Universidade estadual do centro oeste



Baixar 246.32 Kb.
Página1/4
Encontro01.08.2016
Tamanho246.32 Kb.
  1   2   3   4
DENNIS DONATO PIASECKI

O conceito de Consciência infeliz na Fenomenologia do espírito de Hegel

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CENTRO OESTE

UNICENTRO
Guarapuava - 2006

DENNIS DONATO PIASECKI

O conceito de Consciência infeliz na Fenomenologia do espírito de Hegel
Trabalho de conclusão de curso (TCC) apresentado como pré-requisito para aprovação no curso de Filosofia, da Universidade Estadual do Centro Oeste – UNICENTRO, tendo como orientador o Prof.º Ms. Manuel Moreira da Silva.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CENTRO OESTE

UNICENTRO

Guarapuava - 2006


DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho a quatro pessoas.
A Gênese: meu pai, Ivo Donato Piasecki; e a minha mãe, Vera Lúcia Piasecki.

Ao fruto: eu, Dennis Donato Piasecki.

Á semente plantada, onde a esperança está efetivada na realidade: meu filho, Paulo Leonardo Rodrigues Piasecki.

VOS AMO...



AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus pais por tudo que me proporcionaram na vida.

Momentos, palavras, a própria vida...

A eles minha eterna gratidão.

Agradeço também ao Professor Manuel Moreira da Silva, meu orientador nesta pesquisa. Obrigado pela paciência e pelo conhecimento transmitido nestes anos de caminhada juntos. Cresci muito filosoficamente devido a este mineiro. Além de tudo, um amigo.



EPÍGRAFE

É indiferente a esse rio da vida que espécie de moinhos ela faz girar.


HEGEL

A miséria da condição humana é tal que a dor é o seu sentimento mais vivo.


D’ALEMBERT

SUMÁRIO

RESUMO .......................................................................................................... pág. 6

INTRODUÇÃO ................................................................................................ pág. 7

1. A EMERGÊNCIA DA CONSCIÊNCIA INFELIZ .................................. pág. 13

1.1 Discussão histórico-sistemática ............................................................... pág. 13

1.2 A Consciência infeliz nos escritos do jovem

Hegel, segundo Jean Hyppolite ............................................................... pág. 15

1.3 A Consciência infeliz tal como se apresenta como resultado do

processo epistemológico- dialético da Consciência-de-si ..................... pág. 19

2. A DINÂMICA DA CONSCIÊNCIA INFELIZ .......................................... pág. 28

2.1 Consciência mutável face à consciência Imutável ................................. pág. 30

2.2 O Imutável figurado ................................................................................. pág. 33

2.3 Unificação da realidade com a Consciência-de-si .................................. pág. 36

3. A CONSCIÊNCIA INFELIZ COMO ACESSO À RAZÃO ...................... pág. 42

CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................ pág. 48

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................. pág. 50

RESUMO
Trata-se de uma investigação do conceito de Consciência infeliz tal como desenvolvido por Hegel no item B do capítulo IV de sua Fenomenologia do espírito. Tal Consciência infeliz, enquanto se apresenta a si mesma como a consciência da contradição de sua essência, é na verdade a consciência da dor que permeia a consciência em sua totalidade. Para Hegel, isso ocorre em função da Consciência-de-si compreender-se a si mesma de um lado como consciência simples ou Imutável e de outro, ser de fato para si exclusivamente consciência mutável. Todavia, essa contradição da essência da Consciência-de-si, justamente porque se apresenta como dor infinita, constitui-se como uma tentativa de ir além da cisão entre o seu elemento Imutável ou essencial e o seu elemento mutável ou inessencial. Assim, explanaremos em que medida o conceito de Consciência infeliz é, para Hegel, a Consciência-de-si como essência duplicada e somente contraditória e discutiremos o elemento da necessidade da Consciência infeliz enquanto processo de reconciliação da Consciência-de-si consigo mesma, bem como verificaremos, se além de elemento necessário, a Consciência-de-si também se constitui como elemento suficiente dessa reconciliação.
Palavras-chave: Hegel; Fenomenologia do espírito; Consciência-de-si; Consciência infeliz; Razão.

INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como objetivo acompanhar a tematização do conceito de Consciência infeliz na Fenomenologia do Espírito de Hegel, limitando-se às análises no plano da Consciência-de-si. Neste sentido, explanaremos em que medida o conceito de Consciência infeliz é, para Hegel, a Consciência-de-si como essência duplicada e somente contraditória e discutiremos o elemento da necessidade da Consciência infeliz enquanto processo de reconciliação da Consciência-de-si consigo mesma, bem como verificaremos, se além de elemento necessário, a Consciência-de-si também se constitui como elemento suficiente dessa reconciliação. Dessa forma, explicitaremos (1) a emergência e (2) a dinâmica da Consciência infeliz - que em seu movimento dialético atravessa três momentos: a consciência mutável face à consciência imutável; a figura do imutável para a consciência mutável e a unificação da realidade com a Consciência-de-si – como também (3) o acesso à Razão que se dá através da extrusão da singularidade da Consciência infeliz.

O escopo da Fenomenologia do espírito (Phänomenologie des Geistes), escrita por Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), em relação à Filosofia é, nas palavras do próprio Hegel, aproximar a Filosofia do molde da ciência, deixando assim de chamar-se amor ao saber1 para tornar-se saber efetivo2. Contudo, é necessário esclarecer que este erigir da Filosofia em Ciência não ocorre ex abrupto, de modo imediato, num melífluo átimo que elucida e põe termo à proposição do filósofo.

Em 1807, Hegel publica a Fenomenologia do Espírito, obra que se impõe como unicum na tradição filosófica e que veio a inaugurar e servir de propedêutica ao Sistema da Ciência hegeliano. A Fenomenologia é objeto de diversas discussões e interpretações, tanto no sentido mais geral do seu conteúdo quanto nos capítulos que os estudiosos setorializam para melhor absorver as particularidades do texto. Isso se deve a riqueza filosófica das manifestações do espírito, que enlaça Ser e Consciência no automovimento do Conceito, e que parece nunca ser exaurida em sua totalidade e, também, pela abundância das manifestações do Espírito que muitas vezes situam o leitor no imenso labirinto do kháos.

Em linhas gerais, encontramos na Fenomenologia o Saber em devir (werdende Wissen) ou o caminho percorrido pela consciência, que partirá do conhecimento sensível ou do saber-carente-de-espírito, para tornar-se Saber Absoluto ou Ciência e, que no término deste percurso, o espírito se saberá como Espírito ou saber conceituante.

Para Hegel a Ciência é a coroa do mundo do espírito. Deve, porém, se desvencilhar da aparência do saber fenomenal para transformar o seu objeto (o mundo a si apresentado) e a si mesma, ou seja, tomar posse da verdade, do saber que ela é em si mesma. Para que o começo do novo espírito venha à luz, será necessária uma longa mudança e preparação nas diversas formas de consciência, algo que só se impõem através da peregrinação dolorosa de um caminho complexo.

Contudo, seguindo as palavras de Hegel, podemos considerar a Fenomenologia apresentando o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber3 ou a ciência da experiência da consciência4. Devemos ressaltar que experiência (Erfahrung) no léxico hegeliano denota não apenas a experiência teorética, o saber apenas do objeto; mas a experiência em sua totalidade, ou seja, tanto o movimento dialético que a consciência executa em si mesma ao reconhecer-se como consciência experimentando-se a si, tanto como consciência que experimenta seu objeto, seu saber do mundo; dessa forma surge o novo objeto que será tomado como verdadeiro para a consciência. Esse movimento dialético ou experiência que a consciência efetua é, na Fenomenologia do Espírito, a série de etapas da formação do espírito ao longo de seu caminho, pois afinal o aprendizado dos momentos que se apresentam no decorrer do itinerário do espírito só se faz através da experiência, seja ela adquirida por re-memoração (Er-innerung) de conhecimentos do espírito predecessor, onde o em-si pensado obterá a forma do ser-para-si; ou por um novo momento vivenciado pelo espírito que se encontra em um patamar mais alto do que o anterior e que interiorizará no seu conceito tais experiências.

É correto dizer que na progressão do espírito em busca de sua meta – o Saber Absoluto – a experiência é inerente para a formação da consciência. A consciência experimentando-se a si mesma acaba por chegar ao conhecimento do que ela é em si mesma e, assim, supera-se a cada nova figura (Gestalt5) do Espírito que lhe é apresentada em seu caminho para a Ciência. Essa superação da consciência das figuras diversas do Espírito ocorre através da suprassunção (Aufhebung), que é a incensada dialética6 do negar-conservar-elevar em que o espírito vai se construindo através da História e sempre se elevando a um plano mais alto do seu processo.

Tendo em vista o que já foi dito, podemos inferir que o processo pelo qual passa o espírito até alcançar seu objetivo supremo, tal como é descrito por Hegel na Fenomenologia, é algo detidamente intrincado, uma complexa articulação de figuras que exigem do espírito não menos que um flagício, que necessita da virtude da paciência e da determinação para obter seu êxito. É o que Hegel parece querer nos indicar quando na Fenomenologia7 refere-se ao saber autêntico que, para tornar-se realmente saber puro, terá que se extenuar através de um longo caminho; caminho este que condicionará o espírito em diversas situações/provações e fará com que o mesmo se detenha em cada uma delas até suprassumi-las no interior do seu conceito, condensando assim o seu propósito. Portanto, o espírito se constrói dolorosamente através da série de suas experiências no decorrer da História universal.

Uso a palavra ‘dolorosamente’ porque o percurso dialético do espírito é marcado por vários momentos em que o mesmo se encontra em uma oposição necessária no e para seu desenvolvimento. Citada oposição é assinalada pela cisão (Entzweiung8) – cerne do movimento dialético - que a consciência sofre no devir de si-mesma, algo como uma ruptura, que acaba gerando a contradição (Widerspruche9) no percorrer do espírito pelas etapas da consciência. Tal cisão tem a functione de mediação no qual o espírito alcança a sua verdade quando encontra a si mesmo no dilaceramento absoluto. O espírito, para poder se compor como sua própria Verdade terá que ater-se em todos os momentos de contradição ou negação, no qual deverá assumi-los demoradamente para transformar o negativo, ou a não-igualdade, em efetividade ou ‘ser’ de seu movimento, sendo tal operação parte essencial no desenvolver de sua dialética.

Ora, nosso problema aqui a ser tratado focaliza-se justamente em uma das oposições pela qual a consciência irá ater-se. Uma oposição interiorizada no seio da própria Consciência-de-si (Selbstbewusstsein). Como já citado, trata-se de uma investigação do conceito de Consciência infeliz (unglückliche Bewusstsein) tal como desenvolvido por Hegel no capítulo IV de sua Phänomenologie des Geistes. A Consciência infeliz é a subjetividade da consciência posta como verdade, mas tal subjetividade se mostra incapaz de encontrar-se consigo mesma na unidade e sente a dor que é o nada de sua particularidade.

A Consciência infeliz, enquanto se apresenta a si mesma como a consciência da contradição de sua essência, é na verdade a consciência da dor que permeia a consciência em sua totalidade. Para Hegel, isso ocorre em função da Consciência-de-si compreender-se a si mesma de um lado como consciência simples ou imutável e de outro ser de fato para si exclusivamente consciência múltipla e mutável.

De um lado, portanto, ela se mostra como Consciência-de-si infinita que está além da finitude do mundo e das coisas no mundo, inclusive de seu manifestar-se nesse mundo; de outro, ela se mostra como Consciência-de-si finita que sabe de sua finitude e que, por isso, ela mesma não pode ser o que é se não consistir em algo justamente na finitude. Tal é a razão de a mesma apresentar-se como Consciência infeliz, essa contradição da essência da Consciência-de-si, ou, em outras palavras, como dor infinita.

Todavia, essa contradição da essência da Consciência-de-si, justamente porque se apresenta como dor infinita, constitui-se como uma tentativa de ir além da cisão entre o seu elemento imutável ou essencial e o seu elemento mutável ou inessencial. Por isso, a Consciência infeliz constituir-se-á como um elemento necessário do verdadeiro retorno da Consciência-de-si a si mesma.

Consciência infeliz aparece-nos como sinônimo de consciência dolorosa, ou seja, a infelicidade da consciência é propriamente dor; cisão e contradição são expressos na dor enquanto esta se caracteriza pela infelicidade da consciência. No entanto, a dor é o impulso constante da consciência no percorrer da Fenomenologia do Espírito; é algo essencial ao Saber em devir e que atravessa todo o caminho que a consciência percorre para chegar até o Saber Absoluto, ou, dito de outra forma, o caminho que o espírito percorreu através da consciência para retornar a Si mesmo10. A Fenomenologia torna-se assim a Via Dolorosa da consciência e a Consciência infeliz exprime em sua essência a maximização do trágico no itinerário do espírito.

Portanto, a justificativa deste trabalho reside no fato de que o conceito de Consciência infeliz, tal como trabalhado por Hegel, permanece atual na época que corre e de um alcance ontológico-existencial essencial no que tange à seguinte questão: pode a consciência, enquanto se reconhece como o ser finito que é reconciliar-se com o infinito? E, não conseguindo obter essa unidade, como se porta em um mundo onde se sente só e infeliz devido à não reconciliação com a realidade? Ainda que, no plano de um Trabalho de Conclusão de Curso, nos proponhamos apenas a uma melhor compreensão dessas questões, uma investigação sobre o conceito hegeliano de Consciência infeliz torna-se fundamental, visto que o mesmo surge com uma onipresença inquestionável na modernidade, pois a dor parece se inserir e se expressar pelo processo de fragmentação cada vez mais contundente no capítulo da expressão contemporânea. Em suma, os ideais humanísticos retroagem ao nível desse estado de consciência dilacerada, onde podemos encontrar exemplos de fragmentação do espírito nas tendências éticas, políticas, sociais, religiosas, econômicas e filosóficas.

Em nosso intento de explicitar o conceito de unglückliche Bewusstsein segundo Hegel, ou seja, trabalhando o traçado dialético da figura do Conceito de Consciência infeliz na Fenomenologia do espírito, mais precisamente no plano da Consciência-de-si, empreenderemos no presente trabalho uma investigação eminentemente teórico-filosófica, tendo como texto-base a própria Fenomenologia do Espírito; além disso, buscaremos realizar uma leitura imanente do texto aqui proposto no sentido de uma consideração especulativa. Desse modo, além da leitura anotada do capítulo IV da Fenomenologia, estudaremos alguns dos principais comentadores da obra, onde serão analisados pontos fundamentais e de relevância para que o trabalho seja bem sucedido.

Sendo assim, nosso trabalho em termos de análise demonstrativa, mais estritamente, tentará evidenciar:

No primeiro capítulo, o surgimento da Consciência infeliz, tanto no plano histórico – onde observaremos um primeiro aparecer da Consciência infeliz na evolução histórica da passagem do mundo antigo ao mundo cristão moderno, – quanto no curso do desenvolvimento da Consciência-de-si no interior da própria Fenomenologia, onde a Consciência infeliz será o resultado desse desenvolvimento.

Em seguida, no segundo capítulo, demonstraremos a dinâmica dialética da Consciência infeliz que perpassa três momentos: a consciência mutável sendo rejeitada pela consciência imutável por ser singular; a existência singular é assumida pelo imutável; enfim, pela alienação da singularidade da Consciência infeliz, há o regozijo da reconciliação: a Consciência-de-si unifica-se com a realidade.

Já no derradeiro capítulo, iremos examinar o acesso à Razão, que advém devido ao fato de a Consciência infeliz extrusar sua singularidade para tornar-se universal, um objeto, a totalidade do real. Desta forma, a consciência adquire a certeza de ser toda a realidade, ou seja, torna-se Razão.


CAPÍTULO 1
A EMERGÊNCIA DA CONSCIÊNCIA INFELIZ


    1. 1.1 DISCUSSÃO HISTÓRICO-SISTEMÁTICA

O espírito para Hegel é a história, tese fundamental que é idêntica àquela segundo a qual o Absoluto é sujeito. Somente o espírito tem uma história, isto é, um desenvolvimento de si por si, de tal modo que permanece ele mesmo em cada uma de suas particularizações e, quando as nega – o que é o próprio movimento do conceito -, conserva ao mesmo tempo tais particularizações para elevá-las a uma forma superior. Somente o espírito tem um passado que ele interioriza e um porvir que projeta diante de si porque deve tornar-se para si o que é em si.

Há uma concepção do tempo e da temporalidade implicada na Fenomenologia e que implica num desenvolvimento simultaneamente universal e particular. A Consciência nos apresenta a possibilidade de um tal desenvolvimento. Escreve Hegel: “É desse modo que a consciência, entre o espírito universal e a sua singularidade, ou consciência sensível, tem por meio-termo o sistema das figurações da consciência, como uma vida do espírito ordenando-se para [constituir] um todo: é o sistema considerado nesta obra, e que, como história do mundo, tem seu ser-aí objetivo”11.

A consciência sensível é propriamente a consciência singular, mas abstratamente singular, aquela que está limitada a um aqui, a um agora, tais como são apresentadas no início da Fenomenologia, no capítulo sobre a certeza sensível12; contudo, o próprio espírito universal é a consciência abstratamente universal, capaz de descobrir em sua particularidade a universalidade que lhe é essencial. Esse movimento – por meio do qual toda consciência particular torna-se ao mesmo tempo consciência universal, constituindo a singularidade autêntica e o vir-a-ser dessa singularidade, através de todas as fases de seu desenvolvimento -, é precisamente a Fenomenologia.

Contudo, a Fenomenologia não é a história do mundo, embora de certo modo seja uma história e tenha uma relação com essa história do mundo. Que a Fenomenologia seja distinta da história do mundo ou de uma filosofia da história do mundo, Hegel o diz com suas próprias palavras no texto que acabamos de comentar – “sistema considerado nesta obra, e que, como história do mundo, tem seu ser-aí objetivo” -; ademais, sob uma forma mais ambígua no final da obra, quando opõe a história em seu livre desenvolvimento temporal e essa história concebida que é a Fenomenologia. Citemos Hegel:
“A meta – o saber absoluto, ou o espírito que se sabe como espírito – tem por seu caminho a rememoração dos espíritos como são neles mesmos, e como desempenham a organização de seu reino. Sua conservação, segundo o lado de seu ser-aí livre que se manifesta na forma da contingência, é a história; mas segundo o lado sua organização conceitual, é a ciência do saber que se manifesta. Os dois lados conjuntamente – a história conceituada – formam a rememoração e o calvário do espírito absoluto; a efetividade, a verdade e a certeza de seu trono, sem o qual o espírito seria a solidão sem vida; somente ‘do cálice desse reino dos espíritos espuma até ele sua infinitude’ ”13.
Enfim, em muitas outras passagens Hegel fala de um espírito do mundo cujo desenvolvimento é distinto do desenvolvimento fenomenológico14.

A história desempenha um grande papel na Fenomenologia, apesar de não apresentar a história de um modo uniforme e contínuo. As épocas históricas são tratadas como paradigmas de fases de pensamento e cultura; com freqüência, mas não invariavelmente, a ordem lógica ou sistemática dessas fases coincide com a ordem de seu surgimento na história.

Naquilo que denominamos a primeira parte da Fenomenologia – e que compreende as grandes divisões: Consciência, Consciência-de-si e Razão -, a história não desempenha senão o papel de exemplo; segundo Hegel, ela permite ilustrar de modo concreto um desenvolvimento original e necessário da consciência. É sobretudo nos capítulos mais concretos, o da Consciência-de-si e o da Razão, que se encontram essas ilustrações históricas. A Consciência-de-si se forma mediante as relações de luta entre Consciências-de-si opostas, tais como as do senhor e do escravo, que não são propriamente temporais, embora se encontrem na origem de todas as civilizações humanas e se reproduzam, aliás, sob formas diversas em toda a história da humanidade. Os desenvolvimentos seguintes evocam, mais precisamente, momentos definidos da história humana; trata-se do estoicismo, do ceticismo e da consciência infeliz.

Como sabemos pelos trabalhos de juventude de Hegel, a Consciência infeliz se confunde em sua origem com o judaísmo e, depois, estende-se ao cristianismo da Idade Média. Mas o texto da Fenomenologia sobre a Consciência infeliz não contém nenhuma menção explícita ao judaísmo nem ao cristianismo. O certo é que estas ilustrações históricas servem como contextualização para servir a um desenvolvimento necessário da Consciência-de-si. O mesmo acontece no capítulo sobre a Razão, onde encontramos alusões ao Renascimento.

Por fim, o certo é que na Fenomenologia não há uma filosofia completa da história. De resto, Hegel insiste nitidamente neste ponto: os três momentos – Consciência, Consciência-de-si e Razão – não devem ser considerados sucessivos; não são no tempo, são três abstrações praticadas no Todo do espírito e estudadas separadamente em sua evolução.


    1. 1.2 A CONSCIÊNCIA INFELIZ NOS ESCRITOS DO JOVEM HEGEL, SEGUNDO JEAN HYPPOLITE

Segundo Jean Hyppolite15, o tema da Consciência infeliz já se anuncia nos primeiros escritos teológicos de juventude de Hegel. Num desses escritos – Diferença entre a imaginação grega e a religião positiva cristã –, concebido em Berna (1793-1796), Hegel descreve a passagem do mundo antigo para o mundo moderno, ou seja, à passagem da Cidade antiga ao despotismo romano, do paganismo ao cristianismo e, em tal texto, podemos encontrar um esboço do que seria a Consciência infeliz. O termo ‘consciência infeliz’ ainda não é utilizado, mas já encontramos nesse estudo os principais caracteres de tal consciência. De início, Hegel descobriu o que será mais tarde a infelicidade da consciência, em uma certa transformação do espírito do mundo (Weltgeist16), de onde surgiu o mundo moderno.

Escreve Hegel que “a supressão da religião pagã pela religião cristã é uma das revoluções mais surpreendentes, e a procura das suas causas deve ocupar mais particularmente o filósofo da história”17. Essa revolução foi precedida por uma transformação silenciosa e contínua do espírito do mundo. A passagem da Cidade antiga ao mundo moderno e à sua religião, o cristianismo, não pode ser explicada de um modo simples. Não foi o espírito crítico que um dia fez desaparecer o paganismo, mas esse desaparecimento se deveu a uma transformação social e espiritual do mundo humano. “Como” diz Hegel, “pôde desaparecer uma religião que havia séculos estava enraizada nos Estados, que tinha uma conexão tão íntima com a constituição do Estado?”18.

Atualmente, consideramos as divindades pagãs indignas de toda crença, e todavia os homens mais sábios da Antigüidade aderiram ao que hoje nos parece absurdo. De início, compreendemos que a religião dos gregos e dos romanos era vinculada a toda a vida antiga. Era a religião de um povo, de um povo livre. Ora, foi com a perda da liberdade que desapareceu a potência dessa religião sobre as almas. O cidadão antigo ignorava a liberdade da consciência; a noção moderna do livre arbítrio não poderia ser aqui evocada. Para o jovem Hegel, a liberdade de que se trata exprime somente a relação harmoniosa entre o indivíduo e a cidade. O cidadão antigo era livre na medida em que se confundia com sua Cidade, na medida em que a vontade do Estado não era distinta de sua vontade própria. Ignorava, então, tanto o limite de sua individualidade como a coerção externa de um Estado dominador. “A idéia de sua pátria, de seu Estado, era para o cidadão antigo a realidade invisível, a coisa mais elevada pela qual ele trabalhava, era o seu fim final do mundo ou o fim final do seu mundo”19 diz-nos Hegel.

“O cidadão antigo era livre porque precisamente ele não opunha a sua vida privada à sua vida pública; ele pertencia à cidade, mas a cidade não era, como Estado, um poder estranho que o constrangesse”20 escreve Hyppolite. O Estado, portanto, não era para ele um déspota estranho. Ali havia uma totalidade viva, e a religião pagã só era a expressão dessa bela individualidade. O cidadão antigo punha a parte eterna de si mesmo em sua Cidade.

No entanto, a Cidade – espírito imediato – se dissolveu sob a ação das guerras. Um imperialismo nivelador lhe sucedeu. O cidadão como tal desaparece, e em seu lugar surge a pessoa privada. O indivíduo se redobra em si mesmo. Em lugar da bela relação viva entre o indivíduo e o Todo, surge o interesse limitado do indivíduo pela sua própria conservação e a dominação abstrata do Estado. É a propriedade privada que constitui a meta do indivíduo. Cada cidadão já não pode considerar o Estado senão como uma potência estranha que ele utiliza para o melhor de seus interesses. O direito de cidadão já não oferece senão um direito à segurança da propriedade.

Desde então, a religião antiga não tem mais sentido; novas crenças vem à luz do dia nessa infelicidade do mundo, e o cristianismo estabelece sua dominação sobre as almas. O dualismo entre o aquém e o além sucederá à unidade viva, presença a si mesmo que existia na Antigüidade. O cristianismo conduziu, portanto, a um distanciamento entre o homem e o todo no qual ele estava inserido e, o individualismo, começa por fragmentar a sociedade. Escreve Hyppolite:
“É nesta decomposição da cidade que aparece a consciência infeliz, e o cristianismo é uma expressão dela. Mas Hegel não volta aquilo que passou. Esse grande dilaceramento tem a sua necessidade, e a consciência infeliz é uma cisão necessária para que seja possível uma reunificação. Nesse momento o problema que se apresenta para ele é o seguinte: como reencontrar essa relação harmoniosa do indivíduo com a sua cidade, através do dilaceramento contemporâneo, dilaceramento pelo qual o cristianismo é particularmente responsável”21.
Outra forma de infelicidade da consciência, descrita por Hegel,nas palavras de Staccone, relaciona-se com o judaísmo. Hegel define o judaísmo como uma religião positiva:
“Uma fé positiva é um tal sistema de princípios religiosos, que para nós deve revestir-se de verdade, porque nos é imposto por uma autoridade à qual não podemos recusar de sujeitar a nossa fé. Neste conceito de fé positiva, se nos apresenta, antes de mais nada, um sistema de princípios religiosos ou de verdades que devem ser consideradas como tais independentemente do nosso juízo e que, mesmo que ninguém nunca os reconheceu, mesmo que ninguém nunca as tomou como verdadeiras, permanecem, ainda assim, verdades, de maneira que elas são chamadas, habitualmente, de verdades objetivas. E estas verdades têm que tornar-se verdades também para nós, têm que tornar-se verdades subjetivas”22.

Para Hegel, uma religião é positiva quando ela estabelece dogmas, rituais e regras que devem ser aceitos simplesmente porque são prescritos por autoridade terrena ou divina, e não porque sejam coerentes com a vida e os costumes de seus adeptos ou possam ser considerados racionalmente justificados. Assim sendo, o paradigma de Hegel de religião positiva é o judaísmo; ele liga a sua positividade à sua crença numa transcendente, inescrutável e estranha deidade, que exige serviço incondicional.

No povo grego, Hegel viu o povo feliz da história, realizando a unidade imediata do homem com o divino; opôs a ele o povo judeu, povo infeliz, que ao contrário, aprofundou a separação entre os dois termos, ou seja, enfatizou a separação entre homem e deus. “O povo judeu era o povo infeliz da história porque representava a reflexão total da consciência fora da vida (...) o povo hebreu não pode senão se opor incessantemente à natureza e à vida (...) descobre uma subjetividade mais profunda (e) prepara a subjetividade cristã”23. Ao contrário do helenismo, o judaísmo não apenas abdicou de buscar a verdade pelo raciocínio; o judaísmo o desprezou, elevando o mito à categoria de verdade incontestável porque transmitida por uma deidade. Enquanto mesmo os filósofos gregos iniciais buscaram nos elementos primordiais a causa do universo, o judaísmo preferiu uma intervenção divina, ex-nihilo, como explicação absoluta, incontestável e, por isto mesmo, indialogável.

Em seus trabalhos de juventude, ao caracterizar a consciência de Abraão – patriarca hebreu -, Hegel mostra como a reflexão esfacela uma unidade primeira e imediata. Abraão se separa de si próprio. Sua vida, a vida em geral, aparece-lhe como um outro que não ele mesmo. É, no entanto, o que há de mais próximo dele, de mais íntimo e de mais longínquo. Com a reflexão o homem se separa do meio vivente e a ele se opõe.

A descendência de Abraão, o povo judeu, tem como doloroso destino viver eternamente separado de deus e dos homens, por ter, pela reflexão, projetado o ideal fora de si e o ter cortado da vida. A reflexão conduz, portanto, à separação do finito e do infinito. “A vida foi rompida, só há relações de senhor e escravo que sejam concebíveis entre os seres, porque o infinito foi separado do finito. A vida deixou, pois, de ser imanente às coisas vivas, mas o infinito está além, tornou-se ele próprio uma coisa – o infinito separado – e os momentos perderam sua vitalidade, o infinito que estava neles pelo amor, para tornarem-se coisas reduzidas à sua finitude”24.

O judaísmo põe a essência num plano além do homem (deus fora do homem), negando-se, assim, o homem como tal. O indivíduo se experimenta como nada; é o pensamento de toda a finitude, e deus, a negação da finitude, permanece num além jamais atingido.





    1. Catálogo: arquivos
      arquivos -> Edital de notificaçÃo de contribuiçÃo de melhoria edcm n.º 001/2010
      arquivos -> A contribuição de Henri Lefebvre para reflexão do espaço urbano da Amazônia
      arquivos -> Serviço público federal ministério da educaçÃo universidade federal do rio grande – furg
      arquivos -> Ementa: contribuiçÃo previdenciária de agentes políticos – restituiçÃo procedimentos
      arquivos -> Estado de santa catarina requerimento de certidão de tempo de contribuiçÃo ctc e declaraçÃo de tempo de contribuiçÃo dtc
      arquivos -> Agricultura orgânica como contribuiçÃo para um meio ambiente sustentavel
      arquivos -> Questões Possíveis
      arquivos -> Estado de santa catarina requerimento de certidão de tempo de contribuiçÃo ctc e declaraçÃo de tempo de contribuiçÃo dtc
      arquivos -> Encargos sociais: regime para empresas normais


      Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal