Universidade estadual paulista faculdade de ciências e tecnologia



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Além deste acervo, muitos artigos que analisavam as variações dos elementos atmosféricos e suas relações com o ambiente natural e humano foram publicados, principalmente nos periódicos das associações científicas e de classe, como na Revista de Engenharia, na Revista Médica, na Revista da Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro, no Arquivo Médico Brasileiro e nos Annaes Brasileiros de Medicina. Também foi possível identificar algumas teses de cátedra apresentadas às faculdades de medicina do Rio de Janeiro e de Salvador, sobre a relação clima e saúde, como a do baiano Jeronymo Pereira, de 1862.

Há que se destacar que, desde 1851, o Observatório Imperial do Rio de Janeiro passou a publicar com bastante regularidade, não apenas os dados meteorológicos em seus boletins e anais, como também artigos que pretendiam dar conta de suas análises, na Revista do Observatório. A partir de 1886, a recém criada Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo também inicia a sua publicação dos dados meteorológicos das primeiras estações implementadas no estado, em seus Boletins mensais.

A contribuição de Frederico Draenert à climatologia do Brasil é exemplar. A sua principal obra, aquela de 1896, demonstrava uma perfeita sintonia com o estado da arte no contexto mundial, presentes em poucos intelectuais de sua época. Na introdução desta obra, escrevia o autor sobre o que constituiria o campo de estudo da climatologia:

Demonstrar como o período de um anno se revela nos phenomenos da vida sobre a terra, sob as formas do movimento e repouso, da evolução prodigiosa e do retrahimento acanhado, do nascimento e da morte; como az zonas de latitude se distinguem nas suas multiplas sub-divisões pela evolução peculiar das mesmas e de diversas formas de vida, constitue o assumpto da climatologia”. (Draenert, 1896:5)
Após tecer uma série de considerações sobre a utilização da estatística em busca de valores médios e extremos (periódico e não periódico, em suas palavras), reconheceu a grande variabilidade dos fenômenos atmosféricos ao afirmar que tão importante quanto determinar o que é frequente no tempo, é a busca do que é extraordinário, aquilo que pela pouca frequência, se torna incomum, porém real.

Desta forma, a ênfase nos estudos climatológicos deveria estar em torno dos tipos de tempo, que o autor define como:

É a circunstância de tornar-se o effeito sempre de novo momento causal, que até a arbitrariedade humana influe, é verdade, de um modo insignificante, mas também incalculável, torna comprehensivel, como aquillo, que existe simultanea e collateralmente e que se dá consecutivamente no mesmo logar, se perturbe tanto e torne tão difícil de perceber distinctamente, sempre e em toda parte, a immutabilidade e a constancia das ultimas causas na mudança caprichosa do turbilhão atmospherico, que se chama tempo”. (Draenert, 1896: 6)
Também foram analisadas as generalidades do clima do Brasil, a partir das influências geográficas (relevo, altitude, latitude), além da caracterização termo-pluviométrica das três zonas que compunham a sua classificação climática: a zona tórrida, a sub-tropical e a temperada.

Utilizou-se de dados diários de temperatura e precipitação de cerca de 60 estações meteorológicas, cujas séries temporais, bastante limitadas àquela época, tinham em média entre 5 e 10 anos, muitas das quais com apenas 1 ou 2 anos de dados. Apenas as estações do Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Sabará, Recife, Fortaleza, Salvador e Blumenau apresentavam mais de 10 anos consecutivos de dados meteorológicos.

Mesmo assim, com a possibilidade de contar apenas com estes dados, Draenert conseguiu extrair um excelente conjunto de informações, muitas inéditas, no sentido de caracterizar a variabilidade dos fenômenos atmosféricos na perspectiva de climatologia regional.

Nesta concepção, Draenert classificou os climas do Brasil em três grandes zonas. A primeira, a zona tórrida, compreendia a amazônia, o nordeste e o centro oeste do Brasil, além do norte de Minas Gerais. A zona sub-tropical compreenderia vários tipos climáticos: o Clima Tropical de Altitude – MG, RJ e SP com temperaturas mais baixas e pluviosidade mais ou menos elevada. Na fachada Atlântica, com temperaturas menores e maior pluviosidade, reconhecia a existência de um Clima Litorâneo e no interior, o Clima Continental, com temperaturas mais elevadas. A terceira zona climática corresponde ao tipo temperado, abrangendo os estados do sul – RS, SC e PR – além da porção meridional de São Paulo, com invernos bastante frios e a presença de geadas constantes.

Nesta obra, Draenert dedicou grande espaço ao estudo dos “meteoros aquosos”, ou seja, as precipitações pluviométricas. Lamentava a falta de informações meteorológicas de grande parte do território brasileiro (que segundo o autor seria mais precária aqui do que no continente africano) mas, mesmo assim, procedeu a uma excelente análise com os parcos dados obtidos à época.

O mais interessante na abordagem que realizou sobre a pluviometria foram as análises da distribuição das chuvas associadas à disposição do relevo e altimetria do território brasileiro. Chamou a atenção para os totais extremados de chuvas na vertente atlântica da Serra do Mar (com mais de 3.500 mm anuais) e as relacionou com a direção predominante dos ventos provenientes do oceano.

Não descuidou da associação dos regimes pluviais com os sistemas atmosféricos atuantes, análises estas pouco comuns nos demais autores brasileiros de sua época, e descreveu com muita propriedade os tipos de tempos mais frequentes. Numa destas descrições evidencia-se a influência humboldtiana – o idealismo romântico – na análise dos movimentos dos fenômenos da natureza, quando, de forma poética, apresentou uma narrativa a respeito do encadeamento dos tipos de tempo quando da entrada do conhecido vento sulino denominado pampeiro pelas paragens de Mato Grosso, envolvendo a situação pré-frontal. Apesar de longa, é de tal beleza a narrativa que me permito a sua transcrição integral:

A approximação das tempestades é de ordinário presentida. A temperatura se eleva, o ar parece fogo: não sopra a menor aragem. A natureza como que se abate, extatica e assustada. Os animaes perdem o animo, murcham as orelhas, abatem as caudas; os selvagens embrenham-se nas florestas, os anphybios precipitam-se nas aguas.



Os domesticos approximam-se dos homens, confiados na proteção d’elle. Nem as grimpas das arvores: as mattas, n’uma quietude medonha, parecem solidos inteiriços. As aves se achegam aos ninhos, suspendem os vôos e se escondem; algumas, como as gaivotas, enchem os ares de suas vozes assustadas e quasi que lamentosas, prenunciando a tormenta: mas logo se calam. O ambiente cada vez se achumba mais, e a respiração se torna mais difficil. Há uma especie de dureza em tudo que nos cerca, um torpor gradativo, um silencio especial, só quebrado pelo rumor das correntezas, que augmentam de estrepito e fazem ainda maior a anciedade do homem.

Entretanto, nem uma nuvem no céo: - sómente o sol havia amortecido seus raios occultos sob um véo espesso e achumbado. D’ahi a pouco denso nimbus surgia do horizonte, elevando-se de S ou de SW; fazendo-se já ouvir o longinquo e surdo reboar do trovão. Em breve scintillam os relampagos, amiudam-se, e amiuda-se o trovão já com estridor medonho.

O ambiente modifica-se extraordinariamente e a temperatura decresce com rapidez. Sopra uma brisa, de ordinario do quadrante austral, que em breve se converte em violento tufão. Um grosso pingo d’agua, outro e outros, isolados, grandes e gelidos, cahem a grandes espaços no chão. São as avançadas de um aguaceiro diluvial, que traz por atiradores um chuveiro de granizos e açoita a natureza por alguns minutos. Meia hora depois o sol replande fulgurante.

O céo está limpido e sereno: a brisa murmura suave; as arvores curvam-se levemente ao sopro fagueiro, a natureza sorri; os pássaros saccodem das azas as gottas d’agua, que tiveram força de embeber-lhes as plumas, e cantam; os animaes todos mostram-se contentes, e o homem sente-se reanimado e feliz. Tudo respira com mais vida: sómente guardam por algum tempo o signal do cataclysma a relva abatida dos campos, as folhas despidas e os galhos lascados das arvores das florestas, e as correntes que, mais tumidas e tumultuosas, vão, contudo, pouco a pouco perdendo a sua soberbia e entrando de novo nos limites que a natureza lhes demarcou. Poucas horas depois só saberia do acontecido que o houvesse presenciado.”

(Draenert, 1896: 23-24)


Além de descrições tão completas como esta, o autor também não se eximiu da tentativa de explicação, sempre perseguindo uma abordagem tão dinâmica quanto possível para sua época, de outros fenômenos importantes da climatologia brasileira. Baseando-se em Julius Hann, caracterizou as secas do nordeste, distinguindo aquela do Maranhão e do Piauí com a do nordeste oriental, pela direção dos ventos, disposição geográfica das serras e da linha de costa e pela sazonalidade das estações chuvosas, explicadas por diferentes correntes de ar.

Ao final de sua obra, Draenert propôs um conjunto de regras para a previsão do tempo, tomando como ponto fundamental as variações barométricas e a direção dos ventos.

Trata-se, sem dúvida, de uma obra extraordinária para sua época, pois não se limitou às descrições e análises simplistas, mas sim, ousado e criativo, buscou as associações entre tempo e clima, entre a atmosfera e o ambiente terrestre, entre as leis físicas e a distribuição dos fenômenos junto à superfície. Ao contrário de Henrique Morize, como veremos mais adiante, Draenert apresentou uma análise genética e dinâmica, rica em relações e interrelações geográficas e atmosféricas. Talvez sua obra tenha sido a mais ousada e geográfica do período inicial da climatologia brasileira.
A sistematização da Climatologia no Brasil:

as contribuições de Henrique Morize e Delgado de Carvalho


Se coube a Frederico Draenert o pioneirismo de uma abordagem mais geográfica da Climatologia no Brasil, sem dúvida há que se destacar o importante papel representado por dois grandes cientistas que procederam à sistematização da Climatologia em nosso País.

Henrique Morize, engenheiro que se dedicou a Geografia, por muitos anos dirigiu o Observatório Nacional, além de lecionar Física e Meteorologia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Divulgou pela primeira vez seus estudos de climatologia em 1889, quando publicou “Esboço da Climatologia do Brasil”, obra que, infelizmente, não pudemos localizar e, por isso mesmo, temos apenas informações indiretas deste trabalho, citados por outros autores. Entretanto, esta obra primeira, com poucas alterações, foi republicada em 1922, no Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, por ocasião das comemorações do centenário da Independência do Brasil. Tivemos acesso apenas a sua 2a edição, que veio a público cinco anos depois, em 1927.

Carlos Delgado de Carvalho foi um dos mais brilhantes geógrafos de seu tempo e, talvez, o primeiro geógrafo brasileiro, responsável pela mais densa e completa análise do clima do Brasil do início do século XX. Autor de uma vasta obra que inclui variada gama de temas geográficos, Delgado de Carvalho viveu a maior parte de sua vida na Europa, tendo publicado seus trabalhos em francês, quase todos (ainda) inéditos em língua portuguesa, como “Un centre économique au Brésil” de 1908, “Le Brésil Meridional”, de 1910 e “Climatologie du Brésil”, de 1916. Mas sua principal contribuição veio com a publicação, em Londres, da “Météorologie du Brésil”, editada em 1917.

É interessante observar que por esta época, fins do século XIX e início do século XX, não havia cursos superiores de Geografia no Brasil, que somente seriam implantados em 1934, nas universidades de São Paulo e do então Distrito Federal, no Rio de Janeiro. Entretanto, havia de forma mais ou menos estabelecida, o que eram considerados como estudos geográficos, a partir dos modelos europeus. Deste ponto de vista, tanto Henrique Morize, quanto Frederico Draenert, produziram uma Climatologia Geográfica, pois realizaram análises que contemplavam o estabelecimento de relações entre os fenômenos atmosféricos e a sociedade, além das preocupações relacionadas à distribuição espacial dos tipos climáticos.

Mesmo considerando que seu primeiro trabalho de fôlego veio a público em 1889, quando Morize publicou o “Esboço da Climatologia do Brasil”, somente na edição de 1922, por ocasião das comemorações do centenário da Independência do Brasil, é que seu projeto científico assumiu corpo e método

Três aspectos merecem a atenção nesta obra de Morize (1922), as relações do clima com os aspectos humanos, a proposta de classificação climática e o expressivo conjunto de dados meteorológicos que o autor pode contar.

Quanto ao primeiro aspecto, Morize se distinguia de Draenert pois, enquanto este último relacionou os elementos do clima com a paisagem e com as sensações humanas, o primeiro, recorrendo ao conhecido geógrafo e meteorologista norteamericano Ellsworth Huntington, tecia uma série de considerações a respeito da influência do clima na sociedade, de forma bastante ambígua, ora afirmando o caráter determinista do clima no comportamento humano, ora minimizando estes aspectos quando se refere ao Brasil.

Huntington (1915), desde o início do século XX, ficou bastante conhecido por suas concepções polêmicas sobre a influência dos climas nas características dos povos. Reproduzindo os velhos preconceitos do “mal dos trópicos” e da natural “superioridade” do homem do mundo temperado, o autor afirmava, em sua mais importante obra “Civilization and Climate”, que o mundo tropical não favorece o desenvolvimento econômico, e argumentava com o seguinte exemplo:

... na época da Revolução Americana, considerável numero de legalistas foram tão fiéis à Inglaterra que sacrificaram tudo para escapar à nova bandeira estrelada. Deixando suas casas na Georgia e nos outros estados do sul eles procuraram o território britânico das Ilhas Bahamas, onde se lhes vieram reunir imigrantes da Grã Bretanha. Em nenhum outro lugar do mundo homens de raça inglesa viveram como puros colonos por diversas gerações em um clima tão tropical. E qual foi o resultado ? Não há senão uma resposta: foi desastroso. E, entretanto, o clima parece excelente; não há moléstia alguma endêmica e a fertilidade do solo é admirável. Entretanto, muitas pessoas dizem que a vida é ali muito fácil” (Huntington, 1915: 26-27)
Idéias como estas eram bastante difundidas nos meios acadêmicos da Europa e Estados Unidos até meados do século passado e, por mais paradoxal que possa parecer, tinham seus seguidores mesmo em terras tropicais como as do território brasileiro. Henrique Morize, apesar de aceitá-las, em tese, demonstrava que no caso brasileiro, ao contrário da África e partes da Ásia, as condições climáticas de grande parte de nosso país poderiam, com certo esforço, ser ocupadas com sucesso.

Para isto, mesmo reconhecendo que as zonas reputadas como impróprias ao implante da civilização européia poderiam progredir, argumentava que as primeiras civilizações do planeta se desenvolveram em zonas tórridas como o Egito e a Índia, época em que os germanos, celtas e saxônicos não passavam de bandos selvagens.

Depois de tecer uma série de considerações sobre as influências da temperatura e da umidade nos casos de criminalidade, suicídios e eficiência no trabalho concluia:

Estes valores conduzem a duas conclusões importantes: a primeira, que a temperatura optima depende do clima da região habitada pelo observador, e a segunda que o organismo humano tem grande elasticidade e pode progressivamente se adaptar a condições thérmicas, que, no começo, parecem intoleraveis”. (Morize, 1927: 4)


Por esta época é interessante notar que já havia vozes contrárias a esta visão deturpadora do mundo tropical, mesmo no Brasil. Uma destas vozes mais lúcidas e radicais foi a de Afrânio Peixoto, médico carioca que sempre foi intransigente contra esta postura preconceituosa em relação aos trópicos. Em uma de suas obras, “Les Maladies Mentales dans les Climats Tropicaux”, publicada em 1905, em co-autoria com Juliano Moreira, demonstrou a inexistência de qualquer dependência entre as variações meteorológicas e os números de casos de alienação e demência, como se afirmava na Europa e nos Estados Unidos, considerando os aspectos sazonais do clima do Rio de Janeiro.

Morize, ao longo das páginas iniciais de sua principal obra, parecia ser mais tolerante com as proposições dos autores europeus quanto as influências climáticas no comportamento humano. Tanto isto é verdade, que se esforçou para demonstrar, como poderá ser averiguado mais adiante, que a maior parte do território brasileiro se encontraria nas faixas subtropicais e temperadas, para justificar as possibilidades de adaptação do europeu em nosso território.

O segundo importante aspecto da obra de Morize foi a sua proposta de classificação climática, primeiramente divulgada em 1889 e reformulada em 1922, que tomava como ponto de partida os conceitos adotados por Köppen, no que se refere às médias térmicas, sazonalidade e totais pluviométricos. Utilizando 106 estações meteorológicas, o autor se apoiava nos climogramas para determinar os tipos climáticos. De forma resumida, a proposta de classificação climática de Morize pode ser esquematizada da seguinte maneira:

Tabela 2 – Classificação climática de Henrique Morize (1889/1922)


Clima

Temperatura anual

Tipo

Localização

Equatorial

> 25o C

Super-úmido

Amazônia

Úmido continental

Interior do Norte

Semi-árido

Nordeste

Sub-

Tropical


Entre 20o C e 25o C

Semi-úmido marítimo

Litoral oriental

Semi-úmido de altitude

Altiplanos centrais

Semi-úmido continental

Interior do Brasil

Temperado

Entre 10o C e 20o C

Super-úmido marítimo

Litoral meridional

Semi-úmido/latitudes médias

Planícies do interior do Sul

Semi-úmido das altitudes

Locais de grande altitude

É de tal modo evidente a preocupação do autor em demonstrar que os climas do Brasil eram mais propícios do que o de outras regiões de mesma latitude, que além de considerar grande parte do Nordeste e do Brasil central como sub-tropical, argumentava:


Essa questão da inclusão de vasta região do Estado de Minas na zona tropical ou na temperada tem grande importância econômica, especialmente do ponto de vista immigratório. (Morize, 1927:6)
Desta forma, Morize utilizou o critério de Köppen para delimitar as zonas tropicais e temperadas, a partir da isoterma média de 18o C para o mês mais frio, o que certamente provoca uma grande polêmica, principalmente com Delgado de Carvalho, que não aceitava este critério, como analisaremos mais adiante.

De qualquer modo, a preocupação técnica e estatística demonstrada no trabalho de Henrique Morize, seu enorme esforço em compilar um vasto conjunto de séries temporais, esparsas pelo território brasileiro, e suas análises no sentido de caracterizar a variabilidade e a sazonalidade climática, coloca esta obra como um marco no desenvolvimento das ciências atmosféricas, notadamente da climatologia.

Por esta mesma época, Delgado de Carvalho publicou suas duas obras que tratam dos aspectos climáticos do Brasil, a primeira “Climatologie du Brésil” (1916), apesar de resumida, já apontava as concepções gerais sobre o tempo e o clima, que um ano mais tarde, em 1917, apareceria muito mais elaborada na excelente “Météorologie du Brésil” que, em realidade, tratava mais dos aspectos climáticos do que meteorológicos.

Há que se considerar que devido a sua longa estada na Europa, principalmente na França, Delgado de Carvalho assimilou e divulgou no Brasil, as principais obras e concepções da Geografia que se produzia naquele país. Além de Paul Vidal de la Blache e Jean Brunhes, quem mais o influenciou foi Emmanuel de Martonne, que poucos anos antes havia publicado o “Traité de Géographie Physique”, em 1909.

Ao contrário de Morize, Delgado de Carvalho buscou uma explicação geográfica do clima, admitindo que o campo de estudo da Climatologia seria o da zona de contato entre a atmosfera e o globo sólido e líquido, que se constituiria no domínio por excelência da observação do geógrafo.

Assumindo as concepções de De Martonne que não só admitia uma concepção geográfica do clima, como se mostrava muito crítico em relação aos estudos que lançavam mão das normais médias dos elementos meteorológicos, preconizava:

O estudo do tempo durante um certo período coloca-nos em presença de realidades concretas. As relações entre os diversos fenômenos ressaltam com clareza e podem neste caso, discernir toda a engrenagem do mecanismo e acompanhar sua marcha. O tempo não varia de maneira desordenada. Podemos reconhecer situações características, que se repetem muitas vezes e se mostram durante períodos mais ou menos longos, constituindo autênticos tipos de tempo. Estamos, pois, na presença de conjunto de fenômenos característicos de certas regiões e, portanto, de realidades verdadeiramente geográficas.” (De Martonne, 1909: 184-185)

A influência de De Martonne na concepção geográfica do clima de Delgado de Carvalho aparece em toda a sua obra sobre a Climatologia e, fica mais evidente, quando tratava dos fatores meteorológicos, que em realidade, se referiam aos fatores geográficos do clima, como a continentalidade, a latitude e a altimetria.

Delgado de Carvalho (1917) estruturou sua obra em três partes: a primeira tratava da teoria e dos elementos e fatores climáticos, especificamente do hemisfério sul; a segunda, da variabilidade, sazonalidade e distribuição dos fatores meteorológicos; e a terceira, que chamou de “Climatografia”, propunha uma classificação dos climas do Brasil.

Na primeira parte, ao explicar os elementos climáticos e a circulação atmosférica, buscava na literatura anglo-germânica seus fundamentos básicos, como as concepções sobre o balanço de energia de Julius Hann, a dinâmica atmosférica de Dickson e as condições hidrometeorológicas de William Morris Davis.

Entretanto, no segundo capítulo, que tratava da relação entre o clima e a assimilação e adaptação do homem recorreu basicamente aos geógrafos, como Jean Brunhes, De Martonne e R. Ward, além do médico sanitarista brasileiro Afrânio Peixoto, que pouco antes havia publicado “Climat et Maladies du Brésil”, em 1908, e que introduziu os estudos de Geografia Médica em nosso país.

Nota-se em Delgado de Carvalho uma preocupação bastante acentuada em caracterizar os tipos climáticos na perspectiva de demonstrar as influências dos climas tropicais no desenvolvimento econômico e na adaptação do homem. Mas, ao contrário de Henrique Morize, não se deixou influenciar pelo determinismo climático e, assumiu uma postura possibilista, tal qual era o pensamento dominante na Geografia francesa desta época.




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