Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Comunicação e Expressão (cce) Bacharelado em Letras/Libras na Modalidade a Distância Rosemeri Bernieri de Souza Kapitaniuk psicolinguística



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2.3 Desenvolvimento dos estudos psicolinguísticos no Brasil

Numa entrevista à Revista Revel, Leonor Scliar-Cabral, a maior psicolinguista brasileira, circunscreve o desenvolvimento no campo desta ciência aqui no Brasil. Segundo ela, os primeiros estudos que impactaram a área das pesquisas psicolingüísticas no Brasil se originaram com os esforços acadêmicos de mestrandos e doutorandos, nos anos setenta. Assim, podem ser encontradas teses e dissertações sobre a aquisição de linguagem, tais como os de: Lemos (1987 [1975]), com doutorado na Universidade de Edinburgh, orientada por Lyons; Scliar-Cabral (1977a, b, c), com doutorado na USP, orientada por Geraldina Witter e Albano (1975, então Motta Maia), mestre pela UFRJ, orientada por Heye e, posteriormente, doutorada pela Universidade de Brown.

Esses precursores orientaram dissertações e teses de jovens pesquisadores e estes, por sua vez, tornaram-se líderes de outros pesquisadores em outros importantes centros de pesquisa, tornando o campo atual fecundo e com teorias renovadas.

No próximo capítulo vamos entender que tipos de mudanças metodológicas ocorreram a partir dos avanços da área e das novas perspectivas de análise acima apresentadas.



Unidade 3
Psicolinguística - delimitação do objeto de estudo e metodologia

Sugestão de leitura


SCLIAR-CABRAL, Leonor. Introdução à Psicolingüística, capítulo 3



No prefácio de seu livro Introdução à Psicolinguistica, Slobin (1980) declara que “o estudo da língua permeia cada aspecto do estudo do pensamento, sentimento, comportamento e desenvolvimento humano”. Diante dessa evidência, a colaboração entre psicologia e lingüística se fazia necessária, considerando o fato de que elas se interessavam por um mesmo objeto de estudo multifacetado e passível de vários recortes: a linguagem verbal.



3.1 A aproximação dos pontos de vista e a redescoberta do objeto
De um lado a lingüística investiga o sistema geral do código e a organização paradigmática e sintagmática dos seus elementos. Os lingüistas se empenham na descrição formal da estrutura da língua criando teorias. Uma teoria lingüística deve descrever o que os falantes e sinalizantes conhecem sobre suas línguas e a sua formalização oferece à psicologia uma estrutura que permite a divisão dos componentes do processamento de linguagem verbal (fonética, fonologia, sintaxe, etc) e as relevantes representações mentais (nome, frase, categoria vazia, papel temático, etc) (Cutler, 2005:24).

De outro lado a psicologia estuda a organização dos processos de emissão e recepção, de codificação e de decodificação da linguagem verbal com base em fenômenos psíquicos. Os psicólogos querem saber como as estruturas lingüísticas são adquiridas pelas crianças e como são empregadas nos processos da fala/sinalização, da compreensão e lembrança. A psicologia provê a lingüística com metodologias para investigação dos processos cognitivos de aquisição, compreensão e produção.

Assim, a psicolingüística tem interesse em saber “como a estrutura lingüística está ligada ao uso da linguagem [verbal]. Ela quer entender e explicar a estrutura mental e os processos envolvidos no uso de uma língua.” (Scliar-Cabral, 1991:9). Os psicolinguistas se interessam pelo conhecimento e capacidades subjacentes que a pessoa deve ter para usar uma língua e para aprender a usá-la na infância ou na aquisição de novas línguas.

A tarefa do psicolinguista é de construir modelos de processos que fazem uso, a todo instante do conhecimento armazenado. A psicolingüística representa uma tentativa empírica, no sentido de caracterizar aquilo que se deve saber a respeito de uma língua, para usá-la.

Como já abordamos, as primeiras obras de Chomsky foram, sobretudo, críticas às concepções mecanicistas de Skinner. Assim, Verbal Behavior marca o esgotamento da primeira fase da psicolingüística, abrindo o cenário para uma fase que sofre um grande impacto sob o ponto de vista epistemológico e metodológico (Scliar-Cabral, 1991:20).

Além disso, uma nova abordagem sobre a linguagem verbal estava sendo difundida naquele momento. Vamos saber um pouco sobre seus fundamentos.

3.1.1 A abordagem funcionalista
Com a delimitação do escopo de análise do seu objeto, a psicolingüística precisou ir além dos exemplos idealizados por teoristas como Chomsky e Saussure, pois ambos descartaram o uso efetivo de uma dada língua para compreender os processos heteróclitos envolvidos na sua produção e recepção, além dos aspectos funcionais.

No âmbito do funcionalismo da linguagem verbal, uma escola se dedicou aos aspectos pragmáticos da língua:

Foi no seio da Escola de Praga que o funcionalismo, combinado com estruturalismo, ganhou força. Havia ali muitos pesquisadores importantes, dentre eles Karl Bühler (1879-1963)9 que reconheceu três tipos gerais de funções da linguagem: a) função cognitiva; b) função expressiva e c) função conativa.


Função cognitiva  refere-se à transmissão de informação factual




Função expressiva  indica a disposição de ânimo ou atitude do locutor ou escritor




Função conativa  seu uso serve para influenciar a pessoa com quem se está falando, ou para provocar algum efeito prático

Outro nome de destaque dessa escola é Jakobson (1896-1982)10 que ampliou a tríade de Bühler, definindo os atores e contexto das mensagens e introduzindo mais três tipos de funções da linguagem:


- Função referencial ou denotativa (corresponde à função cognitiva) está centrada no referente;

- Função emotiva ou expressiva, centrada no destinador (ou emissor) da mensagem;

- Função conativa, que se orienta para o destinatário;


Função fática  centrada no contato (físico ou psicológico); manifesta o desejo e a necessidade de comunicar;




Função poética  que se centra na própria mensagem. É um suplemento de sentido para a mensagem que é acrescida de mudanças estruturais, tonalidades, ritmos e sonoridade;




Função metalinguística  centrada no código. É acrescida à mensagem com o objetivo de explicar ou precisar o código utilizado pelo destinador. É a linguagem que fala da própria linguagem.

Essa escola também desenvolveu vários trabalhos em fonologia associados aos nomes de Jakobson e Trubetzkoy (1890 -1938) 11 que desenvolveram a noção de feixes de traços distintivos aos fonemas, ou seja, cada fonema é composto por um número de características articulatórias, o que o distingue de outros fonemas.

Aliás, segundo Scliar-Cabral (1991), Jakobson trouxe grandes contribuições para tópicos da Psicolingüística, tais como a aquisição de linguagem e temas sobre a afasia (1971, 1972).

A abordagem ao funcionalismo foi aqui brevemente introduzida pelo fato de que suas contribuições dirigem um novo olhar ao objeto da lingüística sob a perspectiva dinâmica e funcional da língua.

Vamos ver como essa nova perspectiva repercutiu nas teorias, favorecendo a ampliação do escopo do objeto de estudo e, consequentemente, a mudanças metodológicas.


3.2 Metodologias adequadas ao novo enfoque
Sugestão de leitura

SCLIAR-CABRAL, Leonor. As necessidades da pesquisa experimental em Psicolinguistica no Brasil. Cadernos de Estudos Lingüísticos, nº 40, jan./jun. 2001, p. 7-15, Universidade Estadual de Campinas



A linguagem verbal12 é um conjunto de conhecimentos representados no cérebro de quem fala ou sinaliza, são estruturas e processos subjacentes ao ato de produzir e de entender uma língua como o inglês, francês, libras, ASL, etc. A separação dicotômica entre a “langue/competência” e a “parole/performance” deixou de considerar os comportamentos abertos expressos no uso de uma língua para se concentrar a esses processos subjacentes acima descritos. Assim, a psicolinguística explica o uso concreto da língua – sua performance ou desempenho lingüístico, segundo a concepção de Chomsky (Garnham, 1968: 4).

Com um novo enfoque para com a linguagem, a psicolinguística, da mesma forma que a sociolingüística e a análise do discurso (conversacional) tem contextualizado seus dados e usado a fala espontânea como base de dados, exigindo uma adequação metodológica para sua análise.

São inúmeros os tipos de conhecimento que interagem na comunicação real – o conhecimento da fonologia, da sintaxe, da semântica, da pragmática, das convenções sociais, do mundo físico, da personalidade, etc. Para que houvesse um rompimento em estudar a língua como algo estático e estrutural, fruto também de uma visão racionalista que encerra a língua em modelos fechados, a psicolingüística necessitou também uma metodologia interdisciplinar, justificada pela necessidade histórica e pela redescoberta do objeto língua, revista agora sob um ângulo da dinamicidade e complexidade.

De acordo com Slama-Cazacu (1979:37) :
Tornava-se necessário que, ao abordar a linguagem dentro de uma perspectiva diretamente ligada à realidade, aparecesse claramente sua finalidade social (a comunicação) e seus determinantes sociais bem como a importância do papel desempenhado pelo sistema de signos utilizado (o “código”) em especial, o sistema verbal, lingüístico, ou a “língua”. Em conseqüência, o estudo psicológico deveria recorrer também a uma analise dos fatos da língua criados pela atividade da linguagem e utilizados durante esta atividade.
Com vistas a desenvolver o novo enfoque, os métodos de análise e descrição precisavam mudar. Como bem salienta Scliar-Cabral (1991:9),
No que diz respeito ao objeto da psicolingüística, é exatamente o enfoque diferente para com a linguagem que demarcará as fronteiras às vezes tênues que a separam das duas ciências que lhe deram origem (...) e no seu seio, as diversas subdivisões, determinadas pelo aprofundamento e pela especificidade, mas igualmente pela heterogeneidade dos vários subcampos que a compõem. Com efeito, a abrangência da psicolingüística, decorrente dos processos heteróclitos envolvidos na recepção e produção das mensagens, obriga a uma especialização de seus cientistas, com a utilização de métodos diferentes, decorrentes não só do subcampo objeto de investigação quanto, também (...) das teorias epistemológicas que endossam.
Hoje em dia, a maioria dos psicolinguistas não acredita na possibilidade de conhecer a competência lingüística de um indivíduo se não for pela atuação (o uso lingüístico) como fatos objetivos e inferenciais dos processos mentais. Dessa forma, a metodologia psicolingüística não só coleta fatos lingüísticos reais, mas procura interpretá-los.

A Psicolingüística utiliza-se de uma metodologia explicativa que une métodos indutivos e dedutivos para chegar às generalizações. Os mecanismos mentais não são operações verificáveis de uma forma direta, por isso, frequentemente, o pesquisador deve recorrer a procedimentos indiretos para tentar compreender como o cérebro organiza a atividade verbal a fim de testar as hipóteses e buscar generalizações que expliquem a maneira como se dá o processamento de tarefas. Com esse intuito, ela utiliza procedimentos metodológicos, tais como a experimentação e a observação clínica.

No primeiro, os sujeitos são submetidos a tarefas a pedido do pesquisador que irá observar e descrever como o sujeito executa a tarefa, inferenciando quais os processos mentais que são desencadeados no cérebro no momento desta execução. No entanto, pesquisas realizadas sob as mesmas condições fornecem resultados diferentes, pois nesse método muitas variáveis escapam do controle do pesquisador. Por isso a necessidade da criação de designs bem delimitados e com estímulos que permitam o controle das variáveis que estão em jogo.

O segundo método consiste em tentar compreender a fisiologia do sistema nervoso central através das desordens funcionais, conseqüência de lesões em determinadas áreas. Estudos clínicos são desenvolvidos entre os afásicos monolíngues ou bilíngues. Alguns achados com pacientes que possuem duas línguas mostram que a patologia cerebral não afeta uniformemente as duas línguas. Uma delas pode ser perdida temporária ou definitivamente, mas a outra pode continuar sendo empregada.

Apesar de todos os avanços e a criação de métodos mais adequados, as pesquisas precisam ser ampliadas a fim de se verificar e confirmar as hipóteses, fornecendo, assim, explicações mais confiáveis dos fenômenos lingüísticos. No entanto, antes de se formar hipóteses, é necessário o levantamento de problemas a serem resolvidos pela psicolinguísticas. Identificaremos alguns deles no próximo tópico.

3.3 Problemas em Psicolinguística
Não iremos tratar aqui das especificidades de cada trabalho que se concentram, sobretudo, no estudo das línguas orais, mas como estamos tratando de uma disciplina que visa a formação de profissionais num curso de Letras/Libras (língua de sinais), convém abordarmos os tópicos sobre as línguas orais, a fim de levantar os pontos comuns que podem ser problemas de pesquisas nas línguas cinésico-visuais também.

No nível da recepção e compreensão lingüística podemos apresentar os seguintes problemas (Scliar-Cabral, 1991):




  • Processamento dos sinais lingüísticos;

São arrolados nessa questão problemas de ordem de 1) percepção dos sinais lingüísticos: acústicos para a fala e visuais para a sinalização; 2) identificação das unidades e níveis de processamento; 3) acesso ao significado. Qualquer modelo que tente validar hipóteses sobre os processos receptivos dos sinais lingüísticos só pode se valer de inferências através do modo indireto. Nesse sentido, a máquina tem sido um instrumento que tenta replicar o processamento, possibilitando um entendimento parcial do fenômeno lingüístico do cérebro humano.


  • Reconhecimento de palavras;

Uma das mais difíceis tarefas deste nível é a separação da cadeia da fala ou da cadeia de sinais, que se trata de um continuum, em unidades dotadas de significação. Nesse sentido, as informações perceptuais e contextuais ativam unidades lexicais que estão armazenadas em nossa memória. Cada item lexical deve ter um significante correspondente, mas ainda não está claro como seria organizado esse léxico no nosso cérebro.


  • Memória semântica;

Considerando que possuímos um léxico, como a significação seria mentalmente representada e como seria usada na compreensão de textos ouvidos, vistos ou lidos? Visto que o ser humano pode compreender e produzir mensagens continuamente novas, como essa memória estaria organizada para dar conta da significação? Existem algumas teorias que tentam explicar essa criatividade e dinamicidade lingüística, mas ainda estamos muito longe de formular uma teoria capaz de abranger todas as especificidades dessa memória.


  • Processamento a nível textual e discursivo;

Ao chegar nesse estágio, a teoria psicolingüística enfrenta uma dificuldade ainda maior em formalizar as representações mentais dos níveis que se complexificaram à medida que as unidades de significação foram subindo. Quanto mais avançamos do nível perceptual para o nível do significado e desse para o textual e discursivo, mais difícil se torna a possibilidade de inferências.
No nível de produção, os fatores que devem ser considerados são:


  • Intenção e estruturação lingüística;

A natureza criativa da linguagem verbal e os processos que estão envolvidos na sua produção inviabilizam a validação de hipóteses devido a dificuldade de controlar os inúmeros fatores que estão implicados nesse processo. Sabe-se que, num diálogo, entram em ação inúmeros conhecimentos que o emissor deve acionar para se fazer entender: o conhecimento de mundo; esquemas de ordem pragmática; esquemas de ordem textual, entre outros.


  • Estruturação das sentenças e retroalimentação;

Experimentos comprovam que os erros, pausas e hesitações cumprem um papel fundamental na estruturação das sentenças. Esses erros não são aleatórios, mas obedecem certas regras: eles obedecem ao componente fonológico da língua e aos condicionamentos contextuais desta mesma língua.

Através da retroalimentação, o emissor monitora sua produção, uma vez que as ondas acústicas da pessoa que fala voltam aos ouvidos do falante que se escuta. Embora nas línguas sinalizadas não seja possível receber o feedback visual das expressões faciais gramaticais ou dos movimentos das mãos, esse monitoramento é possível por meio de um sistema interno (cf. Emmorey, 2007).

Como vimos são muitos os problemas levantados no domínio psicolinguístico e por isso a necessidade de haver muitos especialistas que investigam os diferentes processos da linguagem verbal e sua interação com as diversas áreas de pesquisa e atuação. No próximo capítulo vamos conhecer alguns tópicos e subáreas em que a Psicolinguística desenvolve seus modelos e teorias.


Unidade 4
Campo de atuação da Psicolingüística

Para uma revisão de alguns assuntos abordados neste capítulo, leia os seguintes textos:



GROLLA, Elaine. Texto-base de Aquisição de Linguagem

QUADROS et al. Texto-base de Libras I

Sugestão de Leitura:



SCLIAR-CABRAL, Leonor. Introdução à Psicolingüística, capítulo 13



No capítulo acima sugerido, a psicolinguista Leonor Scliar-Cabral condensa informações a respeito dos tópicos estudados pela psicolingüística, dos quais estaremos fornecendo um resumo. Vejamos alguns assuntos do universo psicolingüístico que tem contribuído muito para o entendimento da relação linguagem e cérebro:




4.1 Neurofisiologia da linguagem

Ao se estudar a neurofisiologia da linguagem, basicamente, busca-se compreender a estrutura, o funcionamento e o desenvolvimento das áreas do sistema nervoso central. Busca-se, principalmente, fundamentar hipóteses sobre as capacidades que estão biologicamente envolvidas na recepção e produção da linguagem verbal, sobretudo na fase da aquisição de linguagem ou entre os afásicos. Constatações advindas desses estudos comprovaram que o hemisfério esquerdo é especializado para funções seqüenciais e lógicas como as lingüísticas e que o hemisfério direito processa informações holísticas como as empregadas para o reconhecimento de faces, das vozes conhecidas, das imagens, entre outros.

Como vocês aprenderam na disciplina de Libras I, segundo Bellugi et al (1989), o hemisfério direito também é responsável pelo processamento visual-espacial. Embora haja a integração dos sistemas, a língua de sinais, da mesma forma que a língua oral, é processada pelo hemisfério esquerdo.

Esses estudos são muito importantes no que concerne à confirmação ou refutação de teorias sobre aquisição de linguagem. Atualmente, elas fornecem uma imensa contribuição, pois ajudam a esclarecer as especificidades lingüísticas da modalidade cinésico-visual13 das línguas sinalizadas.

Esse estudo é desenvolvido também pela neurolinguística, da qual trataremos mais adiante.

4.2 Aquisição de linguagem

Sugestão de Leitura:



Scarpa, Ester Miriam. Aquisição de Linguagem. Em Mussalim, Fernanda e Bentes, Anna Cristina (orgs). Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. Volume 2. São Paulo: Editora Cortez, 2003.




O campo do estudo em aquisição de linguagem se ampliou de tal forma que podemos considerá-lo uma subárea autônoma da psicolingüística. Nesse sentido, esses estudos solidificaram algumas regularidades encontradas pela comparação das diversas línguas. Vamos ver como isso acontece.

A aquisição de linguagem é um processo complexo, mas embora as línguas naturais sejam muito diversas, todas as crianças seguem as mesmas etapas no curso de aquisição de uma língua materna, sejam elas ouvintes que adquirem uma língua oral ou sinalizada ou surdas que adquirem uma língua de sinais.

No texto-base da disciplina de aquisição de linguagem há informações mais detalhadas sobre as propriedades e sobre os estágios dessa aquisição. Além disso, falamos acima que as metodologias empregadas em psicolingüística devem ser instrumentos de investigação confiáveis para a observação e generalização de um determinado fenômeno. No texto acima citado é possível encontrarmos alguns tipos de técnicas experimentais para coletar dados de produção espontânea e de produção elicitadas de crianças em fase de aquisição de linguagem. Releiam-no, pois ele os ajudará a compreender como uma metodologia deve ser elaborada para trazer ao conhecimento do pesquisador alguns dados que possibilitam inferências de como se dá esse processo de aquisição. Seguindo as concepções da teoria inatista Chomskiana, a autora desse texto descreve, no último capítulo, algumas investigações sobre a aquisição de fenômenos particulares em português brasileiro e língua de sinais, tais como: os elementos interrogativos e o parâmetro de sujeito nulo. Essas pesquisas são importantes pelo fato de utilizarem produções lingüísticas reais como dados de análise.

Em aquisição de linguagem, pesquisadores como Tiedemann, Preyer, Stern e Stern, Piaget e Vygotsky são os primeiros a considerar a aquisição de linguagem verbal como uma parte geral do desenvolvimento cognitivo e social da criança (Cutler, 2005:4). Com isso, uma nova perspectiva é considerada: a de que, além dos fatores genéticos, os fatores epigenéticos são de suma importância. Lembram-se do input de que fala Chomsky? Pois é, os dados lingüísticos que a criança começa a discriminar e regularizar estão fora dela, no ambiente externo à sua “faculdade de linguagem”, ou seja, os dados aos quais a criança é exposta são socialmente partilhados.

4.3 Relação entre pensamento e linguagem
Muitos pesquisadores investigaram a relação entre pensamento e linguagem. Vygotsky e Piaget foram dois desses pesquisadores que dedicaram parte de seus estudos nesse entendimento. As contribuições que ambos aportaram para a Psicologia não podem ser ignoradas no seio dos estudos psicolingüísticos, no entanto, pela extensão e influência de suas concepções, principalmente no âmbito da educação, não podemos revisá-las num pequeno tópico como este.

Sucinta e superficialmente podemos dizer que ambos trouxeram grandes contribuições sobre as questões básicas da teoria do conhecimento infantil, em outras palavras, a existência de uma estrutura inicial que se desenvolve através da acomodação e assimilação sucessivas de novas estruturas pela experiência da criança sobre o objeto do conhecimento. Nesse contato ativo de informações culturalmente partilhadas, novas informações serão engramadas (registradas) cognitivamente na mente do infante.

Diante dessas contribuições, hoje em dia não há mais espaço para posições extremadas como as inatistas e as comportamentalistas. Já há um consenso de que, na aquisição de linguagem, três fatores são de extrema importância:


  • Fatores inatos: estrutura inicial geneticamente determinada;

  • Fatores maturacionais: processos de ordem psico-fisiológicos que serão desenvolvidos em diferentes estágios;

  • Fatores ambientais ou epigenéticos: o meio exterior no qual a criança é inserida e exposta aos inputs (dados externos) partilhados socialmente.

Segundo a concepção sócio-construtivista de Vygostsky, a língua é um instrumento de mediação na aquisição dos conceitos da criança e a introduz no curso de seu desenvolvimento sócio-histórico. A linguagem verbal cumpre um papel crucial no desenvolvimento cognitivo da criança. Por meio da língua, a criança desenvolve o pensamento verbal que é construído sócio-historicamente. No entanto, fatores de ordem maturacional restringem esse desenvolvimento, por isso a criança precisa estar em condições específicas de acordo com o estágio de seu desenvolvimento para adquirir as diversas competências.


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