Universidade do Estado de São Paulo Escola de Comunicação e Artes Profº Drº Antonio Luiz Cagnin Estava escrito!



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Universidade do Estado de São Paulo

Escola de Comunicação e Artes

Profº Drº Antonio Luiz Cagnin
Estava escrito!

O homem que revolucionaria o gênero chegaria em maio!
Era o entardecer, 13 de maio de 1859.

Lentamente a caravela Jeune France ia sulcando docemente as águas da baía da Guanabara coloridas pelo rubor sanguíneo do sol poente. Ao longe, entre o mar e a imponência dos morros aconchegados sob o manto verde e denso das matas, a cidade do Rio de Janeiro agachada ao longo extenso da praia a lhe beijar os pés no marejante vai-e-vem das ondas. Na proa, em pé, um jovem, olhos encantados ante a majestade do cenário, o vento alisando-lhe os cabelos.


Era Angelo Agostini!
Muitos annos levei a dar cabeçadas de verdadeiro doudo por todos os recantos do enorme scenario social, denominado pelos geographos - Paris, pelos papalvos-paraizo, e por mim e por mais alguns pouquissimos senhores de opinião igual á minha - hospício de alienados.
Tanto corri, tanto andei e desandei, que um dia a experiencia veio á meu encontro, e, condoida, dice-me ao ouvido um saudavel conselho: - Deixa o descuidado viver de Paris, procura um outro recanto do mundo onde possas viver menos para viveres mais longo tempo. A experiencia convenceu-me. Deliberei deixar Paris, e lancei os olhos para o novo mundo.



A America era então a monomania de quase todos os parisienses. Era para mim ainda mais alguma cousa: meu sonho de artista: o meu futuro.
Único pensamento a remoer-lhe a mente nos cinqüenta e dois longos e penosos dias de viagem. Lá, bem longe ficara Paris; aqui, diante dos olhos, a natureza que lhe abria grandiosa o esperançoso verde do seu sonho.

Que impacto não lhe teria causado paisagem tão insólita, exótica, que começava a se descortinar aos seus olhos! bem diversa da deslumbrante Cidade Luz, onde, por oito anos, viveu e se formou! Que emoção nesse momento!

Momento histórico, indelével, gravado para sempre, sem dúvida, na mente e no coração de Agostini, mas que até hoje preocupa historiadores. Quanto e por quanto tempo não se batem eles na busca do dia exato desse instante decisivo que mudou diametralmente a vida daquele artista sonhador. Escavam em todos os terrenos, bibliotecas, portos, cidades, velhos jornais e documentos e só encontram datas contraditórias, ou nada. Nenhum se põe de acordo. Assim, apontam o dia da chegada em todos os anos, desde 1858 a 1861 e até em 1863. Conjecturas apenas. Como provar? Nem um documento!
Sodré foi o único. Calçado em que registro não se sabe, dotado de intuição de vidente talvez, é que revelou em tom profético o ano mais provável, pelo menos foi aquele que a maioria acatou e divulgou. Faltou-lhe apenas o dia, que até o mês foi capaz de antever:... chegaria em maio de 1859.
Então, Lobato, sem preocupações com exatidões históricas, narra a chegada de Agostini ao Brasil, no seu estilo delicioso e inconfundível:
Desembarcou esse artista com muita coragem no ânimo e uma pedra litográfica sob o braço, olhou em torno e viu pouco mais que um vasto haras onde se caldeavam raças. Havia a mucama, a mulatinha, o negro do eito, o feitor, o fazendeiro escravista, o Jornal do Comércio, dois partidos políticos, o Instituto Histórico e um neto de Marco Aurélio pelas cumeadas, a estudar o planeta Vênus por uma luneta astronômica. O feitor, embaixo, deslombava negros; a mucama, no meio, educava as meninas brancas; no alto, uma boa intenção de chambre lia os Vedas no original. Seduzindo-lhe o paladar esta curiosa ilha da Barataria, alugou casa e fundou a Revista Ilustrada, primeira manifestação séria de desenho humorístico entre nós.
Há, no entanto, uma declaração apenas, muito pequena, mas preciosa, encontrada entre alguns manuscritos, depois de fatigante pesquisa. É de Agostini mesmo:

- Vim na caravela Jeune France.


Bem que poderia ser uma pista, finalmente, e um convite para embarcar nessa caravela numa viagem de minuciosa pesquisa até alcançar o dia da chegada de Agostini e do seu desembarque no Rio. Foi o que fizemos.

A caravela Jeune France era uma embarcação de carga para o transporte de mercadorias, mas possuía, muito providencialmente, acomodações de câmara e de proa para eventuais passageiros. Lançada ao mar em Bordéus, em 1853, pela Compagnie des Services Maritimes des Messageries Imperiales, de França, a galera serviu o Senegal, o Brasil e o Prata (Uruguai e Argentina) na linha da América do Sul, entre os anos de 1856 e 1860. Aportava no Rio de Janeiro mais ou menos uma vez por ano, com intervalos de 10 a 12 meses; demorava-se no porto cerca de 2 meses para descarregar a mercadoria destinada a comerciantes do Rio, vinhos, tecidos, livros etc., e recarregar novamente com café, algodão e outros produtos diversos.


As buscas sobre quando Angelo Agostini teria desembarcado no Rio foram efetuadas tendo como referência os anos de 1857 a 1861. Assim localizamos a Jeune France que atracou no porto do Rio de Janeiro nas seguintes datas:
aos 8 de setembro de 1857, após 48 dias de viagem do último porto, tendo partido de Marselha e passado por Gibraltar. Não se registra o nome de nenhum passageiro. A Jeune France voltaria ao Rio cerca de 9 meses depois ou, exatamente, 268 dias,

aos 28 de julho de 1858, demorando-se 58 dias de viagem, pelo mesmo trajeto de Marselha por Gilbraltar. Infelizmente, o nome de Ângelo Agostini não se encontra entre os daqueles 9 passageiros franceses mencionados. Depois de 11 meses, 303 dias exatamente, a Jeune France retornou ao Rio

aos 13 de maio de 1859, em 52 dias de viagem, tendo saído, desta vez, de Bordéus, com apenas “um passageiro italiano e 20 artistas franceses, todos artistas”. Foi a última viagem da Jeune France ao Brasil.
Nesta data, o nome de Agostini também não apareceu nesse registro de bordo, como também os de nenhum dos outros 20 passageiros. É muito provável, no entanto, que o único italiano, mencionado nessa viagem de 1859, fosse o próprio Ângelo Agostini, conjectura reforçada pela expressão “todos artistas” que pode referir-se não somente aos 20 franceses, artistas, uma troupe, talvez, de comediantes, cantores ou bailarinos, como também ao italiano, Agostini, artista também ele, ainda que pintor e litógrafo. Se non è vero è ben trovato. Tomara se confirme, que seja esta a conclusão verdadeira. Afinal, confirmaria que Nélson Werneck Sodré é que está com a razão, quando, na História da Imprensa no Brasil, à p. 234, referindo-se a Ângelo Agostini e à caricatura, numa como voz profética, vaticinara: O homem que revolucionaria o gênero chegaria ao Brasil em maio de 1859.
Poderíamos concluir, então, até com muita certeza: Angelo Agostini teria chegado ao Brasil, na caravela Jeune France, naquele dia, 13 de maio de 1859.

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O pequeno grande mundo exótico
Dia tão esperado, quando ansioso por pisar a terra dos seus sonhos, Angelo, deve ter desembarcado sôfrego para o abraço saudoso da mãe Raquel e do padrasto, o moço português Antonio Pedro. Há muito não se viam, desde quando uma das tias o levou para Paris, ele com apenas 9 anos de idade. E uma delas também ali estava para recebê-lo, a tia Ercília, com o esposo, o tio Joaquim Palha.
A mãe de Angelo, Raquel Agostini, e o marido, Antonio Pedro Marques de Almeida, já há tempo, mais de 4 anos, residiam no Rio de Janeiro. Chegaram de Lisboa no dia 29 de outubro de 1854, no Viajante, brigue português à vela, depois das temporadas líricas de 1853 e 1854 no Teatro São Carlos, de Lisboa. Muito fatigados também por terem suportado os cinqüenta e quatro dias de viagem, teriam vindo com intenção de montar, talvez, uma escola para meninas, mas Raquel, cantora lírica de destaque nos palcos operísticos da Europa, logo ao chegar, foi scripturada, pela Companhia Lírica Italiana, e, pelo contrato, já estreava com grande sucesso, duas semanas depois, no Teatro Lírico como prima donna, no papel principal de Elvira da ópera Ernani de Giuseppe Verdi. Cantou ainda outras óperas nesses quatro anos de permanência no Rio, e, por duas vezes, diante de SS. MM. Imperiais, D. Pedro II e esposa.
O Brasil da chegada de Ângelo Agostini, no entanto, estava bem longe de ser um paraíso. Primeiro, a febre amarela, desde 1855, visitando periodicamente a capital do país, ceifava, em média, a vida de 20 pessoas por dia, com o morticínio também de estrangeiros, muita vez ilustres. A peste se propagava pela falta de higiene pública, a cidade não primava pela limpeza, não havia esgotos, em seu lugar empregavam-se ainda os famigerados tigres, transportados por escravos,

- depois, a política de terreiro, na qual se engalfinhavam conservadores e liberais, sob a contemporizadora fleuma do imperador, eternamente às voltas com excursões pela Europa e lucubrações filosóficas,

- exacerbações patrióticas contra a intromissão do clero nos negócios do Estado, que viria a eclodir na Questão Religiosa,

- a displicência muçulmana dos serviços públicos e a corrupção atávica de políticos,

- os distúrbios contínuos nas províncias, muitas vezes terminados em sanguinolentas campanhas em torno das eleições fraudulentas.

- as finanças que andavam mal das pernas. Faltava o dinheiro. O Barão de Mauá teve que cessar as atividades da Sociedade Bancária Mauá; ruíra a Casa Bancária Souto & Cia, com tamanha repercussão e conseqüências, que, diziam, até os papagaios andavam repetindo: O Souto quebrou! Em 1865, a Souto tentou uma associação com a Sociedade Bancária Mauá/ MacGregor & Co., que resultou na organização do London, Brazilian and Mauá Bank, com um capital de 5 milhões de libras.



- e, acima de tudo, o negro flagelo da escravidão, contra o qual iniciava-se intensa campanha libertadora apoiada pela imprensa.
No Rio, como era muito natural, Agostini gozou da companhia e do afeto da mãe e do padrasto até o ano seguinte, quando o padrasto seguiu para São Paulo, tendo embarcado no vapor Pirahy, no dia 8 de setembro de 1860 com destino a Santos. Logo depois a mãe, Raquel, seguiu-lhe os passos, em 16 de novembro, também no Pirahy. Antonio Pedro teria ido antes para providenciar alojamento para a família e encetar algum negócio ou atividade, com que garantir o sustento da família. Angelo ficou só ou, como se deduz, com os tios, Ercília Agostini e Joaquim José Pereira Pallha.

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Se do desembarque de Agostini não temos mais que o consolo de uma data muito provável, outra permanece ainda incógnita a desafiar os pesquisadores: a data do seu nascimento. 
Agostini nunca revelou o ano em que nasceu, nem o ano, nem o mês, muito menos o dia. Só disse, em determinadas ocasiões, a sua idade, como, por exemplo, quando chegou de caravela. Estas informações de nada ajudaram, pelo contrário, aumentaram sobremaneira as incertezas, mais que isso, deixou-nos embasbacados, tão díspares são esses dados. De fato, os cálculos levam-nos a dizer que ele nasceu em quatro datas diferentes!
Em 1859, se confirmada esta data do desembarque, foi quando Agostini afirmou que tinha 17 anos. Ora, 1859 – 17 anos = 1842, seria o ano em que provavelmente Agostini teria nascido. Curiosamente o centenário do seu nascimento foi comemorado, no Rio, também em 1942!

em 1869, no casamento, Agostini jurou sobre os evangelhos que tinha 29 anos. Portanto, de 1869 – 29 anos, concluímos que, ele nasceu em 1840;

em 1888, ao requerer a naturalidade brasileira, afirmou, em cartório, ter 45 anos,

1888 – 45 anos, ele nasceu portanto em 1843. Por isso, é que o centenário do seu nascimento foi comemorado também em 1943;

em 1891, no atestado de óbito de seu filho Angelo Agostini, falecido em Paris, com 8 meses apenas, declarou, na Direction des Affaires Municipales, da Mairie du 12e. Arrondissemant de la Ville de Paris, ter 45 anos. 1891 – 45 anos, nasceu então em 1846.
Em 1942, alguns jornais do Rio comemoram o centenário de seu nascimento, baseados em Alvarus, o saudoso caricaturista Álvaro Cotrim, o mais bem documentado historiador da nossa imprensa ilustrada do séc. XIX, que festejou, na pág. 23 da revista Vamos Ler!, do Rio, de 2 de julho de 1942, os cem anos do nascimento de Agostini naquele mesmo ano de 1942, não em 1943, como outros, por exemplo, Múcio Leão, em Autores e Livros do Suplemento Literário, n. 19, do jornal A Manhã, de 13 de junho de 1943. O centenário em 1942 bate com a chegada. Se a chegada foi de fato em 1859, menos os 17 anos de idade, temos igualmente, que Angelo Agostini nasceu 1842!
Ainda. Na redação da Revista Illustrada, os colaboradores, amigos de Angelo Agostini sempre comemoraram o seu aniversário, todos reunidos e com ele, é claro, no dia 8 de abril, todos os anos, infalivelmente. É o que vem sempre registrado na Revista, mesmo quando Agostini esteve ausente no exílio forçado em Paris, de 1888 a 1894. Poderíamos então completar e concluir: a data mais exata é que Agostini teria nascido no dia 8 de abril de 1842.
É o mais provável. Resta saber, com certeza em que cidade ele nasceu (mais uma incógnita!), porque, ao ter surgido nas pesquisas uma outra informação díspar, é posto em dúvida também o nascimento em Vercelli, a cidade aos pés do Alpes, que é sempre e infalivelmente mencionada nos press-release dos jornais e em todas e quaisquer publicações que trazem os dados biográficos de Agostini.

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Agostini sacramenta essa data quando, perorando a narração da própria vida na História do Cabrião escrita por ele mesmo, no jornal Cabrião (1866-1867), arremata:

Eis em traços largos a minha historia, estimaveis leitores, desde meu nascimento até minha chegada ao Brasil; que effectuou-se ha mais ou menos tres annos, sendo o Rio de Janeiro o ponto do desembarque, e o lugar em que residimos, até o dia em que viemos para esta heroica provincia.

Essa heróica província de que fala é São Paulo. Três anos depois de 1859, isto é, em 1862, foi exatamente quando, no dia 22 de janeiro, o jovem Agostini embarcou no vapor Diligente com destino a Santos. De lá, do pátio defronte ao porto, teria tomado a diligência Progresso Paulista do seu Berendth, ou a do seu Grainer para subir aos solavancos o tortuoso Caminho do Mar; cansado, deve ter pernoitado numa pousada de Grota Funda, no alto da Serra, próxima do canteiro de obras da Companhia de Estrada de Ferro Inglesa, cujas casas ainda existem em Paranapiacaba, para depois seguir viagem até estacionar, no dia 23 ou 24, na estação dos coches, no Largo São Gonçalo, hoje praça João Mendes, bem próximo, atrás de onde se erguia a igreja da Sé da pequena vila de São Paulo.




São Paulo! mais um novo mundo!

Outro impacto para o recém-chegado parisiense!



Pequena vila de Piratininga, encarapitada no planalto. Nela a calmaria! 20.000 almas, pouco mais ou menos, que mal apareciam nas ruas estreitas ao lado da Sé e do Colégio no alto do morro, embaladas pelo chiado melancólico e enfadonho dos carros de bois tocados pelos carreiros, chapelão de palha na cabeça, as calças listradas arregaçadas pelas canelas; um ou outro pregão surrado, repetido ao cansaço em voz alta por um negro escravo, de tabuleiro na cabeça a vender frutas e doces; ou cançonetas ao som das gaitas de fole, na voz roufenha do carcamano recém-chegado da Itália, ensaiando um dó de peito. Casario miúdo, uma só porta, rótulas fechadas, de fachadas espremidas juntinhas umas nas outras, em duas filas a se olharem de frente, como que tentando se aproximar, estreitando mais as vielas, para, cochichar sozinhas as novidades do dia sem o saber dos moradores. Lampiões, pendurados de uma geringonça armada em ferro estendida sobre as ruas, tremiam do frio da garoa fina, tentando o fraco facho de luz iluminar as esquinas, nas noites sem luar. Lá embaixo a várzea do Carmo, a pradaria, as chácaras agachadas à sombra das matas que abraçavam toda a pequena vila, ao redor.
Mas havia a Sé, a praça e as igrejas, a do Carmo, a de São Francisco, o convento da Luz, e ali, bem próximo, o seminário dos Capuchinhos, sua igreja com a bela cúpula dourada; os livros e as jóias da Garraux, os brinquedos e tecidos da Corbusier.
E os estudantes da Academia de Direito. Outra face do modorrento lugarejo a bocejar sonolento quando eles partiam em férias; bichos noviços, bacharéis calouros, com eles todas as festas, a da Penha, a das corridas nos campos da Luz, as brincadeiras muitas vezes maldosas, os saraus na casa de da. Domitila, a Marquesa de Santos, que os acadêmicos veneravam ao endeusamento, as serenatas românticas à luz bruxuleante dos lampiões, mais as acaloradas discussões políticas sonhando já com a república na verborragia irreverente dos pasquins, e o teatro. O teatro de dramalhões lacrimosos, os bailes, raros, mas únicos divertimentos de então.
São Paulo, no entanto era uma vila grande. Em 1856, crescendo o número de veículos, já aplicara as primeiras leis de trânsito sob pena de rigorosas multas,: nas ruas, carros em fila, não ultrapassar, não correr, evitar o barulho,. A Sereia, casa de banho, oferecia além das duchas e saunas, sorvete e cerveja, importada ou a do João Bœmer, da chácara do Belenzinho, não tão boa, mas muito em conta. A moda dos atraentes figurinos coloridos, trazidos de revistas francesas, vestia as moças das altas rodas de balofa saia-balão e longas caudas, e lhes subia à cabeça nos altíssimos penteados, cuidadosamente montados por delicados cabeleireiros franceses, assunto fértil das sátiras e chacotas .
Na política se engalfinhavam liberais e cascudos conservadores. O café ainda não entusiasmava os fazendeiros, mas o algodão atraía ingleses da Cotton Supplay Association com suas maquinarias modernas de plantar e descaroçar, graças ao qual as finanças se mantiveram durante a Guerra do Paraguai.
Esta, quando chegou, anos mais tarde, em 1865, trouxe tanto o entusiasmo como o medo, ou mais, o desespero para os paulistas. Muitos se alistavam no 7º Batalhão porque era o reforço que São Paulo teria que mandar para a frente de batalha; a maioria fugia do recrutamento, alguns até se mutilavam para não serem caçados a laço e a pauladas a mando o baixinho mas prepotente presidente da Província, Tavares Bastos, apelidado pelos jornais de Agostini de El Supremo, em muitas caricaturas corrosivas, irreverentes e corajosas, mas que valeram o empastelamento do Cabrião em 1867.
A mãe Raquel e Antonio Pedro, que desde 1860 residiam no centro da cidade, ali pertinho, na rua S. Bento, n. 83, certamente foram ao seu encontro, saudosos, depois de mais esse afastamento de três anos. Já era um moço, com seus 20 anos, esguio, esbelto, agora de bigode e cavanhaque, cultivados com esmero daí em diante por toda a sua existência.
Não se têm notícias sobre as atividades de Angelo nos dois anos, de 1862 a 1864, que precederam o lançamento do Diabo Coxo, a não ser esta bela frase de do Nélson Sodré: Pela mão do padrasto, Antonio Pedro Marques de Almeida, percorreu a imprensa paulista, em que o lápis litográfico como arma de combate era desconhecido.
Dele mesmo esta frase muito vaga: Sou um veterano na imprensa brasileira, tendo tido a honra e a satisfação de ter feito minhas primeiras armas na Capital de São Paulo.
O Memorial Paulistano paro o Anno de 1863, nem registra sua presença na cidade, só consignada, depois, na edição de 1866: Retratistas photographos – Angelo Agustin, Rua de S. Bento n. 83.
Estranho que, além do nome alterado, não o tenha mencionado como desenhista do Diabo Coxo que publicara de 1864 a 1865 e já se preparava o lançamento do Cabrião para o final setembro daquele mesmo ano de 1866. Estranho também tomá-lo como fotógrafo. Equivoco talvez, porque Agostini não era, fazia retratos também, mas como pintor. No entanto, pensando bem, parece que não houve erro. Numa cidade tão pequena, onde todos se conheciam, o Memorial teria relatado exatamente a ocupação ou profissão de Agostini, fotógrafo, aproveitando-se da nova febre que tomara conta de toda a cidade desde que Militão apareceu em São Paulo, ator de uma companhia teatral do Rio. Em 1862, exatamente quando Agostini chegou, Militão Augusto de Azevedo, enquanto fotografava a todo vapor os ansiosos fregueses que queriam se ver nos retratos, ia também retratando toda São Paulo para o seu Álbum Comparativo, completado depois, quando retornou a São Paulo, em 1887. Fotógrafo, Agostini engordaria seus ganhos das pinturas das aulas que possivelmente ministrasse, e, ainda, das assinaturas e vendas do Diabo Coxo, que, mesmo custando o dobro ou mais que os outros jornais paulistanos, não lhe podia render muito com apenas os doze números anuais e a reduzida tiragem.

Ali, moço sonhador, mas ativo, juntou-se certamente, em festas, saraus e em serenatas, aos jovens de então, que por incrível coincidência, viriam a ser as grandes personalidades de nossa história, Américo de Campos que com ele fundara o Cabrião, Rangel Pestana, Sizenando Nabuco,e o irmão mais conhecido, Joaquim Nabuco, o jovem compositor Emílio do Lago, um pouco antes, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Carlos Gomes, mais tarde, Rui Barbosa, Castro Alves, os mais conhecidos. Logo depois, em 1864, se desigual na idade e na cor, identificou-se pela alma, na arte e nos ideais com Luís Gama, de vida forjada no sofrimento mas extremamente bela, ex-escravo, mas forte e corajoso, brilhante orador, poeta e amante da imagem. Tornaram-se grandes amigos, na imprensa e nas grandes campanhas pela abolição e pela república. De Gama, e de Agostini é que São Paulo recebeu os primeiros jornais ilustrados e aprendeu a ler imagens.


Publicaram, então, o Diabo Coxo (1864-l865), o jornalzinho domingueiro, marco importante na história da imprensa paulista por ter sido o primeiro jornal ilustrado e de caricaturas de São Paulo, como também primeiro de Angelo Agostini. Nele, Agostini deu início à sua militância na imprensa política, da qual não se afastou até o fim de seus dias vergastando impiedosamente políticos e a sociedade com suas corrosivas e irreverentes caricaturas que até então era desconhecida como arma de combate. Detalhes sobre o Diabo Coxo, jornal de título um tanto estranho, podem ser vistos naquele artigo “Foi o Diabo! e noutras partes desta exposição.
Logo no ano seguinte, Agostini lança o Cabrião (1866-67), outro jornal, de não menor importância e não menos infernal.

Cabrião, outra palavra estranha aos nossos ouvidos, mas muito comum na época, serviu de título, como antes servira o diabo, a muitas revistas caricatas. A semelhança com a palavra cabra, donde tira talvez sua origem, traz, com certeza, algum parentesco etimológico e metafórico com a figura do diabo, o chifrudo. Mas o Cabrião de que se trata aqui era, na realidade, personagem do romance-folhetim muitíssimo conhecido naqueles tempos, Os Mistérios de Paris, do escritor francês, Eugène Sue, um dos mais populares da época ou de maior ibope, diríamos nós hoje.


Cabrião era um pintor, jovem, irreverente e galhofeiro, a zombar de tudo e a infernizar meio mundo sem deixar ninguém em paz. Mas, nas mais 1.300 páginas do encorpado romance, era figura secundária, aparece apenas uma vez, para dizer apenas: - J’y suis, bon ami (Estou aqui, bom amigo). No entanto, naquela angustiante e lacrimosa história, pesadamente cinzenta dos pobres diabos de Paris, Cabrião, com suas brincadeiras e pilhérias, trazia continuamente, muitos momentos de alegria e riso ao leitor. Daí, de personagem secundária, se tornou conhecido em todo o mundo. Seu nome enriqueceu o vocabulário popular com expressões muito usadas então e que vamos encontrar depois no falar corrente da velha São Paulo por influência do Cabrião, não da personagem, mas do jornal de Agostini que sucedeu ao Diabo Coxo: cabrião era todo aquela pessoa amolante e zombeteira como a personagem do folhetim (teria algum parentesco com cabra do falar nordestino); cabrionar, designava o ato de zombar, satirizar, amolar o próximo em todos os tempos e modos. Nada mais bem apropriado para título daquela segunda revista de caricatura de Agostini que se propunha cabrionar a política, a religião e toda a sociedade paulistana.
Mas, em setembro de 1867, Agostini denuncia, no n. 50, penúltima edição do Cabrião, as Devassas, que lhe teriam destruído a redação do jornal a mando de El Supremo, como fora apelidado o ditatorial presidente da província de maus bofes, Tavares Bastos. Logo em seguida, Agostini deve ter deixado apressadamente a cidade, livrando-se, ao que parece, das ameaças de vítimas das suas geniais mas irreverentes caricaturas. É o que se deduz porque o Cabrião do domingo seguinte não traz mais seus desenhos nem sua costumeira assinatura A ou AA, de Angelo Agostini, mas a de BV, quase ilegível, de outro desenhista desconhecido. Esse número 51 encerrou a publicação do jornal e Agostini não mais voltou a São Paulo.
Mas já lá estava ele de novo, logo no mês seguinte, nas páginas do Arlequim, do Rio, fustigando as malandragens políticas, rindo-se dos insensatos costumes da sociedade carioca. Logo, em janeiro de 1868, fundou com o padrasto Antonio Pedro Marques de Almeida a Vida Fluminense. Desenhou também para O Mosquito, criado por Candido Aragonez de Faria, o conhecido Faria, seu contemporâneo e grande amigo, que obteve grande sucesso com caricaturas e histórias em quadrinhos mesmo em periódicos de Paris, mas sobretudo por ter feito os primeiros cartazes de filmes da incipiente indústria cinematográfica, contratado como artista exclusivo pela Pathè Cinema.
O ano seguinte, 1869, foi um momento muito importante. Foi quando Agostini criou As Aventuras de Nhô Quim, ou Impressões de uma Viagem na Corte, história em lmuitos capítulos. Mas, quando, ao deixar a Vida Fluminense do padrasto Antonio Pedro, a historinha ficou inconclusa no cap. 9, só foi continuada depois por Faria em 1882, que lhe acrescentou mais 5 capítulos, no mesmo estilo e tom que de Agostini, mas também sem lhe dar seguimento.
Isto aconteceu em 1876. Agostini fundou então sua própria Revista Illustrada, o periódico de maior duração, tiragem e importância no Segundo Império. Foi quando Agostini atingiu o auge de sua carreira artística e política e se destacou no panorama da vida nacional por sua atuação na imprensa ilustrada, empunhando sempre a caricatura, o riso e a sátira como arma de combate. Exerceu então influência efetiva na formação da opinião pública, sobretudo em dois momentos decisivos da vida nacional, o da libertação dos escravos e o da proclamação da república. A eloqüência das cenas que mostravam os sofrimentos e troturas dos escravos certamente foram muito mais convincentes que os discursos dos abolicionistas e políticos a ponto de ter promovido uma comoção popular em favor da abolição, como de fato reconheceu o próprio Nabuco; foi, da mesma forma, fator determinante na formação da opinião pública em prol do movimento republicano. O mesmo poder persuasivo, através da imagem, que havia exercido antes, em São Paulo, com os seus dois jornais, o Diabo Coxo e o Cabrião, por ocasião da guerra do Paraguai. Além dessas campanhas vitoriosas, vergastou a politicagem reinante, retratou os tipos humanos, desde o engraxate aos barões, fez reportagens sobre os acontecimentos, os crimes, os desmazelos da administração, condenou a violência policial, fez a crítica das atividades artísticas, riu-se e fez rir de tudo e de todos. Compôs com tal precisão o dia-a-dia da cidade e nos legou, ao final, um retrato por inteiro e a história ilustrada desse período. Talvez, o documentário iconográfico mais importante e completo do Segundo Império. Perguntado por Nabuco o que faria se fosse deportado, como de fato fora ameaçado, respondeu tranqüilamente: A história ilustrada do Brasil.
Quem, na verdade, quiser estudar a história política de nossa terra há que recorrer, forçosamente, a esse colossal fabulário a esfuminho, por onde o gênio do caricaturista perpassa de contínuo fixando as mazelas dos nossos próceres.
Pelo papel que desempenhou, formando a mente de toda a população com a força e o encanto das imagens, fator determinante na mobilização nacional, a Revista Illustrada mereceu de Nabuco esta lapidar definição: A Revista Ilustrada é a bíblia da abolição dos que não sabem ler.
Por fim, em 1894, ao voltar de um exílio de seis anos em Paris, a que foi forçado depois da libertação dos escravos a 13 de maio de 1888, editou o Don Quixote (1895-1902), de menor duração, mas extremamente significativo, por ser, com certeza, uma alegoria da própria vida desse novo cavaleiro da esperança.
O Don Quixote, teve uma publicação muito falha, denotando as dificuldades financeiras por que passou Agostini, no final da vida. Mas o que nos legou com esta revista é a confirmação cabal da sua refinada arte, no desenho, na sátira e na narrativa, de que é exemplo ainda As Aventuras do Zé Caipora.
Os 24 primeiros capítulos do , publicados anteriormente na Revista Illustrada, foram reeditados no Don Quixote. Não só. Num trabalho admirável, foram inteiramente redesenhados, única forma de recuperar os desenhos naquela época, pois não se guardavam as pedras litográficas, nem era possível guardá-las cmmomo hoje os fotolitos, porque as grande e pesadas pedras eram imediatamente reutilizadas à medida que fosse necessário publicar outro desenho. Além de muito grandes caras, era muito difícil e demorado importá-las da Alemanha, onde se encontravam pedras de boa qualidade, as famosas pedras de Munique.
A esses primeiros 24 capítulos recuperados, refeitos e republicados, acrescentou mais 11 também em página dupla central e litografados.
Encerrado o Don Quixote, deve ter fechado também a redação; das oficinas da Robin & Agostini, já devia deve ter encerrado a sociedade em 1888, quando partiu para o exílio em Paris. Passou então a trabalhar na Gazeta de Notícias, com uma página semanal sobre Acontecimentos Internacionais.
Depois nO Malho, de 1904 a 1910, manteve uma página semanal também sobre acontecimentos mais relevantes nacionais e internacionais. Aí, no dia 11 de outubro de 1911, um acontecimento importante para a história em quadrinhos nacionais, o lançamento, da revistinha infantil O Tico-Tico, tão querida dos pixotes de todas as idades, e com o cabeçalho de Angelo Agostini, os graciosos anjinhos nus a brincar ao lado do nome do pequeno pássaro pousado sobre as letras. Não foi só o cabeçalho, Agostini se encarregou dA Arte de formar brasileiros, a página que manteve do n. 34 ao 55, onde, numa conversa carinhosa transmitia os conhecimentos de vovô bondoso àquele garotinhos, além de lhes contado, em duas páginas de desenhos em quadrinhos, a História de Pai João e, depois, As Histórias do Macaco do Chico Caçador.
Mas não se esqueceu das Aventuras do Zé Caipora. Concomitante ao trabalho semanal, foi acrescentando novos capítulos aos 35 já existentes da época do Don Quixote, mais 40, chegando do número 36 ao 75, quando interrompeu a publicação, deixando a história inconclusa, inexplicavelmente, porém, porque existem ainda trabalhos seus nO Malho, desse momento até a uma semana antes de sua morte em 1910.
Nessa fase era um novo Agostini, pelo que se observa nos desenhos, bem modernizado, adaptado aos novos recursos gráficos da época ao introduzir na história do Zé Caipora algumas dessas novidades. Os capítulos agora se apresentam não mais em páginas duplas, mas em 2 páginas simples, e logo depois, a partir do n. 48 até o último n. 75, a uma só página por capítulo com exceção do n. 51 (em que erroneamente se repete o n. 50). As personagens e os cenários continuaram com a mesma técnica e seqüencialidade dinâmica anteriores; o hachurado e o esbatido do esfuminho mantêm a mesma função de dar o relevo tridimensional às imagens. A grande novidade foi a utilização da retícula no fundo do cenário para a representação de nuvens no céu, do cinza discreto nas indumentárias, do bronzeado da pele nas personagens como no corpo nu de Inaiá: Os quadrinhos não estão mais livres e soltos, libertos de barreiras, como antes nos capítulos litografados, mas rigorosamente enquadrados em linhas firmes, traçadas à régua; até as legendas que circulavam à vontade e fora dos trilhos, agora se disciplinaram na severidade precisa dos caracteres tipográficos. Mais significativo foi que as matrizes não eram mais as pesadas pedras litográficas, sobre as quais Agostini desenhava diretamente as Aventuras, mas clichês, ou placas, usualmente de zinco, em que se gravaram fotograficamente as imagens que ele havia traçado anteriormente numa folha de papel.
Só no último instante, encerrou suas atividades nO Malho, naquela página de acontecimentos internacionais, com o retrato do grande amigo e diplomata Joaquim Nabuco, falecido no dia 17 de janeiro 1910, em Washington, como embaixador do Brasil. Foi seu último trabalho, publicado no dia 22 de janeiro de 1910. No dia seguinte, 23 de janeiro, um sábado, faleceu.
Acabrunhado e desiludido dos políticos e da república Não era aquela com que sonhara. Embalava, então,nos braços a netinha Mariana, que, até há pouco vivia em Brasília a recontar saudosa as histórias do avô. Depois, tudo é silêncio


Agostini e uma biografia possível
Três datas apenas lhe resumem toda a existência.
A do nascimento e a da morte limitam-lhe, friamente, como numa lápide mortuária, o começo e o fim dos 67 anos de uma vida intensa e combativa. Uma terceira, a do meio, é um divisor de águas, bipartindo sua biografia num antes e um depois de chegar ao Brasil. Mas nem essa data, nem a do seu nascimento não foram ainda definidas satisfatoriamente, variam ao sabor dos autores.
O primeiro período, o do nascimento à chegada ao Brasil, compreende um longo silêncio de 20 anos, do qual nada se fala porque nada se sabe.
O segundo período, do desembarque até à morte no Rio, teria a mesma feição não fosse Agostini ter deixado aqui uma obra imensa, impressionantemente bela, única fonte com que se lhe pode seguir, passo a passo, o percurso, sempre ascensional, do seu trabalho e de sua arte, a cada número das revistas que publicou, mesmo que não se possam definir quais os textos ou artigos que realmente escreveu além dos títulos e legendas dos desenhos sempre assinados com seu clássico mas singelo A.
Mesmo Hérman Lima, se prodigaliza elogios sobre a obra de Agostini em mais de 40 páginas e não se cansa de enaltecer-lhe o estilo, a verve, a arte dos desenhos e das caricaturas em quase todas as outras centenas dos quatro volumes da sua panorâmica História da Caricatura no Brasil, não tem, no entanto, sobre toda a sua vida, nada mais que uma frase: Esse meridional do Piemonte, nascido em Farcelle, a 8 de abril de 1843, equivocando-se ainda, e lamentavelmente, ao citar a cidade de Farcelle! Não existe essa cidade no Piemonte, nem na Itália toda. E Vercelli é o correto, e com i.
Assim, o que fez está aí fartamente disponível nas mais de 4.000 páginas de seus desenhos, para toda sorte de pesquisas e análises, históricas, artísticas, sociológicas, políticas, embora poucos acessíveis por serem poucas as coleções ainda existentes ou por estarem guardadas a sete chaves, sob os olhares vigilantes e ciosos de bibliotecários e colecionadores.
Mas sobre o que foi, seu caráter, seu comportamento, suas alegrias e dores, seus sonhos, seus amores e sofrimentos, somente algumas migalhas respigadas aqui e ali nas próprias obras ou em alguns raros depoimentos de quem com ele conviveu. Uma carta apenas e mais alguns trechos de outra publicados na Revista Ilustrada durante os seis anos que viveu no exílio de Paris; mais três retratos fotográficos encontrados apenas em reproduções em páginas de revistas ou jornais, e outros quatro em litos realizadas a bico-de-pena. Não mais que isso.
Nem o inventário se encontra, nem no Arquivo Nacional, nem em parte alguma,

que lhe complete o nome e os dados de nascimento e de óbito. Nem o túmulo, na lápide mortuária, que não mais existe, ou nunca existiu. Os filhos não deixaram nada de sua memória; netos e bisnetos tudo esqueceram e nem se interessam, talvez nem se importem em saber do jazigo 4005, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, que abandonaram tomado de musgo, negro e úmido da água da chuva que penetra pelo pedaços da lousa há muito quebrada. Não há uma única informação a mais sobre sua vida e sobre sua formação em Paris, seu comportamento e caráter.


Estas pequenas amostras onde se vislumbram apenas um nada do ser Angelo Agostini: No dia seguinte ao seu falecimento, apenas o redator da Vida Social, dO Paiz contava:
Anteontem à tarde (uma tarde de claridade excessiva e incômoda) vimos passar em frente à nossa redação o vulto envelhecido e encurvado de Ângelo Agostini. O guarda-chuva, companheiro inseparável da boêmia inocente da sua velhice, protegia-o contra o rigor de um sol bárbaro. Ia só: ia talvez e provavelmente com um bando de recordações.

Saudamo-lo então; e antes que lhe perguntássemos, por uma explicável curiosidade jornalística, para onde o velho artista dirigia os seus passos, ele no-lo disse: Ia ao edifício do Jornal do Commercio, a uma reunião de antigos membros efetivos da Confederação Abolicionista, resolver sobre uma homenagem ao velho companheiro de lutas, Joaquim Nabuco, falecido há dias.

Joaquim Nabuco, seu amigo de cinqüenta anos, desde os seus inícios no Diabo Coxo, de S. Paulo, aquele que o saudara com esplêndidas palavras, por ocasião de receber o título de brasileiro (chamando a sua Revista Illustrada de “Bíblia da Abolição”), havia, realmente, falecido em Washington, no da 17. Alquebrado pelos anos, arrastando a violência do verão, Agostini ia naquele último sábado de sua vida, tomar parte, pessoalmente, nas deliberações dos antigos combatentes da grande causa, em honra do admirável pelejador que o precederia no túmulo, por uma semana apenas.

Ao calor da mesma tarde clara e luminosa, em que as claras avenidas soalheiras palpitavam de vida, Ângelo Agostini voltou à casa, triste, acabrunhado, em íntimo e doloroso colóquio com a sua saudade, revivendo épocas mortas, reanimando as recordações dos dias vividos há quase meio século, ao sopro vivificador das aspirações e dos anseios generosos de uma mocidade ardente. Era, naturalmente, a figura de Nabuco que lhe aparecia diante dos olhos, a essa hora evocadora do crepúsculo; não propriamente a do grande diplomata e perfeito orador da idade madura, mas a do moço abolicionista que, infatigavelmente, apaixonadamente, entregou à campanha sagrada da abolição todas as suas energias de combatente e deu a essa gloriosa conquista da civilização na América um impulso vigoroso e eficaz.
E mais dois pequenos episódios narrados por Laura, filha de Ângelo Agostini, ao escritor Múcio Leão, da Academia Brasileira de Letras, que os transcreveu em Autores e Livros, Suplemento Literário do jornal A Manhã, de 18 de junho de 1943, em comemoração ao centenário do nascimento de Agostini:
Quando solteiro, Agostini vivia numa república, em companhia de vários amigos. Casou-se com uma senhora distintíssima, de família da aristocracia portuguesa, e, como era natural, tomou casa, abandonando os companheiros. Mal havia passado uma semana, os rapazes da república tiveram uma surpresa! Viram Agostini regressar à antiga casa, entrar no quarto que ocupava em solteiro com um livro na mão. Houve entre eles, como era natural, um escandalizado comentário, um comentário constrangido diante daquele sujeito que uma semana depois de casado já estava separado da esposa. Afinal, um deles e mais íntimo de Agostini, aproximou-se.

- Que diabo, rapaz! Ainda não faz oito dias e já você abandona a sua pequena? Que desgraça foi essa?

Agostini pareceu despertar dum mau sonho: - Hein? Desgraça o que? Que pequena?

E só então, quando lhe esclareceram tudo, lembrou-se de que estava casado! Tomou às pressas o paletó, pôs o chapéu à cabeça e correu para casa, onde já estava sendo ansiosamente esperado.
A distração desse homem fantástico ia a tal ponto que ele chegava a se esquecer de que era Ângelo Agostini. Foi o caso que, certo dia, durante uma viagem que fazia a uma cidade européia, o porteiro do hotel lhe trouxe o livro da casa. Ele tomou a pena, molhou-a no tinteiro e escreveu Agostini. O porteiro, vendo o nome isolado, perguntou:

-Só Agostini? Não tem outro nome?

O artista vacilou, disse que tinha, porém não havia maneira de se lembrar qual fosse esse nome... Por fim pediu licença, explicou que voltava depois, saiu do hotel. E só mais tarde conseguiu estabelecer que o seu nome inteiro era Angelo Agostini, e trazer essa preciosa informação ao porteiro do hotel.

ooooOoooo


Hoje, Tudo é silêncio. Jaz completamente esquecido.
Ecoam apenas algumas vozes longínquas dos amigos do passado:
Figura solar da caricatura e da litografia brasileira (Herman Lima).
Só lhe conhecemos uma vaidade, a de não ter precisado nascer nestas paragens do Cruzeiro do Sul, para ser um dos primeiros, dos mais beneméritos brasileiros (José do Patrocínio).
A pedra de impressão era a pedra d'ara do altar da Pátria (Pires Brandão).
O mais brasileiro dos brasileiros (Joaquim Nabuco).



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