Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Comunicação e Expressão (cce) Bacharelado em Letras/Libras na Modalidade a Distância Rosemeri Bernieri de Souza Kapitaniuk psicolinguística



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4.4 Apropriação e processamento de leitura e escrita

A leitura e a produção da linguagem escrita são atividades cognitivas bastante complexas e só é apropriado mais tardiamente. A Psicolingüística tenta responder quais são os comportamentos e os processos mentais de um leitor maduro e de um escritor eficiente.

E qual é a diferença entre fala/sinais e escrita ?

A escrita se difere da fala pela sua natureza de estímulo, pela sua diferença formal e funcional. Em contrapartida, a escrita em língua de sinais utiliza o mesmo canal visual de recepção, mas também se difere com relação ao estímulo, um fixo, outro dinâmico e pela sua diferença formal e funcional (Kato, 1986).

Segundo Morais, Kolinsky e Grimm-Cabral (2004:54), “no plano teórico, a idéia subjacente da concepção psicolingüística da leitura e da escrita é que essas habilidades dependem especificamente da linguagem”, ou seja, a aquisição e apropriação desses conhecimentos implicam, fundamentalmente, processos e representações da fonologia natural. Nesse sentido, o desenvolvimento da consciência fonêmica por meio da leitura atribui a cada fone/cine articulado na fala/sinais uma representação gráfica e com isso a descoberta da relação entre fonema/cinema e grafema se estabelece.

Diante dessa constatação, surge uma nova e desafiante questão sobre a aprendizagem de leitura e escrita da criança surda. Como se estabeleceria a relação fonema-grafema de uma língua oral nesse indivíduo? Encontraremos no tópico abaixo algumas orientações a respeito desse assunto, já que a aprendizagem de uma língua oral não é uma tarefa simples para o surdo pelo fato de ele não ter acesso ao som e, consequentemente, não pode desenvolver uma consciência fonológica nessa língua.



4.5 Bilinguismo

O bilinguismo, em simples palavras, é a habilidade humana de usar duas línguas diferentes. Entretanto há muitas divergências em caracterizar os níveis de competência necessários para definir um indivíduo bilíngüe (cf. Zimmer et al, 2008). Grosjean (1999), constitui um continuum, que inicia no modo monolíngue, passa por diversos estágios intermediários de ativação e processamento até chegar ao modo bilíngüe. Essa passagem intermediária, além de fatores psicofisiológicos, pode ser influenciada por vários fatores extralingüísticos como contexto de imersão, situação de uso, regularidade e tempo de uso, propósitos comunicativos e afetivos, entre outros.



4.6 Psicolingüística Comparada

Esse tipo de estudo procura investigar o funcionamento e aquisição de outros sistemas humanos. É o caso de comparar os fenômenos em aquisição de uma língua oral com a de uma sinalizada. Alguns trabalhos da pesquisadora Karen Emmorey inserem-se no campo da Psicolinguística Comparada, pois compara o processamento de duas modalidades linguísticas como as línguas orais e sinalizadas, ou ainda línguas sinalizadas e o sistema gestual.

Na Psicolinguistica comparada pode-se ainda comparar sistemas de comunicação animal ou comunicação de computador aos sistemas lingüísticos humanos, buscando parâmetros de semelhanças e diferenças e possibilitando a criação de simuladores que modelam o processamento mental humano. Busca-se assim, a compreensão dos princípios que subjazem essas comunicações que se realizam e são percebidos por canais diferentes.

4.7 Psicolingüística aplicada

A psicolingüística Aplicada é um ramo da Psicolingüística que visa a aplicação da pesquisa fundamental desta área ao equacionamento de problemas em campos afins, como, por exemplo: a tradução, o processamento de interpretação de LS, os distúrbios de comunicação, o ensino de primeira e segunda línguas, o ensino da leitura e escrita e, ainda, a análise de textos literários. Vejamos alguns dos subtópicos dessa área:

4.7.1 Aprendizagem e ensino de línguas
Hoje em dia fala-se insistentemente de métodos de ensino de línguas com uma base mais científica para esse ensino. Essa necessidade liga-se aos recentes progressos da nova lingüística, da lingüística aplicada e da psicolingüística (Titone, 1983). Segundo esse autor (idem p. 9), a psicolingüística
tem condições de trazer contribuições, fecundas e sugestivas, para o desenvolvimento de métodos mais eficazes para o ensino lingüístico, trate-se da língua nativa em nível adiantado ou de uma segunda língua. Contribuições indiretas, na medida em que as pesquisas psicolingüísticas procuram esclarecer conceitos básicos concernentes à natureza da língua (como nos estudos mais recentes sobre a gramática); contribuições diretas, que visam esclarecer e realçar os processos e os fatores implicados na aquisição de uma língua, e portanto fornecer diretivas mais fundamentadas ao próprio ensino lingüístico.
Nesse sentido, a psicolingüística seria um modelo teorético do ensino das línguas fundamentado cientificamente que deve ser conformado com o processo evolutivo de aquisição de linguagem e às funcionalidades de uma língua enquanto organismo vivo.

4.7.2 Processamento de tradução

Atualmente, um diálogo multidisciplinar também se faz necessário no campo dos estudos da tradução. Contribuições advindas das vertentes cognitiva e discursiva visam esclarecer a competência tradutória não mais tendo o objeto da tradução como um produto, mas como um complexo processo. Alves salienta que, sob uma perspectiva processual, a tradução pode ser considerada sob vários aspectos, adotando por vezes uma orientação psicolingüística como fizeram Krings (1986) Königs (1987) e Lörscher (1991, 1992).

A análise psicolingüística do ato de traduzir leva em consideração não somente a relação dinâmica entre dois textos lingüísticos, mas principalmente o comportamento do mediador interlinguístico (Titone, 205). Dentre alguns problemas psicológicos da tradução, esse autor identifica:

a. Condições objetivas (referentes à estrutura) e subjetivas do ato de traduzir (ligadas ao comportamento do tradutor);

b. Características dos processos de trans-codificação;

c. Relação entre conhecimento do léxico e conhecimento da gramática;

d. Gradações entre a tradução literal e a tradução livre.


O termo “competência tradutória” começou a ser usado somente em meados da década de 1980. Essa competência é diferente da competência lingüística, pois há diferentes fatores que estão imbricados numa habilidade e outra.

Segundo Hurtado (2005:19) “A competência tradutória é um conhecimento especializado, integrado por um conjunto de conhecimentos e habilidades, que identifica o tradutor e o distingue de outros falantes bilíngües não tradutores” e que, “embora qualquer falante bilíngüe possua competência comunicativa nas línguas que domina, nem todo o bilíngüe possui competência tradutória”. Por isso convém dizer que, mesmo que uma pessoa seja proficiente em duas línguas, a competência em tradução pressupõe uma especialização por parte do indivíduo que compreende principalmente três aspectos: a construção da competência, o desenvolvimento de estratégias de aprendizagem e a aquisição de atitude e de valores.

Numa perspectiva cognitivo-construtivista, Hurtado propõe um processo de formação de tradutores que abranja esses três aspectos e que remete a uma abordagem integralizadora da tradutologia, pois aglutina os enfoques textuais, cognitivos e comunicativo-socioculturais. Sua proposta se baseia em descrições empíricas do modelo PACTE, conduzido por pesquisadores da Universidade Autônoma de Barcelona e que realiza uma investigação empírico-experimental sobre a competência tradutória. Nesse modelo, diversas subcompetências interagem e se integram para formar a competência tradutória de um modo holístico. Os componentes psicofisiológicos que intervêm são: a) componentes cognitivos, tais como memória, percepção, atenção e emoção; b) aspectos de atitude, como curiosidade intelectual, perseverança, rigor, espírito crítico, conhecimento e confiança nas próprias capacidades, conhecimentos do limite de suas possibilidades, motivação, etc; c) habilidades, tais como a criatividade, raciocínio lógico, análise e síntese etc. (idem, 29)

Segundo uma perspectiva conexionista, Gonçalves sugere que o processo de tradução envolve diversos níveis hierárquicos e que a competência tradutória “é conseqüência direta da consolidação de processos cognitivos manifestos na forma de conhecimento especializado sobre tradução” (Alves, 2005:123).

Com essa breve abordagem sobre o desenvolvimento de competência tradutória, visamos apenas dar uma introdução a esse tema que se mostra tão amplo e complexo. No quadro pedagógico, as teorias de aprendizagem e de ensino começaram a se integralizar e se desenvolver no começo do século XX. Diante desse fato, Hurtado (2005) evidencia que a pesquisa sobre didática da tradução encontra-se num estágio embrionário e que a complementaridade entre as pesquisas sobre aprendizagem, desenvolvidas pelos psicólogos e as pesquisas sobre o ensino, conduzidas por educadores são de suma importância.

Outra evidência atual é a carência em estudos psicolingüísticos com especialização em Língua de Sinais. No próximo capítulo trataremos sobre esse assunto, abordando alguns estudos que contemplam essas línguas naturais.



Unidade 5
Psicolinguística e Língua de Sinais

Na tentativa de buscar respostas aos problemas levantados sobre o processamento linguístico, muitos psicolinguistas têm criado teorias, modelos de processamento ou formulado hipóteses que são testadas com experimentos. Além disso, muitos têm buscado em outras áreas como as ciências cognitivas e as neurociências subsídios para prosseguir seus trabalhos, observando outros aspectos sejam fisiológicos, psíquicos ou cognitivos.

Atualmente, um grande número de psicolinguistas tem se dedicado a compreender o processamento das línguas de sinais. Uma das principais representantes dessa categoria é Karen Emmorey que, juntamente com sua equipe de trabalho, tem desenvolvido diversos projetos14, tais como: 1) Organização funcional neural para a linguagem – trabalho associado aos avanços da neurociência; 2) Estudos psicolinguísticos; 3) Percepção e produção em ASL: evidências das pistas oculares; 4) Relação entre linguagem e cognição – investigação sobre os efeitos de modalidade sobre a percepção espacial cognitiva e linguística; 4) Bilingüismo bimodal; 5) Soletração manual e leitura.

Os aspectos investigados no subtópico 2 correspondem às seguintes indagações:


- Modelos de produção de fala podem ser aplicados na produção sinalizada?

- Como os sinalizantes monitoram sua saída linguística, evitando erros de sinalização?

- Como a cinesiologia da língua de sinais é representada e acessada no léxico mental?

- Como a percepção da fala difere da percepção sinalizada?

- Falantes e sinalizantes podem falar sobre espaço da mesma maneira?

- Como os sinalizantes entendem pronomes espaciais?

- Sinalizantes gestualizam?
Como podemos depreender, a evolução dos achados em psicolinguística levou à ampliação das pesquisas a fim de contemplar os processos heteróclitos da linguagem verbal. Não obstante, o fato de atualmente podermos visualizar as transformações linguísticas que vêm sofrendo as línguas de sinais testifica que o cérebro humano é uma incomparável máquina capaz de lidar com ininterruptas cadeias de significações. Além disso, fatores externos influenciam a configuração interna, por isso a importância do meio social que difunde informações comunicativas e linguísticas.

Embora ainda insuficientes, os testes em psicolinguística estão sendo aprimorados a fim de abranger as línguas cinésico-visuais, com isso as ciências da linguagem são ampliadas de forma a abranger múltiplos fenômenos. Entretanto, estamos longe de conhecer todos os detalhes que estão implicados nesse complexo que é a língua humana, mas já avançamos muito. A seguir vamos ver quais as áreas estudadas refletem mais avanços em pesquisas psicolinguísticas em língua de sinais.

1.1 Aquisição de linguagem da criança surda

Este tópico da psicolinguística é o mais desenvolvido também no contexto das línguas sinalizadas. Muitos são os autores que se dedicam à tarefa de estudar a aquisição de linguagem da criança surda. Esses investigadores comprovaram que essas crianças passam pelos mesmos estágios de aquisição que as crianças ouvintes (Bellugi e Klima, 1982; Lillo-Martin, 1999; Newport e Meier, 1985). Comprovou-se também que, como os bebês ouvintes, os bebês surdos balbuciam (Pettito e Marentette, 1991) e que os pais surdos também utilizam uma forma de comunicação simplificada dirigida à criança denominada « fala dirigida à criança » (CDS) (Erting, Prezioso e O´Grady-Hines, 1990; Reilly e Bellugi, 1996). Ao adquirir a cinesiologia, as crianças surdas produzem “erros” como as crianças ouvintes (Schick, 2006) e no que concerne à aquisição da sintaxe, as primeiras combinações começam, entre os 20 e 24 meses de idade (Bellugi, Lillo-Martin, O´Grady e van Hoek, 1990; Lillo-Martin, 1999 e Newport e Meier, 1985).

No que concerne à percepção infantil do reconhecimento precoce da palavra de crianças adquirindo língua oral, há um interessante paradoxo a considerar. Estudos mostram que os neonatos têm uma admirável capacidade para discriminar as diferenças categoriais acústicas entre quaisquer sons, estando aptos, pois, a vir a adquirir qualquer língua (SCLIAR-CABRAL, 2004).

Pesquisas conduzidas por Eimas e colegas (1971) têm mostrado que os recém-nascidos são capazes de discriminar todos os possíveis contrastes empregados pelas línguas humanas (Cutler, 2005: 52).

Eis aqui um desafio no que concerne à percepção da criança surda exposta a uma língua cinésico-visual: como ela deve diferenciar, bem precocemente, gestos naturais extralinguísticos dos movimentos cinésicos (elementos linguísticos) das línguas de sinais, ou seja, como ela discrimina ou recorta a cadeia contínua dos inputs visuais que ela recebe , sendo que eles se dão numa mesma modalidade? Ainda mais preocupante é o caso do das crianças que não estão imersas aos inputs de uma língua cinésico-visual, mas que vivem alheias a uma língua oral-auditiva que não pode ser um instrumento de mediação na aquisição dos conceitos dessas crianças.

Como é possível perceber, muito trabalho deve ser desenvolvido no domínio do estudo de aquisição de linguagem da criança surda. No Brasil, Quadros (2001, 1997, 1995) é a referência nacional nos estudos de aquisição da língua de sinais, principalmente sobre o componente sintático sobre o qual tem desenvolvido alguns projetos de pesquisa em parcerias com pesquisadores de renome internacional.15

Como a aquisição de linguagem já foi estudada na disciplina que leva o mesmo nome, apresentaremos a seguir apenas uma pequena descrição de alguns testes realizados em aquisição de língua de sinais que não foram contemplados nesse estudo.

5.1.1 Morfossintaxe e discurso


Um dos testes experimentais que estão sendo aplicados em língua de sinais é o ‘teste de língua de sinais francesa’ - o TELSF - desenvolvido por Nathalie Niederberger et al. (2001) no Laboratório de Psicolinguística Experimental da Universidade de Geneva. Este teste é uma adaptação do teste Prinz, Strong e Kuntze de ASL (TASL ; Prinz et al., 1994).

O propósito do projeto TELSF é o de criar a primeira ferramenta de acesso avaliável em LSF. Ele provê uma investigação de estruturas linguísticas específicas como morfossintaxe e discurso.

O teste tem sido aplicado a 39 estudantes surdos provenientes de 3 escolas bilingues com idade entre 8 a 17 anos, que apresentam perda auditiva profunda e severa. As crianças escolhidas tinham tido contato com a língua de sinais antes dos cinco anos, sendo que apenas 8 delas tinham contato com LSF desde o nascimento.

O teste consiste de duas medidas de produção e quatro de compreensão :

O teste tem sido aplicado com 39 estudantes surdos provenientes de 3 escolas bilingues com idade entre 8 a 17 anos e que apresentam perda auditiva profunda e severa. As crianças escolhidas tinham tido contato com a língua de sinais antes do 5º ano de idade, sendo que apenas 8 delas tinham contato com LSF desde o seu nascimento.

O teste consiste em duas medidas de produção e quatro de compreensão :


Medida de produção :

(1) Teste de produção de classificadores

(2) Teste de produção de narrativa em sinais
Medidade de Compreensão :


  1. Teste de compreensão de estória

  2. Teste de compreensão de classificadores

  3. Teste de marcadores de espaço

  4. Teste de marcadores de tempo

Viram como estes testes contemplam alguns fenômenos mais complexos em língua de sinais que são os classificadores, o uso do espaço e de marcadores de tempo e as narrativas que contemplam todos esses aspectos ricamente? Continuemos a analisar outro teste referente ao fenômeno dos classificadores da língua de sinais.

5.1.2 O estudo da aquisição dos “classificadores” na perspectiva psicolinguística

Dan Slobin é um psicolinguista que estuda a aquisição de linguagem há mais de 40 anos. Atualmente, ele tem se dedicado a estudar também a aquisição da língua de sinais.

Num recente trabalho que conduziu com outros pesquisadores, estudou-se a perspectiva cognitivo/funcional da aquisição dos “classificadores”, da qual resultam algumas importantes contribuições que auxiliam o entendimento do uso de um continuum gestual e de componentes não-manuais (face, corpo, postura, etc.). Assim, os autores levam em consideração o papel da iconicidade nas duas línguas estudadas: a ASL (língua de sinais americana) e a SLN (língua de sinais neerlandesa). Eles adotam a definição de iconicidade encontrada em Mandel (1977:8) que diz que “o uso de sinais e outros gestos percebidos destacam alguma relação visual com seus referentes” (Slobin et al, 2003:276)

Os tipos de configurações manuais que têm sido chamados “classificadores” se combinam com um grande número de elementos simultâneos usado numa escala de movimentos, articuladores (mãos, braços, olhos, face, corpo), posturas, e variáveis temporais (ibidem, 272).

Nesse sentido, os classificadores com uma configuração de mão específica designam, especificam ou indicam um referente com uma característica particular.

Os autores identificaram na literatura apenas três estudos da aquisição dos classificadores que utilizaram perguntas elicitadas. Todos esses estudos foram realizados em crianças surdas, filhas de pais surdos, adquirindo ASL. São eles:


Kantor, 1980 – 9 crianças de 3;0 a 7;00 anos;

Schick, 1990 – 24 crianças de 4;5 a 9;00 anos;

Supalla, 1982 – 3 crianças de 3;6 a 5;11 anos.
Como os autores consideram que os classificadores são adquiridos em idades mais precoces e que filhos de pais ouvintes também têm a mesma competência de aquisição, os dados que eles coletaram referem-se às produções de 35 crianças, tanto filhas de pais surdos como de pais ouvintes, com idade a partir de 1;3 anos.

Segundo os autores, crianças surdas e ouvintes, desde a mais tenra idade, usam configurações manuais e gestos para referir-se a entidades com base nas suas propriedades salientes ou com base no significado de sua manipulação.

Os dados de crianças menores de 3 anos sugerem que princípios icônicos são avaliáveis para usos produtivos e criativos de classificadores, desde cedo (ibidem, 278).

Vocês perceberam? Nada muito claro a respeito: afinal os elementos de grande iconicidade são adquiridos tardiamente ou não? São habilidades rapidamente desenvolvidas por surdos e ouvintes ou não? Há algumas controvérsias, por isso ainda faltam muitos estudos para entendermos esse fenômeno. No entanto isso não é de desanimar, as pesquisas científicas se desenvolvem exatamente assim. As teorias devem ser confirmadas ou refutadas, os testes experimentais devem ser replicados, controlando todas as variáveis que podem interferir no resultado, os testes observacionais devem seguir um rigor de registro e os dados coletados em ambos os testes, experimental ou observacional, devem ser muito bem analisados a fim de que os resultados sejam confiáveis e contribuam para o avanço da ciência.

Vocês leram também na descrição do TELSF que, para conduzir os experimentos o programa escolheu sujeitos surdos bilíngües a quem aplicaram os estímulos, mas afinal, como é constituído o sujeito surdo bilingue? Vamos ver a seguir.

5.2 Bilinguismo do indivíduo surdo
O sujeito bilíngüe surdo é fluente em sua língua natural e aprende, através do ensino sistemático uma língua falada (a qual aprende a fazer leitura dos articuladores primários dessa modalidade) ou o sistema escrito que representa a língua oral. No entanto, há uma série de variáveis que fazem de uma comunidade surda um grupo não homogêneo no que concerne à fluência e proficiência nesses sistemas orais. Alguns fatores que interferem nesse processo são: 1) os níveis de surdez; 2) o tempo de exposição aos sistemas; 3) os métodos adotados; entre outros.
No âmbito da educação, atualmente uma abordagem de ensino tem atraído a atenção e adesão dos educadores de surdos: a filosofia educacional do bilingüismo.

Alguns projetos estão sendo desenvolvidos nesse sentido, cujos programas sugerem que a criança surda tenha um primeiro ano de desenvolvimento da língua de sinais enquanto língua materna. No segundo ano, a língua oral escrita vigente no país é adotada como uma primeira língua estrangeira. Exemplo disso é um projeto conduzido na Dinamarca que tem feito um estudo longitudinal com crianças surdas, utilizando os métodos dessa filosofia (Hansen, 1990). Numa extensão desse trabalho no Brasil, os psicólogos Fernando e Alessandra Capovilla_desenvolvem pesquisas psicolingüísticas experimentais visando equacionar o paradigma do bilingüismo da criança surda. A preocupação maior é de que esses indivíduos atinjam seu pleno desenvolvimento cognitivo através de estimulações lingüísticas adequadas à sua configuração biopsicológica.

Para a avaliação do desenvolvimento das crianças surdas usam-se testes de leitura. Esse aprendiz, pelo fato de não ter acesso aos sons da fala, comete geralmente erros visuais que revelam a mediação dos sinais da sua língua cinésico-visual (Capovilla e Capovilla, 2004) e por isso o maior desafio à abordagem do bilingüismo é de lidar com a descontinuidade entre a escrita alfabética e a língua de sinais. Segundo os autores
como a operação de sistemas de representação externa (isto é, a escrita) é sempre feita a partir do sistema de processamento interno, é natural que a criança surda procure fazer uso de sua sinalização interna em auxílio à leitura e à escrita. Enquanto a criança ouvinte recorre às propriedades fonológicas e fonoarticulatórias que constituem a forma de sua fala interna, a surda tende a recorrer às propriedades visuais e quiroarticulatórias que constituem a forma de sua sinalização interna (2004:39)

Na opinião dos autores, para a consecução de um bilingüismo pleno do surdo há a necessidade da inclusão do sistema de escrita visual direta de sinais como estratégia heurística para o desenvolvimento cognitivo e lingüístico da criança surda.

Com esse relato, identificamos que ferramentas e métodos psicolingüísticos estão sendo desenvolvidos com o intuito de esclarecer alguns aspectos sobre a relação entre linguagem e o cérebro de indivíduos privados da percepção sensorial auditiva, contribuindo, assim, para o seu desenvolvimento cognitivo e lingüístico e encontrando respostas sobre métodos de ensinos mais adequados a esse público.

Um outro tópico que pode ser desenvolvido em psicolingüística se refere também a um grupo bilíngüe, porém sujeito a uma aprendizagem inversa do sujeito surdo. São os intérpretes de língua de sinais. Vamos levantar alguns problemas nesse domínio, no próximo tópico.



5.3 Processamento de interpretação em LS

Sabemos que a atividade de tradução necessita a interação de dois sistemas lingüísticos diferentes, pois o intérprete de língua de sinais é usuário de uma língua oral-auditiva enquanto língua materna que adquire, posteriormente, uma língua cinésico-visual. Além disso, ele precisa desenvolver uma competência que, como vimos anteriormente no tópico sobre tradução, difere da competência do uso de uma dada língua. Não há ainda um consenso se ambos os sistemas estariam nas mesmas zonas cerebrais, mas é evidente que na tarefa de tradução há um jogo de vai e vem indispensável para decodificar em segunda língua a mensagem da língua de partida. Aqui, uma grande diferença se manifesta quando falamos de um bilíngüe que não realiza a tarefa de tradução e aquele que está desempenhando essa atividade: o primeiro, frequentemente terá uma inibição (neuropsicológica ou neurofisiológica) desencadeando as “interferências”. Já o bilingue envolvido no processo de tradução monitora ou controla essa produção, pois desenvolveu habilidades para isso. Evidentemente, maiores ou menores graus de monitoramento podem variar conforme a experiência prático-cognitiva dos atuantes, bem como o grau de fluência das línguas de que faz uso.

Nespoulous (1984) descreve algumas das interrogações psicolingüísticas sobre o processo de tradução:


  1. Qual é o nível de profundidade que o tradutor deve acessar na língua 2 para restituir a mensagem de uma língua 1.

  2. Como se dá a acessibilidade das estruturas lingüísticas em língua 2 no momento de uma atividade de tradução.

Diante desses questionamentos, preocupa-se, sobretudo, com a complexidade intrínseca da tradução simultânea que, segundo o autor implica a disponibilidade imediata das estruturas lingüísticas da língua 2, caso contrário o intérprete perderia o fio do discurso do emissor.

No momento da tradução de um discurso em tempo real, o interprete tem a tripla exigência (1) de encontrar o “equivalente mais natural” em língua 2 da mensagem emitida em língua 1 (...) e mais (2) efetuar essa busca o mais rápido possível e também (3) prestar atenção ao discurso subseqüente produzido pelo emissor (...) No caso de não serem instantaneamente satisfeitas as duas primeiras exigências, o intérprete que – (presumimos) tenha compreendido o sentido da mensagem em língua 1, mas que não conseguiu seguir por muito tempo a “busca estrutural” – deve (1) estocar esse fragmento de mensagem na memória, (2) seguir a escuta do discurso do emissor e (3) continuar a traduzir o discurso subseqüente, tentando recuperar, o mais rápido possível, a informação deixada em suspenso pela inacessibilidade estrutural temporal.
Essas exigências tornam a atividade de tradução uma das mais complexas operações lingüístico-cognitivas, muito mais em se tratando de uma L1 oral para uma L2 sinalizada e vice-versa, pois, nesse caso, modalidades diferentes estão em jogo o que requer uma especialização maior dos mecanismos de percepção visual e atenção, além de habilidades periféricas motoras e cinésicas.
Numa interpretação simultânea em língua de sinais, é necessário identificar alguns aspectos psicofisiológicos para o desenvolvimento dessa “competência de tradução/interpretação simultânea”, tais como:


  1. Condições de percepção e articulação da modalidade cinésico-visual.

Segundo Cutler (2005:8), informações visuais estão intrinsecamente ligadas ao pensamento espacial e a relação entre língua e cognição espacial tem atraído alguns pesquisadores como Bloom, Peterson, Nadel e Garret, 1996; Bowerman e Levinson, 2001; Covertry e Garrod, 2004. No entanto, a natureza dessa interface continua obscurecida, pois ainda não há respostas de como a representação visual é convertida em representação lingüística. Com o objetivo de abordar essa relação, alguns pesquisadores estudam a comunicação em diferentes modalidades. É o caso dos gestos que acompanham a fala quando indicam direções, formas e movimentos e principalmente a língua de sinais devido à sua modalidade e pelo fato de ser uma língua natural. (ibidem, 9)

Os ouvintes precisam canalizar sua percepção às unidades lingüísticas visuais, fazer a divisão do continuum visual, segmentar os componentes cinesiológicos para, então dar sentido ao que está vendo simultaneamente. Quanto à articulação, ele precisa desenvolver habilidades motoras para produzir os sinais.


  1. Aquisição e/ou aprendizagem de competência lingüística em duas línguas, cujas modalidades de recepção e produção são tão distintas;

O bilingüismo, ou mais propriamente, a competência lingüística bilíngüe, é a soma de vários fatores que, agregados, culminam na proficiência e fluência em duas línguas, sejam elas adquiridas naturalmente ou aprendidas por meio da sistematização. Assim, há várias possibilidades que tornam um indivíduo fluente em uma língua cinésico-visual e oral-auditiva: se ouvinte, ele pode adquirir as duas naturalmente ou aquirir a língua falada e depois aprender a língua sinalizada. Já o indivíduo surdo pode ter fluência em língua sinalizada , seja por aquisição natural na infância ou tardia na fase adulta e aprender uma língua escrita por meio da sistematização. Há ainda os que, apesar da inacessibilidade fonológica da língua oral, aprendem a utilizar as pistas fonoarticulatórias, desenvolvendo a leitura labial e a produção oral do sistema falado. No entanto, como bem salienta Hurtado, um tradutor/intérprete precisa mais do que ter a competência lingüística bilingue. Ele precisa de um terceiro fator:




  1. O desenvolvimento da competência interpretativo-tradutória de uma língua cinésico-visual para oral-auditiva e vice-versa;

Como vimos, a competência tradutória é resultado de uma aprendizagem sistemática a fim de desenvolver habilidades necessárias ao processo de tradução. Não diferente e não menos complexo é o processo simultâneo de tradução/interpretação que exige um esforço mental maior, bem como os dois seguintes fatores abaixo descritos.




  1. O monitoramento da tradução simultânea;

  2. O gerenciamento do ritmo cognitivo que possibilite a planificação, revisão e meta-reflexão do que se está traduzindo.

Não há muitos trabalhos sobre como se dá o monitoramento em língua de sinais. Sabemos que, diferente da tradução escrita que é recursiva, ou seja, pode-se voltar e reavaliar o processo, na tradução/interpretação simultânea essa meta-reflexão deve ser mais rápida. Muito menos evidente é como se dá o gerenciamento do ritmo cognitivo, sendo que a interpretação simultânea envolve processos complexos que se inicia pelo nível sensorial da visão, chegando ao sistema nervoso central pelo mecanismo aferente, o organismo reage com respostas pelos mecanismos eferentes (base de produção pelo sistema periférico cinésico), tudo em questão de milésimos de segundos.

Esse é um campo riquíssimo de investigação que, com os avanços das pesquisas, pode se tornar, a exemplo da aquisição de linguagem, um campo autônomo. Mais abrangentemente se esses avanços forem marcados pela interdisciplinaridade da qual iremos tratar no próximo capítulo.

Unidade 6
Psicolingüística: sua relação com as novas ciências

O estado atual dos estudos em Psicolinguística, mais do que nos primeiros períodos, é marcado pela interdisciplinaridade que abrange os estudos da neurociência, da ciência cognitiva, da Inteligência Artificial, do conexionismo, entre outros. Além disso, somente após o desenvolvimento dos estudos em línguas sinalizadas, a partir de 1960, é possível ampliar, também para a modalidade cinésico-visual, o leque de questionamentos sobre os modelos de percepção e produção linguísticas, aquisição de linguagem, processamentos dos sinais lingüísticos, fundamentos biológicos da linguagem, etc.

Com isso, a psicolingüística tem influenciado o desenvolvimento de outras ciências limítrofes que estão em pleno desenvolvimento. Numa via dupla, ela também tem se beneficiado dos avanços destas ciências. Vejamos algumas delas:

6.1 Neurolinguística ou neuropsicologia
Sugestão de Leitura:

Morato, Edwiges. Neurolinguistica.Em Mussalim, Fernanda e Bentes, Anna Cristina (orgs). Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. Volume 2. São Paulo: Editora Cortez, 2003. 143-170



Sabemos que a Psicolinguística contribuiu, através de seus métodos experimentais, explicar como o ouvinte transforma o sinal acústico da fala, ou seja, como se desenvolve o processo de entrada de sinais (via nível sensorial) que passam por transformações até chegar a um determinado nível cognitivo (processo bottom up); e como, ao falar, o processo é contrário e se realiza quando as representações resultantes das transformações percorrem da cognição até os movimentos articulatórios (processo top down).

Hoje, graças aos avanços da IRM e da eletroencefalografia, é possível demonstrar empiricamente como esse percurso é realizado e quais as áreas cerebrais são ativadas. Com isso, é possível esclarecer melhor o processamento lingüístico, seja oral, sinalizado ou escrito. Assim, podemos definir a neurolinguistica segundo as autoras Zimmer et al, (2007:2) como:
(...) a ciência que estuda os mecanismos cerebrais subjacentes à compreensão, produção e conhecimento abstrato da linguagem – falada, sinalizada ou escrita. Em outras palavras, investiga as relações entre a estrutura do cérebro humano e a capacidade lingüística, com um foco especial na aquisição da linguagem e nos distúrbios de linguagem, especialmente naqueles originados por lesões cerebrais. Trata-se de um campo interdisciplinar, o qual articula conhecimentos provenientes da Lingüística, das Ciências Cognitivas, da Neurobiologia e das Ciências da Computação, entre outras. Dentre uma miríade de investigações psico e neurolingüísticas potencialmente possíveis – processamento da frase, do texto, produção de fala, aquisição da língua materna, entre outras – vêm se destacando os estudos sobre a linguagem em bilíngues e multilíngües.
Sob uma concepção biogenética, é possível asseverar que o bebê nasce biopsicologicamente programado para os processos maturacionais como caminhar, adquirir uma língua, etc.

Mas o que é a maturação?

No bebê, o prolongamento dos neurônios não está constituído, há um tempo para que isso seja desenvolvido através de sinapses (ligações que se estabelecem nas várias áreas do sistema nervoso central). Esse é o processo chamado de maturação e, através desse processo, o bebê consegue atingir etapas como desenvolver habilidades motoras como: andar, sentar, pegar objetos; habilidades lingüísticas que se manifestam pelo aparato vocal ou pelas articulações cinésicas; habilidades cognitivas, tais como a lógica, a matemática, a memória, etc.

Como bem salientam Ellis, (1998 apud Rossa e Rossa)


“(...) acredita-se que o processo de aquisição da linguagem – substrato neurológico inato associado às modificações e crescimento sináptico pelos estímulos do meio e próprios – vai permitindo à criança desempenhar a comunicação conforme um padrão lingüístico cultural adquirido, ou seja, a criança parece abstrair os padrões que organizam determinada língua à qual está exposta
Além das pesquisas em aquisição de linguagem e bi/multilinguismo, outro tipo de investigação muito esclarecedor nessa área é desenvolvido entre os afásicos. Usuários surdos com danos cerebrais são investigados por especialistas do Laboratório de Neurociência Cognitiva do Salk Institute. O grupo é formado por profissionais das áreas de psicologia, neurociência, lingüística, ciência cognitiva e modelagem computacional, representados por membros como David Corina, Mark Kritcheysky, Antonio Darnasio, Hanna Darnasio e Howard Poizner e que estudam os fundamentos biológicos da cognição e linguagem humanas.

6.1.1 A leitura sob o enfoque da Neurolinguística


Com os avanços da ressonância magnética cerebral, capaz de revelar os circuitos corticais no momento da leitura, uma nova fusão interdisciplinar é necessária: entre as neurociências e a psicologia. A primeira apresenta a forma, as especializações do cérebro e a outra disseca esses mecanismos aplicando-os ao entendimento do funcionamento cerebral durante a leitura.

Dehaene (2007) explora uma abordagem da leitura apresentada sob a perspectiva biológica através das imagens ligadas às bases culturais, sendo esse, um dos pontos importantes da neurociência contemporânea.

O ato de leitura implica complexas operações cerebrais ao contrário do que as pesquisas cognitivas ingenuamente concebiam. Graças aos estudos e reflexões das neurociências, hoje podemos visualizar, de maneira mais clara e menos seqüencial, quais os circuitos cerebrais estão envolvidos nesse ato. Dado que a atividade da escrita alfabética tenha sido inventada há aproximadamente 3.800 anos, os neuropsicólogos partem do pressuposto de que o genoma não disporia de tempo suficiente para se modificar e desenvolver esses circuitos próprios à leitura. Assim, Dehaene apresenta um modelo ao que denomina de “reciclagem neuronial” em que hipotetiza que “a arquitetura de nosso cérebro é estreitamente enquadrada por fortes limites genéticos. Contudo, os circuitos do córtex visual dos primatas possuem uma certa margem de adaptação ao ambiente na medida em que a evolução os dotou de uma plasticidade e de regras de aprendizagem” (2007, p. 27). Ou seja, o cérebro, longe de ser uma tabula rasa, é um órgão estruturado que possibilita a operação de novas competências, convertendo os circuitos já existentes e predispondo outros circuitos a pequenas mudanças, num processo de reciclagem.

A evolução da escrita apresenta uma organização cerebral imposta pelas variações culturais ao longo da história. Desde sua invenção, ela tem sofrido mudanças na medida em que as competências humanas se desenvolvem.

Esses estudos são importantes, pois ao reconhecermos tanto fracasso no ensino da leitura e escrita no Brasil, por falta de métodos adequados à realidade psicofisiológica e social dos aprendizes. Muito mais grave é o fato de tentar alfabetizar um surdo em uma língua estrangeira da qual ele não possui acesso fonológico e, portanto, não lhe é possível ter consciência fonológica, através da sistematização de ensino de um código oral.

Considerando duas vias de leitura, Dehaene diz que: “todos os sistemas de escrita oscilam entre a escrita dos sentidos e a dos fonemas (...) nossa leitura passa por uma via fonológica que decodifica os grafemas e deduz uma pronúncia possível e depois tenta acessar a significação”. O percurso inverso e direto se realiza com palavras freqüentes e irregulares.

Para o surdo não há relações sinápticas entre a fala e a audição que ele não possui. Por mais que aprenda a oralizar, essa relação entre as articulações com os sons não é possível. Refletindo sobre essa informação, comparando-a ao que Dehaene defende, evidenciamos que uma tal generalização é imprecisa com relação ao indivíduo surdo, pois não sabemos ainda como é realizado o circuito mental de um leitor surdo profundo, seja em leitura de língua falada ou sinalizada. Que vias estariam implicadas em casos como desses indivíduos que não possuem um acesso fonológico das línguas orais? De outro modo, como se daria o acesso cinesiológico numa escrita de língua de sinais e qual sistema, o signwriting ou ELiS seria melhor processado no cérebro do indivíduo surdo? Somente um estudo neurocientífico poderá nos esclarecer essas questões.

6.2 Cognitivismo

A psicologia cognitiva é o estudo das representações mentais e das operações mentais que manipulam (criam, acessam, etc) essas representações mentais, ou seja, ela procura explicar mecanismos e processos subjacentes às nossas habilidades cognitivas (Cutler, 2005:9). Em outras palavras, ela “trata do modo como as pessoas percebem, aprendem, recordam e pensam sobre a informação” (Sternberg, 2000:22).

Vimos que, devido a convergência para a teoria racionalista, Chomsky adotou a corrente cognitivista no âmbito dos estudos lingüísticos, pois usa a introspecção para chegar às generalidades de um determinado fenômeno. Com isso ele propõe a construção teórica baseada no conceito da “faculdade de linguagem” enquanto componente interno da mente/cérebro humanos. Esse conceito repercutiu nos estudos das Ciências Cognitivas (inteligência artificial e Psicologia Cognitiva) que desenvolveram modelos de processamento linguístico, tais como vimos no tópico sobre a metodologia em Psicolingüística.


6.3 Conexionismo

Para aprofundar esse assunto sugerimos a seguinte leitura:



POERSCH, José Marcelino. Simulações conexionistas: a inteligência artificial moderna. Revista Linguagem em (Dis)curso, volume 4, número 2, jan/jun. 2004. Disponível em: http://linguagem.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0402/09.htm



O paradigma conexionista fundamenta seus modelos com base nos estudos atuais das neurociências. Com os dados sobre a fisiologia do sistema nervoso central, esses modelos desenvolvem “neurocomputadores”, ou seja, eles desenvolvem simuladores computacionais com base no funcionamento das redes neuroniais no processamento do cérebro biológico.

No âmbito das pesquisas em aquisição de linguagem, algumas simulações conexionistas tem sido eficientes em extrair as regularidades dos padrões de input lingüístico, resultando na operação de regras que regem a aquisição morfológica, fonológica, sintática, semântica, entre outras (Ellis, 1998).

O paradigma conexionista vem ganhando terreno no Brasil e tem recebido a adesão de renomados cientistas como Albano que desenvolve pesquisas em descrição dos sons das línguas naturais e modelamento dos processos cognitivos e de produção e percepção da fala e Poersch que, além de explicar os modelos conexionistas, orienta pesquisas sobre aquisição e processamento de língua oral e escrita.


Para entendermos os diferentes paradigmas que estudam a linguagem verbal, Poersch (2004)16 apresenta os seguintes quadros:


 

behaviorismo

 


 

 

Estímulo ---



CÉREBRO

(neurônios)

CAIXA PRETA


 

--- Resposta



EMPIRISMO:

  • Ênfase nos sentidos e na experiência (TÁBULA RASA)

  • Nega a existência da mente

  • Todo saber é aprendido

APRENDER é saber responder corretamente a estímulos.

Figura 1 – Paradigma Behaviorista

“O paradigma behaviorista (Fig. 1), baseado na filosofia empiricista, coloca ênfase na experiência, ao abordar o processo de aquisição do conhecimento. É um paradigma neuronial; nega a existência da mente (TEIXEIRA, 1998). O conhecimento é aprendido através de estímulo e resposta”.

 

 

SIMBOLISMO

 


 

 

REPRESENTAÇÕES

 

 

 

 


 

MENTE


 

 


 

INSUMOS ---

CÉREBRO

---PRODUTOS

MENTALISMO:

  • Pleiteia a existência da mente

  • Existem IDÉIAS INATAS

  • Representação mental

APRENDER é representar, na mente, o mundo circundante. [1]

Figura 2 – Paradigma Simbólico
“O paradigma mentalista ou simbólico (Fig. 2) enfatiza o papel da mente nos processos cognitivos” e “(...) postula a existência de idéias (regras) inatas. A cognição se processa através da representação do mundo na mente mediante o uso de símbolos prontos dispostos serialmente.”


 

CONEXIONISMO

 


 

 

Unidades de Entrada ---



CÉREBRO

(Redes neuroniais)

Unidades intermediárias


 

--- Unidades de Saída



MENTE?

  • Processamento de distribuição em paralelo – PDP

  • Há um mecanismo cerebral genético

APRENDER é alterar a força das sinapses neuroniais.

Figura 3 – Paradigma Conexionista
“O conexionismo (Fig. 3) é um paradigma cognitivo baseado nos achados da neurociência e não em hipóteses explicativas (...) Todos os processos cognitivos ocorrem no cérebro; a mente nada mais é do que o conjunto desses processos.”
Os três quadros que Poersch apresenta resumem as três concepções mais difundidas da filosofia que repercutiram no estudo da linguagem verbal humana e aprendizagem: 1) as idéias são adquiridas; 2) as idéias são inatas; 3) há associações entre idéias inatas e adquiridas.

E com isso fechamos também o nosso texto, mostrando que há um fio condutor que alimenta as investigações humanas: esse fio começa na indagação sobre determinado fenômeno em determinada área epistemológica, em seguida é repensado sob uma perspectiva diferente, posteriormente é reforçado por informações de outras áreas, e esse elo evolutivo é contínuo e cheio de conexões. Em suma, quanto mais tentamos nos aproximar do objeto do conhecimento, mais nos distanciamos dele, pois mais complexo ele se torna. Isso não é tão assustador quando olhamos para o passado e percebemos quanto conhecimento acumulamos e o quanto isso tornou nossa vida mais rica.




Uma conclusão otimista

A conclusão aqui delimitada tem o objetivo de levar, vocês, leitores a uma reflexão sobre como idéias, apesar de serem dicotômicas, podem convergir para explicar alguns aspectos da linguagem verbal.

Como vimos, Platão e Aristóteles possuíam uma dialética divergente sobre a origem das idéias e como o homem adquire o conhecimento. A lingüística e a psicologia, ao se complementarem e se associarem para entender as múltiplas operações mentais que a linguagem verbal enseja, abriram espaço para o nascimento da psicolingüística. À medida que os achados evoluem, a metodologia deve também acompanhar essa evolução, por isso o cientista deve estar sempre à procura de lidar com as diversas variáveis que podem interferir nos resultados.

O grande debate que se inicia em Platão e Aristóteles sobre nativismo e ambientalismo, são atualmente dialéticas convergentes no sentido de que a cognição é um fenômeno situado neurofisiologicamente e o processamento cognitivo precisa ser social, cultural e historicamente situado.

As mudanças são positivas no sentido de que elas nos dirigem a respostas menos deterministas e fechadas sobre os fatores físicos, sociais e experienciais aos quais o indivíduo está exposto e que determinam a configuração que irá diferenciá-lo de outros indivíduos por meio de seus próprios conceitos e conhecimentos individuais. E isso não é diferente para com os fenômenos lingüísticos, cuja compreensão nos leva a aprender mais, inclusive, sobre o funcionamento fisiológico e psíquico do ser humano.

Há ainda poucos trabalhos psicolingüísticos e neurolinguisticos no que concerne o âmbito da aquisição e aprendizagem de língua de sinais; do processamento do sinal visual dos signos cinésicos; sobre quais seriam os processos neuropsicolinguisticos que são a base das operações de tradução de uma língua 1 cinésico-visual para uma língua 2 (cinésico-visual ou oral-auditiva) e vice-versa.

Com tudo o que depreendemos dessa abordagem histórico-temática da psicolingüística, podemos concluir que não há como rejeitar a importância da interdisciplinaridade no progresso das ciências e à busca de respostas nos mais diversos domínios acima expostos.

Essa conclusão é otimista, pois nos leva a acreditar que a neurolinguística, o conexionismo, assim como já tem feito o cognitivismo, podem contribuir para o atual contexto que se encontra a psicolingüística em línguas orais e também sinalizadas. Seria essa interdisciplinaridade o marco para uma nova fase dessa ciência? Vocês, futuros pesquisadores, poderão responder a essa pergunta.



GLOSÁRIO



  • Aprendizagem de língua: Processo sistemático de exposição ao ensino de uma língua, fazendo-se uso da metalingüística e de habilidades metacognitivas.




  • Aquisição de linguagem: Processo natural em que a criança adquire uma língua, sem estar exposta, no entanto, a um ensino sistemático. Estão imbricados nesse processo fatores genéticos, maturacionais e epigenéticos17.




  • Behaviorismo ou comportamentalismo: corrente que se dedica ao estudo dos comportamentos abertos e verificáveis nas respostas reveladas a estímulos. Seus adeptos rejeitam toda e qualquer possibilidade de a mente ser objeto de investigação devido ao seu caráter subjetivo. Foi iniciada por Watson e teve vários seguidores.




  • Comunicação é um fato social, um fenômeno que consiste em transmitir ou fazer circular informação.




  • Dialética: Segundo a filosofia antiga é a arte de discutir ou a argumentação dialogada.




  • Dicotomia: Classificação em que se divide cada coisa ou cada proposição em duas partes.




  • Empírico: Que se baseia somente na experiência ou observação, ou por elas se guia sem levar em consideração teorias ou métodos científicos;




  • Epistemologia: ramo da filosofia que investiga a origem, as formas, as possibilidades e limites do conhecimento e as relações entre o sujeito e o objeto do conhecimento.




  • Heurística - Método de ensino que consiste em que o educando chegue à verdade por seus próprios meios.




  • Hipótese – Explicação possível em que o experimentador procura estabelecer qual a causa e efeito entre dois tipos de fatos.




  • Língua é um código verbal constituído pelo sistema gramatical, lexical e fonemático. É a matéria da linguagem, ou seja, exterior à pessoa que dela faz uso.




  • Linguagem verbal é um conjunto complexo de processos, resultado de certa atividade psíquica determinada pela vida social que concorrem para a compreensão e produção do discurso.




  • Neurociência = investiga a relação entre biologia e os vários tipos de comportamento. Associada à psicolingüística estuda a relação entre biologia e comportamento verbal que, dentre outros aspectos, engloba questões de como a língua é processada no cérebro durante a compreensão e produção.




  • Variável experimental – refere-se a um fator ou condição envolvidos na investigação (classe de objetos ou eventos, ou uma classe de propriedades de objetos ou eventos).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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