Valdirene pereira de sousa



Baixar 50.25 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho50.25 Kb.
A INFÂNCIA SOB OS SIGNOS DO TRABALHO E DAS BRINCADEIRAS: demarcações memorialísticas de idosos paraibanos

VALDIRENE PEREIRA DE SOUSA



valufsc@gmail.com

História, Memória e Oralidade



RESUMO:

Este trabalho se propõe a investigar histórias de infâncias redesenhadas pelas memórias de idosos(as), demarcadas sob os signos do trabalho e das brincadeiras. Infâncias vivenciadas sob o viés das pertenças sociais, raciais e de gênero, representadas e projetadas sob a ótica do olhar adultocêntrico dos próprios idosos(as). Quais os lugares/pedagogias de infâncias que entraram na cena narrativa e sob quais condições? As memórias de infâncias trazidas pelas narrativas dos idosos(as) pesquisados possibilitam refletir acerca dos papeis assumidos pelas crianças no seio familiar da sociedade paraibana, em um contexto que tem como principal demarcação espacial o interior nordestino, especificamente a zona rural. Um espaço demarcado por uma série de práticas regionalistas e tradicionalistas e de uma progressiva subordinação em relação ao Sul do país que vão culminar na constituição de uma identidade nordestina marcadamente centrada no masculino e nas relações patriarcais definidoras das relações de gênero e etárias (Albuquerque Junior, 2003). Dessa forma, cabe interrogar como era configurado o período da infância nesse cenário espacial e temporal. Quais as fronteiras que determinavam o início e o fim dessas infâncias? E Como os discursos pedagógicos vão articular um lugar de infância nesse cenário doméstico patriarcal? Julgo por bem investigar as configurações e representações dessa demarcação etária, sem desvinculá-la das relações de gênero e raciais acionadas nesse contexto espaço-temporal.

Palavras-chave: Infância, trabalho, brincadeiras
THE CHILDREN UNDER THE SIGNS OF WORK AND PLAY: demarcations of memories elderly paraibans
ABSTRACT:
This work aims to investigate stories of childhood memories redesigned by elderly, demarcated under the signs of work and play. Experienced childhoods under the bias of social, racial, and gender affiliations, performed and designed from the perspective of the adult gaze of the elderly themselves. What places/pedagogies childhoods who entered the narrative scene and under what conditions? The memories of childhood brought by the narratives of the elderly surveyed possible to reflect on the roles assumed by the children in the family of Paraíba society, in a context that is primarily spatial demarcation the interior northeast, specifically the countryside. A space demarcated by a series of traditionalist and regionalist practices and progressive subordination towards the south of the country that will culminate in the establishment of a northeastern markedly identity centered on defining masculine and patriarchal relations of gender and age (Albuquerque Junior, 2003). Thus, it is worth questioning how it was set in the period of childhood temporal and spatial setting. What are the boundaries that determine the start and the end of those childhoods? How will the pedagogical discourses articulate a place of childhood in this patriarchal domestic scene? I judge by well investigating the settings and representations in this age demarcation without separate it of gender relations and racial triggered this spatiotemporal context.
Keywords: Childhood, work, play

Temos uma idade ou pertencemos a uma idade? Essa questão esboçada por Lloret (1998) incita a discussão que nos propomos nesse artigo, de repensar às construções e representações simbólicas dos lugares de infância, quando mergulhamos nas subjetivações e representações presentes nas memórias afetivas dos sujeitos idosos investigados. Nesse viés de análise, nos questionamos sobre os lugares permitidos para as expressões infantes na nossa sociedade contemporânea e adentramos no universo dos não-lugares, do não-estabelecido, das outras imagens que se apresentam como reverso e produzem deslizamentos de sentido.

Pertencer a um grupo de idade significa ter que adequar-se a uma normativa bastante precisa: em cada idade, podemos ou não podemos fazer, devemos ou não devemos (como se viver fosse uma dívida) fazer uma série de coisas e, sobretudo, temos de levar muito em conta os possíveis desvios com relação aos modelos socialmente sancionados (...) nos anos da infância, por exemplo, há que se adaptar à escola graduada que determina aulas e currículos segundo uma idade que resulta ser a do grupo e a de sua imagem (...), uma imagem que determina a pertença ou não-pertença dos anos de cada menino ou menina (não pertença no caso dos que repetem, imaturos, deficientes ou precoces, todos eles por certo, não muito bem vistos) (...). Viver a idade acarreta assim a preocupação de nossa normalidade ou do desvio com relação a ela. (LLORET 1998:15-16).

Essa experiência de desconstrução de papéis sociais cristalizados se tornou possível nesse trabalho, a partir das narrativas dos idosos pesquisados, das memórias afetivas que nos serviram de caminho metodológico para pensarmos a relativização dos papéis sociais etários. A resignificação e a ressubjetivação do passado tomadas sob o viés das rememorações dos idosos tem nos possibilitado desconstruir a ideia de aprisionamento e cristalização dos lugares etários. Assim como tem nos possibilitado lançar um olhar reflexivo e crítico sobre o transitar entre as identidades construídas sob parâmetros socialmente estabelecidos e entre as identidades desviantes desse olhar normalizador. Portanto, as experiências infantes trazidas por meio das memórias afetivas dos idosos nos possibilitam investigar esse cenário cambiante e plural.

Para a pesquisa das memórias de infância, o Centro de Convivência1 é tomado como demarcação espacial por ser um espaço institucionalizado de dispositivos da velhice, aglutinador de subjetividades múltiplas. Muitos idosos participantes desse espaço são naturais de várias cidades do interior nordestino, principalmente da região do Cariri, e apresentam em suas identidades diversas maneiras de sentir-se homem, sentir-se mulher, velho, jovem, criança, formas bastante particularizadas, assentadas sob as experiências de vida que teve cada sujeito. As subjetividades etárias e de gênero se configuram de forma múltipla e plural na construção de suas narrativas. As lembranças e/ou silenciamentos emergiram durante a realização de oficinas de memórias e entrevistas individuais no Centro de Convivência, foram 05 idoso(as) que contribuíram com narrativas para a construção deste artigo, seus nomes não são revelados durante os relatos de experiência, nomes fictícios substituem os nomes verdadeiros.2

E AS MEMÓRIAS ENTRAM EM CENA...

Adentremos imaginariamente o cenário de rememoração constituído durante a realização das oficinas de memórias no Centro de Convivência. Forma-se um círculo, os idosos ajeitam-se timidamente nas cadeiras, alguns sobressaltos e hesitações se instalam no ambiente, a ânsia de começar a narração das experiências infantes invade os corpos inquietos, uma inquietude refletida nos cochichos e nos silêncios provocados pelo instante que espreita as histórias reveladoras de sentidos e cores. Um dos participantes pede para começar, inicia-se, portanto, a partilha das representações de infância tecidas pelas narrativas desses sujeitos idosos.

O senhor Inácio3, ao começar sua narrativa ressalta que tivera uma infância marcada pelo trabalho na roça, local onde passara toda sua infância e parte de sua adolescência. O trabalho esteve fortemente impregnado no seu modo de vida, na sua rotina diária, começou a trabalhar a partir dos 07 anos de idade e este foi o marco que lhe permitiu conhecer o significado da responsabilidade de ter de trabalhar junto com seu pai para ajudar uma família de 12 irmãos. Ao adentrarmos no universo de experiências de infância do senhor Inácio, encontramos um cenário refeito de lembranças marcadas por sentimentos ambivalentes, que transitam entre a dor de uma vida marcada por limitações e a satisfação de ser educado segundo uma moral patriarcal rígida, que de acordo com suas palavras, lhe fez homem.

Eu sou natural de Mamanguape, até os 7 anos de idade eu tive infância, mas depois tive que trabalhar na roça com meu pai, precisava muito de trabalhar, a família tava...em crescimento, eu tenho, eu sou de uma família de 12 irmão e tudo são vivo ainda. Aí vim trabalhar na roça com meu pai logo cedo, comecei a trabalhar com 7 anos, mas de qualquer maneira eu tinha uns brinquedo, eu tinha uns 7 ano de idade e comecei a brincar né, mais aí de vez em quando deixava de brincar pra ir pra roça, mas foi muito bom assim em termo de conhecimento, tinha lá um rio muito grande assim [gesticula o tamanho do rio], tomava banho tudo pelado mesmo, saia aboiando em cima das águas assim e aprendia a nadar logo, os brinquedo nós naquele tempo não podia comprar, mas, nós fazia carrinho, adaptava, num tem essa cuia assim de cabaço né?! Essas cuias de cabaço! Eu fazia umas rodinha e adaptava e pegava um bocado de marmeleiro e fazia um ganchinho assim e fazia um carrinho pra dirigir...e fazia bola também eu gostava muito de jogar futebol, fazia bola de imbira de bananeira costurava e fazia uma bola deste tamanho assim [nesse momento ele gesticula o tamanho da bola para expressar quão grande ela ficava], ficava boa, nós fazia uma agulhazinha e pegava a imbira da bananeira, uma imbira seca! botava pra secar aí fazia, fazia a bola, costurava e ficava cada uma bola boa. Às vezes final de ano assim, quando matava peru na mão né! aí do papo do peru nós fazia uma bola pra jogar, eu já fiz muitos gols aí, jogando por aqui, até aquele Romildo Nascimento, é muito meu amigo, e disse seu Aluizio quantos gols na sua carreira? Eu fiz mais de mil e quinhentos gols, eu comecei a jogar logo de novinho, garotinho né, as minha brincadeiras era assim, nós fazia peão também de tronco de jurema, nós brincava a vontade, fazia essas pipa, brincava menino com menina, logo no início assim era tudo junto, mas tinha hora que a brincadeira era só de menino num sabe! No futebol era só menino, nos banhos era só menino, aí então minha infância foi essa aí, brinquei muito de toca, tanto dentro da água como fora, aí tinha também assim uma brincadeira que nós brincava muito assim, fazia uma divisão assim do terreno, uma areada assim grande, aí nós botava uma bandeira aqui, uma bandeira quer dizer um ramo de mato, e ficava seis daquele lado e seis do lado de cá, digamos assim, pra roubar a bandeira de cá sem tocar na gente, e agente ia tocar a bandeira de lá, então tinha umas brincadeiras muito boa na minha época e ainda hoje tenho lembrança, muito gratificante mesmo, a gente aprendeu muito(...) {sic}

Os fragmentos das memórias de infância trazidos na narrativa do senhor Inácio nos possibilitam refletir acerca dos papeis assumidos pelas crianças no seio familiar e na nossa sociedade, em um contexto que tem como demarcação espacial o interior nordestino, especificamente na zona rural, e como demarcação temporal as primeiras décadas do século XX. Como era configurado o período da infância nesse cenário delineado pelo senhor Inácio e quais as fronteiras que determinavam o fim dessa infância? Julgamos por bem nos deter um pouco mais sobre as configurações e representações dessa demarcação etária tecidas no discurso do sujeito entrevistado.

Albuquerque Júnior (2003) destaca, a partir dos discursos de Freyre, que o campo se constituiu como espaço por excelência da dominação do poder patriarcal, dessa forma de organização familiar em que “Os filhos deviam obediência total às determinações dos pais, sob pena de serem castigados (...)” (p.61). A construção de um lugar de infância dentro dessa moral patriarcal, assinalada por Albuquerque Júnior (2003), é determinada por uma lógica desigual das relações etárias, configuradas sob o signo da subordinação. A criança estaria presa à determinação dos pais, principalmente à figura paterna detentora do poder de dominação.

A narrativa do senhor Inácio nos possibilita pensar as experiências de infância vivenciadas nesse território rural marcado pela tradicionalização dos costumes, por uma moral patriarcal bastante forte, definidora das relações sociais. A construção de sua narrativa vai moldando uma experiência de infância destoante da concepção de infância enfatizada pelos discursos normativos que pensam a criança como sujeito de direitos, principalmente a partir da proposta de criação de políticas específicas com vistas a nortear o atendimento à infância. A experiência infante deste sujeito entrevistado foi fortemente marcada pelo trabalho, sua fala e gestos são enfáticos quando ele diz que trabalha desde os 07 anos de idade, essa foi a demarcação temporal representada em sua narrativa como o momento de saída do universo infantil e de entrada no mundo das responsabilidades [associado ao universo da adultez] que lhe foi apresentado de forma impositiva pelo pai.

Encontramos na fala do senhor Inácio sinalizações de uma vivência de infância carregada de sentidos. Apesar das dificuldades e carências reveladas em sua narrativa, ele enfatiza que a infância foi um período de grande aprendizagem, e como um dos fatores responsáveis pelo aprendizado ele destaca o aspecto lúdico da infância, as brincadeiras desenvolvidas sub-repticiamente, os brinquedos confeccionados nos intervalos do trabalho. Astuciosamente o senhor Inácio, em conjunto com outras crianças, desenvolvia e criava brinquedos e brincadeiras dentro das possibilidades que lhe eram cabíveis, a partir dos instrumentos que a natureza lhe oferecia.

A entrada no universo escolar foi sucumbida pela entrada no universo do trabalho, uma escolha que não cabia às crianças, cabia à figura paterna definir e escolher os caminhos que os filhos deveriam seguir para tornarem-se “homens de vergonha” e “mulheres de bem”. O trabalho era instituído como o melhor caminho para educar os filhos, de acordo com os preceitos morais comungados na época, a instituição escolar evidenciada na contemporaneidade como uma das responsáveis pela proteção dos direitos da criança não existia no universo experiencial do senhor Inácio, que devido às dificuldades de subsistência encontradas no âmbito doméstico, não pôde frequentar a escola. Outro motivo que lhe impossibilitou de receber uma educação escolarizada foi a ausência do ambiente escolar na zona rural onde ele morou até os 17 anos.

(...) aí eu vim já pra cidade com 17 anos, eu não tinha conhecimento de nada da cidade e a cidade que eu enfrentei logo foi o Rio de Janeiro, nem a minha cidade eu conhecia, porque eu morava no interior, nem energia tinha, era candeeiro, passei uns quatro anos no Rio de Janeiro e vim embora pra’qui e até hoje. Hoje graças a Deus eu construí uma família maravilhosa e to vivendo tranqüilo graças a Deus, eu tive um pai e uma mãe muito boa, mas dinheiro não existia sabe, quando eu comprava uma calça a outra já tava remendada, pra mim foi bom , foi gratificante porque me ensinou ser homem e com aquela capacidade que Deus me deu, meu pai me ensinou, hoje sou pai de quatro filho, tudo homem de vergonha, tenho quatro filho maravilhoso, quatro benção, foram todos criados aqui, nada do que eu disse aqui eles não conhece não, conhece porque eu disse e quando nós ia pro sítio também nós arrancava aquela batatona da roça sabe! E... fazia uns fogo assim e assava, ficava uma maravilha, um gosto muito saboroso, churrasco de batata doce, é bom demais! A gente que vivia mo sítio assim, a gente passou muita necessidade, uma fome geral não, mas uma necessidade grandilosa mesmo, mas a gente superou tudo. (...) hoje eu tava numa reunião da igreja, tinha mais gente que aqui, ai levantou uma irmã e disse: ‘é errado uma criança trabalhar’, ela começou a conversar, aí na reunião tinha uma base de 70 pessoa mais ou menos, aí quando ela terminou eu levantei o dedo e disse irmã eu quero a palavra, eu disse: ‘olhe! Muita gente acha que uma criança trabalhar é ruim, mas num sei, eu não estudei porque não tive oportunidade, só fiz o segundo ano primário, mas quando eu tenho oportunidade eu dou até uma palestra, já dei várias palestra com meu segundo ano. Então, é...eu digo a vocês que hoje eu posso dizer que sou um homem dignamente porque Deus me ensinou em primeiro lugar através do meu pai e o conhecimento na palavra de Deus, mas eu digo a você, a criança trabalhar nunca foi ruim nem vai ser ruim, porque ensina a ser gente é trabalhar desde criança, porque eu conheço lá no meu lugar mesmo as criança que trabalharam tudin deu pra homem e hoje os que não tão trabalhando tão dando tudo pra vagabundo, fumando maconha e crack e os que trabalharam, nenhum deu pra ruim porque foi ensinado como homem a trabalhar, num estudaram, mas (...) eu me acomodei um pouco, mas depois tive a oportunidade de estudar, mas hoje eu vejo aí, os filhos com 18 anos 20 anos, num quer trabalhar, num quer estudar, aí vai ser vagabundo, não tem outro caminho não, é vagabundo, por isso que o mundo ta assim, uma criança trabalhar é válido, eu acho que seja, no meu ponto de vista (...){sic}

O universo citadino lhe foi apresentado somente no período da adolescência, quando o senhor Inácio saiu do âmbito familiar a procura de emprego na cidade grande, sua saída da zona rural e sua chegada à cidade do Rio de Janeiro são marcadas pelo estranhamento. Albuquerque Junior (2003) fundamentado em Freyre relata de forma panorâmica a preponderância da cidade enquanto um dos fatores responsáveis pela crise da sociedade patriarcal e delineia as mutações subjetivas provocadas pela experiência citadina.

A cidade é o lugar do estranho, do diferente, do não-rotineiro, da mudança, do combate e do distanciamento das manifestações tradicionais da cultura. É o apego do desenraizamento, da desterritorialização, da falta de apego à terra, de fim do idílio com a natureza. Espaço da confusão de cores, de gentes, de cheiros, de muito ruído. (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2003:101)

Nesse espaço de confusão de gentes, cheiros e ruídos o senhor Inácio não conseguiu ficar muito tempo, apenas 04 anos, pois decidiu voltar para a Paraíba. Sua infância e parte de sua adolescência fora construída na relação com o campo, sob a ética do trabalho, fator que o faz defender o trabalho infantil enquanto uma experiência educacional necessária para formação da dignidade do indivíduo. Esta valoração positiva do trabalho infantil encontrada na fala do senhor Inácio é comum entre as famílias pobres, que veem na atividade laboriosa um lugar de aprendizado da disciplina e de valores morais necessários à formação do indivíduo, e não como desvio de função, que é um dos aspectos discutido pelos programas institucionais que apregoam a erradicação do trabalho infantil4.

A associação do trabalho com o mundo da ordem, tornando-o fonte de superioridade moral, leva também à valorização do trabalho dos filhos. Como o do homem e da mulher, o trabalho dos filhos faz parte do compromisso moral entre as pessoas na família. (SARTI, 2003, p. 103-104)

Outros relatos de experiências infantes corroboram o lugar de infância marcado pela relação entre campo e trabalho discutida através da fala do senhor Inácio. Ao relembrar as experiências de infância a senhora Dora5 enfatiza esse lugar marcado sob a égide do trabalho:

A minha infância foi mais no sítio, eu morava com meus avós, aí lá eu vivia plantando feijão, plantando milho e apanhando algodão. E na época da colheita do arroz, era mei dia em ponto com um chapéu de palha, que não tinha tamanho, na cabeça batido e molhado, era pro mode os passarinho não comerem o arroz, agora isso pra ganhar um vestido durante o ano todin. E então, a minha infância mermo pra brincar de boneca eu só tinha uma chancezinha quando eu vinha na casa de meus pais, mais minha infância foi todinha dentro do mato .{ sic}

A senhora Eva6 também vivenciou esse lugar de infância marcado pelo trabalho árduo na roça, pela ausência de uma educação escolar, por dificuldades financeiras e relembra com tristeza sua experiência de infância:

Não brinquei de boneca, nem estudei, passei minha infância no cariri, na fazenda Quixaba. Eu não tinha estudo, fiquei com meus irmão, meu pai morreu, quando eu nasci meu pai morreu, aí minha vida foi essa, só vida de doido, não tive alegria pra nada. Trabalhava na roça, só alimpar mato, eu alimpava porque meu padrasto botava, mãe casou duas vezes, mas só foi pra sofrer, eu num conto nenhuma vantagem da mocidade, to contando agora, porque eu nasci agora, depois que entrei nesse Centro de Convivência viu! { sic}

Mais uma das participantes da oficina de memórias pede para expor suas memórias de infância, a senhora Lia7. Caminha com dificuldade até chegar ao centro do círculo, pois tivera um AVC (Acidente Vascular Cerebral) recentemente, se expressa também com muita dificuldade e com muita emoção, à medida que sua fala vai sendo expressa pausadamente, lágrimas escorrem em sua face. Contudo, ela afirma querer continuar a narrativa sobre sua experiência infante.

Eu trabalhei muito no sítio, era um sítio lá em Puxinanã, meu pai não deixava a gente estudar, minha mãe escondia uma boneca debaixo da cama pra meu pai não ver, porque se ele visse batia muito. Um dia eu tava conversano com minha mãe, falano que eu tava com saudade da minha tia, queria ver ela, aí meu pai chegou e perguntou gritano o que a gente tava conversano, eu disse que não era nada não, só tava dizeno que tava com saudade da minha tia, daí ele me bateu muito, muito, disse que não era pra eu sair de casa, ele só deixava ir pra igreja com minha madrinha. [...] quando ele ia cortar o cabelo a gente brincava, mas era bem escondido. [...] hoje eu dou pras minha netinha o que eu não tive, eu compro muitas bonecas (...).{ sic}

Sua infância fora marcadamente uma experiência de proibições, de desejos recalcados, anseios reprimidos, o repressor dos seus desejos de infância foi seu pai, a figura autoritária paterna, responsável pelas determinações que cada membro da família deveria seguir. Mas, apesar da senhora Lia está inserida nesse cenário de dominação, comandado pelo seu pai, com vistas à obediência irrestrita, linhas de fuga foram produzidas, “maneiras de fazer” cotidianas sub-repticiamente foram tecidas. Astuciosamente foram criados meios que possibilitaram a experimentação das brincadeiras de infância, a saída do pai para cortar o cabelo era um dos momentos que a senhora Lia utilizava para brincar de boneca e para falar com sua mãe sobre seus desejos infantes. Mediante à produção astuciosa e silenciosa da senhora Lia, a proibição paterna não impossibilitou totalmente suas brincadeiras de infância.

Estas brincadeiras de infância reprimidas na infância dos sujeitos supracitados, conforme narrado, se transformam em uma prática permitida e constante na infância delineada discursivamente pela senhora Emília8. Outro cenário infante é (re)desenhado por ela, embora comungue da mesma demarcação temporal dos outros sujeitos entrevistados, a demarcação espacial se diferencia, sua infância fora vivenciada integralmente numa cidade capital, a liberdade foi um dos aspectos marcante de sua fala na descrição de sua infância.

“Eu hoje sou feliz porque tenho essa infância dentro de mim.” Essa infância reportada na fala da senhora Emília foi construída pela sua narrativa enquanto uma experiência maravilhosa, viva de sentidos.

Se eu fosse falar, essa semana não daria pela minha infância, mas primeiro de tudo eu tive uma infância assim, eu era uma menina alta, bem magrinha, então minha perninha era assim como a da Maria bem fininha [Maria é uma senhora participante do Centro de Convivência], eu era toda magrinha, mas eu fazia tudo que tinha direito, foi uma infância maravilhosa, eu fui criada pelos meus avós, sabe! E eu brinquei, eu brincava na rua, porque naquele tempo a gente tinha a liberdade de brincar na rua, eu brincava de rica rica ‘eu sou rica rica rica de mavé mavé...’, eu brincava de casamento oculto, de fita, de fruta, sem pensar nos cozinhados que a gente fazia na porta de casa de noite, eu morava em Maceió, eu com dez anos eu saia pra praia pra tomar banho, naquele tempo não tinha tarado nem nada, jogar vôlei, eu jogava rasteirinha de peão, pegava na palma da mão, pipa, eu fazia tudo que tinha direito. Um dia eu saí, tinha um sapateiro que tinha 7 filhas, então ele ia pescar todo domingo, aí um dia ele foi pescar levou as filhas todinhas né, meninas da minha idade, nesse tempo eu acho que eu já tinha uns 12 anos, aí levou aquela turma todinha pra pescar no caís do porto, longe, a gente andava um pedaço né! Passava a praia e ia pescar, aí eu disse ah! eu vou com seu Giverto, aí fui não avisei nada a minha mãe porque ela não ia deixar né, menino! Aí quando eu dei fé o tempo tava escuro e minha mãe doida em casa procurando, procurando, ela ficou detrás da porta com um tênis ‘criolo’que se usava naquela época, nunca me esqueci disso, era um tênis branco, ‘criolo’ que tinha, é porque hoje em dia os tênis são sofisticados, mas naquela época era só aquele tipo, mas menina! ela detrás da porta escondidinha que quando eu passei ela me pegou com esse tênis ‘criolo’, pense numa ‘piza’. Mas aí minha infância foi maravilhosa, eu era uma menina muito ativa, com dez anos eu já negociava, não era que eu tivesse condições de...[nesse instante ela faz o gesto de dinheiro] porque minha família era abastada né, o lado dos meus avós, não me faltava nada, mas eu era uma menina muito interesseira, eu tirava cajarana da cajaraneira, eu levava pro colégio, eu vendia, eu fazia quadros, eu negociava e a minha vida foi muito ativa, tive uma infância ma-ra-vilhosa né, por isso que eu ainda hoje ainda sou feliz porque eu ainda tenho essa infância dentro de mim, então eu brinco, danço, eu danço a dança cigana. Eu tive uma infância maravilhosa, com tudo que tive direito, sem contar nas brigas né, que eu era tão magra que me botavam o apelido de esqueleto humano, mas só que eu era braba né!(...) { sic}

Ao (re)desenhar suas experiências de infância, a senhora Emília constrói a infância sob os signos das brincadeiras e travessuras, da liberdade de brincar permitida por seus pais, diferentemente das infâncias do interior do nordeste, vivenciadas no campo, marcadas pelo labor e pelas ausências de oportunidades. Conforme assinalou Albuquerque Junior (2003) ao descrever a crise da sociedade patriarcal e o papel da cidade nas mutações subjetivas, os valores trazidos pela educação urbana eram distintos daqueles apreendidos no campo e, portanto, reveladores de outro modelo de infância.

As mutações subjetivas provocadas que a educação urbana das novas gerações das elites teria provocado levava a uma progressiva dissensão em relação aos valores e costumes predominantes na sociedade agrária e escravocrática, entre eles o da obediência cega aos pais (...) (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2003:61)

A pluralidade experiencial das infâncias trazidas pelas memórias afetivas dos sujeitos idosos participantes do Centro de Convivência revela adaptações, (re)apropriações, (re)significações dos papéis sociais instituídos normativamente às categorias etárias, revela um amálgama de sentidos e significações, que possibilitam o transitar pelos não-lugares construídos nas/pelas experiências do cotidiano. Suas narrativas distanciam-se de toda a arregimentação discursiva que se articulava socialmente com vistas a instituir o lugar da infância associado à noção de escolarização e possibilitam a explosão de outros lugares, os quais foram vivenciados sob os signos do trabalho e das brincadeiras, sob outras referências que deslocam/invertem o lugar normativo construído socialmente. São narrativas que constroem outros lugares de infância, os quais também se inserem dentro das práticas da sociedade, lugares construídos sob memórias que transitam entre as diferentes fronteiras etárias, entre os lugares infantes, juvenis e senescentes. Devires que se instalam através das marcas subjetivas desses sujeitos, (re)desenhadas nas cartografias geracionais que emergem das histórias de vida impregnadas de sentidos múltiplos, responsáveis pela constituição de si e pela inventividade de si.



BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. História a arte de inventar o passado. Bauru, SP: Edusc, 2007.

______. Nordestino: uma invenção do falo. Uma história do gênero masculino (Nordeste- 1920/1940). Maceió: Edições Catavento, 2003.

ANSART, Pierre. “História e memória dos ressentimentos”. In BRESCIANI, Stella & NAXARA, Márcia (org.) Memória e (res)sentimento. Indagações sobre uma questão sensível. Campinas: Ed. Unicamp, 2004. pp. 15-34.

PRIORE, Mary Del. História da Criança no Brasil. 3ª edição. São Paulo: Contexto, 2002.

ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.

AUGRAS, Monique. História oral e subjetividade. In: Simson, O.R.M.Von.(org.) Os desafios contemporâneos da História Oral. Campinas: UNICAMP, 1997, p. 213-222.

FREITAS, Marcos Cézar de. História Social da Infância no Brasil. 5ª edição. São Paulo, SP: Cortez, 2003.

LARROSA, Jorge & LARA, Nuria Pérez de (orgs). Imagens do outro. Petrópolis: vozes, 1998.

LLORET, Caterina. As outras idades ou as idades dos outros. In: LARROSA, Jorge & LARA, Nuria Pérez de (orgs). Imagens do outro. Petrópolis: vozes, 1998.

MAGRO, Viviane M. de Mendonça. Espelho em Negativo: a idade do outro e a identidade etária. In: Infância e Velhice Pesquisa de Idéias. Alínea Editora, 2004, p.33-46.

OLIVEIRA, Valeska Fortes de. Educação, memória e história de vida: usos da história oral. In: História Oral. Revista da Associação Brasileira de História Oral,volume 8, Número 1, Janeiro-Junho de 2005, p. 91-106.



SARTI, Cynthia Andersen. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. 2 Ed. rev. São Paulo: Cortez, 2003.

 Doutoranda em História pela Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.


1 Espaço administrado pela SEMAS- Secretaria Municipal de Ação Social, fruto da institucionalização da Política Nacional do Idoso, o Centro de Convivência, fundado no ano de 2000, assessora treze grupos de terceira idade campinenses, computando um total de 321 idosos cadastrados, sendo 228 mulheres e 93 homens e conta com uma equipe multidisciplinar e transdisciplinar composta por 17 pessoas.


2 As entrevistas presentes nesse artigo foram feitas no ano de 2009, durante a realização da pesquisa para a minha dissertação, intitulada IMAGENS DO “MESMO OUTRO” (Re)apropriações da velhice no Centro de Convivência em Campina Grande, com idoso(as) aposentado(as) que têm entre 70 a 80 anos de idade, participantes do Centro de Convivência em Campina Grande-PB e moradore(as) da mesma. As entrevistas foram feitas durante a realização de oficinas de memórias.

3 Entrevista concedida a autora no centro de Convivência no dia 24 de Novembro de 2009.

4 A título de exemplificação apresentamos o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), um dos principais programas que tem o objetivo de erradicar o trabalho de crianças e adolescentes no país. É desenvolvido e mantido pelo Governo Federal desde 1996 e conta com o co-financiamento dos estados e a execução direta dos municípios.

5 Entrevista concedida a autora no centro de Convivência no dia 24 de Novembro de 2009.


6 Entrevista concedida a autora no centro de Convivência no dia 24 de Novembro de 2009.

7 Entrevista concedida a autora no centro de Convivência no dia 24 de Novembro de 2009.


8 Entrevista concedida a autora no centro de Convivência no dia 24 de Novembro de 2009.


Catálogo: eventos -> 2encontrointernacional -> anais -> trabalhos completos
trabalhos completos -> O limoeiro de dom aureliano matos
trabalhos completos -> A relevancia da filologia na construçao filosófica do renascimento italiano resumo
trabalhos completos -> O museu entre a História e a Memória: museus criados pelo sphan em Minas Gerais
trabalhos completos -> Um tempo de mudanças na trajetória da associaçÃo catarinense de professores – acp (1950 – 1960)
trabalhos completos -> Memórias no plural: palavras, sentidos e emoções. Antônia Natália de Lima1
trabalhos completos -> Casas de farinha e farinhadas: Cultura Material, História Oral e Memória
trabalhos completos -> O jogo das memórias
trabalhos completos -> Marchando das trevas para a luz
trabalhos completos -> História e barbárie na ciência nova de giambattista vico
trabalhos completos -> O olhar do ambulante: enquanto sujeito histórico do São João da Parnaíba


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal