Vi congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental Recife, de 05 a 08 de setembro de 2002 co/14



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VI Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental

Recife, de 05 a 08 de setembro de 2002
CO/14 O narcisismo no sofrimento psíquico e na transferência: Impressões iniciais no atendimento psicanalítico a pacientes portadores de lúpus eritematoso sistêmico. Jordão, A. UFRJ. Rio de Janeiro - RJ.
RESUMO

O narcisismo enquanto categoria psicanalítica, alçado ao estatuto de conceito em 1914 por Freud, representa uma possibilidade inovadora e adicional dentro da própria psicanálise, tanto em termos teóricos quanto técnicos. Tomado como elemento central numa abordagem dinâmica do psiquismo, torna-se mesmo imprescindível tanto a nível de diagnóstico quanto do posicionamento técnico a ser adotado com determinado paciente.

Com o objetivo de averiguar a possível especificidade psíquica, em termos metapsicológicos, de pacientes somatizadores, deu-se início, em abril de 2002, ao processo de atendimento psicanalítico de pacientes lúpicos, parte fundamental da coleta de dados da pesquisa “Comparação Clínica e Metapsicológica entre Pacientes Melancólicos e Portadores de Lúpus Eritematoso Sistêmico”. Partindo do atendimento de uma paciente em particular, a primeira a participar dessa fase da pesquisa e que corresponde, em linhas gerais, ao que Winnicott descreveu como falso-self, demonstraremos a utilidade da aplicação do enfoque narcísico no exame e compreensão dos diferentes elementos que compõem o início de um trabalho psicanalítico, e cujas conseqüências podem se perpetuar. Tais elementos são: primeiramente, a compreensão do sofrimento psíquico tomando a organização narcísica como referencial; posteriormente, a partir desse primeiro esboço de diagnóstico, o estabelecimento de diretrizes técnicas para o atendimento; e finalmente, o papel do referencial narcísico na transferência.

O que vou apresentar são algumas considerações sobre o sofrimento psíquico, a transferência e a dinâmica psíquica sob o ponto de vista do narcisismo e do falso-self. Tais considerações teóricas serão respaldadas pelo exemplo clínico das entrevistas iniciais de uma paciente portadora de lúpus eritematoso sistêmico. Farei primeiramente um rápido apanhado teórico antes de passar à discussão do caso em questão.

Quando Freud, em 1914, faz do narcisismo um conceito metapsicológico, ou seja, dá-lhe – paralelamente ao campo fenomenomênico – existência enquanto categoria universal do psiquismo humano, delineia-se uma nova abordagem da complicada questão que ele vinha perseguindo há muito tempo: como se forma o psiquismo, de onde ele se origina e como se organiza (JORDÃO e PINHEIRO, 2000, p.11-27). A questão era antiga. No “Projeto” de 1895 (1950 [1985], p.344) encontramos as facilitações ou trilhamentos; em “A interpretação dos sonhos” (1900 [1899], p.557) temos a experiência primária de satisfação e o protótipo do movimento desejante do sujeito; nos “Três ensaios” (1905, e.g., p.145), as exigências inabaláveis da pulsão e o conflito pulsional (“pares de opostos”) – que a partir de 1910 assume definitivamente a configuração edípica como paradigma. Pouco depois, em “Totem e tabu” (1913 [1912-13], e.g, p.159) e finalmente e definitivamente no “Homem dos lobos” (1918 [1914], p.57), encontramos elementos de uma herança filogenética que, no segundo texto, se revelam na forma de fantasias originárias ou protofantasias – aqui também ligadas à dinâmica edípica.

Pois bem, a novidade do narcisismo é que ele implica em pensar o sujeito em função de outro sujeito, o psiquismo do bebê como fruto dos encontros e desencontros com o psiquismo adulto – como ressalta Lacan no Seminário 1 e na sua formulação do estádio do espelho. Antes de Lacan, porém, e concomitantemente a ele, outros autores dedicaram-se também à compreensão do surgimento de um psiquismo a partir do contato e do investimento de outro psiquismo. Para os fins dessa exposição, vou me concentrar em dois deles em particular – Ferenczi e Winnicott – para demonstrar o estreito vínculo, diria mesmo afiliação, de suas formulações com o conceito de narcisismo em Freud e sua aplicabilidade na clínica.

Antes de mais nada, é importante enfatizar o óbvio, que para a psicanálise narcisismo é muito mais do que amar a si mesmo. O narcisismo torna-se conceito psicanalítico porque Freud vê nele o elemento central na compreensão de determinados tipos de personalidade (JORDÃO e PINHEIRO, op.cit.) e que decorre de uma relação interpessoal, termo que também merece algumas ressalvas. Falar de uma relação interpessoal num momento tão precoce da vida do indivíduo, como no recém-nascido, só é possível a partir do ponto de vista dos pais, que já vêem ali desde sempre um sujeito, inclusive com direito a regalias especiais. “Sua majestade o bebê” implica tanto no recrudescimento do narcisismo dos pais quanto no seu imprescindível investimento no filho para que ali também surja um sujeito narcísico. Portanto, o termo narcisismo em psicanálise, na sua acepção metapsicológica, diz respeito à própria formação de uma organização psíquica que perdurará na vida do indivíduo. É uma alternativa complementar importante à abordagem pulsional/edípica tão difundida pois, além de privilegiar o aspecto dinâmico da tríade freudiana, enfatiza o papel decisivo do aspecto ambiental na constituição de um sujeito. É nesse sentido que ele pode ser útil na clínica, como ferramenta auxiliar de uma proposta de diagnóstico e como elemento central na determinação da abordagem clínica a ser assumida com diferentes pacientes, pois pacientes diferentes precisam de atendimentos diferentes.

É nesse sentido que, partindo das contribuições de Ferenczi e Winnicott para a metapsicologia de certos estados psicológicos, vemos sua afiliação ao que Freud inaugura com o conceito de narcisismo. Existe aí, inclusive, um sincronismo de pensamento marcante entre Freud e Ferenczi. Em 1913, um ano antes do artigo freudiano sobre o narcisismo, Ferenczi escreve e publica “O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estádios”, extraordinário ensaio sobre a participação dos adultos na formação processual de um psiquismo nascente no bebê – e com íntimas e explícitas relações com “Introdução ao narcisismo” de Freud.

Mas não é sobre esse aspecto especificamente que quero falar agora, mas sim sobre um outro desdobramento que tem aí sua origem, qual seja, a das conseqüências psíquicas perenes da história precoce de cada indivíduo. A referência ao narcisismo é necessária porque, o que fica demonstrado, é que essas intervenções se dão ao nível que podemos chamar de constituição narcísica do sujeito. Toda a teoria do desenvolvimento emocional primário de Winnicott trata exatamente disso. É o narcisismo, o esboço de organização psíquica que começa a se fazer nas interações com o outro – mesmo que, a rigor, ainda não haja um outro enquanto tal – que está em jogo; e é ele que, devido às conformações que assumirá em cada caso, à história de cada indivíduo desde seu nascimento, cristaliza-se em formas particulares, em certas organizações mais ou menos rígidas; enfim, é o narcisismo que responde pela conformação dinâmica do psiquismo infantil e adulto.

Pois bem, chegamos ao elemento central dessa exposição, que é o papel narcísico de organizações tipo falso-self e sua atualização na transferência. Tanto Ferenczi quanto Winnicott – e mais recentemente Masud Khan – são enfáticos em ressaltar as conseqüências psíquicas de algo que aparece muitas vezes como um amadurecimento psíquico precoce, um superdesenvolvimento intelectual infantil, que acontece em resposta a um trauma causado pelo ambiente.

Acredito que hoje em dia a maioria dos psicanalistas já esteja familiarizada com a teoria do trauma em Ferenczi e com a do desenvolvimento emocional primário de Winnicott, o que me desobrigará de uma exposição pormenorizada de suas considerações. Eu me limitarei a fazer alguns comentários simplesmente para contextualizar minha proposta. A primeira delas diz respeito à concretude do trauma sexual na teorização ferencziana, já que o caminho percorrido por ele é diverso do de Freud. É sabido que era grande o número de seus pacientes que havia efetivamente sofrido uma agressão sexual na infância. Mas não é o elemento de realidade efetiva do trauma ferencziano que estabelece uma diferença. Se, por seu lado, Freud vai do trauma à fantasia, Ferenczi vai do trauma ao desmentido. Em Freud a agressão sexual que antes era concreta passa à ordem da fantasia, da realidade psíquica; em Ferenczi, o fator verdadeiramente traumático é que, ao estatuto de realidade da cena de agressão sexual, vem contrapor-se um desmentido materno que exige o mesmo estatuto de realidade pela anulação do ocorrido. São experiências definitivamente inconciliáveis devido ao próprio juízo de existência implícito a cada um deles, é como se a mãe exigisse da criança: “ou eu ou ela”, quer dizer, ou você acredita em mim, ou acredita naquilo que realmente aconteceu. Já está claro que não há saída possível.

A teoria do trauma em Ferenczi só revela todo seu alcance se considerarmos que todos nós sofremos traumas, muito deles – como a castração e a socialização – necessários e estruturantes. E, além disso, que fatores os mais diversos e fortuitos podem ter conseqüências psíquicas similares – como Winnicott não se cansou de descrever. O cerne da situação traumática é, portanto, o impasse no qual essa criança é lançada, um impasse que além de não ter saída possível, exige que ela produza alguma solução. Tanto Ferenczi quanto Winnicott, cada um a seu tempo e com seus próprios termos e conceitos, encontraram clinicamente um fenômeno psíquico que corresponderia a uma cisão do psiquismo em dois. Em Winnicott (1960b, p.56-63), verdadeiro e falso selves; em Ferenczi “uma auto-clivagem narcísica: [...] a clivagem da pessoa em uma parte sensível, brutalmente destruída, e uma outra parte que sabe tudo, mas não sente nada” (1931, p. 340). Para Ferenczi, “sob a pressão da urgência traumática ... No plano não só emocional, mas também intelectual, o choque pode permitir a uma parte da pessoa amadurecer subitamente.” (Id., p. 354).

As correlações com o falso-self de Winnicott, apesar de aparentemente imediatas, não são tão evidentes no que diz respeito ao período da vida em que o trauma ocorreu. Winnicott, ao desenvolver sua teoria do desenvolvimento emocional primário, estava primordialmente interessado nos primeiros seis meses de vida do bebê, que é bem diferente da criança do trauma ferencziano que pode se reportar verbalmente à mãe. Mas a questão principal é que, em ambos, um psiquismo ainda prematuro e em formação é chamado a reagir a um fato do ambiente e essa reação só é possível através de um esforço intelectual para o qual essa criança não está preparada. Com Winnicott, não se incorre mais no deslize de imaginar a questão do trauma enquanto cena única de agressão sexual, para ele “a integração da personalidade não se produz num certo dia a uma certa hora, ela se faz e se desfaz; mesmo quando ela está estabelecida, um concurso de circunstâncias ambientais desfavoráveis pode levar ao seu desaparecimento” (1950-55, p.151).

O que estou tentando deixar claro é que, nos dois casos, tem-se uma organização psíquica que se dá em resposta às exigências do ambiente e que, para lidar com essas demandas intrusivas e desestabilizadoras, ela é forçada a realizar um trabalho para o qual não está preparada, e ainda que o fruto desse trabalho é um amadurecimento intelectual precoce. E não é o caso de dizer que foi uma infelicidade: conseguir erigir um falso-self é, na realidade, a única possibilidade de ainda garantir alguma organização para o psiquismo em questão. Entretanto, é evidente que o preço futuro a ser pago será muito alto.

É pensando na própria função defensiva e organizadora que tais conformações psíquicas assumem que o caso foi escolhido. Se Winnicott postula que a integração nunca é definitiva, isso quer dizer que essas personalidades que conseguiram, de alguma forma e aos trancos e barrancos, produzir uma organização psíquica qualquer estarão sempre ameaçadas pela desintegração. É nesse sentido que se pode falar de narcisismo.

Passarei ao caso clínico. Raquel, a paciente em questão é uma mulher de 47 anos que procurou o atendimento como voluntária da pesquisa “Comparação Clínica e Metapsicológica entre Pacientes Melancólicos e Portadores de Lúpus Eritematoso Sistêmico” coordenada conjuntamente por Teresa Pinheiro do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ e por Júlio Vertzsman do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Os pacientes lúpicos são voluntários encaminhados pela Dra. Glória Araújo, psiquiatra do serviço de colagenoses do hospital universitário da UFRJ e os atendimentos são feitos no ambulatório do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, após entrevista de triagem com os dois coordenadores da pesquisa. Sua primeira crise de lúpus, diagnosticada como tal, aconteceu em 1986, entre dois a três anos após o nascimento da segunda filha. Ainda durante a gestação e principalmente durante o parto, as fortes dores que sentiu podem indicar que a doença já eclodia então. Um fator importante é o fato de a filha não ter sido desejada, de o marido desconfiar da paternidade e de Raquel ter cogitado em fazer um aborto.

A primeira entrevista, seguinte à triagem, mostra-se reveladora devido à desorganização psíquica da paciente que se torna evidente. Num relato confuso e desconexo, ela conta da sua vida atual e dos problemas que tem enfrentado – o principal deles, diz com muita dificuldade, é que essa filha mais nova revela-se homossexual e sai de casa para morar com sua amante. Reclama do marido ser muito ausente e não interferir nessas horas, mas o principal era o que a filha havia feito: ela se sentia traída porque tudo fora feito às escondidas e ela nunca desconfiara. Chorou durante toda a sessão e era visível seu estado de desorganização mental, por outro lado, era perceptível o quanto estar podendo falar aquilo ali era importante para ela. Saí dessa primeira entrevista com uma impressão, que se confirmou posteriormente, que a organização do tipo falso-self, que tinha até então conseguido manter um equilíbrio emocional ainda que precário, ruíra com os acontecimentos envolvendo a filha.

Raquel nasceu no interior da Bahia, numa família pobre de inúmeros irmãos e meio-irmãos em que o pai, lavrador, era alcoólico. Ela afirma que com cinco anos de idade já sabia que não queria viver ali, diz: “Sabia que aquela não era a vida que eu queria para mim”. Ressente-se da inércia da mãe em relação àquele estado de miséria tanto econômica quanto moral e emocional. Muda-se, então, para a casa de uma meio-irmã que morava numa outra cidade. Diz que o marido da irmã era muito exigente e que ela estava sempre atenta para não irritá-lo – é uma habilidade que ela descreve como uma das suas características pessoais mais marcantes. Aos 21 anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro. Ali casou-se por conveniência, sem envolvimento emocional – são quatro irmãs casadas com quatro irmãos – e teve duas filhas.

A impressão inicial de uma organização do tipo falso-self foi se confirmando cada vez mais. A oposição entre falso e verdadeiro selves é problemática e merece várias críticas e considerações atuais, mas aqui quero ressaltar a função narcísica daquilo que Winnicott chamou de falso self enquanto única possibilidade de estabelecimento de alguma organização psíquica. Porque, o que fica claro no atendimento a esse tipo de paciente é que Raquel, com uma história de vida tão sofrida desde sempre, conseguiu produzir um arranjo psíquico que funcionou, ainda que precariamente, como esteio de sua sobrevivência tanto física quanto psíquica – mesmo que tenha sido exatamente o fator emocional que tenha sido abolido de seu universo pessoal, o que Ferenczi já percebera.

Um casamento sem amor, sem carinho, sem mesmo conversa. Uma relação familiar baseada na educação, na transmissão de princípios morais – de cunho meio místico/religioso e metafísico – às filhas, mas sem trocas afetivas; uma vida que, de repente, desmorona quando a filha mais nova desrespeita todos esse ditames e, como uma ingrata, joga tudo para o alto e sai de casa para viver uma união homossexual. As implicações emocionais são evidentemente intensas demais para serem ignoradas, e aquela organização psíquica que até então dera conta de tudo rui estrondosamente. Reproduzirei agora umas observações feitas ao final da primeira entrevista com Raquel: “De maneira geral, a minha impressão era a de que estava diante de alguém que havia, mal ou bem, conseguido produzir um certo arranjo psíquico para lidar com as dificuldades reais e imaginárias da sua vida, um arranjo nos moldes de um falso-self que havia minimamente funcionado eficazmente pela sua vida afora. Mas parecia que agora esse esquema tinha ruído, e que ela não tinha muito onde se agarrar, e nem sabia como fazer, como viver se tivesse que abrir mão completamente dele”.

Na terceira entrevista, uma frase sua não deixa mais dúvidas. Ao referir-se ao seu casamento, ao esvaziamento emocional da sua relação com as filhas e a sua habilidade de estudar o ambiente, em procurar entender o desejo dos outros para evitar desavenças, diz ela: “Nunca fui eu mesma, nunca fui verdadeiramente eu”. Repete isso três vezes durante a sessão.

Passo às considerações finais: Ao tomar o narcisismo como referencial clínico para esse caso, fica claro que é ao nível da organização psíquica narcísica que devemos atuar. O papel da transferência é aqui fundamental. Ao procurar o atendimento, Raquel claramente não tinha condições, nesse momento, de se submeter verdadeiramente a uma análise com todas as suas implicações, pois colocar em questão os ganhos imaginários e as formações de compromisso que configuram seu psiquismo era inicialmente impossível, isso causaria mais desorganização e mesmo a falência de sua capacidade de recompor-se psiquicamente. Mas, respeitadas essas particularidades, acredito que uma análise seja possível, apesar de provavelmente bastante longa e difícil.

Uma ressalva é aqui pertinente, e já foi adiantada: apesar de Winnicott situar o surgimento do falso-self nos primeiros meses de vida da criança, Ferenczi já havia reconhecido uma formação psíquica similar que ocorreria mais tardiamente. A esse respeito é esclarecedor um artigo de Masud Khan (1971, p.274 e 277) em que ele discute a eclosão tardia da capacidade intelectual que caracteriza o falso self a partir de um caso clínico: “no meu paciente, o funcionamento mental começara tardiamente, aos seis anos de idade... No meu caso, vejo um modo típico de dissociação e defesa: a saber, desenvolvimento mental precoce e prematuro”. No seu relato, Raquel situa esse acontecimento nos seus cinco anos de idade, e é da ordem de um saber que mesmo os adultos daquela família não possuíam.

Como Raquel não conheceu outra organização psíquica senão a do falso-self, é claro que não almejaremos nesse caso uma dissolução dessa formação para que o verdadeiro self possa aparecer. É evidentemente necessário que ela consiga colocá-lo em questão, mas para fazê-lo ela precisa se apoiar em algo que possa desempenhar para ela o papel de garantia narcísica que seu falso-self sempre desempenhou. Encontramos aí o papel narcísico tanto do sofrimento psíquico quanto da transferência: por mais agruras que sua vida tenha lhe reservado, é quando da falência da eficácia psíquica de sua organização defensiva1 – desencadeada principalmente pelos acontecimentos ligados a sua filha mais nova – que ela se depara de forma incoercível com um sofrimento psíquico que a ameaça com a aniquilação. Sua própria existência narcísica está em perigo, a desestruturação – Winnicott diria desintegração – que sempre ronda o falso-self se presentifica como dado concreto, e não mais uma mera ameaça.

Assim sendo, as diretrizes técnicas deverão ser traçadas considerando tanto a necessidade de resgate de alguma organização psíquica a nível narcísico quanto o papel da transferência enquanto elemento facilitador e auxiliar de um tal resgate. Ao possibilitar à paciente viver na relação transferencial um esboço narcísico protético que, de alguma forma, funcione como elemento auxiliar na recuperação da organização defensiva perdida, é evidente que estaremos fornecendo elementos que servirão para um fortalecimento do falso-self que se achava tão fragilizado. Mas, nesse momento inicial de uma análise desse tipo, isso é absolutamente necessário. Dito de outra forma, não devemos temer que o falso-self volte à tona com sua força restaurada porque, se é ele que representa a própria possibilidade existencial para o sujeito em questão, é só através dele que um trabalho de análise poderá ter início. Além disso, é preciso considerar que o papel narcísico da transferência implica em que uma tal restauração do falso-self não se faz mais exatamente nos moldes anteriormente utilizados pelo paciente pois abarcará, agora, o analista; ou seja, ainda que evidentemente exista a tentativa de incluir o analista nas velhas séries e padrões do seu funcionamento psíquico, enquanto elemento novo e alheio ele implica em mudanças. No caso de Raquel, a própria possibilidade de poder falar da sua vida e, ainda que com muita dificuldade, de seus sentimentos.

Finalmente, usar-se da transferência na reconstituição de um equilíbrio narcísico já aponta para o uso que a paciente pode fazer do analista em sua análise, ainda que nesse momento esse uso seja muito incipiente. Mas funciona como um abre-alas que prepara o caminho para que isso ocorra futuramente. Nesse sentido, gostaria de encerrar essa exposição com uma citação de Winnicott (1969, p. 121-2) a esse respeito:

“... só recentemente me tornei capaz de esperar; e esperar, ainda, pela evolução natural da transferência que surge da confiança crescente do paciente na técnica e no cenário psicanalítico, e evitar romper esse processo natural, pela produção de interpretações. [...] o trabalho interpretativo que o analista precisa fazer ... esse trabalho por parte do analista, para surtir efeito, precisa relacionar-se à capacidade do paciente de colocar o analista fora da área dos fenômenos subjetivos. Acha-se então em jogo a capacidade do paciente de usar o analista”.

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1 A esse respeito, diz M. Khan (1971, p. 277): “O que os estados mais primitivos de emergência do self e do ego de fato herdam, todavia, são tendências para a autodefesa”.



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