Viii encontro regional de história



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VIII ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA


Comunicação:
O TEMPO DO MERCADOR*

Junia Ferreira Furtado**


A partir do século XVI, quando as rotas transoceânicas trouxeram uma nova dimensão espacial e temporal para a Europa Ocidental, os comerciantes consolidaram seu papel de arautos de uma nova ordem – o capitalismo. O mundo marcado pela tradição, pela hierarquia, pela honra e demais valores herdados da nobreza e dos ideais da cavalaria, eram pouco a pouco substituídos por outros regidos pela mudança, pela competição, pela dissolução dos laços de solidariedade e clientela. Porém, essa transição não se fazia de forma linear ou inexorável. Os comerciantes, como os outros homens de seu tempo, traziam em seu espíritos a contradições e paradoxos decorrentes de um tempo dedicado a Deus e um outro que se impunha, o tempo dos mercadores, voltado para os negócios e as atividades comerciais.

Até a Idade Média, a vida era ordenada a partir da fé e da religião. Da mesma forma, o cotidiano estava marcado pelo espírito religioso. Havia apenas o dia e a noite, a alternância das estações, que se refletiam na faina da agricultura. Era um tempo consagrado às orações, à benção e ao temor a Deus, começo e fim de tudo, presente em cada uma das ações do dia-a-dia.

Para Le Goff, a partir da Idade Moderna, época desta correspon­dência, começou a haver “o conflito entre o tempo da Igreja e o tempo dos mercadores”1. Este trabalho estudou a correspondência trocada entre Francisco Pinheiro, grande homem de negócio português, e seus agentes comerciais nas Minas, entre 1712 e 1744, que se encontra depositada no Arquivo do Hospital de São José, antigo Hospital Real de Todos os Santos de Lisboa, e publicada no Brasil pelo Ministério da Fazenda. Essas cartas permitiram conhecer um pouco do que os comerciantes, estabelecidos nas Minas no século XVIII, viveram e presenciaram descortinando-se, desta forma, a sua visão de mundo2. Francisco Pinheiro e seus agentes, como homens de seu tempo, revelavam esta ambivalência de sua época. Católicos praticantes, devotos e temerosos de Deus, demonstravam em sua correspondência que tudo “começa com Deus e é dominado por Ele”3: a chegada de uma nau em segurança no porto, a descoberta de ouro ou pedras preciosas, a saúde, a riqueza, a manutenção da vida longe dos perigos, etc.; tudo era obra da graça divina. Um desses agentes, Francisco da Cruz escreveu que “as coisas não se movem sem a vontade de Deus”4. João Pinheiro Netto, sobrinho de Francisco Pinheiro e seu agente em Minas, estimou a seu tio, que lograsse “perfeita saúde (...) para que se sirvam da que Deus me concede”5. Ou ao contrário, estava sob o desígnio de sua ira, ou do diabo, o que explicava os diversos infortúnios. Cristoval Fernandes da Silva, como a maioria de outros comerciantes mineiros do século XVIII que deixaram seus testamentos, resolveu registrar seu legado por se encontrar “doente em uma cama, de doença que o mesmo Senhor foi servido dar-me”6.

A Deus cabia manipular o destino dos homens e, ao final, reali­zar o acerto das contas daquilo que se tinha feito em vida. Na Terra nada se fazia impunemente, na medida que a vida transcorria, todos se colocavam na posição de credores ou devedores de Deus. O mesmo João Pinheiro Netto, na impossibi­lidade de pagar, em espécie, os favores feitos a ele por Francisco Pinheiro, esperava que “Nosso Senhor lhe há de pagar estas obras de misericórdia que fez a minha mercê”, permitindo inclusive que usufruísse por muitos anos do hábito de Cristo que acabara de receber7.

O tempo de Deus era o tempo da eternidade e transcendia em muito a vida terrena e a dominava. Francisco da Cruz considerava que todos os infortúnios vividos nas Minas eram em adiantamento aos pecados cometidos. Já Francisco Pinheiro exortava seu sobrinho a honrar os compromissos financeiros, porque do contrário, “há de ter um grande castigo de Deus”8. Um aspecto estilístico revelava que o substrato religioso permanecia na mente desses homens e regia suas ações. Todas as cartas utilizavam a fórmula literária clássica da época: “Deus guarde a VM muitos anos, como desejo e muito hei de ter”9; “peço a Deus pelo aumento da sua vida nas minhas orações, invoco que ele guarde a VM”10.

Outras fórmulas literárias também fartamente utilizadas, como “o que lhe for servido ordenar”, ou “o que julgar de justiça”11, reafirmavam a permanência dos valores patrimoniais, pois devia-se fazer não o que estava escrito na lei mas o desejo de seu senhor. Serviam também para hierarquizar os homens, imprimindo três esferas: a de Deus - superior; a dos nobres e poderosos - intermediária; e a dos homens bons - inferior. Abaixo dessas, ainda estavam aqueles excluídos da representação e portanto da correspondência, pois não tinham acesso à palavra - eram os mestiços, índios e escravos.

Já o comércio impunha um outro tempo: o do lucro, que obrigava os homens de negócio a se apropriarem de um tempo que, até então, era exclusi­vamente de Deus. A discussão feita na época sobre a usura foi ilustrativa dessa questão, pois o que justificava sua cobrança era o tempo transcorrido entre o pedido e o pagamento de um empréstimo. Desde o primeiro momento, a Igreja condenou veementemente sua prática, pois “pressupõe uma hipoteca sobre um tempo que só a Deus pertence, (...) vendendo o que não lhe pertence”12.

No espírito de Francisco Pinheiro, como de outros homens de negócio da época, tentavam conviver o espírito caritativo católico e o do comer­ciante empreendedor, o que gerava situações muitas vezes contraditórias. Ao emprestar dinheiro a seus correspondentes, muitas vezes para pagar as despesas de viagem e estabelecimento no novo mundo, outras em adiantamento às compras de mercadorias, Pinheiro deixava claro que se tratava de uma relação puramente comercial e a cobrança previa uma taxa de juros. Pinheiro certa vez advertiu Francisco da Cruz que se apressasse em pagar o que lhe devia, “que também é utilidade sua, que menos juros pagará”13.

Mas nem sempre as relações financeiras eram movidas exclusi­vamente pelo lucro e a própria cobrança de juros não era tão simples assim para esses homens. Eugênio dos Santos14 encontrou inúmeros documentos que atesta­vam que vários quadros da Companhia Vinícola do Alto Douro fizeram consultas jurídicas formais sobre até que ponto era lícito ou ilícito a cobrança de juros e quais as taxas aceitáveis de lucro. Também Francisco Pinheiro demonstrou que não se movia somente por interesses comerciais. Quando em 1725, assim que chegou às Minas, Cruz lhe mandou dez moedas de ouro em pagamento dos juros do empréstimo contraído, ele as devolveu, “porque não fiz o empréstimo com esse sentido (...) e por não estar tanto tempo em desembolso desse dinheiro”15.

A questão da honra e da palavra dada valiam muito mais para esses homens, mesmo quando punham em risco a própria lucratividade da empresa comercial. Quando Pinheiro e Cruz se desentenderam em relação às contas do ofício que o primeiro arrematara e o segundo servira, Pinheiro escre­veu-lhe dizendo que “isto deixo na consciência de VM, que bem sabe a vontade com que eu o procurei servir”16. Cruz respondeu que entendia que “teve criação e sangue e ser homem honrado (...), ser eu verdadeiro e capas”17. Também João Diniz Azevedo afirmou “que podia jurar livremente sobre os santos evangelhos”, não lhe dever determinada quantia, que jamais negara ter sido seu caixeiro e que ao acerto final entre os dois, “não faltarei, só por morte acabada”18.

No espírito desses homens não operava um distanciamento e uma contradição entre os dois tempos, o de Deus e o do comércio, mas, ao contrário, o primeiro confluía para o benefício do segundo. Esta era a razão porque se aproximavam duas “perspectivas diversas: o ganho e a salvação. É esta mesma separação que permite pedir a Deus o êxito nos negócios”19. Era o mesmo racio­cínio que fazia com que Pinheiro agradecesse a cada carregamento chegado a salvo no Rio de Janeiro e iniciasse cada promissória de venda com a frase: “Carregamento, com favor de Deus, feito por mim Francisco Pinheiro”20.

Nos testamentos de vários comerciantes, também transparecia a aproximação entre a ética cristã e a do trabalho que deixavam de ser antagônicas a medida que a riqueza cada vez mais era oriunda dos negócios. Os testamentos de comerciantes encontrados em Sabará utilizavam a fórmula clássica de pedir a salvação de sua alma, “não por meus merecimentos, mas pelos da Santíssima Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo”21, o que ainda denotava um desprezo pela vida terrena. Em Vila Rica, o comerciante Francisco Roiz de Britto, como outros, encaminhou a salvação de sua alma em troca de “meus merecimentos de traba­lhador que padeço feito homem”, o que revelava uma valorização do homem e de suas ações. Pediu que levassem sua alma “aonde levou o bom ladrão”22 e, assim, reconhecia que se equilibrava num estreito fio que separava o espírito caridoso do cristão daquele egoísta do negociante.



Ao se enriquecerem no processo de mercantilização das Minas, os comerciantes procuraram se identificar com a elite proprietária das Minas e também partilhar seu universo cultural, marcado pela fé cristã. Os testamentos demonstraram que, apesar do estigma de cristãos-novos que lhes pesava, os comerciantes procuravam na hora da morte, encontrar a salvação de suas almas dentro da religião católica. Como todos os demais, João Gonçalves Baptista, proprietário de uma venda, afirmou que como “verdadeiro cristão protesto viver e morrer, (...) na Santa Fé Católica e crer tudo o que creem e crê a Santa Madre Igreja Romana, em cuja fé espero salvar a minha alma”23.

* Esse texto é uma compilação de algumas das idéias desenvolvidas em minha tese de doutorado intitulado “Homens de negócio; a interiorização da metrópole e do comércio nas Minas setecentistas”. São Paulo: USP, 1996. (Tese, Doutoramento em História Social).

** Professora Adjunta do Departamento de História da UFMG.

1 LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa: Editorial Presença, 1980. p.45.

2 LISANTI F., Luís. Negócios coloniais; uma correspondência comercial do século XVIII. Brasília: Ministério da Fazenda; São Paulo: Visão Editorial, 1973.

3 LE GOFF. op.cit.1980. p.45.

4 Hospital São José. (HSP). Testamentária de Francisco Pinheiro. (TFP). Carta 186. Maço 29. f.391.

5 HSJ.TFP. Carta 141. Maço 18. f.688.

6 Museu do Ouro. (MO). Casa Borba Gato. (CBG). Testamento. L4(9). f.24-34.

7 HSJ.TFP. Carta 139. Maço 18. f.669.

8HSJ.TFP. Carta 942. Maço 12. f.497.

9HSJ.TFP. Carta 164. Maço 29. f.334.

10HSJ.TFP. Carta 160. Maço 29. f.331.

11URICOECHEA, Fernando. O Estado brasileiro moderno: das máximas patrimoniais aos princípios burocráticos. Dados: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro - IUPERJ, Rio de Janeiro, 1977. v.15, p.69.

12LE GOFF. Op.cit.. p.43.

13HSJ.TFP. Carta 904. Maço 4. f.414.

14SANTOS, Eugênio dos. Relações da cidade e região do Porto com o Rio de Janeiro e Minas Gerais no século XVIII. Anais do I Colóquio de Estudos Históricos Brasil-Portugal - PUCMG, Belo Horizonte, 1994. p.147-160.

15HSJ.TFP. Carta 904. Maço 4. f.414.

16HSJ.TFP. Carta 918. Maço 12. f.123.

17HSJ.TFP. Carta 177. Maço 29. f.249.

18HSJ.TFP. Carta 140. Maço 18. f.677e 678.

19LE GOFF. Op.cit. p.55.

20HSJ.TFP. Carta 138. Maço 18. f.880.

21Ver: MO. CBG. Testamento de Rafael Monteiro Heires. L2(6). f.70v-76v. O mesmo em Testamento de Simão Alves Ferreira. L2(6). f.98v-103v.

22Museu da Inconfidência. (MI). Arquivo Histórico da Casa do Pilar. (MHCP). Inventário. Cód.47. Auto 576.

23MI.AHCP. Cód.67. Auto 802.


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