Vi congresso brasileiro de psicopatologia fundamental



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VI CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL

Recife, de 05 a 08 de setembro de 2002
MR/X3 DESREGRAMENTO DO AFETO E ADOECIMENTO DO CORPO: CONSIDERAÇÕES SOBRE MELANCOLIA E PSICOPATOLOGIA SOMÁTICA. Teixeira, L. C. Mestrado e Graduação em Psicologia na Universidade de Fortaleza - UNIFOR, Fortaleza, CE, Brasil.
RESUMO

A investigação das psicopatologias somáticas impõe-se como tema de interesse para a clínica, exigindo re-elaborações metapsicológicas que contemplem as figurações do sofrimento no atual momento civilizatório. Questões relacionadas ao narcisismo, identificação e superego marcam o estatuto da melancolia em Freud e suas elaborações sobre o ego e a possibilidade de reflexão acerca da temporalidade, do trauma, da identificação e da culpa ligadas à organização psíquica na qual a escolha narcísica do objeto promove a abolição do outro. Traços melancólicos são apreendidos nas falas de sujeitos acometidos de doenças orgânicas que, colocando em xeque as possibilidades de elaboração simbólica do corpo, tratam-no em sua concretude, paralisando o tempo de construção subjetiva. Objetivo: abordar corpo e sofrimento no cenário das psicopatologias somáticas, considerando a doença orgânica a partir da hipótese de crise melancólica e suas vicissitudes no real do corpo e no existir social do sujeito. Apreendemos o valor da escuta clínica no acompanhamento de pacientes sofredores de doenças orgânicas que, quando tratadas como psicopatologias somáticas, deixam-se falar por manifestações que marcam a inserção do sujeito em uma rede filiatória não simbolicamente construída. O esvaziamento erótico da subjetividade lesiona o real do corpo, colocando em cena afetos que buscam significação do outro. Entendemos que os fenômenos psicossomáticos fazem apelo à alteridade e que a melancolia, como hipótese diagnóstica, e a insuficiência imunológica psíquica que esta instaura devem ser consideradas em pacientes somatizadores graves.

Este texto visa a elaboração da relação entre melancolia e psicopatologia somática, partindo da consideração da primeira fora do campo de negatividade característico das associações feitas com estados patogênicos de tristeza, desalento e escassez de produções do inconsciente. Tratamos quadros melancólicos de organização subjetiva como possibilidades de estetização do existir, tal qual argumenta Lambotte (1999). Assim, pensamos que saídas melancólicas expõem, ao mesmo tempo, o aprisionamento do sujeito ao ideal de completude e suas tentativas de constituição de um corpo de desejo, possível na demarcação de contornos pela intermediação do outro. Apresentaremos reflexões acerca do adoecimento somático a partir de um caso de lupus eritematoso sistêmico e da hipótese clínica da melancolia e seus destinos psicossomáticos.

Enquadre e escuta clínicos de um sujeito portador de Lupus Eritematoso Sistêmico

L. chegou ao meu consultório indicada por um médico, cujo nome ela dizia não se lembrar mais, justificando tal esquecimento pelo grande número de consultas que vinha fazendo nos últimos dois anos. Ela me pareceu uma mulher bonita, de uns 30 e poucos anos, falante e muito interessada no funcionamento da terapia. Na segunda entrevista, L. disse-me que tinha quarenta e três anos e que há aproximadamente três anos, em uma consulta à esteticista, esta profissional observou que a paciente apresentava uma mancha esquisita no rosto que, depois de ter sido notada, passou a lhe incomodar muito. Depois de alguns meses, L. procurou um dermatologista que, após demorar bastante tempo na anamnese – “perguntando sobre tudo” – encaminhou-a a um reumatologista, prescrevendo uma bateria de exames. L. contou-me que, após esta visita ao dermatologista, sua vida mudara radicalmente, pois “muita coisa que sentia”, há algum tempo, começou a se tornar o centro de sua vida.

Ressalto que a paciente era psicóloga clínica, trabalhando com terapias corporais, nas quais fazia uso de técnicas de relaxamento, meditação e toque. O diagnóstico apresentado foi de Lupus Eritematoso Sistêmico e ela, ao começar o processo de entrevistas preliminares, já havia superado momentos de crise e duas hospitalizações, mostrando um estado estável de saúde. Exceto em relação às atividades profissionais, L. realizava suas tarefas cotidianas com desenvoltura, dedicando-se ao aperfeiçoamento da cerâmica, arte que despertara seu interesse e “talento” durante as atividades de terapia ocupacional que foram necessárias por ocasião de sua segunda crise aguda.

Nas entrevistas, L. se apegava aos seus sintomas, sendo estes descritos como se fossem coisas. Ela os enumerando, situando-os no tempo, relembrando os diversos tratamentos aos quais se submetera. Depois de uma série de sete encontros, nos quais o caráter de entrevista sempre era demarcado por mim – creio que para nós duas! –, L. acolheu as regras que passaram a nortear a relação terapêutica, mostrando-se disposta e bastante acessível às colocações que eu fazia. Durante os dez primeiros meses de análise, L. passara seu tempo em casa se preparando para uma exposição que planejava desde as primeiras sessões de Terapia Ocupacional que foram substituídas por aulas de arte, já que ela não precisava mais de “ajuda”, tendo, sim, que aprender o ofício de ceramista.

No dia da inauguração, L. me ligou aflita, solicitando uma sessão extra que findou por durar aproximadamente uma hora e meia. Ela estava muito inquieta, tendo passado a sessão inteira andando de um lado para o outro, reclamando que não conseguia parar, ficar em um só lugar. Ao final do tempo, ela estava resolvida a não comparecer ao evento. Soube que a exposição fora aberta com sucesso e que a ceramista fora bastante elogiada. Dois dias depois, recebi um telefonema de sua mãe que me avisava do internamento da filha no dia anterior. L. passou um mês no hospital, lugar no qual realizamos as sessões, sendo essas transferidas para sua casa quando recebera “proibição médica de se expor ao sol, mesmo que dentro de um carro”.

Durante este período, os sintomas e os acontecimentos rotineiros foram narrados impessoalmente. A impressão de que eu atendia outra pessoa foi, por mim, objeto de um árduo trabalho de análise pessoal. Nas sessões, contrariamente ao que se passava anteriormente, esta paciente parecia muito desinteressada em suas relações comigo, não manifestando curiosidade a seu respeito e respondendo às perguntas quase mecanicamente, sem mostrar nenhum sinal de processo associativo. Algumas vezes, ela se “descompensava”, devido a somatizações que eram desencadeadas durante as sessões.

As figurações que a transferência tomava levaram-me a pensar que os fenômenos do adoecer orgânico apontavam para a expressão de um modo particular de funcionamento psíquico que regia os pensamentos e atitudes de L.. As especificidades observadas nesse momento peculiar de crise lúpica parecem ter colocado em cena uma lógica de organização do psiquismo que se situava nas fronteiras da psicose, porém resguardando lugares subjetivos diferentes daquela.

O corpo de L. mostrava-se pelas doenças secundárias ao LES, particularmente pelos comprometimentos da corticoterapia prolongada. Também a paciente passou a apresentar um quadro preocupante de síndrome nefrótica lúpica e de hipertensão arterial sistêmica, agravado pelo sedentarismo e estresse próprios ao LES. Segundo o reumatologista que a acompanhava, a função imunológica de L. vinha se fragilizando devido aos fatores estressores psicossociais e à depressão, o que a deixava susceptível a infecções, alopecia e problemas de pele. L. queixava-se de uma fadiga que, segundo ela, a tornava “inútil”.

As singularidades de L. pareciam ter sido apagadas, restando uma doente preocupada com estudo de sua síndrome em termos médicos. Ela me dizia sempre que essa recaída se deu devido ao seu desprezo pelos sintomas do LES e sua ignorância no campo das investigações científicas sobre o corpo. Assim, ela re-convoca sua terapeuta ocupacional, voltando a realizar atividades que antes qualificava de bobas e sem nenhuma graça. Os sonhos eram raros e L. não se mostrava empenhada no processo terapêutico, apesar de ratificar constantemente a importância de se tratar “em todos os sentidos”.

Diante de uma situação conflitual, L. reagia de forma estereotipada. No lugar de recalcar a exigência pulsional que foi mobilizada ou, então, de recusar um fragmento do mundo exterior como faz o psicótico e, até certo ponto, o fetichista, ela investia no que existe de mais concreto – o corpo –, apresentando altos e baixos em seu processo de tratamento.

Com a corticoterapia, ela inchou muito, tendo narrado um fragmento de sonho em que nadava “feito uma baleia”. Após este sonho, eu resolvi, não sei bem o porquê, participar das sessões de terapia ocupacional, nas quais contei com colocações interessantes da profissional que insistia em que L. voltasse a “pôr a mão na massa”.

Quando seu estado clínico melhorou e que lhe foi permitido sair de casa, L. voltou a comparecer às sessões no consultório e, no primeiro dia de seu retorno, levou-me uma peça feita em cerâmica datada do dia posterior à abertura de sua exposição. A peça tinha o formato de uma baleia ou de um golfinho, “sei lá”, dizia ela, afirmando que deveria ser algum desses bichos que não têm juntas. Esse foi um marco na aliança terapêutica, possibilitando a L. construir uma história de sua vida em seus primeiros anos, caracterizada por excessivos cuidados parentais devido a acessos asmáticos. Ela contou que, mesmo após ter ficado curada da asma, os pais continuavam a imobiliza-la na cama, prendendo seu corpo com fraldas nos tornozelos e punhos. Esse procedimento foi adotado uma vez no hospital para que ela ficasse quieta e pudesse ser administrado o soro. L. diz não entender porque seus pais reproduziam esse cuidado em casa, “sem soro nem nada”.

As particularidades da relação materna, neste caso, e os modos de re-construção de sua vida fantasmática parecem ter organizado uma pré-disposição ao LES. Durante os contatos que estabeleci com os pais de L., estes não se furtavam de narrar suas culpas em relação à filha, por terem tido de deixa-la sozinha durante o primeiro ano, já que trabalhavam viajando e tinham que deixa-la com babás. O pai citou que ela tivera sérias crises de asma nos dois primeiros anos de vida, tendo sido esses episódios de sofrimento da filha que os fizeram mudar de ramo profissional.

Traços melancólicos e adoecimento somático: um corpo que não cessa de doer

Questões relacionadas ao narcisismo, identificação e superego marcam o estatuto da melancolia em Freud (1914,1915,1917), bem como suas elaborações sobre o ego e a possibilidade de reflexão acerca da temporalidade, do trauma, da identificação e da culpa ligadas à organização psíquica na qual a escolha narcísica do objeto promove a abolição do outro.

Traços melancólicos foram apreendidos nas falas de L. durante o episódio de crise supracitado. A paciente colocava em xeque as possibilidades de elaboração simbólica do corpo, tratando-o em sua concretude, paralisando o tempo de construção subjetiva.

As figurações do corpo de L. remetem ao sofrimento no cenário das psicopatologias somáticas, considerando a doença orgânica a partir da hipótese de crise melancólica e suas vicissitudes no real do corpo e no existir social do sujeito. Hipotetizamos que traços melancólicos desenharam um percurso de construção subjetiva para L. que se presentificavam, impossibilitando as vicissitudes simbólicas de sua corporeidade, em momentos nos quais ela era demandada a assumir certas posições frente à alteridade que afirmassem um lugar próprio, separado dos fantasmas parentais. As situações de perda datadas de momentos bem precoces de seu existir parecer ter marcado a vivencia da dor de uma separação como insuportável, como impossível de ser simbolizada, lesionando o corpo que, durante aproximadamente quinze anos, mostrava-se a partir de sintomas particulares e pouco exuberantes. Durante este período, L. narrou que ia sempre a médicos e que se submeteu a vários tratamentos dermatológicos, renais, cardíacos e neurológicos. Ela citou uma constante cefaléia, persistente por mais de dez anos, e algumas crises de anemia, tratadas com êxito passageiro.

Entendemos que o afeto marca o que há de desmesura no sujeito, podendo ser visto como o que existe de mais singular. Os destinos das representações pulsionais (Freud, 1915) – retorno, reversão, recalque e sublimação – estabelecem vias de elaboração psíquica que parecem não adquirirem destaque na organização de sujeitos cujo afeto mostra-se sufocado e embotado, como tentativa de resistência fantasmática às ameaças aniquiladoras do jogo libidinal, já que qualquer ensaio de aproximação erótica faz colar amor e morte. Vemos em L., questões que nos incitam a pensar sua vulnerabilidade psicossomática a partir da impossibilidade de reações afetivas frente às perdas vivenciadas por ela como traumáticas, instaurando estratégias de vida psíquica que excluem o outro. O sofrimento suscitado pelo adoecer orgânico é apropriado como fim do masoquismo, não constituindo um dispositivo neurótico.

A enfermidade orgânica destaca as vicissitudes do afeto no corpo que, por somatizações regressivas, pode ser lesionado. A fragilidade das funções imunológicas constitui um efeito relevante em pacientes com doenças crônicas graves, como no caso do LES, sendo muito relacionada a estados depressivos. Entretanto, compactuamos com Fédida (2001) e Berlinck (2000) no tocante à denuncia de que, no trabalho clínico analítico, quadros de depressão aparecem no sujeito como tentativas de resistência à melancolia. Percebemos que, no acompanhamento da paciente em questão, as prescrições médicas de cura da depressão pela psicofarmacologia deram lugar a mobilização de traços melancólicos. A tese de Fédida (2001) consiste na afirmação da importância lugar da escuta analítica, em situação de psicoterapia, de pacientes depressivos. Para o autor, a depressão tal qual concebida na atualidade sintomática ocidental pode ser vista como uma modalidade de defesa ao nada melancólico, apontando em direção a depressividade vital, constituinte do subjetivo (Teixeira, 2002).

A mobilização que as manifestações orgânicas causavam em L., por mais que a afastassem da implicação no adoecimento, colocavam-na em uma posição passível de ser trabalhada transferencialmente, já que podiam ser lidas como soluções não sintomáticas para arranjos pouco consistentes na inserção genealógica.

Quando foi diagnosticado o LES, L. disse-me que sentira um certo alívio pela descoberta do problema que realmente tinha, tanto é que parecia não ter “sofrido muito nas duas primeiras internações”. Ela dizia-me, antes da crise aguda durante o processo de análise, que os dois episódios anteriores de hospitalização a encheram de esperança, pois estava se tratando do que apresentava de fato.

Não sabemos o quanto o trabalho analítico situou-a em um lugar perante si própria que a fez reagir pela recidiva do LES, já que questões relativas a perdas e à dificuldade de elaboração de luto (Freud, 1917) mobilizaram bastante L. por algum tempo da análise. L. colocara a “mão na massa” e com o barro conseguira desenhar um corpo que gritava de sofrimento, mostrando-se pelas articulações e juntas que, imobilizadas, fisgavam o olhar do outro em sua direção. Ela modelara o indizível de sua vida fantasmática, na qual era filha de pais que, identificados aos médicos e cuidadores, tinham que tomar atitudes a fim de salvar-lhe a vida, mesmo que estas fossem invasivas, prendendo-a, violentamente, ao desejo de ter sempre os pais junto dela. L. esboçara um bebê desamparado que, mesmo crescido, duvidava do desejo dos pais em mantê-lo vivo. O LES atualizara a fantasia de L. de que, enquanto se mantivesse estática, imóvel e seguidora das prescrições ortopédicas e higiênicas, tudo ia ficar bem. Sua mãe, na saída de uma das sessões em que fui a casa deles, disse-me que seu estado lembrava o tempo em que a filha tinha asma brônquica, ficando “presa à cama”.

O discurso produzido por L. no contexto da análise atingia-me impregnado de melancolia, particularmente quanto às relações com o outro e com o tempo, um tempo que urgia em fazer-se presente pela dor e sofrimento, e pelas tentativas exasperadas de estabelecimento de fronteiras e limites por via das sensações corporais. Durante as crises de adoecimento de L., confrontávamo-los com uma temporalidade paralisada, aprisionada ao tempo do Um, do universo do eu ideal, da intimidade idealizada que só existe como nostalgia. Fazia-se presente à realidade de uma ordem sem contestação, sem conflito, sem outro. Limites urgiam em ser erguidos. Essa era nossa aposta: como analista, eu assumia os lugares de testemunha das narrativas de L., de suas infindáveis descrições de estados e sensações corporais e de mediador na construção de fronteiras que seu corpo não pode estabelecer, mas que ela lutava, como uma ávida e corajosa sobrevivente, a construir. Suas tentativas em remediar as desventuranças afetivas experimentadas no início de seu existir passavam pelas saídas sublimatórias, porém, por não haver a sustentação do erotismo demarcando os limites de sua corporalidade, as lutas com o barro colocavam-na frente ao despedaçamento, às ameaças de devastação.

L., no final do episódio de crise, estava com vários quilos a mais, dizendo sentir-se “uma baleia”. O eritema facial característico do LES a incomodava bastante. Ela me disse que, agora, não tinha como disfarçar a presença do lupus. Depois do retorno das sessões ao consultório, L. mostrou-se pouco confortável, com dificuldades de associar e forte resistência a mim. Parecia-me que a elaboração do luto de deixar a posição de paciente em crise e de bebê asmático, ancorada nos procedimentos médicos e assistenciais, consistia um foco da análise.

Como já explicitei, não sei se o fato de L. estar em análise desencadeou nela questões decisivas ao re-aparecimento da crise do LES. Talvez a recidiva aguda da doença tenha surgido pela fragilidade da organização psíquica da paciente, como bem tentam nos ensinar os psicossomaticistas. Continuo com questões muito semelhantes àquelas que me dirigi há aproximadamente seis anos, mesmo que, agora, ensaie respostas mais provisórias ainda. O que posso afirmar é que, depois de cinco meses do episódio agudo do LES, tive que encaminhar a paciente a um outro analista, já que iria passa uma temporada de quatro anos fora da cidade. O que posso pensar como efeito da análise de L. é que ela procurou outro profissional, apesar de ter me “abandonado à força”, de acordo com suas palavras. Soube dela há um ano atrás, através de um anuncio da sua participação em uma exposição coletiva de artesãos intitulada “A cerâmica e a nutrição”. Pelo visto, ela continuou com a mão na massa, deixando-se nutrir pelo fazer travessas, jarros d’água, saladeiras, pratos...

Apreendemos com L. o valor da escuta clínica no acompanhamento de pacientes sofredores de doenças orgânicas que, quando tratadas como psicopatologias somáticas, deixam-se falar por manifestações que marcam a inserção do sujeito em uma rede filiatória não simbolicamente construída.

Nesse sentido, as tentativas de construção de uma genealogia familiar causavam transtornos entre L., seus pais e parentes próximos, pois ela questionava acerca de alguns aspectos da história de alguns parentes que não eram tratados à luz do dia. L. mostrou-se interessada e “disposta” a elucidar certos desafios em sua árvore genealógica, entretanto alguns relatos referentes a um crime entre seus bisavós paternos e maternos, lutas por direito à herança na família de seus avós maternos e várias mortes provocadas por problemas renais e cardíacos entre seus tios, também maternos, parecem ter-lhe chamado a atenção. Ela trouxe-me, no final de uma sessão, o “desabafo” seguinte: “ainda bem que sou filha única de minha mãe, pois como nunca me envolvi com ninguém, não deixarei filhos e não transmitirei este sangue ruim”.

A construção de fronteiras e limites marcaria em L. a diferença das gerações e dos sexos, a alteridade em si própria e no outro e as possibilidades de existência em um corpo, afirmando a inevitabilidade da morte e da dor, podendo esta ser vivida sem o risco de aniquilamento.

O desamparo de L. era incontornável por sua palavra em muitos momentos. Suas mãos puderam trabalhar em prol de um lugar para seu corpo dolorido e imobilizado pela culpa de desejar ser tocado e tocar um outro. E eu me fizera presente, como testemunha com meu corpo, meu olhar, minha palavra. Ela não tivera namorados e, quando tinha alguém à vista, adoecia. A perspectiva não fazia parte de sua vida e foi presentificada na modelagem de partes de corpos dessexualizados, que se deixavam ver pela ênfase das articulações que brincavam com o expectador: seria um joelho, um cotovelo, uma junta entre os dedos, mas qual dedo? É aí que outro episódio de pico do LES tem lugar.

A clínica dos fenômenos psicossomáticos constitui efeitos do que extrapola os objetivos vitais, porém estes evidenciam a clivagem do sujeito, os destinos do afeto, a angústia e as possibilidades de construção de sentido. A doença somática, desde a época de Freud (1895, 1896, 1898, 1908, 1910, 1914, 1915, 1917) – apesar de seu ceticismo em relação à aplicabilidade do método psicanalítico a pacientes orgânicos –, ressalta a ruptura epistemológica com a divisão corpo-mente, possibilitando a legibilidade da imagem inconsciente do corpo, como também da emergência e dos destinos dos afetos. Diferentemente do quadro nosológico em que Freud situou as neuroses atuais – precursoras das psicopatologias somáticas –, na clínica atual, as relações precoces e os momentos primitivos de constituição do eu são enfatizados. A importância do trabalho clínico visa a permitir que o sujeito se posicione frente à doença sem experimentar a autocensura melancólica de aspectos regressivos expresso na dor impossível da iminência de sua destruição como sujeito. A reconstrução da rede simbólica pela inclusão do corpo biológico, o trabalho psíquico e a elaboração de sintomas psíquicos se fazem possíveis na construção de uma história.

Os atos de nutrir e alimentar pressupõem a alteridade, o investimento narcísico no diferente, no desejo do outro. Quanto de erotismo há em se preparar o alimento, em utilizar continentes que sugiram simbolismos de troca, de atração. L. preparava, com sua arte, espaços de acolhida, recipientes que convidavam à celebração, à ceia, à comunhão. Algo nela se instaurou com seu árduo e penoso empenho em sobrepujar as ameaças fantasmáticas de um corpo que só podia existir pela persistência do ruído da dor que queimava sua pele, desregulava seus rins, elevava a pressão de suas artérias como tentativas de lutar contra o mal que a invadira por “ser filha de quem é”. O LES mostra-lhe que essa luta era vã, que sua filiação deveria ser inscrita por vias menos aterrorizantes. Seu corpo não se mostrava protegido das descargas de excitação, não havendo formação do sintoma. O acesso da excitação não-representável dava-se livremente para o plano somático. Nas sessões, apostávamos que a escuta da fala da paciente, da fala de seu corpo eritematoso e pouco flexível em seus movimentos só podia se fazer através do corpo do analista, corpo erógeno que acolhia os murmúrios descritivos e monótonos de L., deixando-a livre para falar como lhe fosse possível.

Ter a si próprio como ameaça supõe a identificação ao nada. A inserção de L. em uma historicidade subjetiva possibilitava a ela a construção de delimitações, de bordas e contornos demarcadores de diferenças no espaço. Poderia haver o vazio, mas não o nada aterrorizante da autodestruição.

O esvaziamento erótico trazido à cena analítica por L. lesionou o real do corpo, atualizando afetos que buscam significação do outro. Entendemos que os fenômenos psicossomáticos fazem apelo à alteridade e que a melancolia e a insuficiência imunológica psíquica que esta instaura devem ser consideradas em pacientes somatizadores graves.

A investigação das psicopatologias somáticas impõe-se como tema de interesse para a clínica, exigindo re-elaborações metapsicológicas que contemplem as figurações do sofrimento e dos lugares do corpo no atual momento civilizatório. Como a psicanálise trabalha com o recalcado, muito em relação ao afeto ficou em um plano pouco iluminado pelas teorizações, causando uma lacuna, muitas vezes, comprometedora dos rumos dos atos clínicos. Resgatar as elaborações freudianas acerca dos destinos do afeto e das representações palavra e coisa (Freud, 1915 ), por exemplo, pode abrir espaço para a escuta dos ruídos de dor expostos na amargura dos corpos enfermos que pedem socorro se automartirizando, como se expiassem, com uma culpa mítica, as falhas de seus ancestrais. Aliás, podemos até construir hipóteses psicopatológicas variadas em relação ao adoecimento do corpo – o que denota que não estamos congelados numa clínica de normas rígidas e de servidão a autores e escolas de pensamento –, porém não podemos esquecer que a ruptura epistemológica que inaugura a radicalidade da clínica freudiana insere-se na tradição filosófica na qual corpo e psique não são diferentes, confundindo-se em uma unidade que denominamos psicossomática. É esse corte com a cultura da anátomo-patologia que instaura a possibilidade de uma clínica da escuta, segundo Berlinck (2000, p. 370), predominantemente visual, “já que ocorre no âmbito das transferências que produzem, primeiramente, afetos e imagens”. Com a nova ordem corporal inaugurada por Freud com a ficção pulsional, entendemos o adoecer a partir de “alterações na distribuição da libido” (Freud, 1914, p. 98). Resta-nos possibilitar que o patológico tenha lugar, assumindo sentidos mais leves para o sujeito sofrente do corpo. Esta constituiu nossa aposta com L..

Referências


Berlinck, Manoel T. Psicopatologia Fundamental. São Paulo: Escuta, 2000.

Fédida, Pierre. Des bienfaits de la dépression : éloge de la psychothérapie. Paris : Odile Jacob,2001.

Freud, S. Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica intitulada ‘neurose de angústia’ (1895). Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud (1976), v. III. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Freud, S. A sexualidade na etiologia das neuroses (1898). Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud (1976), v. III. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Freud, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. (1914). Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud (1976), v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Freud, S. Apêndice de O Inconsciente (1915), v. XIV Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud (1976), v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Freud, S. As pulsões e seus destinos (1915). Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud (1976), v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Freud, S. Luto e melancolia (1917). Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud (1976), v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Lambotte, Marie-Claude. Ésthétique de la mélancolie. Paris : Aubier, 1999.

Teixeira, Leônia C. O lugar da psicoterapia na clínica da depressão. Pulsional Revista de Psicanálise. São Paulo, v. 1, n.1, p. 62-64, 2002.





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