Vita consecrata do santo padre



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II. UM TESTEMUNHO PROFÉTICO
FACE AOS GRANDES DESAFIOS

O profetismo da vida consagrada

84. O carácter profético da vida consagrada foi posto em grande relevo pelos Padres sinodais. Apresenta-se como uma forma especial de participação na função profética de Cristo, comunicada pelo Espírito a todo o Povo de Deus. De facto, o profetismo é inerente à vida consagrada enquanto tal, devido ao radicalismo do seguimento de Cristo e da consequente dedicação à missão que o caracteriza. A função de sinal, que o Concílio Vaticano II atribui à vida consagrada (217), exprime-se no testemunho profético da primazia que Deus e os valores do Evangelho têm na vida cristã. Em virtude desta primazia, nada pode ser preferido ao amor pessoal por Cristo e pelos pobres, nos quais Ele vive (218).

A tradição patrística viu um modelo da vida religiosa monástica em Elias, profeta audaz e amigo de Deus (219). Vivia na sua presença e contemplava no silêncio a sua passagem, intercedia pelo povo e proclamava com coragem a sua vontade, defendia os direitos de Deus e levantava-se em defesa dos pobres contra os poderosos do mundo (cf. 1 Rs 18-19; 21). Na história da Igreja, juntamente com outros cristãos, não faltaram homens e mulheres consagrados a Deus que exerceram, por dom particular do Espírito, um autêntico ministério profético, falando em nome de Deus a todos, também aos Pastores da Igreja. A verdadeira profecia nasce de Deus, da amizade com Ele, da escuta diligente da sua Palavra nas diversas circunstâncias da história. O profeta sente arder no coração a paixão pela santidade de Deus e, depois de ter acolhido a palavra no diálogo da oração, proclama-a com a vida, com os lábios e com os gestos, fazendo-se porta-voz de Deus contra o mal e o pecado. O testemunho profético requer a busca constante e apaixonada da vontade de Deus, uma comunhão eclesial generosa e imprescindível, o exercício do discernimento espiritual, o amor pela verdade. O referido testemunho exprime-se ainda mediante a denúncia do que é contrário à vontade divina e a busca de novos caminhos para actuar o Evangelho na história, na perspectiva do Reino de Deus (220).

A sua importância para o mundo contemporâneo

85. No nosso mundo, onde frequentemente parecem ter-se perdido os vestígios de Deus, torna-se urgente um vigoroso testemunho profético por parte das pessoas consagradas. Tal testemunho versará, primariamente, sobre a afirmação da primazia de Deus e dos bens futuros, como transparece do seguimento e imitação de Cristo casto, pobre e obediente, votado completamente à glória do Pai e ao amor dos irmãos e irmãs. A própria vida fraterna é já profecia em acto, numa sociedade que, às vezes sem se dar conta, anela profundamente por uma fraternidade sem fronteiras. Às pessoas consagradas é pedido que ofereçam o seu testemunho, com a ousadia do profeta que não tem medo de arriscar a própria vida.

Uma íntima força persuasiva da profecia vem-lhe da coerência entre o anúncio e a vida. As pessoas consagradas serão fiéis à sua missão na Igreja e no mundo, se forem capazes de se reverem continuamente a si próprias à luz da Palavra de Deus (221). Poderão assim enriquecer os outros fiéis com os dons carismáticos recebidos, deixando-se por sua vez interpelar pelas provocações proféticas vindas dos outros elementos eclesiais. Nesta permuta de dons, garantida por uma plena sintonia com o Magistério e a disciplina da Igreja, resplandecerá a acção do Espírito, que « conduz [a Igreja] à verdade total e unifica-a na comunhão e no ministério, enriquece-a e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos »(222).

Uma fidelidade até ao martírio

86. Neste século, como noutras épocas da história, homens e mulheres consagrados testemunharam Cristo Senhor, com o dom da própria vida. Contam-se aos milhares aqueles que, escorraçados para as catacumbas pela perseguição de regimes totalitários ou de grupos violentos, hostilizados na actividade missionária, na acção em favor dos pobres, na assistência aos doentes e marginalizados, viveram, e vivem, a sua consagração num sofrimento prolongado e heróico, chegando muitas vezes até ao derramamento do próprio sangue, plenamente configurados com o Senhor crucificado. A alguns deles, a Igreja já reconheceu oficialmente a sua santidade, honrando-os como mártires de Cristo. Eles iluminam-nos com o seu exemplo, intercedem pela nossa fidelidade, esperam-nos na glória.

Deseja-se vivamente que a memória de tantas testemunhas da fé perdure na consciência da Igreja, como incentivo à sua celebração e imitação. Os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica contribuam para esta obra, recolhendo os nomes e os testemunhos de todas as pessoas consagradas que possam ser escritas no Martirológio do século XX (223).

Os grandes desafios da vida consagrada

87. A missão profética da vida consagrada vê-se provocada por três desafios principais, lançados à própria Igreja: são desafios de sempre, colocados sob formas novas e talvez mais radicais pela sociedade contemporânea, pelo menos nalgumas partes do mundo. Tocam directamente os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência, estimulando a Igreja, e de modo particular as pessoas consagradas, a pôr em evidência e testemunhar o seu significado antropológico profundo. Na verdade, a opção por estes conselhos, longe de constituir um empobrecimento de valores autenticamente humanos, revela-se antes como uma transfiguração dos mesmos. Os conselhos evangélicos não hão-de ser considerados como uma negação dos valores inerentes à sexualidade, ao legítimo desejo de usufruir de bens materiais, e de decidir autonomamente sobre si próprio. Estas inclinações, enquanto fundadas na natureza, são boas em si mesmas; mas a criatura humana, enfraquecida como está pelo pecado original, corre o risco de as exercitar de modo transgressivo. A profissão de castidade, pobreza e obediência torna-se uma admoestação a que não se subestimem as feridas causadas pelo pecado original, e, embora afirmando o valor dos bens criados, relativiza-os pelo simples facto de apontar Deus como o bem absoluto. Desta forma, aqueles que seguem os conselhos evangélicos, ao mesmo tempo que procuram a santidade para si mesmos, propõem, por assim dizer, uma « terapia espiritual » para a humanidade, porque recusam a idolatria da criatura e tornam de algum modo visível o Deus vivo. A vida consagrada, especialmente em tempos difíceis, é uma bênção para a vida humana e para a própria vida eclesial.

O desafio da castidade consagrada

88. A primeira provocação provém de uma cultura hedonista que separa a sexualidade de qualquer norma moral objectiva, reduzindo-a frequentemente ao nível de objecto de diversão e consumo, e favorecendo, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, uma espécie de idolatria do instinto. As consequências disto estão à vista de todos: prevaricações de todo o género, geradoras de inúmeros sofrimentos psíquicos e morais para os indivíduos e as famílias. A resposta da vida consagrada está, antes de mais, na prática alegre da castidade perfeita, como testemunho da força do amor de Deus na fragilidade da condição humana. A pessoa consagrada atesta que aquilo que é visto como impossível pela maioria da gente, torna-se, com a graça do Senhor Jesus, possível e verdadeiramente libertador. Sim, em Cristo é possível amar a Deus com todo o coração, pondo-O acima de qualquer outro amor, e amar assim, com a liberdade de Deus, toda a criatura! Este testemunho é hoje mais necessário que nunca, exactamente por ser tão pouco compreendido pelo nosso mundo. Ele é oferecido a toda a gente — aos jovens, aos noivos, aos cônjuges, às famílias cristãs — para mostrar a todos que a força do amor de Deus pode operar grandes coisas, mesmo no âmbito das vicissitudes do amor humano. É um testemunho que vai de encontro também a uma necessidade crescente de transparência interior nas relações humanas.

É preciso que a vida consagrada apresente ao mundo de hoje exemplos de uma castidade vivida por homens e mulheres que demonstram equilíbrio, domínio de si, espírito de iniciativa, maturidade psicológica e afectiva (224). Graças a este testemunho, é oferecido ao amor humano um ponto de referência seguro, que a pessoa consagrada encontra na contemplação do amor trinitário, que nos foi revelado em Cristo. Precisamente porque imersa neste mistério, ela sente-se capaz de um amor radical e universal, que lhe dá a força para o domínio de si e a disciplina necessária para não cair na escravidão dos sentidos e dos instintos. A castidade consagrada apresenta-se assim como experiência de alegria e de liberdade. Iluminada pela fé no Senhor ressuscitado e pela esperança dos novos céus e da nova terra (cf. Ap 21,1), ela oferece também preciosos estímulos para a educação da castidade obrigatória nos outros estados de vida.

O desafio da pobreza

89. Outra provocação vem, hoje, de um materialismo ávido de riqueza, sem qualquer atenção pelas exigências e sofrimentos dos mais débeis, nem consideração pelo próprio equilíbrio dos recursos naturais. A resposta da vida consagrada é dada pela profissão da pobreza evangélica, vivida sob diversas formas e acompanhada muitas vezes por um empenhamento activo na promoção da solidariedade e da caridade.

Quantos Institutos se dedicam à educação, à instrução e à formação profissional, habilitando jovens e menos jovens a tornarem-se protagonistas do seu futuro! Quantas pessoas consagradas gastam todas as suas energias em favor dos últimos da terra! Quantas delas se dedicam à formação de futuros educadores e responsáveis da vida social, capazes de se empenharem, por sua vez, para eliminar as estruturas opressoras e promover projectos de solidariedade em benefício dos pobres! Elas lutam para debelar a fome e as suas causas, animam as actividades do voluntariado e as organizações humanitárias, sensibilizam organismos públicos e privados para favorecerem uma equitativa distribuição das ajudas internacionais. As nações devem verdadeiramente muito a estes dinâmicos agentes da caridade, que, pela sua incansável generosidade, deram e continuam a dar uma sensível contribuição para a humanização do mundo.

A pobreza evangélica ao serviço dos pobres

90. Na verdade, a pobreza evangélica, ainda antes de ser um serviço em favor dos pobres, é um valor em si mesma , enquanto faz lembrar a primeira das bem-aventuranças na imitação de Cristo pobre (225). Com efeito, o seu primeiro significado é testemunhar Deus como verdadeira riqueza do coração humano. Mas, por isso mesmo, ela contesta vigorosamente a idolatria do dinheiro, propondo-se como apelo profético lançado a uma sociedade que, em tantos lugares do mundo abastado, se arrisca a perder o sentido da medida e o próprio significado das coisas. Por isso hoje, mais do que noutras épocas, a sua solicitação é escutada com favor inclusive por aqueles que, cientes do carácter limitado dos recursos da terra, pedem o respeito e a salvaguarda da criação, mediante a redução do consumo, a sobriedade, a imposição de um freio obrigatório aos próprios desejos.

Deste modo, às pessoas consagradas é pedido um renovado e vigoroso testemunho evangélico de abnegação e sobriedade, num estilo de vida fraterna inspirada por critérios de simplicidade e de hospitalidade, como exemplo mesmo para quantos permanecem indiferentes perante as necessidades do próximo. Tal testemunho há-de ser naturalmente acompanhado pelo amor preferencial pelos pobres e manifestar-se-á, de modo especial, na partilha das condições de vida dos mais desfavorecidos. Diversas são as comunidades que vivem e operam entre os pobres e marginalizados, abraçam a sua condição e partilham os seus sofrimentos, problemas e perigos.

Exímias páginas de história de solidariedade evangélica e de dedicação heróica foram escritas por pessoas consagradas, nestes anos de profundas mudanças e de grandes injustiças, de esperanças e desilusões, de importantes conquistas mas também de amargas derrotas. E páginas igualmente significativas foram e continuam a ser ainda escritas por muitas outras pessoas consagradas, que vivem em plenitude a sua vida « escondida com Cristo em Deus » (Col 3,3) pela salvação do mundo, sob o lema da gratuidade, do investimento da própria vida em causas pouco reconhecidas e menos ainda aplaudidas. Através destas formas diversas e complementares, a vida consagrada participa da pobreza extrema abraçada pelo Senhor e vive a sua função específica no mistério salvífico da sua encarnação e da sua morte redentora (226).

O desafio da liberdade na obediência

91. A terceira provocação provém daquelas concepções da liberdade que subtraem esta fundamental prerrogativa humana à sua relação constitutiva com a verdade e com a norma moral (227). Na realidade, a cultura da liberdade é um valor autêntico, ligado intimamente ao respeito da pessoa humana. Mas quem não vê as consequências monstruosas de injustiça e mesmo de violência, geradas na vida dos indivíduos e dos povos pelo uso deturpado da liberdade?

Uma resposta eficaz a tal situação é a obediência que caracteriza a vida consagrada. Esta apresenta de modo particularmente vivo a obediência de Cristo ao Pai e, partindo exactamente do seu mistério, testemunha que não há contradição entre obediência e liberdade . Com efeito, o comportamento do Filho desvenda o mistério da liberdade humana, como um caminho de obediência à vontade do Pai, e o mistério da obediência, como um caminho de progressiva conquista da verdadeira liberdade. É precisamente este mistério que a pessoa consagrada quer exprimir com este voto concreto. Com ele, deseja dar testemunho da sua consciência de um relacionamento de filiação, em virtude do qual assume a vontade paterna como alimento diário (cf. Jo 4,34), como sua rocha, alegria, escudo e baluarte (cf. Sal 18/17,3). Demonstra assim que cresce na verdade plena de si mesma, quando permanece ligada à fonte da sua existência, e deste modo oferece uma mensagem repleta de consolação: « Gozam de grande paz os que amam a vossa lei, para eles não existe perturbação » (Sal 119/118,165).

Cumprir juntos a vontade do Pai

92. Este testemunho das pessoas consagradas assume, na vida religiosa, um significado particular também por causa da dimensão comunitária que a caracteriza. A vida fraterna é o lugar privilegiado para discernir e acolher a vontade de Deus e caminhar juntos em união de mente e coração. A obediência, vivificada pela caridade, unifica os membros de um Instituto no mesmo testemunho e na mesma missão, embora na diversidade dos dons e no respeito da individualidade própria de cada um. Na fraternidade animada pelo Espírito Santo, cada qual estabelece com o outro um diálogo precioso para descobrir a vontade do Pai, e todos reconhecem em quem preside a expressão da paternidade divina e o exercício da autoridade recebida de Deus ao serviço do discernimento e da comunhão (228).

De modo particular, a vida de comunidade é o sinal, para a Igreja e para a sociedade, daquele laço que provém de um chamamento igual e da vontade comum de lhe obedecer, para além de qualquer diversidade de raça e de origem, de língua e de cultura. Contra o espírito de discórdia e de divisão, a autoridade e a obediência resplandecem como um sinal daquela única paternidade que vem de Deus, da fraternidade nascida do Espírito, da liberdade interior de quem se fia de Deus, não obstante os limites humanos daqueles que O representam. Através desta obediência, por alguns assumida como regra de vida, é experimentada e anunciada, em benefício de todos, a bem-aventurança prometida por Jesus a quantos « escutam a Palavra de Deus e a põem em prática » (Lc 11,28). Além disso, quem obedece tem a garantia de estar verdadeiramente em missão no seguimento do Senhor, e não ao sabor dos desejos pessoais ou das próprias aspirações. E, assim, é possível considerar-se guiado pelo Espírito do Senhor e sustentado, mesmo no meio de grandes dificuldades, pela sua mão segura (cf. Act 20,22s).

Um compromisso decidido de vida espiritual

93. Uma das preocupações mais vezes manifestada no Sínodo foi a de uma vida consagrada que se alimente nas fontes de uma espiritualidade sólida e profunda. Trata-se de uma exigência prioritária, inscrita na própria essência da vida consagrada, uma vez que, como qualquer outro baptizado, antes por motivos ainda mais prementes, quem professa os conselhos evangélicos é obrigado a tender com todas as suas forças à perfeição da caridade (229). Este é um compromisso intensamente lembrado pelos inumeráveis exemplos de santos fundadores e fundadoras e de tantas pessoas consagradas, que testemunharam a sua fidelidade a Cristo até ao martírio.

Tender à santidade: eis em síntese o programa de cada vida consagrada, na perspectiva nomeadamente da sua renovação às portas do terceiro milénio. O ponto de partida do programa está no deixar tudo por Cristo (cf. Mt 4,18-22; 19,21.27; Lc 5,1), preferindo a sua Pessoa a tudo mais, para poder participar plenamente no mistério pascal.

Bem o compreendera S. Paulo que exclamava: « Tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus (...). Assim poderei conhecê-Lo, a Ele, e conhecer o poder da sua ressurreição » (Fil 3,8.10). É a estrada indicada desde o início pelos Apóstolos, como recorda a tradição cristã tanto do Oriente como do Ocidente: « Aqueles que actualmente seguem Jesus, abandonando tudo por Ele, evocam os Apóstolos que, respondendo ao seu convite, renunciaram a tudo o resto. Por isso, tradicionalmente é costume designá-la como apostolica vivendi forma » (230). A tradição pôs também em evidência, na vida consagrada, a dimensão da sua peculiar aliança com Deus, melhor, da aliança esponsal com Cristo, de que foi mestre S. Paulo, com o seu exemplo (cf. 1 Cor 7,7) e com o seu ensinamento, proposto sob a guia do Espírito (cf. 1 Cor 7,40).

Podemos dizer que a vida espiritual, considerada como vida em Cristo, vida segundo o Espírito, se apresenta como um itinerário de crescente fidelidade, onde a pessoa consagrada é guiada pelo Espírito e por Ele configurada com Cristo, em plena comunhão de amor e de serviço na Igreja.

Todos estes elementos, inseridos nas várias formas de vida consagrada, geram uma espiritualidade peculiar, isto é, um projecto concreto de relacionamento com Deus e com o meio circundante, caracterizado por modulações espirituais particulares e opções de acção que colocam em evidência e repropõem ora um aspecto ora outro do único mistério de Cristo. Quando a Igreja reconhece uma forma de vida consagrada ou um Instituto, garante que, no seu carisma espiritual e apostólico, se encontram todos os requisitos objectivos para alcançar a perfeição evangélica pessoal e comunitária.

Portanto, a vida espiritual deve ocupar o primeiro lugar no programa das Famílias de vida consagrada, de tal modo que cada Instituto e cada comunidade se apresentem como escolas de verdadeira espiritualidade evangélica. Desta opção prioritária, desenvolvida no compromisso pessoal e comunitário, depende a fecundidade apostólica, a generosidade no amor pelos pobres, a própria atracção vocacional sobre as novas gerações. É precisamente a qualidade espiritual da vida consagrada que pode interpelar as pessoas do nosso tempo, também elas sequiosas de valores infinitos, transformando-se assim num testemunho fascinante.

À escuta da Palavra de Deus

94. A Palavra de Deus é a primeira fonte de toda a vida espiritual cristã. Ela sustenta um relacionamento pessoal com o Deus vivo e com a sua vontade salvífica e santificadora. Por isso é que a lectio divina, desde o nascimento dos Institutos de vida consagrada, de modo particular no monaquismo, foi tida na mais alta consideração. Por meio dela, a Palavra de Deus é transferida para a vida, projectando sobre esta a luz da sapiência, que é dom do Espírito. Embora toda a Sagrada Escritura seja « útil para ensinar » (2 Tm 3,16) e « fonte pura e perene da vida espiritual » (231), merecem particular veneração os escritos do Novo Testamento, sobretudo os Evangelhos, que são « o coração de todas as Escrituras » (232). Por isso, será de grande proveito para as pessoas consagradas fazerem objecto de assídua meditação os textos evangélicos e os outros escritos neo-testamentários, que ilustram as palavras e os exemplos de Cristo e da Virgem Maria, e a apostolica vivendi forma. A eles se referiram constantemente os fundadores e fundadoras, no acolhimento da vocação e no discernimento do carisma e da missão do próprio Instituto.

De grande valor é a meditação comunitária da Bíblia. Realizada na medida das possibilidades e circunstâncias da vida de comunidade, ela leva à partilha feliz das riquezas encontradas na Palavra de Deus, mercê das quais irmãos e irmãs crescem juntos e se ajudam a progredir na vida espiritual. Convém mesmo que tal prática seja proposta aos outros membros do Povo de Deus, sacerdotes e leigos, promovendo, nos moldes adequados ao próprio carisma, escolas de oração, de espiritualidade e de leitura orante da Escritura, na qual Deus « fala aos homens como amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cf. Bar 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele » (233).

Como ensina a tradição espiritual, da meditação da Palavra de Deus e, em particular, dos mistérios de Cristo nasce a intensidade da contemplação e o ardor da acção apostólica. Quer na vida religiosa contemplativa quer na apostólica, sempre foram homens e mulheres de oração que realizaram, como intérpretes e executores da vontade de Deus, grandes obras. Da sua convivência com a Palavra de Deus, obtiveram a luz necessária para aquele discernimento individual e comunitário que os ajudou a procurar, nos sinais dos tempos, os caminhos do Senhor. Adquiriram assim uma espécie de instinto sobrenatural, que lhes permitiu não se conformarem com a mentalidade deste mundo, mas renovarem a própria mente para poder discernir a vontade de Deus, aquilo que é bom, o que Lhe é agradável e perfeito (cf. Rm 12,2).

Em comunhão com Cristo

95. Meio fundamental para alimentar eficazmente a comunhão com o Senhor é, sem dúvida, a liturgia sagrada , de modo especial a Celebração Eucarística e a Liturgia das Horas.

Em primeiro lugar, a Eucaristia, onde « está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo » (234). Coração da vida eclesial, a Eucaristia é-o também da vida consagrada. A pessoa chamada, pela profissão dos conselhos evangélicos, a escolher Cristo como sentido único da sua existência, como poderia não desejar instaurar com Ele uma comunhão cada vez mais profunda por meio da participação diária no Sacramento que O torna presente, no sacrifício que actualiza o seu dom de amor do Gólgota, no banquete que alimenta e sustenta o Povo de Deus peregrino? A Eucaristia, por sua natureza, está no centro da vida consagrada, pessoal e comunitária. É viático quotidiano e fonte da espiritualidade do indivíduo e do Instituto. Nela, cada consagrado é chamado a viver o mistério pascal de Cristo, unindo-se com Ele na oferta da própria vida ao Pai, por meio do Espírito. A adoração assídua e prolongada de Cristo presente na Eucaristia permite, de algum modo, reviver a experiência de Pedro na Transfiguração: « É bom estarmos aqui! ». E na celebração do mistério do Corpo e do Sangue do Senhor se consolida e incrementa a unidade e a caridade daqueles que consagraram a Deus a sua existência.

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