Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Comunicação e Expressão (cce) Bacharelado em Letras/Libras na Modalidade a Distância Rosemeri Bernieri de Souza Kapitaniuk psicolinguística



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Universidade Federal de Santa Catarina

Centro de Comunicação e Expressão (CCE)

Bacharelado em Letras/Libras na Modalidade a Distância

Rosemeri Bernieri de Souza Kapitaniuk

PSICOLINGUÍSTICA

Florianópolis


2010

Sumário

Introdução, p. 4
Unidade 1

Antecedentes filosóficos e históricos, p. 6

1.1 O período embrionário, p. 7

1.1.1 Os genes da Psicologia, p. 7

1.1.2 Os genes da Linguística, p. 9
Unidade 2

O nascimento da Psicolinguística, p. 13

2.1 O registro, p. 13

2.2 A mudança Chomskyana, p. 15

2.2.1 Experimentos sobre unidades sintáticas, p. 17

2.2.2 Experimentos sobre unidades perceptuais, p. 18

2.3 Desenvolvimento dos estudos psicolinguísticos no Brasil, p. 19
Unidade 3

Psicolinguística - delimitação do objeto de estudo e metodologia, p. 20
3.1 A aproximação dos pontos de vista e a redescoberta do objeto, p. 20

3.1.1 A abordagem funcionalista, p. 21



3.2 Metodologias adequadas ao novo enfoque, p. 23

3.3 Problemas em Psicolinguística, p. 26
Unidade 4

Campo de atuação da Psicolinguística, p. 29

4.1 Neurofisiologia da linguagem, p. 29

4.2 Aquisição de Linguagem, p. 30

4.3 Relação entre pensamento e linguagem, p. 31

4.4 Apropriação e processamento de leitura e escrita, p. 32

4.5 Bilinguismo, p. 33

4.6 Psicolinguística comparada, p. 33

4.7 Psicolinguística Aplicada, p. 34

4.7.1 Aprendizagem e ensino de línguas, p. 34

4.7.2 Processamento de tradução, p. 35
Unidade 5

Psicolinguística e Língua de Sinais, p. 38

5.1 Aquisição de linguagem da criança surda, p. 39
5.1.1 Morfossintaxe e discurso, p. 40

5.1.2 O estudo da aquisição dos “classificadores” na perspectiva psicolingüística, p. 42


5.2 Bilinguismo do surdo, p. 43

5.3 Processamento de interpretação em LS, p. 45
Unidade 6

Psicolinguistica: sua relação com as novas ciências, p. 49

6.1 Neurolinguística ou Neuropsicologia, p. 49

6.1.1 A leitura sob o enfoque da Neurolinguística, p. 51



6.2 Cognitivismo, p. 53

6.3 Conexionismo, p. 53
Conclusão, p. 56
Glossário, p. 58
Referências Bibliográficas, p. 59

Introdução

Nesta disciplina abordaremos a origem e o desenvolvimento de uma disciplina científica que nasceu da interdisciplinaridade entre duas outras ciências: a Psicologia e a Linguística.

Conheceremos alguns antecedentes históricos que prepararam a sua emancipação enquanto ciência autônoma. Originado pelo consenso de especialistas, esse ato emancipatório se realizou em dois encontros e se consubstanciou na publicação de um livro, onde as bases do seu conteúdo programático foram fundadas. Como acontece com toda ciência, verificaremos que ela também passou e ainda passa por diversas mudanças e que ora foi influenciada por uma, ora por outras reflexões epistemológicas conforme os avanços das pesquisas, dos modelos e teorias. Isso ocorre pelo fato de as ciências naturais e humanas estarem sujeitas às transformações que os achados acrescentam gradativa e substancialmente, bem como às evoluções sociais e históricas. Como bem salienta Scliar-Cabral (1991: 8)

Um exame retrospectivo sobre os antecedentes, o surgimento e o desenvolvimento da psicolingüística tem a utilidade de servir como exemplo das inter-relações entre as ciências humanas e mesmo físicas e naturais no último século, da busca fáustica, porém mais uma vez destronada de uma explicação mais unitária sobre os processos envolvidos na recepção e produção de mensagens e do movimento pendular que enfatiza ora uma, ora outra as indagações, acionado pelas teorias epistemológicas que lhe subjazem e pelo cenário histórico e cultural que lhe serve de pano de fundo.


Assim, percorreremos um breve percurso desde as pesquisas que antecederam seu nascimento que denominamos de período embrionário. Passaremos pelo seu nascimento, quando, finalmente, ela foi batizada e registrada e, por fim, como foi seu desenvolvimento desde seu nascimento até a fase atual com vistas a uma perspectiva futura.

Identificaremos outras linhas de pesquisa que, certamente, influenciam e contribuem muito para o seu desenvolvimento maturacional. Essa metáfora é proveitosa no sentido de que, assim como o desenvolvimento físico e cognitivo do homem, as ciências não nascem prontas. Elas se desenvolvem a partir de insumos do conhecimento que se somam ou mesmo se dissociam para dar lugar a novas descobertas.

Por isso, sejam bem-vindos a nossa viagem, que antes de ser uma exploração minuciosa, é uma apresentação do que chamamos hoje de Psicolinguística.

Unidade 1
Antecedentes filosóficos e históricos

Antes de iniciarmos a abordagem sobre as duas disciplinas que geraram a psicolinguística, precisamos trazer à baila alguns conceitos básicos que nos ajudarão entender as idéias que subjazem o desenvolvimento filosófico e mesmo iniciaram as discussões sobre pensamento e linguagem [verbal].

Trata-se de visões dialéticas que se erigiram em Platão e Aristóteles e, até hoje, influenciam muitas vertentes nas ciências humanas. Elas podem ser divididas em duas visões: A visão empiricista e a visão racionalista.
A visão empiricista acredita que adquirimos o conhecimento por meio da observação e da experiência. Essa visão se origina em Aristóteles que acreditava que “a realidade situa-se somente no mundo concreto de objetos que nossos organismos percebem” (Sternberg, 2000:23).

Já a visão racionalista utiliza o método introspectivo lógico para compreender o mundo e as relações das pessoas com ele. Essa visão é adotada por Platão que acreditava que a realidade reside nas formas abstratas que os objetos representam em nossas mentes. “Os racionalistas, portanto, tendem geralmente a deduzir exemplos específicos de um fenômeno, baseados em princípios gerais” (op. cit, p. 23).

Outra dualidade que repercute até os nossos dias, concerne à origem das idéias. Para Platão as idéias são inatas e, por meio da introspecção pode-se chegar à verdade sobre a mente. Para Aristóteles as idéias são adquiridas a partir da experiência.

Essas duas concepções influenciam, até hoje, algumas vertentes das ciências modernas. Na verdade, a bifurcação dialética desses antecedentes gregos pode ser aproximada nos estudos das ciências modernas, resultando de uma síntese entre fatores inatos e adquiridos.

A visão aristotélica influenciou alguns filósofos como Locke, originando sua concepção de tabula rasa (quadro em branco) que acredita que os homens nascem sem conhecimento.

Em oposição, Descartes, após muitas reflexões, chegou à conclusão de que as idéias são inatas e que os sentidos são enganosos e incertos e não favorecem uma via segura para acessar o conhecimento através das informações que os perpassam.

Numa síntese dessas duas vias: a empirista e a racionalista, no século XVIII, Kant iniciou uma convergência dialética entre as questões inatas e adquiridas. Para ele ambas devem andar juntas, na busca pela verdade.

E hoje, como essas idéias são aceitas? É o que aprenderemos a seguir.



1.1. O período Embrionário
Neste tópico entenderemos como essas correntes filosóficas, acima descritas, influenciaram o desenvolvimento dos estudos psicolinguísticos.

A fase que antecede a concepção da psicolinguística como disciplina científica, circunscreve-se num momento em que Psicologia e Lingüística, sem ainda estarem firmadas como disciplinas autônomas, abordavam a questão central sobre a relação pensamento e linguagem, denominada Psicologia de Linguagem.

Vamos entender melhor quais os princípios que eram fecundados no seio de cada uma dessas disciplinas.

1.1.1 Os genes da Psicologia


Segundo Sternberg (2000), a Psicologia moderna começou de uma fusão entre a filosofia e a fisiologia (medicina). A filosofia vista como introspecção e a fisiologia como empirismo. Ele diz que:
À medida que a psicologia se tornou crescentemente uma disciplina científica focalizada na mente e no comportamento, ela divergiu gradualmente da filosofia e da medicina. Atualmente, embora a psicologia, a filosofia e a medicina estejam essencialmente separadas, não o estão de forma tão completa, pois muitas questões psicológicas permanecem arraigadas em temas tanto filosóficos quanto fisiológicos, com relação a vários aspectos da cognição (2000:25)

O duplo foco: mente e comportamento gerou uma bifurcação entre duas perspectivas:




  • A primeira visa compreender a mente humana pelo estudo de suas estruturas (configuração dos elementos) como fazemos ao estudar as estruturas anatômicas do corpo;

  • A segunda estuda as funções de cada organismo, ou seja, o processo como é realizado no estudo da fisiologia.

Dessas duas perspectivas foram derivadas três correntes de pensamento: o estruturalismo, o funcionalismo e o associacionismo.


O Estruturalismo, como o nome sugere, busca entender “a estrutura da mente e suas percepções, analisando tais percepções em seus fatores constituintes” (op. cit., p. 25).

Um dos principais precursores dessa corrente foi o psicólogo alemão Wundt (1832-1920)1 que se interessou “pelos fenômenos da linguagem procurando neles a chave da psique humana” (Titone, 1983:18).

O Funcionalismo focaliza os processos de pensamento e não seu conteúdo, ou seja, como a mente funciona.

Pelo fato de os funcionalistas utilizarem uma série de métodos com o objetivo de chegar às respostas desejadas, originou-se a visão pragmática, sendo William James (1842-1910)2 um dos primeiros seguidores dessa orientação.

Os pragmáticos se interessam em saber o que as pessoas fazem e como esse conhecimento pode ser aplicado às questões práticas, como por exemplo, o desempenho escolar das crianças (Sternberg, 2000:27)

O Associacionismo acredita na síntese integradora entre os fatos ou as idéias e sua associação na mente que resultam numa forma de aprendizagem. Um dos associacionistas, Hermann Ebbinghaus (1850-1909)3, no final de 1800, aplicou sistematicamente esse princípio estudando seus próprios processos mentais através de técnicas experimentais rigorosas.

Outro associacionista, Edward Lee Thorndike (1874-1949)4 acreditava que “um organismo aprende a responder em uma determinada maneira (o efeito), em uma dada situação, se for repetidamente recompensado por fazer isso (a satisfação, que serve como um estímulo para as futuras ações)” (op. cit, p. 28).

Uma versão extrema do associacionismo é o behaviorismo que focaliza a associação entre um estímulo observado a uma resposta também observada. Skinner (1904-1990)5 foi um dos teóricos mais radicais, sugerindo que todo comportamento humano poderia ser explicado pelas relações estímulo-resposta, sendo essas verificáveis por meio da observação do comportamento animal. Assim, rejeitando mecanismos mentais, ele aplicou genericamente esse modelo à aprendizagem, à aquisição de linguagem e ao comportamento social humano.

1.1.2 Os genes da Linguística
Para uma revisão de alguns assuntos abordados neste capítulo, leia o seguinte texto:

VIOTTI, Evani – Texto base da disciplina de introdução aos estudos lingüísticos.




Da mesma forma que a psicologia, a linguística foi influenciada por antecedentes históricos que remontam a filosofia platônica. Nascia, nessa fase, duas visões opostas sobre linguagem: a linguagem como fonte de conhecimento ou como simples meio de comunicação (Weedwood, 2002:24).

A linguística histórica passou por várias transformações desde os gramáticos gregos e romanos até o século XIX quando se firmou como ciência autônoma. De uma disciplina normativa que visava regras para distinguir as formas corretas e incorretas, transformou-se em instrumento de fixação, interpretação e comentário de textos; dessa fase passou para o período da filologia comparativa, na tentativa de se buscar uma língua mãe da qual todas as outras teriam derivado. Weedwood (2002:103) assim define esse último período, denominando-o de “a lingüística no século XIX”:
(...) a mais extraordinária façanha dos estudos lingüísticos do século XIX foi o desenvolvimento do método comparativo, que resultou num conjunto de princípios pelos quais as línguas poderiam ser sistematicamente comparadas no tocante a seus sistemas fonéticos, estrutura gramatical e vocabulário, de modo a demonstrar que eram ‘genealogicamente’ aparentadas.

Até aqui a língua era vista como produto, mas Humboldt (1767-1835)6 começou a ver a língua de uma perspectiva diferente: a) a de que ela teria duas formas: uma externa - os sons - e uma interna - sua estrutura, sua gramática e seu significado (Weedwood, 2002:108) e b) a de que ela é um processo dinâmico, uma atividade (energeia), definida como a capacidade do espírito humano de usar sons articulados para expressar um número infinito de sentenças (Scliar-Cabral, 1991:10). As idéias de Humboldt foram absorvidas pelo psicólogo Wundt e se estenderam para o estruturalismo linguístico e para as gramáticas gerativas.


Na disciplina “introdução aos estudos linguísticos”, ministrada no primeiro semestre, foram descritas as contribuições de dois lingüistas muito importantes que absorveram as idéias de Humboldt. Saussure e Chomsky partem de algumas concepções humboldianas para criar suas dicotomias sobre seu objeto de estudo.

A partir de agora recordaremos alguns dos conceitos de Saussure que muito contribuiu para o desenvolvimento da ciência linguística.


Como foi visto na disciplina acima citada, Saussure é considerado o pai da linguística e que, a partir de suas concepções sobre língua e linguagem, a corrente estruturalista foi instaurada, delimitando o objeto e método da lingüística enquanto ciência autônoma. Como bem salienta Viotti:
É no contexto desses estudos histórico-comparativos que Saussure lança suas idéias sobre a língua e sobre a linguagem. A partir desse momento, os estudos lingüísticos começam a adquirir um caráter mais profundo e abstrato. Eles deixam de se concentrar na comparação de manifestações externas de várias línguas, e passam a se interessar pela língua como um sistema de valores estruturado e autônomo, que é subjacente a toda e qualquer produção lingüística, seja ela feita em português, em inglês, em francês, em ASL, em libras, ou em qualquer outra língua. Aí a lingüística passa a ser concebida como uma ciência: ela não só descreve fatos lingüísticos, mas busca uma explicação coerente para sua ocorrência.
Como podemos verificar a corrente estruturalista, vista anteriormente na Psicologia de Wundt, repercutiu também nos estudos lingüísticos. Saussure tenta, assim, compreender a língua estudando as partes internas do fenômeno lingüístico, isolando, pois a estrutura (langue) de sua matéria (parole). Segundo Peterfalvi (1970:22)
O signo é, para Saussure, uma entidade bifacial psicológica, que compreende um significante e um significado. Para a linguagem vocal humana, o significante é uma “imagem acústica” e o significado um “conceito”. No domínio extralingüístico, há um referente que corresponde ao conceito (por exemplo, a árvore é um objeto, oposta ao conceito “árvore”) e por outro lado ao significante corresponde a realidade material de sua realização (o significante é, por exemplo, a imagem genérica do som b interiorizada pelo sujeito, que cumpre distinguir a realidade acústica desse som efetivamente emitido). Referente e realidade material do significante não fazem parte, portanto, do signo propriamente dito.
Para Saussure, o conceito suscita no cérebro um fenômeno inteiramente psíquico e isso é possível porque a língua é antes de tudo um sistema representado no cérebro dos interlocutores. Embora afirme a existência do fenômeno material, a propriedade psicológica é que será considerada em sua teoria.
A corrente estruturalista também teve seus representantes nos Estados Unidos: Edward Sapir (1884-1939)7 e Leonard Bloomfield (1887-1949)8. Este último recebeu influência da psicologia da linguagem de Wundt, no entanto, numa abordagem completamente contraditória, em 1933, ele publicou um segundo livro com cunho totalmente behaviorista (Scliar-Cabral, 1991).

Assim se definiam as duas ciências que originaram a nova disciplina cientifica, mas, embora houvesse psicólogos que se baseavam nas teorias linguísticas e linguistas que adotavam os princípios teóricos da psicologia, o diálogo entre as duas não se efetivava. Segundo Baliero Jr. (2003:173):


Na Psicologia, os estudos buscavam estabelecer as relações entre a organização do sistema lingüístico e a organização do pensamento, por meio do recurso à teoria e à pesquisa lingüística (...) Na Lingüística, por outro lado, já havia uma busca anterior pela teoria psicológica, especialmente por meio dos introdutores do método histórico em Lingüística, entre os quais Hermann Paul, que tentaram apoiar no associacionismo psicológico suas explicações para as mudanças lingüísticas.
A solidificação das duas áreas, enquanto ciências que se interessavam pelos aspectos da linguagem verbal, induzia à busca de uma linguagem comum entre ambas, mas isso não se efetivou de forma consistente em parte pela ascensão do comportamentalismo em Psicologia e o conseqüente abandono dos métodos instrospectivos e, por outro lado pelo fato de estruturalistas como Bloomfield (1933) eliminarem a semântica do escopo da pesquisa lingüística (Scliar-Cabral, 1991; Baliero Jr., 2003).

No próximo capítulo vamos entender como, finalmente, as duas áreas somaram seus esforços num momento histórico-geográfico específico que lhes serve como pano de fundo e como mola propulsora ao desenvolvimento de novas reflexões sobre a linguagem verbal.



Unidade 2

O nascimento da Psicolinguística

Como vimos a concepção avant la lettre da nova disciplina se originou no seio das duas ciências que lhes deu origem. Como o momento histórico exigia o desenvolvimento de novos mecanismos de comunicação e, portanto, de novas abordagens sobre a linguagem verbal, psicólogos e linguistas resolveram dialogar e iniciar uma cooperação. Podemos dividir esse desenvolvimento histórico em dois momentos que veremos neste capítulo.



2.1 O registro
Para contextualizar um pouco sobre os fatos históricos e as mudanças que sofria a sociedade naquela época, podemos citar o fato de que após a Segunda Guerra Mundial havia uma necessidade premente de desenvolver o conhecimento sobre os sistemas da informação. Assim, a denominada “teoria da informação” que desenvolvia mecanismos de transmissão mecânica de mensagens contribuiu para a mudança do quadro dos estudos da comunicação. Elaborada por Shanon e Weaver, em 1949, essa teoria consistia em resolver problemas levantados pelas telecomunicações (Peterfalvi, 1970:25).

Os termos ‘transmissor’, ‘codificação’, ‘canal’, ‘receptor’ e ‘descodificação’, dentro dessa teoria, eram transformações das vibrações do ar provocadas por sinais sonoros em sinais elétricos (codificação) que passavam por um canal e eram reconvertidas em vibrações passíveis de serem percebidas por um receptor (descodificação). Assim, adotando os termos e o esquema idealizado pelos técnicos da informação, Osgood e seus colaboradores propuseram um novo esquema aplicado à comunicação humana em que haveria um input ou estímulo auditivo ao qual o indivíduo é exposto, um receptor que se trata do sistema perceptivo que “decodifica” o estímulo, uma destinação e uma fonte que correspondem ao componente cognitivo do sujeito. Por fim, o transmissor “codifica” aquilo que quer dizer em forma de comportamentos motores que resultam no output do sistema, ou seja, sua resposta (ibidem, p. 26-7).

Nesse contexto, a colaboração interdisciplinar entre psicólogos e lingüistas foi principalmente motivada pelo aumento do acervo de pesquisas e teorias que viabilizaram a tentativa de união das duas áreas que, nesse momento, recebiam forte influência da Teoria da Informação. Devido essa interdisciplinaridade, a Psicolinguística é, simultaneamente, psicologia e lingüística e trata-se de uma disciplina científica relativamente nova que se consubstanciou em dois importantes seminários, onde se reuniram alguns representantes da psicologia, da lingüística e da antropologia.

Foi uma longa gestação até o marco que aconteceu num seminário de verão da Universidade de Cornell em 18 de junho a 10 de agosto de 1951. Nesse encontro, alguns especialistas concluíram que ela estava pronta para vir à luz do mundo científico. Assim, seu registro como ciência autônoma se firmou em outro encontro de verão na Universidade de Indiana em 1953.

Os estudiosos responsáveis pelo seu nascimento foram Psicólogos como C.E Osgood, J. B. Caroll, G. A. Miller e lingüistas como T.E. Sebeok, F.G. Lounsbury. Dessa colaboração originou-se um livro: Psycholinguistics, o qual lançou as bases programáticas e a tentativa de síntese das teorias multidisciplinares que as embasaram.

Dadas essas noções, a psicolingüística, tomando como base a historicidade que é pertinente ao seu aparecimento, justifica sua importância por vir de encontro às tendências e necessidades que se manifestaram nas ciências humanas da década de 50.



2.2 A mudança Chomskyana
Há um consenso que caracteriza o lingüista Noam Chomsky como um dos promotores de uma revolução na Lingüística e que, evidentemente, refletiu na Psicolingüística (Slama-Cazacu, 1979; Scliar-Cabral, 1991; Kess, 1992).

Para entendermos a importância das concepções chomskyanas, precisamos situar qual era o contexto das pesquisas em psicologia comportamental da época em que o behaviorismo era uma vertente dominante da psicologia e que vigorou por muitas décadas.

Em 1957, Chomsky publica Syntact Structures, lançando os fundamentos da sua Gramática Gerativa Transformacional, em seguida, com uma publicação crítica à obra Verbal Behavior de Skinner, em 1959, Chomsky abala os fundamentos comportamentalistas e promove uma grande mudança no campo da Psicolinguística. Com isso, ocorre uma guinada do enfoque empiricista para o enfoque racionalista que usa o método introspectivo lógico para formular hipóteses empiricamente testáveis sobre o conhecimento lingüístico (Scliar-Cabral, 1991:20). Segundo Viotti,
Para Chomsky, a língua é um sistema de princípios radicados na mente humana. É esse sistema de princípios mentais que é o objeto de estudo da Gramática Gerativa. Por isso, dizemos que a Gramática Gerativa é uma teoria mentalista. Ela não se interessa pela análise das expressões lingüísticas consideradas em si mesmas, separadas das propriedades mentais que estão envolvidas em sua produção e compreensão. Ela também não se interessa pelo aspecto social que a língua apresenta. Seu foco está no aspecto mental da língua.
É via Chomsky que a idéia de energeia de Humboldt ressurge, pois considera a língua enquanto atividade dinâmica. Ele não empresta nenhuma importância à teoria do signo e confere à língua as propriedades da recursividade e da criatividade. No âmbito de sua gramática gerativa, o homem é dotado de uma faculdade de linguagem, uma dotação genética, cujo desenvolvimento resultará em certa competência lingüística.

Segundo Chomsky, os métodos indutivos não podem explicar quais os conhecimentos lingüísticos que os indivíduos possuem de sua língua. Sendo assim, ele sugere que um modelo lingüístico deve utilizar o método hipotético-dedutivo e que possa fornecer hipóteses empiricamente testáveis desse conhecimento armazenado.

Devido a convergência para a teoria com base racionalista, Chomsky promove a adoção de uma nova corrente em psicolingüística denominada cognitivista. Com isso, criou-se uma subdivisão da psicolingüística: a cognitivista e a experimental.

De acordo com Chomsky, lingüística é uma parte da psicologia cognitiva teórica que dá conta do conhecimento que um falante tem da sua língua – a sua competência. No entanto, ele acredita que ela não deva explicar como a língua é usada. Ela descreve somente o conhecimento relativamente estático armazenado na sua faculdade mental. Para ele, a explicação do uso lingüístico é de responsabilidade da psicolinguística que descreve o acesso e a utilização desse conhecimento armazenado na faculdade de linguagem.

Com relação aos processos subjacentes da linguagem verbal, devemos esclarecer aqui o conceito de gramática que é uma das importantes contribuições do teórico para a psicolinguística.

Iniciada em 1950 e 1960, Chomsky produziu uma série de pesquisas empíricas sobre os modelos de gramática. Ele mesmo modificou essa noção ao longo das evoluções de seus modelos. Primeiramente era um conjunto de regras organizadas na mente e se confundia muito com a noção de conhecimento. Em seguida, ao invés de regras há princípios – os chamados universais lingüísticos que são propriedades comuns a todas as línguas.

Apesar de todas as alterações que Chomsky aplicou ao seu modelo de 1957, experimentos foram conduzidos com o intuito de comprovar a sustentabilidade de sua teoria, dos quais podemos citar os seguintes trabalhos:

2.2.1 Experimentos sobre as unidades sintáticas


Tendo como base as gramáticas gerativas e transformacionais, alguns trabalhos buscavam compreender a realidade psicológica das sentenças nucleares.

- Em 1962, Miller busca provar a realidade psicológica das sentenças nucleares, pedindo que sujeitos emparelhassem listas de sentenças ativas, passivas e negativas, medindo o tempo de resposta para cada uma. Segundo sua hipótese, a complexidade exigiria um número maior de transformações e, consequentemente, um tempo maior de processamento e resposta;

- Em 1963, Miller e Isard tentaram mostrar a importância das estruturas sintáticas na compreensão de sentenças submetendo seus sujeitos a listarem o maior número possível de palavras que tivessem ouvido em enunciados de extensões semelhantes, sob condições de silêncio e com ruído.

Experimentos desse tipo foram contestados pelo fato de não levarem em consideração outras variáveis de ordem semântica ou pragmática, o que comprometeu a validação das hipóteses.

A maior parte dos experimentos das décadas de 50 e 60 se aplicava à validação da teoria Chomskyana, basicamente no nível das estruturas sintáticas. As suas concepções sobre o inatismo e sobre a criatividade lingüística foram usadas como referencial teórico nas pesquisas em aquisição de linguagem. Isso gerou uma subordinação da psicolinguística ao modelo gerativo, o que acarretou uma reação a esse modelo dominante. Com isso, algumas propostas se descentraram um pouco da análise sintática para abarcar outros fenômenos, dos quais temos alguns exemplos abaixo.

2.2.2 Experimentos sobre as unidades perceptuais


As propostas sobre as unidades perceptuais, inicialmente, foram uma tentativa de conciliar os modelos da segunda geração de psicolingüísticas à teoria chomskyana. Com isso, novas hipóteses foram formuladas a fim de mostrar a correspondência das unidades perceptuais às estruturas de superfície.

- Em 1965 e 1966, Gough pediu para que os sujeitos julgassem verdadeiro ou falso algumas figuras emparelhadas com sentenças passivas e ativas. Os experimentos comprovaram que o tempo de resposta para as sentenças passivas era maior.

- Os experimentos que consistiam na utilização de cliques em passos das sentenças foram usados em 1965 por Fodor e Bever e refinados em 1966 por Garrett, Bever e Fodor. Com essa técnica eles constataram que os sujeitos, que deveriam identificar os cliques após haverem escrito a sentença, recolocavam-nos sempre na juntura que separavam os constituintes maiores da sentença;

- Em 1967, Mehler, Bever e Carey demonstram que as fixações oculares durante a leitura é uma estratégia que depende de todos os níveis da estrutura sintagmática de superfície das sentenças (em Scliar-Cabral, 1991).

Apesar dos esforços de validação do modelo, uma crise surgiu no seio da teoria gerativa transformacional, trazendo à tona os dilemas da psicologia experimental. Com isso, alguns dos pesquisadores dessa segunda geração começaram a expandir seus modelos como o fizeram Fodor e Garett (1967) e Fodor, Garrett e Bever (1968) que apresentaram novos modelos de estratégia de processamento. E mais marcadamente autônomo, tanto da lingüística como dos modelos chomskyanos, o modelo de Bever (1970), cuja preocupação era demonstrar as relações entre os mecanismos perceptuais e as estruturas conceituais.

Falamos até aqui sobre estudos realizados em países europeus e norte-americanos, mas eles tiveram reflexos aqui no Brasil, vamos nos inteirar a respeito no próximo tópico.

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