Universidade estadual paulista faculdade de ciências e tecnologia



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A este respeito, dizia o autor:

Ces influences générales des types tropicaux sur l’homme, en somme trés favorables à son développement, on fait des zônes intertropicales des régions trés peuplées, partout oú ne domine pas le désert. Quant au Brésil luimême, sa partie la plus peuplées s’étend entre les bouches de l’Amazone et le Tropique du Capricorne. Une des raisons du rapide accroissement des populations tropicales doit être recherchée dans l’extrême facilité de la vie, causée par la prodigalité de la Nature et la douceur du climat.”

(Delgado de Carvalho, 1917:43)
Depois de discorrer por três capítulos para caracterizar as influências cósmicas, o regime dos ventos e o regime das chuvas tomando como base os dados da rede meteorológica nacional, em número muito mais reduzido do que pode dispor Morize em sua obra de 1922, Delgado de Carvalho dedicou cerca de 2/3 de seu trabalho ao aprofundamento de uma proposta de classificação climática dos tipos regionais, o que possivelmente foi sua maior contribuição à Climatologia do Brasil.

A classificação climática proposta por Delgado de Carvalho, apesar da aparente similaridade com aquela proposta de Morize, foi bastante conflitante, principalmente no que se refere aos limites entre os climas tropicais, subtropicais e temperados, como já nos referimos anteriormente. Mas, por questões éticas e pelo enorme respeito que Delgado de Carvalho nutria por Morize, de forma muito elegante, não comparecia nas discussões entre ambos.

A divisão climática proposta compreendia três grandes grupos climáticos subdivididos em tipos característicos, como demonstramos na tabela a seguir
Tabela 3 – Classificação climática de Carlos Delgado de Carvalho (1916/1917)


Climas

Tipos

Região

Equatorial e sub-equatorial

Super úmido

Amazônia

Semi-árido

Nordeste

Tropical e sub-tropical

Semi úmido marítimo

Litoral oriental

Semi úmido de altitude

Planaltos centrais

Semi úmido continental

Interior

Temperados

Super úmido marítimo

Litoral meridional

Semi úmido de latitude média

Planície riograndense

Semi úmido de altitude

Planaltos do sul

Além disto, para cada um dos tipos de clima, propunha ainda uma outra subdivisão contemplando feições regionais, mais ou menos bem delimitadas, considerando os aspectos termo-pluviométricos e os traços gerais da circulação atmosférica, portanto, de caráter muito mais meteorológico do que a proposta de Morize, com a vantagem adicional de incorporar, nas escalas inferiores – regionais e subregionais – os fatores geográficos.

O fato é que Delgado de Carvalho não somente produziu a obra mais completa sobre a Climatologia brasileira de sua época, como introduziu uma análise eminentemente geográfica. Esta classificação, segundo Serebrenick (1942), representou um notável avanço, dado o cunho mais científico e a terminologia empregada, demonstrando total sintonia com a produção do saber de seus contemporâneos dos países mais avançados.

Todo o procedimento metodológico e as concepções empregadas nas análises climatológicas permitem a afirmação de que esta obra pode ser considerada como a primeira produzida sob um paradigma geográfico no Brasil, numa época em que a Geografia ainda não existia enquanto área específica do conhecimento e, portanto, não estava institucionalizada em nosso País.


A Criação da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo:

Belfort de Mattos e a climatologia paulista


Na segunda metade do século XIX, com o início das grandes expedições científicas norteamericanas em território brasileiro, uma nova fase de descobertas e um novo conjunto de procedimentos científicos, principalmente no campo das ciências naturais (incluindo-se as geociências) se instalaram em nosso país.

Com a expedição Thayer, em 1865, a primeira das cinco empreendidas por cientistas dos Estados Unidos, vieram entre outros, os geólogos Louis Agassiz e Charles Hartt. O extraordinário volume de informações geográficas, geológicas, paleontológicas, botânicas e etnográficas produzidas se configuraram como os embriões da nascente ciência geográfica, mais especificamente da Geografia Física.

Segundo Pereira (1980), Hartt voltaria ao Brasil em 1870, chefiando outra excursão científica, a Expedição Morgan, confirmando o enorme interesse que os Estados Unidos passaram a dedicar ao território brasileiro e as suas possibilidades de exploração econômica. Na equipe de Hartt se encontrava Orville Derby, um dos mais eminentes cientistas que atuaram no Brasil, que teve destacado papel tanto na criação da Comissão Geológica do Império, em 1875, quanto na Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, para onde se transferiu em 1886.

Orville Derby não somente foi um estudioso da Geologia e da Geografia Física brasileira, quanto um apaixonado por nosso país, aqui permanecendo até sua trágica morte, por suicídio, em 1915. Em São Paulo, de 1886 até 1905, dirigiu a Comissão Geográfica e Geológica implementando uma sistemática de trabalho que consistiu, entre outros fatores, numa estratégia de reconhecimento físico e territorial do Estado, além de criar as diversas seções de pesquisa, como a de Meteorologia, de Botânica, de Solos, que mais tarde resultariam no grande parque científico que compreende os institutos de pesquisas do Estado de São Paulo.

Ao seu redor, Derby pode reunir um grupo de excelentes intelectuais e cientistas, como Alberto Löfgren, Teodoro Sampaio, Belfort de Mattos e Frederico Schneider, que tiveram relevante papel tanto da produção científica quanto em sua institucionalização no Estado de São Paulo.

Já em 1887, com o apoio de Derby, Alberto Löfgren implantou o Serviço de Meteorologia da Comissão Geográfica e Geológica, do qual foi diretor até 1902, instalando a primeira estação, na cidade de São Paulo e, dois anos depois, eram criadas as de Tatuí e Rio Claro. Obedecendo os mais criteriosos métodos de coleta e utilizando aparelhos análogos aos da Europa de então, em 1900, a rede paulista já contava com cerca de 40 estações meteorológicas espalhadas em seu território.

Este rápido crescimento, aliado a um enorme conjunto de trabalhos de pesquisa publicados nos boletins do Serviço de Meteorologia, então denominados “Dados Climatológicos” serviram de suporte para o estabelecimento e fortalecimento da Climatologia paulista.

Além da publicação dos dados meteorológicos, comentados e analisados com bastante profundidade, este Boletim também foi o veículo de divulgação dos resultados das pesquisas produzidas que tentavam explicar as características e particularidades do clima de São Paulo. Em 1902, José Nunes Belfort de Mattos assumiu a Seção de Meteorologia, que acabara de ser transferida para a Secretaria da Agricultura, permanecendo como seu diretor até 1926.

À frente do Serviço de Meteorologia da Secretaria de Agricultura, Belfort de Mattos pode ser considerado o primeiro grande estudioso do clima de São Paulo. Muito influenciado por Löfgren e por Derby e, tendo em mãos as séries temporais de dados meteorológicos do Estado de São Paulo, as mais completas do país, pode caracterizar e analisar de forma bastante detalhada a climatologia paulista.

Em seus primeiros trabalhos nota-se uma profunda preocupação com as técnicas estatísticas utilizadas na interpretação dos elementos meteorológicos, sempre comparando-os espacialmente. Quando publicou “Breve notícia sobre o clima de São Paulo”, Mattos (1906) já tinha bem clara uma proposta de regionalização dos climas paulistas salientando o papel da latitude, altitude e distância do mar, ao propor a existência de três tipos climáticos: o do litoral, o do alto da serra e o do interior.

Em 1908, introduziu a análise sinótica na primeira tentativa de produzir uma previsão do tempo destinada à cafeicultura. Dois anos depois (Mattos, 1910b), publicaria uma polêmica nota “Em defesa do clima de São Paulo”, quando procurava, de forma bastante engajada com a política de imigração do governo estadual, demonstrar as vantagens do clima paulista para o estabelecimento de imigrantes europeus e para o desenvolvimento da agricultura. Neste artigo, comparava o clima de São Paulo com o de Palermo – na Itália – argumentando que as médias anuais da capital paulista oscilavam entre 17,5oC e 18oC e, por isso, configurava-se como um clima “quase” europeu.

Em suas observações de caráter mais geográfico, como no artigo que publicou, neste mesmo ano, no primeiro Congresso Brasileiro de Geografia (Mattos, 1910a), sobre a influência das matas sobre o clima, este autor já alertava para o sério problema da devastação das matas e florestas e suas consequências para o balanço hídrico e para o uso do solo agrícola, comentando que:

O regimen dos rios de um paiz, com as seccas que elles apresentam e as inundações a que dão logar, depende, em grande parte, da importancia e extensão das florestas que o cobrem, e a acção que as vastas regiões florestadas exercem sobre a regularisação das cheias e das estiagens é um fato indiscutível, assim como está reconhecida a influencia benéfica das mattas, amenisando os climas, ao determinarem uma quéda na temperatura média do ar, ao mesmo tempo que evitam os saltos excessivos das temperaturas extremas que se verificam nas regiões desnudas.” (Belfort de Mattos, 1910a:19)
Mais adiante, neste mesmo artigo, e ainda discutindo as relações entre a atmosfera e a superfície terrestre, o autor fazia uma série de comentários sobre as possibilidades de influência do homem na constituição e características do ambiente atmosférico e apontava para as mudanças que já estariam ocorrendo no clima da cidade de São Paulo, relacionando como possíveis causas, a expansão territorial urbana. Neste caso específico sugeria que as mudanças estariam sendo benéficas, ao afirmar:

Dizem os velhos paulistas que o clima da Capital do Estado de S.Paulo não é mais o que elles conheceram há 40 annos atraz, e não se enganam os velhos n’essa affirmação, porque nos 20 annos mais chegados já encontramos mudanças bem sensíveis na taxa de humidade de S.Paulo, resultando felizmente um clima mais saudavel, por isso que o ar se tornou mais secco com a transformação e melhoramentos soffridos pela urbs.” (Belfort de Mattos, 1910a: 24-25)


Apesar das limitações da obra de Belfort de Mattos e das duras críticas que Sampaio Ferraz teceu às suas primeiras tentativas de introduzir a previsão do tempo a partir das cartas sinóticas, é inegável sua contribuição para o conhecimento e desenvolvimento da climatologia do Estado de São Paulo, no primeiro quarto do século XX.
A contribuição de Afrânio Peixoto e a climatologia médica
Dos primeiros estudos sobre o clima do Brasil em meados do século XIX, foi a partir dos paradigmas da salubridade, adaptação, higiene e saúde pública, que a climatologia deu os seus primeiros passos rumo a sua institucionalização como campo do saber.

Entre os médicos e sanitaristas brasileiros, nenhum outro interpretou tão profundamente as relações entre o clima, o homem e a cultura quanto Afrânio Peixoto. Pelo conjunto de sua obra, não seria exagerado afirmar que tenha sido o precursor da Geografia Médica em nosso país.

Professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Peixoto foi um ardoroso defensor do mundo tropical contra o preconceito dos detratores deste ambiente, que apregoavam a “natural” inferioridade dos povos da zona tórrida. Já em 1907, publicava um de seus primeiros trabalhos que tratava da relação entre o clima e as doenças no Brasil. Nesta obra, empolga-se com as possibilidades de se pensar o país a partir de soluções internas para a superação dos problemas brasileiros.

No prefácio de sua obra capital “Clima e Saúde”, o discurso do autor revelava as armas de que dispunha, ao tentar interpretar a realidade nacional do início do século XX, quando afirmava:


O Brasil é o único país grande, de civilização ocidental, situado nos trópicos. Portanto, não comparável a nenhum dos ditos “países cultos”, temperados e frios. Com a Índia e Egito não se quereria parecer... Tem, pois, direito a pensar e de achar soluções suas, para os próprios problemas: soluções brasileiras, para problemas brasileiros. É hoje o único país “colonial, ou de matérias primas, que não tem metrópole, a protegê-lo: tem, portanto, dever de cuidar de si, procurando soluções econômicas próprias, para os particulares problemas brasileiros. Na meditação, e nas ações decorrentes destes postulados, que impõe o clima, e a topografia, e a gente, e a educação, está a felicidade e até está a própria sobrevivência nacional.Possam não ser vãos tais reclamos. Ao amor, que é grande, perdoarão a veemência, que vem das apreensões. Não se pode ser brando, se é muita a força do amor.” (Peixoto, 1938)

Enquanto Belfort de Mattos e Henrique Morize, ao tratarem dos climas brasileiros, defendiam as idéias de que, mesmo aceitando as teses do determinismo geográfico, grande parte do território brasileiro (centro-sul) se encontraria dentro dos limites dos climas subtropicais e temperados, apresentando climas “favoráveis” ao desenvolvimento humano e econômico e, portanto, nesta porção de nosso território estaríamos livres destas limitações de ordem climática, Peixoto, ao contrário, não aceitava esta linha de raciocínio.

Para Peixoto (1938), em primeiro lugar, era fundamental que se derrubassem e se desmascarassem as teses deterministas e se construísse uma nova perspectiva de análise da terra e do homem dos trópicos. Em toda a sua obra evidencia-se o enorme esforço de defesa da tese do possibilismo, demonstrando que, em realidade, as influências climáticas geravam adaptações e novos arranjos nas relações sociedade-natureza.

Mas, além do discurso no campo das idéias filosóficas, que Afrânio Peixoto foi construindo por mais de três décadas, dedicando-se às influências do ambiente no comportamento das sociedades, este autor também se interessou, e muito, pelos aspectos de ordem climática, a tal ponto que, deixando de lado sua formação acadêmica no campo da medicina, mergulhou a fundo na discussão teórica e metodológica da Climatologia chegando, inclusive, a apresentar uma avaliação crítica da produção científica desta área do conhecimento.

Em “Clima e Saúde”, Peixoto (1938) realizou uma excelente análise das condições climáticas associadas às enfermidades e à saúde pública, demonstrando que mais do que as influências do clima, são as condições de higiene e salubridade, portanto, aspectos sócio-econômicos, que passam a definir as novas áreas endêmicas. Desmontando as idéias preconceituosas sobre as “doenças tropicais”, o autor argumenta:

Doenças climáticas foram outrora a cólera, a malária, a doença do sono: hoje têm uma etiologia conhecida, sem nenhuma subordinação ao clima; invadem terras sobre todas as latitudes; nas zonas de um mesmo clima, têm recuado diante daquelas cuja higiene as tem sabido preservar. E essa verdade tão simples, e de tão grandes consequências – porque a conquista territorial e econômica do mundo aí está, - que não há doenças climáticas – portanto não há doenças tropicais – se impõe, substituindo velhas crenças por essa outra científica pela observação e pela experiência: existem apenas doenças evitáveis, contra as quais a higiene tem meios seguros de defesa e reação.” (Peixoto, 1938:76)

Nesta mesma obra, o autor analisou as questões sobre a “meteoropatologia”, relacionando os tipos de clima e suas variações sazonais, com os casos de morbidez, epidemias e endemias. Concluiu que, a partir de certas condições climáticas, algumas patologias são facilitadas e outras inibidas, entretanto, uma vez detectadas e diagnosticadas muitas deixam simplesmente de existir. Podem, todavia, reaparecerem em outros ambientes climáticos, em função das condições de higiene e saúde.

Retomando o seu interesse pelas questões mais particulares da Climatologia, Peixoto (1908), ao propor uma nova classificação climática para o Brasil, considerava três tipos climáticos, assim como Morize e Delgado de Carvalho, porém, ao contrário dos outros dois, enfatizava o caráter de tropicalidade de nosso território.

A classificação climática de Peixoto, primeiramente divulgada em 1908, e ligeiramente modificada em 1938 e 1942, está assim estruturada:
Tabela 4 - Classificação Climática de Afrânio Peixoto (1908, 1938 e 1942)

Climas

Tipos (gerais)

Região

Equatorial

Quente e úmido

Alto Amazonas

Quente e sub-úmido

Interior dos estados do Norte (PA, MA e MT)

Sub-quentes e úmidos

Litoral dos estados do norte e nordeste

Tropical

Litonâneo

Litoral da BA e SE

Litorâneo quente e úmido

Litoral da BA, ES e RJ

Continental

Vale do Paraguai (MT/MS)

Altitude

Regiões elevadas da BA, MG, ES, RJ e SP

Temperado

Litorâneo

Litoral de SP, PR, SC e RS

Continental e de altitude

Estados de SP, PR, SC e RS

As principais diferenças entre as classificações de Henrique Morize, Delgado de Carvalho e Afrânio Peixoto, que serão analisadas no próximo capítulo, se referem muito mais à questão da delimitação da zona tropical do que aos elementos geográficos e meteorológicos considerados na proposta de distribuição espacial dos climas.

Se de um lado, Draenert, Morize e Delgado de Carvalho foram os responsáveis pelos primeiros estudos mais sistemáticos da climatologia brasileira na passagem dos séculos XIX para o XX, por outro lado, coube a Afrânio Peixoto, nestas primeiras páginas da história dessa ciência, o estabelecimento de um conjunto de procedimentos de análise mais conjuntiva e humanística. De certa forma, introduziu um novo paradigma para os estudos geográficos do clima.
As primeiras tentativas de classificação dos climas do Brasil

De todas as tentativas de se obter uma classificação dos climas globais, entre o final do século XIX e início do século XX, as propostas de Wladimir Koppen de 1901 (1931) e a de Emmanuel de Martonne (1909) foram consideradas as mais completas e, portanto, as mais utilizadas, as que influenciaram os climatólogos de todo o mundo, na produção de classificações regionais (Serebrenick, 1942).

A primeira proposta de classificação climática para o território brasileiro foi elaborada por Henrique Morize, em 1889. Em função das enormes dificuldades de obtenção de dados e da parca rede de estações meteorológicas existentes no Brasil daquela época, como bem afirmou Serebrenick (1942), ela tem apenas um valor histórico pois, partindo do reconhecimento das zonas térmicas do globo, acrescentou elementos geográficos, como altitude, maritimidade e latitude, para subdividi-la em tipos característicos.

Classificava os climas em três grupos: Equatorial, sub-tropical e temperado, baseado nas isotermas superior a 25o C, de 20o C a 25o C e inferior a 20o C, respectivamente.

O que mais chama a atenção nesta primeira proposta, é que Morize considerava toda a região compreendida entre as isotermas de 20o C e 25o C como correspondente ao clima sub-tropical, numa nítida manobra para demonstrar que o Brasil apresentava enorme potencial de receber imigrantes europeus e, portanto, de desenvolvimento econômico. É interessante notar que este critério desapareceu quando divulgou sua nova versão, em 1922.

De caráter mais ou menos semelhante a este de Morize, o alemão Frederico Draenert (1896) caracterizava as regiões climáticas do Brasil sem, contudo, espacializa-las. Mesmo assim, reconheceu dois grandes climas: o da zona tórrida e o temperado. Na zona tórrida, distinguiu os tipos continentais e litorâneos; os de altitude e os dos vales, descrevendo as variações térmicas e pluviométricas. A zona temperada, segundo o autor, também apresentaria uma distinção entre os tipos litorâneos e continentais marcados, fundamentalmente, pela amplitude térmica.

Estas duas classificações iniciais dos climas brasileiros, sem dúvida alguma, apesar das limitações impostas pelo contexto histórico, devem ser tratadas como os primeiros esboços de uma ciência ainda em implantação, entretanto, são reveladoras da capacidade analítica e de observação de nossos primeiros climatólogos.

Afrânio Peixoto (1908) apresentou sua proposta de classificação climática para o Brasil afirmando que qualquer classificação, antes de mais nada é um artifício didático e, por isso, é sempre uma ação arbitrária. Mesmo assim, ao contrário de Morize e Delgado de Carvalho, utilizou critérios mais astronômicos para a delimitação das três zonas climáticas que reconhecia como mais características.

O autor utilizou, de forma arbitrária, o paralelo de 10o e o Trópico de Capricórnio como parâmetros para delimitar as zonas equatorial, tropical e temperada, respectivamente. Sua proposta, como nos apontou Serebrenick (1942), apresentou a vantagem de aperfeiçoar as classificações de Morize e Delgado de Carvalho, no que tange ao reconhecimento das diferenciações entre os climas dos planaltos interiores e da planície do Pantanal, bem como sugeriu a existência de dois tipos climáticos no Brasil meridional, o litorâneo e o dos planaltos interiores.

Quase uma década depois, Delgado de Carvalho (1916) tornou pública sua nova proposta de classificação, depois de tomar conhecimento dos sistemas de De Martonne (1909) e a de Penck , em 1910 (apud Serebrenick, 1942). Em 1909, foi divulgada a classificação de De Martonne, que assim como a de Köppen, sofreu várias alterações até a versão final de 1925. De caráter mais geográfico, com nítidas preocupações sistemáticas e regionais, propôs 6 grandes grupos de climas subdivididos em 32 tipos, nomeados em função da região em que o tipo climático aparece com mais nitidez.

Nesta revisão, acrescentou a terminologia utilizada por Penck, para propor os tipos regionais (super úmido, semi-úmido, semi-árido), além de reconhecer a existência de um clima temperado de latitude média, representada pela planície rio-grandense (Pampa gaúcho).

Em 1922, Henrique Morize elaborava sua segunda proposta de classificação climática, agora de posse de um significativo número de séries temporais de dados meteorológicos, espalhados por todas as regiões brasileiras. Reconhecendo as características da classificação de Delgado de Carvalho de 1916, com pequenas alterações publicadas em 1917, em sua “Météorologie du Brézil”, além de incorporar alguns princípios da classificação climática de Köppen, Morize (1922) distinguiu entre os tipos super úmido e semi-úmido, um tipo intermediário úmido, que não comparecia no sistema de Delgado de Carvalho.

A classificação climática de Köppen foi divulgada pela primeira vez em 1901, e reformulada diversas vezes (1918, 1923 e 1928) até a sua versão definitiva em 1931, já com a colaboração de Rudolf Geiger. O sistema de classificação enfatizava os aspectos da distribuição média anual, sazonal e dos meses extremos (verão e inverno) e do comportamento anual e sazonal das chuvas (inclusive os períodos de concentração). As zonas climáticas foram delimitadas considerando, também, a distribuição biogeográfica dos seres vivos e das grandes formações vegetais do planeta.

Köppen elaborou um complexo sistema combinando três conjuntos de letras, cujo primeiro grupo se refere às grandes zonas latitudinais do clima, além das regiões de altitude, polares e desérticas. No segundo conjunto particularizaria, dentro destas grandes zonas, os tipos a partir do regime, duração e concentração das precipitações pluviométricas e no terceiro, as variações térmicas, enfatizando os limites entre as máximas de verão e mínimas de inverno.

Assim, Henrique Morize abandonou o termo subtropical utilizado em sua proposta anterior (Morize, 1889) e passou a adotar o termo tropical para as regiões Nordeste e Centro Oeste, cujas temperaturas médias anuais compreendiam a faixa entre 20o C e 25o C.

A derradeira proposta de classificação foi divulgada por Delgado de Carvalho (1926), quatro anos depois, quando publicou a sua “Fisiografia do Brasil”. Nesta última, que foi considerada coincidente com a de Morize (1922), na verdade apresentava algumas diferenças, a começar pela adoção de oito tipos climáticos, e não nove, pois não aceitava o tipo úmido. Também não aceitava a denominação do tipo continental para a fachada Atlântica do Sudeste, que denominava de altitude.

De qualquer forma, as semelhanças eram maiores do que as diferenças, tanto que esta classificação passou a ser conhecida como a classificação “Morize-Delgado. Sendo adotada oficialmente por quase duas décadas e servindo como base conceitual para todos os fins, em todo o território nacional.

Segundo sugeria Serebrenick (1942:455) todas as discussões e propostas de classificação dos climas do Brasil que tiveram início no final do século XIX, indicavam que: “poderia parecer concluída esta evolução, com o estabelecimento de um esquema único, definitivo, merecidamente qualificado de classificação Morize-Delgado”.

No quadro a seguir apresentamos estas seis classificações divulgadas entre 1889 e 1926, demonstrando as áreas climáticas segundo os vários autores, conforme Serebrenick (1942).

Com relação a estas propostas de classificação há que se considerar que no período histórico analisado, os estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, eram considerados como estados do norte. Assim como por zona tórrida denominava-se o que se classifica, na atualidade, os climas equatoriais e tropicais.




Quadro 4 – Características das classificações climáticas para o Brasil


Autores

Zonas climáticas

Regiões climáticas

Localização

Henrique Morize

1889


Tropical



Equatorial

Alto Amazonas

Tropical continental

Interior da região norte

Tropical Litorâneo

PA até PB

Subtropical





Região norte (PE até BA)




Região sul (BA até SP)

Temperada




SP até RS

Frederico Draenert

1896


Tórrida


Continental

Interior da região norte

Litorânea

Pa até RJ

Subtropical

Planaltos e serras do SE

Temperada




SP até RS

Afrânio Peixoto

1908


Equatorial

Até o paralelo de 10o



Equatorial

Alto Amazonas

Tropical continental

Interior da região norte

Tropical Litorâneo

PA até PB

Tropical

Do paralelo 10o até o Tróp. de Capricórnio



Litorâneo

BA

Litorâneo do SE

Sul da BA até o RJ e MG

Altitude

Planaltos do interior

Continental

Planícies do Mato Grosso

Temperada


Litorâneo

Costa dos estados do Sul

Continental

Planaltos dos estados do Sul

Delgado de Carvalho

1916/1917



Equatorial e

Sub-equatorial



Super-úmido

Amazônia

Semi-árido

Nordeste

Tropical e

Sub-tropical



Semi-úmido marítimo

Litoral oriental

Semi-úmido de altitude

Planaltos do centro

Semi-úmido continental

Interior brasileiro

Temperado

Super-úmido marítimo

Litoral meridional

Semi-úmido das lat.méd.

Planície rio-grandense

Semi-úmido de altitude

Planaltos do Sul

Henqique Morize

1922


Equatorial

Temp. média anual superior a 25o C



Super-úmido

Amazônia

Úmido continental

Interior da região norte

Semi-árido

Nordeste brasileiro

Tropical

Temp. média anual entre 20o C e 25o C



Marítimo semi-árido

Litoral oriental

Semi-úmido de altitude

Alti-planaltos do centro

Semi-úmido continental

Interior do Brasil

Temperado

Temp. média anual entre 10o C e 20o C



Super-úmido marítimo

Litoral meridional

Semi-úmido das lat.méd.

Planícies do interior do Sul

Semi-úmido de altitude

Locais de grande altitude

Delgado de Carvalho

1926


Equatorial

Super-úmido

Amazônia

Semi-árido

Nordeste

Tropical



Semi-úmido marítimo

Litoral oriental

Semi-úmido de altitude

Planalto

Semi-úmido continental

Interior

Temperado

Super-úmido marítimo

Litoral meridional

Semi-úmido das lat.méd.

Planície do Sul

Os avanços da Meteorologia Sinótica e o paradigma dinâmico


Antes de se proceder à análise do advento da meteorologia sinótica e seus reflexos na climatologia dinâmica, é importante que se resgate como se processou a institucionalização da climatologia e da meteorologia na Brasil, uma vez que, foi no interior das instituições públicas – civis e militares – que se travou um intenso debate sobre os rumos das ciências atmosféricas em nosso país.

Com a reestruturação do Observatório Imperial, em 1871, quando os estudos sobre o tempo e o clima passaram a merecer maior destaque, em função das demandas originadas tanto pelo desenvolvimento da agricultura, quanto pela política de imigração, e com a criação da Repartição Meteorológica da Marinha, em 1888, fortemente influenciada pela doutrina militar norteamericana, estabeleceu-se no Brasil um conflito de interesses que extrapolando o campo científico, adquiriu conotações político-ideológicas (Ab’Saber, 1979).

No apagar das luzes do regime monárquico e com o nascimento da República, em fins do século XIX, o embate entre monarquistas e republicanos atingia todos os setores da sociedade brasileira, quando se contrapunham dois modelos de nação. Desde o processo de Independência de nosso país, o modelo de ciência que foi se estabelecendo, seguia os princípios da escola idealista romântica de Humboldt, e mantinha fortes vínculos com os círculos científicos europeus (franceses, alemães, austríacos, ingleses, portugueses).

Por outro lado, com a emancipação política do Brasil, em 1821, e com o surgimento dos Estados Unidos como potência continental, crescia a influência norteamericana, principalmente a partir da Doutrina Monroe, fortalecendo os laços militares entre os dois países.

Desta forma, os meios militares brasileiros aos poucos abandonaram as doutrinas européias e se alinharam aos Estados Unidos, assumindo o lema “A América para os americanos”. Tanto isto é fato, que desde fins do século XIX, o alto escalão das forças armadas do Brasil, passou a realizar os seus cursos doutrinários, de estratégia militar e de atividades conjuntas, nos Estados Unidos.

Emmanuel Liais e Henrique Morize, dois dos maiores nomes que impulsionaram as ciências atmosféricas no Brasil, eram franceses de nascimento, com fortes ligações com as cortes do Império e formados sob a influência da escola humboldtiana – o idealismo romântico (Ferraz, 1934).

Já nas forças armadas, principalmente na Marinha, onde surgiu a necessidade de se montar uma estrutura de investigação das ciências atmosféricas, os jovens tenentes – republicanos e positivistas – Adolpho Pinheiro, Américo Silvado e Tancredo Burlamaqui, representavam o pensamento doutrinário norteamericano, sendo fortemente influenciados por Matthews Maury, oficial da Marinha, que implementou o sistema de observações meteorológicas nas embarcações dos EUA (Neira, 2000).

Em realidade, apesar da existência de um setor de investigação em Meteorologia no Observatório do Rio de Janeiro, no qual trabalharam Morize e Liais, as pesquisas desenvolvidas naquela instituição eram essencialmente voltadas para a descrição climatológica do País. Ao passo que, nos setores da Marinha, as preocupações com a previsão do tempo e os aspectos sinóticos, fundamentais para a rotina da navegação, é que norteavam as suas pesquisas.

Neste contexto, um caloroso e violento debate sobre os rumos das nascentes ciências do ar tomou corpo no final do século XIX, quando, depois de criar a Repartição Central Meteorológica, pelo Ministério da Marinha, o jovem tenente Tancredo Burlamaqui, e pouco depois seu sucessor, Américo Silvado, propuseram a unificação dos diversos serviços meteorológicos do Brasil. O grupo de politécnicos do Observatório Nacional (denominação adotada depois da Proclamação da República), principalmente na figura de Henrique Morize, apesar de concordar com esta unificação, discordava quanto aos objetivos e métodos propostos pela Marinha (Ferraz, 1980 e Ab’Saber, 1979).

Esta polêmica, na verdade, retratava uma diferença que, até hoje, subsiste entre climatólogos e meteorologistas no Brasil. De um lado, os técnicos da Marinha, preocupados em dotar o serviço meteorológico de técnicas de previsão do tempo (baseadas em cartas isobáricas) e na melhoria qualitativa do instrumental técnico. De outro, o grupo de politécnicos do Observatório Nacional, que defendia a expansão da rede de superfície e o investimento na obtenção das séries temporais.

Ferraz (1934), que acompanhou de perto este episódio, assim o comenta:
O conflito de aspirações e objetivos estabelecido a esse tempo, entre homens de igual gabarito administrativo e intelectual, ficou bem patente na áspera polêmica entre Henrique Morize e Américo Silvado: o primeiro representando a melhor ciência que o país podia oferecer; o segundo, porém, exigindo investigações mais aprofundadas a par com aplicações mais condizentes com as necessidades do país.” (Ferraz, 1934:24)

Ao final deste embate, em função do maior prestígio dos politécnicos, Morize conseguiu obter a criação da primeira organização nacional, a Diretoria de Meteorologia e Astronomia, vinculada ao Ministério da Agricultura, absorvendo as redes da Marinha e a do Telégrafo Nacional, em 1909. Mesmo tendo resistido por muito tempo à implantação das cartas sinóticas e orientado os trabalhos mais para a linha da climatologia, não conseguiu evitar que o Serviço Meteorológico da Marinha continuasse a desenvolver suas pesquisas aplicadas à previsão do tempo.

Outro acontecimento marcante no que se refere à institucionalização da Climatologia em nosso País foi a implantação da Comissão Geográfica e Geológica da Província de São Paulo, em 1886, sob a direção de Orville Derby. Criada a Seção de Meteorologia, coube a Alberto Loefgren e sua equipe, a elaboração do projeto de implementação de uma rede de estações meteorológicas que, em 1887, contava com apenas três estações – São Paulo, Rio Claro e Tatui – mas em poucos anos, já em 1900, somaria cerca de 40 estações espalhadas pelo território paulista e se tornaria a mais completa e numerosa de todo o país (Loefgren, 1900).

Mais do que Alberto Loefgren foi Belfort de Mattos, chefe da Seção de Meteorologia da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, a partir de 1902, quem mais se dedicou ao estudo da Climatologia paulista e realizou as primeiras tentativas e ensaios com a utilização de cartas sinóticas.

Nas primeiras décadas do século XX, dois acontecimentos foram responsáveis pelo avanço dos estudos do tempo e do clima no Brasil. O engenheiro carioca Joaquim de Sampaio Ferraz (de quem comentaremos mais adiante) retornava do exterior em 1903, por onde estivera por quase 8 anos, completando seus estudos em prestigiosos institutos da Inglaterra e dos Estados Unidos. Neste mesmo ano foi admitido no Observatório do Rio de Janeiro, e ali organizou os primeiros mapas sinóticos para a previsão do tempo. Subordinado à Henrique Morize, que reconhecidamente não se interessava por tais estudos, Ferraz conseguiu convencê-lo da eficácia destas técnicas e, a partir de 1917, foi autorizado a publicar os prognósticos para a então capital federal.

Logo após, em 1921, de acordo com Neira (2000), convencidos de que chuvas e estrelas não eram tão afins, ocorreu a separação das seções de Meteorologia e de Astronomia, que estavam vinculados ao Observatório Nacional. Foi então, criada a Diretoria de Meteorologia, dirigida por Sampaio Ferraz desde a sua fundação até 1930, quando se extinguiu e foi substituída pelo Departamento Nacional de Meteorologia, o que hoje constitui-se no INMET – Instituto Nacional de Meteorologia. Nestes quase 70 anos de vida, perambulou por vários ministérios, sempre vítima do descaso de nossos governantes e da penúria financeira.

Portanto, deve-se atribuir a Joaquim de Sampaio Ferraz, a introdução dos estudos de Meteorologia Sinótica em nosso país.

Bjerknes e Rossby: as escolas de Bergen e de Chicago


Desde o último quartel do século XIX, que os estudos que tratavam dos padrões mundiais dos ventos, do estabelecimento dos conceitos de ciclone e anticiclone, das baixas e altas pressões e das definições dos sistemas atmosféricos, pertenciam ao conjunto de preocupações dos meteorologistas e climatólogos da época, como Ley, Coffin, Köppen, Hann, Teisserenc de Bort, entre outros.

A análise sinótica começava a ser empregada nos estudos de previsão do tempo, significando enorme avanço técnico. Porém, as limitações impostas pelos modelos de circulação atmosférica concebidos até então, não permitiam, ainda, o estabelecimento de um padrão global, tridimensional, que só seria possível a partir da aplicação das leis termo-hidrodinâmicas de Boltzman na Meteorologia.

Segundo Stringer (1972), o grande salto paradigmático que possibilitou o desenvolvimento da Meteorologia Sinótica e, por consequência, da Climatologia Dinâmica, ocorreu quando o norueguês Vilhelm Bjerknes, entre os anos de 1897 e 1902, em Estocolmo, Suécia, iniciou a aplicação dos conceitos hidrodinâmicos na construção das cartas sinóticas.

Depois de uma rápida passagem por Leipzig, na Alemanha, entre 1913 e 1917, quando implantou a primeira escola de Meteorologia de que se tem notícia, Bjerknes estabeleceu-se em Bergen, na Noruega, onde produziu as mais importantes descobertas no campo da Meteorologia sinótica e dinâmica. Em associação com um grupo de cientistas, físicos, oceanógrafos, engenheiros e meteorologistas, que mais tarde ficariam conhecidos como o grupo de Bergen – a Escola de Bergen – estabeleceu as bases físicas conceituais deste novo paradigma.

Entre 1917 e 1929, junto com Solberg, Bergeron, Rossby e outros, Bjerknes concentrou seus estudos sobre as zonas de fronteira entre as massas de ar – frias e quentes – elaborando os conceitos das frentes quentes (1918), oclusas (1919) e a teoria da frente polar (1922), convencido que estava sobre o papel determinante das perturbações frontais e dos anticiclones migratórios na produção dos tipos de tempo. Concepções estas que marcariam profundamente a Meteorologia moderna.

A respeito da Escola de Bergen, Burroughs (1998) comenta que:

La escuela de Bergen realizó un avance significativo, entre 1918 y 1923, cuando plantearon la teoría de que la actividad meteorológica se concentra en zonas relativamente reducidas, en las fronteras entre las masas frías y calientes. Llamaron a estas zonas de frentes por analogía com los frentes de batalla de la Primera Guerra Mundial. Posteriormente se confirmó que dichos frentes son la principal causa del tiempo atmosférico, y se desarrollaron métodos que permiten a los meteorólogos predicir sus movimientos com una precisión considerable”. (Burroughs, 1998:74)

Todos os modelos anteriores de circulação atmosférica fracassaram por causa das limitações impostas pelas teorias laplaceanas, dominantes até então, que os reduziam à implicação da lei da gravidade. Com as novas propostas de Bjerknes de aplicação da termo-hidrodinâmica em Meteorologia, iniciavam-se novas possibilidades de compreensão e interpretação dos climas baseadas na origem, frequência e trajetória dos campos de pressão atmosféricos.

O climatólogo norte-americano Edward Stringer, ao analisar o impacto – e as limitações - da teoria da Frente Polar, afirma que:

At the time of the formulation of the Polar Front theory, emphasis was on the traveling depressions and anticyclones of middles latitudes. The enthusiastic disciples of the Bergen School believed that all local weather could ultimately be axplaines in terms of air masses and fronts, once enough local varieties of these had been recognized. They also believed that depressions and anticycoles would have some effect on the upper atmosphere, but, lacking observations, they did not emphasize such effect. (Stringer, 1972:8)


Assim, a despeito das enormes possibilidades de desenvolvimento das técnicas de previsão do tempo e da compreensão dos mecanismos dinâmicos da baixa atmosfera, a partir das teorias das frentes e das aplicações propostas por Bjerknes, ainda não seria possível conseguir um modelo global, pois faltavam algumas peças do complexo quebra-cabeças, como as interrelações com a circulação superior que somente seriam descobertas por Gustav Rossby, uma década mais tarde.

Entretanto, foi o modelo de Meteorologia Sinótica proposto pela escola de Bergen que possibilitou o surgimento da Climatologia Dinâmica, termo definido por Bergeron, discípulo de Bjerknes, em 1930, que consistia no tratamento estatístico dos tipos de tempo (massas de ar e frentes) como fenômenos completos e de entendimento dos processos termodinâmicos.

Poucos anos antes, segundo Tarifa (1975), tanto Ward quanto Federov foram os pioneiros a chamar a atenção para o conceito do clima como a totalidade dos tipos de tempo sobre determinado lugar.

O geógrafo russo Federov, em 1921, divulgava o termo “climatologia complexa”, que propunha uma descrição dos climas locais a partir de observações diárias do tempo, em termos das frequências relativas de vários tipos de tempo, ou grupos de tipos de tempo, no lugar dos valores médios, tão utilizados em sua época, como seu conterrâneo Wladimir Köppen, no final do século XIX havia vislumbrado, mas não pode promover nenhum avanço significativo pelas limitações conceituais de sua época.

Assim, a incorporação da análise sinótica a partir dos princípios termo-hidrodinâmicos e das teorias das frentes que Bjerknes e seus colegas da Escola de Bergen introduziram nos estudos meteorológicos das primeiras décadas do século passado, não só produziram uma ruptura com os esquemas tradicionais de interpretação da física da atmosfera, como permitiram o surgimento de uma Climatologia Dinâmica. Esta pôde incorporar os conceitos de tipos de tempo (pela movimentação das massas de ar e frentes) que alguns anos mais tarde, Gustav Rossby associaria às cartas barométricas em busca das definições das regiões climáticas a partir de um modelo global de circulação atmosférica.

Discípulo de Bjerknes, o sueco Gustav Rossby, depois de trabalhar alguns anos em Bergen, transferiu-se, em 1926, para os Estados Unidos, onde desenvolveria seus estudos sobre a circulação geral da atmosfera.

Em Chicago, elaborou as técnicas isentrópicas de análise para estabelecer um modelo simplificado de circulação atmosférica de larga escala, conhecida como as ondas de Rossby, ou esquema tricelular de Rossby.

Ao contrário da Escola de Bergen, a Escola de Chicago focalizaria suas atenções para o movimento do ar, de onde se obtinham os índices de pressão, representados através de cartas barométricas. Esta dimensão espacial – e mais geográfica – possibilitou o desenvolvimento de um modelo global de circulação, que segundo Burroughs (1998), definiria a gênese dos climas regionais.

Trabalhando no Massashusets Institute of Tecnology – MIT e, posteriormente, na Universidade de Chicago, Rossby e seus associados desenvolveram as técnicas de previsão do tempo que incorporavam as teorias das frentes e os conceitos elaborados pelo alemão Hesselberg, em 1932, que caracterizava as condições sobre as quais as equações hidrodinâmicas do movimento definiam os instantes do tempo para aplicá-las em termos de “estados da atmosfera”. (Stringer, 1972)

Na década de 30 do século XX, Rossby definiria os “jet streams” e propunha um modelo de conexões entre os movimentos do ar na baixa troposfera com os da estratosfera, que seriam fundamentais para a compreensão do complexo jogo de interações entre as circulações geral e secundária, que aliadas às cartas isobáricas de superfície resultariam num enorme avanço no grau de confiabilidade da previsão do tempo.

O fato é que tanto Bjerknes quanto Rossby desenvolveram as bases conceituais e as aplicações concretas dos mecanismos físicos que possibilitaram o surgimento da Meteorologia Sinótica que acabou por determinar uma mudança paradigmática na Climatologia, através da incorporação dos atributos dinâmicos.
Sampaio Ferraz e a introdução da Meteorologia Sinótica no Brasil
Foi a partir do contexto histórico descrito no capítulo anterior, em que a evolução da física possibilitou uma revisão conceitual dos processos dinâmicos da atmosfera, com o surgimento da teoria das frentes (ciclogênese e frontogênese) de Bjerknes, do desenvolvimento da climatologia complexa de Federov, dos conceitos da climatologia dinâmica de Bergeron e Hesselberg e do modelo de circulação geral da atmosfera de Rossby, no período entre as duas grandes guerras mundiais - décadas de 20 e 30 do século XX – que Sampaio Ferraz pode elaborar as primeiras análises sinóticas no Brasil.

Aliás, foi um entusiasta do novo paradigma da Meteorologia Dinâmica, cujas análises podem ser observadas em sua obra mais importante, a “Meteorologia Brasileira”, publicada em 1934, que se constituiu num marco histórico das ciências atmosféricas no Brasil.

Engenheiro, meteorologista e climatólogo, o carioca Joaquim de Sampaio Ferraz pode ser considerado o precursor da Meteorologia nacional. Além de ter sido o primeiro a efetivar a previsão sistemática do tempo, divulgado ao público do Rio de Janeiro a partir de 1917, introduziu os novos paradigmas da Meteorologia Sinótica, quando passou a dirigir a Diretoria de Meteorologia, entre 1921 e 1930.

Sampaio Ferraz estagiou em vários centros avançados de estudos atmosféricos da Europa pouco antes da Primeira Grande Guerra, quando entrou em contato com a Escola de Bergen e, ao retornar ao Brasil, segundo Ab’Saber (1979), recebeu a incumbência de organizar os primeiros mapas sinóticos para a previsão do tempo. A este respeito, Ferraz argumentava que este deveria ser o novo paradigma e o princípio norteador da nova Diretoria da Meteorologia, pois:

A previsão do tempo deverá ser estabelecida de forma a servir no campo e no oceano, sendo os seus avisos distribuídos por todos os meios viáveis. A aerologia virá proteger a aviação civil e militar nas principais rotas do país, satisfazendo às necessidades administrativas, comerciais e estratégicas. A meteorologia agrícola difundirá detalhadas informações relativas à influência do tempo sobre as culturas; estudará a relação entre o fator meteorológico e a evolução vegetativa – quer cotejando as estatísticas climatológicas com as da produção agrícola, quer procedendo às observações fenológicas, ou pesquisando nos próprios campos experimentais de outras dependências do Ministério da Agricultura, estabelecendo, destarte, as épocas críticas das culturas de valor econômico e facilitando o problema capital das previsões de safras.” (Ferraz apud Ab’Saber, 1979:132)
Desde 1917, Sampaio Ferraz passou a divulgar seus primeiros ensaios sobre a previsão do tempo, a partir da confecção de cartas sinóticas, para a cidade do Rio de Janeiro. Quando assumiu a Diretoria de Meteorologia do Ministério da Agricultura, em 1921, além de envidar esforços para a ampliação da rede de superfície, desenvolveu o serviço de previsão do tempo que, aquela época, cobria praticamente todo o centro sul do Brasil.

A despeito da intensidade de trabalho institucional que Sampaio Ferraz empreendeu naquele órgão pelas necessidades de implementação de sua política de dotar o país de um sistema eficiente de previsão do tempo e de estudos meteorológicos e climáticos, pôde produzir um vasto conjunto de obras que impressionam tanto pela variedade temática quanto pela capacidade científica de domínio do instrumental técnico de seu tempo.

Em 1925, publicou sua primeira monografia que tratava das secas nordestinas. Procurando averiguar quais os agentes atmosféricos mais diretamente responsáveis pelo fenômeno das intensas estiagens aperiódicas, Sampaio Ferraz (1925) empregou seus ensaios a partir da análise das cartas sinóticas para explicar as causas prováveis das secas do Nordeste Brasileiro. Analisou, também, o papel do anticiclone polar atlântico e definiu-o como o responsável pelo fenômeno da friagem amazônica, destruindo a falsa noção que se tinha à época, de que esta seria produto da descida dos ventos frios andinos, fato que seria confirmado duas décadas mais tarde por Serra e Ratisbona (1942).

Ao final da década de 30 do século passado, Sampaio Ferraz (1928 e 1929) publicou dois outros importantes trabalhos ao introduzir o método de correlações e suas fórmulas regressivas à previsão do tempo de longo prazo e associando-os ao modelo de circulação de Walker.

Sua obra capital, a primeira do gênero a incorporar os modelos sinóticos e dinâmicos à análise meteorológica no Brasil, veio a público em 1934, configurando-se como o principal manual de ciências atmosféricas em língua portuguesa de sua época. Sobre este trabalho, o próprio autor assim se referia:

A primeira edição da Meteorologia Brasileira de Sampaio Ferraz, elaborada em 1934 e, publicada um ano depois, apareceu justamente na época do início da campanha investigadora americana em prol da: a) classificação das massas de ar; b) cristalização da chamada análise isentrópica, criada pela escola americana de meteorologistas. Tudo, na realidade, cifrando-se no desenvolvimento do que lançara brilhantemente, entre as duas Grandes Guerras, a insigne escola bergerniana de meteorologia sinóptica, graças, sobretudo, à expansão da aerologia. O êxito daquela campanha tão útil à ciência da atmosfera, em geral, e à previsão do tempo, em particular, foi logo aproveitado entre nós pelos citados estudiosos do Serviço de Meteorologia – Adalberto Serra e Leandro Ratisbonna, numa série de publicações valiosas.” (Sampaio Ferraz, 1980:229)


O que mais chama a atenção neste trabalho de 1934 é que ao contrário dos demais publicados até então, Sampaio Ferraz tratou de praticamente todos os temas do vasto leque que constituem as ciências atmosféricas. Iniciou a análise pelos padrões de circulação atmosférica – global e sobre o Brasil. Depois de discorrer sobre os aspectos astronômicos, como a radiação solar, distinguiu os vários ramos de aplicação da Meteorologia, ao estabelecer os objetivos da Meteorologia Marítima, da Aerologia, da Meteorologia Sinótica, da Meteorologia Ótica e Acústica, aprofundando até os limites da Paleoclimatologia.

No capítulo em que tratava da Climatologia, Sampaio Ferraz (1934) diferenciava de modo claro o que seriam os campos de estudos da Meteorologia e os da Climatologia que, em suas palavras, não poderiam ser considerados como sinônimos, pois:

A Climatologia não é de modo nenhum, como pensam alguns, um capítulo da Meteorologia, dedicado somente às aplicações, como é a previsão do tempo, a higiene, a biologia animal e vegetal, e outra mais. Seria absurdo esse conceito. A Climatologia é, antes de mais nada, a meteorologia pura e simples do estado atmosférico imediatamente sobre o globo, como a Aerologia é a Meteorologia das camadas superiores. Esse estrato mais baixo – o fundo do oceano aéreo, embora limitado ao alcance dos aparelhos habituais, em proporção à estatura humana, tem marcada importância porque, não só é o mais influenciado pela superfície do planeta, como, até certo ponto, integra alguns dos efeitos das camadas que lhe ficam superpostas. (Sampaio Ferraz, 1934:95)

Depois de 1930, quando se afastou da Diretoria de Meteorologia, Sampaio Ferraz se aproximaria dos estudiosos da Climatologia no seio da ciência geográfica e passaria a colaborar e a participar dos encontros e congressos de Geógrafos, notadamente, àqueles promovidos pela Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro e pelo Conselho Nacional de Geografia – o CNG, criado em 1937. Nas décadas de 40 e 50 do século XX, passou a produzir uma variada gama temática de trabalhos que aproximaram significativamente a Climatologia da Meteorologia e, ambas, da Geografia, como fica patente o seu célebre trabalho “O Homem e a Chuva”, que comentaremos no próximo capítulo.

Desta forma, Sampaio Ferraz teve um papel significativo no avanço das ciências atmosféricas no Brasil, tanto no sentido institucional, quando à frente da Diretoria de Meteorologia, ocasião em pode empregar todos os seus esforços e prestígio no desenvolvimento desta área de conhecimento, quanto na vasta produção científica que publicou, sempre atualizado com o que havia de mais recente na literatura internacional. De certa forma, com Adalberto Serra e Leandro Ratisbonna, Sampaio Ferraz pertence a esta geração de pioneiros da Meteorologia brasileira, que sedimentou as bases teóricas que possibilitaram o atual estágio de desenvolvimento destas ciências em nosso país.




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