Vicissitudes da transferência na relação professor-aluno adolescente na atualidade resumo



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9º. Colóquio Internacional do Lepsi – Retratos do mal-estar contemporâneo na educação – Faculdade de Educação da USP.

Vicissitudes da transferência na relação professor-aluno adolescente na atualidade

RESUMO:

Nesta pesquisa, o que propomos discutir a respeito da qualidade da relação de transferência na atualidade, sobretudo quando se trata do trabalho com adolescentes e quando nos deparamos com algumas mudanças trazidas pelo advento da contemporaneidade que apontam para a sobreposição de ideais imaginários em relação aos ideais simbólicos.

Aluna: Aline Rodrigues

Orientadora: Profa. Dra. Elizabeth Reis Sanada

Esta pesquisa, ainda em processo, está sendo desenvolvida no núcleo de Psicanálise e Educação do Instituto Singularidades, no qual também desenvolvo meu trabalho de conclusão do curso de graduação em Pedagogia.

A pergunta que esta investigação procura responder é quanto à especificidade das relações estabelecidas entre professor e aluno na adolescência: qual seria essa especificidade e a quais vicissitudes ela submete tal relação?

O primeiro passo para responder a essa pergunta foi buscar referências teóricas na área envolvendo uma leitura psicanalítica da adolescência. Para tanto, os autores visitados foram: Beatriz Cauduro Cruz Gutierra (2003); Maria Cristina Kupfer (2001); Diana Lichtenstein e Mario Corso (2011); e, J.-D.Nasio (2011). O contato com tais autores e seus trabalhos mostrou claramente a necessidade de compreender o que poderia ser definido como a relação transferêncial que se estabelece entre o adolescente e o Outro.
Portanto iniciaremos a pesquisa abordando três fatores considerados relevantes para entendermos essa relação estabelecida entre o professor (Outro) e os alunos adolescentes (sujeito). Assim sendo, enfatizaremos os seguintes conceitos: a adolescência, a contemporaneidade e a transferência.
Começaremos pela definição do conceito adolescência, que é visto como é um conceito sócio-histórico que, sofre com as influências da sociedade na qual o sujeito-adolescente está inserido. E segundo Násio (2011, p.13), A adolescência é uma passagem obrigatória, a passagem delicada, atormentada mas igualmente criativa, que vai do fim da infância ao limiar da maturidade”. Entende-se hoje, segundo os autores visitados, que a adolescência se refere à faixa etária que vai dos 11 até 18 anos. Sendo um sujeito que está sofrendo vários conflitos no seu processo de constituição subjetiva, um ser que apresenta diversas característica, podendo ser uma pessoa tranquila ou revolta, desesperado, contraditório, alegre ou triste. Uma pessoa que está em constante mudança de humor e atitudes, porém, sempre buscando desafiar às leis e outras demandas que lhe são impostas no meio social do qual ele está inserido.
Assim sendo, surge em nossas mentes a seguinte pergunta: Quem são esses adolescentes?

Para responder a esta questão temos por base os textos da obra de Gutierra (2003), em que a autora refere-se que o adolescente é um sujeito que está em sua fase de constituição subjetiva que, portanto, coloca em xeque o mundo adulto. É um sujeito que se depara com a impossibilidade da completude prometida na infância, passando a desconfiar do mundo, dos ideais transmitidos e principalmente dos veiculadores desses ideais do mundo adulto – os professores.


Essa característica desafiadora do adolescente é uma marca muito forte na atualidade, porque é quando o sujeito percebe que há um certo esvaziamento social, de um certo saber e de uma tradição. E se o professor se mantém nessa tentativa de um fechamento, tendo uma postura de um “mestre todo”, o adolescente vai tentar desconstruir essa postura onipotente do Outro. Pois, segundo Gutierra (2003), o professor é um modelo que representa a imago paterna, sendo colocado no Ideal-do-Eu por seu aluno e esse por sua vez vai tentar transmitir para dentro do ambiente escolar (a sala de aula) o modelo de relação que manteve com os pais.
Finalizando a essa questão, podemos fazer menção a um trecho dos Corso (2011), em que por meio dos contos de fadas eles definem o adolescente, sendo um ser que está passando por uma transição em que precisa viver o luto da infância – abandonar os ideais e os valores que adquiriram na infância, a fim de viver em equilíbrio entre ser autor e personagem da própria história. Sendo assim, podemos dizer que o adolescente, não possui ainda o seu lugar propriamente definido no meio em que está inserido, ora por ser novo demais e ora por ser velho demais para realizar tais feitos ou assumir tais responsabilidades que lhe podem ser imposto.
Abordaremos o segundo aspecto, que diz respeito à contemporaneidade, em que exige considerar que as características apresentadas por ela, modificaram a relação do sujeito com a tradição. Entre outros, houve quebra das regras, dos ideais (significados), até então, já construídos pela sociedade e dos parâmetros sobre o que é certo ou errado, o que pode e não pode ser feito. E este aspecto recorrentemente vai ser algo que vai afetar a vida do adolescente e sua relação com o outro, inclusive no contexto escolar.
Assim sendo, novamente retomaremos a Gutierra (2003) em que a autora menciona que pode considerar-se uma “missão impossível” educarmos os adolescentes da atualidade, pois, o docente se depara em seu ambiente de trabalho com situações de indisciplina (quebra de regras), violência (relação ou não com o meio e a cultura vivenciada pelos alunos) e “fracasso escolar” (falta de interesse dos alunos). Porém, Freud (1937), já dizia que a educação carregava em si a marca da impossibilidade, pois, atuando na direção de um ideal de perfeição, domínio e controle de seus resultados, parava-se com resultados de insatisfação. Porém, Kupfer (2000) atenta para o seguinte fato de que não existe mais uma rede de sustentação social e simbólica para exercer essa “missão”, uma rede que destina-se os sujeitos a uma tradição e significados que pudessem contribuir para uma re-significação do futuro.
Na contemporaneidade o ideal transmitido a seus jovens, propõe a satisfação narcísica, em que para se sentir realizado o sujeito deve se satisfazer dos objetos no aqui e agora, sem interdições que os lancem num processo de desejo. Portanto, o professor de adolescente precisa exercer uma difícil tarefa educativa, uma vez que há evidência no declínio da educação. Em que esse docente deve utilizar-se de mecanismo simbólicos que são capazes de sustentar o lugar de autoridade do professor, já que esse lugar é quase inexistente na sociedade moderna.
Enfatizaremos a seguir o conceito de transferência que existe nessa relação de professor-aluno.

O conceito de transferência é um termo psicanalítico utilizado por Freud (1905), em sua obra a Interpretação dos Sonhos, na qual ele afirma que a relação transferencial é uma característica que permeia toda relação humana. No entanto, esse conceito deixou de ser utilizado somente na área analítica e passou a ser parte também do contexto educacional.


Na relação transferencial se desencadeia o que Kupfer (2001) denominou de transferência de poder, em que o professor se torna o depositário das projeções do aluno, de maneira a ser investido de forma inevitável de uma importância especial para o outro, passando a fazer parte do cenário inconsciente do aluno, abrindo espaço para que se desenvolva uma relação de ensino e aprendizagem pautada em ideais simbólicos ou imaginários, a depender do posicionamento do professor diante dessa demanda.
Assim sendo, o mestre de adolescentes, ocupando um lugar delicado, pode contribuir com a passagem da adolescência, porém, por outro lado ele pode ser visto pelo adolescente como figuras parentais (mundo adulto) com quem o próprio adolescente tem uma relação baseada em desconfiança e afastamento (o adolescente ao fazer essa comparação entre o professor e algum parente, ele está submetendo-se a um ato de transferência). E como já citado no início dessa pesquisa, o aluno adolescente vai transferir o modelo vivenciado com os pais para dentro da sala de aula, agindo ou não de acordo com as demandas que lhe serão impostas pelo professor.
Referente a esses aspectos, surge novamente outro ponto a ser interrogado. Porém, se acabamos de dizer que a adolescência é um conceito sócio-histórico, será que esse modelo de perfil de transferência vivenciado no século passado ainda se mantém atualizado na relação dos adolescentes com o professor?
Poderemos dizer que a resposta é ambígua: uma vez que podemos dizer que mudou, e não mudou ao mesmo tempo.

Mudou, na medida em que mudam os papéis dentro do espaço da escola. Na medida em que o professor, ao tentar atender às demandas que vão para além do campo da educação, esvazia o saber para o qual ele deveria estar preparado em princípio e passa a atender a uma demanda de mercado. Uma vez que, o professor começa a psicopatologizar o ambiente educacional, ou seja, no espaço da sala de aula, encaminhando os alunos para fazerem terapias.

Porém, também muitas vezes o professor espera que os alunos, principalmente os adolescentes, saibam o que é necessário fazer, se implicando pouco com sua prática, que tradicionalmente era a de ensinar. Esperando que os alunos já venham prontos, tentando manter uma massificação dentro da sala de aula, não tendo a experiência ou não sabendo como lidar com situações novas que são apresentados por esses alunos adolescentes.
No entanto, o professor, que não tem uma formação nesse sentido, esvazia seu lugar de autoridade dentro do espaço da sala de aula. E quando isso acontece, o que se percebe é que o aluno adolescente passa a fazer um joguete com esse professor, questionando-o, buscando um saber absoluto por parte do mesmo.

Em que Gutierra (2003) aponta que os adolescentes são como “antenas parabólicas” que captam esse discurso e aplicam imediatamente, sendo constituídos por suportes simbólicos de identificação, de aglomerações narcísicas em sua relação com outro.



Na verdade, o sentido de questionar o saber absoluto do outro, que o adolescente contemporâneo carrega consigo, como também já foi abordado nessa pesquisa, é o esvaziamento social do qual o adolescente se depara. E pelo fato de colocar em xeque o “mestre todo”, é por que pelo modelo transferencial ele, o adolescente, está buscando checar o saber na relação com os pais, por meio da postura aderida pelo professor.
Uma vez que, a escola e o professor ao assumirem essa “missão”, de educar o adolescente, enfrenta um sujeito que está imerso no discurso social apregoado num gozo em que o processo desejoso é mediado por ideais, mas há um pressuposto que o professor consegue atingir esse lugar de Ideal-do-Eu, pela possibilidade de particularidades subjetivas, não se impondo somente com esse fator, mas também com os aspectos sociais que influenciam de alguma maneira no processo educacional desse adolescente.
Propiciando uma relação com o saber e com o desejo de aprender estabelecida na relação professor-aluno adolescente. Porém, percebemos que essa relação se esvazia, na medida em que professor continua alimentando essa posição de “mestre todo”, mas, ela pode ser recuperada numa perspectiva do qual o professor deixa de ser o todo e passa a ser somente o mestre.
Porém, Gutierra (2003) aponta que, é quando o professor tende a olhar para a capacidade e as potencialidades do aluno (sujeito), ele passa ser alguém que pode colocar em pauta o seu saber e não o todo, deixando em evidência suas dúvidas, a busca de um sentido para sua existência e, nesse sentido, o saber é propiciador dessa resposta.
Sendo o saber um fator que vai proporcionar a resposta, o adolescente vai perceber que, o saber não é apenas uma moeda de troca, mas algo que dá sentido à vida, e nesse caso, o adolescente se refere à vida do professor.
E essa relação do professor com o seu próprio saber é que vai reverberar na postura do aluno, alimentando o seu desejo de se manter naquela relação, por um vínculo que ele estabelece com o Outro1. E mesmo sem saber se esse reconhecimento vai reverter para a sua vida prática, ele acaba estabelecendo um contrato com esse professor, sendo tanto por uma relação de filiação ou de lealdade, quanto para além dos conteúdos objetivos. O que será um legado que vai dar importância de encontrar um sentido para sua própria vida.
Assim sendo, é preciso que o professor esteja na posição de um sujeito em falta, para que assim o desejo de saber do aluno possa produzir seus efeitos e pela transferência, ele ver o professor como um suporte para construir seus conhecimentos.
Portanto, Gutierra (2003) aponta que não necessariamente o adolescente quer um Outro que esteja todo tempo supervisando-o ou marcando seus passos. Mas, sim, um Outro que consiga fazê-lo encontrar um significado para sua existência naquele determinado momento.
Porém, podemos inferir que não mudou porque, o aluno (sujeito) continua o mesmo, sendo um ser humano que constitui o meio em que está inserido. E que busca pelo saber, já que esse aluno adolescente se depara com a falta e segundo Gutierra (2003, p.83) parafraseando em Kupfer, que por sua vez baseia-se em Freud afirma que, “o desejo de saber está articulado à angústia de castração, que sobrevém quando o sujeito humano se depara com a falta”.
Por isso, nessa pesquisa voltaremos nossos olhares para os aspectos subjetivos que implicam na educação de adolescentes, e suas contribuições para a reflexão do lugar ocupado por esses professores de adolescentes, levando em consideração, que Gutierra (2003) aponta que na atualidade, a formação desses professores é ser um especialista em determinada disciplina e não ser propriamente dito um educador de adolescentes.

Referências Bibliográficas:

KUPFER, M. C. M. “Aprendizagem segundo Freud” . In:___ Freud e a educação: O mestre do impossível . São Paulo : Scipione, 2001.


GUTIERRA, Beatriz Cauduro Cruz . Adolescência, psicanálise e educação : o mestre “possível” de adolescentes / Beatriz Cauduro Cruz Gutierra . – São Paulo : Avercamp, 2003.
CORSO, Diana Lichtenstein. A psicanálise na Terra do Nunca : ensaios sobre a fantasia / Diana Lichtnstein Corso, Mário Corso. – Porto Alegre : Penso, 2011.
NASIO, Juan-David, 1942 – Como lidar com um adolescente difícil? : Um livro para pais e profissionais / J.-D. Nasio ; Tradução André Telles. – Rio de Janeiro : Zahar, 2011.



1 Conceito psicanalítico utilizado ao referir-se a cadeia do significante que comanda e que está presente na estrutura o sujeito.



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