Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva Que é língua(gem)?



Baixar 35 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho35 Kb.
Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva

1. Que é língua(gem)?


Achei muito interessante que a primeira pergunta não tenha sido o que é língua e nem o que é linguagem, mas o que é língua(gem)? Isso me permite ignorar a dicotomia língua/linguagem e entender ambas como partes inseparáveis de um mesmo fenômeno. Entendo língua(gem) como um sistema semiótico complexo, e, por isso mesmo, difícil de ser descrito ou definido. Os sistemas complexos são compostos de muitos elementos que se inter-relacionam em um constante agir e reagir. A dinamicidade nos faz ver o fenômeno não como um objeto estático, mas como algo em construção, em constante movimento. A língua(gem) como um sistema dinâmico e complexo é um amalgamento de processos bio-cognitivos, sócio-históricos e político-culturais, se constituindo em uma ferramenta que nos permite refletir e agir na sociedade.

Os sistemas complexos são compostos de outros sub-sistemas igualmente complexos que interagem uns com os outros e se influenciam. O fenômeno da língua(gem) vai se tornando cada vez mais complexo, pois, como todo sistema complexo, é um sistema aberto e novos componentes vão se agregando, fazendo com que o sistema mude e se auto-organize constantemente, pois nada é fixo. Um exemplo são as tecnologias a serviço da língua(gem) que possibilitam o surgimento de novas formas de expressão como, por exemplo, a imprensa, a televisão e o mundo digital. A língua(gem) é propulsora das tecnologias que por sua vez influenciam a língua(gem). Prova disso é o constante fluxo de novos gêneros que são criados, ou transformados, que ganham ou perdem prestígio, e se inserem ou são excluídos do sistema. Cartas pessoais, por exemplo, estão perdendo prestígio, e-mails estão em alta, os pergaminhos desapareceram e a transmissão oral da história ficou restrita às sociedades não letradas.

Sausurre já preconizava a complexidade do fenômeno quando dizia que a linguagem é multiforme e que pertence a diferentes domínios, “ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, ela pertence, além disso, ao domínio individual e ao domínio social; não se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe como inferir sua unidade” (p.17).A redução do fenômeno da língua(gem) a uma unidade não faz mesmo sentido se a entendermos como um sistema complexo, pois o todo é maior do que a soma das partes em função dos resultados de suas interconexões.

Pensando dessa forma, é possível conciliar as várias visões de língua e de linguagem, pois o sistema semiótico complexo da língua(gem) é um processo, portanto algo inacabado, que experimenta momentos de estabilidade e de instabilidade e que se constitui de capacidade inata ou faculdade mental; conjunto de regras, funções, princípios e parâmetros; códigos; signos; representações mentais; conexões mentais; espaços mentais; prática social; identidade; instrumentos de comunicação; conjunto de idioletos; contrato social; discurso; produto histórico. Tudo isso permite ao homem viver a sua subjetividade e seu papel social, através da interação dinâmica de todos esses elementos.

2. Em que consiste aprender e ensinar uma língua materna ou estrangeira?
Se conceituo a língu(agem) como um sistema complexo é natural que eu veja a aprendizagem de línguas também como um sistema dinâmico e complexo. Minhas reflexões sempre foram em relação à língua estrangeira e é desse lugar que pretendo me expressar.

Vejo a aprendizagem como um processo não linear e imprevisível, pois diferenças mínimas nas condições iniciais podem ocasionar resultados muito diferentes. A aprendizagem é um processo influenciado por fatores internos e externos e com capacidade de auto-organização. Assim, no modelo de aquisição de língua estrangeira que estou desenvolvendo, proponho que “a aquisição de línguas deva ser pensada como um conjunto de conexões de um sistema dinâmico que se move em direção ao "limite do caos", ou seja, uma zona de criatividade com potencial máximo para aprendizagem ou, ainda, como operações cognitivas impulsionadas pelas interconexões entre as múltiplas partes de um sistema que vão construindo a rede da língua(gem).

O sistema funciona através da dinâmica das conexões, ou seja, na constante interação entre os subsistemas que formam o sistema complexo da aquisição: processos biológicos, cognitivos, afetivos; sociais, culturais e históricos. Entendo que o processo de aprendizagem passa por períodos de estabilidade e momentos de turbulência e que alterações em qualquer um de seus subsistemas poderá influenciar os outros elementos da rede. Após o caos, entendido como momento ótimo de aprendizagem, nova ordem se estabelece, mas nunca como um produto final acabado, estático, até porque a lingu(agem) também é um processo em constante mutação.

Aprendizagem de uma LE é um processo que sofre mediações diversas, de pessoas e de artefatos culturais, e que ocorre em contextos diversificados e de forma desigual para cada indivíduo. Como cada ser humano é diferente do outro, os processos semióticos, as conexões efetuadas, serão também diferentes.

Uma característica, especialmente relevante, quando se trata de aprendizagem de LE na realidade brasileira, é a capacidade de adaptação a um contexto muito pouco favorável na maior parte do território nacional, seja pela ausência de professores bem preparados, seja pela ausência de oportunidades de contato com a LE. As narrativas de aprendizes (ver projeto AMFALE em http://www.veramenezes.com/amfale.htm) revelam que os aprendizes se adaptam a essas condições e buscam superá-las das formas mais diversas em busca da satisfação de seus desejos e de suas necessidades. Esses aprendizes tentam suprir a ausência de uma comunidade discursiva na LE, apelando para a comunicação de massa (filme, música, revistas) e até para o falar consigo mesmo, mediado ou não por um espelho. Poucos mencionam o contato com estrangeiros.

Nessa perspectiva, ensinar LE é propiciar oportunidades para o aprendiz obter input, usar a língua com um propósito social, refletir sobre o próprio processo de aprendizagem e sobre sua relação com essa nova língua e tudo que ela traz junto em termos de valores e preconceitos.

Ensinar LE é desestabilizar a ordem e provocar turbulências de forma a impulsionar a dinamicidade do processo.

3. Afinal, o que faz a Lingüística Aplicada?


Definir a Lingüística Aplicada (LA) é algo muito difícil pela própria natureza da área que não se encaixa dentro de limites. A Lingüística Aplicada se preocupa em estudar fenômenos da linguagem como prática social e para isso faz incursões em outros campos do saber que tratam dos mesmos temas. A LA investiga questões da linguagem em uso na sociedade e para isso recorre à sociologia, à psicologia, à educação, à lingüística e às ciências sociais em geral, ou seja, ela é por natureza transdiciplinar. Há um interesse crescente nos significados sociais da linguagem, ou seja, em entender como a linguagem, em sua dinamicidade, constrói a realidade.

Muitos têm repetido que a LA tem por objetivo a solução de problemas relacionados com a linguagem. Eu tenho um pouco de resistência a essa idéia por dois motivos. Primeiro por que não acredito que a LA ou qualquer outra área tenha o poder de resolver problemas de linguagem, segundo porque essa afirmação não encontra ressonância nas pesquisas que são divulgadas. O que percebemos é muito mais uma tentativa de entender os problemas de linguagem do que, propriamente, de interferir neles, até porque se soluções são propostas, elas serão sempre temporárias. Assim, eu prefiro dizer que o que a LA faz é aguçar a nossa consciência sobre os problemas das práticas sociais da linguagem.

A LA ainda está construindo sua identidade. Em alguns países, como Portugal, por exemplo, não se sabe o que é Lingüística Aplicada. Quem trabalha com questões de ensino e aprendizagem se insere na área de didática de línguas e os demais se encaixam na Lingüística.

No Brasil, apesar de a comunidade de lingüistas aplicados ter uma predominância de pesquisadores voltados para o ensino de línguas, outras questões estão ganhando espaço: o discurso, as interações em contextos de trabalho, políticas lingüísticas, identidade, lexicografia, tradução, linguagem e tecnologia, gêneros textuais, interação conversacional.


4. O que distingue a Lingüística Aplicada da Lingüística?


Atualmente fica difícil estabelecer uma diferença entre as duas áreas, pois acaba sendo uma questão muito mais de afiliação do que de objeto de estudo. O limite entre elas está cada vez mais tênue, haja vista os congressos da ABRALIN e da ALAB com temas muito semelhantes. Há muitos lingüistas que rejeitam o rótulo de lingüistas aplicados e que estão trabalhando com os mesmos temas e em perspectivas muito semelhantes às da LA.

A rigor, eu diria que a Lingüística tem por objeto os estudos formais, o sistema sonoro, a semântica e a estrutura lingüística. Esses estudos, geralmente, não ultrapassam os limites da frase e têm uma grande preocupação com a objetividade, já que tratam a língua como uma abstração. No entanto, muitos lingüistas foram além desses limites e enveredaram pela pragmática, a psicolingüística, a sociolingüística, o discurso, a lingüística textual, entre outros estudos, deixando as fronteiras entre as duas áreas muito difusas. Vejamos, por exemplo, a questão da análise do discurso. Alguns se intitulam lingüistas aplicados e outros lingüistas. Acredito que a divisão entre as duas áreas foi fruto da intolerância dos que trabalhavam apenas com teorias formalistas e que rejeitavam, no passado, os que tinham um olhar mais teórico-aplicado. Esse problema está quase superado, mas, ainda, encontramos alguns exemplos de resistências aqui e acolá.

A LA trabalha além dos limites da frase, com unidades textuais ou discursivas, não isola o sujeito da língua(gem) e olha com desconfiança para a objetividade e o distanciamento do pesquisador de seu objeto de estudo. Há um grande número de pesquisadores na LA que considera a objetividade como um construto problemático quando se lida com a complexidade da lingu(agem) na vida real e, por isso, valoriza a subjetividade, o contexto, a voz dos usuários. Acredito que a LA está mais próxima dos usuários do que a Lingüística.

A LA no Brasil gerou teorias, ganhou adeptos, criou muitas linhas de pesquisa e programas de pós-graduação. Ganhou identidade própria, mas ainda existe um desconforto com o nome que gera muita ambiguidade. O rótulo parece sugerir a aplicação da lingüística quando, na realidade, a LA está muito mais para a geração de teorias a partir da observação das práticas sociais da linguagem. Em suma, a LA valoriza mais a descrição e análise de dados da linguagem em situações de prática social, ou seja, a língua(gem) real contextualizada, e a lingüística valoriza os pressupostos teóricos e a língua idealizada.

Muitos ainda nos vêem como meros aplicadores de Lingüística e ignoram toda a produção teórica da área, como, por exemplo, as teorias sobre aquisição ou sobre o discurso, para citar apenas dois grandes temas da LA. No entanto, eu não deixaria de fora da LA quem faz também aplicação da Lingüística, apesar de entender que a pesquisa em LA tem mais implicações lingüísticas do que aplicações da lingüística.

Se a LA ainda enfrenta problemas de identidade, sinto que a Lingüística vem perdendo a sua identidade formalista. Há uma aproximação crescente com a língua em uso e com seu usuário. Se as duas áreas começam a se encontrar, a distinção tende a ser muito mais uma questão de afiliação a grupos do que de identidade de área de conhecimento.

5. Quais os efeitos da relação entre linguagem e sociedade nas pesquisas em
Lingüística Aplicada?
A LA está fortemente envolvida com as práticas sociais da língua(gem), logo linguagem, cultura e sociedade são suas matérias primas. A linguagem só se realiza nas relações sociais e delas sofre influências o que causa suas constantes auto-organizações. Sem a linguagem não haveria vida social, pois é a linguagem que constitui o sujeito social em interação com o(s) outro(s) e ela própria é constituída pelo uso de uma coletividade. A linguagem sofre influência da sociedade onde circula e do contato com outras sociedades seja por dominação política ou cultural. Prova disso são os estrangeirismos que tanto incômodo vêm causando ultimamente.

6. Qual o papel da cultura e da cognição na aquisição e uso da língua materna e estrangeira?


Dentro de uma visão de aquisição como sistema complexo, cultura e cognição são elementos em constante interação. A cognição é uma faculdade que usamos para interpretar o mundo e para agir sobre ele, mas que é, também, influenciada pela cultura. Como diz Bruner (2002, p.23), “os seres humanos não terminam em suas próprias peles, eles são expressões de uma cultura”.

A aquisição tem sido vista isoladamente tanto pela perspectiva da cognição como pela perspectiva sociocultural, no entanto, entendo que a aquisição é um sistema complexo em que todos esses fatores são igualmente importantes, pois os humanos são animais sócio-cognitivos. É preciso compreender como o indivíduo processa tanto a língua materna quanto a estrangeira, o papel da memória, da atenção, os processos automáticos e controlados, as redes neurais, etc., mas é igualmente importante ver todos esses fenômenos dentro das interações sócio-culturais, da colaboração, da negociação de sentido, da aculturação, das afiliações, das mediações, e da cultura da sala de aula. Todos esses fatores e muitos outros, inclusive os biológicos e tecnológicos, são peças que estão em constante movimento, interagindo uns com os outros e se influenciando durante o processo da aquisição.

7. Que concepção de sujeito seria mais adequada às pesquisas em Lingüística Aplicada?

A do sujeito sócio-histórico constituído pela linguagem, pelas suas crenças, ansiedades, desejos e afetos e em contato com o outro. O sujeito tem a maior relevância nos estudos em LA. Na aprendizagem de línguas o foco voltou-se para a aprendizagem e os métodos ficaram minimizados, o que ressalta a importância do sujeito. Nos estudos sobre interação em contextos educacionais, por exemplo, predominam as pesquisas etnográficas em que a perspectiva êmica traz a voz dos sujeitos em diálogo com o pesquisador.

O sujeito que nos interessa é o sujeito que está inserido em uma comunidade discursiva, que compartilha e negocia significado, e que constrói conhecimento nas interações sociais. É um sujeito que utiliza a língua(gem) para interpretar o mundo e agir sobre ele.

8. As novas tecnologias de comunicação têm trazido contribuições no uso e na


aprendizagem de línguas? De que forma?
As novas tecnologias derrubaram as paredes da sala de aula e possibilitaram, pela primeira vez na história do ensino de línguas estrangeiras, que os aprendizes usem a língua que aprendem com um propósito realmente comunicativo. A rede mundial de computadores gerou uma maior aproximação entre os povos e trouxe ao ensino de línguas a oportunidade de interação real com nativos e outros falantes da LE. A Internet se compara à invenção da imprensa e trouxe uma verdadeira revolução para a educação em geral.

A Internet e seus muitos recursos contribuem para a formação de uma inteligência coletiva, como definida por Lévy (1998, p. 28), uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências.

Nas comunidades virtuais de aprendizagem, abandona-se o modelo de transmissão de informação tendo a figura do professor como o centro do processo e abre-se espaço para a construção social do conhecimento através de práticas colaborativas. Os recursos disponíveis na Web, por serem não-lineares e multidimensionais, podem oferecer aos aprendizes um ambiente mais rico para aquisição da LE do que os materiais tradicionais.

No ensino tradicional, o professor é responsável por fazer ou induzir as conexões entre as informações, pois o material didático é todo previamente selecionado. Isso não significa que alguns alunos não partam em busca de outras fontes ou de outras conexões, mas essa autonomia é bem menos provável do que quando se trabalha com o hipertexto na Web. Quando usamos o material digital, é impossível prever todas as conexões que o aluno fará através das inúmeras possibilidades que o hipertexto possibilita. As pessoas e os conhecimentos estão inseridos em um emaranhado de informações. Novos caminhos podem ser gerados a qualquer momento quando uma pessoa faz uma conexão justapondo conceitos que nunca haviam sido antes associados. Esse ambiente, além de ser mais propício a um tipo de educação menos conservadora, representa um estímulo a abordagens de ensino mais centradas no aluno.

A flexibilidade de tempo e espaço é a grande inovação que a tecnologia trouxe no uso da língua(gem) para fins educacionais ou não. A sala de aula quando mediada pelas novas tecnologias não tem mais espaço e tempo fixos e o mesmo acontece com as bibliotecas, haja vista o portal da CAPES que nos oferece inúmeros periódicos acadêmicos aos quais muitos de nós não tinha acesso até recentemente. Além disso, muitos autores, tais como Beaugrande, Shegloff, e Warschauer, para citar apenas alguns, disponibilizam em seus sites tudo o que produzem. A biblioteca está pois desterritorializada assim como a língua que queremos aprender.

Projetos colaborativos de aprendizagem de línguas (ver, por exemplo “tandem learning” em http://www.slf.ruhr-uni-bochum.de/ e http://www.languages.dk/tandem/) e de pesquisa são facilmente implementados com a mediação da Internet. Do aconchego de nossas casas podemos falar com pessoas no mundo inteiro em várias línguas, tornando o ensino de LE cada vez mais necessário e importante. Para os profissionais, em geral, as listas de discussão, são ambientes de trocas e construção coletiva de conhecimento e verdadeiras ações de educação continuada.

Os gravadores digitais, os scanners e os computadores conseguem coletar e armazenar uma quantidade espantosa de amostras da língua(gem) dando a LA a possibilidade de olhar a lingua(gem) por novos ângulos.

A rapidez com que as pessoas passam a ter acesso à Internet é um dado promissor. É fato que ainda há escolas no país sem energia elétrica, mas a maioria já está equipada com televisão e vídeo cassete e podemos prever que, no futuro próximo, a Internet estará definitivamente enraizada no sistema educacional. O grande desafio é fazer com que as classes menos privilegiadas tenham acesso à tecnologia.

9. Há influências da pós-modernidade no campo da Lingüística Aplicada?
Quais?
Acredito que sim, se concebermos a pós-modernidade como rompimento com as verdades absolutas e repúdio à objetividade. A Lingüística Aplicada vem tentando romper com as distâncias entre a prática e a teoria, entre o saber produzido pela ciência e pela prática. Os resultados de pesquisa são tão importantes quanto a cultura de cada usuário da linguagem, de cada professor, de cada aprendiz. Não há mais verdades absolutas, mas soluções provisórias. Não há mais métodos rígidos. Não se acredita mais que a aprendizagem de uma língua estrangeira seja o efeito de um bom método e de um bom professor. Leva-se em conta uma multiplicidade de fatores, inclusive a imprevisibilidade. Questionam-se tanto a ciência quanto as próprias práticas. A Lingüística Aplicada é transdisciplinar e, por isso mesmo, respeita outras formas de pensar e de conhecer os fenômenos da linguagem como prática social.
10. Quais as perspectivas da Lingüística Aplicada brasileira e seus desafios
no século XXI?
A perspectiva é de grande crescimento. Tanto no campo do ensino quanto nos estudos sobre os outros usos da linguagem. Mas esse crescimento corre o risco de caminhar por estradas cada vez mais abstratas e menos sintonizadas com os problemas do cotidiano da língua(gem).

A LA é, por natureza transdisciplinar e se vale de inúmeras outras áreas, mas um desafio para a LA é tentar ser também útil para essas outras áreas. Sinto que mesmo na educação, muitas pesquisas ainda não dão aos contextos pesquisados o retorno necessário. O desafio é divulgar o conhecimento produzido e fazer mais intervenções, contribuindo para mudar a realidade do ensino de línguas.

Um grande desafio para a LA é ultrapassar a fase do diagnóstico e assumir com coragem um papel mais político, interferindo nas políticas lingüísticas e educacionais e denunciando as relações de poder nos contextos de uso da língua(gem) que interferem no direito do uso da língua(gem). Descrever apenas a interação na sala de aula e os abusos de poder sofrido pelos alunos não muda a cara da educação. Descrever apenas as práticas de língua(gem) na área jurídica, por exemplo, não muda a situação de silenciamento que réus, testemunhas e autores de ações sofrem por parte do sistema judiciário. A LA deve ousar mais e denunciar como os direitos humanos são lesados nessas situações em que as mediações por advogados, juizes e escrivães acabam deturpando a fala do cidadão que se vê obrigado a acatar situações impostas por tradições arcaicas de poder.

Outro desafio é estabelecer um diálogo com determinadas áreas profissionais como a da saúde, por exemplo, para reflexões conjuntas sobre as interações entre esses profissionais e seus pacientes e todas as implicações que isso pode acarretar. A LA pode assim assumir um papel mais relevante e útil na sociedade em vez de ficar circunscrita aos cursos de Letras. Na LA, o fazer científico não deveria estar distanciado do fazer político e um grande desafio é descobrir como fazer esse casamento sem sermos dogmáticos ou doutrinários.

Acredito que isso só será possível no dia que entendermos que a pesquisa precisa estar associada à extensão universitária, que temos muito o que aprender com a sociedade, e que podemos também contribuir para beneficiar os contextos que pesquisamos.
REFERÊNCIAS
BRUNER, J. Atos de significação. Trad. Sandra Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Edições Loyola, 1998.



SAUSSURE, F. Curso de Lingüística Geral. Tradução de A. Chelini et al., São Paulo: Cultrix, 1995.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal