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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

Programa de Pós-Graduação em Educação Agrícola –PPGEA

EDUCAÇÃO E MULTIDISCIPLINARIDADE

Filosofia e Educação Profª Drª Lucília Augusta Lino de Paula
FILOSOFIA: Uma introduçãoi
Quem não ouviu pelo menos uma vez falar em Filosofia? Aqui e acolá, encontramos em conversas ou nos textos que lemos os nomes dos famosos gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Quantos de nós, e quantas vezes, já não tivemos a oportunidade de ouvir alguém dizendo: “pela minha filosofia, considero certo isto ou aquilo”? Mas o que significa, de fato, a Filosofia? Nós já nos pusemos a pensar nisto?

Na história do pensamento, que a humanidade vem construindo ao longo do tempo, muitos foram os pensadores que deram uma definição ou um conceito para a Filosofia. Por vezes, esses conceitos foram complexos, por vezes simples; por vezes rebuscados e quase incompreensíveis. Diante deles muitas pessoas se sentem entediadas e, em vez de enfrentar o problema, preferem descartá-lo, dizendo que a Filosofia é um “jogo inútil e estéril de palavras”, ou que é “muito difícil e só serve e interessa a pessoas especiais e muito inteligentes”. Esse descrédito pode ser resumido numa frase, mais ou menos popular, que diz: “a filosofia é uma ciência com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual”. Ou seja, podemos passar muito bem com ou sem a filosofia.

Fugindo tanto do emaranhado histórico dos conceitos elaborados quanto do descrédito que as pessoas lançam em relação à filosofia, vamos tentar conceituá-la de uma forma simples e existencial, para que possamos compreender o que ela é e verificar o seu significado para a vida humana. A Filosofia é um corpo de conhecimento, constituído a partir de um esforço que o ser humano vem fazendo de compreender o seu mundo e dar-lhe um sentido, um significado compreensivo. Corpo de conhecimentos, em filosofia, significa um conjunto coerente e organizado de entendimentos sobre a realidade. Conhecimentos estes que expressam o entendimento que se tem do mundo, a partir de desejos, anseios e aspirações.

Quando lemos um texto de filosofia, nos apropriamos do entendimento que o seu autor teve do mundo que o cerca, especialmente dos valores que dão sentido a esse mundo. Valores esses que, por vezes, são aspirações que deverão ser buscadas e realizadas, se possível. O filósofo sistematiza as aspirações dos seres humanos que dão sentido ao dia-a-dia, à luta, ao trabalho, à ação. Ninguém vive o dia-a-dia sem um sentido: para o seu trabalho, para a sua relação com as pessoas, para o amor, para a amizade, para a ciência, para a educação, para a política etc.

A filosofia é esse campo de entendimento que nos faz refletir sobre a cotidianidade dos seres humanos, desde os simples encontros com as pessoas, até a complexa reflexão sobre o sentido e o destino da humanidade.

A Filosofia se manifesta ao ser humano como uma forma de entendimento que tanto propicia a compreensão da sua existência, em termos de significado, como lhe oferece um direcionamento para a sua ação, um rumo para seguir ou, ao menos, para lutar por ele. Ela estabelece um quadro organizado e coerente de “visão de mundo” sustentando, conseqüentemente, uma proposição organizada e coerente para o agir. Nós não “agimos por agir”, mas, sim, por uma certa finalidade. As finalidades restritas são aquelas que se referem à obtenção de benefícios imediatos, tais como: comprar um carro, assumir um cargo. As finalidades mais amplas são aquelas que se referem ao sentido da existência: buscar o bem da sociedade, lutar pela emancipação dos oprimidos, lutar pela emancipação de um povo etc. Isso tudo, por quê? Certamente devido ao fato de que a vida só tem sentido se vivida em função de valores dignos e dignificantes. Desse modo, a filosofia é um corpo de entendimentos que compreende e direciona a existência humana em suas mais variadas dimensões.

Nesse sentido, Georges Politzer definiu a filosofia “como uma concepção geral do mundo da qual decorre uma forma de agir”. No caso, a Filosofia é a expressão de uma forma coerente de interpretar o mundo que possibilita um modo de agir também coerente, conseqüente, efetivo. Da mesma forma, para Leôncio Basbaum,

“a filosofia não é, de modo algum, uma simples abstração independente da vida. Ela é, ao contrário, a própria manifestação da vida humana e a sua mais alta expressão. Por vezes, através de uma simples atividade prática, outras vezes no fundo de uma metafísica profunda e existencial, mas sempre dentro da atividade humana, física ou espiritual, há filosofia (...) A filosofia traduz o sentir, o pensar e o agir do homem. Evidentemente, ele não se alimenta da filosofia, mas, sem dúvida nenhuma, com a ajuda da filosofia”.

Todos têm uma forma de compreender o mundo, especialistas e não-especialistas, escolarizados e não-escolarizados, analfabetos e alfabetizados. Esta é uma necessidade “natural”, do ser humano, pois que ninguém pode agir no “escuro”, sem saber para onde vai e por que vai. Só se pode agir a partir de um esclarecimento do mundo e da realidade. Esse fato é tão verdadeiro que encontramos modos de compreensão da realidade tanto no profissional de filosofia (o filósofo), quanto em qualquer pessoa que viva e reflita sobre ela, seu sentido, significado, valores etc... A prova disso está aí: de um lado, pelos sistemas filosóficos que encontramos na história do pensamento filosófico escrito da humanidade e, de outro lado, pela forma popular de compreender a vida que, normalmente, não tem registro escrito, a não ser nos poetas populares, nos trovadores etc.

Certamente que a orientação valorativa (axiológica) da existência nem sempre pode significar filosofia. Quando se diz que todos têm uma “filosofia de vida”, quer dizer que nos orientamos por valores, embora nem sempre esses valores estão conscientes, explícitos. Esse direcionamento diário inconsciente pode decorrer de massificação, do senso comum, que adquirimos e acumulamos espontaneamente, sem uma reflexão crítica sobre o sentido e o significado das coisas, das ações e portanto não é filosofia. Certamente que outras pessoas, as gerações, formaram esse “senso” com o qual cumprimos o dia-a-dia, sem muitas vezes nos perguntarmos se ele é válido ou não, se o aceitamos efetivamente ou não, por isso o filosofar deve desenvolver-se sobre ele.

O que importa ter claro, é o fato de que a filosofia nos envolve, não temos como fugir dela, pois como o ar que respiramos, está permanentemente presente. Se nós não escolhemos qual é a nossa filosofia, qual é o sentido que vamos dar à nossa existência, a sociedade na qual vivemos nos dará, nos imporá a sua filosofia. E como se diz que o pensamento do setor dominante da sociedade tende a ser o pensamento dominante da própria sociedade, provavelmente aqueles que não buscam criticamente o sentido para a sua existência assumirão esse pensamento dominante como o seu próprio pensamento, a sua própria filosofia. Quem não pensa é pensado por outros! Deste modo, a filosofia se manifesta como o corpo de entendimento que cria o ideário que norteia a vida humana em todos os sues momentos e em todos os seus processos. Esse corpo de entendimento é a compreensão da existência.

A Filosofia, em síntese, não é tão-somente uma interpretação do já vivido, daquilo que está objetivando, mas também a interpretação de aspirações e desejos do que está por vir, do que está para chegar. Os filósofos captam e dão sentido à realidade que está por vir e a expressam como um conjunto de idéias e valores que devem ser vividos, difundidos, buscados. Eles têm uma “sensibilidade”, um “faro” mais atento para perceber o que já está se manifestando na realidade, ainda que de uma maneira tênue. O filósofo não é um profeta, mas pode ser capaz de ler nos acontecimentos do presente o significado do que está por vir, o que está a se desenvolver. O seu pensamento torna-se, assim, expressão da história que está acontecendo e enquanto está acontecendo, e compreensão do que vai acontecer. Deste modo, o pensamento filosófico manifesta-se tanto como condicionado pelo momento histórico quanto como condicionante do momento histórico subseqüente, como impulsionador da ação, visando a concretização de determinadas aspirações dos homens, de um povo, de um grupo ou de uma classe.

Neste sentido, a filosofia é uma força, é o sustentáculo de um modo de agir. É uma arma na luta pela vida e pela emancipação humana. A filosofia, não é só um instrumento para a compreensão do mundo e interpretação dos seus fenômenos. É também um instrumento de ação e arma política. Esse fato é tão verdadeiro que a filosofia tem gerado, ao longo da história humana, atitudes contraditórias e paradoxais. Governos que, de um lado, alijam a filosofia como subvertedora da ordem, de outro, contratam especialistas para criarem um pensamento, uma forma de conceber o mundo que garanta a sua forma de administrar politicamente o povo e a nação.

Não há como negar a filosofia sem fazer filosofia, porque para se negar o valor da filosofia dentro do mundo é preciso ter uma concepção do mundo que sustente esta negação. Os maus políticos, efetivamente, agem assim. Preferem a massificação do povo, por isso impedem o desenvolvimento do pensamento filosófico. Mas “filosofam” para sustentar sua ação deletéria contra a Filosofia. Vale lembrar os esforços dos governos totalitários na perspectiva de criar “uma filosofia capaz de justificar o sentido de sua política e propagá-la como filosofia total do universo” (Leôncio Basbaum).

Em síntese, a filosofia é uma forma de conhecimento que, interpretando o mundo, cria uma concepção coerente e sistêmica que possibilita uma forma de ação efetiva. Essa forma de compreender o mundo tanto é condicionada pelo meio histórico, como também é seu condicionante. Ao mesmo tempo, é uma interpretação do mundo e é uma força de ação.

É importante destacar que, as vezes, o pensamento filosófico estabelecido serve aos interesses do poder dominante. Por exemplo, o pensamento filosófico-político que Aristóteles expõe no seu livro Política nada mais é do que a expressão dos anseios do segmento dominante da sociedade de Atenas e assim muitos outros. Também, o contrário é verdadeiro, ou seja, que o pensamento filosófico de muitos autores serve à luta de transformação. A exemplo, lembramos aqui a força do pensamento dos socialistas utópicos, como Robert Owen, Saint-Simon; dos socialistas científicos, como Marx e Engels; dos revolucionários, como Lênin, Mao Tse Tung, Amílcar Cabral etc. O pensamento filosófico constituído não é “limpo”, neutro, mas sim embebido de história e de seus problemas, de seus interesses e aspirações.


O processo do filosofar

Já vimos que quando não temos um corpo filosófico que dê sentido e oriente a nossa vida, assumimos o que é comum e hegemônico na sociedade; assumimos o “senso comum”, que é o conjunto de valores assimilados espontaneamente, na vivência cotidiana. Mas, como é que se constitui a filosofia, como se constrói esse corpo de entendimentos, que poderemos assumir criticamente como aquele que queremos para o direcionamento de nossas experiências. Em primeiro lugar, temos que superar os preconceitos sobre a dificuldade e a especialidade da filosofia, pois ela não é inútil e nem tão difícil e complicada assim que só gente ultra-especializada pode fazer. Logo, contrariando muitos governantes e políticos, podemos e devemos nos dedicar ao filosofar.

Para iniciar o exercício do filosofar, a primeira coisa a fazer é admitir que vivemos e vivenciamos valores e que é preciso saber quais são eles. O primeiro passo do filosofar é inventariar os valores que explicam e orientam a nossa vida, e a vida da sociedade, e que dimensionam as finalidades da prática humana. Assim, é preciso se perguntar quais são os valores que dão sentido e orientam a vida familiar, se se estiver analisando a família; quais valores compreendem e orientam a vida econômica, se se estiver questionando a economia; quais valores compreendem e orientam a educação, se esta for o objeto de estudo e assim por diante. É preciso, pois, tomar consciência das ações, do lugar onde se está e da direção que toma a vida. Direção que nasce tanto da consciência popular como da sedimentação do pensamento filosófico e político que se formulou e se divulgou na sociedade com o passar do tempo.

Feito esse inventário, que certamente nunca será completo e é tão abrangente quanto todos os setores da vida, é preciso passar para um segundo momento - o momento da crítica. Tomar esses valores e submetê-los a uma crítica, questioná-los por todos os ângulos possíveis para verificar se são significativos e se, de fato, compõem o sentido que queremos dar à existência. Fazer passar pelo crivo da crítica todos os valores vigentes que dão sentido à nossa cotidianidade. A crítica é um modo de penetrar dentro desses valores, descobrindo-lhes sua essência. É uma forma de colocá-los em xeque e desvendar-lhes os segredos.

Contudo, ninguém pode viver exclusivamente da negação, do processo de “vasculhação” dos valores. Não se vive na negatividade. Então, importa um terceiro momento do filosofar: a construção crítica dos valores que sejam significativos para compreender e orientar nossas vidas individuais e dentro da sociedade. Valores que sejam suficientemente válidos para guiar a ação na direção que queremos ir.

São, pois, em síntese, três passos: inventariar os valores vigentes; criticá-los; reconstruí-los. É um processo dialético que vai de uma determinada posição para a sua superação teórico-prática.

Filosofar é simples, porém não é algo mecânico, pos na mesma medida em que estamos inventariando os valores vigentes, estamos criticando-os e reconstruindo-os. Esses momentos não são separados, pois um nasce de dentro do outro. Estudando as correntes teóricas e históricas da filosofia vemos que certos entendimentos da modernidade têm vínculos com a Idade Média, e certos valores, que vivemos hoje, tiveram seus prenúncios na Idade Moderna. Da mesma forma, quando iniciamos um processo de crítica dos valores enquanto estão vigentes, mas também enquanto entre eles iniciam-se os prenúncios de certas aspirações e anseios dos seres humanos. Assim, por exemplo, Herbert Marcuse, um filósofo alemão contemporâneo, criticou os valores da sociedade industrial e propôs os valores de uma nova sociedade preocupada com uma vida menos unidirecionada para a produtividade econômica e mais voltada para a vida plena, com sentimentos, emoções, amor, vida etc. Como e por que Marcuse conseguiu se posicionar dessa forma? Porque nasceu e viveu após a Revolução Industrial, podendo inventariar e criticar os seus valores. E também por ter vivido num momento histórico em que os seres humanos estão exaustos desses valores e aspirando por outros que lhes garantam mais vida. Marcuse entrou na corrente do contexto em que viveu, mas isso não quer dizer que ele seja um puro reprodutor dessa época, mas sim que ele captou o “espírito” dessa época.

Para filosofar (inventariar conceitos e valores; estudar e criticar valores; estudar e reconstruir conceitos e valores), é preciso não só olhar o dia-a-dia, mas ler e estudar o que disseram os outros pensadores, os outros filósofos, que poderão nos auxiliar, tirando-nos do nosso nível de entendimento e dando-nos outras categorias de compreensão. O nosso exercício do filosofar será um esforço de inventário, crítica e reconstrução de conceitos, auxiliados pelos pensadores que nos antecederam. Eles têm uma contribuição a nos oferecer, para nos auxiliar em nosso trabalho de construir nosso entendimento filosófico do mundo e da ação.


(texto adaptado: LUCKESI, Cipriano C. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994.)


Freqüentemente os manuais tradicionais principiam por definir a Filosofia, delimitar sua “essência”, seu objetivo específico de pesquisa, sua identidade. E precisamente neste ponto acabam criando uma séria polêmica, pois só acabam empobrecendo a compreensão da filosofia ou então reduzido o debate ao círculo dos iniciados, isto é, os próprios “filósofos”. A questão da identidade da Filosofia é portanto, a primeira grande questão filosófica.

Hoje, geralmente se define a Filosofia em oposição ao conceito de ciência, entendido como pesquisa empírica da realidade. Houve tempos em que a filosofia foi definida em oposição à teologia, como na Idade Média; e em outras épocas a filosofia se opunha ao conceito de mito, como entre os gregos do século V a. C.

Etimologicamente, a palavra “filosofia” formou-se pela junção de Filos-filia” que significa “amigo” e “Sophia” que é “sabedoria, saber”, e surge na Grécia do século VI a. C., nos escritos de Pitágoras, que não querendo definir-se como “sábio”, prefere autodenominar-se “Filos-sophos” - ou seja “amigo do saber”, aquele que busca a sabedoria, “amante da sabedoria”, para ele uma denominação mais fiel à sua postura de tentar compreender a realidade de seu tempo.

Podemos observar que a filosofia, desde sua definição originária, se faz compreender como um saber sobre o homem, sobre o mundo, sobre a própria realidade; um processo sempre dinâmico de apreensão das significações históricas da realidade humana de maneira humilde e processual. O verdadeiro filósofo rejeita o status de “possuidor da verdade”, como se fosse possível conhecê-la ou ainda, que alguém fosse capaz de apreender a totalidade da realidade. Ao contrário, compreende a precariedade de sua busca e o dinamismo do próprio processo de definição das “verdades” de cada época.

A filosofia consiste, então, em um conhecimento sistematizado sobre o mundo da natureza, sobre a condição humana pessoal e social, sobre a sociedade, sobre a cultura. Alcançado de maneira sistemática e disciplinada, indo além do saber comum, desconexo, fragmentado, o nível do senso comum, geralmente preconceituoso e limitado, sobre a realidade pessoal, social e da natureza.

No entanto a filosofia tem incomodado a muitos. A história registra muitas tentativas e empreitadas em destruí-la, desqualificá-la, negá-la. Os tiranos, os mistificadores, os dominantes e todos os interessados na alienação e mediocridade do povo preferem um consciência de rebanho, de fácil manipulação, cativa e obediente, a um questionamento sistemático e profundo sobre a realidade. Não foram poucos os filósofos que pagaram com a vida ou a perda da liberdade a ousada postura de filosofar sobre o seu tempo.

As máximas de Sócrates - “Uma vida que não é examinada não merece ser vivida” e “Conhece-te a ti mesmo” - tem permanecido como horizonte e estímulo, incitando os homens a assumir como sujeitos as responsabilidades sobre a própria existência.

A Filosofia tem portanto, como todas as ciências, os limites da própria história do homem. Não se pode mais pensá-la como um conjunto de “verdades” perenes ou um método etéreo de pesquisar as últimas causas de tudo o que existe. Ela tem sempre a marca da precariedade das significações, o provisório das sínteses necessárias ao homem em um determinado momento e realidade. Neste sentido a sua grandeza está mesmo no processo, de proposição sempre crítica destas questões fundamentais. Pois necessariamente a vida, a cultura, a história, a significação da existência são questões fundamentais, bem como a questão do saber, do conhecimento, da sociedade. Desprezar a Filosofia significa desprezar estas questões, equivale a adiar uma das mais ricas experiências do humano - a experiência do sentido das coisas.

Há até um forte estereótipo social sobre o filósofo, como se fosse um pesquisador de coisas descabíveis, um alienado, alguém “fora da realidade”. É bem certo que este mito serve a interesses bem definidos. Para Gramsci, “todos os homens são filósofos, enquanto pensam (...) enquanto refletem sobre a cultura, a linguagem e o



mundo que recebem ao nascer (...) assumindo-o não de maneira pronta passiva, mas de maneira crítica e

responsável.”

A proposta original da Filosofia é estabelecer uma crítica a uma determinada concepção de mundo, alinhavar alguma significação para a existência humana, pessoal e social e se tornar uma teoria de alcance eficaz no permanente processo de mudança e construção social da realidade.

Não existe pensamento filosófico uniforme. Existem diversas tendências, métodos, escolas e tradições diferentes. Determinada tendência filosófica perdura enquanto existirem as condições históricas que lhe deram origem. Cabe a cada homem exercitar o seu “ser filósofo”, pôr-se em busca de uma apreensão significativa da cultura, de uma crítica leitura da realidade e de uma ação engajada no mundo.

A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:



Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos?

O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos?

Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos?

Perguntaram certa vez, a um filósofo: “Para que Filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.


(Texto adaptado : NUNES, César Aparecido. Aprendendo Filosofia. Campinas: Papirus, 1993)

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[...] E que significa reflexão? A palavra nos vem do verbo latino “reflectere” que significa “voltar atrás”. É, pois, um re-pensar, ou seja, um pensamento em segundo grau. Poderíamos, pois, dizer: se toda reflexão é pensamento, nem todo pensamento é reflexão. Este é um pensamento consciente de si mesmo, capaz de se avaliar, de verificar o grau de adequação que mantém com os dados objetivos de medir-se com o real. Pode aplicar-se às impressões e opiniões, aos conhecimentos científicos e técnicos, interrogando-se sobre o seu significado. Refletir é o ato de retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, vasculhar numa busca constante de significado. É examinar detidamente, prestar atenção, analisar com cuidado. E é isto o filosofar.

[...] com efeito, o aprofundamento na compreensão dos fenômenos se liga a uma concepção geral da realidade, exigindo uma reinterpretação global do modo de pensar essa realidade. Então, a lógica formal, em que os termos contraditórios mutuamente se excluem (princípio de não-contradição), inevitavelmente entra em crise, postulando a sua substituição pela lógica dialética, em que os termos contraditórios mutuamente se incluem (princípio de contradição, ou lei da unidade dos contrários). Por isso, a lógica formal acaba por enredar a atitude filosófica numa gama de contradições freqüentemente dissimuladas através de uma postura idealista, seja ela crítica (que se reconhece como tal) ou ingênua (que se autodenomina realista). A visão dialética, ao contrário, nos arma de um instrumento, ou seja, de um método rigoroso (crítico) capaz de nos propiciar a compreensão adequada da realidade e da globalidade na unidade da reflexão filosófica.

(Texto adaptado: SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica.São Paulo: Cortez, 1985, p.23-25)

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A importância da filosofia

Vivemos em um mundo pragmático, isto é, voltado para as coisas práticas da vida, interessado na aplicação imediata dos conhecimentos. Nesse sentido a filosofia não encontra muitos adeptos e, ao contrário, é freqüentemente repudiada como sendo uma teoria inútil e, conseqüentemente, perda de tempo.

Entretanto, a filosofia é necessária. Por meio da reflexão é possível que se tenha mais de uma dimensão, ou seja, aquela que é dada pelo agir imediato no qual o homem prático se encontra mergulhado. É a filosofia que permite o distanciamento para a avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos fins a que eles se destinam, levantando, conseqüentemente, o problema dos valores. É a filosofia que reúne o pensamento fragmentado da ciência e o reconstrói na sua unidade.

A filosofia impede a estagnação e sempre se confronta com o poder, não devendo sua investigação estar alheia à ética e à política. Nesse sentido tem a função de desvelar a ideologia, ou seja, as formas pelas quais é mantida a dominação. Aliás, atentando para a etimologia do vocábulo grego correspondente à verdade (a-létheia, a-letheúein, “desnudar”), vemos que na verdade põe a nu aquilo que estava escondido; aí reside a vocação do filósofo: o desvelamento do que está encoberto pelo costume, pelo convencional, pelo poder.

Por isso a atitude de filosofar exige coragem. A filosofia não é um exercício puramente intelectual. Descobrir a verdade é ter a coragem de enfrentar as formas estagnadas do poder que tentam manter o status quo, é aceitar o desafio da mudança.

(Texto adaptado: ARANHA, Maria Lúcia de A. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna, 1989, p.43)


FILOSOFIA E EDUCAÇÃO: CONCEITOS E ARTICULAÇÕES

A educação é um típico “que fazer” humano, ou seja, um tipo de atividade que se caracteriza fundamentalmente por uma preocupação, por uma finalidade a ser atingida. A educação dentro de uma sociedade não se manifesta como um fim em si mesma, mas sim como um instrumento de manutenção ou transformação social. Assim sendo, ela necessita de pressupostos, de conceitos que fundamentem e orientem os seus caminhos. A sociedade dentro da qual ela está deve possuir alguns valores norteadores de sua prática. Não é nem pode ser a prática educacional que estabelece os seus fins. Quem o faz é a reflexão filosófica sobre a educação dentro de uma dada sociedade.

As relações entre Educação e filosofia parecem ser quase “naturais”. Enquanto a educação trabalha com o desenvolvimento dos jovens e das novas gerações de uma sociedade, a filosofia é a reflexão sobre o que e como devem ser ou desenvolver estes jovens e esta sociedade. Percorrendo a História da Filosofia e dos filósofos, vamos verificar que todos eles tiveram uma preocupação com a definição de uma cosmovisão que deveria ser divulgada através dos processos educacionais.

Filosofia e Educação são dois fenômenos que estão presentes em todas as sociedades. Uma como interpretação teórica das aspirações, desejos e anseios de um grupo humano, a outra como instrumento de veiculação dessa interpretação. A Filosofia fornece à educação uma reflexão sobre a sociedade na qual está situada, sobre o educando, o educador e para onde esses elementos podem caminhar.

Nas relações entre Filosofia e educação só existem realmente duas opções: ou se pensa e se reflete sobre o que se faz e assim se realiza uma ação educativa consciente; ou não se reflete criticamente e se executa uma ação pedagógica a partir de uma concepção mais ou menos obscura e opaca existente na cultura vivida do dia-a-dia e assim se realiza uma ação educativa com baixo nível de consciência.

O educando, quem é, o que deve ser, qual o seu papel no mundo; o educador, quem é, qual o seu papel no mundo; a sociedade, o que é, o que pretende; qual deve ser a finalidade da ação pedagógica. Estes são alguns problemas que emergem da ação pedagógica dos povos para a reflexão filosófica, no sentido de que esta estabeleça pressupostos para aquela.

Assim sendo, não há como se processar uma ação pedagógica sem uma correspondente reflexão filosófica. Se a reflexão filosófica não for realizada conscientemente, ela o será sob a forma do “senso comum”, assimilada ao longo da convivência dentro do grupo. Se a ação pedagógica não se processar a partir de conceitos e valores explícitos e conscientes, ela se processará, queiramos ou não, baseada em conceitos e valores que a sociedade propõe a partir de sua postura cultural.

Quando não se reflete sobre a educação, ela se processa dentro de uma cultura cristalizada e perenizada. Isso significa admitir que nada mais há para ser descoberto em termos de interpretação do mundo. É propriamente a reprodução dos meios de produção. Inconscientemente, adaptamo-nos a essa interpretação do mundo e ele permanecerá como a única para nós, se não nos pusermos a filosofar sobre ela, a questioná-la, a buscar-lhe novos sentidos e novas interpretações de acordo com os novos anseios que possam ser detectados no seio da vida humana.

Filosofia e educação, pois, estão vinculadas no tempo e no espaço. Não há como fugir a essa “fatalidade” da nossa existência. Assim sendo, parece-nos ser mais válido e mais rico, para nós e para a vida humana, fazer esta junção de uma maneira consciente, como bem cabe a qualquer ser humano. É a liberdade no seio da necessidade.

A pedagogia inclui mais elementos que os puros pressupostos filosóficos da educação, tais como os processos socioculturais, a concepção psicológica do educando, a forma de organização do processo educacional etc.; porém, esses elementos compõem uma Pedagogia à medida que estão aglutinados e articulados a partir de um pressuposto, de um direcionamento filosófico. A reflexão filosófica sobre a educação é que dá o tom à pedagogia, garantindo-lhe a compreensão dos valores que, hoje, direcionam a prática educacional e dos valores que deverão orientá-la para o futuro. Assim, não há como se ter uma proposta pedagógica sem pressuposições (no sentido de fundamentos) e proposições filosóficas, desde que tudo o mais depende desse direcionamento. Para lembrar exemplos corriqueiros, a “Pedagogia Montessori”, a “Pedagogia Piagetiana”, a “Pedagogia da Libertação” do professor Paulo Freire, e todas as outras sustentam-se em um pensamento filosófico sobre a educação. Se nem sempre esses pressupostos estão tão explícitos, é preciso explicitá-los, desde que eles sempre existem. Por vezes, eles estão subjacentes, mas nem por isso inexistentes. O estudo e a reflexão deverão “obrigá-los” a aparecer, desde que só a partir da tomada de consciência desses pressupostos é que se pode optar por escolher uma ou outra pedagogia para nortear nossa prática educacional.


(LUCKESI, Cipriano C. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994, p.30-33)


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A filosofia da educação

Todos os povos têm uma educação, pela qual transmitem a cultura, seja de maneira informal ou por meio de instituições. De qualquer forma, não é sempre que o homem reflete especificamente sobre o ato de educar. Muitas vezes a educação é dada de maneira espontânea, a partir do senso comum, repetindo costumes que são transmitidos de geração em geração.

Ora, se a filosofia é uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto, que se faz a partir dos problemas propostos pelo nosso existir, é inevitável que entre esses problemas estejam os referentes à educação. Portanto caberá ao filósofo acompanhar reflexiva e criticamente a ação pedagógica, de modo a promover a passagem “de uma educação assistemática (guiada pelo senso comum) para uma educação sistematizada (alçada ao nível da consciência filosófica).

A fundamentação teórica é necessária para que seja superado o espontaneísmo, permitindo que a ação seja mais coerente e eficaz. Aliás, é bom lembrar que o conceito de teoria não se separa do conceito de prática, que é o seu fundamento. Isto significa que a teoria não deve estar desligada da realidade, mas deve partir do contexto social, econômico e político de onde vai atuar.

Só assim é possível definir os valores e os objetivos que orientam a ação, pois não se pode teorizar sobre a educação em si, o homem em si, o valor em si. A partir da análise do contexto vivido, o filósofo irá indagar a respeito de que homem se quer formar, e quais são os valores emergentes que se contrapõem a outros valores já decadentes.

Por isso o filósofo também avalia os currículos, as técnicas e os métodos a fim de julgar se são adequados ou não aos fins propostos. Por outro lado, esse acompanhamento reflexivo impede que se caia no tecnicismo, um risco que existe sempre que os meios são supervalorizados.

Ao ter sempre presente o questionamento do que seja educação, a filosofia não permite que a pedagogia se torne dogmática, nem que a educação se transforme em adestramento ou qualquer outro tipo de pseudo-educação. Por isso a filosofia da educação é importante para denunciar as formas ideológicas que utilizam a educação como instrumento de dominação.

(Texto adaptado: ARANHA, Maria L. de A. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna, 1989, p. 43-45)

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[...] A Filosofia da Educação não terá como função fixar “a priori” princípios e objetivos para a educação; também não se reduzirá a uma teoria da educação enquanto sistematização dos seus resultados. Sua função será acompanhar reflexiva e criticamente a atividade educacional de modo a explicitar os seus fundamentos, esclarecer a tarefa e a contribuição das diversas disciplinas pedagógicas e avaliar o significado das soluções escolhidas. Com isso, a ação pedagógica resultará mais coerente, mais lúcida, mais justa; mais humana, enfim.



(SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez, 1985, p.30)

i Textos adaptados pelo Prof. Dr. Marco Antonio de Moraes (DTPE/IE/UFRRJ).


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