Valsa com Bashir



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Encontro28.07.2016
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As fronteiras do gênero cinematográfico, o documentarismo israelense e as memórias de Ari Folman em “Valsa com Bashir”
O tecido do sonho

O sonho - que muitas vezes nos convence que nossas mentes habitam outras realidades que não a “histórico-material” - é o fio condutor de um filme genuinamente contemporâneo.


Em “Valsa com Bashir”, premiada animação/documentário israelense, o tecido do sonho são as cores, as sombras, as linhas, as intensidades de luz, os traços, tudo o que compõe a estética da animação. Esta arte parece realmente ter possibilitado uma tradução genuína (nunca perfeita) deste tecido para a tela grande.
As teias do relato partem da realidade histórica, de fatos políticos. São construídas pela trama das entrelinhas, com palavras escritas por fortes punhos da História, por um lado; e cruzadas e amarradas pelas vísceras e veias do relato ficcional.
A experiência no tempo

A ficção, a investigação documental y o tecido do sonho desenhado na animação: todas estão a serviço de um imaginário que parece inquieto com certas esquecidas imagens de seu passado.


A memória do próprio diretor, o israelense Ari Folman, pode não ser uma prova exata do que aconteceu. Ela é memória, e por isso, é sempre incerta. Mas não deixa de ser uma forma de entender o tempo, sua imaterialidade e seu significado humano.
Ultimamente tenho lido muito sobre o fenômeno da auto-referencialidade no documentário (por aqui chamam de cinema subjetivo). Há aproximadamente 6 anos pesquiso esta definição que concluo ser, por enquanto, um território por onde o “cinema do real” contemporâneo transita com excelência e voracidade criativa.
É um espaço vasto, mas surpreendentemente criativo e elucidatório para tentar entender as subjetividades de nosso tempo. É um território que vai além do conceito de documentário e mostra que falar de si mesmo no cinema começa com os registros dos Irmãos Lumi`ere. Nas primeiras levas de filmes1 documentais – vues ou vistas – o cineasta já se colocava em cena.
Mas definir tudo isso é o tema de minha pretensiosa dissertação e de tantos outros estudos que agora não cabe detalhar.
A pertinência deste parêntese está relacionada com o fato de que o cineasta relata, em uma animação, com uma estrutura narrativa ficcional, um fato real, ocorrido em sua vida. O seu filme é, `a primeira vista, um filme auto-referencial. E é também uma extraordinária peça de autoficção.
Aqui tomo emprestado o conceito de Jean-Claude Bernardet2 que aplica a definição para os documentários 33 (2004), de Kiko Goiffman e Um passaporte húngaro (2003), de Sandra Kogut. Dois “(...) documentários com desejo de ficção (...) filmes de ficção elaboradas com materiais extraídos de situações reais”.3

Existe uma diferença fundamental entre estes documentários e a obra de Ari Folman: a animação. Os outros fatores que poderiam entrar em discussão parecem ser mais vagos, menos definíveis. Valsa com Bashir é um desejo de contar uma experiência pessoal que vai alem de gêneros e que mantém, como os dois documentários citados, a identidade do autor-personagem. E está evidente no filme que é de sua realidade, de sua experiência pessoal, de sua busca pela própria memória, que são extraídos os materiais que tecem a trama do filme.


O valor do documento

Pois o cineasta cria uma aparente ficção, com estética de animação, para falar de algo que viveu e, no final, diz algo fundamental: consegue potencializar a verdade das imagens documentais que tanto perderam o valor na sociedade contemporânea.


Perderam o valor porque o mundo nunca pode realmente ver a dimensão do conflito humano e como são demarcados os territórios por onde circulam as vidas de milhões palestinos. Tampouco vemos e poucos falam que os campos de refugiados guardam as devidas semelhanças dos campos de concentração que tanto aturdiram a humanidade.
Pois não é de agora. Vejo circular muito pouco este tipo de informação. Assim como existem milhares de informações relevantes que diariamente circulam somente na internet ou em outros meios alternativos.
No campo do documentário, que especificamente domino, tive algumas experiências que me fazem começar a entender a realidade destes milhões de palestinos e a justa ascendência do cinema israelense.
Atos de criação: resistências e pacifismos

Em 2005 o DocBsAs, o festival de documentários, que acontece na cidade portenha ao sul do continente, teve como seu homenageado o documentarista israelense Eyal Sivan. No catálogo do festival, Eduardo Russo, critico e teórico argentino, escreve palavras essenciais sobre o papel de cineastas como Eyal na sociedade. Para ele, o essencial no cinema de Eyal é “o impulso de opor-se ao que é imposto por um dever ou uma lei absoluta, tomando o cinema como uma máquina de questionar o mundo, de interrogar os dogmas e corroer os mecanismos da opressão por meio de um olhar e de uma escuta irredutíveis”.


Em Buenos Aires, nesta mostra, tive a oportunidade de ver uma retrospectiva das obras do israelense que, como tantos, mantém um discurso pacifista e consciente dos horrores políticos e da dimensão humana no conflito do Oriente Médio.

Foi nos documentários de Eyal Sivan, mais especificamente em “Aqabat-Jaber, vida de passagem”, que vi as primeiras imagens verdadeiramente documentais dos campos de refugiados palestinos. Aqabat-Jaber é um dos sessenta (até 2005) campos para refugiados palestinos. Foi construído pela ONU no Oriente Médio no início dos anos 50. O filme de Eyal Sivan foi rodado em 1987. Lembro-me pouco, imagens como de um sonho. Uma realidade geográfica e pessoas em más condições de sobrevivência.


Mas senti a claustrofobia estas pessoas devem sentir na alma ao ver um documentário produzido para o NUFF Global - Climate Change, festival que teve a iniciativa de premiar jovens cineastas de todo o mundo, para falar do que em suas realidades estava mudando em conseqüência do aquecimento global. Espantada, não conseguia dimensionar a realidade dos relatos furiosos dos jovens palestinos que foram até o extremo norte do mundo representar seus filmes.
Eram um grupo de palestinos e o diretor do documentário Ahmed Mashharawi é um jovem cameramen que presta serviços a televisões estrangeiras que trabalham na região. Desde sempre passavam por situações de humilhação mas fiquei aterrorizada com o fato de que as milhões de pessoa que vivem num pequeno espaço na faixa de Gaza estavam sendo ameaçadas também pelo avanço do mar, conseqüência das tantas inconsciências humanas em tantos lados do mundo. O mar avança e os palestinos moram em um território pequeno que tampouco chega a ser próprio. Vão fazer parte de um mar de casas ainda não prontas, sem pintura nem conforto e prédios apertados ou divididos por estreitas ruelas.
Depois, há poucos meses atrás vi o irônico retrato íntimo da vida de um soldado israelense, feito por Avi Mograbi, documentarista israelense tratado como experimental4 e que vem ganhando sessões especiais e retrospectivas de sua obra em festivais mundo a fora.

Z32, seu filme mais recente, teve sessão especial no É tudo Verdade e ele foi convidado de honra do festival.

O tom de Z32 é irônico porque o documentarista acompanha a intimidade de um jovem soldado israelense e suas lembranças sobre um ataque em que mata soldados palestinos, para vingar-se de mortes de companheiros. É em cenas e depoimentos confessionais do jovem, em sua intimidade e em cenas de rememoração feitas para o documentário, que ele mostra a total falta de consciência do soldado em relação ao que significa tirar uma vida. Mas a palavra ironia, que permeia tudo o que o diretor põe em cena, é mais chocante com a máscara digital que coloca no rosto do jovem e de sua namorada para proteger suas identidades. Mais chocante ainda – e também um pouco forçadas – são as cenas dele em ensaios com músicos, em uma performance política que me parece fragilizar, esteticamente, sua obra.


Limites indefiníveis para realidades subjetivas

“Valsa com Bashir”, então, foi um grande respiro para o meu olhar. Disse algo sobre uma realidade alarmante de nosso tempo (uma tragédia recente que deve ser lembrada para não voltar a ser) e disse de forma cinematográfica.

Voltou a uma essência que o cinema contemporâneo está tentando recuperar: o estatuto de documento das imagens móveis.

E também a busca de mensagens para a sociedade de seu tempo. A verdade que vem, então, do abismo da memória. O possível numa arte que tenta traduzir a experiência humana no tempo. Uma arte de contar histórias e de entender um sentido universal que está `a frente de seu tempo, aumentando a nossa percepção de nós mesmos. São sujeitos que, ao tentar entender a si mesmos, usando o meio audiovisual como tecnologia do eu5, falam sobre a subjetividade contemporânea e, por isso, merecem um grande público.


Vi que o sacrificio do diretor6, para fazer este filme, era substancial. Ele pensou a animação para um público jovem, que pouco sabe da Guerra do Líbano, na década de 80. Mas o mais

interessante é sua defesa do documento, quando assume que a seriedade do assunto deveria ser lembrada. E é o que ele faz no final do filme!


Assim, revirando seu passado, e as lembranças de outras pessoas que viveram a guerra, ele recupera o estatuto de documento das “imagens reais”. Elas não são mais um corte, mais 5 ou 6 segundos de edição em um jornal diário lotado de outras informações que podem ser mais atraentes para o espectador.
Infelizmente, vejo poucas obras limítrofes como esta na produção contemporânea, com uma linguagem e uma mensagem que indique os rumos do cinema, sem precisar de deixar de ser cinema7. Interessa-me que elas atravessam fronteiras da arte e instalam-se muito bem em zonas de intersecção.
E mais preocupante ainda, vejo que o público para estes filmes deveria ser bem mais extenso do que é. Mas, apesar de tantos esforços em co-produções como esta, ainda falta toda a parafernália da divulgação e da distribuição ideais para este tipo de obra.
Aprendi a respeitar os cineastas que lutam pela paz nos dois lados do conflito. Ari Folman é um deles e entregou seu imaginário, campo de um conflito abismal, como as teias que parecem ligar o tecido das estúpidas guerras travadas entre humanos. Também respeito os cineastas que se tornam personagens de seus próprios filmes, um desafio de auto-exposição muito mais difícil e complexo que o uso da primeira pessoa e tão menos definível quanto o tecido do sonho que levou Ari Folman a fazer uma animação documental de sua busca pela própria memória.


Ficha técnica do filme

“Valsa com Bashir” venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, categoria para a qual também foi indicado ao Oscar.

A animação também foi selecionada para a competição principal do Festival de Cannes, em 2008.

Título original: Vals Im Bashir, Waltz with Bashir

Diretor: Ari Folman

Gênero: Animação, Documentário

Duração: 90 min

Ano: 2008

Site Oficial: http://waltzwithbashir.com/

Data da Estréia: 03/04/2009

Cor: Colorido

País: Israel, Alemanha, França, EUA, Holanda, Finlândia, Suíça, Bélgica, Austrália



1 Ainda preciso saber se já na primeira sessão. Se não me falha a memória, sim estava. Mas, prefiro ver a memória que está registrada nos livros. Sem formalismos, deixo esta dúvida para um próximo texto onde pretendo resenhar um livro sobre Louis Lumi`ere, o irmão que teria filmado as imagens de Auguste e que é o mais engenhoso e cineasta dos dois (isso também é vaga lembrança, perdoem-me se não é exata ainda a informação).

2 BERNARDET, Jean-Claude. Documentários de busca: 33 e Passaporte húngaro. En MOURÃO, Maria Dora; LABAKI, Amir (Orgs). O cinema do real. San Pablo, Cosac&Naif, 2005.

3 Ibid.

4 Não achei Z32 um filme experimental, mas simplesmente um documentário performático e provocativo. Acho que falta estética e elaboração conceitual para levar este titulo. Como não vi outras obras do autor, não posso estender a reflexão para o trabalho do diretor.

5 Este é um conceito de Michel Foucault. Os dois livros onde melhor fala sobre este tema são: FOUCAULT, Michel. La hermenéutica del sujeto. Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 2001.

__________________ Tecnologías del yo y otros estudios. Barcelona, Paidós Ibérica, 1990.




6 Ele tinha 19 anos quando participou de um dos episódios mais sangrentos da guerra do Líbano em 1982: o massacre de Sabra e Chatila. O filme mostra a busca do diretor pelas suas lembranças do episódio sangrento, esquecidas por um trauma que remonta a outros conflitos semelhantes na história familiar.

7 O que vem sendo comum demais e pode afastar-nos de uma arte importante. Continuar fazendo cinema vai alem da tecnologia e é uma linguagem, uma estética, um dispositivo do ver e do escutar que não pode ser uma memória de poucos.


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