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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM AGRONEGÓCIOS

DISCIPLINA DE MÉTODOS ESTATÍSTICOS

Aspectos legais da adição de farinha de arroz à de trigo: Contribuição à análise técnico-econômica

Trabalho apresentado como requisito parcial do processo de avaliação da disciplina de Métodos Estatísticos, sob a orientação do professor Dr. Paulo Waquil (publicado na Revista Lavoura Arrozeira).


Angélica Magalhães
Novembro/2006

Adição de farinha de arroz à de trigo: Contribuição à análise técnico-econômica

Angélica Magalhães - CEPAN- UFRGS


INTRODUÇÃO

A utilização do arroz na forma de farinha é milenar. Segundo Ormenese & Chang (2002), o macarrão é um produto que foi inventado originalmente pelos chineses, alguns milhares de anos antes de Cristo, processado com farinha de arroz. Mais tarde as massas começaram a conquistar os países ocidentais, que passaram a produzi-las a partir da farinha de trigo. Os orientais, particularmente os chineses, permaneceram utilizando massas de arroz desde a Antigüidade.

Na década de 70, pesquisadores italianos verificaram a viabilidade de utilização de farinhas alternativas ao trigo na fabricação de pasta e ressurge aí (no mundo ocidental) o macarrão de farinha de arroz (PAGANI & RESMINI, 1981).

No Brasil a farinha de arroz é utilizada há bastante tempo, mas como matéria-prima para a fabricação de alimentos industrializados, em particular os cereais instantâneos, não sendo relevante o uso doméstico da farinha in natura.

Em 2002, agrônomos do IRGA (Evely Rucatti e Valfredo Basler) propuseram um projeto de pesquisa com utilização de farinha de arroz em pães como forma de incrementar o consumo desse alimento. A idéia central era desenvolver pães mistos de arroz e trigo, com utilização de uma máquina de fazer pão, em cozinha experimental.

Esse projeto se justificava no fato de que a lavoura arrozeira gaúcha vinha apresentando superávits de produção, quando começavam a ser colhidos os resultados da aplicação das novas tecnologias de produção. Em não havendo apoio governamental à comercialização, disciplinamento da oferta e demanda e nem garantia de preços ao produtor, promovendo a sustentabilidade do setor; pensou-se na possibilidade da adição compulsória de farinha de arroz à de trigo na indústria de panificação e pastifício (macarrão), como uma saída para a crise, ampliando as possibilidades de mercado. Na época em que o projeto foi proposto, a finalidade era demonstrar esta possibilidade a exemplo da adição de álcool à gasolina.

Em 2005, a alta produtividade da lavoura arrozeira nacional, somada às importações da Argentina e Uruguai, tencionava os preços para baixo e determinava resultados econômicos inconsistentes, inversamente proporcionais ao avanço dos resultados advindos do desenvolvimento tecnológico. Assim, contraditoriamente, o arroz, com boa rentabilidade de lavoura e excelente qualidade de grão, apresentava em nível nacional, consumo total estagnado, redução do consumo per capita e, conseqüentes dificuldades de mercado (BARATA,2005).

Isso levou o IRGA a lançar uma campanha para incentivo ao consumo de arroz, na qual a farinha de arroz passa a ser vista como um meio eficaz de aumento de mercado, tendo em vista a transição da cultura alimentar brasileira, determinada pela inserção cada vez maior da mulher no mercado de trabalho; sendo o consumo alimentar deslocado para alimentos de preparo rápido, refeições prontas, sanduíches e biscoitos. De acordo co Barata, (2005) desenha-se assim, um mercado interessante para produtos diferenciados, de fácil preparo e que tenham um apelo à saúde, como seria o caso da farinha de arroz.

Simultaneamente, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Fundação Universitária de Rio grande (FURG), Universidade Paulista (USP) se dedicaram a pesquisas que comprovassem a viabilidade de utilização de farinha de arroz em substituição à farinha de trigo em pães, bolos, biscoitos e macarrão.

Em 2002 a Universidade Federal de Santa Catarina conduziu uma pesquisa sobre o uso culinário, valor nutricional e custo de farinha de arroz. Esse estudo culminou com a inserção de farinha de arroz e macarrão de arroz no Programa de Alimentação Escolar da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis que atende cerca de 26 mil crianças (MAGALHÃES et al., 2005)

E
Panquecas de farinha de arroz
m 2006 o IRGA, através da Campanha de Incentivo ao Consumo do Arroz, passou a divulgar e promover o consumo de farinha de arroz a partir de uma parceria com o Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, incluindo as atividades de uma pesquisa de Doutorado.

Essas atividades incluíram desde preparações culinárias na Cozinha Experimental do IRGA, palestras e seminários sobre a viabilidade de inclusão da farinha de arroz na lista de compras dos Programas de Alimentação Escolar, cursos de culinária para merendeiras até uma oficina na Semana Mundial da Alimentação em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Paralelamente a esse trabalho foi apresentada, por um Deputado Federal gaúcho, na Câmara dos Deputados em Brasília, uma Emenda Modificativa (EMC-03/2006) ao Projeto de Lei 4.679/2001, a qual determina que “os estabelecimentos comerciais pertencentes ao ramo da moagem e beneficiamento de trigo, observado o disposto no artigo 4º desta Lei, somente poderão comercializar farinha de trigo quando adicionadas de farinha de mandioca refinada, farinha de raspas de mandioca, de fécula de mandioca ou de farinha de arroz (Oryza sativa)”

Essa Emenda Modificativa requer uma substancial fundamentação, a qual foi solicitada ao IRGA, que constituiu uma Comissão Interinstitucional, convidando representantes dos produtores de arroz, da indústria, de consumidores e de Instituições de Ensino e Pesquisa, que conjuntamente com técnicos e pesquisadores do IRGA estão elaborando um Parecer Técnico, baseado em características nutricionais e sensoriais do arroz, viabilidade econômica e viabilidade técnica de processamento.

Este trabalho visa realizar um estudo comparativo do comportamento do preço médio de farinha de arroz e farinha de trigo, assim como uma relação entre o preço desses produtos e a variação do dólar, uma vez que mais de 50% da farinha de trigo consumida no Brasil é importada e a farinha de arroz é nacional.

METODOLOGIA
Para este trabalho foram feitas análises estatísticas entre o preço da farinha de trigo e da farinha de arroz, além da variação cambial Real/Dólar. A amostra compõem-se de 57 observações. Essa limitação na série de dados deve-se ao fato de que não existem dados confiáveis para a farinha de arroz, anteriores a janeiro de 2002.

A fonte dos dados para a farinha de trigo é o IPEADATA. A série de dados mensal é formada pelos preços praticados entre 01/2002 e 08/2006 para farinha de trigo. As notas metodológicas do IPEA explicam que esses valores são para embalagens de 50 kg vendidas no atacado. Os valores referentes à farinha de arroz foram preços praticados por uma indústria do estado de Santa Catarina, a qual cedeu as informações para a realização deste trabalho. Esses valores foram praticados no atacado para fardos de 30kg. O cálculo da deflação foi feito com utilização do IGP-DI (IPEADATA).

O valor do dólar comercial no mesmo período foi coletado na base de dados ACINH e a deflação foi calculada com base nos dados do Fundo Monetário Internacional.

Os dados foram analisados com utilização do programa Microsoft Excel. Todos os valores estão deflacionados, o que metodologicamente permite uma comparação mais robusta, em virtude de estarem todos os valores na mesma data.

A análise estatística foi feita em duas etapas. Na primeira foi feita uma análise descritiva e na segunda fase foi feita uma análise de regressão. A analise de regressão é utilizada para estabelecer relações causais entre as variáveis de forma mais clara. A simples análise de correlação não estabelece a relação causal, e muitas vezes a correlação é um teste fraco para estabelecer a associação entre as variáveis. A análise estatística precisa ser relativizada, pois estamos tratando com amostras, dados de fontes diferentes e um universo grande de informações. As conclusões desse estudo são de caráter parcial, é preciso ficar bem claro a limitação dos métodos estatísticos, embora seja útil para o objetivo proposto neste trabalho.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nesta seção apresentaremos os dados e discutiremos os resultados relativos ao objetivo deste trabalho.



A tabela 1 mostra o resumo estatístico, que serve para observar a média dos preços praticados no período, além dos preços mínimos e máximos.
Tabela 1: Resumo Estatístico

Farinha de trigo

Farinha de arroz













Média

0,97297387

Média

0,873627554

Erro padrão

0,02262654

Erro padrão

0,021149156

Mediana

0,94934836

Mediana

0,872240878

Modo

#N/D

Modo

#N/D

Desvio padrão

0,16932149

Desvio padrão

0,158265789

Variância da amostra

0,02866977

Variância da amostra

0,02504806

Curtose

0,56218202

Curtose

-1,075043519

Assimetria

0,85269668

Assimetria

-0,299389843

Intervalo

0,76161542

Intervalo

0,553004194

Mínimo

0,67558276

Mínimo

0,579756908

Máximo

1,43719818

Máximo

1,132761102

Soma

54,4865369

Soma

48,92314302

Contagem

56

Contagem

56

Fonte: elaboração da autora.

Ao analisar a tabela 1, pode-se observar que o preço médio da farinha de trigo (R$ 0,97) é superior ao preço médio de farinha de arroz (R$ 0,87), no período estudado. O preço mínimo observado para a farinha de trigo no período estudado foi de R$ 0,67 e o máximo foi de R$ 1,43. Já o preço da farinha de arroz variou entre um mínimo de R$ 0,57 e R$ 1,13. Isso mostra que mesmo o valor máximo praticado para a farinha de arroz, não foi superior ao preço máximo que atingiu a farinha de trigo no mesmo período.


Fonte: Elaboração da autora.



Gráfico 1: Variação dos preços de farinha de trigo, farinha de arroz e cotação do dólar (valores deflacionados) no período de janeiro de 2002 a agosto de 2006
Ao analisar o gráfico 1 pode-se perceber que ao longo do período houve predominância de períodos em que o preço da farinha de arroz foi inferior ao preço da farinha de trigo. As linhas de tendência mostram que tanto a farinha de arroz quanto a farinha de trigo tiveram uma tendência linear de redução dos valores. No entanto. as variações dos preços tiveram alterações em alguns períodos e isso requer uma análise mais detalhada para verificar quais variáveis foram determinantes dos ciclos e choques (quebra de safra, intempéries, redução de área cultivada, política cambial, outras).

De maneira auxiliar pode-se fazer o teste da hipótese das médias dos preços serem iguais ou não. Segundo SARTORIS (2003) os testes de média podem ser feitos com o teste t de Student. A suposição de normalidade da amostra assegura uma maior consistência no teste. Como a amostra é formada por mais de 30 elementos a suposição de normalidade, que apresenta media zero e variância 1, é válida.

Para tanto foi feito o teste t de Student para médias iguais (tabela 2). O objetivo é verificar se o trigo e o arroz têm a mesma média no período analisado. Mesmo que os dados tenham demonstrado valores diferentes. A hipótese a ser testada é:
H0: 1=2

H1: 1≠ 2


Tabela 2: Teste-t de duas amostras presumindo variâncias diferentes

 

Variável 1

Variável 2

Média

0,969963691

0,869466411

Variância

0,02796626

0,024669104

Observações

58

58

Hipótese da diferença de média

0




gl

114




Stat t

3,336026465




P(T<=t) uni-caudal

0,000573854




t crítico uni-caudal

1,65832997




P(T<=t) bi-caudal

0,001147708




t crítico bi-caudal

1,980992234

 

Fonte: Elaboração da autora

Pelos resultados mostrados na tabela 2 rejeita-se a hipótese nula. A estatística t está fora da região de aceitação da hipótese nula, o que demonstra a diferença das médias.



CONCLUSÃO

Considerando-se que muitos países buscam encontrar novos usos para seus produtos agrícolas, uma vez que a comoditização torna o produtor rural dependente de condições alheias ao seu controle e relembrando o objetivo deste trabalho que foi o de realizar um estudo comparativo do comportamento do preço médio de farinha de arroz e farinha de trigo, visando fornecer elementos para análise técnico-econômica da adição obrigatória de farinha de arroz à de trigo, conclu-se que, a partir dos dados apresentados e das análises feitas pode-se preliminarmente afirmar que a utilização de farinha de arroz não consistiria em fator de aumento do custo de derivados dos produtos de panificação e pastifício, uma vez tornando-se obrigatória sua adição a toda farinha de trigo processada no Brasil.




Referências

  1. BARATA, Tiago Sarmento. Caracterização do Consumo de Arroz: Um Estudo na Região Metropolitana de Porto Alegre. Porto Alegre, 2005. 187 p. Dissertação (Mestrado em Agronegócios). Cepan/UFRGS.




  1. BRASIL, Câmara dos Deputados: e-legis. Disponível em www.camara.gov.br




  1. MAGALHÃES A.; COUTO, A. HEINEN, J.; HÜLSE, S. Viabilidade de inserção da farinha de arroz no programa de Alimentação escolar no município de Florianópolis. IV CONGRESSO BRASILEIRO DE ARROZ IRRIGADO. Santa Maria, 2005: UFSM, 2005. Anais...




  1. ORMENESE, R.; CHANG, Y.. MASSAS ALIMENTÍCIAS DE ARROZ: UMA REVISÃO. Boletim Centro de Pesquisa de Processamento de Alimentos, v. 20 n. 2 p.175-190 jul/dez 2002




  1. PAGANI, M. A.; RESMINI, P. Formulazioni e producioni di pasta alimentare a partir de materie prime non convenzionali. Técnica Molitoria. V.32, n.5. 1-24, 1981




  1. SARTORIS, A. Estatística e introdução a Econometria. São Paulo: Saraiva, 2003.


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