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Universidad Privada de Santa Cruz de la Sierra

ALAIC – Associación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación

ABOIC – Associación Boliviana de Investigadores de la Comunicación

VI Congreso Latinoamericano de Ciencias de la Comunicación

del 5 al 8 de Junio de 2002

Santa Cruz de la Sierra, Bolivia 


(GT – Folkcomunicación)
Da religiosidade canônica à popular: a Basílica da Penha do Recife - Pernambuco


Lúcia Noya Galvão


Mestranda do curso de Mestrado de Administração Rural e Comunicação Rural da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

lucianoya@uol.com.br
Salomé Ratis

Aluna especial do curso de Mestrado de Administração Rural e Comunicação Rural da Universidade Federal Rural de Pernambuco.



salomenete@aol.com

RESUMO: As religiosidades canônica e popular observadas no maior templo católico da cidade do Recife, capital de Pernambuco, Estado do Nordeste do Brasil, a Basílica da Penha. Observação das devoções a Santo Urbano – canonizado pela Igreja - a Dom Vital Gonçalves de Oliveira - o bispo que se tornou o principal personagem da Questão Religiosa, envolvendo a Igreja Católica e a Maçonaria - e à “beata” Rita Ramalho, cujos restos mortais encontram-se sepultados no templo, feitas no dia 2 de novembro de 2001, consagrado aos Finados e a primeira sexta-feira daquele mês. A devoção ao santo canonizado se revela expressiva entre as pessoas de faixa etária superior aos quarenta anos. O túmulo da “beata” é visitado por numerosos fiéis, que confessam repetir as homenagens a cada sexta-feira de todas semanas. Já para Dom Vital, bispo herói, em processo de canonização, apenas uma vela de sete dias acesa, como, também, declarações de poucas pessoas sobre haver feito pedidos e alcançado graças. Ao final, a colocação: será que é como se o povo quisesse dizer “eu escolho os meus santos e não aceito movimentos impositivos”?

SUMMARY: The canonical and popular religiosities observed in the largest Catholic temple of the city of Recife,capital of Pernambuco. State of the Northeast of Brazil, the Basilica of the Rock. Observation of the devotions to Urban Saint–sainted for the Church - to Vital Talent Gonçalves of Oliveira - the bishop that became in the principal character of the Religious Subject, involving the Catholic Church and the Freemasonry - and to the “bigot” Rita Ramalho, whose mortal remains are buried in the temple, on November 2, 2001, consecrated All Souls' Day. The devotion to the sainted saint reveals expressive among the people of superior age group to the forty years. The grave of the “bigot” it is visited by numerous followers, that admit to repeat the homages on every Friday of every week. Already for Vital Talent, bishop hero, in canonization process, a candle of seven days just lit, as, also, few people's declarations on having made requests and reached thanks. At the end, the placement: will it be that is as if the people meant “do I choose my saints and not I do accept movements impositives?”
PALAVRAS-CHAVE: religiosidade canônica; religiosidade popular
1 Introdução

A Basílica da Penha, a despeito de informações contraditórias12, tem registrada a sua construção como concluída em 6 de novembro de 1870. A Basílica, que fica na praça do Mercado de São José, é confiada aos frades capuchinhos. Diariamente, a igreja está aberta das 5 às 18 horas, mas é sempre às sextas-feiras que ocorre maior afluência de fiéis, para a bênção de São Félix, uma cerimônia que se repete a cada hora em hora e que consta da aspersão de água benta, depositada num tonel atrás do altar principal.

A observação foi procedida numa manhã inteira da sexta-feira, dia de finados, 2 de novembro de 2001 e documentada em vídeotape, fotografia e gravação sonora. A visita de observação fora antecedida de uma outra visita preliminar, levada a efeito em 31 de outubro, e se destinou a favorecer o posicionamento logístico e operacional, além de permitir certa familiarização com o templo.

Antes do dia em que os registros foram procedidos – o 2 de novembro – foram procedidas visitas a ambientes do templo a fim de estabelecer possíveis situações em que se trabalharia.Foram visitados:

- o altar de Santo Urbano, que repousa, com suas vestes militares, ele que foi guerreiro e é protetor dos militares e das profissões; no altar onde consta que está depositada uma relíquia sua, foram encontradas, acesas, velas de sete dias; os ex-votos em cera (casinhas), que foram vistos no dia 3l de outubro – o dia da prospecção - haviam sido retirados;

- o túmulo de Rita Ramalho, localizado no ossuário interno da Basílica, que repousa ao lado da sua mãe, Maria Ramalho; muitas velas de sete dias e orações; evidências de visitas constantes em razão dos “pedidos” colocados nas frestas das pedras tumulares;

- o túmulo-monumento, em mármore, do bispo Dom Vital, com apenas uma vela de sete dias acesa.

Nos outros altares, mais e mais velas comuns e de sete dias, sendo que no de São Félix o maior número. Os santos canonizados com fiéis, a beata, “santificada” pelo povo, muito visitada e o antigo bispo do Recife, que está em processo de canonização, solitário, com apenas uma vela de sete dias acesa.



2 Histórico

2.1 A Ordem dos Frades Capuchinhos

Segundo o historiador Flávio Guerra, os primeiros frades capuchinhos chegaram a Pernambuco, em 1641, no porão de um navio carregado de escravos procedente da Guiné Francesa3. Naquela época Pernambuco estava sob o domínio holandês, sendo governador da colônia o Conde João Maurício de Nassau-Siegen, que mandou alojar, separadamente, os frades, nos abandonados e arruinados conventos de São Bento, de São Francisco e do Carmo, em Olinda. Os capuchinhos franceses apoiaram os portugueses contra os holandeses e terminada a dominação o General-governador Francisco Barreto doou à ordem religiosa uma casa de sobrado, no bairro de Santo Antônio do Recife, em 1655, para que fossem construídas a Igreja de Nossa Senhora da Penha e um hospício. Em 1656, Belchior Alves e sua mulher Joana Bezerra, doaram aos capuchinhos um grande terreno, situado no lugar chamado de Fora de Portas de Santo Antônio, onde foram feitas as duas construções.

No altar-mor do templo foi colocada a imagem de Nossa Senhora da Penha, segundo a invocação baseada na lenda do aparecimento da Virgem Santa ao pastor Simão Pedro, nas fraldas dos Pirineus, às margens do rio Gave, protegendo-o contra um feroz crocodilo que ia atacá-lo, estando ele dormindo. A invocação emocionou os recifenses e, dentro de pouco tempo, tornou-se bem popular a fama dos religiosos, que passaram a ser conhecidos como os “frades da Penha”. Em 169l, o hospício por eles mantido já era indicado quando se tratava de obra de caridade oficial. Durante terrível epidemia de febre o governo criou três novos cemitérios, um deles no quintal do hospício dos padres de Nossa Senhora da Penha.

No início do século XVIII querelas políticas entre Portugal e França fizeram com que os capuchinhos franceses tivessem de abandonar o Brasil. Depois, a igreja e o hospício passaram a responsabilidade dos capuchinhos de origem italiana, tendo aquela missão sido elevada ao grau de Prefeitura Eclesiástica, em l725. Em 1745 o Prefeito-frei Carlos José de Spezia substituiu a primitiva imagem de Nossa Senhora da Penha por outra de vulto natural, modelada pelo escultor genovês Marangnone, que é a mesma que está no altar-mor da atual Basílica da Penha. No período de 1773 a 1784 novas reformas foram levadas a efeito em todo o edifício.

Em 1831 um decreto governamental proibiu a permanência, em Pernambuco, dos capuchinhos italianos, que só voltaram ao país em 1840. Em 1869 a ordem resolveu transformar a igreja num grande templo e o construíram dentro do estilo suntuoso da Igreja de Santa Maria Maior, em Roma.

Trata-se no Recife do único templo em estilo coríntio, tendo sido construído em forma de cruz latina, sob o traço do Frei Francesco de Vicenza (1869-1882). As portas principais são entalhadas em madeira com cenas bíblicas. O frontispício ostenta dez imagens de santos esculpidas em mármore. O conjunto, com três naves,tem quarenta e três metros de altura máxima, possuindo duas torres finas laterais, com quarenta metros de altura, sob forma quadrangular, que se transforma do meio para cima em perspectiva octogonal, que ladeiam o zimbório, sobre o qual se encontra uma imagem de Nossa Senhora da Penha em tamanho natural.

A Basílica da Penha é um tempo popularíssimo, exerce uma atração especial sobre o povo simples do centro da cidade, ao mesmo tempo que “uma Igreja digna de referência pelo seu passado histórico; pela abnegação e doçura dos seus fundadores e dos atuais ocupantes do seu Convento; pela imponência do edifício; pela grandiosidade e beleza do seu interior”.

2.2 O Bispo Dom Vital

Estando no templo não se pode deixar de visitar o túmulo do 17º bispo de Olinda, de 1844 a 1878, Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Depois de uma breve passagem pelo Seminário de Olinda, o frade viajou para França, onde ingressou na Ordem dos Capuchinhos. Voltando ao Brasil, iniciou seu ministério sacerdotal em São Paulo. Muito jovem, aos 27 anos, foi indicado, pelo Imperador Dom Pedro II, para ser Bispo de Olinda, tendo seu sido aceito e confirmado pelo Papa Pio IX, em 22 de dezembro de 187l. Sua sagração se deu em São Paulo, em 17 de março de 1872.

O episcopado de Dom Vital, no Recife, foi marcado por muitas tensões, sendo vivamente hostilizado pela Maçonaria que, por sua vez, sofria acérrima perseguição da Igreja Católica. Foi preso pelo Governo Imperial e levado aos tribunais, no Rio de Janeiro. Foi condenado a quatro anos de reclusão, não chegando a cumprir totalmente a pena, que lhe foi comutada, em anistia de 17 de setembro de 1875.

Liberto, Dom Vital foi primeiro a Roma, onde o Papa Pio IX o acolheu como filho e herói. Ainda voltou a sua Diocese, mas muito debilitado em conseqüência das provações porque passou, recolheu-se ao convento da ordem, em Paris, onde veio a falecer no dia 4 de julho de 1878. Ele foi figura central da Questão Religiosa de Pernambuco e do Brasil.

Seus restos mortais repousam na Basílica de Nossa Senhora da Penha, no Recife, onde é venerado pelos fiéis. Seu mausoléu, foi inaugurado em 4 de julho de 1937. O projeto é do arquiteto Giácomo Palumbo, tendo sido esculpido, em mármore, por João Beretta, de Carrara. Um pequeno museu na igreja conserva alguns objetos de uso pessoal, retratos e outros pertences de Dom Vital. O processo para a sua canonização já tramita há vários anos.

2.3. Santo Urbano

No altar de Santo Urbano está uma imagem de corpo inteiro e o relicário contendo o que se acredita seja o sangue do mártir exumado das catacumbas de Santa Ciríaca, em Roma, aos 16 de fevereiro de 1793 e remetido ao Recife em 1805, a pedido do Frade-Prefeito Joaquim do Cento. No local está escrito que terá cem dias de indulgência quem rezar três padres-nossos, três ave-marias e três glórias ao padre.



2.4. Rita Ramalho

Rita Ramalho nasceu no dia 10 de maio de 1913, morreu em 4 de novembro de 1948. Teria oferecido a sua vida a Deus em troca da cura da sua genitora, Maria Ramalho que se encontrava acometida de um câncer terminal e que em razão da promessa se teria curado, vindo a falecer em 26 de setembro de 1977. A partir da morte de Rita seus familiares, amigos e pessoas que tomaram conhecimento do milagre começaram a invocar a sua interecessão e a alcançar graças. Pedido de emprego é o que mais é feito. Mas há até um senhor que já há dois anos mora em uma casa e não paga o valor do aluguel, não tendo sido até agora cobrado pelo proprietário. Muitos cartões e pedidos colocados atrás das lápides, com os nomes de Rita e Maria Ramalho. Há até uma corrente com pedidos de orações sobre o túmulo da mãe de Rita.



3. Teorização

Nos ambientes onde a religiosidade popular se manifesta, é comum encontrar-se evidências daquilo que Manuel de Souza Barros denominou de compensação mágica, manifesta sobretudo pela oferta do ex-voto, que é, ao mesmo tempo, expressão de arte popular, quase um elemento tabuístico ou fórmula mágica de apelo à divindade para obtenção de cura das doenças.4

***As manifestações do catolicismo popular – segundo Roberto Benjamin - após o Concílio Vaticano II, com a Igreja Católica passando, no Brasil, por um processo de re-romanização, com religiosidade popular e outras manifestações da cultura do povo exorcizadas como parte do desviacionismo, a ser eliminado. Após o encontro de Medellín, na Colômbia, em 1968, já contidos os excessos, começaram a ser readmitidas práticas populares, usos de cânticos populares nas liturgias, tolerância e estímulo às peregrinações populares e aos ex-votos, o aproveitamento, inclusive, dos folhetos de cordel.5

Ao tratar da difusão e recriação das idéias de Luiz Beltrão, Roberto


Benjamin mostra que, em março de 1965, Beltrão publicou, pela primeira vez em revista científica, as suas reflexões sobre a folkcomunicação, num artigo que tratava o ex-voto como veículo jornalístico no primeiro número da Revista Comunicações e Problemas, publicação do Instituto de Ciências da Informação por ele fundado no curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, por ele também criado.6

Luiz Beltrão mostra que o ex-voto, na sua ingênua exageração de milagres, é um veículo da linguagem popular, dos seus sentimentos, como um agradecimento a Deus e protesto contra os homens do governo, responsáveis pela situação terrível em que se encontra a maioria do povo brasileiro. Por intermédio dos ex-votos se escreve a história do povo nordestino, vítima das secas, dos latifúndios, das doenças e da fome.7

Souza Barros mostra que a procura do templo católico para o alívio de males e doenças obedece também a circunstâncias históricas, já que na época do Brasil-Colônia o templo servia como equipamento de ajuda e de amparo à comunidade, ajustando-se aos problemas sociais que iam surgindo, refletindo os aspectos do momento social.

Na religiosidade popular é possível, como fez Getúlio César, tratar do devocionismo, que é o exagero de uma religiosidade defeituosa. Segundo ele, devocionismo provém do latim devotio, significando igrejeiro, santanário, beatice. Dentre as práticas do devocionismo estão incluídos os pedidos, as promessas, as orações, os benditos, os velórios e, nestes, as excelências (= denominação popular dos cantos fúnebres), além das cruzes das estradas Os pedidos podem ser vocais, mentais e por escrito. Nos pedidos vocais os crentes valem-se das palavras para conversar com o santo da sua confiança e expressar o que desejam. O mesmo é feito mentalmente. Já os pedidos por escrito são feitos nas cartas-correntes, nas cartas-votivas e nos pedidos em parede.8

As cartas-correntes são destinadas para conhecidos e estranhos, sendo deixadas abandonadas em igrejas ou enviadas pelo correio, sempre contendo a recomendação de não dever sofrer solução de continuidade para que os benefícios não sejam interrompidos. Elas devem ser copiadas e deixadas/enviadas para se formar a corrente da felicidade. Já as cartas que são colocadas nos altares, junto de imagens consideradas milagrosas, são as votivas. Há ainda os pedidos escritos em paredes, muros, altares e grades de templos onde se entronizam santos milagrosos, que são bem mais antigos do que o cristianismo, remontando às religiões egípcias pré-cristãs.

A presença dos santos na vida dos praticantes do catolicismo popular é considerada viva e atuante. Não há separação nítida entre os fiéis da terra, os santos do céu e as almas que estão na região dos mortos. A presença do santo é constante, tanto na vida do rico como na vida do pobre: eles são visitados nos templos ou nos seus santuários; se “atendem” aos pedidos, tornam obrigatório o cumprimento das promessas a eles feitas; se a promessa não é honrada, o santo poderá se sentir ofendido e não faltarão os castigos. Há os santos canonizados pela Igreja Católica e existem aqueles que não são reconhecidos, oficialmente, mas que o povo continua a cultuá-los. Ainda há os líderes espirituais que são invocados pelos fiéis.9



4 As observações

As observações foram levadas a efeito (e documentadas em vídeo e audio) no dia 2 de novembro de 2001:

- apenas uma vela de sete dias no túmulo de Dom Vital: uma senhora, de 6l anos, doméstica, de formação primária, disse que com ele conseguiu tudo (particularizando a aposentadoria e um marido maravilhoso) e que tem conhecimento de pessoas que pediram sua intercessão e foram atendidos; a cinegrafista em recesso (58 anos) informou que pediu e alcançou uma graça, que não revela: porque é segredo; a bióloga (idade não declarada) compareceu para rezar a pedido de sua genitora; um trabalhador rural (61 anos) comparecia pela primeira vez, com o objetivo de recitar as orações aprendidas com sua mãe; uma senhora depositou um ramalhete no túmulo: tornava a agradecer a graça de um casamento feliz (realizado em 1942); todos tomaram conhecimento da sua “força” religiosa através da divulgação da igreja, de parentes e de pessoas amigas.

- a maioria das pessoas entrevistadas sobre sua devoção a Santo Urbano tomou conhecimento da sua veneração através de visitas à Basílica da Penha (fora da qual ele é um ilustre desconhecido) ou por intermédio de familiares; pelo menos uma pessoa confessou a sua devoção há mais de 65 anos; a intercessão é invocada para proteção, defesa, emprego, dinheiro; apenas um entrevistado quis manter em segredo o que pediu; no altar, um papel com um pedido para deixar de beber; outro, num português cheio de erros, o pedido para conseguir um marido, mas não um simples pedido e sim um cheio de exigências, que ele seja delicado, formado, leigo, que não beba nem fume, não tenha filhos, porém aceite e ame o seu, que não seja mulherengo, que seja claro e que faça todos os seus gostos, que tenha uma excelente condição financeira, com idade entre 42 e 48 anos (para completar essa “portaria”, pede que ela seja publicada e que os parentes e amigos de uma vasta lista tenham saúde, fortuna, paz e prosperidade) e concluiu colocando nome completo e endereço e pedindo o favor de ter todos os seus pedidos sejam concedidos; uma empregada da igreja e do convento (segundo grau de estudos, em andamento) contou que numa ocasião estava sem nenhum dinheiro, nem para a passagem de ônibus e a igreja estava vazia de pessoas, quando ela pediu ao santo para lhe conseguir o dinheirinho para poder regressar para casa; após algum tempo desempenhando suas tarefas na Basílica, ao voltar encontrou uma cédula de quinhentos cruzeiros; ela conhece várias pessoas que têm feito pedidos e conseguido atendimento; ao redor do vidro que antepara a imagem, vários papéis enfiados para dentro com os pedidos escritos; homens de branco; mulheres (nem todas) de pés descalços; alguns entregam orações impressas (em processo gráfico de muito boa qualidade, com invocaões a Santo Expedito e a Santa Edwiges); identificadas pessoas em sua primeira visita à Basília, que estavam rezando diante de todos os altares; uma sexagenária, freqüentadora da igreja há mais de trinta anos, pediu ao santo para conseguir dinheiro para a nora e teve o pedido atendido, só não sabe em que o dinheiro foi aplicado; um publicitário nunca fez pedidos, mas testemunha que a sua mãe conseguiu ser atendida em um emprego para um irmão; outro que nunca pediu nada para si - jornalista e radialista aposentado – informou que sua filha conseguiu um emprego através da intercessão de Santo Urbano;

- no ossuário da Basílica da Penha, embora sejam iguais às demais, as tumbas de Rita e Maria Ramalho se destacam: têm uma pedra com um paninho onde são acesas velas de sete dias e colocadas orações, como uma corrente que pede para quem rezá-la fazer vinte e cinco cópias, rezando a seguir um Padre Nosso, uma Ave Maria e três Glórias ao Padre; na frente, um banco de madeira, onde as pessoas sentam para rezar; há também um local onde são acesas velas comuns; na tumba de Rita Ramalho os pedidos são principalmente de emprego, mas há um senhor que mora em apartamento alugado e já há vários anos não lhe é cobrado o valor do aluguel, conforme ele pediu à beata e foi atendido; nas lápides, onde estão esculpidas as datas de nascimento e de falecimento e palavras saudades, estão colocados vários papéis com os pedidos escritos: um, ao mesmo tempo em que pede a saúde da mãe, invoca a intercessão das beatas para que um amor volte para ela, prometendo-lhe uma lembrança; outro que pede emprego para uma mãe e para seus dois filhos, prometendo para quando puder, pagar a graça alcançada com uma vela; outro, pede a união de um casal que é nominado; a maioria das pessoas tocam a tumba e, a seguir, beijam os dedos; a jovem, estagiária do Banco Brasil – aluna do curso de Ciências Contábeis - rezou, acendeu uma vela-de-sete-dias e saiu quase correndo; interceptada, disse que esteve a invocar as beatas para conseguir emprego de Relações Públicas para uma irmã formada há pouco tempo; uma desempregada- que pinta, borda e faz ponto de cruz - e que tomou conhecimento dos milagres da beata por intermédio dos padres do templo, uma vez que ela faz parte do coral da Penha - pediu um emprego com a mais absoluta confiança de ter o pedido atendido, da mesma forma como aconteceu com uma amiga sua..

É a fé do povo, difundida, quase sempre através de meios informais.



Bibliografia

BARROS, Manuel de Souza. Arte, folclore, subdesenvolvimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1977.

BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação – a comunicação dos marginalizados. São Paulo: Cortez, 1980

BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação. um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias. Porto Alegre: Edipucrs. Famecos. 2001. p. 247 a 254 (Comunicação 12.)

BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação e difusão de inovações. In CALLOU, Ângelo Brás Fernandes (organizador). Comunicação rural e o novo espaço agrário. Recife: Universidade Federal Rural de Pernambuco -/- São Paulo: Intercom. 1999 (Grupos de Trabalho, 8).

BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação no contexto de massa. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba. 2000.

CÉSAR, Getúlio. Crendices: suas origens e classificação. Rio de Janeiro Ministério da Educação e Cultura – Departamento de Assuntos Culturais, 1975.

GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. 2 ed. Recife: Fundação Guararapes. 1970. .



SILVA, Leonardo Dantas. Arruando pelo Recife: por ruas, pontes, praias e sítios históricos. Recife: Sebrae-PE, 2000.

1 O pesquisador Leonardo Dantas Silva afirma que a construção do templo se concluiu em 1882. (Arruando pelo Recife: por ruas, pontes, praias e sítios históricos. Recife: Sebrae-PE, 2000. p. 75 a 77).

2


3 GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. 2 ed. Recife: Fundação Guararapes. 1970. p. 49 a 60.

4 BARROS, Manuel de Souza. Arte, folclore, subdesenvolvimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1977, págs. 139, 141 e149.

5 BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação e difusão de inovações. In CALLOU, Ângelo Brás Fernandes (organizador). Comunicação rural e o novo espaço agrário. Recife: Universidade Federal Rural de Pernambuco -/- São Paulo: Intercom. 1999, p. 141 (Grupos de Trabalho, 8).

6 BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação no contexto de massa. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba. 2000. p. 11

7 BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação. um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias. Porto Alegre: Edipucrs. Famecos. 2001. p. 247 a 254 (Comunicação 12.)

8 CÉSAR, Getúlio. Crendices: suas origens e classificação. Rio de Janeiro Ministério da Educação e Cultura – Departamento de Assuntos Culturais, 1975. Págs.. 125, 126, 129, 132 e 135

9 BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação – A comunicação dos marginalizados.Editora Cortez. São Paulo. 1980. P. 61 a 65.



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