UEB.51

O curso pode ser ministrado de forma concentrada ou descontínua, desde que contemple todo o conteúdo programático e respectiva carga horária previstos.

13.4. Conteúdo Programático do Curso

OBJETIVO: Capacitar o adulto e o jovem líder a atuarem no Programa de Escotismo para Todos, da UEB.


  1. Estrutura Conceitual: Deficiência, Incapacidade, Desvantagem

    • Incidência da incapacidade no mundo e no Brasil

    • Da deficiência à desvantagem (processo de evolução)

    • Prevenção, Reabilitação e Inclusão

  2. Inclusão – conceito e histórico

    • Incluir é mais que integrar

    • Auto-confiança e autonomia

    • O papel essencial da família

    • Escotismo e inclusão

  3. Papel e Postura do Escotista e dos Jovens no Processo de Inclusão

    • O Escotista

      • A cobrança varia de acordo com o nível de cada um

      • O nível da Patrulha e da Tropa não cai

      • Os potenciais máximos são trabalhados individualmente

      • Criatividade na aplicação do programa de jovens

      • A importância de comunicar-se adequadamente com a criança, em razão de sua necessidade especial

    • Os Jovens

      • Como ajudá-los a acolher e incluir

  4. O papel dos pais no processo de inclusão

    • Como aproveitar sua experiência pessoal

    • Capacitação como Escotistas, para atuar não apenas com a CPNE

  5. A Criança e Sua Relação com o Conhecimento

    • A capacidade de pensar: da curiosidade ao desejo de aprender

    • A inibição intelectual

  6. Noções de Psicomotricidade

    • Esquema corporal

    • Estruturação espaço-temporal e lateralidade

  7. Fatores Emocionais da Criança Portadora de Necessidades Esp.

    • Da dependência à independência no desenvolvimento do indivíduo (Winnicott)

    • A Criança Portadora de Necessidades Especiais

  8. Características Orgânicas das Deficiências Físicas e Mentais

    • Deficiência mental, física, auditiva, visual ou múltipla

    • Autismo

    • Insuficiências orgânicas

    • Distúrbios emocionais

    • Transtornos mentais (Síndrome de Dawn, Paralisia Cerebral, etc.)

  9. Jogos e atividades para CPNE52 (teoria/prática)

    • Função dos jogos

    • Programação

    • Aplicação

  10. Adaptação das instalações físicas do Grupo Escoteiro

    • Necessidades específicas para cada caso de deficiência ou desvantagem.

13.5. Bibliografia Indicada para Subsidiar o Curso Técnico



  1. AMIRALIAN, M. L. T. M., Psicologia do Exepcional, EPU São Paulo, 1986

  2. Bárbaro, D. M.. Educação Física e a Pessoa Portadora de “Deficiência”, (1997) Uberlândia, MG.

  3. Belizário Filho, José Ferreira, Inclusão. Uma revolução na saúde, WVA, 1ª ed., 1999

  4. Bobath Karel, Deficiência Motora Pac. Par. Cerebral, Manole

  5. Carlo, Marysia M. R. P., Se essa casa fosse nossa: instituições e processos de imaginação na educação especial . São Paulo: Plexus, 1999

  6. Farah, Itamar Marcondes , Pagnanelli, Nancy. Somos todos iguais. São Paulo: Memnon, 1998

  7. Ferreira, Solange Leme. Aprendendo sobre a deficiência mental: um programa para crianças. São Paulo: Memnon, 1998

  8. FERREIRA, M. R. & BOTOME, S. P., Deficiência Física e Inserção Social: a formação de recursos humanos, EDUCS, Caxias do Sul, 1984

  9. FONSECA, V., Educação Especial, Artes Médicas, Porto Alegre,RS, 1990

  10. Kassar, Mônica de Carvalho Mag, Deficiência Múltipla e Educação no Brasil, Autores Associados

  11. Melo, Helena Flavia R., Deficiência Visual, Unicamp

  12. MIRANDA, Clara Feldeman & Márcio Lúcio, Construindo a Relação de Ajuda, Crescer, Belo Horizonte, MG, 1991.

  13. Mosquera, Carlos, Educação Física para Deficientes Visuais, Sprint

  14. MULLER, Iara. Encarando a deficiência. São Leopoldo, RS, Sinodal, 1990. 56 p.

  15. OLIVEIRA, Gislene C., Psicomotricidade – educação e reeducação num enfoque psicopedagógico, Vozes, Petrópolis, RJ, 1997.

  16. OMOTE, S., Efeitos de um Rótulo Verbal Estigmatizante Sobre a Percepção das Emoções, Revista Macro, IV(4): 89-103.

  17. ROSA NETO, Francisco, Manual de Avaliação Motora, Artmed, Porto Alegre, RS, 2002

  18. SASSAKI, Romeu Kazumi, Inclusão – construindo uma sociedade para todos, Rio de Janeiro: WVA, 3a ed. 1997

  19. Schwartzman, José Salomão [et.al].- Síndrome de down. São Paulo. Memnon,1999.

  20. STAINBACK, S. E STAINBACK W. Inclusão – Um Guia para Educadores. Artmed Ed., Porto Alegre, 1999.

  21. Werneck, Claudia, Muito prazer, eu existo, 4ª ed., 280p.

  22. ____, Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva, 2ª ed., 314p.

  23. ____, Sociedade Inclusiva – Quem cabe no seu todos?, 1ª ed., 236p

  24. Winnicott, Clare. Explorações psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: Artes Médicas,1994.


14. A Importância de uma Visão Psicopedagógica

Primeiramente, é necessário esclarecer que: cada caso, isto é, cada criança a ser incluída, deve ser considerada como um ser integral, a despeito de sua deficiência – seja ela de ordem física ou mental. Assim, ao se estudar a etiologia do caso, deve-se considerar os fatores emocionais, orgânicos, cognitivos, familiares e sociais, que envolvem a criança. Evidentemente, não se espera que cada Escotista seja um Psicopedagogo, mas é importante ter noções dos fatores acima relacionados para entender o diagnóstico dos profissionais e possibilitar uma atuação eficaz. Daí a importância do Curso Técnico de Escotismo para Todos, que visa dar uma visão geral da questão da inclusão.

O Escotista é um educador e, como tal, deve conscientizar-se de que sua atuação pode e deve ser decisiva no processo de educação dos jovens. Portanto, é importante conhecer os fatores biológico e social do comportamento. “O comportamento do homem é formado pelas peculiaridades e condições biológicas e sociais do seu crescimento. O fator biológico determina a base, o fundamento das reações inatas, e o organismo não tem condição de sair dos limites desse fundamento, sobre o qual se erige um sistema de reações adquiridas. Nesse caso, aparece com plena evidência o fato de que esse novo sistema de reações é inteiramente determinado pela estrutura do meio onde cresce e se desenvolve o organismo. Por isso toda educação é de natureza social, queira-o ou não”.53

A criança portadora de necessidades especiais sofre primeiramente por “ser diferente” de seus pares, por não conseguir acompanhá-los em determinadas atividades e, até mesmo, pelo escárnio de outras crianças. “A criança pode ser muito cruel, sobretudo quando está em grupo. A diferença faz surgir apelidos e fofocas. Não suportaríamos ver o Daniel com a síndrome de Down, ser chamado de retardado”, afirma Liana John, de Campinas, em depoimento no livro “Ninguém Vai Ser Bonzinho na Sociedade Inclusiva”, de Cláudia Werneck, que explica o conceito de inclusão. Podemos afirmar que, em sua maioria esmagadora, as crianças e jovens portadores de necessidades especiais têm um grau de auto-estima muito baixo. Nessa área a prática do Escotismo pode ser altamente compensadora para tais crianças, pois irá ajudá-las a conquistar – e, em alguns casos, recuperar – um maior grau de auto-estima, tão necessária para vencer nas outras áreas da vida. A experiência mostra que os jovens portadores de necessidades especiais que têm a oportunidade de vivenciar o Escotismo, melhoram consideravelmente seu rendimento escolar.

É importante, também, ter informações sobre os diversos tipos de deficiência física e mental, suas causas orgânicas, prevenção e possível tratamento. Conhecer os limites físicos e intelectuais dessas crianças evitará uma ação indesejada de exigências exageradas ou precauções desnecessárias com elas.

Noções de psicomotricidade também podem ser úteis para se trabalhar o esquema corporal, ajudando a criança portadora de necessidades especiais a ter uma percepção melhor de sua imagem corporal, de seus limites e possibilidades. “A reeducação psicomotora tem por objetivo desenvolver o aspecto comunicativo do corpo, o que equivale a dar ao indivíduo a possibilidade de dominar seu corpo, de economizar energia, de pensar seus gestos a fim de aumentar-lhes a eficácia e a estética, de aperfeiçoar o seu equilíbrio”.54 A aplicação de jogos e atividades adequados pode ser de grande ajuda para se trabalhar também a estruturação espaço-temporal – o tempo, o espaço, a distância e o ritmo – a lateralidade.

O Escotista chefe da Seção, deve solicitar aos pais da criança, quando do seu ingresso no Grupo Escoteiro, um relatório Psicopedagógico e uma avaliação clínica e/ou psicológica da criança. A avaliação clínica pode ser feita por um oftalmologista, fonoaudiólogo, neurologista, fisiatra, etc., dependendo de cada caso. Essas informações devem constar da documentação do jovem, juntamente com sua ficha 120.55

15. Benefícios da Inclusão

Todos ganham com a convivência das diferenças:



  • Os portadores de necessidades especiais saem fortalecidos com o aprendizado emocional, social e intelectual;

  • Eles podem “estender seus limites” e desenvolver outras habilidades que os capacitem para a autonomia e os façam sentir-se úteis à sociedade e ao país;

  • Eles aprendem a se defender contra as adversidades da vida real;

  • Com os amigos, aos poucos e sem perceber, vão tomando contato com valores de primeira grandeza, como amizade e respeito, sentem-se “parte do grupo”, melhorando sua capacidade de relacionamento social e sua auto-estima;

  • Seus companheiros de Patrulha e de Tropa ‘normais’ vencem as resistências. Ao lidar com as peculiaridades dos novos amigos, percebem a impropriedade de certos rótulos;

  • Eles serão capazes de entender melhor outras pessoas e vencer os preconceitos;

  • Eles serão mais capazes de conviver com outras pessoas, a despeito das diferenças que possam existir.



16. Pontos a serem discutidos

Restam alguns ‘pontos obscuros’ que merecem ser discutidos pela CNPJ, se possível assessorada por especialistas, a fim de se definir a posição oficial da UEB a respeito. Listamos, abaixo, alguns exemplos:



  • A CPNE e a Promessa Escoteira – Como aferir o grau de entendimento da Promessa e Lei Escoteiras por parte das crianças com deficiência mental? Deve-se estudar um texto alternativo para elas? Seria possível isentá-las da Promessa?

  • Adaptar o Programa – Fazer adaptações às exigências para a conquista de especialidades por parte das CPNE pode ferir o princípio da inclusão? Essa adaptação pode variar segundo o grau de intensidade de incapacidade da criança? Deve-se criar especialidades especiais para portadores de necessidades especiais?

  • Auto-avaliação – A criança com retardamento mental tem capacidade para se auto-avaliar?


17. Atitudes Inclusivas Fundamentais no Escotismo56

O Escotista está comprometido com a filosofia do Escotismo para Todos quando:



  • está mais interessado no que o jovem deseja aprender do que em rótulos sobre ele;

  • respeita o potencial de cada jovem e aceita igualmente a todos;

  • tem uma postura que propicia ajuda na solução de problemas e dificuldades;

  • acredita que todos os jovens conseguem desenvolver habilidades básicas;

  • estimula o jovem a direcionar seu aprendizado de modo a aumentar sua autoconfiança, a participar mais plenamente na sociedade, a usar mais o seu poder pessoal e a ter uma atitude que favoreça a mudança na sociedade;

  • acredita no jovem e em sua capacidade de aprender;

  • não poupa elogios quando algum êxito é alcançado;

  • só ajuda quando for estritamente necessário ou quando houver perigo;

  • estabelece formas criativas de atuação com as CPNE;

  • deseja primeiro conhecer o jovem e aumentar sua autoconfiança;

  • acredita que se pode estabelecer objetivos educacionais e que, para alcançá-los, pequenos passos podem ser úteis;

  • defende o princípio de que não deve haver Grupos Escoteiros, Alcatéias ou Tropas especiais para incluir as CPNE;

  • sabe que é necessário prover suportes (acessibilidade arquitetônica, Chefes e jovens líderes treinados, horários flexíveis, etc.) a fim de incluir a todos;

  • está preparado para indicar recursos adequados às necessidade dos jovens, tais como: livros, entidades, aparelhos, etc.

  • sabe que a educação deve ser baseada nos objetivos do jovem e que cada jovem será capaz de escolher métodos e materiais para alcançar esses objetivos educacionais;

  • conhece jogos e atividades específicos que promovem a integração de todos os jovens da Seção;

  • sabe avaliar o potencial de cada jovem e encorajá-los naquilo que eles podem desenvolver-se;

  • estimula outras pessoas importantes na vida do jovem a se envolverem com o processo educativo;

  • é flexível nos métodos de avaliação, pois reconhece que provas e exames provocam medo e ansiedade nas pessoas;

  • utiliza as experiências de vida da própria criança como fator motivador da aprendizagem dela;

  • pergunta primeiro se a criança deficiente quer compartilhar informações sobre sua deficiência e só em caso afirmativo passa essas informações para outras pessoas;

  • é um bom ouvinte, para que os jovens possam falar sobre a realidade da vida que levam;

  • entende e adota plenamente o acompanhamento da progressão pessoal, acompanhando o desenvolvimento dos jovens, ajudando-os a alcançar o desenvolvimento integral e a tornarem-se pessoas autônomas, solidárias, responsáveis e comprometidas, participantes na construção de um mundo melhor.

Em muitos jogos há papéis ativos e passivos, garantindo a participação de todos


18. Práticas Educacionais não Inclusivas57

Você sabe que NÃO é inclusão:



  • quando há uma Patrulha de inclusão;

  • quando há uma Tropa de inclusão;

  • quando há um Chefe de inclusão;

  • quando há “escoteiros de inclusão”;

  • quando não há no Grupo Escoteiro uma consciência de inclusão, uma aceitação das diferenças e uma co-responsabilização em relação às necessidades dos outros;

  • quando se recorre constantemente aos pais que busquem seu filho por causa do seu “comportamento”...

  • quando se tem um sentimento crônico de que alguma coisa não está certa;

  • quando o pai fala para o filho que ele não precisa mais voltar para aquele Grupo Escoteiro e ele responde: ”Graças a Deus!”;

  • quando a “inclusão” ocorre apenas em atividades especiais;

  • quando os pais não se sentem bem-vindos;

  • quando se vive o sentimento de não pertencer;

  • quando o portador de necessidades especiais é o único que não vai para um passeio, excursão ou acampamento;

  • quando nenhum Escotista ou jovem líder é treinado para que a CPNE tenha um apoio para desenvolver suas potencialidades;

  • quando o Escotista ou jovem líder apóia a CPNE e não apóia o restante da Patrulha ou da Tropa;

  • quando a criança é incluída na Alcatéia, mesmo tendo 13 anos de idade;

  • quando o pai sente definitivamente que teria sido melhor não ter levado seu filho lá;

  • quando os companheiros de atividades das crianças são as outras crianças e o do seu filho é sempre o Chefe ou o Assistente;

  • quando ninguém nunca, jamais, ouviu falar de amizade, acolhimento.






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