Videira, Antonio Augusto Passos – uerj



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Videira, Antonio Augusto Passos – UERJ



É A BIOGRAFIA CIENTÍFICA UM INSTRUMENTO ÚTIL PARA A HISTÓRIA DA CIÊNCIA?

Hankins, autor de uma importante biografia sobre d’Alembert, afirma que a utilidade de uma biografia depende do uso que lhe é conferido. Dito isso, ele, em seguida, se coloca a seguinte questão: será que as biografias necessariamente devem ser compreendidas como histórias de homens individuais? A simples formulação dessa questão nos sugere que Hankins não é favorável a que se tome como obrigatória e inevitável a concepção de biografia como sendo um gênero heróico e acrítico. Apesar de toda a dificuldade em integrar a ciência ao restante da empreitada intelectual humana, Hankins acredita que é essa a tarefa que deve ser realizada ou, ao menos, tentada. Um dos sub-produtos possíveis dessa tentativa de integrar a ciência aos diversos tipos de realizações intelectuais perpetrados pelos seres humanos, é a necessidade de se abandonar a concepção de que a biografia tem mais relação com personalidades do que com eventos. Afinal, afirma Hankins, a função da história não é a de determinar prioridades. Pensar a história dessa maneira é acatar uma concepção antiquada de biografia científica, a qual, e como foi bem observado pelo historiador brasileiro Tarquínio de Souza, “não pode limitar-se a um meticuloso levantamento das ações e dos acontecimentos da vida de um homem….”.

Hankins acredita que a biografia científica, ou intelectual, pode ter um papel importante na rejeição da concepção da história como responsável pela determinação de prioridades e na integração da ciência ao universo intelectual do ser humano. Tal posição funda-se na idéia de as vidas dos indivíduos se prestam ao estabelecimento da união entre a ciência e o universo intelectual mais geral, além de contribuir para o abandono de generalidades e superficialidades históricas.

Ainda que a partir de uma perspectiva diferente da de Hankins, Wilhelm Dilthey também atribui à biografia uma importância que não é pequena. Para ele, e nos termos colocados por Francisco Falcon, a importância da biografia decorre do fato de que o curso da vida de um indivíduo insere-se dentro de um meio do qual ele recebe influências e sobre o qual ele reage. Em outros termos, a vida e a obra de personagens significativas estão fortemente inseridas no seu espaço-tempo concreto, ou real. O reconhecimento de que o estudo biográfico é inseparável do exame das circunstâncias nos leva a investigar, o melhor possível, a sociedade, a época, a cultura e o ambiente intelectual em que atuou e viveu o(a) biografado(a). Assim, uma das vantagens da biografia é que ela, quando inserida num contexto maior, nos permitiria uma maior capacidade de determinar os elementos integrantes desse mesmo contexto. A personalidade sobre quem vai se escrever uma biografia permite que se delineie com mais agudeza e precisão eventos e idéias que seus contemporâneos discutiram, aceitaram ou rejeitaram. Ou seja, o contexto perde algo daquela áurea de mistério e, principalmente, imprecisão que o cerca normalmente.

O historiador da ciência inglês Iwan Morus, ainda que sem o dizer explicitamente, defende a tese de que às concepções de biografia correspondem certas e específicas concepções de ciência e progresso científico. Assim, se as biografias científicas produzidas no século XIX são acríticas e heróicas, isso se deve a uma concepção de ciência encarada como sendo o resultado da aplicação correta do método científico, o que é levado a cabo por um indivíduo. Em outras palavras, o método científico é a própria ciência. Os bons cientistas seriam, portanto, aqueles indivíduos competentes o suficiente para aplicarem com correção o método científico. Compreender o progresso científico exigiria a recapitulação de como se desenvolveu a mente do indivíduo (cientista). Uma conseqüência dessa concepção é que as biografias científicas podem ser textos inspiradores na medida em que fornecem exemplos a serem copiados por todos aqueles que se desejam ser cientistas.

No entanto, adverte Morus, a concepção mais atual de história da ciência, usualmente conhecida como história social da ciência, afirma que a ciência é um processo social e público. Ela é o resultado de uma complexa negociação entre diferentes grupos de atores com amplos e diferentes objetivos e interesses. A ênfase na história social da ciência está localizada na interação social em contextos particulares e bem localizados. Tal como Hankins, Morus crê que a biografia científica pode ser útil na medida em que ela permite essa localização/determinação precisa num contexto mais amplo.

Mesmo que considere, como é o nosso caso, que a história social da ciência nos fornece uma concepção mais correta e interessante do que é a ciência, ela não implica necessariamente, o que ocorreria caso imperasse uma interpretação sua mais próxima do marxismo ou do estruturalismo francês, que alguns indivíduos não podem obter destaque em suas atuações. Em outros termos, compreender a ciência como sendo resultado de uma negociação social não tem como conseqüência obrigatória o desaparecimento das ações e decisões individuais. O que se tem que fazer, segundo a concepção da história social da ciência tal como a defendemos, é buscar um equilíbrio entre o social e o individual. Esse equilíbrio só será possível caso se reconheça que o indivíduo não é completamente determinado pelo meio no qual está inserido. O indivíduo pode, como acontece com freqüência, rejeitar esse meio ou, melhor dizendo, posicionar-se criticamente com relação a ele. Dependendo de como se dá esse posicionamento, o indivíduo pode se tornar interessante, relevante e elucidativo. Suas estratégias podem ser criativas o suficiente para apontar a existência de outros caminhos a serem trilhados pela ciência. A interação entre indivíduo e seu meio se dá, muitas vezes, de forma ativa e consciente.

Artistas e cientistas de todos os tipos são exemplos, claros o suficiente do que afirmamos acima. Compreendê-los, bem como suas obras, nos leva a tentar compreender seus percursos individuais, ou seja, a estudar suas biografias. Nas palavras de Paulo Rónai, ainda que escritas para os artistas, mas igualmente válidas para os cientistas:

A biografia de um artista esclarece diversos aspectos da criação artística, revela as fontes das idéias do artista, indica-lhe as aspirações, segue a cristalização de sua personalidade intelectual, assinala os impulsos que recebeu de sua época e os que a esta comunicou.”
Observemos que o final da citação de Rónai nos indica que o artista pode atuar sobre sua própria época e seu meio. Assim, se as biografias foram durante muito tempo, como ainda o são, ainda que essa tendência tenha deixado de ser a predominante, compreendidas como hagiografias, isso se explica não porque elas tenham que ser assim mas, sim, porque elas eram informadas por uma certa concepção de ciência e porque o uso que lhes era destinado era o de apagar os rastros de toda e qualquer negociação social. Não nos esqueçamos de que a ciência surge como uma força social indiscutível no século XIX. Foi nesse tempo que se cunhou a palavra cientista com a finalidade explícita de especificar um certo tipo de atuação profissional, diferente da do artesão, engenheiro e mesmo do filósofo natural, seu ancestral imediato. Pode-se, então, pensar hipoteticamente que a biografia produzida no século XIX tinha como um de seus principais objetivos ressaltar a novidade, a importância e a especificidade da atuação da ciência, tudo isso frente a outras forças sociais ainda influentes e importantes. Em outros termos, a produção de biografias com o objetivo de mostrar que a ciência dependia, para existir e ser o que era, da existência de gênios, deve ser compreendida como integrando, ela mesma, uma ‘rede’ de negociação em favor da promoção da ciência como um gênero de produção intelectual superiora a todas as outras. A ciência tinha que ser vitoriosa no combate que conduzia contra seus adversários e opositores. De forma breve, a biografia científica do século XIX era formulada de modo a cumprir os objetivos da própria ciência, que se estabelecia então como força intelectual e produtiva independente.

No contexto do século XIX, Morus observa que, mais freqüente do que se pode pensar, os indivíduos históricos não eram apenas escritores, economistas engenheiros e filósofos naturais. Muito ao contrário. Esses mesmos indivíduos desempenharam, simultaneamente ou não, muitas dessas funções. Ainda que Morus faça essa observação pensando unicamente na Grã-Bretanha da época vitoriana, seu campo de especialidade, ela ‘cai como uma luva’ no caso brasileiro, já que, também no século XIX, especialmente no segundo Império, nos deparamos com homens de ciência que também foram escritores, diplomatas, artistas e políticos.

A minha preocupação com a função e o valor das biografias científicas origina-se no meu trabalho em história da física no Brasil. Formei-me, em sentido latu, em história da ciência, ‘ouvindo’ que as biografias científicas não constituem um gênero suficientemente sério, pois elas são, com freqüência, um idealização dos biografados, já que transmitem uma imagem que não ‘corresponderia à realidade’. Assim, toda e qualquer biografia teria que mostrar, no sentido de provar, que seu biografado foi um gênio, situando-se acima de seus contemporâneos e de seu próprio tempo. No entanto, as minhas investigações sobre o desenvolvimento da física no Brasil durante as décadas de 1930 e 1940, e posteriormente sobre a astronomia na segunda metade do século XIX, levaram-me a considerar que esse mesmo desenvolvimento não seria compreensível caso os cientistas daqueles tempos não fossem vistos de uma outra maneira. Os cientistas que atuaram no Brasil daquela época podem, dificilmente, ser considerados como gênios. Suas produções científicas são interessantes e importantes, já que deram resultados científicos merecedores de serem publicados em revistas internacionais e citados por outros cientistas estrangeiros, mas não produziram ‘revoluções científicas’ ou solucionaram quebra-cabeças.

Além disso, e como parece ser o caso ainda hoje, fazer ciência num país como o nosso, sem ‘muita’ tradição científica, ao menos quando esta é avaliada à luz daquela existente em países considerados mais desenvolvidos, implicou necessariamente em construir simultaneamente as bases, ou condições, para que a ciência fosse possível. Até o início do 1º Governo de Getúlio Vargas, o estado brasileiro mostrou-se pouco, ou mesmo nada, preocupado em incentivar o desenvolvimento da ciência, em particular, da chamada ciência pura. Foram os cientistas que, individualmente ou reunidos em agremiações por eles mesmos criadas e organizadas, defenderam a necessidade de se criar o conjunto de estruturas necessário para a prática da ciência.

Por outro lado, quando essas estruturas foram criadas, isto é, passaram a existir, elas nem sempre mostraram-se em condições de fornecer a base necessária para a prática científica, o que fez com que os cientistas continuassem a ser os responsáveis pela existência da ciência, na medida em que se dedicavam a ela com abnegação e em detrimento de suas próprias vidas pessoais. Para que isso fosse possível, esses mesmos cientistas buscaram construir as alianças com outros grupos, constituídos de políticos, jornalistas, militares e industriais, capazes de fornecer ajuda relevante para a construção de tal base. Em outras palavras, as alianças e táticas responsáveis pela efetivação da ciência entre nós foram, muitas vezes, elaboradas e postas em prática pelos cientistas.

Quais são, então, os critérios que devem ser usados para que se defina o que é uma boa biografia científica? Parece-me que já podemos afirmar sem causar polêmica que uma boa biografia científica não deve ser hagiográfica ou apologética. A ciência, e para que isso fique devidamente estabelecido basta que prestemos atenção à nossa própria história, não é feita apenas por gênios. Não devemos nos preocupar se os ‘nossos’ cientistas foram suficientemente competentes para dar ‘fantásticas’ contribuições para a ciência ‘universal’.

Uma segunda característica é que os ‘nossos’ cientistas eram, como ainda o são, muito conscientes do meio no qual se inserem, o que nos obriga, a nós historiadores da ciência, a estudar esse meio, ou ambiente. Para que possamos compreender quem foram, ou são, os ‘nossos’ cientistas, temos que compreender esse meio. Uma terceira característica concerne mais especificamente à noção de ciência que subjaz à elaboração e redação da biografia científica. Não se deve pensar que a ciência tem como objetivo a produção apenas de teorias ou de descobertas capazes de produzir revoluções científicas.

Agora, se os critérios usados como guia para a elaboração de uma biografia científica devem ser mais amplos do que aqueles que encontramos nas biografias hagiográficas, os objetivos parecem ser fundamentalmente os mesmos. As perguntas que devem ser respondidas são, basicamente, as mesmas, a saber: a) quem foi o biografado?, b) o que ele produziu?, c) quais foram seus objetivos e intenções?, d) quais foram as táticas que ele(a) usou para alcançar seus objetivos (que alianças construiu?) e e) como o seu meio e sua época receberam seus resultados?. É evidente que essas questões não esgotam tudo aquilo que deve ser respondido pelo biógrafo. Elas apenas exemplificam como ele trabalha.

Em suma, o que deve mudar é a postura, ou atitude, do biógrafo, empregada para a elaboração de sua biografia. O que se deve evitar é fazer com que o cientista se transforme num santo, num homem acima de seu tempo e de seus contemporâneos.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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