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  1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE


PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

COORDENAÇÃO DE PESQUISA




Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) - CNPq/UFS

Projeto de Pesquisa:


Representações sociais dos índios em Sergipe: Infra-humanização, racismo, sentimentos de culpa e solidariedade.


Relatório Parcial:



Representações sociais e sentimentos: O papel dos sentimentos nas imagens construídas sobre os índios em Sergipe
Área de Concentração: Ciências Humanas/Psicologia Social

Código CNPq: Ciências Humanas 7.07.00.00-1 / Psicologia Social 7.07.05.00-3


Bolsista: Denise de Souza Silva


      1. Departamento de Psicologia


Matrícula: 03141722


      1. Orientador: Prof. Dr. Marcus Eugênio Oliveira Lima


Departamento de Psicologia

Centro de Educação e Ciências Humanas



    1. RELATÓRIO FINAL


Janeiro/2007 - Agosto/2007

Este projeto foi desenvolvido com bolsa de iniciação científica

PIBIC/COPES

São Cristóvão - SE

2007
SUMÁRIO

RESUMO.........................................................................................................................3

INTRODUÇÃO...............................................................................................................4


  1. SENTIMENTOS E PRECONCEITO.....................................................................5

  2. MÉTODO...................................................................................................................9

Sujeitos..............................................................................................................................9

Procedimentos e Instrumento..........................................................................................10



  1. RESULTADOS E DISCUSSÕES..........................................................................10

  2. CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................17

  3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................19

ANEXOS........................................................................................................................20

Anexo A: Termo de Consentimento Informado..............................................................20

Anexo B: Roteiro de entrevista.......................................................................................21

RESUMO
No Brasil estima-se que ainda haja cerca de 220 povos indígenas totalizando cerca de 370 mil indivíduos distribuídos em aldeias situadas no interior do território nacional. Este grupo tem reaparecido no cenário social, depois de um período longo de exclusão despertando atitudes étnicas específicas para com este, das quais os sentimentos são constitutivos. Esta pesquisa visou estudar a relação entre as imagens sociais que os moradores das cidades de Estância, Itabaiana, Lagarto, Porto da Folha, Aracaju, (cidades Sergipanas) e Pão de açúcar, (interior Alagoano) e os sentimentos que estes possuem em relação aos índios. Os resultados demonstram que imagens e sentimentos possuem uma relação muito íntima no que se refere às relações intergrupais entre os índios e as cidades estudadas.
Palavras-chave: representações sociais, índios e sentimentos.

Introdução
Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da marginalidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria. (Darcy Ribeiro, 1996a, p. 120)

Os índios estão no Brasil antes do seu surgimento enquanto país, eles estão nos nossos livros de história, estão na história da nossa formação cultural, política e geográfica, na nossa língua, na nossa culinária, os índios estão em todas as regiões do país e mais que tudo isto eles estão na composição genética do nosso povo. Uma pesquisa feita pela UFMG em 1997 analisando o DNA dos brasileiros, demonstrou que 45 milhões de nós temos ascendência indígena. Por que então para a maioria dos brasileiros os índios são invisíveis? Por que raramente ou mesmo nunca nos sentimos “a mão possessa que os supliciou”? Por que tão perto biológica e geograficamente e tão longe em termos de identidade nacional?

O fotógrafo e antropólogo Siloé Soares de Amorim, estudioso dos índios do Brasil, apresenta um quadro compreensivo das ambivalências nacionais em relação ao índio. Parece que amamos ou aprendemos a cultuar um índio genérico, estereotipado, que anda nu e vive nas matas da Amazônia, ou seja, amamos o índio distante e improvável, o “índio total”. Os índios particulares e reais, ainda segundo Amorim (s/d), que transitam nas periferias urbanas, semi-urbanas, rurais; entre suas aldeias, a selva e as bancadas parlamentares, estes têm a difícil missão de criar paralelos entre seus espaços étnicos e o mundo que os rodeia, entre a imagem demandada por esses espaços sócio-politicos e a imagem visual que tentam construir com a finalidade de se auto-identificar e serem identificados. Nesse embate de “ressurgência”, “transfiguração” e “aculturação” os povos autóctones têm duas alternativas impostas pelos dominantes: mantêm-se “índios” nas matas para desocuparem os espaços sociais nacionais ou ocupam os espaços sociais, mas deixam de ser “índios”.

É nesse cenário complexo que habitam e são construídas as representações sociais dos índios no Brasil. É sobre esta temática que nos interessa compreender como são percebidos os índios por pessoas que vivem próximas e por outras que vivem distante deles e o que é um “índio” no imaginário social nacional?

Este relatório de pesquisa se insere num projeto mais amplo que investiga as representações sociais dos índios em Sergipe. Embora todos os bolsistas tenham participado de todas as fases da pesquisa, cada um deles ficou nas suas análises um elemento específico do objetivo geral. Neste relatório especificamente analisaremos os sentimentos e emoções envolvidas nas representações sociais construídas sobre os índios. Os dados foram coletados nas cidades de Aracaju, Porto da Folha, Pão de Açúcar (AL)1, Estância, Itabaiana e Lagarto.



  1. Sentimentos e Relações Intergrupais

Sentimento é um termo comumente utilizado no cotidiano que possui diversos significados. Abbagnano (1998) no dicionário de filosofia o define como o mesmo que emoção ou pressentimento, ou seja, algo que não se pode explicar em algum momento. Pode significar também uma fonte de emoções, uma “faculdade ou órgão que preside as emoções e da qual elas dependem, ou como categoria na qual elas se enquadram” (Abbagnano, 1998; pág.874).

Este conceito no entanto é tratado desde a filosofia clássica, já sendo apontado como componente do ser humano, embora esta não o coloque como fonte dos afetos e emoções, bem como não é estudado pela mesma para classificar e organizar as afeições da alma. É a partir da filosofia moderna que o sentimento passa a ser uma categoria distinta e até oposta da categoria de razão, pois somente a partir do reconhecimento de uma subjetividade humana como algo irredutível a um conjunto de elementos objetivos ou objetiváveis que é possível colocar o sentimento como fonte de princípio autônomo das emoções. Esta é uma contribuição do cartesianismo que possibilita também a aproximação do sentimento do coração, bem como do gosto, em contraposição radical à razão, colocando-os, inclusive, em órgãos diferentes.

Kant foi o primeiro filósofo a incluir o sentimento nas faculdades espirituais. Ele aponta para a existência de três atividades fundamentais do espírito humano, a saber: conhecimento, volição e sentimento. Essas três faculdades são os princípios fundamentais que não poderiam ser reduzidos a nenhum outro em comum. Para Kant, sentimento é o aspecto subjetivo da representação que não pode tornar-se artigo do conhecimento. Assim, o sentimento ingressa oficialmente na filosofia como categoria independente.

O romantismo também tem uma contribuição muito relevante para a exaltação do sentimento, enquanto algo que é próprio da intimidade da alma, ou seja, o sentimento como a forma mais íntima e mais livre, ao mesmo tempo, da vida espiritual. Como descreve Abbagnano (1998; pág.876), “é a manifestação do infinito, de Deus, à intimidade da consciência”.

Outra corrente do romantismo, o Romantismo oitocentista, também não ficou alheia à exaltação do sentimento. Comte, representante desta corrente, afirma que no futuro as mulheres teriam um papel mais importante dentro do regime sociocrático, pois estas representariam o elemento afetivo do gênero humano. Independente do romantismo, o sentimento foi e continua sendo aceito como categoria fundamental da vida espiritual. Assim, na filosofia contemporânea essa tripartição (conhecimento, desejo e sentimento) se manteve e é ainda mais difundida, incorporando-se inclusive no modo de pensar comum.

Nesta concepção, o sentimento possui objetos e leis próprios, fazendo com que constitua um mundo diferente do racional. Neste sentido, pode-se diferenciar o sentimento dos estados emocionais simples que não têm caráter intencional, pois ele é uma reação particular ao estado emocional e consiste nas atitudes mutáveis e variáveis assumidas diante do estado emotivo. O sentimento puro consistiria, então, nas reações do eu a tal estado emotivo e estaria entre as funções destinadas a apreender um conteúdo, se referindo, portanto, a um objeto especifico, que é um valor. Valor e sentimento têm uma relação direta, logo, é uma conexão intencional2, que independe da causalidade psíquica individual. A psicologia reconhece o papel do sentimento no comportamento vital do organismo, bem como o considera como arraigado à substância humana. Para Heidegger, por exemplo, a situação afetiva ou o tom emocional é uma manifestação essencial do ser do homem no mundo.

O que dá acesso a um mundo de objetos que participam da realidade é o sentimento; e embora esses objetos não sejam tão palpáveis quanto as coisas ou os fatos, são aos valores que o sentimento está dirigido em sua intencionalidade, enquanto realidades últimas e absolutas. É o sentimento a sede principal na qual se dão os valores. E estes valores permeiam todo e qualquer tipo de relação social. Eles se relacionam intimamente com as concepções de desejável criadas e consolidadas nestas mesmas relações tanto a nível interpessoal quanto a um nível mais macro que envolveria toda a coletividade.

Os sentimentos então se dirigem para os fatos, pessoas ou coisas o que o aproxima das emoções que é um impulso neural que move as pessoas em um determinado momento. Neste sentido, Brewer e Alexander (2002) em seu estudo “Intergroup emotions and images” estendem o estudo das emoções para o contexto intergrupal, no qual há forças que interagem determinando o comportamento dos sujeitos em relação ao “outgroup” quando uma identidade social particular está saliente. Essas forças dizem respeito tanto à conjuntura social na qual se dão as relações quanto às emoções que um sujeito experimenta nestas relações de acordo tanto com suas avaliações sobre os outros, como de acordo com as avaliações que seu grupo de pertença tem dos demais grupos.

As avaliações cognitivas que os indivíduos fazem nos contextos intergrupais evocam experiências emocionais distintas segundo estes autores que levariam a tendências de comportamentos específicos direcionados ao outro grupo. As respostas emocionais negativas, como raiva e medo, podem ser, por exemplo, definidas pelo valor do conflito em que estão os grupos. E o grau em que eles serão sentidos seria definido pela avaliação do grupo de pertença. As atitudes intergrupais então estariam sendo definidas pela avaliação do “outgroup” em relação ao “ingroup”.

Os indivíduos usam como forma de avaliação as imagens sociais construídas sobre os grupos . Essas imagens são definidas por Boulding (1956,1959 apud Brewer & Alexander, 2002) neste contexto como estrutura avaliativa, cognitiva e emocional. As imagens segundo este autor estão mais relacionadas a uma característica marcante do que a imagem total de um indivíduo. Neste sentido, nas relações de conflito intergrupal em que valores extremos permeiam estas relações, são as emoções que determinam a orientação do comportamento em relação ao outgroup e a imagem que se faz do mesmo.

Essas imagens teriam como objetivo eliminar o sentimento de ameaça que é gerado pela relação de conflito. Nas diferentes configurações intergrupais de conflito podem aparecer de maneira geral cinco imagens que estariam de acordo com a relação estabelecida (Brewer & Alexander, 2002), são elas: inimigo, quando o outro grupo possui um status similar de força ou fraqueza; aliado, quando as relações intergrupais são positivas, o que facilita a cooperação entre os grupos; bárbaro, quando existe uma diferença de poder e status entre os grupos na qual o ingroup possui maior status cultural e o “outgroup” é percebido como invasor e uma ameaça; dependente, quando o outgroup é definido como vulnerável e inapto o que justificaria a assimetria de poder e status entre os grupos e o domínio de um grupo sobre outro; imperialista, o outgroup é percebido como explorador, dominador e que quer controlar o grupo do indivíduo, sendo que alguns membros de seu grupo se vendem ao “outgroup” tornando-se agentes do imperialismo.

Neste sentido podemos dizer que a maneira como se estruturou a relação entre os grupos sociais brasileiros nos ajuda a entender a atual imagem socialmente compartilhada dos índios. Este grupo que coexiste e se relaciona com os demais, e que atualmente está bastante miscigenado, é apresentado pelo grupo dominante com particularidades bastante específicas, atribuindo-lhe uma imagem peculiar. Como aponta Mollica (2002) desde o século XVI a imagem formada sobre os índios passa por diversas mudanças que convergem com a versão histórica que se apresenta em cada momento, o que estaria intimamente relacionado com as emoções e atitudes direcionadas a este grupo.

As atitudes étnicas podem ser definidas como uma disposição para experenciar certas emoções quando em contato com membros das minorias, assim, atitudes como o preconceito segundo Dijker (1999), são disposições afetivas. O contato com um membro da minoria seria percebido como uma ameaça a seu espaço social e isto causaria no sujeito um desprazer. Para aliviar tal incômodo seria necessário a um membro da maioria produzir um estereotipo. Este seria a justificativa racional para estes sentimentos de ansiedade e incerteza, servindo para atribuir significados negativos e específicos ao estranho.

O Preconceito pode ser definido como um conceito ou opinião pré-concebida e arbitrária sobre um grupo ou pessoa que implica, geralmente, em uma atitude desfavorável ou hostil para com as pessoas que pertencem a um grupo social ou cultural diferente. Geralmente esta atitude é mantida por um grupo étnico dominante e se direciona para uma minoria3 dentro da mesma sociedade, o que propiciaria diferentes e múltiplos tipos de discriminação. Este conceito é formulado e ratificado a partir das relações sociais, ainda que esse processo não se dê necessariamente a nível consciente e racional. Dijker (1999), considera que, na presença de grupos minoritários, os membros do grupo dominante apresentam um tipo de reação emocional e elaboram uma razão para a mesma. Allport (1954) (apud, Dijker, 1999) afirma que por trás do preconceito há uma emoção que é difusa e supergeneralizada e que satura o objeto.

O preconceito e o racismo contra índios e negros, reconhecidos como grupos minoritários, está inserido nessa lógica de dominação em que os indivíduos são diferenciados pela pertença a um grupo social e sobre ele incide categorizações que o coloca numa posição de inferioridade sobre os demais. Essa categoria de inferior se expande desde a esfera micro das relações interpessoais até a esfera macro em que se propaga como típicas de um grupo características como violentos, sujos, preguiçosos e etc. considerados valores socialmente negativos.

Os fatos históricos como a Carta dos Direitos do homem (1948), a Declaração da UNESCO sobre a raça (1950), a luta dos negros americanos e etc, criaram uma dinâmica que tornou, de modo progressivo, ilegal a discriminação racial e socialmente antinormativa as crenças racistas. Entretanto, as crenças negativas sobre os grupos racializados ou culturalmente diferentes ainda permanecem e são expressas tanto de maneira flagrante, quanto de maneira sutil na sociedade moderna. Existem três vetores que são fundamentais no preconceito flagrante. O primeiro é a crença de que existem raças humanas hierarquizadas, ou seja, uma raça é superior à outra. O segundo é que as pessoas de uma outra raça ou culturalmente diferentes constituem uma ameaça ao plano econômico. E a terceiro vetor é a crença de que estas pessoas constituem uma ameaça à segurança dos cidadãos da sociedade que os acolheu.

O traço da inferiorização de um povo ou cultura que suscita a crença de que estas pessoas não mereceriam apoio do sistema social e também de que a natureza destes por serem inferiores arrastaria-os para a conflitualidade e para comportamentos ilegais, constituindo uma ameaça à segurança. Contudo as atitudes raciais são ambivalentes, podendo conviver, por exemplo, atitudes discriminatórias flagrantes com uma orientação para a solidariedade, ambas relacionadas ao mesmo grupo. Katz e Hass (1988) (apud Vala, Lima & Lopes, 2003) mostraram que as atitudes racistas são complexas e integram um misto de rejeição de solidariedade. No entanto as raízes da solidariedade podem ser diferentes das raízes da discriminação e não haver interação entre essas duas atitudes, bem como oposição direta entre elas. Essa é uma característica própria da modernidade que possui valores ambivalentes que co-existem e que funcionam como mantenedores da mesma. A exemplo disto podemos citar o individualismo meritocrático e o igualitarismo.

Os valores igualitários e os valores individualistas se encontram significativamente relacionados com o preconceito. Isto é demonstrado em uma pesquisa realizada por Vala, Lima e Lopes (2003) que demonstra que os valores do igualitarismo, quer estejam associados ao pós-materialismo, quer associado a uma visão política de esquerda liberal, constituem freio ao preconceito e facilitam a expressão da solidariedade.

Em contrapartida as atitudes étnicas negativas podem emergir os sentimentos de culpa e solidariedade. Esta pode ser definida como um “laço ou vínculo recíproco de pessoas ou coisas independentes; adesão ou apoio à causa, empresa, princípio, etc., de outrem; sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses e às responsabilidades dum grupo social, duma nação, ou da própria humanidade; relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar o(s) outro(s): solidariedade de classe; sentimento de quem é solidário; dependência recíproca”. (Dicionário Eletrônico, 1995).

Nas ciências sociais o vocábulo solidariedade aparece como uma relação entre indivíduo e sociedade. Para Durkheim (Delicado, 2003), ela pode ser dividida em dois tipos – mecânica e orgânica - que se relacionam diretamente com o tipo de sociedade em que aparece. A solidariedade mecânica está presente nas sociedades primitivas, nas quais os indivíduos pouco diferem uns dos outros. Em contrapartida, a solidariedade orgânica está presente nas sociedades modernas, em que a coerência social é assegurada pelas diferentes funções dos indivíduos. (Delicado, 2003).

A solidariedade pode ser entendida neste contexto como um fenômeno histórico-cultural, posto que as relações desiguais na sociedade são construídas do mesmo modo que as expressões solidárias, que existem para, de algum modo, tornar menos flagrante tal desnível de oportunidades entre dominantes e dominados. Essas ações não modificam as estruturas sociais e, portanto mantém as diferenças sem estimular os indivíduos a se tornarem agentes e modificadores de sua condição. Seu papel curativo temporário reproduz a lógica do individualismo, segundo a qual, as minorias não alcançam a mesma posição que a classe dominante por que não tem capacidade para isso. Deste modo, Demo (2002) apresenta um novo significado para o verbete solidariedade e chama de sociedade solidária aquela que distingue solidariedade como direito de emancipação dos outros e solidariedade como efeito de poder, pois entende que as manifestações solidárias, na maioria das vezes, são ligadas ao auto-interesse, ou seja, mantêm o mutualismo como subproduto, não como fim em si.

Coloca-se aqui um desafio às propostas solidárias – o que Harding (1998) chamou de standpoint epistemology – sejam elas de âmbito individual ou coletivo, a saber, respeitar o ponto de vista de outra cultura, ou seja, tentar entender o outro partindo do próprio outro, inserindo-o numa relação entre sujeitos, sem pré-estabelecer o outro como um objeto sobre o qual se lança um olhar. A solidariedade autêntica não estaria a serviço de um poder, mas partiria de uma visão crítica da situação concreta dos grupos marginalizados, possibilitando a estes uma emancipação autônoma. A solidariedade precisaria de autocrítica, devido à sua ambigüidade e à sua enorme propensão em submeter-se a efeitos de poder. Opressor e oprimido participam da manutenção desta lógica e perpetuam tal modo de funcionamento da sociedade. Por este motivo, Demo propõe que não apenas se confronte o opressor, mas que se possa incluí-lo no projeto emancipatório – ser solidário com os não solidários.

O sentimento de culpa refere-se a um sentimento experimentado por alguém por ter violado algum princípio. Ela causa um ódio de si mesmo, mas não é um sentimento eminentemente interno. Este sentimento precisa ser aprendido através das relações sociais, é o olhar do outro que ensina a norma do certo e do errado, ou seja, a experiência da culpa depende do meio social em que o sujeito está inserido. O sentimento de culpa aparece depois de uma avaliação dos comportamentos do sujeito. Do ponto de vista psicanalítico, a base deste sentimento é a frustração. Esta é causada pela distância entre a imagem criada pelo superego e o que não fomos. No âmbito do direito civil, a culpa faz “referência ao devedor de uma obrigação, consiste na omissão daquela diligência exigida pela natureza da obrigação e que corresponde às circunstâncias das pessoas, da época e do lugar” (Enciclopédia Microsoft Encarta, 2001).





  1. Método


Participantes

Nosso estudo foi constituído a partir de um roteiro de entrevista semi-estruturada aplicado com 378 moradores de 6 cidades (Estância 58 entrevistados; Itabaiana 54 entrevistados; Lagarto 53 entrevistados; Pão de Açúcar 54 entrevistados, Porto da Folha 50 entrevistados e Aracaju 129 entrevistados), destas 6 cidades quatro são do interior sergipano, uma é capital deste Estado e uma fica no estado de Alagoas, porém na divisa com uma comunidade indígena do sertão sergipano, a saber, a tribo Xokó da Ilha de São Pedro em Porto da Folha/SE. Os entrevistados são em sua maioria mulheres (57,8%) e têm idades variando de 16 a 83 anos (Média = 34,6 anos, Desvio Padrão = 15,07), com renda familiar mensal que variou de menos de 1 salário mínimo (9,8%) até mais de 9 salários (12,0%), sendo a faixa de renda mais freqüente a compreendida entre 1 e 2 salários com 43,5% das respostas. A escolaridade dos entrevistados variou de analfabeto (12 respostas) até nível superior completo (10 pessoas); sendo que a maioria dos entrevistados (31,9%) possui ensino médio completo. Dos 378 entrevistados 85 disseram ter parentes indígenas e 281 disseram não ter ou não saberem se tinham, sendo que 12 pessoas não responderam a esse questionamento.

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