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O desenvolvimento da Meteorologia Dinâmica no Brasil: A. Serra e L. Ratisbonna



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O desenvolvimento da Meteorologia Dinâmica no Brasil: A. Serra e L. Ratisbonna


Os dois ilustres meteorologistas oriundos da escola politécnica do Rio de Janeiro, Adalberto Serra e Leandro Ratisbonna foram dos mais profícuos estudiosos da meteorologia brasileira. Apesar de mais jovens, foram contemporâneos de Sampaio Ferraz. Desenvolveram seus mais importantes trabalhos no seio do Serviço de Meteorologia, publicando-os, em grande parte, na nascente Revista Brasileira de Geografia, além do Boletim Geográfico, nas décadas de 40 e 50 .

Com a melhoria do serviço de meteorologia do país, graças à ação empreendedora de Sampaio Ferraz, do aumento significativo da rede meteorológica de superfície, dos avanços metodológicos advindos dos estudos realizados pelas escolas de Bergen e Chicago, além do instrumental técnico disseminado a partir da Primeira Guerra Mundial, Serra e Ratisbonna puderam elaborar uma série de ensaios que permitiram o conhecimento da circulação atmosférica sobre o Brasil e América do Sul.

Nos anos de 1938 e 1939, Serra publicava, em inglês, seus primeiros ensaios sobre a circulação atmosférica caracterizando, horizontal e verticalmente, os centros de ação e os sistemas atmosféricos da América do Sul (Serra, 1938 e 1939).

Entre 1941 e 1942, já em associação com Ratisbonna, divulgou seus estudos mais relevantes, quando tratou da dinâmica climática a partir da definição das massas de ar e do estudo das trajetórias dos sistemas atmosféricos, além de dois estudos de caso, sobre a friagem na amazônia e sobre o clima do Rio de Janeiro (Serra e Ratisbonna, 1941, 1942a, 1942b, 1942c).

Sobre a contribuição de Adalberto Serra à Meteorologia e à Climatologia do Brasil, Ab’Saber comenta que:

Efetivamente, o entendimento dos grandes mecanismos básicos da circulação atmosférica no Brasil deveu-se às demoradas pesquisas e às múltiplas publicações divulgadas por Serra sob a forma de atlas ou de coleções de cartas sinóticas, devidamente exploradas em seu significado meteorológico e climático.Em 1929, Serra, ainda jovem, publicava um dos seus primeiros trabalhos, de natureza bioclimática, na interface entre o clima e a Psicologia – O suicídio no Rio de Janeiro. De lá para os nossos dias, o genial climatologista brasileiro publicou dezenas e dezenas de atlas e contribuições científicas, de alto nível e interesse prático, tornando-se o decano da Meteorologia Brasileira. (Ab’Saber, 1979:134)

Do ponto de vista de sua contribuição científica, Adalberto Serra foi responsável por revelar-nos todo o complexo jogo da circulação atmosférica, geral e secundária sobre nosso território, a partir das definições dos centros de ação e dos sistemas perturbados, causas primeiras dos tipos de tempo. Corroborando com Sampaio Ferraz, Serra (1942b) aprofundou a questão da gênese do fenômeno da friagem na bacia amazônica, incorporando novos elementos de análise, de escala global, a partir das cartas sinóticas. Desvendou, também, o problema da gênese das chuvas no Nordeste Brasileiro, associando-a aos deslocamentos sazonais e periódicos dos doldruns equatoriais (Serra, 1945).

Ainda sobre a Região Nordeste, publicou, em 1946, um excelente trabalho, de cunho fortemente geográfico sobre as secas que assolam periodicamente aquela região (Serra, 1946). Também é de sua autoria, o primeiro Atlas Climatológico do Brasil, produzido entre os anos de 1955 e 1960, que foi de enorme importância para o conhecimento da distribuição espacial dos fenômenos atmosféricos.

Numa época em que a Climatologia e a Meteorologia ainda se desenvolviam de forma paralela, meteorologistas e geógrafos trabalhavam com alguma cooperação, o período de 1920 à 1960 foi dos mais profícuos para as ciências atmosféricas no Brasil. De tal modo que ao mesmo tempo em que a Geografia fornecia valiosas contribuições em termos da fisiologia das paisagens, de caráter mais regional, os meteorologistas se empenhavam na compreensão dos mecanismos da circulação atmosférica – superior e secundária, possibilitando uma análise de interfácie entre os fenômenos atmosféricos e suas relações com a superfície terrestre, em termos de organização do espaço.

Sob este aspecto, vários autores têm ressaltado o papel fundamental que Adalberto Serra desempenhou neste sentido, e como a partir da sua obra, pode a Geografia elaborar um modelo conceitual, que culminaria com o paradigma do ritmo climático, proposta por Monteiro (1971).

Entre os geógrafos, Monteiro (1963a, 1963b, 1964,1969, 1976 e 1991), Tarifa (1973 e 1975), Conti (1976), Zavatini (1983, 1990 e 2000), Titarelli (1972), Barbiére (1975), Barrios (1987), Sant’Anna Neto (1990, 1995 e 1998), entre outros, reforçam este ponto de vista, pois:


Acontecia, assim, uma aliança que assumia um aspecto dúplice que merece ser considerado. De um lado, os geógrafos divulgaram seus trabalhos capitais na Meteorologia Dinâmica que, malgrado um interesse já despertado, oferecia ainda certas dificuldades aos geógrafos em assimilar-lhes o conteúdo técnico. Desde a publicação de Massas de Ar na América do Sul, (Serra e Ratisbonna, 1942) já se sabia da importância do estudo das massas e dos mecanismos frontais em Climatologia mas havia aquela dificuldade de penetrar na malha intrincada da terminologia da Meteorologia Dinâmica”. (Monteiro, 1991:24-25)

Assim, o desenvolvimento da Meteorologia sinótica e dinâmica no Brasil, configurada basicamente a partir das contribuições de Sampaio Ferraz, Adalberto Serra e Leandro Ratisbonna, pode ser considerado como o marco histórico do próprio desenvolvimento da Climatologia Dinâmica que, acrescida das concepções de clima de Max Sorre, nas décadas de 1940 e 1950, permitiriam o surgimento de uma Climatologia eminentemente comprometida com os propósitos da Geografia, como veremos mais detalhadamente no próximo capítulo.

A Climatologia dos Geógrafos:


a construção de uma abordagem geográfica do clima

A ciência geográfica é relativamente recente, em termos de sua institucionalização acadêmica, remontando ao final do século XVIII, na Europa. O clima como fenômeno geográfico somente comparece na literatura do século XIX e, mesmo assim, de forma esparsa e fracionada. Nesse contexto, não parece descabido afirmar que Emmanuel de Martonne foi um dos pioneiros a se preocupar com uma definição geográfica do clima, em sua primeira versão do “Traité du Géographie Physique”, publicado originalmente em 1909.

Nesta obra, o grande geógrafo francês, ao tratar do papel do clima como fenômeno geográfico, considerava como universo de análise, a zona de contato entre a atmosfera e o globo sólido e líquido.

Mesmo assumindo as definições de tempo e clima de Julius Hann – estado médio da atmosfera - afirmava que, em certos casos, os estudos dos tipos de tempo poderiam trazer algumas vantagens para a análise geográfica, pois estes estudos realizados durante certos períodos, evidenciariam a presença de realidades concretas.

Além disto, para De Martonne (1909) as relações entre os diversos fenômenos ressaltariam com maior clareza toda a engrenagem dos mecanismos atmosféricos e possibilitariam o acompanhamento de sua marcha, tal como Teisserenc de Bort, em 1884, na França, havia estabelecido as bases teóricas para a análise dos tipos de tempo.

Ao reconhecer que o tempo não varia de maneira desordenada, mas que se apresentaria a partir de situações características que se repetiriam durante períodos mais ou menos longos, estes se constituiriam em autênticos tipos de tempo.

Numa tentativa de estabelecer as diferenças das noções de clima e definir a mais adequada para a análise geográfica, considerava que:

A climatologia (em Geografia) deve procurar reconhecer e destacar estas relações complexas. Ainda aqui temos outra diferença com a meteorologia propriamente dita que separa cada fenômeno para tratar de relacionar as leis atmosféricas e leis físicas experimentais susceptíveis de serem expressas por meio de fórmulas matemáticas. Esta distinção deveria ser sempre observada nos estudos de Geografia Regional, onde se trata sobretudo de assinalar o agrupamento de fenômenos climáticos.” (De Martonne, 1925:108)


A forma como De Martonne organizou sua concepção de estudo geográfico do clima e a classificação climática que propôs a esta época, de certa forma, foi o ponto de partida para o entendimento de todo o desenvolvimento da Geografia do Clima e, a partir do qual, os desdobramentos e mudanças de paradigmas se sucederam ao longo do século XX.

Já afirmamos, em capítulos anteriores, que Carlos Delgado de Carvalho foi o pioneiro nos estudos geográficos do clima, a despeito de sua principal obra ter tido como título Meteorologia do Brasil. A influência de Emmanuel De Martonne, entre outros, na obra de Carvalho é evidente, assim como é conhecido o papel que os geógrafos franceses tiveram na concepção dos cursos universitários de graduação em Geografia no Brasil.

Nas primeiras décadas do século XX, segundo Pereira (1980), havia um “espírito” geográfico em muitos intelectuais brasileiros, mas faltava-lhes método. Como não havia, ainda, cursos superiores de Geografia no País, o discurso geográfico era limitado e um tanto amador. Este autor comenta, a esse respeito, que:

Em consonância com os princípios geográficos gerais estabelecidos pelos fundadores da nova ciência, princípios, aliás, refundidos e ampliados pelos grandes mestres que lhes seguiram, os estudiosos da Geografia do Brasil, em sua maior parte, não puderam até o terceiro decênio do século atual, realizar pesquisas, bem assim elaborar a apresentar trabalhos à altura dos requisitos exigidos pelo importante ramo de saber humano. Imbuídos do espírito da Geografia, mas não realmente penetrados de Ciência, aos diletantes brasileiros faltou, por infelicidade, uma boa formação geográfica.” (Pereira, 1980:391-392)


Desta forma, foi a partir da criação dos cursos superiores de Geografia que se deu um enorme salto qualitativo em seu desenvolvimento, reforçado pela criação do Conselho Nacional de Geografia, poucos anos depois.
A Implantação da Geografia Científica no Brasil:

Uma tentativa de periodização da Climatologia Geográfica


Numa tentativa de periodização da história da Climatologia no Brasil, pode-se considerar, como já foi tratado anteriormente, o período que se estende de 1827, quando da criação do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, até 1889, quando foi publicada a primeira monografia sobre o clima do Brasil de Henrique Morize, como o embrião do nascimento da Climatologia e da Meteorologia brasileira.

Este período foi caracterizado pelo precário conhecimento sobre os climas de nosso território e marcado pela quase total ausência de dados meteorológicos, que inviabilizavam estudos mais detalhados sobre o comportamento do tempo e do clima no Brasil. Além disto, como já nos referimos em outros capítulos, os poucos trabalhos que surgiram à esta época espelhavam a grande preocupação com a questão da salubridade e higiene pública, derivadas do momento político e econômico do Brasil, que buscava aliciar mão de obra estrangeira (européia) para as necessidades de trabalho braçal na cafeicultura. E isto demandava uma política de propaganda que passava pelo convencimento da salubridade e facilidades de aclimatação do europeu em climas tropicais.

Por isso, o maior conjunto de trabalhos sobre a climatologia médica e biológica ter surgido a partir de pesquisadores das faculdades de medicina e divulgados nas revistas médicas e arquivos de higiene e saúde.

O segmento de tempo que compreende o período de 1889 até 1934, quando surgiram as obras de Henrique Morize, Frederico Draenert, Afrânio Peixoto, Carlos Delgado de Carvalho, Belfort de Mattos e Joaquim de Sampaio Ferraz, configura-se como uma segunda etapa no processo de conhecimento das ciências atmosféricas.

Surgiram as Comissões Geográficas e Geológicas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que instituíram suas seções de meteorologia e implantaram serviços estaduais de observação meteorológica e foi criado o Serviço de Meteorologia separado do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro e, a Diretoria de Meteorologia da Marinha.

Este período foi fundamentalmente marcado pelos trabalhos que buscavam uma caracterização geral dos climas brasileiros e da compreensão dos mecanismos de circulação atmosférica. Daí o surgimento das várias classificações climáticas (Morize, 1889 e 1922; Draenert, 1896; Peixoto, 1908 e Delgado de Carvalho, 1917 e 1926) e das tentativas de se estabelecer um padrão de previsão do tempo a partir das cartas sinóticas, com Belfort de Mattos (1909) e Sampaio Ferraz (1925, 1928 e 1934).

Dando prosseguimento a proposta de periodização da História da Climatologia no Brasil, estabelecemos, talvez de modo um tanto arbitrário, um terceiro segmento de tempo, o primeiro eminentemente geográfico, que compreende o período de 1934 a 1964. Consideramos que essa foi fase inicial da busca de afirmação de um conceito geográfico do clima.

Como marcos iniciais, tomamos a publicação da “Meteorologia Brasileira” de Sampaio Ferraz (1934), a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE e a implantação dos cursos universitários de Geografia, ambos em 1934, a fundação da Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB em 1935 e do Conselho Nacional de Geografia – CNG, em 1937, além do surgimento da Revista Brasileira de Geografia, em 1939.

Este segmento temporal se estende até 1964, quando Monteiro publicou os primeiros trabalhos que demonstravam sua insatisfação com os conceitos e métodos empregados na análise geográfica do clima, a partir de uma leitura bastante pessoal das concepções que Max Sorre divulgou em seu “Les Fondements de la Géographie Humaine”, particularmente no capítulo quinto, quando tratou do papel do clima como fenômeno geográfico.

Assim, a década de 30 do século XX significou o início da institucionalização da Geografia enquanto campo do saber científico em nosso país. Se até esta época, como nos apontou Pereira (1980), havia mais um “espírito” geográfico do que a sistematização do conhecimento, objetivos definidos e instrumental analítico específico da ciência geográfica. Com a criação dos cursos superiores nas universidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, em 1934, iniciou-se o processo de implantação da Geografia Científica no Brasil.

Para Monteiro (1980), a fundação da AGB, em 1935, sob a liderança de Pierre Deffontaines, e a criação do IBGE, (e dois anos depois do Conselho Nacional de Geografia – CNG), durante o Estado Novo, período da ditadura Vargas, em 1935, as condições para o pleno desenvolvimento da ciência geográfica no Brasil estavam colocadas.

O surgimento da Revista Brasileira de Geografia, em janeiro de 1939, pode ser considerado como outro marco histórico no desenvolvimento de nossa ciência. Dirigida por três dos maiores nomes da Geografia brasileira, Carlos Delgado de Carvalho (que ao voltar da Europa, assumiu a cadeira de Geografia do Brasil na Universidade Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro) e os engenheiros Silvio Fróis de Abreu e José Carlos Junqueira Schmidt (Revista Brasileira de Geografia, 1939).

Nesta fase inicial, coube a uma plêiade de geógrafos estrangeiros, notadamente franceses, o papel de transmissores da cultura geográfica, essencialmente decorrentes das teorias lablacheanas, e de aplicação de técnicas e métodos novos. Entre os principais pesquisadores e professores, conforme nos informa Pereira (1980), vieram para São Paulo Pierre Deffontaines (1934), Pierre Monbeig (1935/1936), Emmanuel De Martonne (1937), Roger Dion (1947), Maurice Le Lannou (1947) e Pierre Gourou (1948). Para o Rio de Janeiro, além de Deffontaines (1935/1938), pode-se contar com Phillippe Arbos (1938), André Gibert (1939) e Francis Ruellan (1941/1952).

Além destes, vários mestres europeus e norte–americanos estiveram por períodos intermitentes ministrando cursos e orientando programas de pesquisas, como Pierre Dansereau (1945), Leo Waibel (1946/1950) Robert Platt (1947), Lynn Smith (1947) Clarence Jones (1948) Preston James (1949) e Gottfried Pfiffer (1950).

A efervescência científica deste período pode ser observada pela quantidade e qualidade dos trabalhos apresentados e publicados nos antigos Congressos Brasileiros de Geografia, patrocinados pelo Conselho Nacional de Geografia, que ocorreram até 1944. A partir daí, com a reestruturação da AGB, os fóruns científicos de discussão passaram ao seu controle e iniciava-se a prática das assembléias anuais, cuja primeira ocorreria em Lorena, em 1946.

Além disto, com a criação da Revista Brasileira de Geografia (IBGE/CNG), em 1939, no Rio de Janeiro, e do Boletim Paulista de Geografia em 1949 (publicação que na verdade começara em 1935, com a efêmera revista Geografia da AGB, seção de São Paulo), estabeleceram-se os veículos de comunicação e difusão do conhecimento geográfico.

Não é nosso propósito abordar de forma mais aprofundada o contexto histórico da institucionalização e evolução da ciência geográfica em nosso país, tema este que já foi detalhado em trabalhos de maior fôlego e propriedade, entre outros, por Pereira (1980) e Monteiro (1980), mas tão somente estabelecer um elo de ligação entre este momento histórico e a produção científica da Climatologia no escopo da Geografia realizada nesta fase inicial de sua implantação, como uma estratégia para caracterizar e compreender, de forma analítica, os propósitos e paradigmas que puderam, décadas mais tarde, propiciar o nascimento de uma Geografia do Clima.
A Climatologia Geográfica produzida nas décadas de 1940 e 1950
Com a criação da Universidade de São Paulo e de sua Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, em 1934, iniciou-se o processo de formação dos primeiros geógrafos de nosso país. Os frutos da intensa colaboração dos mestres franceses na construção de uma comunidade de geógrafos passaram a ser colhidos no início da década seguinte, nos anos quarenta do século passado, quando se iniciou o processo de titulação acadêmica, com as defesas das primeiras teses de doutorado no âmbito da Geografia.

Antes disto, porém, a produção científica na área da Geografia, em grande parte, era divulgada através dos tradicionais Congressos Brasileiros de Geografia, ocorridos no período entre 1909 e 1926, patrocinados pela antiga Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro.

Segundo informações colhidas no noticiário do extinto Boletim do Conselho Nacional de Geografia (antecessor do também extinto Boletim Geográfico do IBGE), na edição de junho de 1943, foram oito os eventos realizados neste período. Os dois primeiros aconteceram na cidade do Rio de Janeiro, em 1909 e 1910, e os demais, nas cidades de Curitiba, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Paraíba (atual João Pessoa) e o último, em 1926, na cidade de Vitória.

Como indicativo da força e prestígio destes congressos, basta dizer que o V Congresso de Geografia, ocorrido em Salvador, em 1917, contou com 1057 inscritos, o que é bastante significativo no contexto histórico da época, ainda mais considerando que os cursos universitários de Geografia, ainda não haviam sido criados.

Por uma série de fatores econômicos, a Sociedade de Geografia do antigo Distrito Federal não pode mais realizar estes certames, que somente foram retomados, em 1940, pelo Conselho Nacional de Geografia, através do IBGE.

Reorganizados e, agora, com a participação das comunidades acadêmicas dos cursos de Geografia e História das Faculdades de Filosofia espalhadas pelo Brasil, os Congressos Brasileiros retomaram o importante papel de difusão do conhecimento. Entretanto, por conjunturas políticas do governo federal, somente duas edições foram efetivadas.

A primeira edição sob o patrocínio do IBGE que, entretanto, manteve a sequência dos eventos anteriores, foi o IX Congresso Brasileiro de Geografia sediado em Florianópolis, em 1940, que foi assistida por quase 2.100 pessoas, número muito próximo do público das últimas edições dos encontros bianuais da AGB do final do século passado (1998 e 2000). Em 1944, em Belém, seria realizado o último.

Aliás, em relação a AGB, é importante observar que a partir de sua reorganização em 1945, quando passou a ter um caráter nacional mais efetivo, iniciou-se a prática das assembléias, cuja primeira, na cidade paulista de Lorena, em 1946, acabou substituindo o papel dos Congressos de Geografia, a despeito do fato de que naquelas a participação era muito mais restrita a um seleto grupo de pesquisadores e alunos.

Em termos da produção científica dos geógrafos que estudavam o tempo e o clima, pode-se afirmar que ela foi bastante intensa neste período inicial. No IX Congresso Brasileiro de Geografia, realizado em 1940, cujos anais foram publicados em 1942, encontram-se registradas as contribuições dos maiores nomes da climatologia brasileira de então.

Dois dos trabalhos foram dedicados à questão das classificações climáticas, como o de Afrânio Peixoto (1942), que discutia os critérios classificatórios de Delgado de Carvalho e Henrique Morize, comparando-os aos seus, e a excelente monografia de Salomão Serebrenick (1942), que realizou uma avaliação crítica das propostas de classificações, distinguindo as de caráter geográfico com àquelas de caráter meteorológico, avaliando desde as mais antigas, como as de Wladimir Köppen e de Emmanuel De Martonne, até a de Morize-Delgado de Carvalho.

Outro ilustre climatólogo e meteorologista, o carioca Joaquim de Sampaio Ferraz (1942), apresentou dois trabalhos interessantes, o primeiro tratando da climatologia do estado de São Paulo, em que analisou estatísticamente as séries temporais relacionando-as com a circulação secundária, em busca de padrões de tipos de tempo. A outra contribuição, em co-autoria com Margarinos Torres (Torres e Ferraz, 1942), trazia uma profunda reflexão sobre o regime das chuvas no Nordeste do Brasil. Partindo de uma extensa resenha histórica, analisaram as séries temporais do período de 1914 a 1938, com farta documentação cartográfica e propuseram uma série de considerações sobre o regime pluviométrico com as oscilações da atividade solar e outros parâmetros astronômicos.

Lucas Junot (1942) apresentou uma monografia sobre o comportamento da temperatura na cidade de São Paulo. Este trabalho sofreu algumas críticas por parte de Sampaio Ferraz, por utilizar de forma um tanto quanto excessiva técnicas estatísticas indiscriminadas no sentido de analisar a qualidade dos dados, pelo método Bessel, que ainda não era aceito totalmente pelos demais estudiosos do clima.

Na edição seguinte, durante o X Congresso Brasileiro de Geografia, realizado no Rio de Janeiro, o mesmo Junot (1944) apresentou um estudo sobre as chuvas da cidade de São Paulo, aplicando metodologia semelhante ao trabalho anterior, caracterizando os regimes mensais, sazonais e anuais de precipitação. Luis Prestes Barra (1944), também tratando do fenômeno pluvial, analisou 50 anos de dados de chuvas da cidade de Campinas, tecendo considerações sobre a sua variabilidade.

Neste mesmo ano, um outro acontecimento digno de registro foi a defesa da tese de doutoramento de Ary França, orientada pelo grande geógrafo francês, Pirre Monbeig, a primeira a tratar do clima por um geógrafo brasileiro e a segunda a ser defendida na Geografia (a primeira foi a de Maria Conceição Vicente de Carvalho, em 1944).

Como nos relata Monteiro (1980), a maior parte destas primeiras teses tratava de estudos de área (ou de casos) e com Ary França não seria diferente. Sua tese sobre o clima da bacia de São Paulo (França, 1945) trouxe importantes contribuições metodológicas que marcaram profundamente os trabalhos que se seguiram por mais de duas décadas.

Depois de tecer uma série de considerações sobre a qualidade e a consistência dos dados de informação meteorológica, quando criticou a exiguidade e o problema da interrupção das observações, o autor analisou os principais elementos do clima, associando seus comportamentos com as direções dos ventos e as trajetórias das massas de ar, recorrendo a Serra e Ratisbonna (1942), que poucos anos antes haviam divulgado o célebre trabalho sobre as massas de ar na América do Sul.

Em seu capítulo quarto, França (1945) introduziu a sua concepção de abordagem geográfica do clima, quando argumentava que:

Para a Geografia, a análise dos elementos do clima e de suas combinações interessa na medida em que exprime situações reais da camada atmosférica ligada diretamente a locais da superfície do Globo e como base para apreciar o comportamento de fenômenos geográficos relacionados com o clima”. (França, 1945: 30)


Por mais que na literatura nacional ainda se encontrassem aqueles que consideravam a Climatologia como mero conjunto de técnicas estatísticas ou, ainda, como disciplina da Meteorologia, França insistia nas particularidades e especificidades de uma análise do clima comprometida com os objetivos da Geografia, afirmando que:

...os climatologistas devem dedicar-se aos estudos do que ocorre nas camadas de ar que recobrem imediatamente a superfície de um lugar, o que vale dizer, para o campo da geografia. Para os meteorologistas não interessando diretamente o que se passa na superfície, mas o estudo das massas de ar, principalmente das colocadas muito acima da superfície e subtraídas às influências desta, a questão é colocada em outros termos, os da Física. Climatologistas e meteorologistas falam, assim, linguagens diversas, mas o campo de seus estudos forma um todo que não pode ser dividido”. (França, 1945:30)

É interessante notar que, nesta tese, o autor já assumia as concepções que Max Sorre havia divulgado dois anos antes (Sorre, 1943), quando ao criticar o conceito de clima vigente, argumentava que estes estudos deveriam adotar a definição de “ambiência atmosférica”, no sentido de incorporar a noção de ocorrência de tipos de tempo na sua sucessão habitual. Conceitos a partir dos quais Monteiro, duas décadas mais tarde, elaboraria o paradigma rítmico, concebido como a análise geográfica do clima.

Nas considerações finais de sua Tese de Doutorado, Ary França (1945), ao discordar de trabalho anterior de Sampaio Ferraz (1942), que tratava de alguns aspectos da climatologia paulista, estabeleceu uma polêmica sobre os conceitos de tipos de tempos. Assim escrevia em sua Tese:

Em um estudo dedicado aos climas do Estado de São Paulo, Sampaio Ferraz (1942) apresentou uma classificação em oito tipos de tempo que seriam fundamentais e que ocorreriam com frequências mais ou menos definidas, no Brasil Meridional. Porém, o que este autor chama de tipo francamente distinto nada mais é do que uma condição média, de predomínio temporário e sucessivo, das massas de ar. Sampaio Ferraz admite que há múltiplas nuanças das condições que ele chama tipo de tempo. Julgamos, porém, preferível considerar essas múltiplas nuanças como sendo os verdadeiros tipos de tempo – ao invés de o fazer para as condições gerais de que resultam”. (França, 1945:53)
Com a criação do Conselho Nacional de Geografia, em 1937, uma nova perspectiva de estudos sobre o clima foi colocada. As políticas públicas do governo federal – a então Ditadura de Getulio Vargas e suas práticas intervencionistas – geraram demandas setoriais que estimularam a perspectiva da análise regional do clima.

As décadas de 1940 e 1950, em termos da produção científica no âmbito da Climatologia Geográfica, foram marcadas, de um lado, pelas monografias regionais e, de outro, pelo grande volume de estudos sobre a Amazônia e o Nordeste, principalmente aqueles relacionados ao problema da seca.

Na esfera do CNG, Fábio Macedo Soares Guimarães, Lysia Maria Cavalcanti Bernardes, Gilberto Ozório de Andrade, Raquel Caldas Lins, Ignez Leal Teixeira Guerra, entre outros, produziram excelentes trabalhos sobre o clima regional do Brasil. Os dois primeiros (Guimarães, 1945 e Bernardes, 1951) procuraram estabelecer uma nova classificação climática para o Brasil, partindo das propostas anteriores de Morize-Delgado de Carvalho, utilizando como subsídio à nova divisão territorial do Brasil.

Também foram significativas as contribuições de autores como Bernardes (1953) que adotando as linhas gerais da metodologia “ibegeana”, estudou os tipos climáticos do Estado do Rio de Janeiro, quando buscava padrões espaciais e tipologias climáticas. Esta seria a tônica dos estudos no seio do CNG nas décadas seguintes, de 1960 e 1970, quando foram publicados em duas edições consecutivas, a célebre Geografia Regional do Brasil.

Andrade (1952), Lins (1953) e Guerra (1956) concentraram suas contribuições a partir de monografias sobre os climas regionais do nordeste e as características do fenômeno das secas. Além destes, fora do âmbito do CNG/IBGE, Sternberg (1953) analisava a grande seca de 1951 no Ceará através de uma abordagem episódica, buscando o entendimento das repercussões e consequências sócioeconômicas. Sampaio Ferraz (1950) alertava sobre a iminência de uma grande seca para a região nordeste, a partir de um estudo bastante ousado para a época que utilizava os seus conhecidos métodos de previsão do tempo através de cartas sinóticas, sugerindo algumas medidas governamentais para a atenuação do drama das secas.

Ainda sobre a região Nordeste, tanto Salomão Serebrenick (1953), quanto Linton de Barros (1957), analisaram a circulação atmosférica e os movimentos das massas de ar no vale do rio São Francisco.

Estes trabalhos tinham em comum dois aspectos fundamentais. De um lado, adotavam as teses de circulação atmosférica e dinâmica climática de Sampaio Ferraz (1934), Serra e Ratisbonna (1942) e, de outro, incorporavam influências geográficas, a partir da análise regional proposta por De Martonne (1909 e 1925).

Sobre a Amazônia, José Carlos Junqueira Schmidt (1942) produziu uma das obras mais completas sobre o clima daquela região, resgatando dados históricos e demonstrando que a aparente homogeneidade paisagística da hiléia, na verdade mascarava a diversidade climática que existia na região.

Utilizando-se mais de técnicas estatísticas no sentido de um estudo climatográfico, José Setzer (1944, 1945 e 1946) divulgou um excelente conjunto de trabalhos sobre a climatologia paulista, quando analisou um enorme conjunto de estações meteorológicas e de postos pluviométricos distribuídos pelo território bandeirante, demonstrando, a partir da proposta classificatória de Köppen, os regimes climáticos.

No extremo sul do Brasil, Floriano Peixoto Machado (1950) publicava (em obra póstuma) uma contribuição ao clima do Rio Grande do Sul, incorporando elementos dinâmicos na análise climática em busca dos tipos de tempos característicos das diversas regiões gaúchas, bem ao estilo das concepções de identificação de tipos fundamentais e mais frequentes.

O clássico texto de Aroldo de Azevedo (1950) sobre as regiões climato-botânicas do Brasil, publicado pelo Boletim Paulista de Geografia, mesmo sem ter sido um trabalho muito aprofundado, teve o grande mérito de utilizar uma abordagem didática de grande alcance junto aos professores secundários.

João Dias da Silveira (1952), num trabalho de caráter mais regional, mas de grande valor metodológico pela abordagem integrada da paisagem, analisou o papel do clima na composição dos sistemas naturais, sobre as baixadas litorâneas quentes e úmidas.

Para encerrar esta breve sinopse sobre a produção científica em climatologia das décadas de 1940 e 1950, é necessário lembrar que Sampaio Ferraz (1951 e 1954) publicava dois excelentes artigos de caráter mais reflexivo e denotando sua enorme erudição sobre o clima e o homem. No primeiro deles, que veio a público em três números seguidos do Boletim Geográfico, em 1951, analisou historicamente a relação entre o clima e as sociedades desde a antiguidade, abordando as concepções teológicas, folclóricas e científicas.

Na obra de 1954, encomendada pela AGB de São Paulo, escreveu sobre as condições climáticas e meteorológicas que teriam influenciado na ocupação e desenvolvimento da capital paulista, numa edição comemorativa do quarto centenário da cidade.

Não só como mero registro histórico, mas já prenunciando a capacidade intelectual e criadora de Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, em 1951, ainda como estudante de graduação do curso de Geografia da antiga Universidade do Brasil (atual UFRJ), Monteiro (1951) publicava seu primeiro artigo científico na Revista Brasileira de Geografia, sobre o clima da Região Centro-Oeste. Neste trabalho já elaborava uma análise que demonstrava uma insatisfação com o sistema de classificação climática de Köppen e incorporava as situações sinóticas como gênese dos climas regionais.

Este é apenas um resumo das principais obras sobre a climatologia brasileira que, a partir de um referencial teórico que pode ser considerado como geográfico, mesmo que alguns dos autores tivessem formação acadêmica em outras áreas do conhecimento, foram produzidas neste período histórico. Obviamente esta relação está longe de abarcar toda a bibliografia sobre o assunto, entretanto, acreditamos que esta seleção possa dar uma boa idéia sobre as temáticas analisadas.


Maximilian Sorre: uma revisão dos conceitos de tempo e clima
Na segunda metade do século XIX, como resultado das amplas discussões e críticas de Vidal de La Blache ao caráter determinista da Geografia alemã, personificada por Ratzel, foi que o possibilismo passou a ser aceito como concepção que definiria as relações homem – natureza. De acordo com Moraes (1983), La Blache não aceitava a concepção fatalista e mecanicista da relação entre a sociedade e a natureza, presentes na Antropogeografia “ratzeliana”. Assim:

Vidal de La Blache definiu o objeto da Geografia como a relação homem-natureza, na perspectiva da paisagem. Colocou o homem como ser ativo, que sofre a influência do meio, porém que atua sobre este, transformando-o. Observou que as necessidades humanas são condicionadas pela natureza, e que o homem busca as soluções para satisfaze-las nos materiais e nas condições oferecidas pelo meio.” (Moraes, 1983:68)

Com a escola “lablacheana” surge, no escopo da Geografia, a região como categoria de análise. As especializações, que tentavam realizar as sínteses dos elementos, se fortaleceram a ponto de configurarem quase como áreas autônomas da Geografia, que se reencontrariam ao nível da Geografia regional.

As concepções de La Blache, que tiveram ampla divulgação e aceitação através dos Annales de Géographie e de sua maior obra (coletiva) a Geografia Universal, estão na base de nossa Geografia contemporânea. A rede de seus discípulos e seguidores foi bastante ampla e vai de De Martonne, com sua Geografia Física, a Jean Brunhes, que escreveu a volumosa Geografia Humana, passando por Albert Demangeon, que elaborou o conceito de “meio geográfico”, a partir de seus estudos de Geografia Econômica.

Para Moraes (1983) a influência do pensamento “lablacheano” alcançou outras áreas do conhecimento, como a História. Em 1922, Lucien Febvre publicou a clássica obra “A Terra e a Evolução Humana”, na qual assumia as posições possibilistas e criticava asperamente as idéias deterministas de Ratzel e de sua mais conhecida seguidora, a geógrafa norte-americana, Ellen Sample. Com Max Sorre e Albert Demangeon, elaborou uma nova leitura da paisagem e considerava a necessidade do emprego dos documentos históricos, como fonte desta nova Geografia que teria como objeto as relações homem – natureza, na perspectiva da Terra como a “morada do Homem” (Febvre, 1991).

Estes desdobramentos do pensamento “lablacheano”, a partir do desenvolvimento de novas idéias por parte de seus discípulos, mesmo sem destruir suas bases conceituais iniciais, iam se aprofundando e aperfeiçoando o modelo de Geografia.

Ao discutir as questões climáticas, principalmente em suas relações com os quadros vegetais, Febvre se aproximava dos conceitos de Köppen e de A. Penck, mas se diferenciava de De Martonne, pois mesmo sem desconsiderar a análise regional, propunha uma concepção humanística, que muito influenciou Sorre, que, por sua vez, desenvolveria alguns anos mais tarde, a noção de “habitat”, como a construção humana do meio. Aliás, assim como Sorre, tanto Gaussen, quanto Birot e o próprio Tricart incorporaram o pensamento febvreano (Moraes, 1983).

Foi neste contexto efervescente da escola francesa de Geografia que Maximilien Sorre, considerado como aquele que mais avançou em termos das formulações de La Blache, a partir da década de 1940, propôs que a Geografia deveria estudar as formas pelas quais os homens organizam o meio, entendendo o espaço como a sua morada.

Nenhum dos temas geográficos escapou da análise inovadora de Sorre. Na obra “Les Fondements de la Géographie Humanine”, de 1948, propôs novos rumos teóricos para a Geografiaa definindo o conceito de ecologia humana. Tal definição baseava-se nas reflexões de Haeckel acerca do conceito de ecologia, publicadas, em 1943, na sua primeira obra intitulada, “Les Fondements Biologiques de la Géographie Humanine”, que tanto influenciou Ary França em sua Tese de Doutorado defendida em 1945.

O que mais nos interessa na obra de Sorre, entretanto, são as suas reflexões sobre a análise geográfica do clima. Ao propor uma revisão conceitual que substituísse as definições de tempo e de clima a partir de parâmetros estatísticos médios, esclarecia:

As definições clássicas dão importância exagerada à noção de valores médios. Propusemos substituí-lo por uma fórmula mais diretamente utilizável pelos biólogos: o clima, num determinado local, é a série de estados da atmosfera, em sua sucessão habitual. E o tempo que faz nada mais é do que cada um desses estados considerado isoladamente. Essa definição conserva o caráter sintético da noção de clima, enfatiza seu aspecto local e, ao mesmo tempo, evidencia o caráter dinâmico do clima, introduzindo as idéias de variação e de diferenças incluídas nas de sucessão”. (Sorre, 1943:32)

Ao definir o complexo climático (ou meio climático), concebeu a noção de ritmo, argumentando que é exatamente o ritmo da sucessão de tipos de tempo que deveria nos interessar, uma vez que expressaria de forma global a variação do clima. Em cada instante, ainda segundo Sorre (1951), a combinação dos elementos meteorológicos forma um conjunto original – o tempo - e a sucessão dos tipos de tempo é regida por leis da meteorologia dinâmica, das quais o geógrafo extrai o conhecimento do mecanismo dos climas.

Sob este aspecto, o autor não poupava críticas às propostas de classificação de Köppen, nem de De Martonne, tanto pelo empirismo empregado, quanto pela impossibilidade destas classificações de conciliar uma definição dinâmica dos climas, com sua definição estática. Ao tratar da classificação elaborada por Thorntwaite (1948), também não concordava com sua estratégia de estabelecer um índice de aridez, pois ela não atenderia as necessidades da ecologia humana, restringindo-se aos aspectos agronômicos.

Para Tarifa (1975), o conceito “sorreano” de clima partiria da concepção de totalidade dos tipos de tempo sobre um determinado lugar proposta por Ward, em 1914, porém, acrescentando a esse conceito genético a noção de ritmo e de sucessão. Entretanto, Sorre não desconsiderava a importância do uso dos valores médios nem do emprego da estatística nos estudos climáticos que, segundo ele, seriam fundamentais para as análises sobre a variabilidade climática, pois:

A ação de um fator não depende apenas de sua intensidade atual, mas do caráter mais ou menos repentino de sua aparição (limite diferencial), de sua frequência e de sua duração, características estas inclusas na idéia de variabilidade.” (Sorre, 1954, apud Megale, 1984).
Voltando à questão da crítica de Max Sorre aos conceitos de tempo e clima preconizados por Julius Hann e também, por que não dizer, da análise que Emmanuel De Martonne produziu para o estabelecimento destas concepções no escopo de Geografia, o autor justificava que, apesar das propostas dos dois eminentes estudiosos partirem da escala local, buscando os encadeamentos com as escalas regional e global, esta somente poderia ser alcançada a partir do estudo prévio da circulação atmosférica regional a qual, sob a influência dos fatores geográficos dentro da região, possibilitaria a definição dos climas locais (Monteiro, 1962).

Desta forma, as novas perspectivas teóricas que se abriram através dos postulados de Max Sorre, no campo da Climatologia como fenômeno Geográfico, possibilitaram toda uma revisão conceitual que, assumida por Pierre Pédélaborde na França, na década de 1950, e no Brasil por Carlos Augusto de F. Monteiro, na de 1960, cada um a sua maneira, propiciou uma verdadeira revolução paradigmática. As noções de dinâmica, gênese e ritmo passaram a constituir os fundamentos do entendimento do fenômeno atmosférico como categoria de análise geográfica, contrastando com as abordagens generalizadoras e de caráter regional, mais em busca de tipologias do que de processos.

O mais interessante destas concepções sorreanas é que, sem nunca ter realizado qualquer estudo empírico sobre a climatologia, uma vez que sua obra se concentrou em aspectos de discussão teórica, Sorre pode captar a essência do caráter dinâmico e genético do clima e, talvez, exatamente pelo fato de ter relido o seu papel a partir de uma perspectiva externa ao problema, conseguiu extrair daí um novo paradigma. Esta é a razão pela qual Max Sorre é considerado o mentor intelectual de uma Climatologia eminentemente geográfica. Seus trabalhos estão no cerne das reflexões que Monteiro, pouco mais de uma década mais tarde, concretizaria em sua proposta de análise rítmica, como a essência da análise geográfica do clima.
A contribuição norte-americana a uma teoria do clima:

Leslie Curry e as influências de Richard Hartshorne


Somente a partir do início dos anos trinta do século passado é que floresceu uma Geografia eminentemente norte-americana, quando Richard Hartshorne, ao propor uma releitura da abra do geógrafo alemão Alfred Hettner, produzida entre 1890 e 1910, retomou uma análise teórica que buscava uma terceira possibilidade de interpretação da Geografia, como uma superação da dicotomia entre Determinismo e Possibilismo (Moraes, 1983).

Para Hartshorne, caberia à Geografia o estudo das inter-relações entre fenômenos heterogêneos, apresentando-as numa visão sintética, pois:

A Geografia teria sua individualidade e autoridade decorrentes de uma forma própria de analisar a realidade. O método especificamente geográfico viria do fato de essa disciplina trabalhar o real em sua complexidade, abordando os fenômenos variados, estudados por outras ciências. O estudo geográfico não isolaria os elementos, ao contrário trabalharia as suas inter-relações. A forma anti-sistemática seria mesmo a singularidade da análise geográfica.” (Hartshorne, 1939, apud Moraes, 1983:89)
Este caráter nomotético da proposta “hartshorneana” possibilitaria a análise de uma Geografia Geral, na qual as integrações obtidas permitiriam atingir um padrão de variação, pelas comparações de distintas áreas. Assim, em conjunto com as análises idiográficas – que seriam produzidas a partir de um estudo singular e unitário, levando a um conhecimento profundo de terminado local – como aperfeiçoamento da análise regional, a dimensão nomotética viria ao encontro da necessidade de desenvolvimento de um vasto território (Moraes, 1983).

Por suas caraterísticas territoriais marcadas por uma variada diversidade de paisagens e em função das influências filosóficas e científicas das escolas anglo-saxônicas, entre outros elementos de formação da nação americana, os Estados Unidos se transformariam na meca do pragmatismo, onde a modelagem e a abordagem sistêmica, voltadas para o planejamento, encontrariam terreno fértil para seu desenvolvimento, via quantificação, na produção dos diagnósticos.

Nesta perspectiva e considerando e enorme crescimento econômico dos EUA, principalmente no setor agrícola, é que Thorntwaite (1948) elaborou sua proposta de classificação racional do clima, partindo dos pressupostos de rendimento econômico e de padrões agronômicos. A metodologia empregada tinha como principal objetivo à aplicação de técnicas quantitativas – eficiência térmica e precipitação efetiva – voltadas para as necessidades de água dos agrossistemas, viabilizada pelo cálculo do balanço hídrico.

Na década seguinte, Arthur Strahler (1951), um dos mais renomados geógrafos dos EUA, divulgaria sua proposta de classificação climática que pretendia dotar as concepções de clima aceitas até então, de um paradigma dinâmico, ao incorporar em sua proposta, aspectos dinâmicos de circulação atmosférica aos elementos estáticos regionais.

Embora durante décadas, a classificação climática do russo Wladimir Köppen fosse hegemônica em quase todo o planeta, com o advento da Meteorologia Sinótica, as insatisfações crescentes quanto às abordagens estáticas e separativas, estimularam vários geógrafos norte-americanos a elaborarem novos sistemas e esquemas interpretativos e classificatórios. Entre eles, tanto Austin Miller (1931), quanto Glenn Trewartha (1937) apresentaram novas propostas sem, contudo, superar o modelo de Köppen, pois apenas refinaram os limites dos tipos climáticos e aperfeiçoaram as análises sobre a circulação atmosférica.

Mas, sem dúvida alguma, a contribuição de Strahler (1951) foi a mais significativa na busca de uma classificação climática de base genética e dinâmica, ao agrupar os tipos de clima em função das áreas de domínios das massas de ar e dos elementos da circulação secundária.

Esta preocupação com os aspectos dinâmicos de Strahler e os agronômicos de Thorntwaite iria fundamentar o caráter econômico da análise climática efetuada por Curry (1952), que introduziria o conceito de clima como recurso natural e principal regulador da produção agrícola.

Leslie Curry foi um dos mais importantes estudiosos da Climatologia aplicada. Seguindo as concepções de Hartshorne e sua Geografia Idiográfica, elaborou uma perspectiva de análise geográfica do clima em que a organização do espaço agrícola deveria, necessariamente, partir de uma concepção dos atributos climáticos, não como determinantes, mas como insumo nos processos naturais e de produção. Desta forma, tanto a radiação global quanto os principais elementos do clima passariam a ser considerados como agentes econômicos e, portanto, intervenientes na produção agrícola e parâmetro de sua rentabilidade (Sant’Anna Neto, 1998).

A estas concepções de Curry (1952), poder-se-ia acrescentar ainda suas definições de tempo e clima, nas quais advertia sobre aspecto teórico da existência abstrata do conceito de clima, enquanto a noção de tempo seria a única a garantir o fato concreto e, portanto, observável e sensível. Monteiro (1991) discutiu essa questão e, ao interpretar as proposições teóricas de Curry, concordaria com seus aspectos fundamentais comentando que:

Assim, em meio a uma ordem de interesses e estratégias muito variadas há que distinguir a própria natureza conceitual, cuja variação reforça o caráter teórico que o autor atribui como algo peculiar ao clima. Concordo com ele na medida em que o fato concreto, observável no domínio atmosférico terrestre é o tempo (meteorológico) extremamente variável no tempo (cronológico)”. Monteiro, 1991:16-17)

Daí a afirmação de Leslie Curry, transcrita na epígrafe deste capítulo, que considerava o clima como uma teoria e não como um fato. Esta noção nos remete ainda para a avaliação de seu significado funcional, a qual somente seria viável para as grandes correlações, num nível de análise aquém das aspirações da Geografia Econômica (Curry, 1962).

Todo o progresso conceitual inerente ao desenvolvimento da ciência em geral e pela Geográfica, em particular, no decorrer do século XX, representados no exterior pelos avanços da Meteorologia Sinótica das escolas de Bergen e de Chicago e interpretados em terras brasileiras por Adalberto Serra, além da revisão dos conceitos de clima efetuados por Max Sorre, na França e por Leslie Curry, nos Estados Unidos, ofereceram os elementos a partir dos quais Carlos Augusto F. Monteiro se apropriou de maneira original e criativa, para elaborar sua proposta de análise geográfica do clima.

A estes elementos incorporou, ainda, a perspectiva da abordagem episódica extraída e da obra de Hilgard Sternberg, a discussão filosófica de Kant sobre a idéia de “acidente” no sentido do princípio da permanência da substância e as concepções científicas, quanto ao método, de Paul Feyerabend, além das influências que sofreu em sua formação acadêmica, do mestre francês Francis Ruellan.

Este complexo conjunto de idéias, concepções e paradigmas está na base do pensamento “monteriano” e na formulação de sua proposta de estabelecer o ritmo como fundamento e paradigma da construção de uma Climatologia Geográfica, cuja análise será aprofundada no capítulo seguinte.





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