V congreso latinoamericano



Baixar 41.54 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho41.54 Kb.

V CONGRESO LATINOAMERICANO


DE CIENCIAS DE LA COMUNICACIÓN – ALAIC 2000

26-29 de abril del 2000

Universidad Diego Portales

Santiago – Chile


GT – FOLKCOMUNICACIÓN



_____________________________________________


A MEDIA E OS MITOS


Roberto Emerson Câmara Benjamin*
Resumo: A idéia de que a expansão dos meios de comunicação apoiados em tecnologias modernas, convertendo a nossa época em tempos de racionalidade, significaria o fim dos mitos, não se confirmou. Os mitos tradicionais sobrevivem e novos mitos estão sendo criados e difundidos por estes meios.
Nesta comunicação, pretendemos trazer à discussão a permanência, a criação e a divulgação dos mitos através dos meios de comunicação de massa, excluindo, portanto a discussão a propósito da sua origem, conceito e função. Tomamos mito no conceito corrente na teoria do folclore, conforme definição de Paulo de Carvalho-Neto:

MITO - Em nossa classificação é uma parte do folclore narrativo. Consiste na personificação de um ser inexistente. É a representação mental e irreal de um elemento com formas humanas, de astros, de peixes, de outros animais, ou de qualquer coisa. O mito pode ser descrito ou desenhado de acordo com estas descrições, na qual se fixam os seus traços físicos e, no possível, suas características sobrenaturais e costumeiras. É sobretudo através destas últimas que o mito mantém suas relações com o homem, enquanto que sobrenaturalmente se mostra possuidor de extraordinários poderes: metamorfoses sobretudo.”1

Os mitos têm sido considerados pelos estudiosos como típicos de sociedades arcaicas de populações ágrafas e pré-lógicas. A partir dessa idéia, tem-se imaginado que a introdução de novas tecnologias – que importam na racionalização e dessacralização das práticas sociais – conduziria, necessariamente, à extinção dos mitos, os quais seriam lembrados como interpretações primitivas, quase infantis, daquelas populações.

A observação das sociedades que têm incorporado estas tecnologias – especialmente da informação - que são hoje consideradas altamente racionalizadas, demonstra exatamente o contrário. Os mitos ocorrentes em sociedades rurais têm sobrevivido à urbanização e outros mitos estão sendo criados pelas populações urbanas, nos mesmos padrões dos mitos tradicionais.

Nas sociedades de cultura folk, a transmissão entre gerações e a difusão dos mitos ocorria, ordinariamente, através da comunicação interpessoal e grupal, especialmente nas ocasiões em que as pessoas se reuniam em grupos para a prática de narrativas. Aí, entre contos tradicionais e anedotas, são narrados os casos mitológicos. Os mitos aparecem, também, em advertências de natureza repressiva/preventiva, a fim de evitar desvios de conduta. O teatro popular – especialmente o bumba-meu-boi e o mamulengo, no caso do Nordeste do Brasil – tem sido ocasião para a representação de figuras mitológicas, através de personagens que as encarnam e desenvolvem entremeios próprios. Assim, aparece na cultura folk a imagem dos personagens mitológicos através de máscaras e armações aterrorizantes. Também na xilogravura, usada nas capas dos folhetos de cordel e nos grafitos, os mitos vão tomar formas iconográficas.

A partir da edição de folhetos de cordel, na segunda metade do século XIX e, especialmente, nos anos de maior produção no século XX, os mitos passaram a ser veiculados em forma impressa.

No mundo atual, os veículos de comunicação de massa exercem um papel importante na permanência e na criação dos mitos, sem que as formas tradicionais de transmissão tenham sido abandonadas. Com relativa freqüência, aparecem nos jornais diários notícias e reportagens relativas aos mitos. A ficção radiofônica, televisiva e cinematográfica tem incorporado mitos tradicionais e modernos em suas produções.

A dama-de-branco

O mito da mulher sedutora, que aparece a homens solitários e desejosos de aventuras sexuais, para logo em seguida desaparecer ou apresentar-se sob a forma de um esqueleto, tem uma distribuição geográfica muito extensa. Registros antigos relatam a presença deste mito junto a fontes, na Europa. Em Portugal, sob a denominação de “mouras encantadas”. Caminhoneiros de longos percursos, taxistas e outros trabalhadores que se deslocam à noite, são as principais vítimas.

Em Londrina-PR, o jornal Folha de Londrina (edição de 7 de setembro de 1996), registra o aparecimento de uma mulher loira nos banheiros femininos da Universidade local e, também, pedindo carona a motoristas, desaparecendo, depois, sem deixar vestígios.




Em Belém, capital do estado do Pará, a dama-de-branco tem túmulo, nome e endereço residencial na cidade. Sobre ela, foi produzido um video-documentário2 com cenas simuladas, onde se apresenta a foto, casa de residência e o túmulo, locais que constituem um percurso que a mesma costuma realizar, de táxi, aterrorizando os taxistas que fazem ponto nas proximidades do cemitério. Segundo a narrativa do vídeo, a dama-de-branco de Belém, conhecida como “moça do táxi”, seria a senhorita Josefina Conti, falecida em 1931 e sepultada em jazigo da família no Cemitério de Santa Isabel.

Na cidade de Catende, zona da mata de Pernambuco, a dama-de-branco é uma sinházinha, isto é, uma jovem mulher descendente de uma família de latifundiários da cana-de-açúcar, que aparece na porta do cemitério aos operários da usina quando largam do trabalho no turno da noite, desaparecendo logo em seguida.





A população local resolveu exorcizar o “fantasma”, representando-o por uma boneca gigante, que desfila no carnaval, saindo das proximidades do cemitério, à meia-noite. Tal representação tem merecido ampla cobertura da imprensa escrita e televisada de Pernambuco.



Lobisomens (licantropia)

O mito do homem que em certas noites se transforma em lobo e agride pessoas nas encruzilhadas, especialmente estuprando mulheres, é difundido por todo o Brasil, havendo registros desde a Idade Média, na Europa e desde o período colonial em outros países da América, tendo sido objeto de ficção radiofônica, cinematográfica e televisional por mais de uma vez, em vários países.

O assunto foi estudado por Eduardo Romano, da Universidade Nacional de Buenos Aires, que registra a produção de filmes norteamericanos sobre o tema desde 1913.




A perna-cabeluda

Os jornais e as emissoras de rádio do Recife divulgaram em várias matérias a aparição de uma perna humana destacada do corpo, cabeluda, que chutava pessoas em diversos subúrbios da região metropolitana. Tal entidade foi objeto de dois folhetos de poetas populares, o que atesta a sua incorporação à cultura folk. A criação deste mito tem sido atribuída ao radialista conhecido como Jota Ferreira. O mito foi objeto, também, da produção de um video, cujo lançamento ocorreu no bar-boate sugestivamente denominado “Boato”.





O caralho-de-asas

Outra parte do corpo humano transformada em mito é o órgão genital masculino. Em uma versão de narrativa masculina, o “caralho-de-asas” é o responsável pela gravidez de paternidade não-identificada. Em uma narrativa em grupo feminino, a referência ao caralho-de-asas se dá como advertência às moças, para que não tomem banho de rio e de açude, bem como não durmam “desprevenidas”, isto é, sem roupas íntimas. O caralho-de-asas, que parece ser a permanência do mito grego de Leda e o cisne – Júpiter metamorfoseado em cisne, manteve relações sexuais com a ninfa Leda, a qual veio a conceber os gêmeos Castor e Pólux - tem uma iconografia que foi documentada fotograficamente no Rio de Jáneiro e na cidade do Recife. Há também a sua presença como personagem de história em quadrinhos de revistas de palavras cruzadas e enigmas destinadas a público masculino, denominado de “passaralho”.







O chupa-cabra

Jornais e noticiários de rádio e televisão do Brasil divulgaram em várias matérias a aparição do “chupa-cabra”, em áreas de pecuária extensiva, que atacava rebanhos de caprinos, chupando-lhes o sangue até à morte.

O mito havia sido registrado anteriormente no Equador, Porto Rico e México. O folclorista Paulo de Carvalho-Neto, transcreve a seguinte descrição, de um informante de Guaiaquil, no Equador em junho de 1996: “tem a forma de animal, um par de asas, é muito selvagem, mede um metro e quinze e é horrível”.3





ET’s e ovni’s

A presença de extra-terrestres e de objetos voadores não-identificados, em geral chamados de ET’s e “discos-voadores”, tem sido objeto de reportagens jornalísticas e televisivas, havendo uma publicação periódica denominada UFO. A expressão “discos-voadores” tornou-se usual a partir de 1947, em razão da descrição de um piloto norteamericano. O disco se caracteriza pela propriedade de cruzar imensas áreas de vácuos fora das zonas de atração gravitacional de outros corpos celestes. Quanto à forma, têm sido relatados modelos assemelhados a charutos e discos propriamente ditos. Há mais de três milhões de registros de narrativas referentes a discos-voadores.

No Brasil, foram muito divulgados os relatos de aparecimentos do interior de São Paulo e nas proximidades de Brasília, além da ocorrência conhecida como “ET de Varginha”, localidade do Estado de Minas Gerais onde teria sido capturado um extra-terrestre no dia 20 de janeiro de 1996. O assunto vem sendo estudado como parte da mitologia pelo folclorista Paulo de Carvalho-Neto.

Conclusão

O inventário dos mitos cuja permanência ou divulgação está sendo realizada pelos meios de comunicação de massa, em paralelo às formas tradicionais de sua transmissão, constitui parte do estudo da Folkcomunicação, tanto no âmbito da apropriação de elementos da cultura folk pela cultura de massas, como no âmbito da recepção da cultura folk, dos elementos de sua própria cultura, reprocessada pela cultura de mssas.


A interação entre os portadores da cultura folk e a cultura de massas causa um efeito ainda pouco analisado nos meios acadêmicos. Ao se apropriar de elementos da cultura folk, os produtores da cultura de massas procedem a uma seleção e reprocessamento a fim de tornar tais elementos compatíveis com os padrões e o estilo vigente em seu meio.

Os portadores da cultura folk tomam conhecimento deste reprocessamento, sem que, na maioria das vezes, entendam as razões que levaram às escolhas e remanejamentos procedidos. Considerando o caráter hegemônico da cultura de massas, acabam tentados a reincorporar aqueles elementos com as características massivas introduzidas, de volta, em suas manifestações.

As coletas de narrativas mitológicas, tanto através de entrevistas, como através da iconografia das capas de folhetos, demonstram a incorporação dos elementos da cultura de massa no imaginário popular relativo aos mitos, especialmente aqueles que têm sido expostos pelos meios de comunicação de massa com excessiva freqüência, constituindo-se, já, em cultura híbrida..

BIBLIOGRAFIA


ATIENZA, Juan G. Os santos pagãos: deuses ontem, santos hoje. São Paulo: Ícone, 1996. 295 p. il.

BARNES, Daniel R. Interpretando leyendas urbanas. In BLACHE, Martha (org). Narrativa folklórica II. Buenos Aires: Fundacción Argentina de Antropologia, 1995, 168 p. p. 72-95

BENJAMIN, Roberto (coord.). Contos populares brasileiros – Pernambuco. Recife: FUNDAJ, Editora Massangana, 1994. 376 p. il. (Contos Populares Brasileiros; n. 1)

BLACHE, Martha. Estructura del miedo – narrativas folklóricas guaraníticas. Buenos Aires: Plus Ultra, 1982. 198 p.

BRUNEL, Pierre (org.). Dicionário de mitos literários Tradução de Carlos Sussekind... [et al.]. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997. 940 p.

CALÁVIA SÁEZ, Oscar. Fantasmas falados: mitos e mortos no campo religioso brasileiro. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1996. 216 p.

CAMPBELL, Joseph. O poder do mito / com Bill Moyers; org. por Betty Sue Flowers; tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Palas Athena, 1990. 248 p. il.

CARVALHO-NETO Paulo de. Diccionário de teoria folklórica. 2 ed. Quito-Ecuador: Abya-Yala, 1989. 247 p.

__________. Introducción al folklore extra-terrestre. Folklore americano n. 40. Mexico: Instituto Panamericano de Geografia e Historia, julio/diciembre 1985. p. 106-119

__________. O povo do espaço: metodologia do folclore extraterrestre. Campo Grande, MS: Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores, 1998. 265 p. il.

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. 2. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: INL, 1976. 348 p.

COLOMBRES, Adolfo. Seres sobrenaturales de la cultura popular argentina. 3. ed. Buenos Aires: Ediciones del Sol, 1992. 203 p. il de Ricardo Deambrosi. (Biblioteca de Cultura Popular; n. 1).

COLUCCIO, Félix. Cultos y canonizaciones populares de Argentina. 2. ed. Buenos Aires: Ediciones del Sol, 1994. 201 p. (Biblioteca de Cultura Popular; n. 6).

__________. Fauna del terror en el folklore iberoamericano. Buenos Aires: Plus Ultra, 1992. 109 p.

ELIADE, Mircea. Mitos, sonhos e mistérios. [Tradução de Samuel Soares]. Lisboa: Edições 70, 1989. 199 p.

__________. O mito do eterno retorno. [Tradução de José ª Ceschin]. São Paulo: Mercuryo, 1992. 147 p.

__________. Tratado de história das religiões. [Tradução de Fernando Tomaz e Natália Nunes]. São Paulo: Martins Fontes, 1993. 479 p.

FRAZER, James George. La rama dorada. 2 ed (oitava reimpresão). Madrid: Fondo de Cultura Economica, 1995. 860 p.

KLINTBERG, Bengt al. Las leyendas modernas migratorias en la tradicción oral e en los periodicos In BLACHE, Martha (org). Narrativa folklórica II. Buenos Aires: Fundacción Argentina de Antropologia, 1995, 168 p. p. 61-71

LOPES NETO, J. Simões. Lendas do Sul. 11 ed. Porto Alegre/Rio de Janeiro: Editora O Globo. 1983. 159 p. (Coleção Província)

MARKALE, Jean. Le christianisme celtique et ses survivance populaires. Paris: Imago, 1983. 260 p.

ROMANO, Eduardo. La emigración de los lobizones del imaginário popular a la industria cultural. Revista de investigaciones folklóricas, 12. Buenos Aires, dez. 1997 p. 76-85

TAIPE, Godofredo & ORREGO, Amparo. Identidad y conflictos étnicos en un mito andino. Revista de investigaciones folklóricas, 13. Buenos Aires, dez. 1998 p. 31-37

VIDEOS


GOMES, Marcelo [et al.]. A perna cabeluda. Recife: Parabólica Brasil e Center Video. 1995.

PASSARINHO FILHO, Ronaldo & MAGALHÃES, Moisés. Belém – mitos e mistérios: a moça do táxi. Lendas amazônicas. Direção de Ronaldo Passarinho Filho e Moisés Magalhães. Produção executiva de Marcelo Magalhães. Roteiro de Ronaldo Passarinho Filho e Lázaro Araújo. Música de Sebastião Tapajós. Belém: SUDAM / FUNARTE / Governo do Estado do Pará / Assembléia Legislativa do Pará / Prefeitura Municipal de Belém, 1999.


FOLHETOS DE CORDEL


LEITE, José Costa. O lubisomem da Paraíba. Condado, PE: o autor, s.d., 8 p.

PAULA, Francisco Firmino de. A confusão do papa-figo. S.l.: o autor, s.d. 8 p.

PINHEIRO, Luiz da Costa. O lubzhomem do mar. S.l.: s.e. S.d. 32 p. (in CASCUDO, Luis da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: INL, 1976. 348 p. p. 313-321)

SILVA, Minelvino Francisco. O papa-fígado de criança que apareceu em Minas Gerais. Itabuna, BA: o autor, 1968. 8 p.

SOARES, José Francisco. A perna cabeluda de Tiuma e São Lourenço. Recife: o autor, s.d. 8 p.

SOARES, José Francisco. O homem macaco ou o lubisomem do Cabo. Recife: o autor, s.d. 8 p.




* Professor associado do Curso de Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural, da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

1 Paulo de Carvalho-Neto. Diccionário de teoria folklórica. 2 ed. Quito-Ecuador: Abya-Yala, 1989. p. 146

2 Ronaldo Passarinho Filho &, Moisés. Belém Magalhães. Mitos e mistérios: a moça do táxi. Lendas amazônicas. Belém: SUDAM / FUNARTE / Governo do Estado do Pará / Assembléia Legislativa do Pará / Prefeitura Municipal de Belém, 1999.

3 Paulo de Carvalho-Neto. O povo do espaço: metodologia do folclore extraterrestre. Campo Grande, MS: Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores, 1998. 265 p. il. p. 208






Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal