Vinicius de Moraes. Soneto de Fidelidade



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- Vinicius de Moraes.
Soneto de Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto,

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.


E assim quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive,

Quem sabe a solidão, fim de quem ama,
Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama,

Mas que seja infinito enquanto dure.
O poema acima se trata de um soneto por apresentar, sequencialmente, dois quartetos (com rimas interpoladas) e dois tercetos (com rimas misturadas). A métrica dos quatorze versos obedece ao padrão decassílabo e a linguagem utilizada é clara, embora culta.

A temática do poema é a amorosa. O eu lírico volta-se à necessidade de zelar e encantar-se frequentemente pelo amor, dedicando-se plenamente a esse sentimento. Aponta, também, para a necessidade de cantar o amor, seja em bons ou maus momentos. Ao final da explanação, todavia, a voz poética reconhece que um dia a chama da paixão se apagará; mas, enquanto ela positivamente queimar, que se aproveitem ao máximo todas as sensações produzidas!

Algumas figuras de linguagem presentes em “Soneto de Fidelidade”: metáfora; antítese; polissíndeto; pleonasmo; assonância; aliteração.
Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto


Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente


Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante


Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Em “Soneto de Separação”, o esquema de rimas se altera um pouco em relação ao “Soneto de Fidelidade”. No primeiro quarteto, elas são interpoladas (ABBA); no segundo quarteto, por sua vez, intercaladas (CDCD); nos dois tercetos, não obstante, continuam misturadas – como na composição anterior. Os versos, por sua vez, permanecem decassílabos.

A temática gira em torno de transformações em várias instâncias da vida, seja no âmbito da amizade que finda (“Fez-se do amigo próximo o distante”) ou na tranquilidade que se torna tormenta (“De repente da calma fez-se o vento”). Todavia, é possível supor que a motivação de todas as separações abordadas se resume a uma palavra: amor. Se ele termina, acaba por promover consequências de certo modo negativas (contentamento vira tristeza, companhias sinceras viram solidão, bases sólidas se tornam aventuras...) – e isso ocorre rapidamente, talvez tão rapidamente que só se notam após sua concretização.

Algumas figuras de linguagem presentes em “Soneto de Separação”: antítese; comparação; assonância; aliteração; anáfora; polissíndeto; hipérbato.



- Dalton Trevisan

Dalton Trevisan (o “Vampiro de Curitiba”) é um dos melhores escritores da atualidade. Reconhecidas marcas de sua produção literária são a linguagem enxuta, por vezes desafiadora, e a agilidade dos contos: narrativas concisas, todavia densas. Em “Apelo” (conto de apenas três parágrafos), essas características se fazem intensamente presentes.

A história apresenta um narrador em 1ª pessoa que se dirige à sua “Senhora”, comentando a ausência desta. Primeiramente, o foco narrativo apresenta a liberdade que a partida da “amada” gerou: “bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina”. Todavia, em segundo movimento do conto, demonstra-se melancólico com a ausência da mulher – e passa a listar negativas consequências de tal abandono: “a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada”; “Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate”; “Não tenho botão na camisa”. Nem sequer as flores da Senhora sobreviveram (“Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham.”), sinal de que qualquer sinal de vida se perdeu. O conto termina com uma súplica do narrador para que a companheira regresse ao lar.

Perceba-se que, embora aborde temática melancólica (a separação amorosa), o narrador se vale de imagens pouco convencionais para tal momento. Exemplo: ao comentar sobre os primeiros problemas advindos após a fuga da Senhora, ele vale-se da seguinte frase “Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou”.

No poema “Balada das Mocinhas do Passeio”, percebe-se logo no título uma das marcas da obra de Dalton Trevisan: a ambientação da narrativa em Curitiba. O “Passeio” mencionado se trata do Passeio Público, outrora ponto turístico importante mas que, com o tempo, acabou se transformando em local de trabalho das “mocinhas” – eufemismo para “prostitutas”.

Tais meretrizes são desprovidas de beleza (“minissaias coxas varicosas / foto na hora / botinhas altas de sola furada”). Na verdade, são mulheres doentes, podres, que encontram na prostituição uma forma de viver. Mas engana-se quem pensa que elas não possuem uma função social:

“aí é que se engana / são desejadas sim cobiçadas sim disputadas sim / essas últimas mulheres da Terra / não fossem elas / o que seria dos últimos homens da Terra? // esses hominhos desesperados / sempre com sede com febre com tosse”

A voz poética dá a entender que essas prostitutas existem justamente porque a sociedade precisa delas, produ-las infinitamente. Inclusive, há passagens em que se estabelece diálogo com o leitor (uma das marcas do tom prosaico do poema), incluindo-o no processo de animalização do ser humano, afirmando-lhe que somente as desprezíveis mulheres da vida resistem ao tempo:

“você chega corre passa / elas não passarão / pra cá pra lá / psiu! oi tesão! vamo? / pra lá pra cá / pra todo o sempre / as minhas as tuas as nossas / putinhas imortais do Passeio Público”

Note-se ainda, em “Balada das Mocinhas do Passeio”, a despreocupação com a pontuação e o uso de verso livre/branco. As metáforas apresentadas perdem o caráter poético para ceder lugar a significados por vezes asquerosos. Imagens intertextuais são presentes no poema, como na referência à Baudelaire (poeta francês) ou à Circe (Odisseia, de Homero).



- Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis é aclamado como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Sua produção destaca-se principalmente nos romances – Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, por exemplo – e nos contos. A sóbria composição machadiana é carregada de ironias pessimistas acerca das relações humanas e de análises psicológicas em relação aos personagens. O humor presente em seus textos toma a face, muitas vezes, da depreciação.



I. “A cartomante”

Neste conto, o pessimismo machadiano se percebe em dois aspectos: traição e subversão do final feliz. O texto – narrado em 3ª pessoa (onisciente) e com passagens literariamente intertextuais (Shakespeare) – apresenta como personagens principais dois amigos, Vilela e Camilo, e a esposa daquele, Rita; ela trai o marido justamente com o melhor colega dele. Ainda, uma cartomante surge como personagem nuclear do conto: seus serviços são solicitados primeiramente por Rita e depois, em momento de desespero, por Camilo – ambos desejando obter notícias sobre o futuro do romance que alimentavam. Note-se que Camilo, a princípio, não acredita na cartomancia; todavia, movido pela angústia de seu romance ter sido descoberto por Vilela, resolve “consultar-se” e fica aliviado com as boas notícias que recebe.

“— As cartas dizem-me...

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo.”

O inusitado se insere tanto no comportamento das personagens quanto no desfecho da estória. Neste último aspecto, o acaso é notado pelo fato não somente de o romance secreto entre Camilo e Rita não ter terminado bem: ambos foram assassinados por Vilela.

“Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.”



II. “Missa do Galo”

Narrado em 1ª pessoa (memorialista), este conto é carregado de melancolia. Traços como ambiguidade comportamental e análise psicológica de personagens estão presentes na narrativa – considerada uma das melhores produções machadianas no gênero. O cenário da estória é o Rio de Janeiro escravocrata.

Nogueira (narrador-personagem) remonta a quando tinha 17 anos e viajara ao Rio de Janeiro a fim de assistir à Missa do Galo. Hospedara-se na casa de Meneses – casado com Conceição (Meneses, antes de casar-se com Conceição, fora marido de uma prima de Nogueira). Ela era traída pelo marido, mas não se rebelava contra isso.

“Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.”

O comportamento ambíguo de Conceição é um dos pontos extremos do conto. Ela, durante o dia, porta-se como esposa coerente, submissa; à noite, todavia, assume atitude sedutora – o que se comprova em diálogo insinuante, na noite de Natal, com Nogueira. Note-se que este, mesmo após assumir a fase adulta, exprime não entender ao certo o que se passou naquela cena (“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.”). O confronto da ingenuidade do jovem com a experiência da mulher encerra o lado dominador desta.

Ao final da narrativa, Nogueira nos relata outro aspecto importante da ambiguidade comportamental de Conceição: no dia seguinte ao insinuante embate, ela volta a assumir postura resignada:

“Na manhã seguinte, ao almoço falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera.”

III. “Cantiga de esponsais”

O enredo deste conto, narrado em 3ª pessoa, apresenta a história de Mestre Romão, maestro reconhecido no Rio de Janeiro (época da narrativa: 1813) que passava os dias em profunda tristeza – a qual só aparentava “descansar” quando ele regia alguma orquestra.

“Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circunspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia à frente da orquestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro.”

O grande sonho de Mestre Romão era compor uma peça brilhante; todavia, não conseguiu nem sequer terminar uma cantiga de esponsais que iniciara à época de seu casamento (esse era o motivo de sua constante angústia). Frustrava a Mestre Romão o fato de não conseguir exteriorizar em notas musicais o sentimento que lhe passava pela alma. Tanto que, quando se sentiu mal após uma apresentação na igreja do Carmo, previu que iria morrer e tentou mais uma vez terminar a sua “obra-prima”. Não conseguiu; além disso, teve, antes de falecer, que escutar uma jovem apaixonada cantarolar uma inédita canção de amor – que exprimia exatamente o que Mestre Romão havia buscado compor.

“Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar à toa, inconscientemente, uma coisa nunca antes cantada nem sabida, na qual coisa um certo trazia após si uma linda frase musical, justamente a que mestre Romão procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e à noite expirou.”

- Mário de Andrade

O conto “Peru de Natal” é narrado em 1ª pessoa. Pode-se afirmar que grande parte de sua estrutura gira em torno de conceitos freudianos, principalmente em relação ao estudo Totem e tabu.

A história relatada por Juca ocorre pouco tempo após a morte do pai do narrador-personagem. O rapaz, a fim de alegrar sua mãe, irmã e tia (as três “mães” dele, o que pode remontar à ideia do Complexo de Édipo), propõe que, na noite de Natal, coma-se peru. Isso soa incoerente ao momento de luto da família, segundo a mãe: comemoração inapropriada devido ao falecimento do chefe da casa. Frise-se que o pai de Juca – embora não deixasse faltar nada ao lar – não se dedicava a satisfazer detalhes prazerosos do clã, como uma boa ceia, fato que desagradava ao filho.

Acontece que a ceia de Natal se desenrola e a vontade de Juca é atendida. Durante a comilança, todavia, a mãe provoca choro quando lembra que, em meio ao momento perfeito, a figurava do pai fazia falta. Juca assume uma postura raivosa de início, mas logo (talvez fingida e friamente) acaba por concordar com a mãe. Nesse momento, a possível hipocrisia acaba, ironicamente se confirmada, por devolver a paz à mesa familiar.

Note-se que, em relação à teoria freudiana da obra Totem e tabu, o entorno ao pai de Juca assume os dois objetos de análise do renomado psicanalista: a lembrança paterna seria um tabu, “conceito” a ser evitado, uma vez que provocaria alguma consequência ruim (quase destruir um jantar...); ainda, a mesma figura pode ser considerada um totem, à medida que seu esquecimento acaba por gerar um símbolo a ser idolatrado, mesmo que dissimuladamente.

- Erico Veríssimo

Um certo capitão Rodrigo, listado pela UNIOESTE como romance, inicialmente foi concebido como um dos episódios de “O Continente” – primeira parte da obra O tempo e o vento, trilogia que busca recontar grande pedaço da história do Rio Grande do Sul por meio da família Terra Cambará. Todavia, devido à sua extensão e estrutura, Um certo capitão Rodrigo pode ser lido e estudado como obra independente.

A novela apresenta 28 capítulos nos quais, em 3ª pessoa, narra-se a chegada do Capitão Rodrigo Cambará à cidade de Santa Fé; o seu casamento com Bibiana Terra; seu envolvimento na Revolução Farroupilha. A personalidade desse “guerreiro” remonta à dos heróis gregos, uma vez que somente um ambiente de guerra é capaz de gerar sentido a sua vida. Outras características da personagem são: carisma, generosidade, pensamento libertário e “macheza”.

"Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!"

A segunda personagem central da narrativa é justamente Bibiana. Dando sequência às figuras femininas de sua família (Ana Terra, a avó também Bibiana...), ela se mantém apaixonada por Rodrigo Cambará durante toda a obra, inclusive após ser traída pelo esposo. Mesmo assim, permanece consistente por, talvez, (re)conhecer seu papel de mulher: sofrer e solidificar, mesmo que em solidão. O casal teve três filhos, mas apenas dois vingaram.

Dois outros personagens importantes à narrativa são Pedro Terra, pais de Bibiana – o qual não suportava o capitão Rodrigo, – e Juvenal Terra, irmão dela. Este último simpatiza com Rodrigo Cambará de tal forma que chegam a firmar sociedade em uma “bodega”. Todavia, o ritmo pacato acaba por desagradar o guerreiro – que vai ter sua morte em meio dos conflitos da guerra. Bibiana, mesmo após a morte do marido, porta-se fiel:

"Ergueu Leonor nos braços, segurou a mão de Bolívar, lançou um último olhar para a sepultura de Rodrigo e achou que afinal de contas tudo estava bem. Podiam dizer o que quisessem, mas a verdade era que o Capitão Cambará tinha voltado para casa."




Ismália (Alphonsus de Guimaraes)

Quando Ismália enlouqueceu,


Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,


Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,


Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu


As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu


Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Lembrança de morrer (ÁLVARES DE AZEVEDO)

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura


A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio


Do deserto, o poento caminheiro,
... Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,


Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade... é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade... é dessas sombras


Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,


Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,


Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

tu à mocidade sonhadora


Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,


Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário


Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha


Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora


E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!
Órion (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

A primeira namorada, tão alta


que o beijo não a alcançava,
o pescoço não a alcançava,
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilômetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.

Infância (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.


Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu


a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo


olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava


no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história


era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Sina (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)


Nesta mínima cidade
os moços são disputados
para ofício de marido.
Não há rapaz que não tenha
uma, duas, vinte noivas
bordando no pensamento
um enxoval de desejos,
outro enxoval de esperanças.
Depois de muito bordar
e de esperar na janela
maridos de vai-com-o-vento,
as moças, murchando ao luar,
já traçam, de mãos paradas,
sobre roxas almofadas,
hirtas grades de convento.

José (E agora José?) (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,


está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?


Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,


seu ódio - e agora?

Com a chave na mão


quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,


se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro


qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Meus oito anos (CASIMIRO DE ABREU)

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias


Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar - é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,


Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!


Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,


Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos


Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho


Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

O navio negreiro (CASTRO ALVES)

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 
Brinca o luar — dourada borboleta; 
E as vagas após ele correm... cansam 
Como turba de infantes inquieta. 

'Stamos em pleno mar... Do firmamento 


Os astros saltam como espumas de ouro... 
O mar em troca acende as ardentias, 
— Constelações do líquido tesouro... 

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos 


Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas 


Ao quente arfar das virações marinhas
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas... 

Donde vem? onde vai?  Das naus errantes 


Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste saara os corcéis o pó levantam,  
Galopam, voam, mas não deixam traço. 

Bem feliz quem ali pode nest'hora 


Sentir deste painel a majestade! 
Embaixo — o mar em cima — o firmamento... 
E no mar e no céu — a imensidade! 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! 


Que música suave ao longe soa! 
Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 

Homens do mar! ó rudes marinheiros, 


Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
Crianças que a procela acalentara 
No berço destes pélagos profundos! 

Esperai! esperai! deixai que eu beba 


Esta selvagem, livre poesia 
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, 
E o vento, que nas cordas assobia... 
.......................................................... 

Por que foges assim, barco ligeiro? 


Por que foges do pávido poeta? 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira 
Que semelha no mar — doudo cometa! 

Albatroz!  Albatroz! águia do oceano, 


Tu que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviathan do espaço, 
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas. 
 

II


     
Que importa do nauta o berço, 
Donde é filho, qual seu lar? 
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina! 
Resvala o brigue à bolina 
Como golfinho veloz. 
Presa ao mastro da mezena 
Saudosa bandeira acena 
As vagas que deixa após. 

Do Espanhol as cantilenas 


Requebradas de langor, 
Lembram as moças morenas, 
As andaluzas em flor! 
Da Itália o filho indolente 
Canta Veneza dormente, 
— Terra de amor e traição, 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos de Tasso, 
Junto às lavas do vulcão! 

O Inglês — marinheiro frio, 


Que ao nascer no mar se achou, 
(Porque a Inglaterra é um navio, 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias, 
Lembrando, orgulhoso, histórias 
De Nelson e de Aboukir.. . 
O Francês — predestinado — 
Canta os louros do passado 
E os loureiros do porvir! 

Os marinheiros Helenos, 


Que a vaga jônia criou, 
Belos piratas morenos 
Do mar que Ulisses cortou, 
Homens que Fídias talhara, 
Vão cantando em noite clara 
Versos que Homero gemeu ... 
Nautas de todas as plagas, 
Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu! ... 
 

III


     
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador! 
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! 
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... 
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 
 

IV


      
Era um sonho dantesco... o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite...  
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar... 

Negras mulheres, suspendendo às tetas  


Magras crianças, cujas bocas pretas  
Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs! 

E ri-se a orquestra irônica, estridente... 


E da ronda fantástica a serpente  
Faz doudas espirais ... 
Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
E voam mais e mais... 

Presa nos elos de uma só cadeia,  


A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri! 

No entanto o capitão manda a manobra, 


E após fitando o céu que se desdobra, 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..." 

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . 


E da ronda fantástica a serpente 
          Faz doudas espirais... 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
          E ri-se Satanás!...  
 

V

     


Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados 


Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?   Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!... 

São os filhos do deserto, 


Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão. . . 

São mulheres desgraçadas, 


Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N'alma — lágrimas e fel... 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael. 

Lá nas areias infindas, 


Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus ... 
... Adeus, ó choça do monte, 
... Adeus, palmeiras da fonte!... 
... Adeus, amores... adeus!... 

Depois, o areal extenso... 


Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p'ra não mais s'erguer!... 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer. 

Ontem a Serra Leoa, 


A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar... 

Ontem plena liberdade, 


A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 


Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ... 
 

VI


        
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 

Auriverde pendão de minha terra, 


Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 


Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Soneto XIV (CLÁUDIO MANUEL DA COSTA)
Quem deixa o trato pastoril, amado
Pela ingrata, civil correspondência,
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz não tem provado.

Que bem é ver nos campos transladado


No gênio do pastor, o da inocência!
E que mal é no trato, e na aparência
Ver sempre o cortesão dissimulado!

Ali respira amor sinceridade;


Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna, que soçobre;


Aqui quanto se observa, é variedade:
Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!

Soneto LXII (CLÁUDIO MANUEL DA COSTA)


Torno a ver-vos, ó montes; o destino
Aqui me torna a pôr nestes oiteiros;
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Côrte rico, e fino.

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,


Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros
Atrás de seu cansado desatino.

Se o bem desta choupana pode tanto,


Que chega a ter mais preço, e mais valia,
Que da cidade o lisonjeiro encanto;

Aqui descanse a louca fantasia;


E o que té agora se tornava em pranto,
Se converta em afetos de alegria.

Canção do exílio (GONÇALVES DIAS)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,


Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite,


Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,


Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,


Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. 

Implorando de Cristo, um pecador contrito, perdão dos seus pecados (GREGÓRIO DE MATOS GUERRA)


Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado

Da vossa piedade me despido,

Porque quanto mais tenho delinqüido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

 

Se basta a vos irar tanto um pecado,



A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

 

Se uma ovelha perdida e já cobrada



Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História:

 

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;



Cobrai-me; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.


Moralidade sobre o dia de quarta-feira de cinza (GREGÓRIO DE MATOS GUERRA)


Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,

Te lembra hoje Deus por sua Igreja;

De pó te faz espelho em que se veja

A vil matéria de que quis formar-te.

 

Lembra-te Deus que és pó para humilhar-te,



E como o teu baixel sempre fraqueja

Nos mares da vaidade onde peleja,

Te põe à vista a terra onde salvar-te.

 

Alerta, alerta, pois que o vento berra,



E se assopra a vaidade e incha o pano,

Na proa a terra tens, amaina e ferra.

 

Todo o lenho mortal, baixel humano,



Se busca a salvação, tome hoje terra,

Que a terra de hoje é porto soberano.


À Bahia (GREGÓRIO DE MATOS GUERRA)


Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Aos senhores governadores do mundo em seco da Bahia e seus costumes (GREGÓRIO DE MATOS GUERRA)


A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar cabana, e vinha,

Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.


Em cada porta um freqüentado olheiro,

Que a vida do vizinho, e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,

Para a levar à Praça, e ao Terreiro.


Muitos Mulatos desavergonhados,

Trazidos pelos pés os homens nobres,

Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,

Todos, os que não furtam, muito pobres,

E eis aqui a cidade da Bahia.

Expressões amorosas a uma dama a quem queria (GREGÓRIO DE MATOS GUERRA)


Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,


O Ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora
Quando vem passear-te pela fria.

Goza, goza da flor da mocidade,


Que o tempo trata, a toda a ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Oh não aguardes que a madura idade


te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Aos afetos e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem bem (GREGÓRIO DE MATOS GUERRA)


Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que um peito abrasas escondido;


Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido.

Se és fogo, como passas brandamente,


Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!

Pois para temperar a tirania,


Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.

Poética (MANUEL BANDEIRA)


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Desencanto (MANUEL BANDEIRA)
Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente


Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca


Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.


Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!
Andorinha (MANUEL BANDEIRA)
Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!


Passei a vida à toa, à toa . . .

Descobrimento (MÁRIO DE ANDRADE)


Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!


muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

A um poeta (OLAVO BILAC)

Longe do estéril turbilhão da rua,


Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego


Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício


Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,


Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Anoitecer (RAIMUNDO CORREIA)


Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se além da serranja


Os vértices de chamas aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia.

Um mudo de vapores no ar flutua...


Como uma informe nódoa avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua.

A natureza apática esmaece...


Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula.... Anoitece.

Lira I (TOMÁS ANTONIO GONZAGA)


É gentil, é prendada a minha Altéia;
As graças, a modéstia de seu rosto
Inspiram no meu peito maior gosto
Que ver o próprio trigo quando ondeia.

Mas, vendo o lindo gesto de Dircéia


A nova sujeição me vejo exposto;
Ah! que é mais engraçado, mais composto
Que a pura esfera, de mil astros cheia!

Prender as duas com grilhões estritos


É uma ação, ó deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.

Cupido, se tens dó de um triste amante,


Ou forma de Lorino dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.

Lira II (TOMÁS ANTONIO GONZAGA)


Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.

De uma parte, um montão de prata e ouro


Com pedras de valor o chão curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro.

- Acabou - diz-me então - a desventura:


De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.

Escolhi, acordei, e não vi nada:


Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.




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