Vaticano II, um porto de chegada ou de partida? Ney de Souza1 Resumo



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Vaticano II, um porto de chegada ou de partida?

Ney de Souza1


Resumo: Este artigo apresenta os antecedentes do Concilio Vaticano II, considerando as circunstancias, os agentes, a tradição eclesial e o espírito do evento conciliar construído ao longo do século XX. O texto revela que o Vaticano II é um evento de fundamental importância para a Igreja católica, marcando seu efetivo dialogo com a modernidade.
Palavras chave: Vaticano II, historia, modernidade, eclesiologia, laicato

O período que antecede o Concilio Vaticano II revela uma sociedade repleta de mudanças. Em pouco tempo diversos acontecimentos trouxeram grandes transformações que afetaram a humanidade. O evento convocado pelo papa Pio IX, o Concilio Vaticano I (1869-1870), não chegou ao seu fim devido à guerra franco-prussiana. Esse fato vem assinalar uma ruptura decisiva nas relações político-social e ético culturais que o êxito do conflito revelava. O fato particular é na realidade revelador de uma serie de fenômenos que se pensava terem sido superados cinqüenta anos antes.

A Revolução Industrial continuava a trazer inovações e, para estas, eram necessárias novas abordagens. A industrialização não só fez aumentar a produção de produtos existentes, mas introduziu novos. Seus efeitos eram rápidos e trouxe uma revolução apesar destes produtos permanecerem fundamentais. Não era uma revolução do carvão ou do ferro, apesar destes produtos permanecerem fundamentais. Depois de 1870, se iniciava a idade do aço e da eletricidade, do petróleo e da química.

O modo de produção capitalista, sustentado pelas técnicas da industrialização, se inseria de uma maneira sempre mais determinante por toda a sociedade, não somente européia. A industrialização chegou a operar rápidas transformações, até em civilizações antigas e tradicionais como a japonesa. Através do sistema industrial se criou um mercado mundial que favoreceu a penetração européia em todos os paises do mundo.

A grande industrialização e a rede criada por ela trouxeram também uma serie de contradições e conflitos que já eram latentes e, de maneira trágica, reapareceram durante o século XX. O regime liberal democrático se mostrou incapaz de integrar os trabalhadores na nova dinâmica social e de garantir-lhes seus direitos. Daí surgindo as revoltas operarias em muitos paises, culminando na revolução bolchevista e no nascimento da União Soviética.

Pode-se afirmar que o anuncio do Concilio Vaticano II foi inesperado, principalmente ao passar os olhos pelos acontecimentos históricos. Por outro lado, ao analisar os pontificados anteriores e a relação da Igreja com o mundo moderno será possível constatar um grande confronto entre alguns pontificados, como o existente entre Pio XII e o de João XXIII. Roncalli, talvez sem consciência disto, foi o catalisador histórico dos tempos.

O texto apresentará o Concilio Vaticano II como um marco importantíssimo na História da Igreja Católica, um divisor de águas. O evento conciliar é o símbolo maximo do dialogo no século XX. Assembléia corajosa no dialogo com a modernidade. Acontecimento central para o estudo da virada da Igreja em relação à modernidade. Para não se deixar inebriar pelo evento será necessário também analisar acontecimentos no decorrer do Concilio e no pós Concilio. Serão encontrados traços de aproximação e distanciamento da modernidade.
Antecedentes do Concilio Vaticano II

Esta parte do texto analisara ás etapas formativas do Concilio Vaticano II e as tentativas de dialogo com a modernidade. Em seguida apresentará este grande evento eclesial do século XX e discutirá as questões apresentadas no pós-concilio, de maneira especial na América Latina.

Poderia-se afirmar que o anuncio do Concilio Vaticano II foi inesperado, principalmente ao passar os olhos pelos acontecimentos históricos precedentes. Por outro lado, ao analisar os pontificados anteriores e a relação da Igreja com o mundo moderno será possível ver um grande confronto entre alguns pontificados, como o existente entre Pio XII e o de João XXIII. Roncalli, talvez sem consciência disto, foi um catalisador histórico dos tempos.

As etapas deste processo remontam ao pontificado de Pio X (1903-1914) 2, no inicio do século XX, com a pesquisa aprofundada sobre a história dos concílios. O sucessor de Leão XIII dedicou seu pontificado à renovação ad intra da Igreja. Cuidados para a formação seminaristica e catequese, preocupações com a regularidade da eucaristia e uma reforma litúrgica. Reorganizou a cúria romana. Na questão ad extra, sua política externa rejeitou as tendências democráticas e parlamentaristas e permitiu que laços políticos e diplomáticos com a França e a Espanha fossem rompidos. Na Itália, sancionou medidas contra os democratas cristãos e, na Alemanha, tomou partido das associações de trabalhadores católicos contra os sindicatos cristãos. Reprimiu a reconciliação da doutrina católica com a ciência e o conhecimento moderno (modernimo). Fez uma espécie de caça formal à heresia contra todos os teólogos reformistas, de maneira especial, aos exegetas e historiadores. Em 1913 o papa determinou que a renovada Congregação do Santo oficio deveria assumir o adjetivo suprema. No inicio do século XX, a Igreja coloca nas mãos do papa a direção deste organismo burocrático centralizador, à procura e condenação de erro. A discussão deve ser estabelecida ao se perguntar: esse gesto é uma antecipação dos estados ideológicos ou passo na redução radical do pluralismo, da diversidade, sob o pretexto de erro?3.

Numa linha intermediaria e de grande importância histórica para a compreensão da modernidade esta o pontificado de Benedito XV (1914-1922). O papa envolveu-se na mediação com a 1ª Guerra Mundial, mas sem sucesso. O caos global da Guerra (1914-1918) tornou evidente que os principais valores da modernidade estavam em crise: a absolutização moderna da razão, do progresso, da nação e da indústria. A total crença na razão, no progresso, no nacionalismo, no capitalismo e no socialismo fracassara. A Europa estava pagando um preço alto com os movimentos reacionários do fascismo, nazismo e comunismo. Estes movimentos idealizavam de uma maneira moderna, a raça, a classe e seus lideres impediram uma ordem mundial nova e melhor.

O evento que foi a 1ª guerra colocou em marcha a revolução global que se tornaria explicita após a 2ª Guerra Mundial: a mudança do paradigma eurocentrico de modernidade, que tinha uma marca colonialista, imperialista e capitalista. O novo paradigma que começara a se desenvolver da pós-modernidade seria global, policentrico e de orientação ecumênica. A Igreja católica reconhecera isto somente em parte e, um pouco tarde.

O sentido do pontificado de Pio XI (1922-1939), no entre guerras, é necessário ser compreendido dentro dos acontecimentos políticos de seu tempo: uma humanidade oprimida pelos totalitarismos gerados pela sociedade de massa, as profundas diferenças ideológicas que tornaram particularmente dura a guerra civil, os valores cristãos e a Igreja hostilizados e perseguidos. O desenrolar do pontificado deste Pio acontece durante a dramaticidade de grandes eventos que marcam o mundo contemporâneo: fascismo, nazismo, totalitarismo stanilista. Todo este contexto justificava, de certo modo, sua política concordatária realizada na Itália através dos Pactos Lateranenses, de 1929. O desenvolvimento de suas atividades será explicitado através de suas encíclicas: Non abbiamo bisogno (1931),Quadragesimo anno (1931)4, Mit brennender Sorge (1937)5, em seguida a condenação do comunismo ateu, Divini Redemptoris (1937).

O papa Pio XI governou a Igreja de uma maneira que o Reino de Deus fosse propagado, através dos leigos da Ação Católica6, embora o grupo devesse ser um braço continuador da hierarquia. O movimento de leigos esta na base da preparação do Concilio Vaticano II. Apesar desta intenção inicial, os leigos da Ação Católica7 levaram os colegiais (JEC), os universitários (JUC), os operários (JOC, ACO), o mundo rural (JAC) e pessoas dos meios independentes (JIC) a inserirem-se nos seus ambientes específicos a tal ponto que eles trouxeram para dentro da Igreja toda a problemática e reflexão moderna que em tais situações se vivia. Essa atuação do laicato no mundo8, seu engajamento, assumindo compromissos políticos, levaram a uma maior participação dentro da Igreja, requerendo uma maior formação espiritual e teológica. É ai que esse laicato defronta-se com os problemas da modernidade. É evidente que em 162, no inicio do Concilio, a modernidade freqüentava diversos ambientes da Igreja. Os grandes pensadores Congar, Maritain e Mounier desenvolveram reflexões teológicas e teóricas sobre a presença do leigo cristão na Igreja e no mundo. Toda essa mentalidade estava caracterizada pelos sinais da modernidade.

Ainda o Papa Pio XI encorajou o clero autóctone nas missões. Numa encíclica antiecumenica explicou longamente por que os católicos foram proibidos de participar da grande conferencia de Lausanne, realizada pela organização Fé e Ordem, uma predecessora do Conselho Mundial de Igrejas, em 1929. Em 1930 lança o documento Casti connubii que colocará a Igreja em rumo ao controle da natalidade9.

Diante das medidas racistas baixadas na Itália, em junho de 1938 e também porque na Alemanha o problema judaico ia se agravando, Pio XI, confiou ao padre jesuíta americano John La Farge, a tarefa de preparar um texto sobre a unidade do gênero humano, destinada a condenar em especial o racismo e o anti-semitismo. O esboço do texto chegou às mãos do papa somente no final de 1938. O papa estava doente e, em seguida morreria, a encíclica jamais foi publicada.

Seu sucessor, Pio XII, fazia ressurgir o projeto de uma civilização cristã. Eugenio Pacelli que havia sido núncio em Munique teve um pontificado de extremos. Foi acolhido de maneira entusiástica, mas depois de sua morte, houve um sensível esfriamento em relação à sua pessoa. Isto se explica pelo notável contraste entre sua figura e orientação e as de seu sucessor João XXIII (o papa do século).

Pio XII representava a encarnação do papado em toda a sua dignidade e superioridade. Herdara de seu antecessor uma Igreja fortemente centralizada. As atividades deste papa foram tendo um outro tom diante, principalmente, de suas relações com a Alemanha e o nazismo. Seus textos e pronunciamentos levam a analise de que seu pontificado foi uma procura de propostas alternativas aos regimes totalitários.

O magistério de Pio XII poderá ser compreendido através de suas mensagens, discursos e encíclicas. Nenhum documento retratou a questão social. Seu pontificado pode ser considerado como o ultimo da era antimoderna medieval. Teve diversos aspectos autoritários durante seu pontificado: rejeitou as doutrinas evolucionistas, existencialistas, historicistas e suas infiltrações na teologia católica foram de grande relevância, como as censuras dos estudiosos como Maritain, Congar, Chenu, De Lubac, Mazzolari, Milani e os padres operários franceses.

A situação mundial e mesmo, em muitos aspectos no interno da Igreja, respirava um ar desejoso de novidades. Pio XII, via de forma positiva as reformas, mas sua atitude tendia para uma prudência exagerada. Tinha profunda intuição das radicais mudanças que se anunciavam no mundo e da necessidade, por parte da Igreja, de não perder o contato vital com essa realidade. No entanto, a sua extrema prudência transparente em seus atos, não era apenas devido ao seu caráter e formação. Dentro do ambiente conservador da Cúria Romana e pelas circunstancias históricas pode-se ter um quadro amplo de suas atitudes.

Sua preocupação, cada vez maior para com uma Igreja envolvida num mundo de agitações e tensões revolucionarias explica, em parte, porque Pio XII começou a concentrar o governo em suas mãos. Pacelli via na exposição da doutrina da Igreja em face dos muitos problemas do mundo moderno sua missão mais importante. Publicou grande numero de encíclicas. As principais foram Mystici Corporis (1950) e a Humani Generis (1950)10. A primeira trata da identidade e ordenamento da Igreja, com franco combate à nova teologia. A segunda determina a posição do pontífice a respeito da moderna teoria evolucionista, contendo recusa a algumas hipóteses da escola de Teilhard de Chardin (sem citar nomes). Suas encíclicas, em geral, têm um tom suave e se destacam pela ausência de condenações pessoais. Uma especial atenção dispensou à questão sobre Maria. Em 1950, proclamou o dogma da Assunção de Nossa Senhora.

As questões relativas ao mundo teológico11 tomaram-lhe muito tempo prejudicando outras atividades. A influencia retrograda da Cúria funcionou praticamente durante quase todo seu pontificado. Exemplo disto é o caso dos padres operários franceses, experiência interrompida por Roma. Outro fato foi a proibição de lecionar e publicar imposta a teólogos de renome, já citados. Estes que teriam papel importante no Concilio Vaticano II. O livro de Chardin, O fenômeno humano, acabou impresso numa editora não católica. Esses e outros casos idênticos pareciam justificar a queixa freqüentemente ouvida, de que dentro da própria Igreja existia uma opressão espiritual. A crise já estava estabelecida e era desejo do papa convocar um Concilio. Discretamente foram realizados os primeiros preparativos, mas seu estado de saúde, cada vez mais precário, impossibilitou a continuação dos planos.

A tendência tridentina cada vez mais vai se tornando minoria. E, dentro do processo histórico que foi sendo gestado, vão sendo colocados os pilares do dialogo com a modernidade. Dialogo ecumênico que terá seu evento maior no Vaticano II, concilio da modernidade que teve a arte de reconciliar a Igreja católica com o mundo moderno.

Os movimentos bíblico e litúrgico dominaram os anos vinte e trinta e inspiraram a consciência crescente do final dos anos trinta e por toda a década de quarenta.

A exegese bíblica, que ficara para trás em relação à ciência bíblica protestante, aprendeu desta o aproveitamento das ciências auxiliares, como por exemplo, a lingüística, a arqueologia e a ciência de religiões comparadas. Outro fator importante foi o reencontro com os Santos Padres e o estudo da Historia Eclesiástica que beneficiaram a dogmática e o movimento litúrgico. A influencia do pensamento medieval e de Tomas de Aquino deram lugar a um dialogo com o existencialismo moderno e a filosofia fenomenologista. O jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) empreendeu uma tentativa inédita de conciliar fé e ciência: sua visão evolucionista do mundo e da humanidade inspirou uma nova e mais ampla inteligibilidade da existência humana, também em sua dimensão religiosa.
Às vésperas do Concilio Vaticano II

Em outubro de 1958 faleceu Pio XII, depois de uma longa enfermidade. O conclave, que se reuniu no mesmo mês elegeu o patriarca de Veneza, Cardeal Angelo Roncalli. Adotou o nome de João XXIII (1958-1963). Sua eleição foi recebida com grande surpresa. Era para o grande publico um desconhecido. Sua eleição parecia ser mais uma daquelas de simples transição, o cardeal era idoso, 77 anos. Não havia se destacado nos outros encargos, como núncio na Bulgária e na França, nem em outro campo eclesiástico. Havia uma certa decepção com o nome anunciado depois da eleição. Podia-se esperar dele, neste contexto, a abertura e compreensão das necessidades do mundo moderno? Até fisicamente diferenciava-se do seu antecessor, pois era de corporalidade volumosa e pequena estatura. É evidente que nestas circunstancias os boatos começaram a correr. Alguns afirmavam que o conclave o havia escolhido, pois não havia entrado em acordo sobre outro candidato mais qualificado. Teria sido uma aliança entre cardeais conservadores e progressistas. Tendo em conta sua idade avançada, seu anonimato, tudo levava a pensar que esta era uma idéia aceitável.

Logo vieram as surpresas, não só pela sua “jovialidade” e simpatia, muito diferente de Pio XII, mas por seu projeto: convocar um concilio. Três meses depois de ocupar a Cátedra de São Pedro, em janeiro de 1959, após uma missa por intenção da unidade de todos os Cristãos, na Basílica São Paulo fora dos Muros, revelou sua intenção de iniciar durante o seu pontificado uma ampla reforma da Igreja, através de um Concilio Ecumênico. Os cardeais Lercaro e Montini manifestaram preocupação. Era evidente, que apesar de ter se comentado, anteriormente o desejo de realizar um Concilio para concluir os trabalhos do Vaticano I, não existia, de fato, um desejo insistente neste sentido, sobretudo na própria Cúria Romana. A cúria sempre pensou que a direção da Igreja estava lá e, estava em boas mãos. Sendo assim, uma assembléia internacional com membros do episcopado de todos os recantos, causaria mais confusão do que vantagens. Este fato ilustra bem a vitalidade espiritual e a coragem de João XXIII. É bem provável que o Papa não havia compreendido, no seu contexto, a revolução que seria o Concilio. Não é inverossímil que ele quisesse uma reforma do sistema, mas não pensava ao fim de uma época. Contudo, a historia iria em direção diferente e as forças desta superaram as intenções de Roncalli.

Em varias ocasiões o papa explicou suas motivações de convocar um Concilio. Era necessário limpar a atmosfera de mal-entendidos, de desconfiança e de inimizade, que durante séculos tinham obscurecido o dialogo entre a Igreja Católica e outras Igrejas cristas. A mais importante contribuição para a unidade, por parte da Igreja e, tarefa essencial do Concilio seria o programa mencionado por João XXIII, aggiornamento. Uma atualização da Igreja, de inserção no mundo moderno, onde o cristianismo deveria se fazer presente e atuante. O ponto fundamental dos seus discursos estava no fato de explicitar com clareza as falhas da Igreja e insistir na necessidade de profundas mudanças.

Ao contrario de outros eclesiásticos do passado e do seu próprio tempo, não via nesse reconhecimento das limitações e lacunas da Igreja um sinal de fraqueza, mas sim de força.

Aos poucos foi se saboreando o significado teórico e pratico deste pontificado. No inicio, era um clima. No seu decorrer, vieram as encíclicas sociais Mater et Magistra e Pacem in terris12, encíclicas que modificaram o pensamento político da Igreja. .

No decorre dos pontificados foram outros acontecimentos marcantes para a modernidade. Nomeou cardeais de outros âmbitos, não só italianos ou europeus, mas alargou seu colégio cardinalício com a nomeação de um negro, um filipino, um japonês. Iniciou contatos ecumênicos com o arcebispo anglicano de Cantuaria, o monge protestante de Taize, Roger Schutz, o patriarca ortodoxo Antenagoras. No aniversario de 80 anos do líder soviético Khruchtchev envia-lhe telegrama de felicitações, criando um vinculo de relações com o mundo comunista. Tempos depois recebe Alexei Adjubei, diretor do Isvezstia e membro do comitê central do partido comunista soviético.

Seria uma grande ingenuidade histórica concluir que todo o seu pontificado foi inovador. Em diversos âmbitos permanecia restrito a questões conservadoras. O que é necessário observar é que as possibilidades colocadas neste pontificado foram agarradas e transformadas num grande dialogo com a modernidade. Esses passos continuaram, como se observara a seguir, na preparação para o evento conciliar.

João XXIII antecipou inúmeras vezes a data da abertura do Concilio. Inicialmente marcado para 1963, abriu-se a 11 de outubro de 1962. Uma atenção especial foi dada às igrejas cristas. Fundou-se o Secretariado para a Unidade dos Cristãos. O organismo inicialmente foi dirigido pelo cardeal alemão, Agostinho Bea. Este órgão ecumênico que se tornou um dos elementos mais dinâmicos da Cúria Romana. Uma de suas maiores tarefas foi estabelecer conversações que deveriam levar a uma representação oficial de todas as Igrejas cristas ao Concilio. Para o Concilio Vaticano I haviam sido convidadas, mas a maneira como isso havia sido feito, o tom do convite, contendo a exigência de reconhecimento, por parte dessas Igrejas, de seu erro e da necessidade de voltarem ao seio da Igreja-Mae13, fez com que ficassem sem resposta.

Para o Concilio Vaticano II, o procedimento foi totalmente diferente do Vaticano I. As Igrejas não unidas a Roma foram convidadas como irmãs, com quem a Igreja estava ligada, em virtude de sua fé em Cristo e no seu Evangelho. Houve respeito pelo próprio ser dessas Igrejas e por sua maneira de viver. O que aproximava todas era o desejo comum de maior unidade. Assim, as Igrejas cristas foram convidadas a enviarem observadores, que assistiriam a todas as sessões do Concilio, embora sem direito de voto. Viriam como hospedes do papa e não como pecadores arrependidos que deveriam retornar ao seio materno. O sucesso foi grande, no inicio do Concilio 17 Igrejas ou organizações eclesiais estavam representadas.

A preparação do Concilio foi realizada de maneira efetiva durante dois anos. Criaram-se as comissões preparatórias. Eram 79 os paises nelas representados, 300 bispos, 146 professores, 11 reitores, 44 responsáveis de instituições e 17 diretores de revistas/jornais. Apesar disto, 80% eram europeus e uma notável ausência de leigos poderia ser verificada, inclusive na comissão do apostolado dos leigos. A Comissão Central, grande novidade na historia da Igreja, foi constituída a 16 de junho de 1960.

Em um ano e meio, 10 comissões e os 2 secretariados prepararam 75 projetos, de valor desigual, sem perspectivas de futuro: as transformações culturais da sociedade ocidental, os graves problemas sociais da América Latina e as conseqüências produzidas pela descolonização sobre a Igreja asiática e africana eram praticamente ignoradas, enquanto predominavam a preocupação de salvaguardar o centralismo romano e de reagir contra tudo o que pudesse lembrar um renascimento do modernismo. A comissão central iria rever todos estes esquemas. O Concilio não iria somente ratificar, mas tomando pulso da situação, iria traçar um perfil diferenciado da Igreja diante do mundo moderno.

Outra importante atividade de preparação ao Concilio foi a sondagem de opinião entre o episcopado mundial. Pediu-se a todos os bispos e Universidades Católicas que elaborassem listas de assuntos que, em sua opinião, deveriam ser tratados. A intenção do papa era clara, a assembléia conciliar não poderia limitar-se a certo numero de assuntos, previamente selecionados por Roma. A oportunidade foi aproveitada, chegando mais de duas mil respostas a Roma.
O grande evento conciliar

Em 11 de outubro de 1962, João XXIII abriu a primeira sessão do Concilio, na Basílica de São Pedro. O texto de abertura14 do concilio é de fundamental importância, e exerceu profunda influencia na redação de todos os documentos conciliares.

Três pontos devem ser destacados. Em primeiro lugar o papa dirige-se aos profetas que anunciam apenas desgraças, não sem machucar nossos ouvidos, vendo no mundo moderno somente declínio e catástrofes, comportando-se como se não aprendessem nada da historia.

Em segundo lugar, o ponto central do Concilio. Não será somente uma discussão de um ou outro artigo da doutrina fundamental da Igreja, repetindo e proclamando o ensino dos padres e dos teólogos antigos e modernos, pois se supõe que isso já seja bem presente e familiar. Para isso, não haveria necessidade de um Concilio. Trata-se de uma renovada, serena e tranqüila adesão a todo o ensino da Igreja, nas sua integralidade, como brilha nos atos conciliares, desde Trento até o Vaticano I. O espírito cristão, católico e apostólico do mundo inteiro espera um progresso na compreensão doutrinal e na formação das consciências, em correspondências mais perfeita com a doutrina autentica; espera também que a doutrina seja estudada e exposta por meio de formas de indagação e formulação literária de acordo com o pensamento moderno. Uma é a substancia da antiga doutrina do depositum fidei, e outra é a formulação que a reveste: e é disso que se deve ter grande conta, medindo tudo nas formas e proporções do magistério prevalentemente pastoral.

Em terceiro lugar, a Igreja sempre se opôs aos erros; muitas vezes até condenou com maior severidade. A Igreja, porem, levando por meio do Concilio o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia com seus filhos dela separados.

O Concilio chegou ao seu fim com dezesseis constituições, decretos e declarações15. Há um consenso de que a constituição dogmática Lúmen Gentium e a constituição pastoral Gaudium et spes sejam o eixo do Concilio.

Na primeira a Igreja procurou conhecer-se melhor, para renovar-se no espírito da sua origem e da sua missão. Se a Igreja pretende ter um futuro no terceiro milênio, faz-se necessário deixar sua paixão pela Idade Média, enraizar-se em sua origem cristã e concentrar suas tarefas no presente. Na segunda constituição, a Igreja apresenta-se ao mundo expressando sua vontade de dialogar e contribuir para a construção de uma sociedade nova, baseada nos genuínos valores humanos e cristãos. É necessário uma religião de cunho transformador e libertador na vida concreta da humanidade, na sua existência social, no seu cotidiano.

A Igreja teve coragem de olhar para o seu passado, refletir e crias uma relação nova no presente. A continuidade do diálogo e de todos os frutos que ele gerou continua acontecendo.

O evento conciliar teve duas grandes personalidades à sua frente: João XXIII, que morreu após a primeira sessão do Concilio, aos 82 anos, e Paulo VI (1963-1978), que o substituiu. Montini (Paulo VI) tomou a serio sua grande tarefa de continuidade do Concilio, evidentemente com uma tônica diferente. Roncalli (João XXIII) era pastor e Montini era personagem da Cúria. Nesse sentido a analise do pós-Concilio merece uma reflexão sobre os avanços e os retrocessos dentro do próprio evento conciliar. Apesar das concessões sobre a reforma da liturgia, a renovação da Igreja católica e o dialogo ecumênico com as outras Igrejas Cristãs, desejado por João XXIII, o Concilio não teve um avanço, mas sim uma estabilidade. Historicamente era muito cedo, apesar da janela aberta., para perceber na pratica cotidiana relações de transformações absolutas, abrindo a janela, portas, limpando o grande pó dos moveis e principalmente dos seus interiores. Já era um grande passo para o dialogo com a modernidade. Algumas vezes tornou-se, novamente, monologo.
Questionamentos e perspectivas

Ao atravessar as atividades e dinâmicas do cristianismo e da Igreja Católica nesses séculos, passado por esse que foi o grande momento da Igreja no mundo contemporâneo, o Concilio Vaticano II, faz-se necessário realizar um balanço sobre sua atuação, neste momento histórico, de maneira especial a partir do Concilio, diante da modernidade, da pós-modernidade. Perguntando se foi um porto de partida ou de chegada. Em diversos aspectos o evento conciliar foi uma revolução, que fez tremer diversas estruturas seculares e eclesiásticas.


O Concilio Vaticano II significou real ruptura em relação à mentalidade predominante na Igreja católica até o final do pontificado de Pio XII. Essa ruptura caracterizou-se pela passagem de uma visão pré-moderna do mundo para uma visão moderna. E o Concilio foi esse divisor de águas, ao confeccionar os textos e ao dirigi-los precipuamente ao sujeito social moderno16.
Um acontecimento importante foi o deslocamento do catolicismo do hemisfério norte para o hemisfério sul. Nota-se no norte um catolicismo estático, verificando-se no sul uma grande criatividade pastoral e teológica. Destaque importante para a nova maneira de fazer teologia nascida na América Latina, no pós-Concilio, a Teologia da Libertação.

Por outro lado é importante refletir, analisar e traçar pistas concretas de atuação diante de diversos questionamentos para a Igreja na Modernidade. A reflexão, a análise e a ação que são propostas aqui são, evidentemente, para serem realizadas de maneira conjunta e participativa.


O Concilio Vaticano II significou uma mudança decisiva para esta configuração eclesial. Pois aceitou dialogar com a sociedade civil, avaliar a cultura da Modernidade, assumir alguns de seus elementos, atualizar (aggiornamento) sua pastoral pelo conhecimento do contexto real onde vivem os católicos, reconhecer a importância das Igrejas locais e a necessária inculturação da fé. O dialogo se estendeu às Igrejas nascidas da Reforma, bem como a outras religiões. Conhecemos os anos turbulentos que se seguiram ao Concilio Vaticano II, como já havia acontecido frequentemente no passado, e a reação posterior que acentuou novamente a centralização romana, o controle da produção teológica, a volta de uma hegemonia acentuada da hierarquia, a uniformização da liturgia e a modesta abertura proporcionada ao laicato na Igreja17.
O componente secularista da Modernidade e da Pós-Modernidade é um questionamento. Não é suficiente uma abordagem de rejeição ou condenação. É urgente criar canais de diálogo com as diversas culturas da Modernidade, na sua complexidade e diversidade. Sendo assim, é reveladora a entrevista de D. Aloísio Lorscheider quando afirma que temos uma carta do papa Paulo VI, de setembro de 1966, logo depois do Concilio, na qual ele diz que o Concilio Vaticano II é apenas um ponto de partida. Portanto, temos que ultrapassar os textos. Não podemos ficar parados e, sim, ir mais longe18.

O Concilio Vaticano II permite uma dupla leitura:


Uns preferiram ver nele a continuidade com os dois concílios anteriores, Trento e Vaticano I, e outros chamam a atenção para a novidade que inaugurou. A escolha da leitura não é inocente. Revela elementos ideológicos anteriores e traz conseqüências para a recepção do Concilio. Como, neste momento, após quarenta anos de seu encerramento, se defrontam essas duas leituras, vale a pena perguntar-nos pelos pressupostos da escolha....a leitura de continuidade acentua o permanente, o estrutural e considera a historia um fluxo continuo. É feita muito a gosto da instituição, oferecendo segurança, mas padecendo facilmente do viés ideológico e inibidor de mudanças. A leitura de ruptura salienta o ponto da novidade criativa, muito própria dos críticos e profetas, gerando insegurança, desagradando os senhores da instituição, mas permitindo avanços19.
Assim se configuram duas possibilidades de escolha no pós-Concilio. Ao optar pela continuidade se opta pela maior segurança, é a escolha realizada por aqueles que se sentem perdidos nesse contexto plural de idéias, valores e princípios. O limite dessa leitura, afirma o teólogo João Batista Libânio, se faz sentir no reforço do poder institucional e n o bloqueio das mudanças. Ela tem presidido muitas interpretações do Concilio Vaticano II a fim de deter as transformações em curso e o esvaecimento do poder das instituições em tempos de pós-modernidade. Ao contrario, se escolhe a ruptura, acentuando a novidade, as modificações, os cortes culturais da historia e suas condições sociais. A vantagem principal desta escolha é provocar a dimensão criativa do ser humano. Em termos teológicos, afirma Libânio20, atribui-se papel relevante ao Espírito que sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai (Jô 3,9). Não saber de onde e não saber para onde revela a extrema criatividade do Espírito. Valoriza do lado profético do Concilio, que rompe com o clima de conformidade que envolvia a Igreja no final do pontificado de Pio XII.
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1 Doutor em Historia eclesiástica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e registro na USP de São Paulo. Professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC SP. nsouza@pucsp.br

2 R. AUBERT. Revue du Histoire Ecclesiastique. (1992) 858-862.

3 R. AUBERT. La teologia cattolica durante la prima metà del XX secolo, in Bilancio della teologia del XX secolo. Pp. 13-71; G. ALBERIGO. La condanna della collaborazione dei cattolici con i partiti comunisti. In Concilium pp. 1209-1222.

4 Documento importante, não só pela comemoração dos 40 anos da Rerum Novarum, mas por ser uma resposta global aos problemas colocados pelo fascismo e pelos regimes totalitários. Encíclica que aborda os temas fundamentais da organização econômica da sociedade, do direito de propriedade, do salário, do comunismo e do socialismo, propondo-se restaurar a ordem social segundo o evangelho. O texto encontra-se em Enchiridion delle Encicliche..

5 No momento em que toda a Europa dobrava-se diante de Hitler é publicada esta encíclica. O documento leva à mudança de posição dos intelectuais e dos católicos, tanto em relação a Hitler quanto a Mussolini. O texto encontra-se em: Enchiridion delle encicliche..

6 Incentivou o Brasil através da carta Quamvis Nostra De actione catholica aptius promovenda. No documento o papa exorta o Cardeal Leme, arcebispo do Rio de Janeiro, a constituir as associações de Ação Católica devido à insuficiência de clero. Enchiridion delle Encicliche. Vol. 5, Bologna: Dehoniane, 1995.

7 Y. M. HILAIRE. L’Association catholique de la jeunesse française: les étapes d’une histoire (1886-1956). In Revue du Nord pp. 903-916.

8 M. P. CARVALHERIA. Momentos históricos e desdobramentos da Ação Católica Brasileira, in REB pp. 10-28; C. ISNARD. O cardeal Leme e a promoção do laicato brasileiro, in REB pp. 817-836.

9 P. DE LOCHT. La spiritualité conjugale entre 1930-1960, in Concilium pp. 33-45.

10 Para estes e outros documentos de Pio XII, consultar: Enchiridion delle Encicliche. Bologna: Dehoniane, 1995.

11 G. COLOMBO. La teologia italiana. Dogmatica 1950-1970, in La Scuola Católica pp. 99-101.

12 Enchiridion delle Encicliche. Vol. 7, Bologna: Dehoniane, 1994.

13 Mansi, 50, col. 1255-61; Collectio Lacensis, 7-10.

14 Enchiridium Vaticanum 40-43

15 Para uma leitura dos textos conciliares: Conciliourum Oecumenicorum Decreta. Bologna: Dehoniana, 1991, pp. 802-113.

16 J. B. LIBANIO. Concilio Vaticano II. p.14.

17 M. F. MIRANDA. Igreja e sociedade. pp. 77-78

18 A. LORSCHEIDER. Mantenham as lâmpadas acesas. p. 65.

19 J. B. LIBANIO. Concilio Vaticano II. pp. 9,11.

20 IB. p. 10.


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