Vita consecrata do santo padre



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Esta colaboração activa de todo o Povo de Deus, sustentada pela Providência, não poderá deixar de apressar a abundância dos dons divinos. A solidariedade cristã venha generosamente ao encontro das necessidades da formação vocacional, nos países economicamente mais pobres. A promoção das vocações nestas nações seja efectuada pelos vários Institutos em plena harmonia com as Igrejas particulares, na base de uma activa e prolongada inserção na sua pastoral (162). O modo mais autêntico para secundar a acção do Espírito há-de ser o de investir generosamente as melhores energias na actividade vocacional, especialmente por uma adequada dedicação à pastoral juvenil.

O dever da formação inicial

65. A Assembleia sinodal prestou particular atenção à formação de quem deseja consagrar-se ao Senhor (163), reconhecendo a sua importância decisiva. Objectivo central do caminho de formação é a preparação da pessoa para a consagração total de si mesma a Deus no seguimento de Cristo, ao serviço da missão. Responder « sim » ao chamamento de Deus, assumindo pessoalmente o dinamismo do crescimento vocacional, é responsabilidade inalienável de cada chamado, que deve abrir o espaço da própria vida à acção do Espírito Santo; é percorrer com generosidade o caminho de formação, acolhendo com fé as mediações que o Senhor e a Igreja lhe oferecem (164).

A formação deverá, pois, atingir em profundidade a própria pessoa, de tal modo que cada uma das suas atitudes ou gestos, tanto nos momentos importantes como nas circunstâncias ordinárias da vida, possa revelar a sua pertença total e feliz a Deus (165). Uma vez que o fim da vida consagrada consiste na configuração com o Senhor Jesus e com a sua oblação total (166), para isso sobretudo é que deve apontar a formação. Trata-se de um itinerário de progressiva assimilação dos sentimentos de Cristo para com o Pai.

Se esta é a finalidade da vida consagrada, o método que prepara para ela deverá assumir e manifestar a característica da totalidade . Deverá ser formação da pessoa toda, nos vários aspectos da sua individualidade, tanto nos comportamentos como nas intenções. Exactamente porque tende à transformação da pessoa toda (167), está claro que o dever da formação nunca termina. Importa, de facto, que às pessoas consagradas sejam oferecidas, até ao fim, oportunidades de crescimento na adesão ao carisma e à missão do próprio Instituto.

A  formação, por ser total, compreenderá todos os campos da vida cristã e da vida consagrada. Assim, há-de estar prevista uma preparação humana, cultural, espiritual e pastoral, colocando todo o cuidado por que seja favorecida a integração harmónica dos diversos aspectos. À formação inicial, entendida como processo evolutivo que passa por cada grau do amadurecimento pessoal — desde o psicológico e espiritual até ao teológico e pastoral —, deve-se reservar um período de tempo suficientemente amplo. No caso das vocações para o presbiterado, acaba por coincidir e harmonizar-se com um programa específico de estudos que faz parte de um percurso formativo bem mais amplo.

A tarefa dos formadores e formadoras

66. Deus Pai, pelo dom contínuo de Cristo e do Espírito, é o formador por excelência de quem a Ele se consagra. Mas nesta obra, Ele serve-Se da mediação humana, colocando ao lado dos que chama alguns irmãos e irmãs mais velhos. A formação é, portanto, participação na acção do Pai que, através do Espírito, plasma no coração dos jovens e das jovens os sentimentos do Filho. Assim, os formadores e formadoras devem ser especialistas no caminho da procura de Deus, para serem capazes de acompanhar também outros neste itinerário. Atentos à acção da graça, saberão apontar os obstáculos, mesmo os menos visíveis, mas sobretudo hão-de mostrar a beleza do seguimento do Senhor e o valor do carisma em que isso se concretiza. Às luzes da sabedoria espiritual unirão a iluminação oferecida pelos instrumentos humanos, que possam servir de ajuda tanto no discernimento vocacional, como na formação do homem novo, para que se torne autenticamente livre. Instrumento essencial de formação é o colóquio pessoal, que há-de verificar-se regularmente com uma certa frequência, como tradição de insubstituível e comprovada eficácia.

Perante tarefas tão delicadas, resulta verdadeiramente importante a preparação de formadores idóneos, que, no seu serviço, assegurem uma grande sintonia com o caminho de toda a Igreja. Será oportuno criar estruturas adequadas para a preparação dos formadores, se possível em lugares onde seja proporcionado o contacto com a cultura em que há-de ser, depois, exercido o serviço pastoral. Nesta obra de formação, os Institutos que já se encontrem melhor radicados dêem uma mão aos Institutos de fundação mais recente, graças à ajuda de alguns dos seus melhores membros (168).

Uma formação comunitária e apostólica

67. Visto que a formação deve ser também comunitária, o seu lugar privilegiado no caso dos Institutos de vida religiosa e das Sociedades de Vida Apostólica é a comunidade. Nesta, tem lugar a iniciação à dificuldade e à alegria de viverem juntos. Aí cada um aprende a viver em fraternidade com aquele que Deus pôs ao seu lado, aceitando as suas características positivas juntamente com as suas diferenças e limitações. De modo particular, aprende a partilhar os dons recebidos para a edificação de todos, visto que « a manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito comum » (1 Cor 12,7) (169). Ao mesmo tempo, a vida comunitária deve mostrar, desde a formação inicial, a dimensão missionária intrínseca à consagração. Por isso nos Institutos de vida consagrada, durante o período da formação inicial, será útil realizar experiências concretas, prudentemente acompanhadas pelo formador ou formadora, para exercitar, no diálogo com a cultura circundante, as atitudes apostólicas, a capacidade de adaptação, o espírito de iniciativa.

Se, por um lado, é importante que a pessoa consagrada vá adquirindo progressivamente uma consciência evangelicamente crítica face aos valores e contra-valores tanto da cultura própria como daquela que encontrará no futuro campo de trabalho, por outro, ela deve exercitar-se na difícil arte da unidade de vida, da mútua compenetração da caridade para com Deus e para com os irmãos e irmãs, experimentando que a oração é a alma do apostolado, mas que também o apostolado vivifica e estimula a oração.

Necessidade de uma ratio completa e actualizada

68. Um período explícito de formação, que se estenda até à profissão perpétua, é recomendado também para os religiosos irmãos, tanto dos Institutos femininos como dos masculinos. O mesmo vale substancialmente também para as comunidades claustrais, que terão o cuidado de elaborar um programa adequado, tendo em vista uma autêntica formação para a vida contemplativa e para a sua missão peculiar na Igreja.

Os Padres sinodais solicitaram vivamente a todos os Institutos de vida consagrada e Sociedades de Vida Apostólica que elaborassem, quanto antes, uma ratio institutionis, isto é, um projecto de formação inspirado no carisma institucional, no qual se apresente, de forma clara e dinâmica, o caminho a seguir para se assimilar plenamente a espiritualidade do próprio Instituto. A ratio dá resposta a uma verdadeira urgência de hoje: por um lado, indica o modo de transmitir o espírito do Instituto, a fim de ser vivido em toda a sua genuinidade pelas novas gerações, na diversidade das culturas e das situações geográficas, e, por outro, ilustra às pessoas consagradas os meios para viverem o mesmo espírito nas várias fases da existência, avançando para a plena maturidade da fé em Cristo Jesus.

Portanto, se é verdade que a renovação da vida consagrada depende principalmente da formação, é igualmente certo que esta, por sua vez, está ligada à capacidade de propor um método rico de sabedoria espiritual e pedagógica, que leve progressivamente a assumir os sentimentos de Cristo Senhor quem aspira a consagrar-se. A formação é um processo vital, através do qual a pessoa se converte ao Verbo de Deus até às profundezas do seu ser e, ao mesmo tempo, aprende a arte de procurar os sinais de Deus nas realidades do mundo. Numa época de crescente marginalização dos valores religiosos da cultura, este caminho de formação é duplamente importante: graças a ele, a pessoa consagrada não só pode continuar a « ver » Deus com os olhos da fé, num mundo que ignora a sua presença, mas consegue também de algum modo tornar « sensível » a presença d'Ele, por meio do testemunho do próprio carisma.

A formação permanente

69. A formação permanente, tanto para os Institutos de vida apostólica como para os de vida contemplativa, constitui uma exigência intrínseca à consagração religiosa. Como se disse, o processo de formação não se reduz à sua fase inicial, visto que a pessoa consagrada, pelas suas limitações humanas, não poderá mais pensar ter completado a gestação daquele homem novo que experimenta dentro de si, em cada circunstância da vida, os mesmos sentimentos de Cristo. A formação inicial deve, portanto, consolidar-se com a formação permanente , criando no sujeito a disponibilidade para se deixar formar em cada dia da sua vida (170).

Por conseguinte, será muito importante que cada Instituto preveja, como parte da ratio institutionis, a definição, o mais possível precisa e sistemática, de um projecto de formação permanente, cujo objectivo primário seja o de acompanhar cada pessoa consagrada com um programa aberto à existência inteira. Ninguém se pode eximir de se aplicar ao próprio crescimento humano e religioso; tal como ninguém pode presumir de si mesmo, gerindo a própria vida com auto-suficiência. Nenhuma fase da vida se pode considerar tão segura e fervorosa que exclua a conveniência de cuidados específicos para garantir a perseverança na fidelidade, tal como não existe idade que chegue ver consumada a maturação da pessoa.

Num dinamismo de fidelidade

70. Há uma juventude do espírito que permanece independentemente do tempo: está relacionada com o facto de o indivíduo procurar e encontrar, em cada fase da vida, uma tarefa diversa a cumprir, um modo específico de ser, de servir e de amar (171).

Na vida consagrada, os primeiros anos da inserção plena na actividade apostólica representam uma fase crítica por natureza, porque marcada pela passagem de uma vida guiada a uma situação de plena responsabilidade operante. Será importante que as pessoas recém-consagradas sejam sustentadas e acompanhadas por um irmão ou uma irmã que as ajude a viver plenamente a juventude do seu amor e do seu entusiasmo por Cristo.

A fase sucessiva pode apresentar o risco da habituação e a consequente tentação da desilusão pela escassez dos resultados. Neste caso, é necessário ajudar as pessoas consagradas de meia idade a reverem, à luz do Evangelho e da inspiração carismática, a sua opção originária sem confundir a totalidade da dedicação com a totalidade do resultado. Isto permitirá dar renovado impulso e novas motivações à própria escolha. É a estação da busca do essencial.



A fase da idade madura , contemporânea ao crescimento pessoal, pode comportar o perigo de um certo individualismo, acompanhado quer pelo temor de já não estar adaptado aos tempos, quer por fenómenos de endurecimento, insensibilidade e relaxamento. Aqui a formação permanente tem a finalidade de ajudar não só a recuperar um grau mais alto de vida espiritual e apostólica, mas ainda a descobrir a peculiaridade desta fase da existência. De facto, uma vez purificados nela alguns aspectos da personalidade, a oferta de si mesmo sobe a Deus com maior pureza e generosidade, refluindo depois sobre os irmãos e irmãs mais serena e discreta, mas também mais transparente e rica de graças. É o dom e a experiência da paternidade e maternidade espiritual.

A idade avançada coloca novos problemas, que hão-de ser previamente enfrentados com um ponderado programa de apoio espiritual. O afastamento progressivo da actividade e, em alguns casos, a doença e a forçada inactividade constituem uma experiência que se pode tornar altamente formativa. Momento este muitas vezes doloroso, oferece, no entanto, à pessoa consagrada idosa a oportunidade de se deixar plasmar pela experiência pascal (172), configurando-se com Cristo crucificado que cumpre em tudo a vontade do Pai e Se abandona nas suas mãos até Lhe entregar o espírito. Esta configuração é um modo novo de viver a consagração, que não está ligada à eficiência de uma tarefa de governo ou de um trabalho apostólico.

Quando, depois, chega o momento de unir-se à hora suprema da Paixão do Senhor, a pessoa consagrada sabe que o Pai está finalmente levando a cumprimento nela aquele misterioso processo de formação, há tempos iniciado. A morte será, então, esperada e preparada como o acto supremo de amor e de entrega de si mesma.

É necessário acrescentar que, independentemente das várias fases da vida, cada idade pode conhecer situações críticas devido à intervenção de factores externos — mudança de lugar ou de serviço, dificuldades no trabalho ou insucesso apostólico, incompreensão ou marginalização, etc. — ou devido a factores mais estritamente pessoais — doença física ou psíquica, aridez espiritual, lutos, problemas de relacionamento interpessoal, fortes tentações, crises de fé ou de identidade, sensação de inutilidade, e outros semelhantes —. Quando a fidelidade se torna mais difícil, é preciso oferecer à pessoa o apoio de uma maior confiança e de um amor mais intenso, a nível pessoal e comunitário. Nessas ocasiões sobretudo, é necessária a solidariedade afectuosa do Superior; grande conforto virá ainda da ajuda qualificada de um irmão ou de uma irmã, cuja presença carinhosa e disponível poderá levar a redescobrir o sentido da aliança que Deus tomou a iniciativa de estabelecer e não a entende desdizer. A pessoa provada chegará, deste modo, a acolher a purificação e o despojamento como actos essenciais de seguimento de Cristo crucificado. A prova mesma será vista como instrumento providencial de formação nas mãos do Pai, como luta não apenas psicológica , conduzida pelo sujeito relativamente a si próprio e às suas fraquezas, mas também religiosa, marcada cada dia pela presença de Deus e pelo poder da Cruz!

Dimensões da formação permanente

71. Se o sujeito da formação é a pessoa nas diversas fases da sua vida, o termo último da formação é a totalidade do ser humano, chamado a procurar e a amar a Deus, « com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças » (cf. Dt 6,5), e ao próximo como a si mesmo (cf. Lv 19,18; Mt 22,37-39). O amor a Deus e aos irmãos é um dinamismo poderoso, que pode inspirar constantemente o caminho de crescimento e de fidelidade.



A vida no Espírito tem obviamente o primado. Nela, a pessoa consagrada readquire a própria identidade e uma serenidade profunda, cresce na atenção aos desafios quotidianos da Palavra de Deus, e deixa-se guiar pela inspiração original do próprio Instituto. Sob a acção do Espírito, são tenazmente defendidos os tempos de oração, de silêncio, de solidão, e implora-se do Alto, com insistência, o dom da sabedoria para as canseiras de cada dia (cf. Sab 9,10).

A dimensão humana e fraterna requer o conhecimento de si mesmo e dos próprios limites, para daí tirar o devido estímulo e apoio no caminho para a plena libertação. Particularmente importantes, no contexto moderno, são a liberdade interior da pessoa consagrada, a maturidade afectiva, a capacidade de comunicar com todos, especialmente na própria comunidade, a serenidade do espírito e a sensibilidade por quem sofre, o amor à verdade, uma coerência linear entre as palavras e as obras.

A dimensão apostólica abre a mente e o coração da pessoa consagrada, e predispõe-na para um contínuo esforço no serviço, como sinal do amor de Cristo que a impele (cf. 2 Cor 5,14). Isto significará, na prática, uma actualização de métodos e objectivos das actividades apostólicas, na fidelidade ao espírito e finalidade do fundador ou fundadora e às tradições posteriormente maturadas, com uma atenção constante às alterações verificadas nas condições históricas e culturais, gerais e locais, do ambiente onde se trabalha.

A dimensão cultural e profissional, tendo por base uma sólida formação teológica que consinta o discernimento, implica uma actualização permanente e uma atenção particular aos vários campos que cada carisma privilegia. Por isso, é necessário permanecer mentalmente o mais possível abertos e dóceis, para que o serviço seja concebido e prestado segundo as exigências do respectivo tempo, valendo-se dos instrumentos fornecidos pelo progresso cultural.

Na dimensão do carisma, por último, encontram-se recolhidas todas as outras exigências, como numa síntese que exige um aprofundamento contínuo da própria consagração especial em suas várias componentes, não só na apostólica, mas também nas componentes ascética e mística. Isto comporta para cada um dos membros um estudo assíduo do espírito do Instituto a que pertence, da sua história e missão, para melhorar a sua assimilação pessoal e comunitária (173).

CAPÍTULO III

SERVITIUM CARITATIS

A VIDA CONSAGRADA,
EPIFANIA DO AMOR DE DEUS NO MUNDO

Consagrados para a missão

72. À imagem de Jesus, dilecto Filho « a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo » (Jo 10,36), também aqueles que Deus chama a seguir Cristo são consagrados e enviados ao mundo para imitar o seu exemplo e continuar a sua missão. Valendo fundamentalmente para todo o discípulo, isto aplica-se de modo especial àqueles que são chamados, na característica forma da vida consagrada, a seguir Cristo « mais de perto » e a fazer d'Ele o « tudo » da sua existência. Na sua vocação, portanto, está incluído o dever de se dedicarem totalmente à missão; mais, a própria vida consagrada, sob a acção do Espírito Santo que está na origem de toda a vocação e carisma, torna-se missão, tal como o foi toda a vida de Jesus. A profissão dos conselhos evangélicos, que torna a pessoa totalmente livre para a causa do Evangelho, revela a sua importância também desde este ponto de vista. Assim há que afirmar que a missão é essencial para cada Instituto, não só nos de vida apostólica activa, mas também de vida contemplativa.

Na realidade, a missão, antes de ser caracterizada pelas obras externas, define-se pelo tornar presente o próprio Cristo no mundo, através do testemunho pessoal. Este é o desafio, a tarefa primária da vida consagrada! Quanto mais se deixa conformar com Cristo, tanto mais O torna presente no mundo e operante para a salvação dos homens.

Assim, pode-se afirmar que a pessoa consagrada está « em missão » por força da sua própria consagração, testemunhada segundo o projecto do respectivo Instituto. Quando o carisma de fundação prevê actividades pastorais, é óbvio que o testemunho de vida e as obras de apostolado e promoção humana são igualmente necessários: ambos representam Cristo, que é simultaneamente o consagrado à glória do Pai e o enviado ao mundo para a salvação dos irmãos e irmãs (174).

Além disso, a vida religiosa participa na missão de Cristo por outro elemento peculiar que lhe é próprio: a vida fraterna em comunidade para a missão. Por isso, a vida religiosa será tanto mais apostólica quanto mais íntima for a sua dedicação ao Senhor Jesus, quanto mais fraterna for a sua forma comunitária de existência, quanto mais ardoroso for o seu empenhamento na missão específica do Instituto.

Ao serviço de Deus e do homem

73. A vida consagrada tem a função profética de recordar e servir o desígnio de Deus sobre os homens, tal como esse desígnio é anunciado pela Escritura e resulta também da leitura atenta dos sinais da acção providente de Deus na história. É projecto de uma humanidade salva e reconciliada (cf. Col 2,20-22). Para cumprirem convenientemente tal serviço, as pessoas consagradas devem ter uma profunda experiência de Deus e tomar consciência dos desafios do seu tempo, identificando o sentido teológico profundo deles por meio do discernimento realizado com a ajuda do Espírito. É que, nos acontecimentos históricos, encerra-se frequentemente o apelo de Deus para trabalharmos segundo os seus planos com uma inserção activa e fecunda nos acontecimentos do nosso tempo (175).

O discernimento dos sinais dos tempos, como afirma o Concílio, deve ser feito à luz do Evangelho, para que se « possa responder (...) às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas » (176). É necessário, portanto, abrir o coração às sugestões interiores do Espírito, que convida a ler em profundidade os desígnios da Providência. Ele chama a vida consagrada a elaborar novas respostas para os problemas novos do mundo actual. São solicitações divinas, que só almas habituadas a procurar em tudo a vontade de Deus conseguem captar fielmente e, depois, traduzi-las corajosamente em opções coerentes seja com o carisma originário, seja com as exigências da situação histórica concreta.

Perante os numerosos problemas e urgências que parecem às vezes comprometer e até mesmo transtornar a vida consagrada, os chamados não podem deixar de sentir o compromisso de conservarem no coração e levarem à oração as inúmeras necessidades do mundo inteiro, ao mesmo tempo que trabalham vigorosamente nos campos ligados ao carisma de fundação. A sua dedicação deverá, obviamente, ser guiada pelo discernimento sobrenatural, que sabe distinguir o que vem do Espírito daquilo que Lhe é contrário (cf. Gal 5,16-17.22; 1 Jo 4,6). Mediante a fidelidade à Regra e às Constituições, tal discernimento conserva a plena comunhão com a Igreja (177).

Assim, a vida consagrada não se limitará a ler os sinais dos tempos, mas há-de contribuir também para elaborar e actuar novos projectos de evangelização para as situações actuais. E tudo isto, na certeza derivada da fé de que o Espírito sabe dar as respostas apropriadas mesmo às questões mais difíceis. A este respeito, será bom redescobrir aquilo que sempre ensinaram os grandes protagonistas da acção apostólica: é preciso confiar em Deus como se tudo dependesse d'Ele e, ao mesmo tempo, empenhar-se generosamente como se tudo dependesse de nós.

Colaboração eclesial e espiritualidade apostólica

74. Tudo deve ser feito em comunhão e diálogo com as outras componentes eclesiais. Os desafios da missão são tais que não podem ser eficazmente enfrentados, tanto no discernimento como na acção, sem a colaboração de todos os membros da Igreja. Dificilmente o indivíduo isoladamente possui a resposta decisiva: esta, ao contrário, pode brotar da confrontação e do diálogo. De modo particular, a comunhão de acção entre os vários carismas não deixará de garantir, para além do enriquecimento recíproco, uma eficácia mais incisiva na missão. A experiência destes anos confirma largamente que « o diálogo é o novo nome da caridade » (178), especialmente da caridade eclesial; aquele ajuda a ver os problemas nas suas reais dimensões, e permite enfrentá-los com melhores esperanças de sucesso. A vida consagrada, pelo facto mesmo de cultivar o valor da vida fraterna, apresenta-se como uma experiência privilegiada de diálogo. Deste modo, ela pode contribuir para criar um clima de aceitação recíproca, no qual os vários sujeitos eclesiais, sentindo-se valorizados por aquilo que são, concorrem de maneira mais convicta para a comunhão eclesial, orientada para a grande missão universal. Os Institutos empenhados nas várias formas de serviço apostólico devem, enfim, cultivar uma sólida espiritualidade da acção, vendo Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus. De facto, « é preciso saber que como uma vida bem ordenada tende a passar da vida activa à contemplativa, também a maior parte das vezes o espírito regressa com proveito da vida contemplativa à activa, para conservar mais perfeitamente a vida activa para aquilo que a vida contemplativa lhe acendeu na mente. Portanto a vida activa deve transferir-nos à vida contemplativa, e algumas vezes a contemplação, por aquilo que vimos interiormente, há-de chamar-nos a uma melhor acção » (179). O próprio Jesus nos deu o exemplo perfeito de como é possível unir a comunhão com o Pai e uma vida intensamente activa. Sem a tensão constante para tal unidade, o perigo de colapso interior, desorientação e desânimo está continuamente à espreita. A união íntima entre a contemplação e a acção permitirá, hoje como ontem, enfrentar as missões mais difíceis.

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