Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto de Filosofia e Ciências Sociais



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Entretanto, essas práticas locais sofrem o impacto cultural das lavouras comerciais monoculturas que desde a época colonial ocupam a região com engenhos de cana-de-açúcar, cafezais, bananais e de alimentos seguindo os ciclos produtivos nacionais. Muitos caiçaras plantam desde a época dos pais, mas não dos avós, as espécies separadas, milho com milho, feijão com feijão e mandioca separado. Essas práticas reduzem a fertilidade do solo, esgotando os nutrientes apresentando apenas uma variedade plantada no local. Há uma alteração do manejo tradicional, que apresenta soluções empíricas baseadas na observação dos ecossistemas naturais da Mata Atlântica, e soluções como o consórcio e a variedade genética que imitam as cooperações entre espécies na mata. Através da história local podemos perceber que essas mudanças foram anteriormente possibilitadas pela derrubada de áreas florestadas em método de coivara (queimada controlada) que possibilitava a adubação e controle de fertilidade do solo.



D.Maria e seu facão na antiga roça.35


Com as leis ambientais que foram instituídas no local após a criação da Reserva da Juatinga, as queimadas foram proibidas, apesar de anualmente ainda ocorrerem, inclusive em áreas não agricultáveis apenas para manter o terreno “limpo”. Isso se deve ao trabalho inexistente dos órgãos ambientais de conscientização e educação ambiental, oferecendo técnicas de manejo alternativas como a compostagem, mult e adubação orgânica. Assim os órgãos públicos esperam que práticas ancestralmente transmitidas desapareçam por ofício legislativo e atuando na região apenas de forma punitiva ou de incentivo ao turismo. Essa falta de esclarecimento gera uma forte imagem negativa dos nativos para com as leis ambientais, que não compreendem, alteram seu manejo e ainda se vem em situação de risco podendo ser autuados. Não há valorização do etnoconhecimento caiçara, como o de controle de pragas. Um método que pode até ser considerado agroecológico: “o caiçara consegue eliminar alguns formigueiros despejando nos olheiros o líquido resultante da prensagem da massa da mandioca-brava ralada (ácido cianídrico), nas ocasiões em que desmancha a mandioca.”36

Os grileiros também atuam pressionando pelo fim das roças. Para isso, se amparam nas leis ambientais e em alguns de seus agentes. O controle do uso da terra para a agricultura modifica a maneira de se perceber a posse, logo a diminuição do espaço utilizado acarreta uma diminuição do limite do uso, que é o fator determinante da posse.

Através da pesquisa de campo, se confirmaram as análises bibliográficas, principalmente do livro Lavoura Caiçara, de Schmidt, que o caiçara tem uma raiz agrícola muito presente ainda hoje em seu cotidiano. Mesmo nas comunidades da Península que não vivem diretamente das roças, o conhecimento etnobotânico ainda está vivo na maioria dos adultos até a faixa dos trinta anos. Assim a imagem do caiçara pescador que vem sendo pouco a pouco forjada inclusive pelos próprios caiçaras mais jovens, nega parte da memória e da identidade coletiva, servindo muitas vezes a interesses urbanos. Há um desrespeito à história desse povo, através da construção de uma identidade do caiçara como apenas pescador. Assim sua ligação com a terra é apagada bem como seus direitos a produção na mesma que são substituídos agora pelo direito à pesca.

A Caça
“Uma importante necessidade alimentar, como a carne, sofre severa restrição, pois a diminuição da caça não é compensada por um abastecimento regular de carne de vaca. O resultado duplamente restritivo é a atrofia de tecnologia venatória e, no plano nutritivo, de um elemento fundamental da dieta.” Antonio Cândido – Os Parceiros do Rio Bonito.37


Toda essa problemática serve também para a delicada questão da caça, que é vista pela população urbana inclusive os criadores de leis ambientais, como uma prática arcaica que deve ser banida para que as espécies da fauna possam sobreviver. Entretanto, questões como a função mágico-religiosa, a organização social e a transmissão de técnicas indígenas passam por todo universo da caça e seus métodos de percepção do mundo natural e interação homem-mata. Além disso, o papel protéico representado pela carne de caça no período de escassez da pesca, e a solução de comprar carne de boi de áreas de pastagens, que ciclicamente queimam áreas da própria Mata Atlântica, não são analisados. A criação de viveiros de animais silvestres para consumo humano, como já existe na Ponta Negra no caso do macuco, não são considerados. As histórias de vida dos caiçaras antigos demonstram essa relação e servem de parâmetro para se avaliar as práticas dos caiçaras atuais.

Segundo Antônio Candido, a questão da caça é mais complexa do que a simples necessidade alimentar: “a caça, que tendo como ponto de partida a obtenção de carne, dá lugar a sistemas complexos, com repercussões afetivas, mágicas, artísticas, políticas – sabendo–se que em muitos casos a liderança política se esboça em função dela.”38

Um dos caiçaras antigos mais conhecido, inclusive pelos mais novos em várias praias da reserva é Seu Benedito Caçador, avô de Seu Maneco de Martim de Sá. Segundo os depoimentos era um exímio caçador, dormindo na mata por dias seguidos, sozinho sem temer onças ou outros animais. Segundo Seu Maneco, neto dele, Seu Benedito era filho de uma índia e mestre em armadilhas de caça. Os mais antigos, como foi levantado nas entrevistas, não utilizavam armas de fogo, porque caçavam e pescavam em abundância se servindo de armadilhas de cipós e taquaras. Esse conhecimento indígena conservou inclusive os nomes como mundéus, arapucas e aratacas.

Os entrevistados foram unânimes em dizer, quando perguntados sobre a origem dessas armadilhas que eram “coisa de índio”, assim como o feitio da farinha, da canoa e a coivara. Um dos entrevistados se lembrava do pai contar sempre que houve uma época antes dos bisavós em que os caiçaras e os índios viviam juntos naquela costeira, sem atrito e se casando uns com os outros. Segundo o informante não havia conflitos porque senão esses também seriam incluídos na mesma narrativa e que o que era contado é que viviam em harmonia fugindo dos brancos e se isolando no interior das matas.

A caça é um dos principais fatores de interação do caiçara com a floresta. A procura do animal faz com que o caçador em silêncio entre cada vez mais fundo na mata seguindo rastros de animais, decodificando sons, imitando os bichos que quer caçar ou suas presas. O caçador sabe o local exato de árvores frutíferas, águas de beber e tocas de pedra, onde dorme. É uma atividade masculina, que fortalece os laços comunitários e familiares. Mas após a proibição é cada vez menos praticada e esse contato mais direto com as matas velhas do fundo dos vales tende a se extinguir.

Práticas Extintas e Religiosidade

Magia, medicina simpática,Invocação divina, exploração da fauna e da flora, conhecimentos agrícolas fundem-se deste modo num sistema que abrange na mesma continuidade, o campo,a mata, a semente, o ar, o bicho, a água e o próprio céu.” Antonio Cândido - Os Parceiros do Rio Bonito.39

Os informantes em muitas praias contaram que os antigos iam muito mais a mata que os atuais, como podemos perceber na história de Seu Benedito. O pai do Careca, do Calheus, descreveu esse caçador com admiração, já que além de passar períodos prolongados na mata, não levava víveres e se alimentava do que caçava e dos alimentos que a mata oferecia. Conhecia toda a região da costeira, os caminhos interiores das encostas e os picos das serras.

Outra personagem impressionante é da Ponta Negra, avó de uma imensa prole, até o fim da vida morou em uma caverna que ficou conhecida como sua. Apesar dos pedidos dos filhos para que morasse em suas casas, insistiu em continuar em sua toca até o fim da vida, cuidando com zelo do local e costumeiramente sendo encontrada varrendo a entrada da caverna, que era cercada pela mata. Esse não é o único relato de moradores de tocas, que parece serem continuamente habitadas sedentária ou sazonalmente. Atualmente os caiçaras as utilizam quando saem a caçar pelo interior da mata e dormem nelas como forma de abrigo.

Os antigos tinham hábitos alimentares austeros. Em geral os pais, dos mais velhos moradores atuais, segundo estes, não comiam coisas compradas na cidade. Preferiam se alimentar de banana verde cozida com peixe seco, fina iguaria caiçara, ainda prato preferido pelos mais velhos, mas rejeitada por alguns jovens. Segundo D.Lorença, sua mãe só comia banana verde assada no café da manhã, cabeça de sorgo ou feijão que ela tivesse plantado, comidas compradas de maneira alguma. Para D.Lorença foram estes hábitos alimentares e a rotina de trabalho na roça e na pesca até morrer, que possibilitaram sua mãe chegar com muita saúde até uma idade tão avançada. São vários os relatos dos caiçaras velhos que ao se mudarem para a cidade com os filhos, morreram numa questão de semanas, ou contraíram graves doenças e derrames. Muitos atribuem as doenças à mudança da rotina de trabalho que os velhos seguiam até morrer, cuidando de suas roças e seus cercos de pesca, aliadas a mudança dessa alimentação austera, porém saudável e rica em nutrientes. Os moradores da costeira se orgulham muito de seus antepassados, que chegavam a 100, 108 anos, muitas foram as referências à pais, avós e tios que viveram até a casa dos cem em atividade e lucidez.

Seu Maneco conta que seu pai, Roque Fermiano, a partir da década de 70, não conseguia mais comer o peixe pescado na arrebentação. Comia e cuspia, dizendo sentir um gosto insuportável de óleo. Além disso, comidas como a paçoca de banana com toucinho, o café de cana, o biju, a batata-doce assada, o amendoim, a raiz da taioba, a tainha cozida com feijão guandu, sobrevivem apenas nas comunidades mais isoladas ou em algumas famílias apenas. Além da mudança no regime das atividades, o fim das roças acarreta um problema de segurança alimentar, já que com dinheiro da pesca ou do turismo, os caiçaras ao fazerem as compras na cidade, não compram os produtos tradicionais como batatas-doces, amendoim e cará, que não são valorizados como produtos que valham a pena serem comprados. Ao invés disso, compram grandes quantidades de biscoitos de água e sal, roscas e recheados doces que servem de café e lanche principalmente para as crianças.

Entre os antigos caiçaras, eram freqüentes também os bailes rurais e as festas religiosas. Aconteciam quase que semanalmente, variando de praia em praia. Grandes bailes eram feitos pelos festeiros de cada praia, os bailes comentados como muito bons eram os do Mamanguá, na Praia do Cruzeiro, na Praia Grande, no Pouso e na Ponta Negra. Era um importante espaço de socialização em que os moradores das praias afastadas podiam encontrar-se, os jovens arranjarem namoros, os mais velhos passarem aos mais jovens conhecimentos, já que havia a dança dos velhos, dos adultos, dos jovens e das crianças. Dançavam as cirandas, o bate-pé, o caranguejo, o lenço, a dança dos velhos, dos marujos, entre outras que são lembradas com nostalgia pelos mais velhos e pelos jovens que ainda viram seu final. Eram danças de roda, com troca de casais, em que a marcação era feita na batida do tamanco de madeira no chão de tábuas corridas.

A dança ia até o amanhecer, grandes fogueiras eram acesas na época do São João, batata-doce, milhos, aipins, bijus puvus eram assados na brasa e às 4 horas da manhã tradicionalmente era servido o café-de-cana com biju. Bebia-se cachaça, mas não havia disputas, os casais se separavam na contradança e bailavam com outros pares. Os músicos tocavam violas, pandeiros de couro de cutia, tambores e alaúdes. A bandeira do Divino Espírito Santo percorria todas as praias, do Saco do Mamanguá à praia do Sono, recolhendo doações e tocando seus instrumentos. Na Praia do Pouso, Seu Miguel violeiro, se lembra das festas com saudade e diz pesaroso tocar sua viola, agora sozinho no quarto. Pode-se perceber que essas festas também trazem em parte a fusão da tradição ibérica, votiva, com a intensidade das festas indígenas e africanas, que vivia na festividade uma manifestação do sagrado e da união do grupo, as utilizando como marcadores temporais de processos coletivos.

Dona Maria, Dona Dilma, Seu Miguel, Dona Tetéia, Seu Filhinho, são os que guardam essa memória viva, que foi desaparecendo lentamente assim que as igrejas protestantes foram se instalando a partir da década de 30. As igrejas proíbem seus fiéis de participar das manifestações populares que classificam como “coisas do demônio”. Houve assim a separação dos bailes antigos em que todas as idades participavam, para os bailes atuais em que o forró de raízes nordestinas e o brega nortista, são o divertimento apenas de jovens e adultos. As bebidas alcoólicas são muito consumidas e brigas e tiroteios são freqüentes, havendo uma discriminação ainda maior pelos não participantes. Assim não há mais nenhum espaço coletivo de convívio dos moradores da costeira, sendo os campeonatos de futebol a única forma de intercâmbio entre as praias.

A chegada das igrejas protestantes desorganizaram a produção, no sentido que, ao afetar os laços de compadrio, separando em crentes e descrentes e atos evangélicos e demoníacos, influenciou a formação de grupos distintos dentro de uma mesma comunidade. Os ritos que aconteciam na época das colheitas, na época do São João e em culto a pescaria e a Iemanjá, foram rotulados de práticas demoníacas e foram pouco a pouco perdendo espaço. Assim as práticas tradicionais foram sumindo primeiro do imaginário para depois se perderem na prática.

Outro importante impacto foi a utilização dos pastores evangélicos no convencimento dos caiçaras a assinarem documentos fornecidos por grileiros. Outra crença protestante que ainda hoje implica em muitas conseqüências, é a da predestinação divina. Muitos caiçaras evangélicos acreditam que as coisas acontecem porque deus assim determinou, não havendo motivos para resistir. É recorrente essa argumentação entre os evangélicos, não aparecendo no relato dos não-evangélicos, em geral mais esclarecidos, já que buscam compreender os processos de disputa por sua terra.

Além disso, ao modificar a cosmogonia tradicional, tão mesclada de um catolicismo arcaico, mitos indígenas e africanos, houve uma perda da identidade grupal, tanto entre si quanto em relação ao espaço em que habita. Os pontos de referência passaram da morada da Mãe-do-Ouro no Pico do Cairuçu, para os templos evangélicos da baixada fluminense, e seus dízimos mensais. Essa descaracterização cultural influenciou no processo de desvalorização do local e valorização do êxodo para a cidade.

Esse processo que se intensificou com a chegada da BR-101, possibilitou igrejas evangélicas, sempre em busca de novos fiéis, a contactarem populações antes muito distantes. Nesse processo de expansão da urbanidade, outros agentes chegaram pelo mesmo caminho.

Na região do Saco do Mamanguá, as comunidades caiçaras tem uma presença negra muito forte. Cultos afro-americanos ocorriam em terreiros e a presença de “tentos”, ou sacis, foi muito relatada. Contou Seu Benedito, da Praia do Cruzeiro, que na época de seu pai, o último grande festeiro do Saco, ao se olhar a outra margem a noite, se avistavam incontáveis luzinhas vermelhas, dos cachimbos dos tentos. Bem diferentes das luzes verdes dos vaga-lumes, os tentos se “mudaram” segundo Seu Benedito, após a conversão maciça ao protestantismo.

Festas a Iemanjá permaneceram na região, devida a força do arquétipo que representa. Essa entidade afroamericana, ligada aos cultos de feminilidade e governança das águas, é muito reverenciada pelos pescadores e aqueles que dependem do mar. Na Península, ocorrem rituais em sua homenagem, na passagem do ano. Além disso, na capela da inabitada Itaoca, encontra-se no centro do rústico altar, uma imagem de Iemanjá, cercada pelas outras imagens cristãs de Nossa Senhora, São Jorge, Jesus e São Cosme e Damião. Sobre essa capelinha também, é importante comentar, que guarda um enorme cruzeiro, que sustenta a capela e neste se encontra pendurado um tambor de folia, furado.

As interações entre a religiosidade cristã e os rituais coletivos festivos e sincréticos, podem ser por essas presenças nesta capela, percebidas em sua complexidade. Mas com certeza, o que guarda também é uma aura de passado, em ruínas, de algo que se acabou, e apenas vestígios, materiais ou orais que com o passar do tempo, tendem a extinção.

Outras manifestações de uma cultura arcaica, que guarda raízes no período colonial, foram encontradas nas outras praias. Houve uma menção reservada ao livro de S.Cipriano, feita por S.Aplígio, do Cairuçu das Pedras. Esse grande contador de histórias contou que esse livro era usado para fazer bruxarias e relatou um caso de um velho, lá do Cairuçu mesmo, que conseguiu se casar com a jovem sobrinha, graças aos conhecimentos do livro que tinha.

No Cairuçu das Pedras, uma das comunidades mais isolada da reserva e mais preservada também, existe um encantado na cachoeira grande. Essa entidade, mas parece um fenômeno, ou uma energia, que se manifesta em cachoeiras, lugares da costeira, em alto mar e picos das serras. Essa do Cairuçu faz desaparecer qualquer objeto que caia na água rasa e cristalina da queda. O Jango, personagem fabuloso e irmão mais novo de Francino, cesteiro, é que contou um a um todos os objetos perdidos, que por mais que eram procurados jamais voltavam, sendo esse efeito graças a esse encantado.

Há uma convivência com esses fenômenos sobrenaturais, já que a cachoeira é o lugar em que se faz a barba, se corta o cabelo, se namora e toma banho quando se tem algum compromisso especial. Em outras comunidades também houve relatos desses encantados, principalmente a Mãe do Ouro, muito conhecida na região. Contam que de sete em sete anos essa luz gigante sai de sua casa com um imenso estrondo indo do Pico do Frade, em Angra, para a Pedra da Arara, no Pouso. Existem variações que indicam outros trajetos como da Pedra da Arara para o Pico do Cairuçu.

Navios encantados, lobisomem corre sete praias, mulher de branco, homem de preto e a incrível história da curupira. Essa personagem é descrita como um animal peludo, sombrio, comedor de carne humana, morador de tocas do fundo da mata. O relato mais comum começa, com a história de um homem que morava na costeira e um dia foi seqüestrado pela curupira e obrigado a ter um filho com ela. Por aí a historia vai.

Encontramos quatro núcleos onde os moradores não apenas contam essas histórias, como também nelas tem profundo respeito e temor. Na Praia do Pouso, o jovem Gilson, filho do velho violeiro Miguel, sabe todo o repertório. Seus amigos, temerosos do aparecimento de alguma mula sem cabeça no caminho de casa, pedem a lanterna emprestada para voltar para casa. As crianças da Ponta Juatinga também, contam do lobisomem corre sete praias, e os já mencionados Cairuçu das Pedras e Ponta Negra. Essas comunidades não sofrem fortes influências das igrejas protestantes, razão pela qual talvez tenham mantido alguns relatos.

A essas manifestações culturais formadoras da identidade coletiva e alicerce das relações com o ambiente que os cerca, juntam-se as histórias do ciclo de Pedro Malasarte, do tempo em que os bichos falavam, histórias catalogadas como indígenas; as manifestações festivas, musicais e as rezas, que congregavam a comunidade nos fins de tarde, com as ladainhas e terços. Ao que parece, essas manifestações conseguiram conviver e inclusive se encaixar no calendário católico. Nesse sentido, parece que o catolicismo conseguiu conviver de forma mais sincrética com as manifestações da religiosidade e da cultura popular local.

Apesar das proibições, um sincretismo pode ser percebido, inclusive nos caiçaras protestantes. Seu Benedito do Mamanguá, e os tentos, Seu Maneco e o importante papel de seus sonhos na decisão de questões praticas. Sabe-se que é um costume indígena partilhado por diversas tribos, de considerar os sonhos como conselho, avisos ou premonições. No caso dos caiçaras não há como afirmar se seria uma herança indígena, mas na sociedade ocidental, e na cultura protestante em geral, os sonhos não são muito considerados.

Tamanha é a importância atribuída aos seus sonhos, que S.Maneco contou aos seus advogados, que para decidir entre eles, jovens e inexperientes recém-formados, entretanto considerados como filhos e um prolixo advogado de Ubatuba, que dava a causa como ganha, optou pelos primeiros, por causa de um sonho. Estava sua casa sendo levada por um vendaval muito forte, quando parou na beira de um abismo. Preocupado e assustado, foi quando uma criança, identificada como um de seus netos veio radiante e segurou em sua mão dizendo que não temesse. Havia sim um grande perigo, mas que Ele (Deus) mandaria bons anjos para lhe ajudar, anjos estes, que S.Maneco identificou como sendo seus jovens amigos advogados.

Entretanto, em locais como a Praia do Sono, onde a chegada das igrejas evangélicas foi na época dos pais dos mais velhos, é dito por estes quando entrevistados para esta pesquisa, nunca ter havido lá nenhum baile, nenhuma história, nenhuma procissão. Mas os moradores da vizinha Ponta Negra, afirmaram ter ido muitas vezes aos bailes da Praia do Sono. Essa negação de um passado também acompanha uma desestruturação simbólica da identidade seja coletiva ou individual. Esse processo foi como que uma etapa preliminar, que serviu para a desconstrução da identidade coletiva, o rompimento dos laços de solidariedade e defesa, favorecendo os processos seguintes da grilagem, da reserva e do turismo.

Foi inclusive, na Praia do Sono, maior comunidade protestante da Península, que ocorreu um dos mais conhecidos episódios de grilagem da península. A maioria dos moradores já era protestante, freqüentadores da igreja que se situa na parte central da praia. Havia um pastor residente, que foi substituído por outro, colocado pelo Gibrail velho. Esse pastor conquistou a confiança dos moradores, afinal era seu guia espiritual, e se aproveitou de sua posição na comunidade, para favorecer os interesses do grileiro. Chamou os moradores e entregou a eles um documento para ser assinado, explicando que se tratava de uma tentativa para regularizar a situação dos moradores da praia, sendo que assinando o documento, seria entregue então o documento da posse.

O que foi descoberto depois é que este documento se tratava de um termo de comodato, favorecendo Gibrail Tannus. Os moradores da Ponta Negra, também foram convidados pelo pastor para assinarem o documento, mas por não serem protestantes, desconfiaram da proposta e se negaram a participar. Percebe-se então, como estão relacionados esses atores políticos: pastores, grileiros, moradores e que poder de persuasão a religião possui para esses caiçaras.

Hoje, o que vemos nessa praia, são filhos e netos dos mais velhos já desconversos. Orgulham-se de não participarem de uma doutrina tão severa, que os obrigava a entrar no mar vestidos, não dançar, não conversar ou namorar não-protestantes, coisas que parecem a eles exageradas ou despropositadas. Assim, esses jovens da Praia do Sono, vão para Paraty dançar ciranda e brincar Folia de Reis. Seus pais, desconversos também se mostram satisfeitos pelos filhos poderem fazer coisas que a eles foram negadas.

Há talvez um processo natural de resgate das antigas manifestações culturais, apesar da grande expansão das religiões protestantes, nessa e nas regiões circunvizinhas. Muito da severidade dessas religiões é questionada através das novas percepções de mundo que chegam através do turismo, dos moradores que foram estudar em Paraty e voltaram, da mídia e da própria reflexão dos caiçaras sobre as práticas coletivas do passado que são percebidas como partes constitutivas do ser caiçara, identidade a qual pertencem e valorizam.

Com a extinção das práticas e atribuição de demoníaco a um conjunto de valores, partes fundamentais das práticas que organizavam o grupo foram proibidas. Essa desarticulação do complexo simbólico do povo caiçara, trouxe conseqüências materiais, ao se perderam as redes de compadrio, havendo a separação do grupo, em “crentes” e “não-crentes”, associado a ruptura dos sistemas de transmissão de conhecimento da história grupal, via oralidade e o fim dos lugares em que os eventos sociais ocorriam. Esse processo marcou o fim dos encontros em que as diferentes faixas etárias se reuniam bem como, os das comunidades isoladas se encontravam. Se os outros processos advindos da urbanidade também colaboraram como a desvalorização das práticas coletivas, das festas como algo arcaico, e o êxodo rural; apenas o protestantismo teve um caráter realmente proibitivo dessas atividades, o que não deve ser colocado em segundo plano.




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