Visão Panorâmica do Antigo Testamento I (terceira parte) a formação do Cânon



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Visão Panorâmica do Antigo Testamento I (terceira parte)

A Formação do Cânon

O conjunto de livros que nós conhecemos como Antigo Testamento é denominado em Hebraico como Tanakh. O Tanakh é dividido em 24 livros, que correspondem aos 39 livros do antigo testamento cristão, esta discrepância numérica se dá pelo fato de muitos livros da bíblia judaica terem sido divididos em diversas partes (como os livros de Reis ou Samuel) na bíblia cristã. Também a ordem com que os livros aparecem na bíblia hebraica é diferente da bíblia cristã. O Tanakh é dividido em três grandes partes: a Torah (a Lei), os Nevi’ im (os profetas) e os Ketuvim (os escritos, que correspondem aos livros sapienciais). A Torah possui cinco livros , os Nevi’im oito e os Ketuvim onze:

Torah:


  1. Gênesis (Bereshit)

  2. Êxodo (Shemot)

  3. Levítico (Vaiykrá)

  4. Números (Bamidbar)

  5. Deuteronômio (Devarim)

Nevi’im:

Profetas Anteriores:



  1. Josué

  2. Juízes

  3. I Samuel e II Samuel

  4. I Reis e II Reis

Profetas Posteriores:

  1. Isaías

  2. Jeremias

  3. Ezequiel

  4. Os doze profetas:

  1. Oséias

  2. Naum

  3. Joel

  4. Habacuque

  5. Amós

  6. Sofonias

  7. Obadias

  8. Ageu

  9. Jonas

  10. Miquéias

  11. Zacarias

  12. Malaquias

Ketuvim

Livros da Verdade



  1. Salmos

  2. Provérbios



Os 5 rolos

  1. Cantares

  2. Rute

  3. Lamentações

  4. Eclesiastes

  5. Ester

Profético

  1. Daniel

Outros Escritos

  1. Esdras-Neemias

  2. Crônicas

O Cânon hebraico é reconhecido pelas igrejas protestantes, a igreja católico-romana reconhece no cânon bíblico do Antigo Testamento alguns livros que são denominados deuterocanônicos. A origem destes escritos é quase tão antiga quanto a dos próprios livros canônicos, e já estavam presentes na septuaginta, que foi a primeira tradução para a língua grega bíblia hebraica feita em Alexandria, segundo a lenda por setenta e dois rabinos em setenta e dois dias, sob encomenda do rei Ptolomeu II Filadelfo, no século II AC. O Cânon judaico foi oficialmente reconhecido no concílio de Jâmnia, no século II dC, a partir deste ponto o judaísmo e o cristianismo estariam para sempre separados como religião. Os livros deuterocanônicos, muito embora fossem usados livremente pelos pregadores cristãos desde o primeiro século e tivessem sido traduzidos para o Latim, na bíblia Vulgata Latina, por São Jerônimo, no século IV, somente foram reconhecidos como canônicos no concílio de Trento em 1546. Os livros deuterocanônicos são:

  1. Tobias

  2. Judite

  3. I Macabeus

  4. II Macabeus

  5. Sabedoria

  6. Eclesiástico (ou livro de Ben Sirach)

  7. Baruc

  8. Alguns acréscimos no livro de Ester

  9. Alguns acréscimos no livro de Daniel.

Diferentemente do Novo Testamento, cujo período de redação durou cerca de 50 anos, o Antigo Testamento possui um processo de construção muito mais longo e complexo, pois certamente envolve um período de mais de quinhentos anos entre os primeiros e os últimos escritos. Este período de escrita abrange desde o início da monarquia em Israel (escritos javistas) até o período de dominação helênica (Daniel, Eclesiastes). Um intervalo de tempo desta ordem de grandeza subentende uma grande evolução no panorama social, político ideológico e religioso da nação de Israel. O texto revela uma reconstrução gloriosa de uma história encoberta sob as brumas de um passado distante. A história se transformou em lenda, a lenda se transformou em mito, e o que vemos, ao ler o texto bíblico é a releitura da história de um povo, de uma nação e seu Deus sob uma capa da linguagem mítica. Devemos levar em conta que muito antes desta história virar livro, ela já era contada ao pé do fogo nas noites estreladas dos desertos de Canaã, de pai para filho eram repassados os ensinamentos sobre os grandes feitos dos Pais da Nação. Estas histórias, com um toque de magia, misturavam sonhos e realidades num passado glorioso de antepassados distantes. É esta rica herança da tradição oral que os escritores sagrados se propuseram a encarnar nas páginas deste livro vivo e dinâmico, tentando ler nas entrelinhas da história a mão invisível de seu Deus, conduzindo de forma sábia os destinos de todos os homens, em especial, de seu povo, escolhido como o menor de todos no meio das nações poderosas para afirmar, de forma inegável, o seu poder divino. A história relatada no Antigo Testamento é, sobretudo, uma história teológica, a história do Deus por detrás da história.

Para um estudo mais científico a respeito da história de Israel, recomendamos a referência:

Gottwald, Norman: “As Tribos de Iaweh”, Ed. Paulinas (1986).

O Pentateuco

Pentateuco é uma palavra grega que denomina os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, que são os livros da lei, que correspondem aos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Em hebraico estes livros são conhecidos por Torah, e pelo volume da obra são divididos me cinco rolos mais ou menos do mesmo tamanho. Os nomes dos cinco primeiros livros da bíblia estão relacionados com as suas temáticas principais: Gênesis, ou origens, relata as origens do homem e dos antepassados do povo de Israel. Êxodo relata a saída, liderada por Moisés, do povo de Israel do Egito. Levítico é um compêndio de leis e regulamentos sobre os rituais e a organização do culto para o uso dos sacerdotes levitas. Números inicia-se com um grande recenseamento do povo no deserto. E finalmente Deuteronômio, que traduzido significa “Segunda lei” relata a aliança firmada entre Deus e o seu povo e a entrega das segundas tábuas da lei contendo os dez mandamentos, uma vez que Moisés quebrou as primeiras em seu momento de ira contra a idolatria do povo. Os nomes em Hebraico dos mesmo livros são dados pela primeira palavra mais importante do texto: Gênesis é conhecido como Bereshit (no princípio), Êxodo é denominado Shemot (os nomes), Levítico é denominado Vayikrá (E chamou), Números é denominado Bamidbar (No deserto) e finalmente Deuteronômio é denominado Devarim (Palavras). Para mais detalhes sobre a leitura judaica destes livros, consulte



http://pt.wikipedia.org/wiki/Bereshit

http://pt.wikipedia.org/wiki/Shemot

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vayikrá

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bamidbar

http://pt.wikipedia.org/wiki/Devarim

A autoria dos livros de Pentateuco foi por muito tempo dentro da tradição cristão atribuída a Moisés. Muito embora não possamos negar a influência positiva que o legislador teve na formação da religião e da própria nação de Israel, a autoria mosaica dos livros do Pentateuco fica muito difícil de ser sustentada por argumentos concretos. Existem vários anacronismos no livro de Gênesis: os dois mais notórios são a referência a camelos na época dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó (séc XIX AC) (Gn 12:16, Gn 24:19,31,46, Gn 30:43, etc) , no entanto, os historiadores sabem que os camelos só foram domesticados no oriente médio a partir do século XII AC, portanto, uns 700 anos depois dos supostos eventos. Também existem referências em Gênesis sobre Abraão e Isaac entre os Filisteus (Gn 21: 32, 34 Gn 26: 1,8,14,18, etc). Os filisteus pertencem a um ramo étnico-linguístico conhecido como Indo-Europeu. A instalação dos filisteus na faixa de Gaza se deu no século XII, isto sabemos pelos relatos das estelas dos faraós Merneptah (1236-1223aC) e do faraó Ramsés III (1198-1166aC), que descrevem diversas vitórias sobre os “povos do mar” que tentaram invadir o Egito nesta época, destre estes encontravam-se os filisteus (peleset) que por sucessivas derrotas contra os egípcios, foram obrigados a se instalar na região da Palestina (o nome Palestina tem a mesma raiz nas línguas semíticas do nome Filisteu). ambos anacronismos indicam uma data de composição bem posterior, inclusive ao êxodo, pois para que tenhamos a noção de uma sociedade organizada dos filisteus, poderíamos supor que estamos falando do século X aC, bem depois da morte de Moisés e da ocupação de Israel (pois o autor deveria supor que os Filisteus já estavam instalados ali há tanto tempo que poderiam ter presenciado o tempo dos patriarcas).

Outra evidência que sugere um complexo processo de formação do texto do Pentateuco, são as diversas duplicações existentes nos livros do Pentateuco: duas narrativas diferentes da origem do mundo e do homem (Gn 1:1 -2:4 e Gn 2:4:25), duas versões diferentes sobre a história do dilúvio (Gn 6-9), por exemplo, há o relato de um casal de cada espécie de animal entrando na arca, e de sete pares para cada espécie de animais puros e um par de cada espécie de animais impuros, há uma discrepância entre a família de Noé ter entrado na arca e logo ter chovido e outro versículo fala sobre que demorou sete dias para começar a chover, etc. Há a improvável repetição por três vezes de um evento que um patriarca mente para algum poderoso de plantão a respeito da identidade de sua esposa (Gn 12:10-20 Gn 20:1-18 Gn 26:1-11, note a repetição dos mesmos nomes das pessoas e lugares nos dois últimos textos, só diferenciando Abraão e Sara de Isaque e Rebeca, note ainda que no segundo texto, Abraão devia ter pelos 100 anos e Sara uns 90, estava velha e grávida de Isaque, devia ser realmente “muito formosa”, para atrair a atenção de um rei...), duas origens do poço de Berseba (Gn 21: 25-32 Gn 26:32-33). Também temos várias duplicações em êxodo, como por exemplo sobre as ordens a respeito da comemoração dos pães ázimos (Ex 12:15-20 Ex 13: 3-7). Outra fonte de estudo para levantarmos uma teoria a respeito da composição dos livros são as variações que existem entre diversos relatos do Pentateuco, como, por exemplo, os dois nomes distintos para o sogro de Moisés ou as duas explicações diferentes para o mandamento da guarda do sábado (em Ex 20:10-11 se refere ao descanso de Deus no sétimo dia da criação, em Dt 5: 14-15 se refere ao fato de o povo ter sido escravo no Egito, e por isto precisava dar o direito de descanso para os seus escravos).

Diante de todos estes fatos, os estudiosos começaram um processo de identificação das diversas fontes que deram origem ao documento que hoje chamamos de Pentateuco. Filósofos como Thomas Hobbes e Baruch Spinoza (este filósofo era judeu) já admitiam que a redação do Pentateuco, ou talvez a maior parte dele deveriam ser atribuídas a Esdras, devido ao caráter fortemente estruturado da religião judaica pressuposto no texto. A teoria mais aceita, inclusive nos círculos teológicos (seminários teológicos protestantes), e oficialmente aceita e ensinada pela igreja católico-romana é a hipótese documentária. Sua forma mais popular foi elaborada por Karl Graff, Abraham Kuenen e Julius Wellhausen nas décadas de 70 e 80 do século XIX. Existem várias variações da teoria e até hoje ela é amplamente discutida questionada e novas propostas são colocadas, para se ter uma idéia das discussões recentes sobre as teorias de formação do Pentateuco, recomendamos a obra:

De Pury, A.: “O Pentateuco em Questão: As Origens e a Composição dos Primeiros Cinco Livros da bíblia à Luz das Pesquisas Recentes”, Ed Vozes (1996)

O fato de uma teoria científica ser debatida e questionada nos círculos acadêmicos não implica que devamos concluir que a antiga hipótese da autoria mosaica é a que está correta1, de fato, os autores mais recentes tendem a considerar ainda mais tardia a redação de fontes como a JAVISTA, da qual falaremos em breve, para a época do reinado de Josias.



Basicamente, a hipótese documentária consegue reconhecer quatro fontes distintas para o texto do Pentateuco (na verdade se considera hexateuco, pois o livro de Josué também possui elementos marcantes destas quatro fontes). As fontes são reconhecidas pela sigla J E D P:

J- Javista, segundo as teorias mais aceitas, este documento, que se inicia em Gn 2, perpassa vários trechos do livro de Gênesis, o início de Êxodo, uma parte do livro de números e partes do livro de Josué, teria sido redigido durante o período da monarquia unificada, mais precisamente, na época do reinado de Salomão. O documento Javista tinha o objetivo de ser uma epopéia recém formada nação de Israel, que atingia um primeiro período de relativa estabilidade e prosperidade material. Este documento remonta as origens de Israel às origens do próprio ser humano, também localiza o início do culto ao Deus de Israel, IHVH (Yaveh, javé, Jeová, e várias outras pronúncias, mas a mais próxima da realidade seria algo como Iarruê), aos primórdios da humanidade (Gn 4: 26). A sua característica mais marcante é exatamente se referir ao nome próprio de Deus revelado a Moisés, IHVH, eis o porquê do nome Javista ao texto. Seu estilo é mais vívido, uma narrativa mais despreocupada, prosaica, bem no estilo das histórias semíticas. Nos textos javistas, Deus se apresenta muitas vezes na forma humana (como no episódio anterior à destruição de Sodoma Gn 18), conversa francamente com o ser humano (como no episódio do Éden Gn 3:8-24), se arrepende (como no episódio anterior ao dilúvio Gn 6:1-8), trabalha como um artesão (como na criação dos homens e depois dos animais Gn 2:7 e Gn 2:19), trabalha como um jardineiro (Gn 2:8), etc. É importante ressaltar que o texto tem como função legitimar uma ordem social recém formada, a monarquia, com base em um plano universal do próprio Deus, que formou a nação e prometeu ao patriarca Abraão que de sua descendência sairiam reis. Mas em contrapartida, o documento javista mantém acesa uma fonte libertária, oriunda do período anterior da história de Israel, de organização tribal, que de certa forma aponta o dedo em direção à própria monarquia, dizendo que ela não é absoluta nem eterna, que o próprio Abraão se contrapôs aos reis da época, mantendo sua autonomia e liberdade, armando suas tendas junto aos carvalhos, fora das cidades-estado, que eram o símbolo da opressão e da iniqüidade.

E- Eloísta, esta segunda fonte é mais controversa. Alguns autores afirmam que E é uma fonte independente surgida no reino do norte, após a divisão da monarquia no reinado de Reoboão. Outros autores sugerem que E é apenas uma edição de J com acréscimos próprios oriundos das versões das tribos do norte a respeito da história dos antepassados. Esta interpretação é plausível porque dificilmente vemos um trecho puramente eloísta nos trechos bíblicos, em geral eles vêm misturados a excertos Javistas (veja, por exemplo, os textos do sonho de Jacó em Betel Gn 28: 11-22, e o texto em que os irmãos de José o vendem Gn 37). O texto eloísta leva este nome porque se refere a Deus pelo nome Elohim (que é o plural de Deus, não quer dizer que eram politeístas, mas trata-se de um plural majestático, onde a grandeza de Deus se revela por meio do seu nome no plural). A narrativa eloísta não começa nos primórdios da humanidade, mas se inicia com a história de Abraão, perpassa o resto de Gênesis, Êxodo, Números e tem uma contribuição relevante para o livro de Josué. Seu texto é mais solene, se refere a Deus de maneira mais distante, respeitosa, já transparecendo uma transcendência. Mas todo livro tem um propósito para ser escrito, qual foi, então, o propósito principal do texto eloísta? Bem, como foi dito, a redação se deu no reino de Israel do Norte, isto significa que agora Jerusalém onde o Rei Salomão construiu o primeiro templo não podia mais ser considerado o lugar de peregrinação dos israelitas. Fazia-se necessário legitimar a sacralidade do santuário existente em Betel (ver Gn 28 e Gn 35, inclusive neste capítulo que Jacó passa a ser chamado Israel, o nome da nação do norte).

D- Deuteronômio. Como o próprio nome diz, o livro de Deuteronômio é considerado um documento à parte que foi posteriormente incorporado aos documentos J-E. Sua redação se dá em Jerusalém no início do reinado do rei Josias. Fortemente influenciada pela pregação dos profetas, principalmente Isaías, este documento tem papel fundamental na grande reforma religiosa instituída pelo rei Josias (este era o livro encontrado no templo de Jerusalém e que foi lido na presença do rei, conforme IIReis 22). Veremos mais adiante que uma parte significativa da produção literária hebraica que deu origem ao que hoje conhecemos como Antigo Testamento ocorreu exatamente no reinado de Josias. O livro de deuteronômio recebe este nome, pois ali está descrita a segunda entrega das tábuas da lei a Moisés além de vários discursos de Moisés, provavelmente preservados pela tradição oral e de valor simbólico e litúrgico fundamentais. A ética difundida no livro de deuteronômio é a ética da aliança: Deus escolheu, dentre todos os povos, o povo de Israel para firmar com ele uma aliança e requer estrita obediência e observância de todos os preceitos contidos na aliança. Se o povo obedecesse, tudo iria bem, as bênçãos de deus seriam sobre o povo, a prosperidade material seria um sinal de que a benção de Deus era com eles. Se desobedecessem, sofreriam as conseqüências, desde privações materiais até invasão e dominação de reinos estrangeiros (é importante lembrar que este texto foi escrito na época que o reino de Israel já havia sido invadido pelos assírios, conseqüência da sua desobediência). Também um dos pontos centrais do livro de deuteronômio era estabelecer, de uma vez por todas, a unicidade do local de culto a Deus em Jerusalém (é bom lembrar que agora não existia mais reino do norte, e Judá era o último remanescente da antiga nação do Deus IHVH, e Jerusalém mais do que nunca assumiu sua proeminência como capital política e como centro religioso de peregrinação).

P- Sacerdotal (a letra P vem de Priester, que em alemão significa sacerdote). Este é o mais recente documento, que proporciona uma forma final aos cinco livros, fornecendo-lhes uma certa coerência interna. O texto sacerdotal inicia-se em Gn 1:1 e estão presentes sinais de sua redação em todos os cinco livros, a segunda metade do livro de Êxodo e praticamente todo o livro de Levítico tem sua origem sacerdotal. Como o próprio nome diz, o texto foi elaborado por sacerdotes judaicos no período do exílio babilônico, e foi finalizado na época do retorno a Jerusalém, sob o comando de Esdras, que também era sacerdote. O objetivo era bem claro: estabelecer os alicerces para uma identidade da nação de Israel que transcendesse os limites das circunstâncias políticas (depois da queda de Jerusalém, nunca mais Israel gozou de uma autonomia como nação, sempre o governante de Israel era vassalo de algum grande poderoso império da época). Assim, era necessário que a identidade de Israel se estabelecesse na identidade cultural e, principalmente, religiosa. Um povo escolhido por Deus, unido sob a bandeira do culto ao único Deus verdadeiro a da observância de seus preceitos eternos, mesmo sob o domínio de seus opressores, eles se encontrariam livres, por servir ao Deus criador do universo. O texto sacerdotal é solene em sua apresentação e ressalta, a cada passo, a estrutura ritual de datas, oferendas, sacrifícios, hierarquias no serviço religioso, etc. Logo no capítulo 1 de Gênesis, o texto foi organizado de acordo com os dias da semana, culminando com o sábado, o sétimo dia, ressaltando que o próprio Deus descansou neste dia, assim, todos aqueles que o amam e o adoram também deveriam se recolher ao descanso cósmico, deixando suas atividades mundanas e corriqueiras e se refugiando tranquilamente nos braços de seu criador. De origem sacerdotal, também, é grande parte das genealogias dos antepassados de Israel, como uma forma de organizar o passado mostrando uma linha de sucessão que começa com a origem do próprio homem. É desnecessário falar que a ideologia predominante no texto sacerdotal também é centralizadora com relação ao local de culto: Jerusalém era e sempre foi o único santuário escolhido pelo próprio Deus para o seu culto e adoração. Os redatores sacerdotais foram os que deram o acabamento final aos livros do Pentateuco. Em Esdras menciona-se a leitura diante de todo o povo da lei de Deus, talvez seja este o primeiro momento que se leu a versão final da lei de Moisés, este incrível mosaico de tradições.

1 Assim como é um erro comum cometido pelos criacionistas acharem que o fato de a teoria Darwiniana sofrer discussões acaloradas nos círculos acadêmicos é uma evidência de que a evolução está errada. Uma teoria científica viva é exatamente uma teoria que está sujeita a modificações, debates, questionamentos, não é algo fossilizado, morto aceito como dogma... isto é ciência!


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