Universidade federal de santa catarina centro de filosofia e ciencias humanas cfh



Baixar 27.68 Kb.
Encontro06.08.2016
Tamanho27.68 Kb.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS – CFH

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA POLÍTICA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA POLÍTICA

TÓPICOS ESPECIAIS: Movimentos Sociais – para uma abordagem pós-colonial

Prof. Ilse Scherer-Warren

Aluna: Juliana Grigoli
Resumo do Texto:

SCHERER-WARREN, Ilse. Movimentos sociais e pós-colonialismo na América Latina. Palestra na Mesa Redonda “Ações coletivas, movimentos e redes sociais na contemporaneidade”, XIV Congresso Brasileiro de Sociologia, junho de 2009, RJ.


Tema: Movimentos Sociais na América Latina. Mais especificamente uma revisão crítica dos referenciais teóricos relacionados a modernidade a partir das análises teóricas da pós-modernidade, dos estudos culturais e pós-coloniais.

Objetivo principal do artigo: Debater sobre a relevância da transição de alguns enfoques da modernidade, em especial, a passagem das interpretações sobre os movimentos sociais pautados nas teorias de classe para enfoques culturalistas e identitários dos denominados “novos movimentos sociais”; e os enfoques institucionalistas através das teorias de mobilização de recursos e dos processos políticos.

Objetivos específicos do artigo: 1) Verificar em que medida esses estudos dialogam criticamente com a tradição teórica, revendo abordagens clássicas da modernidade; 2) Discutir as estratégias organizativas e discursivas dos movimentos receptivos ao pensamento pós-colonial.

Tese: “Nas últimas décadas, porém, alguns movimentos passaram a colocar em questão as interpretações hegemônicas da modernidade, especialmente a partir das experiências denominadas de diaspóricas.” (SCHERER-WARREN, Ilse, p.01). Nesse sentido, “os estudos pós-coloniais trazem contribuições relevantes para repensar o papel de movimentos sociais mais recentes na América Latina, na releitura e na revalorização das trajetórias de classes, de grupos, de comunidades e de culturas historicamente subalternas em nosso continente.” (SCHERER-WARREN, Ilse, p.02)

Ponto de Partida para o Debate: Um movimento social passa existir quando: 1) uma ação coletiva gera um princípio identitário grupal; 2) define os opositores ou adversários à realização plena dessa identidade ou identificação; 3) age em nome de um processo de mudança societária, cultural ou sistêmica, que acaba por 4) estabelecer tensões e conflitos com alguns princípios da modernidade, principalmente em relação à questão da ordem social, tal como destacado por Bauman.
Legados teóricos para os estudos dos movimentos sociais na atualidade

Para SCHERER-WARREN, os legados históricos são as “grandes narrativas” provenientes das teorias de classe marxistas que analisam os movimentos sociais a partir da luta dicotômica entre as classes; e os princípios discursivos da modernidade com tendências interpretativas universalizantes pautados em modelos analíticos rígidos e fechados para analisar os comportamentos coletivos.

As críticas tecidas pela autora em relação a essas “grandes narrativas” são: as teorias de classe marxistas ficaram presas a explicações reducionistas, teleológicas e previsíveis; e as teorias de interpretação universalizante foram aplicadas de forma generalizada em diferentes situações sem levar em conta os contextos históricos específicos.

A partir dessas constatações SCHERER-WARREN, percebe a necessidade de oxigenar o debate, principalmente porque está interessada em analisar os movimentos sociais na América Latina, que possuem suas especificidades históricas, identidades e culturas próprias, e por isso, são diferentes dos movimentos sociais europeus e estadunidenses. Essas diferenças fazem com que haja a necessidade de “criar” ou utilizar referenciais teóricos capazes de evidenciar questões e peculiaridades próprias dos sociais movimentos latino-americanos.

Nesse sentido, as teorias culturalistas e identitárias dos movimentos sociais, também denominadas de “teorias dos novos movimentos sociais”, proporcionam essa complexidade investigativa e interpretativa, pois “tiveram o mérito de buscar a complexidade simbólica e de orientação política dos agrupamentos coletivos formadores de movimentos sociais, segundo o princípio da diversidade sociocultural (de gênero, étnica, ecológica, pela paz, por diferentes tipos de direitos humanos etc.).” (p.02)

Entretanto, a autora ressalta que o princípio da diversidade sociocultural das teorias pós-modernas é insuficiente para pensar nos problemas sociais latino-americanos, sendo necessário recorrer tanto às teorias pós-coloniais, que nos dão fôlego para analisar questões relativas às desigualdades sociais e às raízes históricas dos processos de colonização, que incluem as múltiplas formas de dominação econômica, social, cultural, ideológico e político, quanto às teorias institucionalistas dos movimentos sociais, que possibilitam a realização de análises das oportunidades e das formas de participação de atores coletivos na esfera pública formal para o entendimento do cotidiano do fazer político institucionalizado, da relação entre sociedade e Estado, que segundo Klandermans (1994), Tarrow, McAdam e Tilly (1996), Castells (1996), devem vir acompanhadas de análises dos processos articulatórios da diversidade dos atores envolvidos, de suas formas de mobilizações sociais e de suas articulações em redes.

Assim, é possível afirmar que os estudos pós-coloniais trazem consigo legados das teorias de classe e das formas de opressão das elites coloniais e hegemônicas; e das teorias culturalistas, ao considerar tanto às múltiplas formas de opressão e discriminação simbólica em relação aos segmentos sociais colonizados, quanto a realidade da exclusão social e da subalternidade destes segmentos no plano do fazer político, no cotidiano societário e nas instituições. Esses resgates dos estudos pós-coloniais permitem entender a subalternidade de sujeitos sociais na América Latina e, analisar as novas formas de inclusão social no Brasil e na América Latina num sentido mais amplo.

Para SCHERER-WARREN, o primeiro passo para entender os processos de colonização e de seu impacto sobre os povos colonizados é o resgate dos autores precursores dos estudos pós-coloniais na América Latina - Frantz Fanon e Enrique Dussel.

De acordo com Dussel, é necessário repensar o processo de colonização e de dominação a partir da reflexão de uma nova epistemologia, a Filosofia ou Teologia da Libertação na América Latina. A partir dessa concepção, é possível refletir sobre as seguintes questões: a) o posicionamento do intelectual em relação aos sujeitos de seus estudo; b) a relação entre experiência, representação e reconhecimento; c) a construção de plataforma de direitos humanos que comportem necessidades dos sujeitos subalternos; d) a construção de formações discursivas, através de práticas articulatórias em rede, que contemplem a historicidade dos sujeitos subalternos.

Posicionamento do intelectual em relação aos sujeitos de seus estudos
De acordo com Dussel e Fanon, o posicionamento do intelectual em relação ao sujeito deve envolver os seguintes procedimentos: a) “aproximação” com o Outro, em seu espaço e tempo, na experiência cotidiana e na história, sendo que o outro são os empobrecidos, os oprimidos, os discriminados, os marginalizados pelas práticas e pelos mitos da modernidade; b) para Fanon, a história da colonização tem que ser reescrita e reinterpretada, mas, acima de tudo, é necessário descolonizar as mentes para “que cesse para sempre a servidão de homem para homem; c) assumir uma postura ética de comprometimento com a cultura e com o conhecimento, que influencia os caminhos da história; d) realizar uma análise crítica sobre o lugar de sua fala; e) identificar a memória oficial hegemônica e uma memória coletiva dos “de baixo” na pirâmide social, uma memória a partir dos centros de poder e uma memória a partir dos oprimidos, uma memória intelectual hegemônica e uma memória de saberes historicamente subalternos; e) desenvolver também um debate crítico em torno da diversidade e das contradições das experiências vividas, dos poderes de representação social e das lutas por reconhecimento .

A relação entre experiência, representação e reconhecimento
De acordo com SCHERER-WARREN, a relação entre experiência, representação e reconhecimento se dá por meio da memória, da reflexividade, e da produção nas formas de reconhecimento nos planos social, cultural e político.

Assim, é preciso ter em mente que as representações nas sociedades pós-coloniais “expressam lados distintos do processo de colonização, tanto no plano dos mitos ou de reprodução da cultura, como na produção de novos saberes. Além disso, na produção dos saberes há poderes e legitimidades diferenciadas, frutos da supervalorização do saber científico”. (SCHERER-WARREN,p.07) No entanto, uma política de experiências alcançará um cunho libertador quando for acompanhada de uma política de reconhecimento, e, por sua vez, o reconhecimento só se efetivará na praxis política se for acompanhado de uma política de auto-representação.

Essa afirmação leva a pensar em outras questões, como bem ressalta SCHERER-WARREN, ao formular a seguinte pergunta: como construir uma plataforma de direitos humanos que respeite ou consolide os “direitos originários” das populações subalternas que inclua medidas reparadoras de suas condições históricas de sujeitos discriminados?
Da construção de novas plataformas de direitos humanos
É possível superar as múltiplas formas de exclusão social a partir de uma plataforma de direitos humanos, sendo estes fundamentados no princípio da universalidade?

Segundo SCHERER-WARREN, é possível responder essa pergunta de duas formas:

Negativamente, “se pensarmos no universalismo relativamente abstrato da modernidade estrito senso.” E positivamente “se pensarmos a partir de um universalismo que contemple as diferenças, vinculado a uma plataforma de direitos humanos em constante construção, que incorpore valores e demandas das comunidades diaspóricas a partir de dinâmicas e configurações atuais, cotidianas e receptivas a discursos emancipatórios que, conforme Rifiotis (2008), comporta discurso, retóricas, mas igualmente leis, pactos e convenções internacionais e políticas sociais, tornando-se uma experiência cada vez mais cotidiana. A partir de um “repensar em um ser-em-comum composto de histórias diversas e de diferenças inassimiláveis: em uma civitas como comunidade paradoxal suscetível de acolher as existências (e experiências) singulares...”.” (SCHERER-WARREN,p.09)

Para a autora o compromisso de intelectuais com os movimentos sociais latino-americanos é a busca por resultados concretos, pautados em ações reparadoras (exemplo as ações afirmativas), a partir de reflexões sobre as experiências e saberes desses povos, seus discursos discursivas e suas práticas políticas em rede.


Formações discursivas construídas através de práticas articulatórias em rede
SCHERER-WARREN, defende a concepção de que a organização dos movimentos sociais em rede é a chave para a re-significação dos processos de colonização na América Latina e para a criação de significados em-comum para a superação dos legados históricos opressores. Pois, “será na intercomunicação entre grupos sociais distintos, mas conectados por redes, que a relação entre a tradição e as raízes culturais, por um lado, e as opções políticas e as utopias, por outro, poderão ser revistas criticamente atribuindo-se novos significados às situações de opressão e discriminações históricas.” (SCHERER-WARREN,p.10)

Segundo a autora, os fóruns da sociedade civil são exemplos dessa organização em rede, pois “não são organizações formalmente localizadas, mas constituem espaços estratégicos de debate político entre atores diversificados, de formulação de objetivos comuns de luta, de elaboração de princípios e de encaminhamento de ações concretas de impacto político.” (SCHERER-WARREN,p.12)



Considerações Finais

Os dilemas que o texto nos traz são: Como equilibrar - “direitos universais” com os novos direitos oriundos da diversidade e da subalternidade de povos colonizados? Como driblar as armadilhas da colonização na política e na construção do conhecimento?

Será que Wallerstein (2007), tem a resposta ao afirmar que “seria preciso universalizar valores particulares e particularizar valores universais (p. 84), onde “uma alternativa possível é uma multiplicidade de universalismos, que lembraria uma rede de universalismos universais” (p.124).” (SCHERER-WARREN, p.14) ou mesmo Grosfoguel (2008), ao afirmar que o universal se converta em pluriversal?

Possibilidades ou retórica?






©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal