Utilitarismo



Baixar 8.97 Kb.
Encontro08.08.2016
Tamanho8.97 Kb.
ESCOLA SECUNDÁRIA c/ 3° CICLO DO FUNDÂO

Ficha Informativa

Assunto: Clarificação conceptual — Utilitarismo.

Fonte: Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Verbo, vol.5.

UTILITARISMO

Corrente ética que engloba diversas doutrinas, quase exclusivamente de autores anglo-saxónicos, que têm em comum avaliar moralmente as acções exclusivamente segundo o carácter vantajoso ou não das suas consequências. Ao contrário das éticas deontológicas, o utilitarismo é declaradamente teleológico e consequencialista: não considera o valor morai dos actos pelo que estes são mas apenas pelo critério - extrínseco - dos seus efeitos.

A partir de Stuart Mill, é geralmente admitido pelos utilitaristas o princípio de utilidade: é boa (obrigatória) a acção que procura «a maior vantagem ou bem-estar do maior número», fórmula usada pela primeira vez no De Legibus Naturae, de Richard Cumberland (1670; em vez de bem-estar tinha felicidade), e, mais tarde, no Inquiry Concerning Me Origin of our Ideas of Beauty and Virtue, de Hutcheson (1775).

Não é contudo uniforme o entendimento que os utilitaristas fazem desse princípio, e as diferenças manifestaram-se desde os primeiros sistematizadores, Bentham e Stuart Mill: enquanto Bentham — o criador do termo utilitarian propõe um UTILITARISMO individualista (egoísta) e hedonista (a felicidade consiste para ele no saldo positivo do prazer sobre a dor), Mill defende um UTILITARISMO universalista e eudemonista (a felicidade consiste essencialmente nos prazeres «elevados»).

Ao longo do tempo, sucessivas tentativas de aperfeiçoamento e/ou correcção foram surgindo no seio da corrente utilitarista, dando origem a doutrinas mais ou menos diferenciadas. H. Sidgwick, que em Methods of Ethics (1874) reformulou o princípio de utilidade, assinala a transição do UTILITARISMO tendencialista de Bentham e proporcionalista de Mill para o UTILITARISMO formulado em termos de extrema maximização do interesse (ou prazer, ou felicidade) geral, o mais difundido desde G. E. Moore (sobretudo desde Ethics, 1912) e diversamente concebido (quer quanto ao quê quer quanto ao como da maximização) pelos diferentes autores. Os anos 50 e 60 foram dominados pelos debates entre os partidários de utilitarismo de acto (Act U., Extended U., Direct U.) — 5. Toulmin, K. Baier, M. C. Singer — e os do utilitarismo de regra — J. O. Urmson, R. B. Brandt, G. Barnes — (Eu U., Restricted U., Indirect UD: este, de acordo com cenas regras gerais (estabelecidas utilitaristicamente), aprovaria certas acções que, por não satisfazerem os princípios de utilidade, são reprovadas por aquele.

Ultimamente este debate foi praticamente abandonado (alguns consideram o UTILITARISMO de acto definitivamente abandonado), procuram-se novas alternativas (como o UTILITARISMO indirecto de L. W. Summer e talvez de J. J. C. Smart, inicialmente utilitarista de acto) e o interesse centra-se na busca de fundamentação do UTILITARISMO. K. Popper, J. W. Watkins e outros propuseram um UTILITARISMO «negativo» (cf. Aristotelian Society Supplement, 67, 1963, 95-114). J. Rawls introduziu nova correcção ao UTILITARTISMO, acrescentando-lhe um princípio de justiça (aspecto não suficientemente atendido, segundo ele, por outras formas de UTILITARISMO).

Estas e outras variações põem de manifesto deficiências essenciais do UTILITARISMO, ao mesmo tempo que a ampla difusão e aceitação de que ele tem gozado revelam indiscutíveis acertos.

Resumidamente, poderá dizer-se que as deficiências do UTILITARISMO começam na antropologia que lhe está subjacente e o leva a adoptar a posição eudemonista e temporal ou, pior ainda, hedonista: o autêntico bem do homem não consiste exclusivamente ou principalmente no prazer, nem a felicidade se pode definir prescindindo da plena razoabilidade do agir. A heterogeneidade dos prazeres, que impossibilita qualquer cálculo quantitativo dos mesmos, de há muito foi reconhecida pela maioria dos utilitaristas. As formas egoístas do UTILITARISMO, por serem tais, são inaceitáveis, nem é qualquer forma de altruísmo, mas apenas as que forem fundamentadas na verdade do homem, que são admissíveis, O problema, bem real, aplicado na distinção utilitarismo de acto e utilitarismo de regra (distinção que já aponta em Mill e Sidgwick e formulada por Brandt) não parece ter encontrado satisfatória solução por parte dos utilitaristas. A correcção contratualista introduzida por Rawls põe de manifesto a incapacidade do UTILITARISMO em fornecer critérios para a justa atribuição do bem-estar a distribuir e em salvaguardar os direitos legítimos das pessoas.

A atenção dada pelo UTILITARISMO às consequências das acções é genuína exigência ética e indiscutível factor de aceitação UTILITARISMO, bem como a benevolência generalizada que ele propugna; mas tal teleologismo — podia chamar-se-lhe consequencialismo, mas este termo, avançado por G. E. M. Anscombe em «Modern Moral Philosophy», in Philosophy 1958, 1-19, resulta ambíguo — não é exclusivo do UTILITARISMO, antes o engloba e não permite prescindir de toda e qualquer consideração deontológica.

O UTILITARISMO ignora ainda a importância moral da intenção dos agentes morais e desatende à moralidade dos meios com que se alcançam os resultados a que unicamente atende. Finalmente, os autores utilitaristas embrenham-se em inextrincáveis dificuldades — nem todas aliás - exclusivas do UTILITARISMO. — ao pretender identificar e ponderar as consequências, para poder aplicar o princípio «the greater happiness of the greatest number».







©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal