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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Instituto de Filosofia e Ciências Sociais

Laboratório de História Ambiental


Monografia de fim de curso


É da roça!

História Ambiental dos caiçaras da Península da Juatinga/RJ e sua relação com a conservação da natureza.

Tainá Miê Seto Soares

DRE101142254

Orientador: José Augusto Pádua

Novembro de 2006





No lugar que havia mata,

hoje há perseguição.

Grileiro mata posseiro,

Só pra lhe roubar seu chão.

(...)

Zé da Nana tá de prova,

naquele lugar tem cova
Gente enterrada no chão
:1

Dedico esse trabalho ao meu pai matuto, Antonio Castor, que desde cedo me levou pelos caminhos das matas e das histórias dos antigos da roça. E a minha mãe Célia, que me ensinou a amar os matutos, em suas intermináveis conversas nos povoados de nossas viagens.

Agradecimentos:

São tantos agradecimentos desse tão simples texto, que como monografia mais parece um projeto de vida. Anos se passaram desde o dia em que conversando com Seu Maneco, veio a primeira idéia de fazer algum trabalho sobre os caiçaras e sua terra. Descobri que era pra mim tão prazeroso escrever sobre os caiçaras, que não conseguia terminar, inventando sempre uma correção ou reflexão. Foram tantas pessoas envolvidas nesse trabalho, que realmente há muito, este transcendeu seu viés acadêmico, sem deixar de respeitá-lo.

Agradeço por ordem de chegada no projeto, porque todos foram fundamentais. Então começo pelo Seu Maneco, da Praia do Martim de Sá, que me mostrou um universo de luta ambiental que até então não conhecia de perto, a luta das populações tradicionais. Agradeço a querida amiga Tadzia Maya, que foi quem me mostrou que não poderia ser outro o assunto de minha monografia final. À Paloma Sol Hertz, Marcelo Bueno e Carolina Carvalho, que me acompanharam na longa trilha de 10 dias na pesquisa de campo, pois sem eles não haveria material nenhum.

Ao Bruno Pacheco de Oliveira, que além de editar meu documentário sobre os caiçaras, foi um apoio emocional sem o qual teria desistido do projeto. Também agradeço ao João Pacheco de Oliveira Filho, que na parte da história indígena foi um incentivador, num momento em que achava já que este era um tema proibido. Agradeço também a Mariza Carvalho Soares, que me emprestou sem me conhecer pessoalmente, sua câmera mini-dv nova, com a qual terminei as filmagens.

Agradeço a todos os caiçaras da Península da Juatinga, que me levaram em seus barcos, me ofereceram suas casas, me contaram muitas histórias e que com o tempo se tornaram grandes amigos. Seu Altamiro, Dona Jandira, Dona Maria, Dona Dica, Seu Filhinho, aos jovens da Praia Grande, Dona Tetéia do Pouso, que foi como uma mãe pra mim, ao Gilson, grande contador de causos e seus amigos Às crianças do Pouso, a maravilhosa família do Careca e da Dona Maria da Ponta da Juatinga, seus filhos que me contaram muitas histórias de assombração, Seu Olímpio, um sábio caiçara e seus vários feijões. Seu Aplígio do Cairuçu das Pedras, o França cesteiro, seu irmão Jango, Seu Domingo da Ponta Negra, Seu Nelson, Dona Dilma, agradeço com muito amor à todas as comunidades e à todos os entrevistados. Com eles aprendi muitas coisas, como prever o tempo através das estrelas, fazer peixe com banana e o gosto do macucu, mas também aprendi infinitas coisas que não conseguem ser expressas com palavras e que mudaram muitas maneiras de me relacionar e ver o mundo.

Às pessoas da ONG Verde Cidadania, que sempre foram muito parceiras, e que me explicaram exaustivamente os detalhes das leis, dos processos e de seu relacionamento com a comunidade. Agradeço também pelo exemplo de luta da Thati, da Flavinha, do Léo, do Marcio e do Manuel, que sempre me apoiaram muito. Agradeço também à Dani, a Laura, ao Martim e à Lucia Cavalieri que também foram muito importantes no aprofundamento das questões pesquisadas.

Agradeço muito aos meus avós, aos meus amigos e irmãos que dividiram comigo as aventuras e questionamentos dessa pesquisa; o Carlos Henrique me ajudando a datilografar, o Kenzo me ajudando a diagramar, a Ádjoa repassando às organizações internacionais os protestos caiçaras. Meus amigos foram as vigas que me sustentaram durante todo esse difícil processo de estudar a luta política de uma cultura que depende de seu ambiente para sobreviver enquanto povo caiçara. Entraram nas lutas e estamos formulando juntos novas propostas para um relacionamento mais harmônico entre urbanidade e conhecimento tradicional na Península da Juatinga.

À Leila Maria Capella, que me ajudou na organização mental e física do texto e a quem devo muito a conclusão do trabalho.

Por fim agradeço muito ao meu orientador, José Augusto Pádua, que com o início de seu Laboratório de História Ambiental, me proporcionou continuar na graduação sem ter que me transferir para outro curso que levasse mais em conta o ambiente e suas interações com os homens. Agradeço também pela sua paciência e perseverança em me ouvir e compreender.

Espero que toda essa pesquisa possa contribuir para a rede de trabalhos que recentemente vem estudando e se relacionando com comunidades tradicionais e seus ambientes e que buscam uma interação mais viva entre a academia e as comunidades pesquisadas.


Índice:


Introdução teórico metodológica.......................................................................... 06

Capítulo I - A região, o homem e a natureza............................................. 27

Capítulo II - A vida caiçara e sua herança indígena................................... 45

Capítulo III - Ambiente e resistência: memória ambiental, segurança

alimentar, turismo e luta pela terra.......................................... 66
Conclusão ........................................................................................................... 86

Introdução Teórico Metodológica


“A História Ambiental está se convertendo em uma disciplina aplicada que, rompendo com a impronta academicista e eruditos que sempre tiveram os relatos históricos; busca e propõe soluções para a crise ambiental atual ou coopera com outras disciplinas para encontrá-las.”2

O tema desta pesquisa é a história das relações estabelecidas entre a população caiçara da Península da Juatinga e o meio ambiente em que vivem. A Península da Juatinga é uma região litorânea de difícil acesso, na divisa entre os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo. É interessante observar que, nessa região, são os processos históricos que fazem com que, além de um raro ecossistema de mata atlântica conservado, se encontre uma expressiva cultura local.

Para a História Ambiental, essa região apresenta diversas características de interesse: além das práticas comunitárias de origem indígena e a luta pela posse da terra, existe a questão da área ser uma Reserva Ecológica e uma Área de Proteção Ambiental. As formas de interação homem-natureza são o ponto de partida para a análise histórica da vida caiçara.



A Praia Grande da Cajaíba é hoje o principal foco de conflito entre caiçaras e grileiros.


A História Ambiental a partir da década de 70, quando começou a se estruturar como campo de pesquisa acadêmica já contava com uma bibliografia. Esta apesar de não ter essa nomenclatura, já trabalhava através da perspectiva da relação homem-natureza. Os viajantes naturalistas, as pesquisas modernistas sobre cultura popular e tantos outros pesquisadores como Sérgio Buarque de Hollanda, Antônio Cândido e Gilberto Freire.

Na América Latina vem se desenvolvendo mais contemporaneamente pesquisas que abarcam análises sobre a cultura e o empobrecimento, que segundo Herrera, além da

discussão sobre a destruição da natureza permitem uma “visão mais global, com uma noção mais clara de que fazemos parte da humanidade.”3 Essas pesquisas visam criar a possibilidade de integrar duas esferas historicamente dicotômicas que são as ciências naturais e as sociais.

Dentro do tema pesquisado, esse viés de análise que percebe a cultura como fator importante para a pesquisa ambiental foi aprofundado nas hipóteses. A primeira focou nos caiçaras como culturalmente e biologicamente descendentes de indígenas, possuidores de um etnoconhecimento que pode ser utilizado na conservação e recomposição ambiental das áreas onde vivem. A segunda pesquisou como os fatores advindos da urbanidade: grilagem, protestantismo, leis ambientais e turismo, foram historicamente agentes de degradação ambiental na península. A última analisou como recentemente vem se forjando um estereotipo de que os caiçaras são um povo exclusivamente pescador. Ignorando, muitas vezes intencionalmente, suas fortes raízes agrícolas.

O tema da presente pesquisa foi sendo desenvolvido a partir do primeiro contato com um líder natural da comunidade caiçara, Seu Manoel dos Remédios. Único morador da Praia do Martim de Sá, sua luta pela posse da terra motivou a formação de uma ONG, a Verde Cidadania e a construção de uma rede de aliados urbanos. A partir do resultado positivo desse movimento, o caso de Seu Maneco, como é conhecido, passou a ser um exemplo muito respeitado dentro da comunidade caiçara. O principal elemento de interesse em relação a Seu Maneco são suas histórias sobre a fauna, a flora, a política, a luta pela terra,

a ecologia, a ética e o modo de vida caiçara.



S.Maneco sobre as raízes da mangueira que plantou quando jovem.


Após a primeira viagem de campo, foi constatada a carência de fontes primárias provocada principalmente pelo impacto do protestantismo. E, ao retornar à cidade, soube-se que o Instituto Estadual de Florestas – IEF/RJ havia destruído ranchos de pesca na Praia Grande da Cajaíba. A ONG Verde Cidadania, que já atuava na região, elaborou uma proposta de ação civil pública, via internet, que conseguiu 700 assinaturas e denunciou a ação violenta do IEF. A partir desse episódio, fez-se necessário ampliar o alcance da pesquisa. O foco, que era inicialmente o estudo da família dos Remédios, da Praia do Martim de Sá, passou a ser toda a região da Península da Juatinga.
Assim, tema e o objeto desta pesquisa inserem-se no domínio da História Ambiental. Esta, segundo Worster, “nasceu (...) de um objetivo moral, tendo por trás fortes compromissos políticos, mas, à medida que amadureceu, transformou-se também num empreendimento acadêmico que já não tinha uma simples ou única agenda moral ou política para promover. Seu objetivo principal se tornou aprofundar o nosso entendimento de como os seres humanos foram, através dos tempos, afetados pelo seu ambiente natural e, inversamente, como eles afetaram esse ambiente e com que resultados.” 4 Também na opinião desse autor, “o historiador ambiental tem que enfrentar o formidável desafio de examinar as idéias como agentes ecológicos”.5

Diegues e Nogara, em seu livro O Nosso Lugar Virou Parque, sobre o processo de criação da área protegida do Saco do Mamanguá, que pertence à Reserva da Juatinga, inicia seu texto ressaltando: “(...) há a necessidade de se começar a fazer, no Brasil, de forma sistemática, a história ecológica não somente a nível nacional, mas também regional e até local. Essa história ecológica como proposta por Worster (1988) não deve ser simplesmente a história dos ciclos econômicos, mas, sobretudo a história das relações complexas, materiais e simbólicas, que os homens, ao longo do tempo histórico, desenvolveram com o mundo natural e com os outros homens.”6

O estudo das populações rurais no Brasil, a partir dos cronistas coloniais, passando pelos naturalistas, até chegar às Ciências Sociais do séc.XX, sempre buscou captar as peculiaridades e os modos de vida dos grupos habitantes do interior do país: caboclos, ribeirinhos, matutos, roceiros, caipiras, e outras denominações que hoje se fundem no conceito de populações tradicionais ou nativas, ao que se juntam os indígenas, quilombolas e caiçaras. Um dos mais relevantes estudos do séc. XX sobre populações rurais é o livro Parceiros do Rio Bonito, de Antônio Cândido, um dos precursores e base para o desenvolvimento de diversas reflexões sobre a ruralidade. O caipira, como homem do campo, de práticas arcaicas, é abordado de forma complexa e hoje alguns autores consideram que “a cultura caiçara é uma subcultura da cultura caipira, não simplesmente por se constituir numa variação paralela, mas (...) também consideram o caiçara como uma expressão regional do caipira do interior”. 7

Alguns autores discordam, afirmando que os caiçaras possuem identidade própria. Nas entrevistas realizadas durante a pesquisa de campo, os informantes comumente se referiam aos caipiras quando queriam expressar a diferença entre a vida nas cidades e a vida na roça, articulando caiçaras e caipiras como “primos” culturais.

É ainda nascente o estudo das ligações entre o etnoconhecimento e o fazer científico formal. Na historiografia, o tema populações tradicionais não aparece em nenhum tópico pedagógico, e a pesquisa sobre essas populações permaneceu como objeto de outras ciências sociais, como a Antropologia, a Geografia e a Sociologia. Apesar disso, e a partir dos novos enfoques trazidos pela História Ambiental, esses grupos populacionais de íntima relação com o meio ambiente podem ser abrangidos pelos estudos acadêmicos. Sendo fundamental a referência dos trabalhos pioneiros das outras áreas. Segundo Worster,

“à medida que os historiadores enfrentam essas questões elementares referentes a ferramentas e sobrevivência, logo percebem que aqui também outras disciplinas andaram trabalhando, e há muito tempo. Entre elas está a disciplina dos antropólogos, cujos trabalhos os historiadores ambientais têm lido com grande interesse. Eles começaram a procurar nos antropólogos chaves para pontos cruciais do quebra-cabeças ecológico: qual a melhor maneira de compreender a relação das culturas materiais humanas com a natureza?” 8

A perspectiva da História Ambiental como possibilidade de novas abordagens é percebida de forma clara nos textos que embasaram teoricamente a monografia. O viés agroecológico da história, e Para fazer História ambiental, ambos de Donald Worster, e A Formação da Agricultura Brasileira de José Augusto de Pádua, demonstram, como diz Worster, que “a História Ambiental é, em resumo, parte de um esforço revisionista para tornar a disciplina da História muito mais inclusiva nas suas narrativas do que ela tem tradicionalmente sido.”9

Uma das mais significativas produções bibliográficas na área das Ciências Sociais é a do Núcleo de Estudos em Áreas Úmidas da USP, principalmente através do antropólogo Carlos Diegues. Este desenvolve uma intensa produção bibliográfica, inserindo nos meios acadêmicos a problemática das unidades de conservação e populações tradicionais. Na série de Enciclopédias Caiçaras, cinco até agora, sobre o turismo, a conservação, a história, a memória e as festas, os temas são analisados por diversos pesquisadores, de diversas áreas do conhecimento, além de entrevistas com caiçaras, inclusive Seu Maneco, do Martim de Sá. Essa análise é importante na geração de um arcabouço teórico sobre o tema, retirando-o do obscurantismo e possibilitando, inclusive, conseqüências políticas. Entretanto, algumas críticas têm sido feitas ao viés metodológico que, segundo alguns autores como Cristina Adams, é carente de rigor científico acadêmico, principalmente na utilização de conceitos ultrapassados. Apesar disso, as conseqüências até internacionais do livro O Mito Moderno da Natureza Intocada foram um divisor de águas no processo de debate sobre a criação de áreas protegidas e suas conseqüências políticas e culturais para as populações nativas.

A bibliografia utilizada foi principalmente a que trata do tema referente à História Ambiental, populações tradicionais, cultura popular e unidades de conservação. As pesquisas acadêmicas, monografias e teses de mestrado sobre a Reserva Ecológica da Juatinga foram fundamentais. A tese de mestrado de Laura Sinay sobre o ecoturismo em Martim de Sá, a vasta pesquisa sobre a recategorização da reserva feita por Lúcia Cavalieri e a discussão teoricamente aprofundada feita por Flávia Oliveira Teixeira foram norteadoras não apenas como estudos acadêmicos, mas, também porque suas autoras participaram ativamente dos processos políticos da península. Esse fato se refletiu nos trabalhos e enriqueceu as análises.

Já o livro A Ferro e Fogo, de Warren Dean, foram mais trabalhados no sentido da vasta pesquisa que representam sobre o tema, e menos pelas abordagens metodológicas. Principalmente o texto de Warren Dean que, apesar da preciosa pesquisa documental, e do amplo panorama sobre a ocupação da Mata Atlântica, ainda se prende a muitos esquemas de defesa de uma posição bem definida, em seu caso o caráter destruidor do homem. Seu radicalismo destoa da valorosa pesquisa e deixa por falar alguns tópicos importantes como as possibilidades e experiências de equilíbrio homem – natureza, bem como da teoria sócio-ambientalista de que o homem não é uma entidade separada de seu meio e vice-versa.

Sobre o tema específico da história caiçara, o livro Lavoura Caiçara, de Carlos Borges Schmidt, de 1958, é um documento precioso. Neste livro, o autor analisa as principais formas de produção caiçara, levantando sua origem indígena. Esta análise é crucial para a compreensão do tema porque abrange importantes questões muito debatidas até hoje quando se trata do tema caiçara.

A metodologia de pesquisa utilizada, além da investigação bibliográfica, foi a de pesquisa de campo participante, com entrevistas livres, perguntas-chave, mais para conversa do que para o questionário. A inserção da pesquisa foi afetiva, método que possibilitou um maior acesso a informações restritas. Foram os informantes mais próximos dos laços de amizade que forneceram dados complexos, como a localizações dos sítios arqueológicos e os processos de grilagem. Os sítios arqueológicos são cercados de tabus comunitários, que restringem o acesso, além de ser assunto pouco comentado com “estranhos”; também a morte de moradores por causa de brigas de terra e lendas também são difíceis de serem narradas, principalmente pelo impacto do protestantismo. Os moradores mais antigos foram os mais procurados, buscando mapear ligações entre moradores, antigas histórias e lugares outrora habitados.

Entretanto, moradores de todas as idades foram entrevistados - crianças, adolescentes e adultos jovens -, principalmente no intuito de perceber as diferenças e aproximações nas práticas produtivas e o conhecimento tradicional das diferentes idades. São poucos entre os jovens os que valorizam as atividades tradicionais, fato que se inverte nas crianças, que têm interesse pelos brinquedos, cirandas e histórias.

Agentes urbanos também foram pesquisados, no sentido de estabelecer visões diferenciadas das questões da região, bem como sua atuação. Os responsáveis legais pela reserva também haviam sido escolhidos para serem entrevistados. E, como anteriormente todos os pesquisadores de áreas sociais que pediram autorização para suas pesquisas tiveram acesso negado, além de entrarem para a lista de ameaçados de morte, preferiu-se não contactar os órgãos legais, por receio de represálias dos grileiros, que mantêm com aqueles órgãos uma rede de informação e ação.

As entrevistas dos trabalhos de campo foram os fios condutores da pesquisa. Os temas pesquisados com os moradores locais focaram a memória da historia local, dos conhecimentos botânicos, de fauna, climático, culinário, e outros. Muitas lendas e causos remontam antigas lendas coletadas por Câmara Cascudo e outros etnógrafos, evidenciando uma herança indígena e colonial. As músicas, as brincadeiras e a espiritualidade foram mapeadas, permitindo análises mais minuciosas sobre o impacto das transformações culturais contemporâneas.

A produção de um documentário, com imagens digitais captadas durante as entrevistas foi fundamental na consolidação da proposta de interação entre a pesquisa acadêmica e a comunidade pesquisada. Principalmente porque a proposta inicial de trabalho de conclusão do Curso de graduação havia sido um vídeo documentário sobre a história dos caiçaras da Juatinga. Embora tal proposta tenha sido negada, o vídeo foi concluído antes desta monografia e abriu o II Festival de Cinema Caiçara, ocorrido na Praia do Sono, dentro da península, em dezembro de 2005.

Na pesquisa buscou-se também um conjunto de produções audiovisuais, como os vídeos feitos sobre a Praia de Martim de Sá e a família dos Remédios, o vídeo sobre a puxada de canoa, o documentário sobre os assovios que chamam os animais, e outros vídeos importantes. Sobre o processo de expulsão dos moradores da Praia Grande da Cajaíba, como o "Expulsos do Paraíso", "Vestígios" e outros sobre a Praia do Sono, Ponta Negra e sobre a expulsão dos moradores da Trindade, como o filme Vento Contra. Neste documentário da década de 70, o processo violento movido pelo grileiro Gibrail Tannus contra os caiçaras moradores da Praia da Trindade é captado em imagens que transformam esse documentário em uma importante fonte histórica. Outros aspectos também são tratados por esses documentários como o impacto do turismo, a proposta de abertura de uma estrada até a Praia do Sono e o etnoconhecimento dos moradores.

As pesquisas sobre as relações entre populações tradicionais e áreas protegidas têm evoluído no sentido de desvendar os interesses que muitas vezes estão implícitos sob a bandeira da proteção da natureza. Interesses econômicos, ideológicos e políticos muitas vezes são envoltos em uma capa de argumentos ambientalistas, aproveitando-se do marketing relacionado à importância da proteção da natureza, causada pela crise ambiental do século XXI. Muitas vezes esses falsos interesses preservacionistas causam danos ainda maiores às áreas que se propõem a proteger.

Há conseqüências políticas nas pesquisas, já que estas geram dados que muitas vezes contrastam com o senso comum no qual foi baseada a criação das áreas protegidas. Essa perspectiva política da prática acadêmica relaciona-se à análise foucaultiana de que todos os corpos e ações têm poder. Para Foucault, há um mito em relação à ausência de poder entre saber e ciência. Para ele, implícito em todo saber está uma luta de poder, e o poder político não está ausente do saber, pelo contrário, ele é forjado com o saber. Em suas palavras, “poder e saber estão diretamente implicados; não há relação de poder sem constituição correlata de um  campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder.”10

Para as comunidades, as investigações científicas também são percebidas como possibilidades de ação política. As pesquisas das Ciências Sociais, na qual a História se insere, sugerem um outro modo de relacionamento com a sociedade letrada, já que esta historicamente age de forma opressiva, contra a comunidade caiçara.

Algumas questões estão implícitas na presente pesquisa: Quais interações são possíveis entre Academia e comunidade? Qual a importância da pesquisa científica para os moradores locais? E por fim, qual o retorno possível que existe para ambos?

Por fim, este trabalho, ao comparar os resultados da pesquisa de campo com as fontes bibliográficas, construiu um esboço da História dos Caiçaras da Península da Juatinga, e sua intrincada teia de relações com o ambiente que os cerca. Houve uma ênfase no impacto dos agentes externos, como o protestantismo, a grilagem, as ONGs, pesquisas, órgãos ambientais, enfim, a sociedade urbana, nas práticas, visões de mundo e cultura popular dos caiçaras dessa região. Alguns conceitos não aprofundados pelos autores pesquisados, como a memória ambiental e a deficiência alimentar, foram aqui aspectos fundamentais, mas a falta de informações sobre esses temas prejudicou a análise, embora não a tenha impedido de todo. Uma das principais perspectivas deste trabalho foi trazer à luz as atividades tradicionais que se encontram em extinção entre os caiçaras, as conseqüências dessas perdas e as alternativas possíveis para sua adaptação à contemporaneidade.

Mapa do Estado do Rio de Janeiro e a localização da Península da Juatinga

Mapa da Península da Juatinga e as áreas protegidas.



Mapa das Principais Viagens de Campo




1ª Viagem de Campo: maio/2005

10 dias (barco e trilha)

2ª Viagem de Campo: setembro/2005

10 dias (barco e trilha)


Comunidades percorridas na península:


  1. Praia do Cruzeiro (Saco do Mamanguá)

  2. Praia do Engenho (Saco do Mamanguá)

  3. Praia Grande da Cajaíba

  4. Praia da Itaoca

  5. Praia do Calheus

  6. Praia da Ipanema

  7. Praia do Pouso da Cajaíba

  8. Ponta da Juatinga

  9. Ponta da Rombuda

  10. Praia do Martim de Sá

  11. Praia do Cairuçu das Pedras

  12. Praia da Ponta Negra

  13. Praia de Antiguinhos

  14. Praia de Antigos

  15. Praia do Sono

  16. Condomínio de Laranjeiras

  17. Praia da Trindade

Mapa das Viagens de Campo Complementares




1ª Viagem de Campo: Festival de Cinema Caiçara

dezembro/2005 - 4 dias (trilha)

2ª Viagem de Campo: Agricultura Tradicional/Agroecologia

abril/2006 - 4 dias (barco e trilha)

3ª Viagem de Campo: Arqueologia do Museu Nacional

Junho/2006 – 3 dias (barco e trilha)

Principais Informantes:





  • Paraty

Mestre Hildo (marinheiro): História, hábitos caiçaras, herança indígena e caça.

Obs: Último caiçara morador do centro histórico de Paraty.



  • Saco do Mamanguá

S.Benedito (aposentado): Sacis ou “tentos”, protestantismo, fim da lavoura, barcos de arrasto, escravos, decadência social e econômica do Saco.

Obs: Filho de um grande festeiro cujas festas foram lembradas em diversas localidades.



  • Praia Grande da Cajaíba

D.Maria (agricultora/comerciante): Nomadismo caiçara, bijus puvus, roças, herança indígena, grilagem e bailes.

Obs: No decorrer da pesquisa D.Maria, uma das mais importantes informantes, apresentou problemas emocionais devido à pressão da grilagem.
S.Filhinho (agricultor): Lendas e causos caiçaras.

Obs: Casado com D.Maria, mas, moram em casas separadas.


D.Dica (agricultora/comerciante): Roça e grilagem.

Obs: Irmã de D.Maria, move processo contra capataz do grileiro que a ameaçou com uma arma de fogo.


S.Altamiro (agricultor/pescador/comerciante): Roça, compostagem,

viveiros agroflorestais, grilagem, herança indígena e pesca.

Obs: Presidente da Associação de Moradores da Praia Grande sofre constantes ameaças do grileiro, além de ser réu em processo de reintegração de posse.

D.Jandira (agricultora/pescadora/comerciante): Feitio de farinha e grilagem.

Obs: Casada com S.Altamiro.



  • Praia do Pouso da Cajaíba

D.Tetéia (merendeira da escola): Roças, bailes e sítio arqueológico.

Obs: Informou a presença de sílex e machados de pedra, localmente conhecidos como pedras de raio.

S.Miguel (agricultor/pescador): Festas, bailes, comidas, rezas, lendas e causos.

Obs: Casado com D.Tetéia, S.Miguel era o violeiro da Folia do Divino, que percorria as praias da Península.

Gilson (pescador/pedreiro/outros): Lendas, causos, trabalho.

Obs: Filho do casal, Gilson mesmo jovem é reconhecido na praia como ótimo contador de histórias seguindo a tradição do pai.



  • Ponta da Juatinga


D.Maria (agricultora/pescadora): Roça, pesca e conflitos de terra entre parentes.

Obs: Sua casa em construção na Praia dos Calheus foi destruída pelos agentes do IEF, na mesma operação que destruiu os ranchos na Praia Grande.

Careca (agricultor/pescador): Gostos caiçaras.

Obs: Casado com D.Maria, é nitidamente descendente de indígenas, com fortes características asiáticas.

S.Olímpio (agricultor): Variedade genética das roças, controle do fogo na coivara, consórcio de espécies vegetais, sítio arqueológico, herança indígena, localizou a aldeia de onde sua avó indígena teria morado.

Obs: S.Olímpio foi um dos principais informantes, tanto pela localização do sítio arqueológico, como pelas informações sobre a avó indígena, e também porque possui variedades genéticas de vegetais indígenas, extintos em outras localidades.


  • Ponta da Rombuda

Camuzinho (agricultor/pescador): Modo de vida caiçara tradicional.


Creuseli (agricultora): Vida em um local isolado e vacinação infantil.

Obs: A Ponta da Rombuda é um local extremamente isolado, entre rochedos e a mata e onde foi encontrada a maior presença de usos e costumes caiçaras tradicionais como a casa em palafitas, o aimpim como alimento principal da dieta e o consorcio de espécies.





  • Praia de Martim de Sá


D.Capitulina dos Remédios ou D. Capita (dona de casa): Vida caiçara, caiçaras antigos e cata de mexilhões.

Obs: Matriarca, segundo o filho S.Maneco, D.Capitulina tem 100 anos e foi muito lembrada nas outras praias pela saúde. Segundo contam é capaz de rachar lenha e fazer trilhas mais rápido que um jovem e quando chegar pedir um cigarro.
S.Manuel dos Remédios ou S.Maneco (pescador/agricultor/dono de camping): Flora, fauna, desequilíbrios ambientais, história caiçara, antecedentes indígenas, sítios arqueológicos, grilagem, Ong, protestantismo, feitio de canoas.

Obs: S.Maneco foi um dos principais informantes e o caiçara mais conhecido dentro e fora da Península.




  • Praia do Cairuçu das Pedras

S.Aplígio (agricultor/pescador/dono de camping): Feitio de farinha, poluição, agricultura, pesca, lendas, sítios arqueológicos, antecedentes indígenas, causos e magia.

Obs: S.Aplígio, assim como D.Maria e S.Filhinho foram os únicos a relatar elementos da cultura caiçara extintos inclusive na memória dos outros caiçaras entrevistados, é casado com a irmã de S.Maneco, D.Dulcinéia.
S.Jovino (agricultor/pescador/fazedor de canoas/dono de camping/fazedor de tapitis): Sítio arqueológico cerâmico, antecedentes indígenas, feitio de canoas, extinção da fauna.

Obs: S.Jovino é irmão de Seu Maneco e D.Dulcinéia, ele e os filhos são os últimos fazedores de tapiti da península.


Jango (agricultor): Encantados e livro do séc.XIX.

Obs: É irmão de D.Lorença, casada com S.Maneco.


Francino (cesteiro/agricultor/dono de camping): Feitio de balaios e manejo de cipós.

Obs: Francino, irmão de Jango, é o último fazedor de cestos e balaios da península, muito conhecido pela boa qualidade de seu trabalho que abastece toda a região.




  • Praia da Ponta Negra


S.Domingos (agricultor/pescador): Roça, alimentos industrializados, associação de moradores e tapitis.

Obs: S.Domingos é um dos últimos agricultores que colhe a maioria de seu alimento na Ponta Negra, fato que se orgulha muito. É casado com D.Dominga.

S.Nelson (aposentado/pescador/agricultor): Roça, adubagem com feijão guandu, lenda da Mãe do Ouro, grilagem.

Obs: S.Nelson foi um dos líderes locais que organizou a resistência da Ponta Negra contra a ação dos grileiros, aparecendo inclusive no filme Vento Contra.

D.Dilma (aposentada/dona de camping): Bailes e trilhas percorridas até as festas.

Obs: D.Dilma descreveu com detalhes os bailes e a dança de tamancos, que foi inclusive negada por muitos antigos que se tornaram protestantes.

Nego (padeiro): Reflorestamento, desmatamento e conflitos da associação de moradores.





  • Praia do Sono

D.Baíca (agricultora/dona de camping): Roça e antecedentes indígenas.


Preta (estudante): Jovens, ciranda e roça.

Obs: Filha de D.Baíca.


S.Nilo (aposentado): Protestantismo.

Obs: Considerado caiçara mais velho da comunidade.

S.Antônio (pescador/dono de camping): grilagem e protestantismo.

Obs: Foi um dos líderes da comunidade na resistência à grilagem.

A Região, o homem e a natureza.


A Região de Paraty
Paraty é uma das cidades mais antigas do país. Foi ponto de embarque do ouro e desembarque de escravos e estrangeiros de todo o mundo que vinham tentar a sorte nas minas. Através do Caminho do Ouro da Piedade, ou Estrada Velha de Minas, subiam as boiadas e alimentos, pelo que outrora fora a trilha guaianá para o Vale do Paraíba. Apesar disso, a região da Juatinga sempre foi de difícil acesso e continua sendo.

“O cultivo de cana-de-açúcar foi a atividade mais importante a partir do século XVIII, quando os engenhos se estabeleceram na região. No Saco do Mamanguá ainda podem ser encontrados cinco ruínas desses engenhos.”11

Na época áurea dos engenhos, a região possuía uma produtividade relevante e durante o século XIX produziu quantidade significativa de café, fumo e aguardente. Ainda os antigos moradores lembram-se das canoas de voga indo carregadas para Paraty, levando café, farinha e peixe seco. Hoje, com os barcos a motor, a comida vem de Paraty, empacotada em sacos plásticos que depois são queimados.

A decadência da região começou com a concorrência da estrada de Ferro D.Pedro II e a abolição dos escravos. Mesmo assim continuou a produzir a famosa cachaça Paraty e assistiu ao início de um novo ciclo, o da banana. Todos esses ciclos devastaram as encostas, e hoje, em todas as áreas da Reserva, vêem-se grandes áreas degradadas. Mesmo que a técnica de cultivo indígena, caracterizada pelo uso da queimada (coivara), tenha sido utilizada em épocas pré-coloniais, não devia atingir o alto das serras, já que eram queimadas controladas.

Além disso, utilizavam um sistema de pousio longo, o que não parece ter sido a regra dos colonizadores. Durante o processo de desenvolvimento econômico do Brasil, as técnicas de produção empregadas se basearam na utilização imprevidente e avassaladora dos recursos naturais. Essa região viveu o apogeu e decadência do ciclo do ouro, os engenhos e a transformação da produção em gêneros alimentícios, quando passou a prover os centros urbanos.

Os sucessivos ciclos econômicos incluindo a pesca embarcada e as plantações de banana foram fatores de dispersão da população, mas segundo Nogara e A.C.Diegues, “o esvaziamento importante da região se agravou com a construção da Via Dutra, em 1940, deslocando o eixo econômico para o Vale do Paraíba. A partir de 1955, a comunicação de Parati com o exterior se fazia cada vez menos de barco e canoas a voga e mais pela estrada de Cunha. Acentuou-se o processo de migração para outras áreas como, por exemplo, Angra dos Reis, onde, em 1950, se instalou o estaleiro Verolme, seguido, em 1974, pela implantação da Usina Nuclear que empregou 9.000 operários.”12

Mas foi com a construção da BR-101, na década de 70, que o contato com o mundo urbano se tornou massivo. Paralelo à degradação de trechos inteiros do recorte do litoral, os terrenos sofreram uma valorização abrupta que gerou um acirramento violento das disputas por terras da década anterior.

“A partir do simples projeto da Rio-Santos, os proprietários de terras surgem como que do nada, demarcando áreas enormes a partir de pequenas escrituras, “grilando” terras, expulsando os lavradores com violência e ameaças ou mesmo com ofertas irrisórias a que os lavradores não resistiam, por não conhecer o valor exato do dinheiro. Estes, analfabetos em sua maioria, eram enganados de várias formas, inclusive assinando contratos de arrendamento, meia ou parceira, onde acabavam cedendo seus direitos de posse, sem saber.”13


A Península da Juatinga

Inscrita na parte paratiense da baía da Ilha Grande, encontra-se a Península da Juatinga, que constitui o último fragmento litorâneo de áreas continuas de mata atlântica do estado do Rio de Janeiro. A Reserva Ecológica, que toma toda a Península, está inserida dentro da Área de Proteção Ambiental do Cairuçu, que por sua vez se limita com o Parque Nacional da Serra da Bocaina, a Serra do Mar e outras áreas protegidas do litoral norte de São Paulo. É uma das mais belas e conservadas regiões litorâneas do país, mesmo se situando entre as duas maiores capitais. A área protegida vai de Parati-Mirim, na parte do mar interior, e passa pelo Saco do Mamamguá, único fiorde do hemisfério Sul. Na Praia Grande da Cajaíba, assim como no Saco, há forte pressão da especulação imobiliária. As praias da Ipanema, Itaoca e Calheus são habitadas por comunidades caiçaras, com poucas casas veranistas.

O Pouso da Cajaíba, aonde se chega após duas horas e meia de barco de Parati, é bem turístico, com bares e casas para temporada. Nesta comunidade foi descoberto recentemente um sítio arqueológico característico de aldeamentos de povos pré-históricos fazedores de machados de pedra, provavelmente relacionados aos sítios da Praia do Aventureiro, na Ilha Grande. Essa descoberta foi feita por arqueólogos do Museu Nacional/UFRJ, em decorrência dos sítios arqueológicos levantados pela presente pesquisa.

Da Praia do Pouso sai a trilha de mais 2 horas até a Praia do Martim de Sá. No costão da Península, já na área do mar aberto, onde existe um importante farol, situa-se a comunidade de pescadores da Ponta da Juatinga, de difícil acesso. Após a comunidade da Ponta do Juatinga, abre-se a região oceânica, conhecida como costeira. Após o farol, fica a Ponta da Rombuda, habitada apenas pelo casal Camuzinho, Creuseli e os filhos. Local isolado e extremamente belo, onde foram encontradas práticas caiçaras tradicionais já extintas na maioria dos lugares. A próxima praia é a Sumaca, nome de um antigo tipo de embarcação e também habitada por apenas um morador, Manequinho. A segunda depois do farol e realmente possuidora de uma enseada e de um rio é a Praia do Martim de Sá. Coberta de densa mata entre as altas montanhas do vale, tem apenas o rancho dos barcos de Seu Maneco, ou Manoel dos Remédios, entre as castanheiras da praia.

No Saco das Anchovas, há parentes da família dos Remédios, e depois Cairuçu das Pedras, Ponta Negra, Antiguinhos, Antigos e Praia do Sono, onde acaba a área de conservação. Depois vem o condomínio de Laranjeiras, habitado por multimilionários, e a famosa Praia da Trindade, onde os violentos processos de grilagem na década de setenta inseriram o tema caiçaras na pauta de discussão dos movimentos sociais. Existem outras localidades caiçaras na Península, como o Saco das Sardinhas, a Cela, e habitações em pequenas enseadas. Essas, entretanto, refletem os aspectos estudados nas outras e não foram detidamente pesquisadas, por serem muito diminutas e também porque o foco se fixou nas comunidades com maior influência geopolítica, histórica e cultural.

Na região pesquisada, as “áreas verdes”, consideradas de grande beleza cênica e habitat de espécies importantes, são há milhares de anos território manejado. Desde as ocupações pré-históricas, indígenas, coloniais, até os dias atuais, a ocupação litorânea brasileira vem sendo estudada pelos pesquisadores. Além do sítio encontrado no Pouso, foram colhidos relatos de amoladores de pedra na Praia do Martim de Sá, onde foi encontrado um pingente de pedra e no Cairuçu das Pedras. Houve também um relato de um sítio cerâmico no interior da mata, na direção do Pico do Cairuçu, feito pelo Seu Jovino, irmão de Seu Maneco, e este sítio pode ser a aldeia a que Hans Staden se refere como existente abaixo do Pico do Caeroçu. Além disso, na Ponta da Juatinga, há diversos relatos sobre a Toca dos Ossos, uma caverna onde estariam enterrados índios, antepassados dos atuais habitantes da Ponta da Juatinga.

Os habitantes da Península: os caiçaras
Por tais relatos podemos inferir que as matas da Península da Juatinga possuem uma ocupação de longuíssima data, que nos dias de hoje é feita pelos atuais caiçaras. Estes possuem um território intermitente, de roças em regeneração e áreas ocupadas por antepassados. Ao olhar do não nativo, apresenta-se apenas uma grande área verde, sem perceber as especificidades da ocupação. Existem demarcações que são feitas com árvores, de antigas casas dos pais e avós, que hoje estão cobertas pela mata. São mangueiras, jaqueiras, cambucás e jabuticabeiras que guardam a memória do local antes ocupado pelos antepassados.

Os caiçaras, assim como outras sociedades tradicionais baseadas na oralidade, vivem, no presente, uma crescente ruptura na transmissão de conhecimento, principalmente pelo afastamento das gerações. Talvez por isto houve uma preocupação por parte dos entrevistados em ver registrado seus conhecimentos. A história grupal recontada constitui-se uma afirmação dessas sociedades, e legitima o seu direito ao território ancestralmente ocupado. Nesse contexto, as pesquisas propiciam o fortalecimento e a coesão dos grupos humanos, embora não deixem de ser mecanismos da sociedade letrada, que é uma das principais causas das formas de desagregação vividas pelas sociedades tradicionais, principalmente através do impacto causado pela escolarização infantil.

A origem indígena das populações caiçaras evidencia-se, em primeiro lugar, pelo próprio nome, que em tupi significa paliçada, que protege as tabas. Este tipo de cercamento de varas de taquara e/ou da Jussara ainda hoje é utilizado na região, em áreas mais povoadas e também nas isoladas. No Nordeste, as caiçaras são armadilhas de pesca marinha usadas pelos pescadores tradicionais. Segundo Schmidt:

“os caiçaras são fruto da miscigenação entre índio, português e negro (em menos quantidade) que durante longo período ficaram relativamente isolados na Mata Atlântica e no litoral de São Paulo. Ainda que sejam etnicamente distintos, sua cultura apresenta influência muito grande da cultura indígena nos instrumentos de trabalho (coivara, canoas, fabricação de farinha), vocabulário diferenciado dos demais habitantes do estado, etc.”14

No caso da Península, existem complementações a essa descrição: a descendência de piratas, como foi dito em entrevistas; a herança genética indígena nos traços físicos das pessoas e nas sementes que plantam, na genealogia do parentesco, na descrição de práticas antigas desaparecidas; além do consórcio de espécies nas roças também ser uma característica remanescente da cultura indígena.

O enfoque histórico ao pesquisar as reminiscências, entre os caiçaras atuais, das práticas de seus antepassados indígenas, é importante por contribuir para o debate sobre a história indígena da região Sudeste, tão afetada pelo contato maciço e pela dizimação das tribos. Se realmente existe um povo remanescente indígena e que se considera como tal, muitos aspectos da história do Rio de Janeiro podem ser redesenhados. Esse modus vivendi que permanece no dia-a-dia dessas comunidades vem sendo valorizado como um recurso político para afirmação de sua identidade e pelo direito ao território em que habitam.

Nesta relação, a identidade cultural da comunidade se constrói e reconstrói sobre uma herança indígena transmitida por meio das práticas caiçaras, além do resgate dessa identidade caiçara estrategicamente relacionada à legitimação da ocupação do território. Há uma emergência étnica, já que contemporaneamente a auto-intitulação como caiçara gera conseqüências positivas, em contraste ao passado de violências. Seu Maneco, recordando, afirma que seu pai nunca se interessou em fazer canoas. Foi ele, Seu Maneco, que foi aprender em outras praias e começou a ensinar aos seus, e agora envolve os freqüentadores na puxada de canoa. Portanto, a questão é como essas práticas reafirmadas influenciam a relação interna entre os caiçaras, destes com os agentes externos e a construção de parcerias com aliados na defesa de suas terras, como no caso da convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho que trata das populações nativas, e a legislação das áreas ambientalmente protegidas em que habitam.

Percebe-se que há um processo, embora lento, entre os caiçaras, de reconhecimento da importância das atividades tradicionais. Entretanto, essa lentidão permite que perdas genéticas aconteçam, já que a agricultura tradicional caiçara de coivara está proibida pelos fiscais. Há também um esforço de agentes urbanos, legisladores, funcionários, pesquisadores e outros de reconstruir a identidade caiçara não mais como povo essencialmente agricultor e sim de pescadores. Porém, no livro de Schmidt, de 1958, é descrita a casa do caiçara, como tendo a porta voltada para a lavoura e não para o mar, mesmo que a casa esteja perto deste. No livro, o autor aponta essa construção como uma evidência material da ligação do caiçara com a roça.

Na Praia do Cairuçu das Pedras, onde ainda hoje moram a irmã e o irmão de Seu Maneco do Martim de Sá, encontra-se a antiga casa de Roque Caçador, patriarca da família. Após ser “grilado” da Praia do Martim de Sá, sua última morada foi no Cairuçu. D. Dulcinéia, sua filha, ainda mora na antiga casa, em que, apesar da vista deslumbrante para o mar, a porta se encontra voltada para o pomar, a mata em regeneração e seus pés de café.

Essa herança caiçara, ancestral e/ou recriada como forma estratégica de afirmação do território em que habita, inclui a raiz indígena e se mostra fundamental para a consolidação dessa imagem do manejo tradicional bem adaptado ao meio ambiente, sendo essa afirmação plausível ou não. Seja a roça de abacaxis, a casa de farinha ou a puxada de canoa. Essas características também contribuem para uma afirmação do direito ancestral à terra em que vivem. Luchiari afirma: “pode-se dizer que a ocupação indígena do litoral, anterior à colonização (século XV), não deixou muitas marcas na paisagem local, mas transmitiu, como legado, fortes contribuições culturais: o tipo étnico, algumas técnicas para a lavoura e pesca e muitas trilhas e caminhos”.15

Essa reconstrução identitária deve ser analisada de forma crítica. Afinal, os caiçaras são povos bem adaptados e dependentes de sua relação com a natureza, sem terem sido, historicamente, povos defensores do meio ambiente. Essa identidade por eles mesmos atribuída recentemente está ligada à necessidade de se criarem estratégias de permanência no território, já que “as culturas tradicionais não são estáticas, estão em constante mudança seja por fatores endógenos ou exógenos.”16

A luta pelo espaço ancestral


Para a pesquisa acadêmica, a região estudada apresenta múltiplas questões, principalmente políticas, como a violenta especulação imobiliária.

Na região existem áreas protegidas que se sobrepõem: a Reserva Ecológica da Juatinga, a Área de Proteção Ambiental do Cairuçu, a Reserva Indígena Guarani de Paraty-Mirim e o Parque de Lazer de Paraty-Mirim. As reservas brasileiras, excluindo as indígenas, extrativistas e de desenvolvimento sustentável adotam em geral um modelo de uso restritivo. Nesses casos, a exclusão, diminuição ou controle da presença humana nas áreas de reserva são formas de garantir a preservação. Há nesse modelo uma forte influência do paradigma do homem destruidor, que se percebe a partir do 2º pós-guerra, e se baseia na visão de que não há equilíbrio possível entre o homem e a natureza.

Porém, na Reserva da Juatinga, pelo menos no texto do decreto que a cria, está expresso o objetivo de uma adaptação à realidade brasileira, propondo uma interação entre a utilização dos recursos naturais e os preceitos conservacionistas. Como se vê no texto da lei:




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