Vita consecrata do santo padre



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A par da Eucaristia e em íntima relação com ela, a Liturgia das Horas, celebrada comunitária ou pessoalmente segundo a índole de cada Instituto, em comunhão com a oração da Igreja, exprime a vocação ao louvor e à intercessão, que é própria das pessoas consagradas.

Também tem uma relação profunda com a Eucaristia o esforço de conversão contínua e de necessária purificação que as pessoas consagradas realizam no sacramento da Reconciliação. Por meio do encontro frequente com a misericórdia de Deus, elas purificam e renovam o seu coração e, através do humilde reconhecimento dos pecados, tornam transparente a própria ligação com Ele; a experiência feliz do perdão sacramental, no caminho partilhado com os irmãos e as irmãs, torna o coração dócil e estimula o empenho por uma crescente fidelidade.

Serve de grande apoio para progredir no caminho evangélico, especialmente no período de formação e em certos momentos da vida, o recurso confiante e humilde à direcção espiritual, graças à qual a pessoa é ajudada a responder às moções do Espírito com generosidade e a orientar-se decididamente para a santidade.

Exorto, enfim, todas as pessoas consagradas, segundo as próprias tradições, a renovarem diariamente a sua união espiritual com a Virgem Maria, repassando com Ela os mistérios do Filho, particularmente pela oração do Terço.

III. ALGUNS AREÓPAGOS DA MISSÃO

Presença no mundo da educação

96. A Igreja sempre sentiu que a educação é um elemento essencial da sua missão . O seu Mestre interior é o Espírito Santo, que penetra as profundidades mais reconditas do coração de cada homem e conhece o dinamismo secreto da história. Toda a Igreja é animada pelo Espírito e com Ele desempenha a sua acção educativa. No âmbito da Igreja, todavia, uma tarefa específica neste campo compete às pessoas consagradas, que são chamadas a introduzir no horizonte educacional o testemunho radical dos bens do Reino, propostos a todo o homem enquanto aguarda o encontro definitivo com o Senhor da história. Pela sua especial consagração, pela peculiar experiência dos dons do Espírito, pela escuta assídua da Palavra e o exercício do discernimento, pelo rico património de tradições educativas acumulado ao longo da história pelo próprio Instituto, pelo conhecimento profundo da verdade espiritual (cf. Ef 1,17), as pessoas consagradas são capazes de desenvolver uma acção educativa particularmente eficaz, oferecendo uma contribuição específica para as iniciativas dos outros educadores e educadoras.

Dotadas deste carisma, elas podem dar vida a ambientes educativos permeados pelo espírito evangélico de liberdade e de caridade, onde os jovens sejam ajudados a crescer em humanidade, sob a guia do Espírito (235). Deste modo, a comunidade educativa torna-se experiência de comunhão e lugar de graça, onde o projecto pedagógico contribui para unir, numa síntese harmoniosa, o divino e o humano, o Evangelho e a cultura, a fé e a vida.

A história da Igreja, desde a antiguidade até aos nossos dias, é rica de exemplos admiráveis de pessoas consagradas que viveram e vivem a tensão para a santidade através do empenho pedagógico, propondo contemporaneamente a santidade como meta educativa. De facto, muitas delas, educando, realizaram a perfeição da caridade. Este é um dos dons mais preciosos que as pessoas consagradas podem oferecer também hoje à juventude, fazendo-a objecto de um serviço pedagógico rico de amor, segundo a sábia advertência de S. João Bosco: « Não basta aos jovens serem amados, precisam também de reconhecer que o são » (236).

Necessidade de renovado empenho no campo educativo

97. Os consagrados e consagradas manifestem, com delicado respeito e também com coragem missionária, que a fé em Jesus Cristo ilumina todo o campo da educação, não prejudicando mas antes corroborando e elevando os próprios valores humanos. Deste modo, tornam-se testemunhas e instrumentos do poder da Encarnação e da força do Espírito. Esta sua tarefa é uma das expressões mais significativas daquela maternidade que a Igreja, à imagem de Maria, realiza para com todos os seus filhos (237).

Por isso, é que o Sínodo exortou instantemente as pessoas consagradas a retomarem com novo empenho, nos lugares onde for possível, a missão da educação com escolas de todo o tipo e grau, Universidades e Institutos Superiores (238). Assumindo esta indicação sinodal, convido calorosamente os membros dos Institutos dedicados à educação a serem fiéis ao seu carisma originário e às suas tradições, cientes de que o amor preferencial pelos pobres encontra uma das suas aplicações particulares na escolha dos meios mais aptos para libertar os homens daquela grave forma de miséria que é a falta de formação cultural e religiosa.

Dada a importância que as Universidades e as Faculdades católicas e eclesiásticas assumem no campo da educação e da evangelização, os Institutos que possuem a sua direcção estejam cientes da sua responsabilidade, fazendo com que nelas, ao mesmo tempo que se dialoga activamente com o contexto cultural actual, se conserve a peculiar índole católica, na plena fidelidade ao Magistério da Igreja. Além disso, conforme as circunstâncias, os membros destes Institutos e Sociedades mostrem-se prontos a entrar nas estruturas educativas estatais. A este tipo de intervenção, são particularmente chamados, devido à sua específica vocação, os membros dos Institutos seculares.

Evangelizar a cultura

98. Os Institutos de vida consagrada tiveram sempre uma grande influência na formação e na transmissão da cultura. Aconteceu isto na Idade Média, quando os mosteiros se tornaram lugares de acesso às riquezas culturais do passado e de elaboração de uma nova cultura humanista e cristã. Isso verificou-se todas as vezes que a luz do Evangelho alcançou novos povos. Muitas pessoas consagradas promoveram a cultura, e frequentemente examinaram e defenderam as culturas autóctones. A necessidade de contribuir para a promoção da cultura, para o diálogo entre a cultura e a fé, é hoje sentida, na Igreja, de modo absolutamente particular (239).

Os consagrados não podem deixar de se sentirem interpelados por esta urgência. Também eles são chamados, no anúncio da Palavra de Deus, a individuar métodos mais apropriados às exigências dos diversos grupos humanos e dos vários âmbitos profissionais, para que a luz de Cristo penetre em cada sector humano e o fermento da salvação transforme a partir de dentro a vida social, favorecendo a consolidação de uma cultura permeada pelos valores evangélicos (240). Também através de tal empenho, no limiar do terceiro milénio cristão, a vida consagrada poderá renovar a sua conformidade com os desígnios de Deus, que vem ao encontro de todas as pessoas que andam, consciente ou inconscientemente, por assim dizer, tacteando à procura da Verdade e da Vida (cf. Act 17,27).

Mas para além do serviço prestado aos outros, também no seio da vida consagrada há necessidade de um renovado amor pelo empenho cultural , de dedicação ao estudo como meio para a formação integral e como percurso ascético, extraordinariamente actual, frente à diversidade das culturas. A diminuição do empenho pelo estudo pode ter pesadas consequências mesmo no apostolado, gerando um sentido de marginalização e de inferioridade ou favorecendo superficialidade e imprudência nas iniciativas.

Na diversidade dos carismas e das reais possibilidades dos diversos Institutos, o empenho do estudo não se pode reduzir à formação inicial ou à consecução de títulos académicos e de habilitações profissionais. Mas é sobretudo expressão do desejo insaciável de conhecer mais profundamente a Deus, abismo de luz e fonte de toda a verdade humana. Por isso, tal empenho não isola a pessoa consagrada num intelectualismo abstracto, nem a fecha nas espirais de um narcisismo sufocante; pelo contrário, é incitamento ao diálogo e à partilha, é formação da capacidade de discernimento, é estímulo à contemplação e à oração, na busca incessante de Deus e da sua acção na complexa realidade do mundo contemporâneo.

A pessoa consagrada, deixando-se transformar pelo Espírito Santo, torna-se capaz de ampliar os horizontes dos limitados desejos humanos e, ao mesmo tempo, captar as dimensões profundas de cada indivíduo e sua história por detrás dos aspectos mais vistosos mas tantas vezes marginais. Inumeráveis são hoje os campos donde emergem desafios nas várias culturas: âmbitos novos ou já tradicionalmente palmilhados pela vida consagrada, com os quais é urgente manter fecundas relações, numa atitude de prudente sentido crítico mas também de atenção e confiança para com aquele que enfrenta as dificuldades típicas do trabalho intelectual, especialmente quando, em presença de problemas inéditos do nosso tempo, é preciso tentar análises e sínteses novas (241). Uma evangelização séria e válida dos novos âmbitos, onde se elabora e transmite a cultura, não pode ser operada sem uma activa colaboração com os leigos lá empenhados.

Presença no mundo da comunicação social

99. Assim como no passado as pessoas consagradas souberam, com os meios mais diversos, pôr-se ao serviço da evangelização, enfrentando genialmente as dificuldades, também hoje são interpeladas novamente pela exigência de testemunhar o Evangelho, através dos meios de comunicação social. Estes meios alcançaram uma capacidade de irradiação mundial, graças a tecnologias potentíssimas capazes de atingir qualquer ângulo da terra. As pessoas consagradas, sobretudo quando operam neste campo por carisma institucional, devem adquirir um conhecimento sério da linguagem própria destes meios, para falar eficazmente de Cristo ao homem de hoje, interpretando « as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias » (242) dele, e contribuir assim para a edificação de uma sociedade onde todos se sintam irmãos e irmãs a caminho de Deus.

Impõe-se, todavia, estar vigilantes contra o uso deformado destes meios, devido ao poder extraordinário de persuasão de que dispõem. Não se devem ignorar os problemas que daí podem derivar para a própria vida consagrada, mas sim enfrentá-los com um lúcido discernimento (243). A resposta da Igreja é sobretudo de ordem educativa: visa promover um comportamento de justa compreensão dos dinamismos subjacentes, uma cuidadosa avaliação ética dos programas, e ainda a adopção de hábitos sadios no seu desfrutamento (244). Neste âmbito educativo tendente a formar receptores sensatos e comunicadores especializados, as pessoas consagradas são chamadas a oferecer o seu particular testemunho sobre a relatividade de todas as realidades visíveis, ajudando os irmãos a valorizá-las segundo o desígnio de Deus, mas também a libertarem-se da dependência obsessiva da figura deste mundo que passa (cf. 1 Cor 7,31).

Todo o esforço neste novo e importante campo apostólico há-de ser encorajado, para que o Evangelho de Cristo ressoe também através destes meios modernos. Os vários Institutos estejam prontos a colaborar, com a contribuição de forças — meios e pessoas —, para realizar projectos comuns nos vários sectores da comunicação social. Além disso, quando surgirem oportunidades pastorais, as pessoas consagradas, especialmente os membros dos Institutos seculares, prestem de boa vontade o seu serviço para a formação religiosa dos responsáveis e operadores da comunicação social, pública ou privada, a fim de que, por um lado, se evitem os danos provocados pelo uso viciado de tais meios e, por outro, seja promovida uma qualidade superior das transmissões, com mensagens respeitadoras da lei moral e ricas de valores humanos e cristãos.

IV. EMPENHADOS NO DIÁLOGO COM TODOS

Ao serviço da unidade dos cristãos

100. A oração dirigida por Cristo ao Pai, antes da Paixão, para que os seus discípulos permanecessem na unidade (cf. Jo 17,21-23), perdura na oração e na acção da Igreja. Como poderiam deixar de se sentir implicados nela os chamados à vida consagrada? A ferida da desunião, ainda existente entre os crentes em Cristo, e a urgência de rezar e trabalhar para promover a unidade de todos os cristãos foram particularmente sentidas no Sínodo. A sensibilidade ecuménica dos consagrados e consagradas é reavivada também pela certeza de que noutras Igrejas e Comunidades eclesiais se conserva e floresce o monaquismo, como no caso das Igrejas orientais, ou se renova a profissão dos conselhos evangélicos, como na Comunhão anglicana e nas Comunidades da Reforma.

O Sínodo pôs em evidência o laço profundo da vida consagrada com a causa do ecumenismo e a urgência de um testemunho mais intenso neste campo. Na verdade, se a alma do ecumenismo é a oração e a conversão (245), não há dúvida que os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica têm uma particular obrigação de cultivar este empenho. Por isso, é urgente abrir, na vida das pessoas consagradas, espaços maiores à oração ecuménica e a um testemunho autenticamente evangélico, para que se possam abater, com a força do Espírito Santo, os muros das divisões e dos preconceitos entre os cristãos.

Formas de diálogo ecuménico

101. A partilha da lectio divina na busca da verdade, a participação na oração comum, na qual o Senhor garante a sua presença (cf. Mt 18,20), o diálogo da amizade e da caridade que faz sentir como é agradável viverem unidos os irmãos (cf. Sal 133132), a hospitalidade cordial praticada para com os irmãos e irmãs das diversas confissões cristãs, o conhecimento recíproco e a permuta dos dons, a colaboração em iniciativas comuns de serviço e de testemunho, são diversas formas de diálogo ecuménico, expressões agradáveis ao Pai comum e sinais da vontade de caminhar juntos para a unidade perfeita, pela senda da verdade e do amor (246). Igualmente o conhecimento da história, doutrina, liturgia, actividade caritativa e apostólica dos outros cristãos, não deixará de ser útil para uma acção ecuménica cada vez mais incisiva (247).

Quero encorajar aqueles Institutos que, por índole original ou por vocação sucessiva, se dedicam à promoção da unidade dos cristãos e, para a consecução da mesma, cultivam iniciativas de estudo e de acção concreta. Na realidade, nenhum Instituto de vida consagrada se deve sentir dispensado de trabalhar por esta causa. Dirijo ainda o meu pensamento às Igrejas orientais católicas, almejando que elas possam, nomeadamente através do monaquismo masculino e feminino, cuja graça do florescimento há-de ser implorada constantemente, colaborar para a unidade com as Igrejas ortodoxas, mercê do diálogo da caridade e da partilha da espiritualidade comum, património da Igreja indivisa do primeiro milénio.

Confio de modo particular o ecumenismo espiritual da oração, da conversão do coração, e da caridade aos mosteiros de vida contemplativa. Com esta finalidade, encorajo a sua presença nos lugares onde vivem comunidades cristãs de várias confissões, a fim de que a sua dedicação total à « única coisa necessária » (cf. Lc 10,42), ao culto de Deus e à intercessão pela salvação do mundo, juntamente com o seu testemunho de vida evangélica, segundo os próprios carismas, seja para todos um estímulo a viverem, à imagem da Trindade, naquela unidade que Jesus quis e pediu ao Pai para todos os seus discípulos.

O diálogo inter-religioso

102. Uma vez que « o diálogo inter-religioso faz parte da missão evangelizadora da Igreja » (248), os Institutos de vida consagrada não podem eximir-se de se empenharem também neste campo, cada qual segundo o próprio carisma e seguindo as indicações da autoridade eclesiástica. A primeira forma de evangelização junto dos irmãos e irmãs de outra religião há-de ser o próprio testemunho de uma vida pobre, humilde e casta, permeada de amor fraterno por todos. Ao mesmo tempo, a liberdade de espírito que é própria da vida consagrada favorecerá aquele « diálogo da vida » (249), no qual se realiza um modelo fundamental de missão e anúncio do Evangelho de Cristo. Para propiciar o conhecimento mútuo, o respeito e a caridade recíproca, os Institutos religiosos poderão ainda cultivar oportunas formas de diálogo, caracterizadas por amizade cordial e recíproca sinceridade, com os ambientes monásticos de outras religiões.

Outro âmbito de colaboração com homens e mulheres de tradição religiosa diversa é a solicitude pela vida humana, que se estende da compaixão pelo sofrimento físico e espiritual até ao compromisso pela justiça, a paz e a salvaguarda da criação. Nestes sectores, hão-de ser sobretudo os Institutos de vida activa a procurarem o consenso com os membros de outras religiões, naquele « diálogo das obras » (250), que prepara o caminho para uma partilha mais profunda.

Um campo especial de operoso encontro com pessoas de outras tradições religiosas é a procura e promoção da dignidade da mulher. Na perspectiva da igualdade e da recta reciprocidade entre o homem e a mulher, um precioso serviço pode ser prestado principalmente pelas mulheres consagradas (251).

Estes e outros compromissos das pessoas consagradas ao serviço do diálogo inter-religioso exigem uma preparação adequada na formação inicial e na formação permanente, como também no estudo e na pesquisa (252), uma vez que, neste sector não fácil, é preciso um conhecimento profundo do cristianismo e das outras religiões, acompanhado de fé sólida e de maturidade espiritual e humana.

Uma resposta de espiritualidade à busca do sagrado e à nostalgia de Deus

103. Aqueles que abraçam a vida consagrada, homens e mulheres, colocam-se, pela natureza mesma da sua opção, como interlocutores privilegiados daquela procura de Deus que desde sempre inquieta o coração do homem e o conduz a múltiplas formas de ascese e de espiritualidade. Hoje, em muitas regiões, uma tal procura emerge insistente como resposta a culturas que tendem claramente a marginalizar, se não mesmo a negar, a dimensão religiosa da existência.

As pessoas consagradas, vivendo com coerência e em plenitude os compromissos livremente assumidos, podem oferecer uma resposta aos anseios dos seus contemporâneos, que por eles são descartados com soluções a maior parte das vezes ilusórias e frequentemente negadoras da encarnação salvadora de Cristo (cf. 1 Jo 4,2-3), como as que são propostas, por exemplo, pelas seitas. Praticando uma ascese pessoal e comunitária que purifica e transfigura toda a sua existência, as pessoas consagradas testemunham, contra a tentação do egocentrismo e da sensualidade, as características da busca autêntica de Deus, e chamam a atenção para não a confundir com uma subtil busca de si próprios ou com a fuga para a gnose. Cada pessoa consagrada assume a obrigação de cultivar o homem interior, que não se alheia da história nem se fecha sobre si mesmo. Vivendo na escuta obediente da Palavra, de que a Igreja é guardiã e intérprete, ela aponta Cristo sumamente amado e o Mistério Trinitário como o objecto do anseio profundo do coração humano e a meta de todo o itinerário religioso sinceramente aberto à transcendência.

Por isso, as pessoas consagradas têm o dever de oferecer generosamente acolhimento e acompanhamento espiritual a quantos, movidos pela sede de Deus e desejosos de viverem as exigências profundas da sua fé, se lhes dirigem (253).

CONCLUSÃO

A superabundância da gratuidade

104. Diversos são aqueles que hoje se interrogam perplexos: Porquê a vida consagrada? Porquê abraçar este género de vida, quando existem tantas urgências, no âmbito da assistência e mesmo da evangelização, às quais se pode responder igualmente sem assumir os compromissos peculiares da vida consagrada? Porventura não é a vida consagrada uma espécie de « desperdício » de energias humanas que podiam ser utilizadas, segundo critérios de eficiência, para um bem maior da humanidade e da Igreja?

Estas perguntas são mais frequentes na nossa época, porque incentivadas por uma cultura utilitarista e tecnocrática que tende a avaliar a importância das coisas e também das pessoas sobre a base da sua « funcionalidade » imediata. Mas sempre existiram interrogações semelhantes, como o demonstra eloquentemente o episódio evangélico da unção de Betânia: « Maria, tomando uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-os com os cabelos; e a casa encheu-se com o cheiro do perfume » (Jo 12,3). A Judas que, tomando como pretexto as necessidades dos pobres, se lamentava por tão grande desperdício, Jesus respondeu: « Deixa-a fazer! » (cf. Jo 12,7).

Esta é a resposta, sempre válida, à pergunta que tantos, mesmo em boa fé, colocam acerca da actualidade da vida consagrada: não se poderia empregar a própria existência, de um modo mais eficiente e racional, para a melhoria da sociedade? Eis a resposta de Jesus: « Deixa-a fazer »!

A quem foi concedido o dom de seguir mais de perto o Senhor Jesus, é óbvio que Ele possa e deva ser amado com coração indiviso, que se Lhe possa dedicar a vida toda e não apenas alguns gestos, alguns momentos ou algumas actividades. O perfume de alto preço, derramado como puro acto de amor e, por conseguinte, fora de qualquer consideração « utilitarista », é sinal de uma superabundância de gratuidade, como a que transparece numa vida gasta a amar e a servir o Senhor, a dedicar-se à sua Pessoa e ao seu Corpo Místico. Mas é desta vida « derramada » sem reservas que se difunde um perfume que enche toda a casa. A casa de Deus, a Igreja, é adornada e enriquecida hoje, não menos que outrora, pela presença da vida consagrada.

Aquilo que pode parecer aos olhos dos homens um desperdício, para a pessoa fascinada no segredo do coração pela beleza e bondade do Senhor é uma óbvia resposta de amor, é gratidão e regozijo por ter sida admitida de modo absolutamente especial ao conhecimento do Filho e na partilha da sua missão divina no mundo.

« Se um filho de Deus conhecesse e saboreasse o amor divino, Deus incriado, Deus encarnado, Deus apaixonado, que é o sumo bem, dar-Lhe-ia tudo, livrar-se-ia não só das outras criaturas, mas até de si próprio, e, com tudo o que é, amaria este Deus de amor até se transformar todo no Deus-Homem, sumamente Amado » (254).

A vida consagrada ao serviço do Reino de Deus

105. « Que seria do mundo se não existissem os religiosos? » (255). Deixando de lado as avaliações superficiais de funcionalismo, sabemos que a vida consagrada é importante precisamente por ser superabundância de gratuidade e de amor, o que se torna ainda mais verdadeiro num mundo que se arrisca a ficar sufocado na vertigem do efémero. « Sem este sinal concreto, a caridade que anima a Igreja inteira correria o risco de refrear-se, o paradoxo salvífico do Evangelho de atenuar-se, o “sal” da fé de diluir-se num mundo em fase de secularização » (256). A vida da Igreja e a própria sociedade têm necessidade de pessoas capazes de se dedicarem totalmente a Deus e aos outros por amor de Deus.

A Igreja não pode absolutamente renunciar à vida consagrada, porque esta exprime de modo eloquente a sua íntima essência « esponsal ». Nela encontra novo impulso e vigor o anúncio do Evangelho a todo o mundo. Na verdade, há necessidade de quem apresente o rosto paterno de Deus e o rosto materno da Igreja, de quem ponha em jogo a própria vida, para que outros tenham vida e esperança. A Igreja precisa de pessoas consagradas que, ainda antes de se empenharem nesta ou naquela causa nobre, se deixem transformar pela graça de Deus e se conformem plenamente com o Evangelho.

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