Universidade estadual paulista faculdade de ciências e tecnologia



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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

FACULDADE DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA

DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA



(Contribuição para uma releitura da)




História da Climatologia no Brasil:

Gênese, Paradigmas e a Construção de uma Geografia do Clima

João Lima Sant’Anna Neto



Presidente Prudente

2001




REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

SANT’ANNA NETO, João Lima. História da Climatologia no Brasil: gênese, paradigmas e a construção de uma Geografia do Clima. Tese de Livre-Docência. Presidente Prudente: FCT/UNESP, 2001.



Sumário

A gênese da Climatologia no Brasil: o despertar de uma ciência

  • Antecedentes e contexto histórico

  • O pioneirismo de Frederico Draenert

  • A sistematização da Climatologia no Brasil: as contribuições de Henrique Morize e Delgado de Carvalho

  • A criação da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo: Belfort de Mattos e a Climatologia paulista

  • A contribuição de Afrânio Peixoto e a Climatologia Médica

  • As primeiras tentativas de classificação dos climas do Brasil

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Os avanços da Meteorologia Sinótica e o paradigma dinâmico

  • Bjerknes e Rossby: as escolas de Bergen e de Chicago

  • Sampaio Ferraz e a introdução da Meteorologia Sinótica no Brasil

  • O desenvolvimento da Meteorologia Dinâmica no Brasil: A. Serra e L. Ratisbonna

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A Climatologia dos Geógrafos: a construção de uma abordagem

geográfica do clima


  • A implantação da Geografia científica no Brasil: uma tentativa de periodização da Climatologia Geográfica

  • A Climatologia Geográfica produzida nas décadas de 1940 e 1950

  • Maximilian Sorre: uma revisão dos conceitos de tempo e clima

  • Contribuição norte-americana à teoria do clima: L. Curry e influências de R. Hartshorne

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O ritmo como fundamento do clima: Monteiro e o novo paradigma
  • O contexto da obra de Carlos Augusto de F. Monteiro

  • As matrizes monterianas de construção de um paradigma: o ritmo

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Referências Bibliográficas

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A gênese da Climatologia no Brasil: o despertar de uma ciência
Antecedentes e contexto histórico
Apesar da dificuldade de se estabelecer um marco histórico para o nascimento de uma ciência, parece apropriado supor que com a criação do Observatório Astronômico Imperial do Rio de Janeiro, em 1827, iniciaram-se os procedimentos científicos que algumas décadas mais tarde propiciariam o nascimento da climatologia no Brasil.

Mesmo considerando que apenas em 1844, como nos apontava Ferraz (1934), as primeiras observações meteorológicas apareceram nos arquivos do Observatório, quando da direção de Soulier de Sauve, já se prenunciava o avanço desta área do conhecimento no meio científico e intelectual da capital do Império. Além disto, desde a década de 30 do século XIX, vários artigos sobre a climatologia da cidade do Rio de Janeiro foram publicados na Revista Médica carioca.

Por outro lado, segundo Neira (2000), desde 1862, na Marinha brasileira, os navios hidrográficos, por necessidade de ofício, já faziam observações meteorológicas regulares, tanto na zona costeira, quanto nas bacias hidrográficas navegáveis. Todo o acervo de dados assim como o acúmulo de conhecimento adquirido nestas navegações convergiu para a criação da Repartição Central Meteorológica da Marinha, duas décadas mais tarde.

De 1851 a 1867, o Observatório Imperial, que desde 1844 havia passado para a administração do Ministério da Guerra, publicou regularmente os seus “Anais Meteorológicos”, fruto dos registros diários dos elementos atmosféricos registrados naquela instituição.

A reorganização do Observatório do Rio de Janeiro durante o II Império, em 1871, com a contratação do astrônomo francês Emmanuel Liais, é o marco histórico que caracteriza a implantação das bases teóricas das ciências atmosféricas no Brasil, a despeito do fato de que este renomado meteorologista e astrônomo tenha basicamente se interessado pelos estudos sobre geodésia e sobre o magnetismo, pouco se dedicando às questões da Meteorologia (Ferraz, 1980).

Com os dados meteorológicos coletados neste instituto, o geógrafo alemão Wappaus, realizou uma das primeiras análises climáticas, ainda que parcial e relativa somente ao Rio de Janeiro, de caráter mais científico, em 1875, quando publica “Geographia do Império do Brasil”. Aliás, estes dados foram avidamente recebidos por Julius Hann, meteorologista austríaco e maior autoridade de seu tempo, que à esta época, preparava o seu pioneiro trabalho Handbuch der Klimatologie, publicado em 1883.

Com as observações e coletas de dados esparsamente distribuídas pelo imenso território brasileiro, como as do Senador Pompeu, no Ceará (1877), as de Émile Beringer, em Pernambuco, as de Milnor Roberts sobre o vale do rio São Francisco (1880) e as do Dr. Henry Lange, em Santa Catarina e Rio Grande do Sul (1874), além daquelas do Observatório do Rio de Janeiro, é que o climatólogo Henrique Morize, num esforço realmente notável para a época, elaborou o primeiro estudo sobre o clima de nosso país, publicado em 1889, com o título de “Esboço da Climatologia do Brazil” (Ab’Saber, 1979).

Este trabalho pioneiro, além de divulgar as séries temporais, distribuídas geograficamente, analisava o regime climático e estabelecia a primeira abordagem sobre a variabilidade climática, sem, contudo, como já era corrente na Europa e Estados Unidos, dar maiores atenções aos grandes mecanismos de circulação atmosférica.

Sete anos depois, em 1896, o engenheiro alemão Frederico Draenert, que residiu por muitos anos no Brasil, publicou seu “O clima do Brazil”. Versão ampliada da obra de Morize que, com uma excelente análise de conjunto sobre nossas características climáticas, deve ser considerado nosso primeiro climatólogo. Por esta mesma época, Luís Crulls, então diretor do Observatório, publicava uma excelente monografia sobre “O clima do Rio de Janeiro”.

Tanto Morize quanto Draenert, assim como o grupo de pesquisadores do Observatório Imperial do Rio de Janeiro (que a partir de 1889, com a proclamação da república, passou a ser denominado Observatório Nacional) oriundos das escolas politécnicas, direcionaram seus estudos mais para a climatologia (com forte uso da estatística) do que para a meteorologia.

Em São Paulo, entretanto, foi no campo das geociências que a climatologia surgiu. Com a criação da seção de meteorologia da Comissão Geográfica e Geológica, Orville Derby e Alberto Loefgren, num trabalho pioneiro, realizaram um enorme esforço de instalar uma rede de estações meteorológicas por todo o estado, a partir de 1886, e já em 1900, contava com cerca de 40 postos e estações.

Ao findar o século XIX, praticamente todos os estados brasileiros haviam organizado seus respectivos serviços de meteorologia e climatologia. Estações e postos já estavam instalados e muitas séries temporais se encontravam em pleno registro. Entretanto, segundo Ferraz (1980), a maior parte destes se encontrava em órgãos governamentais estranhos às ciências atmosféricas. Alguns pertenciam a departamentos de obras públicas, outros à da agricultura. Isto provocava, além de observações díspares, o uso de instrumentos e normas distintas o que, não raras vezes, ocasionavam problemas de ajustes dos dados.

Há que se ressaltar também a importante contribuição da antiga Repartição dos Telégrafos, estão dirigida pelo barão de Capanema. Através de sua Seção Técnica, chefiada por Weiss, instalaram-se várias estações meteorológicas pelo Brasil dotadas de instrumentos de alta qualidade (os meteorógrafos Theorell), a partir de 1886.

Se considerarmos que praticamente todo o desenvolvimento da meteorologia e da climatologia mundial se deu, basicamente, a partir do século XIX, estas primeiras iniciativas brasileiras e os esforços iniciais da implantação das ciências atmosféricas em nosso país, não estavam tão defasadas como se poderia supor, a despeito da rarefeita rede meteorológica.

Foi necessário pouco mais de meio século, de 1820 até 1880, para que as bases científicas iniciais fossem se acumulando até potencializarem a construção dos conceitos e teorias fundamentais para o nascimento das ciências atmosféricas. Isto só foi possível a partir das novas concepções da física newtoniana e de seus desdobramentos ocorridas nos séculos XVII e XVIII, particularmente no continente europeu.

Os viajantes e naturalistas que para cá vieram logo após a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro foram responsáveis pela disseminação de instrumentos e técnicas de investigação do meio físico, inclusive da meteorologia. Foi, entretanto, com a Independência do Brasil e a criação do Observatório Imperial, que a reunião de uma plêiade de cientistas agrupados naquela instituição propiciou não somente um estreito intercâmbio de informações científicas com os países europeus, como incentivou o desenvolvimento de uma nova postura e uma nova concepção de pesquisa no país.

É importante lembrar que por esta época, o eminente cientista Julius Hann publicava o Handuch der Klimatologie, considerado como a grande obra de síntese dos conhecimentos do clima do século XIX. A partir das informações obtidas através dos trabalhos de Stringer (1972) e Ferraz (1951), elaboramos o quadro 2, que demonstra a evolução dos conceitos e de técnicas que foram divulgadas principalmente na segunda metade do século XIX, e que fundamentaram Hann a produzir o seu grande manual.

Se até o século XIX, tanto a climatologia como a meteorologia, no contexto mundial tiveram uma evolução paralela e, às vezes, inclusive, se confundindo, pouco se distinguindo em seus métodos de análise, a partir de 1860, com o extraordinário avanço da física e com o aparecimento das primeiras cartas sinóticas, a meteorologia dá um enorme salto quali-quantitativo, passando a se diferenciar e a se distanciar da climatologia, tanto em termos metodológicos, quanto em técnicas de análise.




Quadro 2 – Evolução dos principais conceitos climáticos e meteorológicos do século XIX


Ano

Autor

Descrição

1816/20

Brandes

Elaborou os primeiros conceitos dos mapas meteorológicos sinóticos

1820

Buch

Divulgou estudos que demonstravam que eram os ventos que traziam os tipos de tempo

Howard

Estudo pioneiro sobre o clima de Londres, a partir da alternância das massas de ar quentes e frias, ao nível do solo

1827

Dove

Propunha os conceitos sinóticos para explicar o tempo local em termos de um modelo ideal

1841

Espy

Formulou a primeira teoria da energia de um ciclone

1845

Berghaus

Produziu o primeiro mapa mundial com a distribuição da precipitação

1848

Dove

Publicou o primeiro mapa com a distribuição das temperaturas médias mensais dos continentes

1849

Henry

Fundação da primeira rede meteorológica norte-americana, interligada pelo telégrafo

1862

Mühry

Elaborou o primeiro mapa demonstrando as distribuição sazonal das chuvas

1860/

1865


Serviço Meteorológico Britânico

Desenvolveu o primeiro modelo de cartas sinóticas baseadas nas descobertas de Buys-Ballot, sobre as relações empíricas entre vento e pressão

1869/

1880


Serviço Meteorológico Britânico

Publicação dos primeiros meteogramas (gráficos com as variações temporais detalhadas dos elementos do tempo), obtidas através de instrumentos registradores em 7 estações do Reino Unido

1870

Köppen

Primeiro trabalho de climatologia sinótica, realizado em São Petersburgo, Rússia, com uma análise diária dos padrões de temperatura, agrupadas em tipos de tempo

1873

OMM (OMI)

Criação da Organização Meteorológica Mundial, em Bruxelas (ex-OMI)

1876

Coffin

Elaborou a primeira carta mundial dos padrões do vento

1878

Ley

Estabeleceu um modelo empírico de ciclone e formulou a estrutura tridimensional de uma baixa frontal

1879

Köppen

Propôs a conceituação de frente fria

1883

Teisserenc de Bort

Produziu o primeiro mapa de pressão média dos ciclones e anticiclones sazonais (os centros de ação) que forneceu as bases conceituais para a elaboração do primeiro modelo geral de circulação atmosférica

No campo mais específico da climatologia, desde as primeiras concepções “climatográficas” de Humboldt, pode-se considerar Köppen e Hann como os dois cientistas mais relevantes no que concerne à sistematização e construção das bases teóricas e metodológicas do estudo moderno do clima.

Nos anos 70 do século XIX, o cientista russo Wladimir Köppen, realizava as primeiras observações meteorológicas em São Petersburgo, a partir da associação entre direção dos ventos e pressão do ar. Elaborou os pioneiros ensaios de climatologia sinótica (dinâmica), utilizando uma série temporal diária de dois anos dos elementos atmosféricos (Stringer, 1972).

Desde que foram publicados estes primeiros ensaios até 1901, quando sua proposta de classificação climática (atualizada e reformulada várias vezes até a versão final, em 1931) foi divulgada, Köppen produziu um expressivo conjunto de trabalhos, sempre com a intenção de caracterizar os climas regionais, sem desconsiderar a análise dos tipos de tempo.

No que pese a concepção de clima de Köppen, que até os dias atuais está vinculado ao uso (e abuso) dos valores médios no estudo dos tipos climáticos, o cientista russo sempre considerou que o emprego das médias aritméticas era a forma possível de se comparar os dados dos elementos meteorológicos visando a classificação climática, na ausência de uma substancial rede de estações espalhadas pelo mundo. No entanto, nunca considerou que seria possível compreender a dinâmica climática através de valores médios.

Julius Hann foi quem primeiramente produziu uma obra de caráter mais didático, pretendendo condensar todo o conhecimento sobre as ciências atmosféricas de sua época na obra pioneira “Handbuch der Klimatologie”, que se consagrou como a mais completa e valiosa contribuição do final do século XIX. Composta por 3 volumes, contemplava a climatologia geral e a descrição dos climas regionais.

Desta obra advém a primeira definição de tempo e clima, que por décadas, foi utilizada como a conceituação dominante nos meios científicos mundiais. Hann assim os definia: “Pela palavra clima queremos significar a súmula dos fenômenos meteorológicos que caracterizam a condição média da atmosfera em qualquer lugar da superfície terrestre” (citados por Morize, 1927:7). E para tempo, apresentava a seguinte definição: “O que chamamos tempo é somente uma fase da sucessão dos fenômenos, cujo ciclo completo, reproduzindo-se com maior ou menor regularidade em cada ano, constitui o clima de qualquer localidade”.

Os conceitos de tempo, clima e toda a síntese dos conhecimentos da época elaborados por Hann, a proposta metodológica de caracterização dos climas regionais de Köppen e os ensaios teóricos de Napier Shaw, em resumo, formavam a base de todo o conhecimento científico da climatologia e da meteorologia no Brasil, presentes no final do século XIX.

Este conjunto de saberes alicerçou os estudos pioneiros de nossos primeiros climatólogos, como Louis Cruls, Henrique Morize, Frederico Draenert, Carlos Delgado de Carvalho e Arrojado Lisboa. A este respeito, Ferraz (1934) comentou:

No Brasil, as primeiras actividades meteorologicas, como seria de esperar, restringiram-se às observações climatológicas fundamentaes. Pequenas series aqui e acolá, sem grande uniformidade de methodos e de equipamentos, porém, conduzidas, algumas, com notável esmero e carinho. No último quartel do século passado e no começo do actual, apontam as primeiras organisações meteorologicas, sempre com o mesmo objectivo limitado da climatologia, cujas séries maiores já são manipuladas pelos grandes mestres estrangeiros, interessados nos estudos mundiaes”. E acrescenta em seguida “A não ser uma ou outra pesquisa especial conduzida no Observatório Astronômico do Castello, a cuja brilhante pleiade de scientistas muito deve a meteorologia brasileira, todas as atenções estavam viradas para a climatologia”.

(Ferraz, 1934:20)
Assim, em nosso país, a climatologia é anterior à meteorologia. Mesmo considerando que o Observatório do Rio de Janeiro tenha iniciado sua seção de meteorologia, assim como a Marinha, através de sua Repartição Central de Meteorologia, na segunda metade do século XIX, praticamente todos os estudos realizados versavam sobre tópicos e análises eminentemente climatológicas.

De qualquer forma, as condições iniciais para o desenvolvimento da climatologia em nosso país já estavam dadas De um lado haviam sido criadas as primeiras instituições de pesquisa compostas por um seleto grupo de pesquisadores competentes que eram municiados das informações e metodologias provenientes dos centros de saber da época, principalmente através do geógrafo brasileiro radicado em Paris, Carlos Delgado de Carvalho. De outro lado, começavam a ser produzidos os primeiros trabalhos, mais sistemáticos, sobre o clima do Brasil.


O pioneirismo de Frederico Draenert
Ao apagar das luzes do século XIX vieram a público as duas primeiras obras mais completas e de caráter mais sistemático sobre o clima do Brasil. Em 1889, Morize publicou no Rio de Janeiro, o seu “Esboço da Climatologia do Brazil” (obra que será abordada mais adiante) e, sete anos mais tarde, em 1896, surgiu a obra de Draenert “O Clima do Brazil”. Ambas tiveram em comum o objetivo de apresentar um quadro geral das características climáticas de nosso país e propor uma primeira tentativa de classificação dos climas regionais.

Antes, porém, que estas duas publicações viessem à público, uma série de trabalhos esparsos baseados em curtas séries temporais já haviam sido produzidas e divulgadas, de forma a fornecer subsídios, os mais variados, sobre o clima e suas relações com a saúde pública, a adaptação e assimilação da população aos tipos climáticos regionais, além de análises das séries temporais, ainda que parciais, dos elementos meteorológicos (Quadro 3)



A seguir apresentamos uma lista de alguns destes trabalhos, os mais significativos, publicados no decorrer do século XIX, que podem fornecer uma idéia de conjunto, mais ou menos clara, do tipo de temática abordada, tomando como fonte os trabalhos de Draenert (1896), Morize (1889 e 1922), Delgado de Carvalho (1916 e 1917) e Sampaio Ferraz (1934):


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