Vida e Trabalho: Uma Proposta de Interpretação da Pesca na Comunidade de Amparo



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Vida e Trabalho: Uma Proposta de Interpretação da Pesca na Comunidade de Amparo1
O presente trabalho tem como objeto de estudo compreender a importância da pesca artesanal na Ilha do Amparo analisando esta enquanto uma prática em que vida e trabalho se relacionam de forma constante. A Ilha do Amparo está localizada no município de Paranaguá no Litoral do Paraná. A pesca artesanal dessa localidade pode ser definida pela utilização de barcos pequenos, de fabricação local e tradição dos pescadores. Porém a grande diversificação das formas de organização e produção dificulta a definição formal de pesca artesanal. Outras expressões são usadas como costeira, ribeirinha e tradicional. No entanto, pesca artesanal enquanto uma definição é bastante complexa. Esta mais que uma atividade econômica, nesse trabalho, é entendida em um diálogo em que vida e trabalho são elementos que se relacionam de forma constante. Para fundamentar essa proposta se buscaram conceitos e formulações teóricas que dialogassem com as concepções da comunidade. Através da linha da etno-história, a pesquisa envolve uma análise em torno do conceito de cultura e seu desdobramento material e imaterial. Compreendendo a pesca como parte da cultura da comunidade, utiliza-se no trabalho da análise de descrição densa da cultura de Geertz (1989). Nessa perspectiva não se deve analisar uma determinada cultura como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à busca de significados, questionando qual a sua importância e o que esta transmite. E entendendo que a pesca é uma prática que permeia o simbólico e o material o trabalho interage com a obra de Thompson (1998). O método utilizado é a História Oral no qual através de entrevistas de história temática e de história de vida, se tem como proposta analisar a importância que a comunidade confere a pesca. Compreende-se também neste trabalho que a História oral é uma instância que ajuda a reinterpretar o passado se correlacionado com fontes escritas. Diante dessas questões, compreender a importância da pesca em Amparo significa refletir acerca das interpretações dadas pelos pescadores a esta prática. Implica também pensar que a pesca é uma prática em constante mudança, em constantes trocas entre o tradicional e o moderno, entre o rural e o urbano, entre o simbólico e o material. Essa análise vai além da discussão em torno do conceito de cultura e da descrição densa da pesca, mas também dos elementos materiais dessa tal como o contexto ao qual está inserida. Dessa forma vida e trabalho podem ser vistos como indissociáveis. Tais elementos percebidos em diálogos demonstram uma proposta na qual se procura compreender que a pesca não se limita somente enquanto um trabalho ou somente uma atividade econômica, mas também como uma prática ligada a cultura material e imaterial da comunidade.
Palavras-chave: Cultura tradicional; Pesca artesanal; Ilha do Amparo.

Introdução

O presente artigo tem como objetivo compreender a importância da pesca artesanal na Ilha de Amparo analisando esta enquanto uma prática em que vida e trabalho se relacionam de forma constante. A comunidade da Ilha do Amparo está localizada no município de Paranaguá no litoral do Paraná. A pesca artesanal dessa localidade pode ser definida pela utilização de barcos pequenos, de fabricação local e tradição dos pescadores. Porém a grande diversificação das formas de organização e produção dificulta a definição formal de pesca artesanal. Outras expressões são usadas como: costeira, ribeirinha e tradicional. (ANDRIGUETTO, 1999, p.12-14).

O recorte temporal do trabalho situa-se no ano de 2004, ano que marca a explosão do navio Vicuña. O acidente acontece no dia 15 de novembro de 2004, em que o navio de bandeira chilena Vicuña explode na Baía de Paranaguá e deixa cerca de 290 mil litros de óleo combustível no meio ambiente.

De acordo com o jornal Folha do Litoral (2004) logo após o acidente a pesca foi proibida, no entanto os jornais regionais em sua maioria mencionam de forma breve sobre os pescadores das Ilhas da Baía de Paranaguá atingidas pelo acidente. Não há um trabalho aprofundado do ponto de vista dos pescadores após o acidente ou sobre o impacto desse na pesca. Diante dessas questões a problemática do trabalho é interpretar como os pescadores de Amparo elaboram suas representações sobre a importância da pesca artesanal e quais são os possíveis impactos causados na pesca da comunidade após o acidente. Dessa forma nesta pesquisa o foco nos relatos sobre o acidente é o aspecto principal, pelo fato de que, comunidades caiçaras como outras populações tradicionais são marcadas pela oralidade e raramente deixam marcas escritas.

A metodologia aplicada é a História Oral. Através desse método serão realizadas entrevistas temáticas para compreender o impacto do acidente na pesca e no meio ambiente e entrevistas de história de vida com os pescadores buscando compreender a importância da pesca para a cultura vivenciada pela comunidade e sua relevância histórica2. Os fundamentos dessa metodologia se encontram em Alberti (2005) em sua obra “Manual de História Oral”. Compreende-se neste trabalho que a história oral é também uma instância que ajuda a reinterpretar o passado se correlacionado com fontes escritas. Toda a história depende de sua finalidade social. Por meio da história local de uma aldeia ou cidade seus moradores buscam sentido para sua própria natureza em mudança e através dessa pode-se devolver às pessoas que viveram e vivenciaram a história, um lugar fundamental mediante suas próprias palavras. (THOMPSON, 1992, p. 20).

Outro fator a considerar é que não há trabalhos aprofundados que tratem da pesca na comunidade estudada como uma prática que faz parte da cultura da comunidade. De acordo com Andriguetto (1999) as primeiras publicações sobre o litoral do Paraná demonstram um diagnóstico geral da temática. No campo das ciências sociais os estudos são escassos. Uma obra que trata da pesca na comunidade de Amparo é a obra “Malhas da Pobreza” de Kraemer (1983). Neste trabalho a autora aborda sobre a comercialização e prática da pesca nas comunidades de Amparo e Prainha tendo como objeto analisar a causa da pobreza dos pescadores nas comunidades estudadas.

Nessa perspectiva compreender a importância da pesca artesanal na Ilha do Amparo significa refletir acerca das interpretações dadas pelos pescadores a esta prática. Esta mais que uma atividade, está ligada a economia local/tradicional e faz parte da cultura da comunidade, prática essa em que trabalho e vida se entrelaçam.

Vida e Trabalho
Importante esclarecer que a pesquisa ainda se encontra em fase de desenvolvimento e dessa forma, neste trabalho não é apresentado os dados das entrevistas temáticas e de história de vida comentadas no método e na problemática. O presente trabalho apresenta as questões teórico-metodológicas que norteiam a pesquisa. Lembrando que os conceitos e formulações apresentadas ao longo do texto foram elaborados de forma que dialogassem com as concepções da comunidade.

Como já mencionado o objeto deste artigo é compreender a importância da prática da pesca artesanal entendendo esta enquanto uma atividade em que vida e trabalho são elementos que dialogam de forma constante na comunidade de Amparo.

Através da linha da etno-história, a pesquisa envolve uma análise em torno do conceito de cultura e seu desdobramento material e imaterial. Tais conceitos serão pensados ao todo como elementos necessários para se compreender que a pesca em Amparo é uma atividade em que vida e trabalho são concebidos de forma conjunta.

Uma primeira delimitação necessária se ser ressaltada nesta pesquisa é a interdisciplinaridade entre História e Antropologia entendendo que estas podem estabelecer contatos entre si.

A Antropologia se consolida como disciplina acadêmica no início do século XX, muitas de suas concepções estavam voltadas para o estabelecimento do conceito de raça, na qual se impôs uma perspectiva que visava às diferenças físicas entre os homens e na explicação biológica que procurava justificar o atraso tecnológico de muitas sociedades humanas. (NETO, 1997, p. 320). No campo da disciplina de História, de acordo com Silva (2004) durante o início do século XX, surgem vários tratados de História da civilização. Esta concepção de história seguia de certa forma o viés antropológico no que dizia respeito ao esquema evolucionista que servia de base para a pesquisa histórica.

Até esse momento o modo histórico e antropológico de interpretar a sociedade ocidental e não ocidental decorriam de fatores que dialogavam. De acordo com Silva (2004), dois pontos podem ser observados quanto a essa questão. Primeiramente com a expansão marítima comercial do século XV, estabeleceram-se contatos entre povos e culturas diferentes das sociedades existentes na Ásia, África e América. Esses contatos se estabeleceram para justificar a superioridade do mundo dito “civilizado” frente a “barbárie”. Outro ponto ressaltado pelo autor é que o pensamento evolucionista vigente no período buscava condições universais da realidade humana e isso de certa forma se refletiu no âmbito da História em uma visão universalista. Segundo Silva (2004, p.6) “Não é à toa, portanto, que, no âmbito da História, este seja o período por excelência de surgimento de diversas obras de síntese denominadas "História Universal"”.

No decorrer do século XX, muitas das abordagens evolucionistas e a perspectiva biológica, são revistos no campo da Antropologia3. O trabalho de Pritchard como de outros autores revelou a complexidade dos povos ditos “selvagens” e a percepção de outras culturas é aprofundada principalmente com a abordagem de Lévi-Strauss, que atingiu a percepção da capacidade de outras culturas e não somente das grandes civilizações, mas também dos povos que não possuíam escrita. O grupo étnico, ao invés da raça é visto como um elemento definidor de identidade, que permite a percepção do homem enquanto um animal cultural. (NETO, 1997, p. 321-22).

No âmbito da História essas repercussões derrubam a visão etnocêntrica que se tinha a respeito das sociedades humanas. Esse processo de acordo com Neto (1997) consolida o aparecimento da etno-história que surgiu de diferentes formas entre os séculos XVI e XIX e que analisa o desenvolvimento histórico de diversos grupos étnicos a partir de suas especificidades. Essa nova perspectiva de valorização dos saberes locais de determinados grupos e sua articulação com uma história local aprofundou a aproximação entre Antropologia e História.

Segundo Neto (1997, p. 323) “A etno-história, enquanto também história de inevitáveis e permanentes contatos culturais, tornou-se assim, o estudo dos grupos étnicos e de suas interações mútuas.” Dentro da perspectiva da etno-história os contatos culturais são experiências complexas e compreender a dinâmica história dos grupos étnicos é entendê-los em sua complexidade real. Outra visão da etno-história é quanto à contribuição imediata que a etnologia traz para a História, em sua dimensão etnológica propriamente dita, volta-se para os estudos de festas, mitos, para a valorização do saber não letrado e da tradição oral.

Compreendendo a pesca como parte da cultura de Amparo. Este trabalho terá como base a perspectiva de descrição densa da cultura de Geertz (1989) em seu trabalho “A Interpretação das Culturas”.

Acreditando que a experiência humana é entendida como uma ação simbólica, esta pode ser observada como exemplo, na escrita, na oralidade, em crenças, na prática da pesca artesanal. Visualizando essas ações como parte de uma determinada cultura, questionar se essa cultura é ou não padronizada, ou se é um estado da mente, perde o sentido. O que se deve questionar é qual a sua importância e o que esta transmite. E isto pode parecer óbvio, mas existem várias formas de obscurecer. (GEERTZ, 1989, p. 20-21).

Essa noção pode ser exemplificada na própria noção de comunidade tradicional caiçara. Através dessa noção poderia se definir uma determinada comunidade de caiçara pelo fato de adquirir e transmitir seus conhecimentos pela oralidade, por meio de uma linguagem específica4. De viverem em pequenos aglomerados com atividades no interior de unidades familiares, pelo conhecimento de ciclos naturais e dependência destes para a sobrevivência, na qual se utiliza de técnicas de baixo impacto sobre a natureza e por essa cultura estar ligada ao mesmo tempo ao mar e a terra. (DIEGUES, 2005, p.274). Como aponta Diegues (2005) é preciso entender que existem especificidades de uma comunidade caiçara a outra. Por exemplo, em Amparo atualmente, o fato de a comunidade ter uma ligação mais forte com o mar, do que com a terra, não significa que essa não possa ser identificada como uma comunidade tradicional caiçara.

De acordo com Geertz (1989) a cultura é pública e não se pode piscar sem saber o que é piscar ou contrair as pálpebras, da mesma forma que não se pode realizar a pesca de camarão, sem saber a época exata de pescar, sem saber a armadilha correta para esta atividade, bem como a região exata onde se encontra o camarão, ou seja, não se podem tirar conclusões de uma ação sem saber como fazer na prática. Porém tirar de verdades conclusões de que saber como piscar é piscar ou pescar camarão é simplesmente pescar é assumir descrições superficiais.

Nesse trabalho pretende-se compreender e mencionar a importância da pesca artesanal para a comunidade não como algo homogêneo e estático. De acordo com Geertz (1989) uma cultura deve ser analisada em caráter semiótico, o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu e dessa forma a cultura é representada como essas teias. Portanto no trabalho de análise e compreensão de uma determinada cultura em questão não se deve analisar a cultura como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa à busca de significados.

O ponto essencial da abordagem semiótica da cultura reside em permitir o acesso ao mundo conceptual no qual vivem os nossos sujeitos. Porém de acordo com o autor existe uma tensão entre a necessidade de interpretar um universo não familiar de ação simbólica e as exigências postas pelo avanço da teoria da cultura. Isso se torna evidente, como exemplo quando no desenvolvimento de uma pesquisa sobre uma determinada cultura utiliza-se de palavras tais como: mar e caiçara. Observando que na prática as palavras utilizadas pela comunidade são “maré para atribuir significados ao mar e “cabocla” para se definir.

Ou seja, como aborda Geertz (1989) quanto mais longe é o desenvolvimento teórico pior é a tensão, chega-se então ao primeiro ponto da teoria cultural, não é seu próprio dono. Analisando a partir desse ponto, observa-se que muitas vezes a teoria ou um conceito construído pela ciência não consegue se aproximar do que uma ação simbólica do que uma determinada cultura é na prática.


As formulações teóricas pairam tão baixo sobre as interpretações que governam que não fazem muito sentido ou têm muito interesse fora delas. Isso acontece não porque não são gerais (se não são gerais não são teóricas), mas porque, afirmadas independentemente de suas aplicações, elas parecem comuns ou vazias (GEERTZ, 1989, p.36).
Os estudos se constroem com base em outros estudos, pelo fato de recorrerem a um arcabouço conceitual e a mais informação e dessa maneira fatos anteriormente descobertos são mobilizados, conceitos desenvolvidos anteriormente são usados. Porém um estudo só é um avanço quando é mais claro e desafiador que aqueles que o precederam.

A segunda condição da teoria cultural apontada por Geertz (1989) é que ela não é profética, o diagnosticador não decide que alguém vai ficar doente, ele apenas antecipa que o paciente pode tê-lo. Ou seja, não se devem prever resultados em uma proposta de abordagem interpretativa.

Porém deve se ressaltar que o uso da teoria numa ciência interpretativa não serve somente para retratar realidades passadas, ela tem que sobreviver intelectualmente às mudanças que estão por vir e embora se formule uma interpretação sobre uma determinada cultura, às vezes muito tempo após o arcabouço teórico utilizado para se realizar essa interpretação pode ser capaz de render a mais interpretações na medida em que, surgem novos fenômenos sociais. (GEERTZ, 1989, p.37). Como já mencionado um estudo, na maioria das vezes parte de outros estudos e dessa forma as idéias teóricas não aparecem inteiramente novas elas são adotadas de outros estudos comparados e relacionados, estas são refinadas e aplicadas a novas interpretações.
Tal visão de como a teoria funciona numa ciência interpretativa sugere que a diferença, relativa em qualquer caso, que surge nas ciências experimentais ou observacionais entre “descrição” e explicação aqui aparece como sendo, de forma mais relativa, entre “inscrição” (“descrição densa”) e especificação (“diagnose”) entre anotar o significado que as ações sociais particulares tem para os atores cuja as ações elas são afirmar[...] o conhecimento assim atingido demonstra sobre a sociedade na qual é encontrado e , além disso sobre a vida social como tal (GEERTZ, 1989, p. 37).
A dupla tarefa por uma teoria interpretativa da cultura de acordo com Geertz (1989), é descobrir as estruturas conceptuais que informam os atos dos sujeitos e construir uma análise cujo seus termos genéricos à essas estruturas descobertas em uma determinada cultura que pertencem a estas por que o são e que se destacam contra outros determinantes do comportamento humano.

Dessa forma a teoria pode fornecer um vocabulário que possa expressar um ato ou ação simbólica, ou seja, sobre o papel da cultura na vida humana. O objetivo é tirar grandes conclusões a partir de fatos pequenos, mas densamente e articulados (GEERTZ, 1989, p.38). Por exemplo, a vista do mar comum aos nossos olhos, pode ter um significado simbólico para um pescador, o mar e a água podem ter diversas interpretações5. Como aponta Cunha (2000) além de um objeto de contemplação a água é lugar de travessia, ponto de navegação, de deslocamento de um continente a outro e no universo da pesca é possível analisar diversos significados impressos a água pelo pescador artesanal.

Cabe apontar que para além da argumentação de descrição densa de cultura de Geertz (1989) existe a perspectiva que difere em relação à cultura de Sahlins (1997) em seu trabalho “O Pessimismo Sentimental” e a Experiência Etnográfica: Por Que a Cultura Não é um “Objeto” em Vias de Extinção. Parte II”6. Nesse Sahlins (1997) critica o fato de que por muito tempo se falou do termo “cultura” sem se falar em “cultura” e não era preciso sabê-la apenas vivê-la. Durante muito tempo povos foram antropologizados sem que, no entanto vivessem ou celebrassem a sua cultura e muitos se tornaram conscientes de sua cultura sem o auxílio da Antropologia. Dessa forma a palavra cultura está na boca do povo, está no senso comum e no contexto de forças nacionais e globais que ameaçam os modos de vida tradicional.

Como aponta Sahlins (1997) a disciplina de Antropologia com a cultura ou as culturas mundiais, em um desenvolvimento não previsto nas suas velhas culturas, a disciplina foi tomada por uma pânico sobre a possibilidade das culturas desaparecerem e da possibilidade do conceito de cultura. Desaparecendo enquanto a Antropologia ainda estava a percebê-las para então reaparecer logo então da forma não prevista. Ou seja, a cultura ou culturas não estão desaparecendo, ou se extinguindo cabe agora explorar a imensa variedade de processos culturais.

Ou seja, a cultura não deve ser vista de forma “pessimista” como que se estivesse desaparecendo ou se extinguindo, mas de forma a se pensar que as possíveis transformações nesta são como aponta Sahlins (1997) uma forma autônoma das próprias sociedades.

Sahlins (1997) aponta o pensamento de Terence Turner que através de seu trabalho argumentou que uma cultura deve ser entendida essencialmente como um meio pelo qual um povo define e produz a si mesmo enquanto entidade social em relação a sua situação histórica em constante transformação. Turner argumentou a capacidade de ação histórica dos povos indígenas frente ao sistema capitalista e se opõe a visão de que esses seriam meros objetos de dominação ocidental sem subjetividade. (SAHLINS, 1997, p. 122- 123).

Pensar em cultura remete também a refletir que as transformações, por exemplo, na pesca devem ser entendidas não como uma extinção da cultura tradicional dos pescadores de Amparo, mas devem ser pensadas enquanto uma cultura autônoma e mutável que envolve o tradicional e o moderno.

Em Amparo a pesca pode ser entendida como uma prática em que os conhecimentos tradicionais envolvem também um diálogo entre a cultura material e imaterial. As noções de cultura material e imaterial são entendidas como definições complexas. Como aponta Pesez (1998) a definição da cultura material pode ter um significado polissêmico. Sem querer propor uma definição homogênea, a cultura material pode ser observada como uma relação entre as injunções materiais do homem e as quais o homem opõe uma resposta que é precisamente a cultura. A cultura material de acordo com Pesez (1998) faz parte das infra-estruturas, mas não as recobre, ela só se exprime no concreto, nos e pelos objetos, sendo nessa perspectiva o homem também é compreendido como um objeto material. Cultura imaterial estaria delimitada ao mundo das abstrações, ou seja, o imaterial se expressaria em crenças, danças entre outros.

Convém ressaltar que para além da observação descrita, neste trabalho se compreende que cultura material e imaterial não são elementos dissociados, elas dialogam entre si e podem se manifestar de forma indissociável, na pratica da pesca em Amparo. Por exemplo, na comunidade estudada uma rede de pesca feita artesanalmente, além de sua materialidade representada concretamente, também tem em si imaterialidade na qual se encontram os conhecimentos, técnicas e representações possíveis para a sua fabricação que decorrem de uma tradição.

Compreende-se tradição enquanto uma prática que envolve elementos tradicionais e modernos. De acordo com Diegues (2005) tradição pode ser entendida como um conjunto de valores, visões de mundo, relações sociais marcadas pela reciprocidade, que é herdada por antepassados. Esta tradição é mutável é um processo pelo qual elementos da cultura chamada moderna são constantemente reinterpretados. (DIEGUES, 2005, p. 275). Essa tradição mutável pode ser observada na prática da pesca, tendo como exemplo uma embarcação artesanal. Na comunidade de Amparo podem ser observadas embarcações que feitas de forma artesanal após seu término são acrescentadas a essas os motores. Observa-se a partir dessa a cultura da comunidade enquanto uma prática que envolve elementos modernos e tradicionais, não indicando uma extinção do tradicional, mas demonstrando que a cultura é um elemento que está constantemente dialogando com o contemporâneo e que dessa forma é mutável.

Nessa perspectiva, procura-se pesquisar a pesca artesanal não somente como uma atividade econômica, mas também, como uma atividade que faz parte do cotidiano dos moradores de Amparo. Nela pode ser percebido um diálogo em que vida e trabalho estão entrelaçados.

Pode-se fazer uma analogia dessa perspectiva com a Introdução da obra “Costumes em comum” de Thompson (1998), na qual o autor analisa o costume dentro da cultura popular tradicional dentre os séculos XVIII e início do XIX. No século XVIII de acordo com Thompson (1998) o costume constituía uma forma pela qual se legitimava todo o uso ou prática reclamada, esse era um campo de mudança, no qual havia uma constante troca entre o escrito e o oral, a metrópole e a aldeia. No século XVIII, nas sociedades rurais, como exemplo o aprendizado, se dava com a iniciação em habilitações de adultos e não se restringia a manufatura, mas também servia para a transmissão de geração para geração. A criança fazia seu aprendizado junto aos familiares e junto a esse aprendizado se fazia também a transmissão das técnicas particulares, como experiências sociais e sabedoria coletiva. (THOMPSON, 1998, p.17-18).

O costume implicava ao mesmo tempo um diálogo entre a vida, que se expressava nas relações sociais coletivas e também com o trabalho. O costume era um termo para definir o que atualmente se implica no termo cultura. Lembrando que cultura7 é um termo que ao envolver tantos significados como exemplo: ritos, tradição e simbologia, pode na verdade mistificar distinções que precisam ser feitas. Ou seja, pensar em cultura remete a desconstruir seu emaranhado de significados e analisar seus componentes de cada vez. (THOMPSON, 1998, p. 22). Nessa formulação percebe-se o costume enquanto uma pratica simbólica e material, ou seja, ligada a realidade em que surge, e não de forma distinta.

Considerações Finais
Como foi discutido ao longo do texto se a proposta é a de compreender a pesca artesanal enquanto uma prática que está ligada a vida e ao trabalho da comunidade de Amparo, isso implica pensar que está é uma prática em constante mudança em constantes trocas entre o tradicional e o moderno, entre o rural e o urbano, entre o simbólico e o material. Essa análise vai além da discussão em torno do conceito de cultura e da descrição densa da pesca, mas também dos elementos materiais dessa tal como o contexto ao qual está inserida. Dessa forma vida e trabalho podem ser visto como indissociáveis. Tais elementos percebidos em diálogos demonstram uma proposta na qual se procura compreender que a pesca não se limita somente enquanto um trabalho ou somente uma atividade econômica, mas também como uma prática ligada a cultura material e imaterial da comunidade.

Referências Bibliográficas
ANDRIGUETTO, F. M. J Sistemas Técnicos de Pesca e suas Dinâmicas de Transformação no Litoral do Paraná. 1999. 256 f. (Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba. 1999).

ALBERTI, V. Manual de História Oral, Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.

Dois mortos em explosão de navio em Paranaguá. Folha do Litoral, Paranaguá, 17 de nov. de 2004. Ano 3, nº 1325.

CUNHA, O. H. L. Significado Múltiplo das Águas. In: DIEGUES, C. A.(org) A Imagem das Águas. São Paulo: Hucitec, Nupaub/ USP, 2000.

DIEGUES, C. A. Esboço de História Ecológica e Social Caiçara, in: Enciclopédia Caiçara, v.4: História e memória Caiçara/ Antonio Carlos Diegues – São Paulo: Hucitec Nupaub, 2005.

FERNANDES, L. J. O Interêsse na Investigação Linguística nos Estudos do Mar. "Terceiro Congresso Brasileiro de Folclore" realizado em julho de 1957. Salvador 1957. Disponível em: Acesso em: 21 de jul de 2010.

GEERTZ, C. A Interpretação das culturas. Rio de Janeiro. 6. Ed. Guanabara. 1989.

KRAEMER, M. C. Malhas da pobreza: Exploração do trabalho de pescadores artesanais na Baía de Paranaguá. Estante Paranista 22, Curitiba. 1983.




NETO, F. E. História e Etnia. In: CARDOSO, F. C.; VAINFAS, R. Domínios da História: Ensaios de Teoria e Metodologia. Rio de Janeiro, 3. Ed. Campus, 1997. pp. 313-338.



PESEZ, J. M. História da Cultura Material. IN: LE GOFF, J; CHARTIER, R; REVEL, ‘J. A História Nova. São Paulo: Martins Fontes. 1998.


SAHLINS, M. O “Pessimismo Sentimental” e a Experiência Etnográfica: Por que a Cultura Não é um “Objeto” em Vias de Extinção. Parte II. Mana v.3, n.1, p.73-105, 1997.

SILVA, G. L. Caiçaras e Jangadeiros: Culturas Marítimas e Modernização no Brasil (1920-1980). In: Série Documentos e Relatórios de Pesquisa, nº 1. São Paulo. 2004. Disponível em: http://www.usp.br/nupaub/. Acesso em: 27 fev/ 2011.

THOMPSON, P. A Voz do Passado. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1992.



THOMPSON, P. E. Costumes em Comum. São Paulo. Companhia das Letras, 1998.

Notas de fim
1.Trabalho orientado pelo Prof. Dr. Marcos Gonçalves do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá.

2 Como nota de esclarecimento, se ressalta que esta pesquisa não apresenta os dados das entrevistas temáticas e de história de vida comentadas no método, pois a presente pesquisa ainda se encontra em seu desenvolvimento . As entrevistas ainda estão sendo aplicadas com a comunidade. Deste modo o trabalho irá deter-se nas questões teórico-metodológicas que norteiam a pesquisa. Tais questões foram elaboradas de forma que dialogassem com as concepções da comunidade.
3 Deve-se ressaltar também que até as décadas de 1960 e 70, os antropólogos evolucionistas perderam terreno para seus colegas de outras correntes, como exemplo a funcionalista, a culturalista e, mais recentemente, a marxista (SILVA, 2004, p.7).
4 Isso pode ser observado no trabalho “O Interêsse da investigação Linguística nos Domínios do Folclore do Mar” de Fernandes (1957) na qual o autor pesquisou expressões locais utilizadas por pescadores litorâneos de palavras próprias à atividade artesanal. Dentre as expressões citadas pelo autor estão: “águas de leste- mar grosso”, “águas do sul- mar manso” e “com o mar não se brinca”.
5 Utilizarei de exemplo, a referência de uma experiência própria no projeto ”Etno-foto-Caiçara” ao qual na visita a ilha de Piaçaguera em Paranaguá em abril de 2011. Como trabalho de descrição etnográfica tive a oportunidade de conversar, com o Senhor Josias do Rosário, que era pescador e que atualmente trabalha na cidade de Paranaguá. Num diálogo sobre o que significa o mar ou a maré, o Sr. Josias respondeu, “o mar significa tudo”, relatando que além de sustento o mar representa a vida do pescador, o contato com a natureza, “O mar faz parte da minha vida”.
6 Esclarece-se aqui que a escolha teórica em relação ao objeto de estudo é mais compatível com a perspectiva de Geertz (1989).
7 Importante ressaltar que a definição de cultura é aqui utilizada para exemplificar a argumentação de Thompson (1998) referente a idéia de desfragmentar conceitos que geralmente em sua significância trazem em si um emaranhado de noções. Essa argumentação serve para situar a colocação de que a pesca na comunidade de Amparo pode ser compreendida ou vista como uma atividade em que vida e trabalho estão entrelaçados e que se

expressa como algo que permeia o simbólico e o material.
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