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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS – UNIMONTES


ARTES VISUAIS


Maria de Lourdes Amorim da Rocha


A SAGA DOS ARTESÃOS DO VALE DO JEQUITINHONHA


Almenara (MG)
Ano: 2009


Maria de Lourdes Amorim da Rocha

A SAGA DOS ARTESÃOS DO VALE DO JEQUITINHONHA

Revisão bibliográfica


UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS – UNIMONTES

Almenara (MG)

Ano: 2009

INTRODUÇÃO

Este trabalho sintetiza a história do artesanato do Vale do Jequitinhonha, desde os primórdios da sua colonização. A trajetória dos artistas do Vale é uma verdadeira saga, repleta de batalhas pela sobrevivência e, sobretudo, de muita poesia: poesia manifestada de forma oral e manual por esse povo fantástico. Nos anexos A, B, C e D, destaco alguns textos interessantes que detalham a dura vida dos artesãos do Jequitinhonha, amenizada pela sua extraordinária expressão artística. No anexo E, relaciono as instituições públicas que apóiam o artesanato do Vale. No anexo F, descrevo os artesãos do Alto e Médio Jequitinhonha e no anexo G, descrevo os artesãos do Baixo Jequitinhonha, que são ainda quase anônimos, apesar da grande qualidade da sua arte. A minha intenção era incluir todos os artesãos, porém não foi possível. Não encontrei informações em nenhuma fonte a que tive acesso e não tive tempo de fazer pesquisa de campo. Aos que não foram citados, peço desculpas.


A autora

A SAGA DOS ARTESÃOS DO VALE DO JEQUITINHONHA
Situado no nordeste de Minas Gerais, o Vale do Jequitinhonha, banhado pelo Rio Jequitinhonha e seus afluentes, ocupa uma área de mais de 85 mil km², onde vivem cerca de 1 milhão de pessoas, distribuídas em 75 municípios. 75% da população vivem na área rural e sobrevivem da agricultura e pecuária, praticadas de forma muito rudimentar. As roças magras, castigadas pela seca no outono e no inverno e pelas arrasadoras enchentes no verão, não podem ser caracterizadas nem mesmo como agricultura de subsistência.

No passado, o Vale era coberto por florestas e habitado por tribos indígenas. Começou a ser colonizado no século XVIII em função da exploração do ouro e do diamante, passando por um período de prosperidade e opulência. As minas, descobertas no final do século XVII por desbravadores paulistas e baianos, fizeram a glória da região.


A estrutura social era piramidal, característica da sociedade brasileira. A classe dominadora estava ligada à extração relativa à realeza e os dominados sonhavam com a ascensão social, na hipótese de encontrarem alguma pedra preciosa. Mas chega o tempo da decadência da cultura extrativista e a população, que estava localizada ao redor dos núcleos mineradores, dispersa-se para as margens dos rios Araçuaí e Jequitinhonha e permanece abandonada, tentando viver principalmente da suposta agricultura de subsistência.
Porém, se a mineração já havia provocado a erosão e o assoreamento dos rios, o desmatamento decorrente da implantação de pastagens extermina a vegetação original da mata atlântica, reduzindo-a praticamente à vegetação típica do semi-árido nordestino. Não é à toa que esta região, além de parte do Vale do Mucuri e de uma pequena área do Espírito Santo, são as únicas do sudeste do país que integram a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE).
Daí surge, uma situação de pobreza material, que até um passado muito próximo era a maior referência (negativa) do Vale: “O Vale da Miséria”, devido ao seu IDH médio de 0,5%, comparável apenas aos dos países africanos mais atrasados. Diante dos problemas fundiários e das secas e enchentes que inviabilizavam as lavouras, a população masculina acabou forçada a migrar em busca de trabalhos temporários. Primeiramente para São Paulo, onde encontravam trabalho nos canaviais das usinas de açúcar e álcool. No entanto, devido à mecanização deste trabalho, não restou outra alternativa além das minas de carvão do centro-oeste, frequentemente denunciadas por trabalho escravo.
Como os homens do Vale passam a maior parte do tempo trabalhando fora de suas cidades, as “viúvas de marido vivo”, como a contragosto são chamadas suas esposas, tiveram de assumir a chefia das famílias e buscar um complemento para a renda familiar no artesanato, especialmente o artesanato originado do barro. Assim, as mulheres passaram a ocupar um lugar central na economia familiar a partir da produção artesanal, que em grande parte do Jequitinhonha é exclusivamente feminina.
No princípio, manufaturavam peças utilitárias, principalmente panelas. A tradição manteve-se através das gerações – bisavós, avós, mães e filhos. Faziam moringas, travessas, panelas, potes, pratos, tudo com uma marcante influência indígena.

Com o passar do tempo, as “paneleiras”, à medida que foram dominando outras técnicas, passaram a produzir peças decorativas e brinquedos: bonecas, animais, flores, presépios, etc. As belíssimas peças em cerâmica representam o cotidiano do homem simples da região.


Em 1978, ocorreu uma grande melhoria na vida dos artesãos da região, com a criação da Comissão de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha (CODEVALE). A entidade recolhia a produção dos artistas e revendia em Belo Horizonte. Hoje esse artesanato está disponível em São Paulo e Rio de Janeiro e chega à Europa e Japão, levado por turistas. Atualmente, parte da sobrevivência econômica, especialmente no Médio e no Alto Vale, depende da produção artesanal que é escoada para os grandes centros urbanos, fato que não ocorria quando a produção era voltada exclusivamente para fins utilitários e o comércio realizava-se internamente.
A propósito, em 2008, a curadora Elizabeth Nasser, dona de uma galeria que tem o seu nome, em Uberlândia, conheceu de perto a arte do Vale e voltou encantada para a sua terra, realizando a Exposição Artesanato do Vale do Jequitinhonha na sua galeria. Para ela, a mesma natureza que impõe duros rigores à vida das pessoas, oferece inspiração e matéria-prima para a criação de peças de acordo com valores estéticos específicos. O artesanato que selecionou para a exposição trata de uma estética popular, que, segundo ela, precisa ser objetivamente encarada como ela é, e não de acordo com teorias preconcebidas. (Mais à frente Elizabeth Nasser é citada novamente no texto).

O artesanato remonta valores presentes na vida social tradicional, é uma forma silenciosa de transmissão do saber. Saber ser pessoa, saber viver na fronteira com outros modos de ser.”

O olhar antropológico para esta região leva ao encontro da imagem do artesanato, desafio a ser enfrentado quando se deseja entender outros modos de ser”.

(Maíra Santi Bühler – graduanda em Ciências Sociais )

Revista de Antropologia

Departamento de Antropologia FFLCH/USP

OBS.: As técnicas, temáticas e história dos “artesãos do barro” mais conhecidos estão informadas no anexo ...
OPINIÃO DA AUTORA
Fiz todo esse preâmbulo, para chegar à atual situação do artesanato no Vale do Jequitinhonha. A “arte feita de barro” com certeza é a nossa maior referência, por ser intrínseca à nossa história. Só que atualmente o nosso artesanato não se resume ao barro: ele é rico em termos de quantidade, qualidade, diversidade e originalidade. O artesanato do Jequitinhonha encanta a todos que experimentam suas cores, formas e texturas. Temos os trançados, os bordados, a tecelagem, a pintura, a escultura, etc., cujos elementos estão presentes na arte de grandes artistas plásticos de todo o nordeste de Minas, muitos deles já tendo sido apresentados na TV.
Infelizmente, as ações voltadas para o Vale no âmbito da arte e cultura, não o alcançam em toda a sua plenitude. O Baixo Jequitinhonha é sistematicamente excluído dos projetos governamentais e não governamentais, à exceção do município de Jequitinhonha, que vive um bom momento, graças à boa vontade e empenho do poder público local.

Para que seja feita justiça aos artistas excluídos, acrescento a essa pesquisa algumas informações sobre os artistas do Baixo Jequitinhonha, que são vários e detentores de artes várias. Lamentavelmente, poucos são conhecidos pela mídia em geral, à exceção de D. Adelícia (excelente bordadeira), artista popular e mestre artesã, assim como “Zé do Balaio”, grande “arquiteto” dos trançados. Ambos são de Almenara e já tiveram os seus trabalhos mostrados no Programa Terra de Minas, na Globo e em outras emissoras. Além destes artistas, Almenara conta com João Cipó e Seu Hélio que fazem maravilhas com as fibras, especialmente a taboa, produzindo móveis e peças utilitárias e decorativas de “encher os olhos”. (João já deu oficinas em vários lugares do país). É também deste município o grupo das Mulheres Criativas, que se especializaram no bordado tipo “patchwork”, cujas peças já foram expostas em várias feiras do país.


Temos em Jequitinhonha (incluindo o distrito de Guaranilândia) os artistas plásticos Selma Quaresma e Geraldo Magela de Albuquerque, verdadeiros magos da arte em estandartes e flâmulas com temática religiosa e folclórica; a Marlice – mestra da tecelagem; o maravilhoso artesanato em barro de Paulinho; Dona Elza Có e seu filho Leonardo; Dona Elzi e outros ceramistas; o delicado bordado em rechiliê de Maria Angélica; o coloridíssimo bordado de Adalgiza, etc.
Além de Jequitinhonha e Almenara, outros municípios do Baixo Vale produzem um artesanato de excelente qualidade, como é o caso de Joaíma, cujos artesãos manufaturam lindas peças decorativas e utilitárias a partir de folhas de bananeira desidratadas. É difícil falar sobre todos, nesse primeiro momento. No anexo ... estão algumas informações sobre os artistas do Baixo Vale, citados acima. Faz-se necessário, com urgência, divulgar o nome e o trabalho desses artistas e chamar a atenção dos pesquisadores para esta região de rico patrimônio cultural que, além do belo artesanato, possui vários grupos artísticos na área do teatro, da música, da dança, do folclore, da literatura, etc.
Em 2008, visitando o Médio e o Alto Jequitinhonha, a curadora Elizabeth Nasser, acompanhada pelo crítico de arte e escritor Enock Sacramento, conheceu de perto a transformação do barro, da madeira, da palha e de tantas outras matérias-primas em arte e decidiu levar para outras regiões do Estado a riqueza daquelas outras regiões do Vale. Ela é de Uberlândia, cidade onde possui uma galeria de arte – Galeria Elizabeth Nasser. Voltou para a sua terra emocionada com o que presenciou no Vale. “É encantador observar que de poucos recursos, mas com habilidosas mãos, são produzidas peças tão encantadoras e que retratam com tamanha fidelidade a realidade local”, destaca. A experiência vivida no Vale surpreendeu a curadora: “O artesão molda a obra, marca a sua presença, afirma-se como ser humano. Experimentei a sensação arrebatadora, de ruptura, de desligamento da minha própria realidade cultural e social e, ao deixar o Vale, senti que lá há pobreza, não miséria; um povo miserável não tem tanta beleza, tanta emoção artística, tanta sensibilidade para expressar”, se emociona.
Os artistas do Baixo Jequitinhonha sonham com a dádiva de serem visitados, conhecidos, percebidos e sentidos por mais pessoas com sensibilidade artística e disposição para divulgar a sua arte, como é o caso da curadora Elizabeth Nasser, citada acima. Tomara que tenham a oportunidade de conhecê-la pessoalmente um dia.
CONCLUSÃO
É inegável que o despertar artístico do Vale do Jequitinhonha foi forçado pelas circunstâncias adversas, desde a época da sua colonização. É fato que a sensibilidade e a criatividade se afloram, diante das adversidades. E é inquestionável que o sofrido povo do Vale, soube fazer do seu suor e lágrimas, o “tempero” para a sua arte, amalgamada pelo seu duro labor, proporcionando à sua obra a têmpera que a diferencia de tudo que existe nesse gênero artístico.
Segundo comentário de Herbert Carvalho, tirado do seu artigo “Isolamento quebrado”, escrito para o SESC São Paulo, “a miséria, a migração, a fome e o abandono estão deixando de ser as características do Vale do Jequitinhonha, a mais pobre e sofrida região do semi-árido de Minas Gerais. Programas públicos e de organizações não governamentais, cooperativas de lavradores e associações de artesãos, parcerias com empresas e até com um segmento étnico – a comunidade judaica brasileira – começam a mudar a face daquele que já foi chamado de “vale da miséria”, por seu baixo IDH. Um dos sintomas desse despertar de uma letargia secular é o número cada vez maior de visitantes que têm por destino não apenas Diamantina, mas também cidades menos conhecidas, integrantes de um circuito que vem sendo chamado de turismo solidário. São municípios como Turmalina e Berilo, que ostentam em seus nomes o passado de mineração de pedras preciosas e semi-preciosas, e outros como Minas Novas, Chapada do Norte, Araçuaí e Itinga, que se estendem a partir de Diamantina pela BR 367 até Itaobim e Ponto dos Volantes” (Herbert provavelmente não sabe que a BR 367 atravessa todo o Vale, passando por Jequitinhonha, Almenara, Jacinto, Salto da Divisa e termina em Porto Seguro). “Todos têm em comum paisagens do Rio Jequitinhonha e seus afluentes, igrejas históricas e casarões e, principalmente, o esplendor de um artesanato que passa pela tecelagem e pela cestaria, para atingir na cerâmica o status de obra de arte”.
O Vale do Jequitinhonha espera ardorosamente que esse artigo escrito por Herbert Carvalho seja muito “auspicioso”. O resultado do fazer artístico do Vale está aí, para quem quiser ver, exposto em catálogos; em alguns programas de TV voltados para a cultura; em blogs e em alguns sites, muitas vezes na forma de artigos acadêmicos. Agora é continuar “cultivando” arte de qualidade para colher bons frutos.

Em seguida, nos anexos A, B, C e D, transcrevi alguns textos muito interessantes sobre o artesanato do Vale.




ANEXO A
VALE DO JEQUITINHONHA

UM CORAÇÃO FEITO DE BARRO (*)

(Vilmar Oliveira)

(Do catálogo Descendo o Rio – Os caminhos da cerâmica no Vale do Jequitinhonha)
... O final do século XVIII marca o início da decadência da produção aurífera. Com ela, principia também o despovoamento parcial do alto Jequitinhonha, com a dispersão da população em direção às terras rio abaixo. Esse processo se aprofunda nas três primeiras décadas do século XIX. Os centros urbanos cedem espaço às pequenas vilas. É (é) o fenômeno que estudiosos chamam de “ruralização” da sociedade local, com reflexos imediatos na cultura e na política.
As “comunidades” vão conquistando o Vale. É nelas que se produz a sobrevivência. É lá que se contam as histórias, boca a boca, pai para filho. É onde o utilitário dos potes, panelas, colchas e tantos outros utensílios ganha alma e corpo de arte.
Para muito além da enfadonha oposição entre arte popular e erudita (ou entre arte e artesanato), coisa que Mário de Andrade repudiou e Rabelais, quatrocentos anos antes, desconstruiu, o Vale do Jequitinhonha produz hoje uma infinidade de obras artísticas de intenso valor.
Nessa seara, predomina largamente o trabalho da mulher, mas aqui e ali pontua o talento masculino, que quebrou preconceitos para compartilhar a feitura desse pão do espírito.
De atividade complementar (e das horas vagas), o fazer artístico local ganha crescentemente o posto de esteio da vida familiar. Grandes cidades brasileiras e do exterior curvam-se à sensibilidade impressa no barro, na madeira, na pedra, nos bordados.
Falta, ainda, apoio oficial. Faltam, sobretudo, políticas públicas permanentes de estímulo à criação e à produção da arte do Vale. Exemplo candente está em Pasmado e Pasmadinho, ribeirão e córrego em torno dos quais se formaram as localidades. Nelas, há mais de quarenta anos, antigas paneleiras, ancestralidade da arte em barro, vendem seu trabalho às margens da Rio/Bahia, entre Itaobim e Itinga, vendo o sonho de futuro sumir na próxima curva.
Contra a seca, contra o solo duro, contra a exploração de atravessadores*, contra o descaso das “autoridades”, todavia sobrevive e se fortalece a arte do Vale do Jequitinhonha. Seu segredo é a partilha, a parceria, a vida em comunidade, a transmissão oral do conhecimento.
Uma singela amostra desse extraordinário patrimônio cultural é retratada nas páginas ... (do catálogo “Descendo o Rio – Os Caminhos da Cerâmica no Vale do Jequitinhonha”, realizado por Vilmar Oliveira, autor desse texto)... Oito cidades e seus artesãos. Alguns já mundialmente reconhecidos. Outros nem tanto. Todos poços de arte, fina sabedoria e força esplêndida...
Nossa pretensão é miúda, mas nosso desejo é grande. Esperamos não só exibir o invulgar trabalho dos artistas aqui reunidos. Queremos também chamar a atenção para o vigor do Vale e de sua arte original. Chuva pouca tem solução. Solo árido se trata. Dificuldade se vence. Só não tem escapatória a falta de vontade – política – e de respeito – por esse notável rincão de humanidade chamado Vale do Jequitinhonha.
* Nota da autora: Alguns anos atrás vi uma grande boneca de barro, de Pasmado, à venda no Shoping Eldorado, em São Paulo, por R$ 400,00. Em Pasmado, as bonecas daquele tamanho e estilo custavam R$ 30,00 na época.
(*) Trecho de um poema de Cláudio Bento

Oliveira, Vilmar – pg. 15, 17, 19 – Catálogo “Descendo o Rio – Os caminhos da cerâmica no Vale do Jequitinhonha



ANEXO B

JEQUITINHONHA – A VOZ DAS ARTES

(Aécio Neves)

Do catálogo VALE: VOZES E VISÕES
A exposição de arte que compõe o projeto Vale: Vozes e Visões – A Arte Universal do Jequitinhonha, mais que um quadro de obras singulares tem um caminho que não é visível, mas permite perceber toda a dimensão do homem: aqui está a vida sugerida, sonhada, denunciada, sentida, compreendida de cada artesão.
Na diversidade de clima e de solo e na contraposição de sua exuberância; nas adversidades do meio; na pujança das reservas naturais em contraste com o árido; na enorme potencialidade artística que caracteriza o Vale do Jequitinhonha, emergem figuras, seres e formas inusitados, fixados na talha, na argila ou no desenho que vão recebendo cores extraídas de elementos que concebem a cena por onde a arte não fica esquecida.
Percorre-se o universo da “arte jequitinhonha” constatando-se que as peças nos comovem pelo histórico que nelas se inscreve. É a tradição, é o passado, é o sentido de resistência e de abnegação. Em cada uma habita a alma poética, mostrando, não raras vezes, a ingenuidade do povo de mãos calosas. As mesmas mãos que definem a talha ou que, molhadas, tipificam, na argila, noivas, cortejos, mães amamentando, animais domésticos, deuses do imaginário, enfim, uma galeria de personagens plenas de encantamento.
Há, na cultura doméstica, a arte do bordado que é uma herança contínua de mãe para filha. Nos panos bordados estão os fatos do cotidiano da vida familiar ou a religiosidade das festas dos santos padroeiros. É o dom feminino fazendo a crônica do seu tempo com linhas coloridas.
No Vale fica a lição de que na imensa simplicidade está a arte genuína que é capaz de tirar da madeira a viola e a rabeca para comporem a arte dos sons que acompanham versos que bem refletem o modo de ser do povo da região.
É preciso deixar que a nossa imaginação, na grande aprendizagem da observação, seja espectadora de um mundo desenhado por muitos saberes, dos quais se pode criar ou recriar a realidade do Vale. Só assim poderemos participar de uma arte que, em essência, é libertadora...”


ANEXO C
A TRADIÇÃO DO FAZER DO JEQUITINHONHA
Moura Antônio Prof. – pg. 37 – “Resgate Cultural dos Vales dos Rios Jequitinhonha e São Francisco.
“O Vale do Jequitinhonha foi, até as duas primeiras décadas do século XVIII, pertencente à Bahia, recebendo fortes influências daquela Capitania, com reflexos até o presente momento. Em face das condições históricas e naturais, a região é bastante heterogênea, com diferenças sociais entre o Alto, O Médio e o Baixo Jequitinhonha. O Alto Jequitinhonha atraiu a atenção dos grandes centros desde a época colonial até a República Velha, enquanto o Médio e o Baixo Jequitinhonha permaneceram isolados, sem estradas, comunicando-se internamente através de um primitivo transporte fluvial, alternado pelo cavalo de sela, pela tropa de burros e carro de bois.
Podemos dizer, sem perigo de errar, que o Vale do Jequitinhonha, em toda a sua extensão, é a região mineira onde a capacidade de trabalhos manuais é mais expressiva... A miscigenação entre o negro, o índio e o branco não é visível somente na cor da pele do habitante da região, mas em tudo de artificial produzido: artesanato, arte popular, música, literatura e dramaturgia. Na cerâmica percebemos uma nítida influência do indígena, especialmente o botocudo que habitou a região... O forno cerâmico cavado na rocha de hoje é uma experiência indígena. Também a estética indígena foi transferida ao artista popular do Jequitinhonha, pois os pigmentos obtidos com o taguá – vermelho terra – e com a tabatinga – branco – predominam na maioria das peças da região.
Os negros migrados da Bahia contribuíram com as técnicas de trabalhos em ferro e madeira. Os africanos de origem Bantu revelaram-se excelentes fundidores de ferramentas. Em Itamarandiba encontramos ferreiros que confeccionam ferro para marcar gado, facas, facões e outros objetos. A Banda de Taquara, do povoado de Bem Posta, no município de Minas Novas, é composta de elementos negros. Curiosamente, todas as indumentárias e instrumentos musicais são confeccionados pelos componentes da banda.
Os brancos, remanescentes ibéricos, migraram do Sul da Bahia e da Região Central de Minas. Legaram a tradição do trabalho com o couro, como atesta a presença dos seleiros de Araçuaí. Na indústria caseira da região é notável a qualidade da rapadura; do requeijão moreno; dos doces de fruta com rapadura e dos licores, a exemplo dos feitos por Dona Mundinha, de Itamarandiba. A tecelagem caseira também é de boa qualidade. Prima pelos ornatos em cores vivas das colchas, tapetes e cortinas. Grande parte dos habitantes de Chapada do Norte se ocupa do tecido arraiolo.”

ANEXO D
ARTIGO PUBLICADO NA INTERNET PELO SESC – MINAS



Cerâmica - uma riqueza cultural no Vale do Jequitinhonha.




O Vale é cortado pelo Rio Jequitinhonha e seus afluentes têm 21.489 quilômetros quadrados, abrangendo 83 municípios. O nome Jequitinhonha significa Rio Largo Cheio de Peixe.

Na região, uma significativa parcela da população faz da arte em cerâmica o seu meio de expressão e, principalmente, subsistência. O artesanato é um ofício passado de geração em geração, sendo aprendido e praticado desde a infância dos moradores.

A arte em barro, desenvolvida na região, teve início com os índios guaranis e tapaxós, na época do descobrimento do Brasil. Os artesãos atuais ainda guardam em suas rotinas de trabalho as maneiras indígenas de lidarem com as cores, formas e tipos de fornos.

Os artesãos imprimem nas cerâmicas as suas realidades, nem sempre favoráveis, e muitas vezes criam as suas obras com expressões tristes ou feias, denunciando assim a sua luta diária. Esse diferencial da criação atravessa fronteiras e sensibiliza outros povos para o conhecimento dos sentimentos daquela gente, tornando por isso as peças tão valorizadas como verdadeiras obras de arte.



Belíssimas peças são feitas com a cerâmica no Vale do Jequitinhonha. É interessante lembrar que todo o processo é manual e o acabamento das peças é feito de maneira bem rústica: pentes, facas, sabugo de milho e a própria mão. As tintas utilizadas são feitas a partir do próprio barro, de carvão ou das folhas de maracujá. As peças utilitárias são vasos, panelas, gamelas, potes para grãos e vasilhas diversas. Outras são peças de decoração como bonecos e figuras de animais.

 SESC – MG


ANEXO E
PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS QUE APOIAM O ARTESANATO DO VALE DO JEQUITINHONHA

UFMG
A UFMG vem implementando há alguns anos um programa de desenvolvimento regional para o Vale. Trata-se do Programa Pólo de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha.
“O Programa Pólo Jequitinhonha tem tentado, junto com os artesãos, encontrar alternativas para incorporar o artesanato como componente do desenvolvimento regional. Dentre as alternativas para superar pontos de estrangulamento está a criação de pontos estratégicos de venda em rodovias, centros turísticos e capitais; a melhoria dos produtos artesanais e a organização dos artesãos em cooperativas, o que facilita a compra de matéria prima por melhores preços e a participação em eventos regionais ou nacionais, além da criação de estruturas para comercialização. É necessário produzir e divulgar cadastro de artesãos e seus produtos, catálogos por tipo de artesanato (cerâmica, tecelagem, couro, madeira, etc.). E, sobretudo, precisam ser revistos os mecanismos de acesso ao crédito – com juros mais baixos e prazos maiores – e a capacitação dos artesãos para elaboração de projetos e acesso a recursos públicos.”
“A Feira de Artesanato do Vale do Jequitinhonha, realizada anualmente pela UFMG, é apenas umas das quarenta atividades ou ações já concluídas ou em andamento que compõem o Programa Pólo do Jequitinhonha. Este programa, marcado por uma forte interlocução regional, tem se configurado como experiência extremamente rica para as centenas de professores, alunos e técnicos da UFMG que dele participam. O desafio é construir e implementar uma proposta de desenvolvimento de uma das regiões mais carentes do Brasil, em parceria com a população local, com base em uma prática em que o ensino, a pesquisa e a extensão, de fato, se articulam num processo de construção interdisciplinar do conhecimento”.
Segundo o Prof. João Antônio de Paula, da FACE/Cedeplar ...”o Pólo Jequitinhonha não só realizou muito do que se propunha, como mesmo ultrapassou algumas expectativas, sobretudo no referente à integração com as comunidades locais. Se há muito o que fazer, se há equívocos e lacunas no feito, não se subestime o realizado, o que é significativo. Sobretudo destaque-se a continuidade e a consistência do que buscou realizar num procedimento algo raro de articulação entre atividades de extensão, pesquisa e ensino, com forte interação e presença de instituições públicas e privadas, em colaboração com a UFMG, na condução deste programa que tem muito de pioneiro.”
Maria das Dores Pimentel Nogueira

Coordenadora Executiva e Temática do Programa Pólo Jequitinhonha


Prof. Roberto do Nascimento Rodrigues

Professor da FACE/Cedeplar e Coordenador da área de Desenvolvimento Regional e Geração de Ocupação e Renda do Programa Pólo Jequitinhonha



SEBRAE – MG
Através do Programa Artesanato em Movimento, transcrito abaixo, o SEBRAE Minas, vem apoiando sistematicamente o artesanato do Vale do Jequitinhonha e outras regiões de Minas.


Artesanato em Movimento

É necessário entender que o processo produtivo do artesanato na região está compreendido territorialmente nas áreas urbanas e rurais dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri e do Norte de Minas, exercendo um importante papel na atividade econômica e na diminuição da pobreza regional, gerando trabalho e renda para milhares de artesãos que vivem ou não exclusivamente deste ofício.



A diversidade de materiais utilizados e a criatividade são enormes, sem limites. O barro, madeira, palhas, capim, couro, papel, tecidos de algodão e outras fibras, bordados, rendas, taboa ou taboca e bambus são gêneros naturais fartamente encontrados nos mais distantes grotões dos sertões, das veredas e das gerais de Minas. Todavia, falta alguma coisa. O que o Governo de Minas Gerais está buscando, com o Artesanato em Movimento, é a construção de alternativas sustentáveis, compartilhando ações com os artesãos organizados, o Governo Federal e a sociedade civil.

Dados do programa:

Área de Abrangência:

144 municípios da área de atuação do sistema Sedvan/Idene, organizados em 12 Comitês Intermunicipais do Artesanato.

Público - alvo:

Artesãos das regiões Norte e Nordeste de Minas, nações indígenas, quilombolas, associações de artesãos, cooperativas e potenciais compradores do artesanato.

Objetivo:

Estruturar o Turismo Solidário nos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e no Norte de Minas, visando o combate à miséria e a fome, o aumento do capital social e o desenvolvimento sustentável das comunidades locais, através da participação solidária do turista e do crescimento do fluxo turístico na região.

Resultados em números:

Simpósio de capacitação envolvendo 850 pessoas entre artesãos, servidores públicos municipais, estaduais e federais, nações indígenas, quilombolas, associações, cooperativas e potenciais compradores para construção do Plano de Ação Integrada e formação do Grupo Gestor.Criação do Grupo Gestor do Artesanato, com a participação de artesãos, representantes do Governo Estadual e Municipal e da sociedade civil e formação dos 12 Comitês Intermunicipais do Artesanato.Encontro das lideranças e Comitês Intermunicipais com os coordenadores e articuladores do Programa para traçar um modelo de gestão da comercialização e divulgação dos produtos.Capacitação das lideranças de associações e cooperativas de artesãos; aprimoramento de processos, técnicas e utilização de matérias-primas específicas de cada região; capacitação sobre técnicas de vendas, comercialização, perfil empreendedor, etc. Criação do Centro de Negócios do Artesanato dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri e São Mateus, Região Central e Norte de Minas, em Belo Horizonte.

Estrutura:

A metodologia escolhida foi pioneira no país e coube ao SEBRAE/MG, disponibilizar de forma inédita o Termo de Referência do Artesanato, para o desenvolvimento do Plano de Ação Integrada, seguindo cinco eixos norteadores e pilares da discussão: Acesso ao Mercado e ao Crédito; Capacitação; Estratégias e Diretrizes; Estudos e Pesquisas; e Inovação e Tecnologia.

Parceiros:

Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG;Superintendência de Artesanato da secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico – SEDE;Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Esportes – SEDESE;Serviço Social do Comércio de Minas Gerais – SESC-MG;Serviço Voluntário de Assistência Social – SERVAS;Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais – EMATER-MG; Instituto de Terras do Estado de Minas Gerais – ITER-MG;Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais – FIEMG.

Convênios firmados:

Governo Federal (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS); Sebrae-MG.

Ações em andamento:

O programa vem implementando ações de desenvolvimento social e comunitário, focadas na organização do setor, por meio de capacitações gerenciais que vão dar condições ao artesão de comercialização direta dos seus produtos, criando novas perspectivas de trabalho e renda.

O Centro de Negócios do Artesanato dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri, São Mateus, Norte de Minas e parte da região Central de Minas vai representar um enorme avanço para os artesãos destas regiões, que terão maior visibilidade e poderão comercializar os seus produtos por um preço justo. Além disso, ele está despertando o espírito empreendedor entre as famílias de baixo poder aquisitivo e organizando o setor produtivo ao dinamizar e profissionalizar todo o processo. A tendência é que o Centro se torne, ainda, um espaço para capacitações de técnicas artesanais, que vão valorizar a matéria prima abundante destas regiões e resgatar cultura local.

O que também chama a atenção é a forma de gestão do Centro, feita pelos próprios artesãos, com o auxílio de uma equipe de consultores, bolsistas universitários em conjunto com todos os parceiros. A expectativa é que haja uma maior integração do artesão na fase da comercialização, que é a grande dificuldade do segmento.


Coordendador

Marina Magalhães magalhaespsilva@yahoo.com.br   

Site:

www.idene.mg.gov.

Na região dos Vales do São Francisco e Jequitinhonha, um povo reinventa a vida, movido pela necessidade e pela criatividade. Nos vales crestados pelo sol florescem expressões culturais seculares e um artesanato que alcança projeção internacional. As principais são as peças de cerâmica, cestaria, madeira, couro, renda, bordados...”

Luiz Carlos Dias Oliveira

Presidente do Conselho Deliberativo do SEBRAE Minas



SESC - MG



 

ARTESANATO




Cenarte

 

A Central de Artesanato do SESC Mineiro - CENARTE expõe e vende o puro artesanato mineiro. Artistas anônimos, de várias regiões de Minas Gerais, encontram espaço para divulgar o seu trabalho e oportunidade de serem reconhecidos pela sua arte e talento.

Trabalhos em cerâmica, tapeçaria, pedra-sabão, madeira, latão, estanho, bronze, pedras semipreciosas, porcelana pintada e outros materiais encantam os visitantes pela sua beleza e originalidade.

A Central de Artesanato do SESC Mineiro - CENARTE, funciona de segunda a sexta-feira, das 09:00 às 18:30 horas, e sábado, das 09:00 às 13:00 horas.



Do barro nasce a arte

A CENARTE vem valorizando o artesanato de uma de nossas regiões mais sofridas, o Vale do Jequitinhonha, que trabalha a sua argila de forma com que cada peça seja única.


Alguns artesãos, com suas características peculiares, fazem com que suas peças tenham traços pessoais que se torna marca de algumas de nossas regiões.
Panelas, vasos, potes, jarros e muitas outras peças são criados pelos artesãos no seu dia-a-dia.

Tecendo a trama do dia-a-dia

Do algodão, que é plantado na região do Vale do Jequitinhonha, em especial na cidade de Berilo, são produzidas belíssimas peças como colchas, passadeiras, almofadas, panôs e outros.


Podemos destacar a tecelagem artesanal da região do Triângulo e dos Campos da Mantiqueira, que mostra as diversas formas de fazer arte em cada parte de Minas Gerais.

CENARTE
Central de Artesanato do SESC Mineiro

Rua Tupinambás, 956 - Térreo - Centro
Belo Horizonte/MG - CEP 30120-906
Fone (31) 3279-1476



SEDVAN / IDENE
SEDVAN - Secretaria de Estado para o Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri, São Mateus e do Norte de Minas

IDENE – Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas


Notícia publicada pelo site Mix Almenara (www.mixalmenara.com.br), em 18/12/2008:
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