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  1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE


PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

COORDENAÇÃO DE PESQUISA



Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) - CNPq/UFS

Projeto de Pesquisa:


Representações sociais dos índios em Sergipe: Infra-humanização, racismo, sentimentos de culpa e solidariedade.


Relatório Final:

Representações Sociais dos Índios em Sergipe

Área de Concentração: Ciências Humanas/Psicologia Social

Código CNPq: Ciências Humanas 7.07.00.00-1 / Psicologia Social 7.07.05.00-3

Bolsista: Rodrigo de Sena e Silva Vieira


      1. Departamento de Psicologia


Matrícula: 04141634

Orientador: Professor Dr. Marcus Eugênio Oliveira Lima


      1. Responsável:

      2. Grupo de Pesquisa Normas Sociais, Estereótipos, Preconceitos e Racismo.


Departamento de Psicologia /UFS –salas 115-117, Didática 1.

http://gruponsepr.wordpress.com/




    1. RELATÓRIO FINAL


Janeiro /2007 – Julho /2007.

Este projeto foi desenvolvido com bolsa de iniciação científica

PIBIC/CNPq

São Cristóvão - SE

2007
Sumário:



  1. Resumo ............................................................................................................... 3

  2. Apresentação ...................................................................................................... 4

  3. Introdução .......................................................................................................... 5

  4. As representações sociais segundo Moscovici ................................................... 6

  5. As representações sociais: na interface da Sociologia-Psicologia ...................... 7

  6. Transformando o não-familiar em familiar e o familiar em não familiar: Funções das representações sociais ................................................................................... 9

  7. Os processos de ancoragem e objetivação ......................................................... 10

  8. Aculturação e mudança cultural de tribos indígenas no Brasil ......................... 11

  9. Representações sociais dos índios ..................................................................... 13

  10. Método

    1. Participantes ........................................................................................... 13

    2. Procedimentos e Instrumentos ............................................................... 14

  11. Resultados e discussão ....................................................................................... 14

  12. Considerações finais ......................................................................................... 19

  13. Referências ....................................................................................................... 21

  14. Anexos

    1. Anexo A: Termo de consentimento ....................................................... 22

    2. Anexo B: Roteiro de entrevista .............................................................. 23


1. Resumo

Neste trabalho, o grupo de pesquisa “NSEPR” estuda a representação social dos índios, o processo de infra-humanização, o racismo e os sentimentos de culpa e solidariedade. Este relatório diz respeito a uma investigação das representações sociais dos índios em nosso estado. Para isso, é feita uma breve discussão sobre o conceito de “representações sociais” e é referido um trabalho anterior sobre o tema. Os resultados obtidos mostram predominância da percepção dos índios através de figuras tradicionais, históricas ou mitificadas, o que se relaciona à situação de invisibilidade em que este grupo se encontra em nossa sociedade; além disso, é notável que em cidades onde há contato com os índios não há mudança significativa na formação das representações sociais.



Palavras-chave: índios, imagens, representação social.

2. Apresentação

Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da marginalidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria. (Darcy Ribeiro, 1996a, p. 120)
Os índios estão no Brasil antes do seu surgimento enquanto país, eles estão nos nossos livros de história, estão na história da nossa formação cultural, política e geográfica, na nossa língua, na nossa culinária, os índios estão em todas as regiões do país e mais que tudo isto eles estão na composição genética do nosso povo. Uma pesquisa feita pela UFMG em 1997 analisando o DNA dos brasileiros, demonstrou que 45 milhões de nós têm ascendência indígena. Por que então para a maioria dos brasileiros os índios são invisíveis? Por que raramente ou mesmo nunca nos sentimos “a mão possessa que os supliciou”? Por que tão perto biológica e geograficamente e tão longe em termos de identidade nacional?

O fotógrafo e antropólogo Siloé Soares de Amorim, estudioso dos índios do Brasil, apresenta um quadro compreensivo das ambivalências nacionais em relação ao índio. Parece que amamos ou aprendemos a cultuar um índio genérico, estereotipado, que anda nu e vive nas matas da Amazônia, ou seja, amamos o índio distante e improvável, o “índio total”. Os índios particulares e reais, ainda segundo Amorim (s/d), que transitam nas periferias urbanas, semi-urbanas, rurais; entre suas aldeias, a selva e as bancadas parlamentares, estes têm a difícil missão de criar paralelos entre seus espaços étnicos e o mundo que os rodeia, entre a imagem demandada por esses espaços sócio-politicos e a imagem visual que tentam construir com a finalidade de se auto-identificar e serem identificados. Nesse embate de “ressurgência”, “transfiguração” e “aculturação” os povos autóctones têm duas alternativas impostas pelos dominantes: mantêm-se “índios” nas matas para desocuparem os espaços sociais nacionais ou ocupam os espaços sociais, mas deixam de ser “índios”.

É nesse cenário complexo que habitam e são construídas as representações sociais dos índios no Brasil. É sobre esta temática que nos interessa compreender como são percebidos os índios por pessoas que vivem próximas e por outras que vivem distante deles e o que é um “índio” no imaginário social nacional?

No caso específico deste subprojeto de pesquisa procura-se investigar as representações sociais dos Índios em Sergipe e os sentimentos que ancoram essas representações. Interessa ainda analisar se essas representações são influenciadas pela presença próxima da única tribo do estado: os Xokós. Para tanto, coletamos dados nas cidades de Aracaju, Porto da Folha, Pão de Açúcar (AL)1, Estância, Itabaiana e Lagarto. Ainda que todos os bolsistas tenham participado de todas as fases da pesquisa, cada um deles ficou nas suas análises um elemento específico do objetivo geral. Neste relatório apresentamos as representações sociais dos índios encontradas no grupo pesquisado.


3. Introdução

Brasília, 20 de abril de 1997: cinco jovens de classe média ateiam fogo no índio Galdino de Jesus dos Santos, que dormia em um ponto de ônibus. Com 95% do corpo atingido pelas queimaduras, Galdino faleceu no dia seguinte. Este caso já foi largamente noticiado e discutido pela mídia e por diversos segmentos da sociedade ao longo dos 10 anos que se passaram. Os jovens cumpriram sentenças e obtiveram liberdade; o crime ainda é lembrado em atos públicos e relacionado a outros casos de violência urbana quando acontecem.

Do ocorrido, o que nos interessa atualmente são apenas algumas nuances. Primeiramente, uma justificativa “espontânea” dada por um dos autores do crime sobre, por assim dizer, o que os fez achar que poderiam fazer o que fizeram: eles haviam confundido a vítima com um mendigo. Num segundo momento, pode-se enfocar a decisão inicial tomada pela juíza Sandra de Santis, que a princípio tratava do caso: ela desqualificou o crime como homicídio doloso e o caracterizou como lesão corporal seguida de morte; em outras palavras, diminuiu a gravidade penal do caso, talvez convencida pelas alegações da defesa que afirmavam que os jovens não tinham a intenção de matar.

Não seria inconcebível considerar que, dentre os diversos focos de análise popular feitas sobre o ocorrido, muitos davam/dão conta de que os jovens estavam mentindo ao afirmar que confundiram o índio como um mendigo; já sobre a decisão inicial da juíza e sobre as alegações da defesa, certamente houve discussões enfocando a intenção ou não de cometer o crime.

Uma peculiaridade que claramente podemos extrair desses apontamentos é que, independentemente de os jovens terem causado repulsa em quase toda a sociedade, seus argumentos, embora refutados, chegaram a ser considerados. Ora, se Galdino fosse mesmo um mendigo, o crime seria brutal da mesma forma. De modo similar, a não intenção de matar não descarta o fato de os autores do crime terem julgado como aceitável ou divertida a “brincadeira” de atear fogo em um indivíduo.

Pelo que deram a entender os autores do crime, se o indivíduo queimado fosse um mendigo, o ocorrido passaria a ser aceitável. E ainda, por eles terem ateado fogo apenas com a intenção de fazer uma brincadeira, suas atitudes teriam sido menos aviltantes. Essa forma peculiar de encarar o outro está intimamente ligada à representação social que possuíam os jovens em relação à imagem de Galdino naquele instante. Ao vê-lo dormindo num ponto de ônibus em plena madrugada, encararam-no “como um mendigo”; a imagem de um mendigo, por sua vez, desdobra-se em uma cadeia de outras representações que levaram os indivíduos a se posicionar diante dele de uma forma específica – e tendo em vista a “brincadeira” de atear fogo que acabou ocorrendo, decerto não é incoerente inferir que a cadeia de representações talvez incluísse idéias de desprezo, infra-humanização ou similares.

Neste caso específico, entretanto, ainda pode ser adotada uma outra linha de interpretação: por ser índio, Galdino representa um grupo que está presente em nosso país desde seu surgimento, mas que atualmente parece ocupar uma posição de mero símbolo histórico no imaginário social; disto resulta uma invisibilização dos indígenas quando não estão de acordo com as características clássicas que são associadas àquele símbolo.

No fim das contas, não é possível apontar qual das interpretações propostas é a mais adequada. O importante é que, com este recorte, pode-se ter uma idéia da amplitude do conceito de representação social na Psicologia Social. Segundo Jodelet (1989), as representações sociais são responsáveis por regular a atividade mental desenvolvida pelos indivíduos e grupos para fixar suas posições em relação às situações, acontecimentos, objetos e comunicações que lhes dizem respeito. Isso pode ser claramente observado no caso citado quando as atitudes tomadas pelos jovens foram justificadas em função de referenciais que eles adquiriram em suas histórias de vida. As representações sociais seriam, portanto, a “lente subjetiva” através da qual os indivíduos enxergam o mundo, posicionando-se diante dele. Criam ideologias e são modeladas por outras já correntes, num processo sempre ativo de construção de conhecimentos práticos.

Neste relatório, será exposto um estudo sobre as representações sociais dos Índios no estado de Sergipe. Os índios são um grupo que, segundo estudos anteriores, ocupa uma posição de invisibilidade em nossa sociedade: as representações construídas sobre eles são influenciadas de forma marcante por referenciais históricos ou mitificados (Lima, Silva & Vieira, 2006). Sendo assim, a caracterização dos índios em função de referenciais clássicos ou antigos faz com que este grupo “desapareça” se essas raízes estereotípicas não houverem sido mantidas.

Antes do relato sobre o estudo que desenvolvemos, entretanto, faz-se necessária uma breve discussão sobre o conceito de “representações sociais” em Serge Moscovici, que o resgata junto à Sociologia clássica e o transforma em teoria, além de um breve delineamento sobre os processos de aculturação e mudança cultural por que passaram os índios.


4. As representações sociais segundo Moscovici

Em seu livro "Representações Sociais: Investigações em psicologia social", Moscovici (2003) fala sobre um fenômeno que levou o homem a diferentes processos de construção de conhecimento: "o medo instintivo de poderes que ele não pode controlar", que provoca "tentativas de poder compensar essa impotência imaginativamente”. (p. 29)

Para a superação desse suposto medo, grosso modo utilizaram-se, ao longo da história, duas perspectivas epistemológicas: uma delas diz respeito ao que pode ser chamado de "poder ilimitado da mente" e a outra, de “poder ilimitado dos objetos”.

De acordo com a perspectiva do poder ilimitado da mente, o pensamento age sobre os objetos, sendo estes uma réplica daquele; a outra, adotada pelo pensamento científico clássico, diz respeito ao "poder ilimitado dos objetos", ou seja, ao invés de o pensamento agir sobre a realidade, ele reage a ela.

Na filosofia, o que foi referido como “poder ilimitado da mente” também é chamado de idealismo, uma corrente filosófica que emergiu com advento da modernidade, com René Descartes e seu “cogito”, e em que a subjetividade é fundamental, uma vez que, com a proposta do primado do eu subjetivo, a oposição entre sujeito e objeto torna-se um incidente no interior do próprio eu. Isso se reflete no postulado básico de que “Eu sou Eu”, no sentido de que o “Eu é objeto para mim”.

Já a perspectiva do “poder ilimitado dos objetos” se traduz filosoficamente na corrente do realismo, surgida durante a Idade Média, e segundo a qual o objeto de conhecimento é independente do sujeito do conhecimento. É importante notar que o realismo não necessariamente significa uma oposição ao idealismo. Entre seus postulados está também o de que o conhecimento do objeto é diferente do objeto em si. A terminologia “realismo” é utilizada para frisar a possibilidade de existência do objeto (seja ele material, espiritual, etc) independentemente de se criar uma idéia sobre ele. (Wikipedia - Enciclopédia Online).

Constituindo duas formas de entendimento de um mesmo problema, estas duas perspectivas certamente representam aspectos relevantes na relação de nossos mundos externo e interno. A segunda, entretanto, revela-se mais adequada aos estudos de algumas vertentes da Psicologia Social, que pressupõem indivíduos reagindo a fenômenos, acontecimentos ou pessoas. Dessa forma, em que pesem os vieses cognitivos, as distorções subjetivas e as tendências afetivas, todas as nossas percepções e idéias são respostas ao ambiente em que vivemos. Contudo, existem fenômenos relevantes que não são englobados por essa perspectiva de pensamento como reação.

Inicialmente, é marcante a constatação de que, por vezes, não vemos, ou não somos capazes de ver, coisas que estão diante de nossos olhos. Isso ocorre devido a uma espécie de enviesamento de nossa percepção que pode não nos permitir enxergar, por exemplo, determinada classe de pessoas (os negros por alguns brancos ou os mais velhos pelos mais novos). O que resulta disso é uma invisibilidade de algo ou alguns que não se deve a falhas na visão de outros, mas à formação de uma realidade político-ideologicamente fragmentada, uma classificação de pessoas e coisas que faz algumas delas visíveis e torna outras invisíveis. É importante referir que tal fragmentação nem sempre é proposital, e pode ocorrer simplesmente devido a composições de espécies de repertórios conceituais ou perceptivos. (Moscovici, 2003).

Um outro fenômeno importante é o que tange a distinguirmos as aparências da realidade, ou seja, termos idéias formadas sobre determinadas coisas mesmo quando suas aparências reais não corroborem com elas. Fazemos essa distinção por podermos passar da aparência à realidade através de alguma noção ou imagem. Isso muitas vezes nos leva a perceber que alguns fatos que aceitamos sem discussão repentinamente transformam-se em ilusões. É o caso de nossas crenças passadas de que o Sol girava em torno da Terra. Hoje temos uma visão contrária a respeito disso, embora nossa percepção visual objetiva seja a mesma.

Uma terceira constatação, que está relacionada à primeira, é a de que nossas respostas aos estímulos que recebemos, ou seja, nossas reações aos acontecimentos ou nossos entendimentos de situações, estão diretamente relacionados a definições comuns a todos os membros de uma comunidade à qual pertencemos. Ou seja: nosso universo de possibilidades de entendimento das coisas está relacionado a definições previamente formadas e que se relacionam a fenômenos ou situações cuja codificação é partilhada por um coletivo. Sendo assim, se entrássemos numa determinada loja e víssemos pessoas com braços levantados, certamente teríamos o entendimento de que um assalto estaria se passando. (Moscovici, 2003).

Essas três proposições extrapolam a simples idéia inicial de que nós apenas reagimos a estímulos ou respondemos a situações, ou mesmo que os estímulos e objetos sejam meras construções mentais. De fato, ainda é aceitável considerar que façamos isso, mas estes são processos que são guiados por símbolos coletivos que dizem respeito a significações, convenções e afetos que são solidificados de forma não linear ou voluntária. Este é, em linhas gerais, o campo do fenômeno das representações sociais.

5. As representações sociais: na interface da Sociologia-Psicologia

O conceito de representações sociais iniciou-se com o sociólogo Émile Durkheim que, ao tratar do que ele chamava de representações coletivas, as via como artifícios explanatórios irredutíveis a qualquer análise posterior, ou seja, ele considerava sua existência, mas não achava relevante para estudo suas estruturas ou suas dinâmicas internas de funcionamento. É como se as representações sociais fossem encaradas como um conceito fechado (e não um fenômeno dinâmico) que abrange uma cadeia completa de formas intelectuais que inclui ciência, religião, mito, modalidades de tempo e espaço, etc. Dessa forma, qualquer tipo de idéia, emoção ou crença de uma comunidade estaria incluído e embasado num conceito único e geral. (Durkheim, 1970)

Embora não se descarte a visão durkeimiana, a posição da Psicologia Social a respeito das representações sociais é consideravelmente diferente. Em uma analogia, Moscovici define o campo das representações sociais da seguinte forma:
“Impressionisticamente, cada um de nós está obviamente cercado, tanto individualmente como coletivamente, por palavras, idéias e imagens que penetram nossos olhos, nossos ouvidos e nossa mente, quer queiramos quer não e que nos atingem, sem que o saibamos, do mesmo modo que milhares de mensagens enviadas por ondas eletromagnéticas circulam no ar sem que as vejamos e se tornam palavras em um receptor de telefone, ou se tornam imagens na tela da televisão.” (2003, p. 33).
Ele argumenta, entretanto, que esta não é uma analogia perfeita, e que se faz necessário frisar que as representações sociais possuem precisamente duas funções: a de convencionalizar os objetos, ou seja, a de adequá-los em categorias de entendimento pré-formuladas; e a de prescrever, ou seja, funcionam como uma estrutura que está presente antes mesmo que nós comecemos a pensar e como uma tradição que decreta o que deve ser pensado. Essas características serão suficientemente discutidas adiante.

Ainda analisando a visão da Psicologia Social a respeito das representações sociais, pode-se destacar que sobressai uma maior preocupação com o conteúdo e a dinâmica das representações, ou seja, há interesse em como elas acontecem, quais são elas e em que situações são suscitadas. Isso caracteriza um interesse mais específico sobre os efeitos do fenômeno em diferentes contextos – ao contrário da visão sociológica clássica, que propõe um “adensamento” geral de conceitos. Há interesse também no conjunto de relações e comportamentos que surgem e desaparecem junto com as representações, algo que está intimamente ligado ao caráter dinâmico que lhes é atribuído. Sendo assim, é correto afirmar que, na visão de Moscovici, as representações sociais dizem respeito a experiências passadas de uma comunidade, mas podem ser modificadas por experiências presentes de indivíduos desta em circunstâncias que forcem um conflito entre a visão corrente e novas possibilidades de entendimento.

Além disso, outro fator característico da visão da Psicologia Social sobre o tema é a consideração de que elas podem ser vistas como uma maneira específica de compreender e de comunicar algo que já sabemos. Servem, então, para abstrair sentido do mundo e introduzir nele ordem, igualando toda imagem a uma idéia e toda idéia a uma imagem2.

Para melhor caracterizar essa proposição, é possível ampliar o exemplo do assalto citado anteriormente: como nossas reações a fenômenos ou a acontecimentos estão relacionadas a definições em comum aos membros de comunidades a que pertencemos, seria natural a decodificação de vermos clientes numa loja com braços levantados como um assalto. Mas as representações sociais podem ir além dessa decodificação objetiva. Como produtoras de sentido a coisas que já conhecemos, elas também permitem que entendamos situações de significado mais abstrato ou afetivo como, por exemplo, o valor ou significado emocional dado a uma celebração ou a uma dança em determinada comunidade, assim como a objetos envolvidos em tais acontecimentos. Este tipo valoração pode ser bem observado em algumas tribos indígenas, que possuem rituais cuja explicação não pode ser dada apenas com base em definições conceituais, mas “absorvidas” a partir da vivência num âmbito cultural. São rituais que geralmente dizem respeito a tradições e que são mantidos através do tempo.

Como se vê, estas são significações que ultrapassam as simples denotações de objetos e situações, e que dizem respeito a algo socialmente compartilhado, mas não necessariamente de forma explícita ou direta. O campo das representações sociais, portanto, diz respeito à “familiarização” com determinados fenômenos, atuando na transformação do não-familiar em familiar.
6. Transformando o não-familiar em familiar e o familiar em não familiar: Funções das representações sociais.

Durante nosso dia-a-dia, estamos cercados por algo que se pode chamar de “atmosfera” das representações sociais. Com isso, entendemos as pessoas e os acontecimentos em nossa volta através de lógicas pré-formuladas que influenciam também os outros membros dos grupos a que pertencemos. Estas lógicas possibilitam-nos enquadrar nossas experiências em nosso entendimento da forma mais simples possível, de modo que mantemos a predominância desses esquemas de interpretação. E quando nos deparamos com algo aparentemente incomum ou desconhecido, temos uma forte tendência a criar uma compreensão sobre tal fenômeno que nos faça enxergá-lo de acordo com nossa bagagem anterior de conhecimento. Está caracterizada, dessa forma, a finalidade maior de todas as representações sociais: tornar familiar algo não-familiar.

Retratando essa nossa tendência, Moscovici propõe que:
“Em seu todo, a dinâmica das relações é uma dinâmica de familiarização, onde os objetos, pessoas e acontecimentos são percebidos e compreendidos em relação a prévios encontros e paradigmas. Como resultado disso, a memória prevalece sobre a dedução, o passado sobre o presente, a resposta sobre o estímulo e as imagens sobre a ‘realidade’.” (2003, p. 55).
É interessante imaginar que a caracterização do “diferente” baseada em paradigmas passados pode, com efeito, atuar de forma a torná-lo, enquanto diferente, invisível, pois sua caracterização se daria de acordo com esquemas do “igual”. Este é um fenômeno que pode ser observado na visão que se tem a respeito dos índios no Brasil atual. Ainda lembrados através de sua figura histórica mitificada, os membros desse grupo que não possuem as características que estão de acordo com o estereótipo criado para eles podem acabar sofrendo um processo de invisibilização, como se não fossem mais o que de fato são.

Moscovici propõe então que o confronto direto com o não-familiar só se dá em algum tipo de ocorrência em que as diferenças emergem de forma concreta, numa situação que impedisse um indivíduo de reagir como ele reagiria diante de um padrão usual. Como exemplo disso são apontados os doentes mentais ou pessoas de culturas muito diferentes às nossas, pois eles são como nós, mas ao mesmo tempo não são como nós. Em contato com estes, temos a materialização de algo que antes caracterizávamos de forma imaginativa, mas que agora se apresentam tais como são.

Essa presença de algo ausente, também chamada de “exatidão relativa”, é o que caracteriza a não-familiaridade. Esse confronto tende a ameaçar-nos de perder nossos marcos referenciais, ou seja, aquilo que nos possibilita ter um sentido de continuidade e compreensão sobre as coisas. É por isso que quando a alteridade se apresenta de forma não exatamente igual ao que “deveria ser”, podemos instintivamente rejeitá-la, pois ameaça uma ordem pré-estabelecida. Nestes casos ocorre o que se pode chamar de “re-apresentação”, ou seja, uma separação de conceitos e percepções que inicialmente estariam ligados, e pela colocação destes num contexto onde o que é incomum se torna comum ou familiar.

Ao considerarmos situações como estas, pode haver uma tendência ao entendimento de que nossas representações anteriores são sempre tão fortes a ponto de não percebermos algumas discrepâncias ou até inconsistências em nossas formas de entendimento. Desenvolvendo a argumentação de Moscovici, percebemos que isso não necessariamente ocorre. Mas embora possamos ter a capacidade de perceber tais discrepâncias ou inconsistências, nossas representações apresentam-se sempre de forma quase irresistível como arcabouço interpretativo que possuímos. Com isso, as imagens e idéias que utilizamos para perceber o não-usual podem estar, em oposição, apenas trazendo-nos de volta a algo que já conhecíamos e com o que já estamos familiarizados e, por isso, podemos ter a sensação de algo já visto (déjà vu) e já conhecido (déjà connu).

Pode-se perceber que tornar familiar o não-familiar, função básica das representações sociais, é um fenômeno bastante comum. Ele ocorre, via de regra, através de dois outros processos que atuam na formação das representações, a saber, a ancoragem e a objetivação.

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