Vida em Vida Chico Xavier Espíritos Diversos



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Vida em Vida

Chico Xavier

Espíritos Diversos

Índice
Ante Jesus ..................................................................................................... 03

Ante o Berço Torturado ................................................................................ 04

Cada Qual Corre Mais .................................................................................. 05

Carta a um Amigo na Terra .......................................................................... 06

Cegueira ........................................................................................................ 07

Começar Outra Vez ...................................................................................... 08

Contato Social .............................................................................................. 10

Desigualdade ................................................................................................ 12

Diálogo no Lar ............................................................................................. 13

Divina Conduta ............................................................................................ 14

Dor Bendita .................................................................................................. 17

Em Tempos de Hoje ..................................................................................... 18

Encontro Inesquecível .................................................................................. 21

Estudando a Infância .................................................................................... 24

Inferno Antes ................................................................................................ 25

Jornadas do Tempo ....................................................................................... 26

Louca ............................................................................................................ 28

Mendigo ....................................................................................................... 29

Mulheres Nossas Mães ................................................................................. 30

Na Terra ........................................................................................................ 33

No Limiar de Novo Berço ............................................................................ 34

Pedras ............................................................................................................ 35

Prisão sem Grades ......................................................................................... 36

Prova e Libertação ........................................................................................ 37

Purgatório ..................................................................................................... 38

Resgate e Amor ............................................................................................ 39

Retorno de Paz .............................................................................................. 40

Revisão .......................................................................................................... 41

Semente e Fruta ............................................................................................. 42

Tempo de Mães ............................................................................................. 43

Teus Filhos .................................................................................................... 45

Trabalho e Tempo ......................................................................................... 46

Ante Jesus



Jésus Gonçalves
I

Inda vejo, Senhor, de alma oprimida,

A Trácia devastada, a ânsia de Atenas,

Constantinopla em lágrimas e penas

E Roma flagelada e envilecida...
Vejo a conquistadora e horrenda lida,

O gozo, o saque e a morte, em velhas cenas,

E o fausto senhoril que trouxe apenas

Desilusão e horror, à nossa vida.


E ouço-Te a voz, Jesus, dizendo – Basta!

De um rei fizeste um verme que se arrasta

E abriste-me o caminho da aflição!...
Anjos correram como sombras vagas,

Mas, depois de vertir-me em lepra e chagas,

Achei-Te, Excelso, no meu coração!
II
Hoje, Senhor, não peço o vão tributo

Das multidões famélicas, vencidas,

Que humilhei, no transcurso de outras vidas,

Semeando miséria, pranto e luto...


Das rosas que me deste por feridas

Recolhi muita graça e muito fruto.

Passageiras vitórias não disputo,

Nem procuro vanglórias esquecidas.


Perdoa-me, Senhor, se agora venho,

Recordando-Te as úlceras no Lenho,

Rogar-Te algo das bênçãos que entesouras!
E que eu possa, feliz com o dom divino,

Socorrer os irmãos do meu destino

No turbilhão das chagas redentoras!

Ante o Berço Torturado



Emmanuel
À frente da criança torturada no berço, unge-te de paciência e ternura para a tarefa que o Céu te confia.

Nesse corpo enfermiço e mirrado em que sobram vagidos de sofrimento, manifesta-se alguém que o destino te devolve ao trabalho de reajuste.

Será possivelmente o filho ou o irmão, o companheiro ou o amigo do passado, com que te acumpliciaste no desvio das Leis Excelsas.

Antes de rogarem asilo em teus braços, terão padecido, além, aflições atrozes e, trazidos ao teu convívio, estarão provisoriamente internados no templo de teu amor, aguardando-te o concurso preciso.

Ontem experimentavam na Esfera Espiritual os resultados da delinqüência na luta humana...

O horror do suicídio deliberado...

O remorso do crime oculto...

Os frutos da crueldade...

Reintegrados no campo do espírito, guardavam na própria almas os tristes remanescentes da conduta ominosa.

Hoje, tornam à experiência do mundo, e rogam-te apoio e bondade, auxílio e consolação.

Aqui, exibem o câncer e a cegueira, ali mostram mutilações, acolá, revelam a loucura precoce, além acusam a paralisia infantil, mais adiante, oferecem o doloroso espetáculo de flores, cobertas de chagas, que o infortúnio teria envenenado na hora do alvorecer.

Mas, em todo quadro de dor, vige a Infinita Misericórdia que nos permite a concessão do recomeço com os recursos infelizes por nós mesmos acumulados, para que se nos recupere o entendimento diante da Eterna Vida.

*

Guarda o teu anjo enfermo com desvelada solicitude e ajuda-o com o orvalho de teu carinho e com a bênção de tua prece, na travessia da grande sombra para o retorno à Divina Luz.



Cada Qual Corre Mais

Cornélio Pires
Era Nhá Nica, a esposa de Nho Tato,

Muito feliz na Roça do Fundão,

Mas dizia ao marido: “Filho, não!!...

Que não quero feiúra em meu retrato”.


Teimosa, ela bebia chá do mato

E tanto fez aborto sem razão,

Que, um dia, enfraqueceu, de supetão,

E morreu num cubículo sem trato.


Noutra vida, Nhá Nica chora em luta...

E’ só grito e gemido que ela escuta...

Cansada de sofrer, quer novos pais.
A pobre pede corpo a toda gente,

Mas onde vai faz frio de repente

E quem sente esse frio corre mais...

Carta a um Amigo na Terra



André Luiz
Caro companheiro.

Você quer saber algo de sua verdadeira situação na Terra.

Compreendo.

Quando a pessoa entra nessa grande colônia de tratamento e cura, é convenientemente tratada.

A memória deve funcionar na dose justa.

É natural.

A permanência aí poderá ser longa e, por isso mesmo, certas medidas se recomendam em favor dos beneficiários.

Atende às instruções do internato e não se preocupe, em demasia, com os problemas que não lhe digam respeito.

Não se prenda aos seus apetrechos de uso e nem acumule utilidades que deixará inevitavelmente, quando as autoridades observarem você no ponto de retorno.

Se algum colega de vivência estima criar casos, esqueça isso. Não vale a pena incomodar-se .

Ninguém ou quase ninguém passa por aí sem dificuldades por superar.

Viva alegre, com a sua consciência tranquila.

Em se achando numa estância de refazimento, é aconselhável manter-se fiel à tarefa que a administração lhe confie.

Procure ser útil, deixando o seu lugar tão melhorado quanto possível, para alguém que aí chegue depois.

Quanto ao mais, considere você e os demais companheiros de convivência e necessidade simplesmente acampados, unidos numa instituição de tratamento oportuno e feliz.

Aí você consegue dormir mais tempo, distrair-se na sua faixa temporária de esquecimento terapêutico, deliciar-se com excelente alimentação, compartilhar de vários jogos e ensaiar muita atividade nobre para o futuro.

Aproveite.

O ensejo é dos melhores.

Descanse e reajuste as próprias forças porque o trabalho pra você só será serviço mesmo, quando você deixar o seu uniforme do instituto no vestiário da morte e puder regressar.

Cegueira


Epiphanio Leite
Reconhece-te, irmã... Retornas de outras eras...

Soberana feudal, o busto nobre empinas...

A teu mando cruel, as hordas assassinas

Espalham fogo e lama... E, sorridente, esperas.


Guardas em pranto e sombra o povo que dominas...

Encantas e destróis... Amas e vituperas...

Um dia, a morte chega e, erguendo as mãos austeras,

Deita-te o corpo inerte ao pé das casuarinas...


Depois de tanto tempo, achei-te reencarnada,

És hoje triste cega aos arrancos na estrada,

Somando as provações, no intuito de entendê-las...
Mas louva, nobre dama, a treva que te espia,

Pela dor da cegueira, alcançarás, um dia,

O teu reino de amor, resplendendo as estrelas.
(Versos à soberana feudal que conheci há seis séculos, em pleno fastígio do poder humano mal aplicado, e que reencontrei agora, na provação da cegueira física, procurando nos estudos reencarnacionistas a chave de solução aos problemas que lhe afligem a redentora existência).

Começar Outra Vez



Maria Dolores
Alma querida, escuta!... Entre os lances do mundo,

Se escorregaste à beira do caminho

E caíste, talvez, em pleno desalinho,

Na sombra que te faz descrer ou desvairar,

Ante a dor de visita, a renovar-te anseios,

Não desprezes pensar! ... Levante-te e confia,

Porque a vida te pede, abrindo-te outro dia:

- Começar outra vez, trabalhar, trabalhar!...


Ergue-te regressando à estrada justa,

Contempla a terra amiga em derredor,

Vê-la-ás, pormenor em pormenor,

Por mãe que sofra e sangra, a recriar...

Medita na semente à sós, que o lavrador sepulta...

Quando alguém a supõe, humilhada e indefesa,

Ressurge em brilho verde, ouvindo a Natureza:

- Começar outra vez, trabalhar, trabalhar!...


Fita o perfurador rasgando as entranhas da gleba;

O homem que o maneja, a golpes persistentes,

Pesquisa, sem cessar, todos os continentes,

Do deserto escaldante aos recessos do mar...

E eis que a lama oleosa, esquecida há milênios,

Trazida à flor do chão, é ouro e combustível,

Que o progresso conclama em ordem de alto nível:

- Começar outra vez, trabalhar, trabalhar!...


Toda força lançada em desvalia

Quando erguida, de novo, em apoio de alguém,

Retoma posição no serviço do bem,

Utilidade viva a circular...

Olha a pedra moída, em função do cimento

E o barro que assegura a gestação do trigo,

Falando a todos nós, em tom seguro e amigo:

- Começar outra vez, trabalhar, trabalhar!...


Assim também, alma fraterna e boa,

Se caíste em momentos infelizes,

Não te abatas, nem te marginalizes,

Levanta-te e retoma o teu próprio lugar!...

Aceita os grilhões das provas necessárias,

Esquece, age, abençoa, adianta-te e lida,

E escutarás a voz da Lei de Deus na vida:

- Começar outra vez, trabalhar, trabalhar!...

Contato Social

Emmanuel
Não menosprezes o quadro de luta em que nasceste.
A sociedade humana é o filtro renovador do espírito que surge e ressurge na carne a fim de purificar-se e evoluir para a luz.
Seja onde for o ponto de ação em que te situas, deixa que o grande entendimento te inspire o caminho para que a bondade te sustente o roteiro.
Não te consagres à reprovação diante das faltas alheias, nem cultives o azedume à frente do mal.
Recorda que a Justiça Divina preside todas as ocorrências, operando as necessárias transposições no curso das horas, a fim de que todas as criaturas se ajustem ao destino que o mundo lhes assinala.
Os que hoje escapam deliberadamente ao dever de ajudar, voltarão amanhã com os tristes remanescentes da própria fuga para que lhes recapitulem os lances do aprendizado.
Não necessitas acusar o delinqüente que te aflige a visão, porque o tempo gravará nele mesmo os dolorosos sinais da loucura a que se confia e nem te cabe criticar os afortunados que tripudiam, insensatos, no sofrimento dos infelizes, porquanto, mais tarde, envergarão a estamenha da angústia, restaurando a tranqüilidade do próprio ser.
Lembra-te de que os revoltados regressarão ao palco da Terra, em dolorosas inibições para que aprendam a buscar o prazer de servir, e não olvides que a inteligência ingrata e escarnecedora retomará um corpo enfermiço em que a idiotia ser-lhe-á inquietante cadeia de temporária derrota.
Guarda a certeza de que o Senhor nos concede o contato social por lição sublime na escola da experiência.
Os ignorantes e os sábios, os melhores e os menos bons, os superiores e os subalternos, os familiares e os companheiros, as simpatias e os desafetos são recursos educativos, com que a infinita Bondade nos aprimora.
Arma-te de paciência e de amor e compadece-te de todos, auxiliando sem distinção.
Não violentes.

Não firas.

Não condenes.

Não amaldiçoes.


Cada qual de nós é peça importante na engrenagem da vida e o trabalho essencial que nos cabe fazer é justamente o do nosso próprio burilamento, de vez que, retificando em nós aquilo que nos aborrece nos outros, estaremos aperfeiçoando em nós mesmos os valores imperecíveis da evolução.

Desigualdade



Emmanuel
Estudando o problema da desigualdade no campo da vida humana, mentalizemos grande oficina destinada à produção de reconforto e progresso.
Todos os servidores são aí admitidos em bases iguais, no capítulo do direito.
Todavia, no recinto consagrado às obrigações que o regulamento lhes traça, entrega-se cada grupo a diverso procedimento.
Aqui vemos aqueles que, ao invés de utilizarem o instrumento que a administração lhes confia, dele retiram peças valiosas com que se desmandam na prática da desesperação e da delinqüência.
Além, encontramos trabalhadores desatinados que maldizem os tesouros do tempo, espalhando o pessimismo e a ociosidade, gerando indisciplina e perturbação.
Surpreendemos os que dilapidam os patrimônios da casa que lhes cabe prestigiar e defender, tanto quanto os que solapam os interesses morais do templo de trabalho que os recebeu para a extensão de valores e benefícios.
Decerto que a esses apenas adjudicar-se-á os vexames da dívida a que se empenham, de vez que a desigualdade infeliz com que assinalam a própria ficha não procede senão deles mesmos, nas lamentáveis diretrizes que adotam nas linhas da experiência.
Temos no estudo simples a imagem da própria Terra.
Cada espírito recolhe na Providência Divina o empréstimo do corpo e as possibilidades que lhe enriquecem o campo de luta para a edificação do progresso no santuário do bem, entretanto, se não atende as obrigações que a vida lhe preceitua, na esfera da ação correta perante as Divinas Leis, retardar-se-á no caminho, para corrigir impropriedades e desacertos ou reajustar atitudes e empreendimentos, através de reencarnações laboriosas e torturadas. Isso ocorre porque sendo o amor a essência da vida, a justiça é o instrumento que o veicula, consoante a Eterna Sabedoria que nos confere alegria ou dor, enfermidade ou saúde, queda ou ascensão, luz ou treva, segundo os resultados de nossas próprias obras.

Diálogo no Lar



Emmanuel
Destaca-se na atualidade terrestre a convivência por instrumento de harmonia nas relações humanas.
Entendimento de nação a nação, de grupo a grupo.
Raros companheiros, porém, reconhecem por enquanto a legitimidade da indicação para a segurança doméstica.
Temos no mundo a escola em que se verifica a administração do ensino, entre professores e alunos; o foro para a troca de alvitres, entre magistrados e os que recorrem à justiça; o consultório para o intercâmbio de informações entre o médico e o doente; o mercado destinado aos ajustes recíprocos, nos domínios da oferta e da procura.
Porque não manter no lar o ponto de encontro dos corações que compõem a equipe familiar?
Observa a importância da palavra compreensiva e oportuna, quando funciona em teu benefício, na solução dos empeços da vida, e não sonegues em caso o pagamento do imposto verbal do amor que todos devemos uns aos outros, no instituo da evolução.
Não importa a idade física de teus filhos ou tutelados.
Ausculta-lhes as tendências e aspirações, oferecendo-lhes na frase amiga a luz de tuas próprias experiências, de modo a auxiliá-los, tanto quanto possível, a sentir raciocinando e a discernir o rumo exato que se lhe descerre à frente, nas sendas que lhes caiba trilhar.
Não importa que teus pais ou orientadores, em família, se mostrem nessa ou naquela posição diferente, no calendário que rege a existência corpórea.
Anota-lhes os pontos de vista e dá-lhes no veículo do carinho e do respeito quanto sabes e apenas de melhor, relativamente aos problemas da vida, para que semelhantes valores se lhes incorporem ao patrimônio espiritual.
Todavia, não deixes o diálogo amigo tão-somente para os dias de aflição, quando a crise haja surgido, estabelecendo desastre e sofrimento nos trilhos da experiência doméstica. Mantém o hábito de conversar freqüentemente com os seres amados, praticando a caridade da cortesia e da tolerância, e reconhecerás sem dificuldade que, muitas vezes, alguns simples minutos de diálogo afetuoso, na paz do cotidiano, conseguem realizar verdadeiros prodígios de tranqüilidade e segurança, francamente inabordáveis por longos e longos meses de azedume ou de discussão.

Divina Conduta



Maria Dolores
Esta singela narrativa

Ouvi de amado amigo – um gênio dentre os gênios –

História que ele arquiva

Em seus registros de milênios.


Um Espírito que, em si, já conquistara

Inteligência primorosa e rara

Manifestou anseio superior:

Desejou trabalhar junto ao Senhor,

Amá-lo, vê-lo e fruir-lhe a presença...

Para isso pediu aos Ministros da Lei

Que se lhe concedesse uma vida de rei.

Recebida a licença,

Fez-se na Terra um nobre soberano,

Foi grande, poderoso, justo e humano,

Mas, adstrito à própria posição,

Viveu atento à representação

Do povo que escolhera governar.

De volta ao Grande Lar,

Assim que o Mais Além se lhe descerra,

Subiu a conviver com benfeitores

Que haviam sido príncipes na Terra...
Mas, logo após, rogou aos Divinos Mentores

A graça de ser santo...

Tornou ao mundo transformado

Em famoso varão

Que só pensava em perfeição

Viveu de isolamento, entre prece e o jejum,

Sem se doar a mal nenhum;

No entanto, circunscrito

Às tradições da crença em que vivia,

Abandonando o corpo teve a companhia

De ilustrados teólogos do Além,

Mensageiros da Paz e Expoentes do Bem.


Decorrido algum tempo, ele quis ser um artista.

Voltou a Terra músico e pintor;

Foi um gênio a compor e recompor

Imagens de harmonia e poemas em cor.

Regressando ao Além, depois de longos dias,

A transportar consigo láureas resplendentes

Passou a respirar

No clima cultural de artistas eminentes.


Depois disso, por décadas afora,

De vida em vida, em largo itinerário,

Eis que a sede de Cristo mais se lhe aprimora...

Foi Escritor, Juiz, Cientista e Operário.


Mas um dia chegou em que ele disse:

- Senhor! Senhor! Tenho escolhido tanto,

Ignoro, porém, o que te agrade,

Dá-me agora, Jesus tua vontade,

Ensina-me o dever,

Para que eu seja o que preciso ser!...


Tempo vasto rolou nas vias do Infinito.

Quando voltou a renascer

Numa casa singela...

A vida lhe corria doce e bela

Quando os pais retornaram para o Além...

Os três irmãos do lar,

Consolidando a própria segurança,

Não se pejaram de o desvincular

Do direito de herança...

Ele não destacou qualquer reclamação,

Aprendera dos pais a ciência do bem.

Aceitou contas que jamais fizera

E compromissos que desconhecia,

Sem ferir ninguém.


Esqueceu todo o mal, buscando um novo dia,

Estudou, quanto pode, entre serviço e escola,

Fez-se negociante e depois lavrador,

Casou-se e converteu-se em pai guiado pelo amor,

Mas porque socorresse aos pobres e aos doentes,

A família insurgiu-se a golpes deprimentes...


A esposa sem razão

Permutou-lhe o carinho e a companhia

Por um homem tocado de ambição.

Ao vê-lo amargurado, em transes de agonia,

Os filhos declararam-no demente

E um processo instaurou-se de repente,

A julgá-lo incapaz de senso e direção.

Destituído e expulso do seu chão,

Não levantou a voz sequer

Para acusar os filhos e à mulher.

E prosseguiu servindo

Agia, sol a sol, por ínfimo ordenado,

Mas esparzindo sempre a riqueza do amor,

Onde surgisse algum necessitado.


Alcançou noventa anos de amargura

E nunca se queixou, nem se deu à secura...

Era sempre um amigo da alegria,

Criando paz e luz, bondade e simpatia.


Certa noite, sozinho,

O estimado velhinho.

Viu-se fora do corpo, ante a pressão da morte...

Procura na oração apoio que o conforte,

Mas isso um anjo posto à cabeceira,

Fala-lhe brandamente: - meu irmão,

Partamos para a vida verdadeira...

Ele escutou celeste cavatina

E, aflito, perguntou; que há que não entendo?

O Emissário aclarou: é a música divina,

Saudando um justo que acabou vencendo...

Entre assombro e receio, estranheza e torpor,

O pobre proferiu ansiosa indagação:

- Quem será esse justo, Deus de Amor?


O silêncio se fez qual se fosse de estalo.

Logo após, o velhinho, a chorar de emoção,

Viu que o próprio Jesus vinha buscá-lo...

Prosternado, gritou: Senhor, eu não mereço!...

Mas o Cristo avançou, estendo-lhe a mão...
Soluçando de amor e de alegria,

O pobre irradiou sublime claridade,

No entanto, nem notou que ele próprio trazia

No próprio coração, a estrela da humildade.


Dor Bendita

Epiphanio Leite
Lembro-te, velho amigo, a triste liderança...

Ajudas-te ao corcel... O corcel rincha e voa...

Ordenas atacar, a trombeta ressoa...

Levas contigo a morte e o sofrimento avança.


Aniquilas a vida, extingues a esperança...

Matas, feres, destróis, envileces à-toa...

Fazem-te chefe e rei, guardas cetro e coroa,

Mas, em plena vitória, o túmulo te alcança!...


Depois de tanto tempo, achei-te reencarnado;

Mendigo sem ninguém, redimes o passado...

Dói-me fitar-te a lepra em calvário imprevisto...
Entretanto, bendize a dor que te consterna,

Por ela, ascenderás à luz da vida eterna,

Para servir ao Bem, entre as hostes do Cristo!...
(Versos dedicados a um companheiro que conheci, há quatro séculos, na condição de guerreiro eminente e rei triunfante, amigo esse que teve a infelicidade de abusar do poder, na prática do mal, e que hoje reencontrei reencarnado, na posição de mendigo, entregue a dolorosas provações, na via pública).

Em Tempos de Hoje





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