Vita consecrata do santo padre



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O dever missionário das pessoas consagradas tem a ver primeiro com elas próprias, e cumprem-no abrindo o seu coração à acção do Espírito de Cristo. O seu testemunho ajuda a Igreja inteira a lembrar-se de que em primeiro lugar está o serviço gratuito de Deus, tornado possível pela graça de Cristo, comunicada ao crente pelo dom do Espírito. Deste modo, é anunciada ao mundo a paz que desce do Pai, a dedicação que é testemunhada pelo Filho, a alegria que é fruto do Espírito Santo.

As pessoas consagradas serão missionárias, antes de mais, aprofundando continuamente a consciência de terem sido chamadas e escolhidas por Deus, para quem devem, por isso mesmo, orientar toda a sua vida e oferecer tudo o que são e possuem, libertando-se dos obstáculos que poderiam retardar a resposta total de amor. Desta forma, poderão tornar-se um verdadeiro sinal de Cristo no mundo. Também o seu estilo de vida deve fazer transparecer o ideal que professam, propondo-se como sinal vivo de Deus e como persuasiva pregação, ainda que muitas vezes silenciosa, do Evangelho.

Sempre, mas especialmente na cultura contemporânea muitas vezes tão secularizada e apesar disso sensível à linguagem dos sinais, a Igreja deve-se preocupar por tornar visível a sua presença na vida quotidiana. Uma contribuição significativa neste sentido, ela tem direito de esperá-la das pessoas consagradas, chamadas a prestar, em cada situação, um testemunho concreto da sua pertença a Cristo.

Visto que o hábito é sinal de consagração, de pobreza e de pertença a uma determinada família religiosa, unindo-me aos Padres do Sínodo recomendo vivamente aos religiosos e religiosas que usem o seu hábito, adaptado convenientemente às circunstâncias dos tempos e lugares (42). Onde válidas exigências apostólicas o aconselharem, poderão, em conformidade com as normas do próprio Instituto, usar um vestuário simples mas digno, com um símbolo apropriado, de modo que seja reconhecível a sua consagração.

Os Institutos que, já desde a origem ou por disposição das suas constituições, não prevêem um hábito próprio, cuidem de que o vestuário dos seus membros corresponda, em dignidade e simplicidade, à natureza da sua vocação (43).

Dimensão escatológica da vida consagrada

26. Dado que hoje as preocupações apostólicas se fazem sentir sempre com maior urgência e o empenhamento nas coisas deste mundo corre o risco de ser cada vez mais absorvente, torna-se particularmente oportuno chamar a atenção para a natureza escatológica da vida consagrada.

« Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração » (Mt 6,21): esse tesouro único, que é o Reino, suscita desejo, expectativa, compromisso e testemunho. Na Igreja primitiva, a expectativa da vinda do Senhor era vivida de modo particularmente intenso. A Igreja não cessou de alimentar esta atitude de esperança, ao longo dos séculos: continuou a convidar os fiéis a levantarem os seus olhos para a salvação pronta a revelar-se, « porque a figura deste mundo passa » (1 Cor 7,31; cf. 1 Ped 1,3-6) (44).

É neste horizonte que melhor se compreende a função de sinal escatológico, própria da vida consagrada. De facto, é constante a doutrina que a apresenta como antecipação do Reino futuro. O Concílio Vaticano II reitera este ensinamento, quando afirma que a consagração « preanuncia a ressurreição futura e a glória do Reino celeste » (45). Fá-lo, antes de mais, pela opção virginal, concebida sempre pela tradição como uma antecipação do mundo definitivo, que já desde agora actua e transforma o homem na sua globalidade.

As pessoas que dedicaram a sua vida a Cristo, não podem deixar de viver no desejo de O encontrar, para estarem finalmente e para sempre com Ele. Daí a esperança ardente, daí o desejo de « entrarem na Fornalha de amor que nelas arde, e que outra coisa não é que o Espírito Santo » (46): esperança e desejo amparados pelos dons que o Senhor livremente concede a quantos aspiram às coisas do alto (cf. Col 3,1).

Com o olhar fixo nas coisas do Senhor, a pessoa consagrada lembra que « não temos aqui cidade permanente » (Heb 13,14), porque « somos cidadãos do Céu » (Fil 3,20). A única coisa necessária é buscar « o Reino de Deus e a sua justiça » (Mt 6,33), implorando sem cessar a vinda do Senhor.

Uma esperança activa: compromisso e vigilância

27. « Vem, Senhor Jesus! » (Ap 22,20). Esta esperança está bem longe de ser passiva: apesar de apontar para o Reino futuro, ela exprime-se em trabalho e missão, para que o Reino se torne presente já desde agora, através da instauração do espírito das bem-aventuranças, capaz de suscitar anseios eficazes de justiça, paz, solidariedade e perdão, mesmo na sociedade humana.

Isto está amplamente demonstrado na história da vida consagrada, que sempre produziu frutos abundantes mesmo em favor da sociedade. Pelos seus carismas, as pessoas consagradas tornam-se um sinal do Espírito em ordem a um futuro novo, iluminado pela fé e pela esperança cristã. A tensão escatológica transforma-se em missão, para que o Reino se afirme de modo crescente, aqui e agora. À súplica « Vem, Senhor Jesus! », une-se a outra invocação: « Venha a nós o teu Reino! » (cf. Mt 6,10).

Aquele que espera, vigilante, o cumprimento das promessas de Cristo, é capaz de infundir também esperança nos seus irmãos e irmãs, frequentemente desanimados e pessimistas relativamente ao futuro. A sua esperança está fundada na promessa de Deus, contida na Palavra revelada: a história dos homens caminha para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21,1), onde o Senhor « enxugará as lágrimas dos seus olhos; não haverá mais morte, nem pranto, nem gritos, nem dor, porque as primeiras coisas passaram » (Ap 21,4).

A vida consagrada está ao serviço desta irradiação definitiva da glória divina, quando toda a criatura vir a salvação de Deus (cf. Lc 3,6; Is 40,5). O Oriente cristão sublinha esta dimensão, ao considerar os monges como anjos de Deus sobre a terra, que anunciam a renovação do mundo em Cristo. No Ocidente, o monaquismo é celebração feita de memória e vigília: memória das maravilhas realizadas por Deus, vigília do cumprimento definitivo da esperança. A mensagem do monaquismo e da vida contemplativa repete, sem cessar, que o primado de Deus é plenitude de sentido e de alegria para a vida humana, pois o homem está feito para Deus e vive inquieto até encontrar n'Ele a paz (47).

A Virgem Maria, modelo de consagração e seguimento

28. Maria é aquela que, desde a sua imaculada conceição, reflecte mais perfeitamente a beleza divina. « Toda sois formosa »: com estas palavras, A invoca a Igreja. « A relação com Maria Santíssima, que todo o fiel tem em consequência da sua união com Cristo, resulta ainda mais acentuada na vida das pessoas consagradas. (...) Em todos [os Institutos de vida consagrada], existe a convicção de que a presença de Maria tem uma importância fundamental, quer para a vida espiritual de cada uma das almas consagradas, quer para a consistência, unidade e progresso da inteira comunidade » (48).

Maria é, de facto, exemplo sublime de perfeita consagração, pela sua pertença plena e dedicação total a Deus. Escolhida pelo Senhor, que n'Ela quis cumprir o mistério da Encarnação, lembra aos consagrados o primado da iniciativa de Deus. Ao mesmo tempo, dando o seu consentimento à Palavra divina que n'Ela Se fez carne, Maria aparece como modelo de acolhimento da graça por parte da criatura humana.

Unida a Cristo, juntamente com José, na vida escondida de Nazaré, presente junto do Filho em momentos cruciais da sua vida pública, a Virgem é mestra de seguimento incondicional e de assíduo serviço. Assim n'Ela, « templo do Espírito Santo » (49), brilha todo o esplendor da nova criatura. A vida consagrada contempla-A como modelo sublime de consagração ao Pai, de união com o Filho e de docilidade ao Espírito, na certeza de que aderir « ao género de vida virginal e pobre » (50) de Cristo significa assumir também o género de vida de Maria.

Mas na Virgem, a pessoa consagrada encontra ainda uma Mãe por um título absolutamente especial. De facto, se a nova maternidade conferida a Maria no Calvário é um dom feito a todos os cristãos, tem um valor específico para quem consagrou plenamente a própria vida a Cristo. « Eis aí a tua Mãe » (Jo 19,27): estas palavras de Jesus, dirigidas ao discípulo « que Ele amava » (Jo 19,26), assumem uma profundidade particular na vida da pessoa consagrada. De facto, esta é chamada, como João, a tomar consigo Maria Santíssima (cf. Jo 19,27), amando-A e imitando-A com a radicalidade própria da sua vocação, e experimentando da parte d'Ela, em contrapartida, uma especial ternura materna. A Virgem comunica-lhe aquele amor que lhe permite oferecer todos os dias a vida por Cristo, cooperando com Ele na salvação do mundo. Por isso, a relação filial com Maria constitui o caminho privilegiado para a fidelidade à vocação recebida e uma ajuda muito eficaz para nela progredir e vivê-la em plenitude (51).

III. NA IGREJA E PARA A IGREJA

« É bom estarmos aqui »: a vida consagrada no mistério da Igreja

29. Na cena da Transfiguração, Pedro fala em nome dos outros apóstolos: « É bom [nós] estarmos aqui » (Mt 17,4). A experiência da glória de Cristo, apesar de lhe inebriar a mente e o coração, não o isola, antes pelo contrário liga-o mais profundamente ao « nós » que são os discípulos.

Esta dimensão do « nós » leva-nos a considerar o lugar que a vida consagrada ocupa no mistério da Igreja. Nestes anos, a reflexão teológica acerca da natureza da vida consagrada aprofundou as novas perspectivas derivadas da doutrina do Concílio Vaticano II. À sua luz, constatou-se que a profissão dos conselhos evangélicos pertence indiscutivelmente à vida e à santidade da Igreja (52). Isto significa que a vida consagrada, presente na Igreja desde os primeiros tempos, nunca poderá faltar nela, enquanto seu elemento imprescindível e qualificativo, expressão da sua própria natureza.

Isto resulta evidente do facto de a profissão dos conselhos evangélicos estar intimamente ligada com o mistério de Cristo, já que tem a função de tornar de algum modo presente a forma de vida que Ele escolheu, apontando-a como valor absoluto e escatológico. O próprio Jesus, ao chamar algumas pessoas a deixarem tudo para O seguirem, inaugurou este género de vida que, sob a acção do Espírito, se desenvolverá gradualmente, ao longo dos séculos, nas várias formas de vida consagrada. Portanto, a concepção de uma Igreja composta unicamente por ministros sagrados e por leigos não corresponde às intenções do seu divino Fundador, tais como no-las apresentam os Evangelhos e outros escritos neo-testamentários.

A nova e especial consagração

30. Na tradição da Igreja, a profissão religiosa é considerada como um singular e fecundo aprofundamento da consagração baptismal, visto que nela a união íntima com Cristo, já inaugurada no Baptismo, evolui para o dom de uma conformação expressa e realizada mais perfeitamente, através da profissão dos conselhos evangélicos (53).

Todavia esta nova consagração reveste uma sua peculiaridade relativamente à primeira, da qual não é uma consequência necessária (54). Na verdade, todo aquele que foi regenerado em Cristo é chamado a viver, pela força que lhe vem do dom do Espírito, a castidade própria do seu estado de vida, a obediência a Deus e à Igreja, e um razoável desapego dos bens materiais, porque todos são chamados à santidade, que consiste na perfeição da caridade (55). Mas o Baptismo, por si mesmo, não comporta o chamamento ao celibato ou à virgindade, a renúncia à posse dos bens, e a obediência a um superior, na forma exigida pelos conselhos evangélicos. Portanto, a profissão destes últimos supõe um dom particular de Deus não concedido a todos, como Jesus mesmo sublinha no caso do celibato voluntário (cf. Mt 19, 10-12).

A este chamamento especial corresponde, de resto, um dom específico do Espírito Santo, para que a pessoa consagrada possa responder à sua vocação e missão. Por isso, como testemunham as liturgias do Oriente e do Ocidente no rito da profissão monástica ou religiosa e na consagração das virgens, a Igreja invoca sobre as pessoas escolhidas o dom do Espírito Santo, e associa a sua oblação ao sacrifício de Cristo (56).

A profissão dos conselhos evangélicos é um desenvolvimento também da graça do sacramento da Confirmação, mas ultrapassa as exigências normais da consagração crismal em virtude de um dom particular do Espírito, que predispõe para novas possibilidades e novos frutos de santidade e de apostolado, como demonstra a história da vida consagrada.

Quanto aos sacerdotes que fazem a profissão dos conselhos evangélicos, a experiência demonstra que o sacramento da Ordem encontra uma fecundidade peculiar em tal consagração, visto que esta requer e favorece a exigência de uma pertença mais íntima ao Senhor. O sacerdote que faz a profissão dos conselhos evangélicos fica particularmente habilitado para reviver em si próprio a plenitude do mistério de Cristo, graças inclusivamente à espiritualidade peculiar do próprio Instituto e à dimensão apostólica do respectivo carisma. No presbítero, com efeito, a vocação ao sacerdócio e à vida consagrada convergem numa unidade profunda e dinâmica.

Valor incalculável tem também a contribuição dada à vida da Igreja pelos religiosos sacerdotes, dedicados integralmente à contemplação. Especialmente na Celebração Eucarística, eles cumprem um acto da Igreja e para a Igreja, ao qual unem a oferta de si próprios, em comunhão com Cristo que Se oferece ao Pai pela salvação de todo o mundo (57).

As relações entre os vários estados de vida do cristão

31. As diversas formas de vida, em que, segundo o desígnio de Cristo Senhor, se articula a vida eclesial, apresentam recíprocas relações, sobre as quais convém deter-se.

Todos os fiéis, em virtude da sua regeneração em Cristo, compartilham a mesma dignidade; todos são chamados à santidade; todos cooperam para a edificação do único Corpo de Cristo, cada qual segundo a própria vocação e o dom recebido do Espírito (cf. Rm 12,3-8) (58). A dignidade igual entre todos os membros da Igreja é obra do Espírito, está fundada no Baptismo e na Confirmação, e é corroborada pela Eucaristia. Mas é também obra do Espírito a multiplicidade de formas. É Ele que faz da Igreja uma comunhão orgânica na sua diversidade de vocações, carismas e ministérios (59).

As vocações à vida laical, ao ministério ordenado e à vida consagrada podem-se considerar paradigmáticas, uma vez que todas as vocações particulares, sob um aspecto ou outro, se inspiram ou conduzem àquelas, assumidas separada ou conjuntamente, segundo a riqueza do dom de Deus. Além disso, elas estão ao serviço umas das outras, em ordem ao crescimento do Corpo de Cristo na história e à sua missão no mundo. Todos, na Igreja, são consagrados no Baptismo e na Confirmação, mas o ministério ordenado e a vida consagrada supõem, cada qual, uma distinta vocação e uma forma específica de consagração, com vista a uma missão peculiar.

Para a missão dos leigos — aos quais compete « procurar o Reino de Deus, tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus » (60) —, é fundamento adequado a consagração baptismal e crismal, comum a todos os membros do Povo de Deus. Os ministros ordenados, além dessa consagração fundamental, recebem também a da Ordenação, para continuar no tempo o ministério apostólico. As pessoas consagradas , que abraçam os conselhos evangélicos, recebem uma nova e especial consagração que, apesar de não ser sacramental, as compromete a assumirem — no celibato, na pobreza e na obediência — a forma de vida praticada pessoalmente por Jesus, e por Ele proposta aos discípulos. Embora estas diversas categorias sejam manifestação do único mistério de Cristo, os leigos têm como característica peculiar, embora não exclusiva, a secularidade, os pastores a « ministerialidade », os consagrados a conformação especial a Cristo virgem, pobre e obediente.

O valor especial da vida consagrada

32. Neste conjunto harmonioso de dons, está confiado a cada um dos estados de vida fundamentais o encargo de exprimir, ao próprio nível, ora uma ora outra das dimensões do único mistério de Cristo. Se, para fazer ressoar o anúncio evangélico no âmbito das realidades temporais, tem uma missão particular a vida laical, no âmbito da comunhão eclesial um ministério insubstituível é desempenhado por aqueles que estão constituídos na Ordem sagrada, de modo especial pelos Bispos. Estes têm a tarefa de guiar o Povo de Deus, mediante o ensinamento da Palavra, a administração dos Sacramentos e o exercício do poder sagrado ao serviço da comunhão eclesial, que é comunhão orgânica e hierarquicamente ordenada (61).

Na manifestação da santidade da Igreja, há que reconhecer uma objectiva primazia à vida consagrada , que reflecte o próprio modo de viver de Cristo. Por isso mesmo, nela se encontra uma manifestação particularmente rica dos valores evangélicos e uma actuação mais completa do objectivo da Igreja que é a santificação da humanidade. A vida consagrada anuncia e de certo modo antecipa o tempo futuro, quando, alcançada a plenitude daquele Reino dos céus que agora está presente apenas em gérmen e no mistério (62), os filhos da ressurreição não tomarão esposa nem marido, mas serão como anjos de Deus (cf. Mt 22,30).

De facto, a primazia da castidade perfeita pelo Reino (63), justamente considerada a « porta » de toda a vida consagrada (64), é objecto do ensinamento constante da Igreja. De resto, esta tributa grande estima também à vocação para o matrimónio, que torna os esposos « testemunhas e cooperadores da fecundidade da Igreja, nossa mãe, em sinal e participação daquele amor, com que Cristo amou a sua Esposa e por ela Se entregou »(65).

Neste horizonte comum a toda a vida consagrada, articulam-se caminhos distintos entre si, mas complementares. Os religiosos e religiosas dedicados integralmente à contemplação são, de modo especial, imagem de Cristo em oração sobre o monte (66). As pessoas consagradas de vida activa manifestam Jesus « anunciando às multidões o Reino de Deus, curando os doentes e feridos, trazendo os pecadores à conversão, abençoando as criancinhas e fazendo bem a todos » (67). Um particular serviço ao advento do Reino de Deus, prestam-no as pessoas consagradas nos Institutos Seculares, que unem, numa síntese específica, o valor da consagração com o da secularidade. Vivendo a sua consagração no século e a partir do século (68), elas « esforçam-se, à maneira de fermento, por impregnar todas as coisas do espírito do Evangelho para robustecimento e incremento do Corpo de Cristo » (69). Com vista a tal fim, participam na função evangelizadora da Igreja, mediante o testemunho pessoal de vida cristã, o empenho de que as realidades temporais sejam ordenadas segundo Deus, a colaboração no serviço da comunidade eclesial, segundo o estilo de vida secular que lhes é próprio (70).

Testemunhar o Evangelho das bem-aventuranças

33. Missão peculiar da vida consagrada é manter viva nos baptizados a consciência dos valores fundamentais do Evangelho, graças ao seu « magnífico e privilegiado testemunho de que não se pode transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-aventuranças » (71). Deste modo, a vida consagrada suscita continuamente, na consciência do Povo de Deus, a exigência de responder com a santidade de vida ao amor de Deus derramado nos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5), reflectindo na conduta a consagração sacramental realizada por acção de Deus no Baptismo, na Confirmação, ou na Ordem. Na verdade, é preciso que da santidade comunicada nos sacramentos se passe à santidade da vida quotidiana. A vida consagrada existe na Igreja precisamente para se pôr ao serviço da consagração da vida de todo o fiel, leigo ou clérigo.

Por outro lado, não se deve esquecer que também os consagrados recebem, do testemunho próprio das outras vocações, uma ajuda para viver integralmente a adesão ao mistério de Cristo e da Igreja, nas suas múltiplas dimensões. Graças a este enriquecimento recíproco, torna-se mais eloquente e eficaz a missão da vida consagrada: mantendo fixo o seu olhar na paz futura, indica como meta aos irmãos e irmãs a Bem-aventurança definitiva junto de Deus.

Imagem viva da Igreja-Esposa

34. Particular relevo tem o significado esponsal da vida consagrada, que reflecte a exigência de a Igreja viver em doação plena e exclusiva para seu Esposo, do qual recebe todo o bem. Nesta dimensão esponsal característica de toda a vida consagrada, é sobretudo a mulher que se reconhece de modo singular em sua própria identidade, de certa forma descobrindo aí a índole especial do seu relacionamento com o Senhor.

A tal propósito, é sugestivo o texto neo-testamentário que apresenta Maria reunida com os Apóstolos, no Cenáculo, aguardando em oração a vinda do Espírito Santo (cf. Act 1,13-14). Pode-se ver aqui uma expressiva imagem da Igreja-Esposa, atenta aos sinais do Esposo e pronta a acolher o seu dom. Na figura de Pedro e demais apóstolos, ressalta sobretudo a dimensão da fecundidade operada pelo ministério eclesial, que se faz instrumento do Espírito para a geração de novos filhos através da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos e pela solicitude pastoral. Já em Maria, é particularmente viva a dimensão do acolhimento esponsal com que a Igreja faz frutificar em si mesma a vida divina, através da totalidade do seu amor virginal.

A vida consagrada sempre foi identificada prevalentemente com esta parte de Maria, a Virgem Esposa. Deste amor virginal, provém uma particular fecundidade que contribui para o nascimento e crescimento da vida divina nos corações (72). A pessoa consagrada, seguindo o exemplo de Maria, nova Eva, exprime a sua fecundidade espiritual, tornando-se acolhedora da Palavra, para colaborar na construção da nova humanidade com a sua dedicação incondicional e o seu testemunho vivo. Desta forma, a Igreja manifesta plenamente a sua maternidade, quer mediante a comunicação da acção divina confiada a Pedro, quer através do acolhimento responsável do dom divino, típico de Maria.

O povo cristão, por seu lado, encontra no ministério ordenado os meios de salvação, e na vida consagrada o estímulo para uma resposta cabal de amor em cada uma das várias formas de diaconia (73).

IV. GUIADOS PELO ESPÍRITO DE SANTIDADE

Existência « transfigurada »: a vocação à santidade

35. « Ao ouvirem isto, os discípulos caíram por terra, muito assustados » (Mt 17,6). No episódio da Transfiguração, os sinópticos põem em evidência, embora com acentuações diferentes, a sensação de temor que se apodera dos discípulos. O fascínio do rosto transfigurado de Cristo não os impede de se sentirem assustados diante da Majestade divina que os ultrapassa. Sempre que o homem vislumbra a glória de Deus, faz também a experiência da sua pequenez, provocando nele uma sensação de medo. Este temor é salutar. Recorda ao homem a perfeição divina, e ao mesmo tempo incita-o com um premente apelo à « santidade ».

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