Urbanização e gestão social



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Urbanização e gestão social

Ladislau Dowbor - 2001

Acho muito importante cruzarmos os conceitos de marxismo e socialismo e o local. O conceito de espaço praticamente não existe na obra de Marx. É interessante, algo que discutimos bastante com Milton Santos: as dinâmicas espaciais são poderosas na organização econômica. Nos referimos em particular ao espaço local, que apesar de pequeno, constitui um espaço político essencial. Na realidade, não estamos falando do local em abstrato, mas do espaço onde a comunidade pode se articular. Onde a educação, a saúde, a produção, as pequenas empresas podem se transformar em um espaço integrado de construção social e econômica, porque, de outra forma, dependemos de setores, de ministros, de coisas que vêm de cima. Estamos articulando gente, estamos administrando o espaço. Considero isso muito importante. É o primeiro debate de que participo que faz de fato uma discussão teórica entre as dimensões políticas no sentido amplo dos nossos grandes ideais e o espaço local. Isso é extremamente poderoso.

Não temos nenhuma desculpa a pedir quanto aos nossos ideais. Os ideais do socialismo, de uma sociedade mais humana, estão aí, e continuamos batalhando por eles.

Agora, numa sociedade que mudou radicalmente, temos de passar a construir esses ideais de uma maneira diferente. Como esquerda, fomos sempre acuados a um tipo de estatismo, e vestimos essa carapuça. O estatismo é problemático – acho que Celso Daniel fez muito bem ao levantar isso –, e não é central ao marxismo. Ele é central, na medida em que, numa visão de estratégia de luta bem leninista, se conquista o Estado para se contrapor ao poder da burguesia, ao poder econômico. É uma alavanca para derrubar o poder do capital em cima da sociedade, para em segunda etapa evoluir para a redução e o fim do Estado. O objetivo é um espaço democrático – para Marx, é óbvio. De tanto querer construir o socialismo, acabamos caminhando num sentido profundamente inverso, e é complicado e interessante como essas coisas se deram.

Trabalhei na Polônia, na Argélia, na Nicarágua, em uma série de países socialistas. Com esse tipo de experiência, acabamos sentindo o peso desses sistemas de organização, nos quais o poder formal capitalista é extinto ou reduzido muito fortemente e não é substituído por um sistema democrático de gestão. O resultado é uma máquina burocrática, em que constatei, por exemplo, que o poder de um grande empresário privado e o de uma grande empresa estatal na Polônia, pode ser rigorosamente semelhante. Tal como no caso do proprietário de meios de produção, vemos uma pirâmide de poder que vai se construindo. São aspectos que devemos repensar; felicito a organização desse trabalho cruzando socialismo e poder local.

Venho há muitos anos brigando pelos espaços descentralizados. Cansei de gente que me explicava: “Mas isso é pequenininho, isso não é política...”.

Imaginamos sempre que a política é algo que conquistamos. Está lá em cima, em algum lugar há um bolo. Então, quando chegamos lá, pegamos o bolo. É nosso.

Lembro-me de conversas do nosso grupo com Salvador Allende, no Chile, e ele dizia: “Olha, eu estou aqui no Palácio. No meu Palácio. Ponto. Eu tenho dois oficiais do Exército que me apoiam.”. Ocupar o palácio resolve?

Tomo o exemplo inverso do Irã, sem fazer qualquer julgamento de valores ou coisa semelhante sobre os aitolás etc., mas o imenso poder do Shah não foi derrubado com um grande exército, com um grande movimento armado, tiros e canhões. Vejam que exército no do Shah do Irã não era brincadeira, mas caiu com um peteleco, com as gravações, as cassetes que o aiatolá distribuía com sua pregação. A cultura adquiriu pesos radicalmente diferentes, e conquistar a população pode ser muito mais importante do que conquistar a máquina do Estado.

Isto representa deslocamentos profundos para nós. É curioso, temos dificuldade de deslocar a visão das coisas e, ao mesmo tempo, é bonita a nossa caminhada para deslocar as coisas, porque quando falamos com liberais ou neoliberais, eles continuam repetindo rigorosamente o mesmo discurso do século XIX, ou seja, “mão invisível”, laissez-faire, enquanto a esquerda está realmente construindo alternativas. Não, a meu ver, por inteligência própria, mas porque a cacetada que levamos foi tão grande, com a queda do Muro de Berlim e de todos esses sonhos de um macro-poder, arbitrário, vindo de cima, que começamos a repensar tudo. Isso está surgindo com toda força no Brasil, porque é o espaço que nos resta.

Quem manda nesse país? Na década de 1950, era a UDN [União Democrática Nacional], depois a Arena [Aliança Renovadora Nacional], no tempo dos militares, que depois virou PDS [Partido Democrático Social], e depois o PFL [Partido da Frente Liberal]... É o mesmo bando, são as mesmas famílias, inclusive. Um ACM pertenceu a cada uma destas agremiações, sucessivamente, nunca saiu do poder.

E curiosamente, pelo fato de que a construção de alternativas de gestão, só tinha espaço, no Brasil, nas prefeituras, pois mais acima o controle continua sendo das oligarquias tradicionais, passamos a administrar o cotidiano político das populações, a entender melhor o que é uma favela, o que é custo burocrático, o que é organizar uma licitação, o que é enfrentamento com a mídia, o que são as práticas reais do convívio político, creio que é um capital acumulado absolutamente gigantesco.

O capitalismo produz, mas não distribui: é estruturalmente incompleto


Temos uma conjuntura particular hoje. Por haver trabalhado muitos anos nas Nações Unidas, recebo as publicações do Fundo Monetário Internacional [FMI], do Banco Mundial, essas coisas. Recebi uma publicação que me tocou muito, do FMI, que traz na capa uma fotografia de um menino negro com a camisa rasgada. E o que vem na capa realmente nos comove: “Como podemos ajudar os pobres?” Trata-se da principal publicação do Fundo Monetário! Pensei em várias respostas de diversos níveis, enfim, de educação...

Mas o fato é que não é só cinismo o Fundo Monetário Internacional colocar isso na capa no mesmo ano em que a capa do Relatório do Banco Mundial, é um outro menino negro, esse mais estilizado, uma pintura artística, com o título “Atacando a pobreza”. Também no mesmo ano, o relatório das Nações Unidas vem com o título “Enfrentando a pobreza”. A situação é simples: esse sistema capitalista é um bom produtor, um bom organizador de produção.

É possível juntar 200 pessoas e determinar um objetivo, por exemplo: “Vamos vão produzir bem um tipo de sapato”. Concentrar de maneira organizada um conjunto de esforços em torno de um objetivo funciona.

Mas isto não resolve o problema da distribuição. O sistema não é um bom distribuidor, porque quanto mais poder econômico a empresa acumula, mais ela transforma isso em poder político, mais desequilibra as relações sociais e gera as tragédias que conhecemos. Ou seja, é um sistema que vai além da questão de gostarmos ou não do neoliberalismo, essas coisas. Como sistema, essa é uma questão de bom senso, não é mais discurso de esquerda ou direita, ele só funciona com metade da roda, porque o sistema econômico tem de produzir e distribuir, fazer circular. Ele não distribui. Conclusão do Banco Mundial, deste ano: 2,8 bilhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares por dia – não é uma média, é de 2 dólares para baixo – e 1,2 bilhão vivem com menos de 1 dólar por dia. Não navegam na internet, não usam aquele sabonete... É um sistema que gerou uma fratura social como a humanidade jamais conheceu, além de gerar destruição ambiental, tragédias. Ou seja, o liberalismo está à procura de caminhos, e quando consideramos que nós os temos, porque aprendemos a trazer respostas na área do social, e aprendemos inclusive a articulá-las, como diz Marina Silva, com a dimensão ambiental, com a dimensão econômica, com as outras dimensões da sociedade, temos um momento historicamente privilegiado, historicamente poderoso.

As grandes simplificações do século XIX, que foram tentadas no século XX, a meu ver, se foram. De um lado, o proletariado administrando o Estado e utilizando o planejamento, e, de outro, a burguesia, a empresa e o mercado como mecanismo regulador. Tínhamos a nossa classe redentora, o proletariado; o capitalismo tinha a sua classe redentora, a burguesia. Esses dois modelos simplificadores não estão respondendo aos desafios que precisamos enfrentar.

Urbanização

Eu trabalharia o poder local, Celso, com dois eixos que transformam o processo em profundidade. Primeiro, a urbanização. Nós ainda não pensamos o gigantesco impacto de termos passado de uma situação, na década de 1950, em que dois terços da população vivia no campo para outra situação, hoje, em que 80% da população vive na cidade. O poder se gere hoje por meio das cidades. Só que o município está na linha de frente dos problemas e é o último escalão da estrutura pública. Os problemas de saúde, segurança etc. se avolumam em torno da cidade, das periferias urbanas explosivas, mas as decisões continuam em Brasília.

Se comparamos o Brasil com países de urbanização mais antiga, dos quais um exemplo forte é a Suécia, veremos que lá 72% de todo o bolo dos recursos públicos é gasto localmente, com os conselhos, com as populações participando etc. No Brasil, esse índice é de apenas da ordem de 15%. Uma coisa é saber o tamanho do Estado, outra é saber onde está o Estado. Quanto mais se aproxima o Estado da população, mais se gera capacidade de articular essa população em torno do uso dos recursos públicos, e isso é poder. Esse é um eixo extremamente importante. Nós avançamos um pouco com a Constituição de 1988, houve uma leve descentralização de recursos. Temos um imenso eixo de transformação pela frente nesse espaço.

Outro ponto fundamental é a importância da área social. Há um conceito chamado “Serviços” que eu já parei de utilizar, por ser vago demais e confundir os problemas. Na definição atual, que é residual, quem não trabalha a terra (agricultura), e não trabalha na máquina (indústria), está na área de serviços, ou seja, faz parte de “outros”. Esse outros se chama Serviços, e é um imenso saco de gatos. Por exemplo, na agricultura, nos Estados Unidos, diz-se que só se empregada 2,5% da população, o que é uma imensa bobagem. Realmente, lavrando a terra são só 2,5%, mas nesse processo se usa também inseminação artificial, que é um serviço prestado por uma empresa, assim como análise de solo, serviços meteorológicos, serviços de comercialização primária e por aí vai. Se com todas essas coisas eleva-se o nível da agricultura, intensifica-se a dimensão dos conhecimentos envolvidos, mas não é outro “setor”. É uma forma moderna de fazer agricultura. Continua sendo produção.

Se pensarmos o conjunto das modernizações ligadas diretamente aos segmentos da industria e da agricultura, os dois grandes pilares produtivos, o que fica na área não produtiva diretamente, o grande eixo, é o social. Consideremos os Estados Unidos: 14% do PIB norte-americano é saúde, hoje o maior setor econômico do país. Acrescente-se educação, tanto a formal como a formação nas empresas, (hoje só as corporate universities, nos EUA, são mais de 2.000), e chegamos a outros 15%. Acrescente-se a cultura, que eles chamam indústria do entretenimento: seguimos tranqüilamente para a faixa dos 40% do PIB.

O ponto de interrogação é o seguinte: como se regula essa área? Porque a área industrial eu entendo, o capitalista é proprietário da fábrica, o trabalhador, trabalha e recebe um salário, há a portaria, o relógio de ponto etc.

E no social? Marx, há mais de um século atrás, viu o surgimento da indústria, e diz que a indústria não é só o que as fábricas criam, ela muda as relações de produção. Desenvolveu a teoria do capital, do assalariado, da mais-valia. E quais são as relações de produção implícitas na área social? Isso é interessante. Quando olhamos para a Saúde, por exemplo, vemos que ela não funciona bem com grandes máquinas estatais. Já funcionou. Costumamos dizer: “Como era boa a educação estadual no Brasil!”. Era para meia dúzia, gente! Como proporcionar saúde para 170 milhões de habitantes, sendo que a saúde é capilar, tem de chegar a cada habitante, a cada criança, por meio de uma gigantesca máquina centralizada em que há tantas hierarquias, patamares intermediários? Trabalho com essas coisas de administração e costumamos brincar que a partir de quatro níveis hierárquicos quem está lá em cima vive na ilusão que alguém lá embaixo obedece, e quem está lá embaixo vive na ilusão que alguém lá em cima comanda. Não funciona.

E não é a questão de privatizar, porque tem-se aí uma situação pior, absolutamente caótica. Fizemos um levantamento sobre vitamina C, do tipo efervescente. Um tubinho desse custa 6 reais. Vocês sabem quanto tem de vitamina C, de ácido ascórbico, lá dentro? Três centavos. Claro, você paga a substância que faz borbulhas, a tampinha que faz “ploc”, aquela publicidade com a madame segurando aquela criança loirinha, com o marido – na publicidade o marido está ali... Vejam bem, com um processo desses, multiplicamos por 200 o custo de um produto simples, e excluímos dois terços da população brasileira de um medicamento absolutamente essencial.

Diz-se na economia que se trata de uma demanda inelástica: você tem um filho, precisa comprar um remédio. Se o remédio dobra de preço, você continua a comprar o remédio, porque é para o seu filho. Que outra opção você tem? Mercado nesta área simplesmente não funciona, a doença da criança não é uma mercadoria.

Nos Estados Unidos, não entendiam porque numa cidade se hospitalizava tanta gente. Verificaram o hospital e viram que ele dava 100 dólares para o médico que encaminhasse alguém para lá. Claro, um médico norte-americano não vai se vender por 100 dólares, mas enfim, o casamento da filha, 100 dólares daqui, 100 dólares dali... O fato é que verificou-se uma taxa de hospitalização fenomenal, e os proprietários estão sendo processados. Um médico meu amigo diz que não há cliente saudável, há diagnóstico incompleto. Não estou brincando! No estado de São Paulo temos 52% dos partos feitos por cesariana. Segundo a Unicef [Fundo das Nações Unidas para a Infância], esse procedimento multiplica por quatro os riscos para a mãe e para o filho. Uma carnificina. Por quê? Porque rende.

O que estou tentando levantar é que esse gigante econômicos que constitui a área social, que nós não aprendemos ainda a analisar do ponto de vista das relações de produção que gera, não é bem administrado pelo sistema estatal, centralizado, tradicional, e é muito mais mal administrado pelo sistema privado. É um eixo que está buscando os seus paradigmas de gestão.

Descentralização e participação


E, aos trancos e barrancos, inventando, começamos a verificar que as atividades ligadas ao social funcionam simplesmente de maneira descentralizada e participativa. Por quê? É muito simples, se considerarmos um conselho de pais numa escola, o maior interesse é que não se brinque com o futuro dos filhos. Os pais não precisam ter ações da escola, do sistema privatizado ou coisa do gênero... Cada um está interessado em seu filho. Então, ao organizar a participação comunitária, levamos a que as coisas se racionalizem.

Na Saúde é a mesma coisa. E na Cultura, outro setor que Celso Daniel citou. Na realidade, os setores citados por Celso são essencialmente sociais. E os setores sociais são o grande eixo. Para mim, a grande preocupação com a tal da Lei de Responsabilidade Fiscal é que o que é limitado é a contratação de funcionários, e os setores sociais emergentes, são justamente intensivos em mão-de-obra.

O que estou tentando trazer como idéia é que, com a urbanização, somos levados a um aumento brutal do consumo coletivo. Para a população dispersa no campo, o lixo é jogado na valeta ou pela janela, o transporte é o jegue ou o caminhãozinho; a água é do poço... As soluções são individuais, familiares. Quando se está na cidade, construir a casa é o de menos, tem de se conectar com as redes de água, esgoto e eletricidade, com o transporte público, com as linhas telefônicas. É um sistema de redes interdependentes. Eu trabalhei na Guiné Equatorial e não havia sistema público de eletricidade decente. As pessoas acabavam tendo aqueles geradores Honda, soluções individuais. Era uma barulheira tremenda, ninguém dormia na cidade. Com um custo que vocês imaginam, um gerador individual implica gigantescos desperdícios. Um sistema que deveria ser de consumo coletivo foi privatizado, individualizado, deixando a Honda está contente, está lá vendendo as maquininhas dela.

As pessoas aqui sorriem com um absurdo destes, dizem, isso é na África. No entanto chegamos aqui e vemos que cada um é obrigado a comprar, por 20 mil reais, um carro, e estamos andando, na média, a 14 km por hora porque não há transporte público. Nesse plano estamos em plena África.

Se começarmos a pensar a gestão do social, o tipo de impacto que a urbanização tem, por um lado, e, por outro, o impacto social em termos de relação de produção que a emergência desse imenso setor do social tem, acho que temos um eixo extremamente interessante de análise sobre como o poder local é um reconstrutor social de longo prazo.

Como o social exige que a população se articule, e exige a expansão do consumo coletivo e público, torna-se um construtor natural de uma rearticulação comunitária que é extremamente poderosa. E sabemos que talvez o impacto mais trágico do conjunto desse sistema capitalista moderno seja a desarticulação social, a atomização. E quando se reconstrói o tecido social, não acho que seja suficiente para reconstruir a política, mas creio que é uma condição necessária no plano dos dilemas que estávamos levantando. Acho que pensarmos que só é possível resolver os problemas com o local é uma ilusão. Mas, se não há uma população organizada, articulada pela base, pode-se chegar a Brasília com a pasta, com a faixa e tudo, e se fará muito pouco. Muito obrigado.

Só acrescentando: há um pequeno texto meu que apresenta de forma mais organizada estas idéias, e que eu gostaria que vocês consultassem. Chama-se “Gestão Social e Transformação da Sociedade”. Está na internet, na página http://www.ppbr.com/ld Vejam em “artigos online”.

Resposta às perguntas feitas pelo público:

Ladislau:

Em relação ao problema do negro, na administração da prefeita Luiza Erundina, eu coordenava o Conselho Municipal encarregado desta questão, cuidando de suas relações com a prefeitura de São Paulo, e tínhamos imenso problemas por causa das divisões internas do movimento. Era realmente trágico, só conseguimos unificá-lo porque tivemos um programa bom, que era trazer o Nelson Mandela. Conseguimos trazê-lo aqui e foi algo apoteótico.

Acho que esse tema é de imensa importância. É fantástico que um país que tem 44% da população diretamente ligada a uma origem africana não conheça nada de África. É trágico que o brasileiro tenha uma visão “tarzânica” da África. Ou seja, é uma população que não conhece suas raízes. Não temos um livro decente de história das relações Brasil-África. Já propus a vários historiadores a criação de pelo menos um bom manual para introduzir esse tema nas escolas e coisas do gênero. Isso é uma batalha...

Agora, vai ser assim enquanto os próprios grupos do movimento não se juntarem para empurrar essas ações. Meu convite continua de pé para montarmos um estudo desse tipo, como tem acontecido nos Estados Unidos e em outras partes. Conversei com a Fundação Ford e ela está interessada em financiar um projeto desse tipo, mas o essencial é conhecer. Vivi sete anos na África, o que me deu uma visão da riqueza cultural dessas origens, isso é fantástico.

Temos uma grande batalha pela frente, que é a da comunicação local. É curioso que o monopólio da mídia não figure na linha de frente das nossas agendas políticas, achamos que se o governo não corta, não há censura. É uma imensa bobagem, qualquer jornalista sabe que, se fizer uma matéria um pouco delicada politicamente, a resposta vem lá de cima: “Caiu a pauta”. “Caiu a pauta” é o nome moderno da tesoura. É censura privada, sim. Oito famílias controlam a mídia nesse país. Não temos estudos sobre estruturas de poder da mídia.

Por que isso se relaciona diretamente com o negro? Por que o desenvolvimento das televisões comunitárias, das rádios comunitárias, que exigem investimentos extremamente pequenos, permitem que as diferentes comunidades, os diversos movimentos, tenham voz, possam se articular. Se o movimento negro esperar para “se ver na Globo” vai ficar esperando o carnaval. Devemos criar a capacidade de comunicação correspondente aos nossos objetivos políticos. Acho isso sumamente importante.

Valter Pomar tem toda razão em enfatizar que o Banco Mundial, as Nações Unidas e diversas organizações multilaterais compraram radicalmente o discurso da participação. Olha, tenho tirado trechos de publicações do Banco Mundial que todo mundo pensa que é citação de um documento do PT. É radical. Outra coisa é dizer que isso é mau.

No Banco Mundial há uma direção política, óbvio, predominantemente norte-americana. Mas os técnicos que produzem esses relatórios vêem com imensa preocupação o tipo de ruptura social, que eles chamam de fratura social, que está se gerando no planeta, porque simplesmente olham para frente. São dezenas de milhões que estão morrendo com Aids, são guerras que estão pipocando por todos os lados, a situação é absolutamente dramática. Ninguém controla a venda de armas no mundo (48% das exportações de armas são dos Estados Unidos)...Temos de ser realistas, e saber utilizar as contradições que existem nestes sistemas.

Então, ao retomar o ciclo político, não dá para ver tudo como um tipo de perversidade maligna, digamos, do símbolo do mal. Realmente há uma preocupação em fazer as coisas funcionarem, eles estão constatando que as coisas funcionam com sistemas descentralizados participativos, e não só no Canadá, país rico, por exemplo. Veja a província de Kerala, na Índia. É impressionante, eles têm uma mortalidade infantil de 17 por 1.000, a metade da mortalidade infantil do Brasil, com uma renda per capita de 300 dólares por ano. Se o Banco Mundial acha bom, ótimo.

Quanto ao comentário de Paul Singer, acho que deveríamos propor à mesa claramente o seguinte tema: vamos pensar a cidade não como segmento, mas como unidade de acumulação na qual temos de construir a relação cidade–campo, e não só fazer a reforma agrária, porque a dominância das decisões está nas cidades. Temos de pensar as pequenas e médias empresas articuladas com políticas de emprego, sociais etc. Basta considerar, por exemplo, Belo Horizonte, onde o programa de compra da merenda escolar foi articulado com a pequena produção de agricultores no cinturão verde.

Acho que temos a missão de pensar um planejamento integrado, local, e vejo a cidade como uma unidade equilibrada de acumulação a ser construída a partir da própria população. Essa linha, na qual já deveríamos estar trabalhando, tem um potencial gigantesco. Foi feita uma pesquisa tempos atrás em Bertioga, e descobriram que de cada 100 reais que o cidadão de Bertioga deposita nos bancos locais, 92 reais são aplicados fora. Em vez da poupança da população servir para financiar investimentos locais, geração de empregos e de riqueza, são investidos na ciranda financeira pelos bancos.

O que se está se fazendo com micro-crédito, com crédito solidário etc.? O controle da população está sendo recuperado sobre a própria poupança. Este é um grande eixo de batalha. Estou cansado de ter minha conta no Banco Real, pagando taxas inimagináveis, que eu não entendo. É claro que se amanhã houver a possibilidade de eu colocar essa poupança num sistema alternativo, vou fazê-lo, e há espaço para isso. E essa situação não é específica de países pobres, Bangladesh etc. Também acontece na França, as pessoas estão cansadas. Isso me leva a outra dimensão: há uma imensa diferença qualitativa entre a pequena e a média empresas e a grande empresa. Para nós, são todas capitalistas. Não são. A grande empresa é uma estrutura político-cultural de dominação mundial. Afinal, quem sustenta a mídia no mundo? Os gastos anuais são de 435 bilhões de dólares por ano.

Há o exemplo da revista Esquire, que publicou uma pesquisa sobre sexualidade americana que não foi muito generosa para o potencial norte-americano dos homens, pelo menos. Foram questionados pelas empresas de publicidade e responderam: “Vocês fazem publicidade, linha editorial é conosco...”. Visão americana, liberdade de imprensa. Chegaram a um acordo, a revista tem a liberdade de publicar o que quer, e as empresas de publicidade têm a liberdade de anunciar onde querem. Essa é a liberdade de imprensa.

Creio que as grandes multinacionais, o grupo de 500 ou 600 transnacionais que são as grandes galáxias de poder, merecem um estudo particular de nossa parte, porque elas estão se articulando como poder político. Um presidente da Coca Cola declarou que elas constituem os novos articuladores mundiais e ponto. Elas, as empresas transnacionais. E é completamente diferente a forma como são socializados ou não os meios de produção da oficina da esquina, da padaria, da pequena e média empresa em geral. Houve uma ruptura, a meu ver, em dois universos nesse processo, e temos de trabalhar de maneira diferenciada.

Vou falar rapidamente sobre a ALCA [Área de Livre Comércio das Américas]. Considero que a ALCA, para nós, é perniciosa. A União Européia criou sua moeda, houve várias tentativas para desestabilizá-la mas existe hoje, o euro, pela primeira vez um contrapeso ao dólar. Existe também uma fortíssima progressão da China, uma rearticulação asiática. Os Estados Unidos diante disso querem assegurar um quintal.

Para nós, é óbvio que o que interessa, quando há economias ou blocos muito mais fortes que nós, é sorrir um pouco para um, um pouco para outro e manter nessa eqüidistância um mínimo de equilíbrio, porque é o único meio de negociação que temos. Entrarmos na ALCA e virarmos um quintal norte-americano é perder toda capacidade de negociação do nosso espaço.

Foi mencionada aqui a atrofia da esfera pública. Gostaria de lembrar o seguinte: o último relatório do Banco Mundial traz bons dados. Segundo o relatório de 1997 do Banco Mundial, em média, nos países desenvolvidos, o Estado gere 50% do PIB, e nos países subdesenvolvidos, 25%. Além de termos um PIB proporcionalmente menor, nossos Estados administram partes menores do PIB do que os Estados de países desenvolvidos. Nós temos Estados muito pequenos.

Além disso, em nenhum lugar o Estado está diminuindo, não diminuiu durante as administrações de Margaret Thatcher, na Inglaterra, e nem de Ronald Reagan, nos Estados Unidos. O Estado norte-americano não diminuiu com o primeiro Bush e não vai diminuir com o segundo simplesmente porque na sociedade o consumo público está aumentando. O anti-Estado vende bem. A revista The Economist fez recentemente um comentário simpático, dizendo que as críticas ao governo vão muito bem, e o Estado também vai muito bem, obrigado.

Essa idéia de que no socialismo seremos todos iguais é um equívoco. Eu espero que sejamos menos desiguais. Para sermos completamente iguais, teríamos de ter tais níveis de controle que é melhor evitar.

Mas, há um ponto interessante: nenhuma pessoa precisa, individualmente, de uma fortuna de mais de 50 milhões de dólares. Se cortássemos esse tipo de fortuna, cortaríamos a base do poder político, porque aí já não se trata mais de capacidade de consumo, mas de capacidade de manipulação política da sociedade. Quer dizer, tanto a extrema riqueza como a extrema pobreza são patológicas para qualquer sociedade. E é perfeitamente viável sugerirmos propostas para uma e para o outra, tanto uma renda mínima como uma renda máxima. A fortuna pessoal do Gates está atingindo o nível do Pib da Inglaterra. Isso é patológico. Uma publicação das Nações Unidas, comentando a situação de cerca de 400 pessoas que têm uma riqueza pessoal maior do que a rende da metade mais pobre da população mundial, diz que esta situação é obscena.





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