Vivências cotidianas e tensões religiosas. Léo Huber resumo



Baixar 34.07 Kb.
Encontro30.07.2016
Tamanho34.07 Kb.


VIVÊNCIAS COTIDIANAS E TENSÕES RELIGIOSAS.

Léo Huber


RESUMO
As vivências cotidianas apontam para a existência de valores culturais diferenciados mesmo em grupos sócio-econômicos semelhantes e moradores de uma mesma localidade. As indicações que me levam a tal conclusão aparecem em depoimentos de moradores da Vila União da cidade de Jales/SP ao falarem de suas experiências de vida, particularmente ao expor questões relativas à religião. Neste artigo analiso algumas tensões resultantes de divergências religiosas e da disputa entre os fiéis de variados credos por novos adeptos. São conflitos ocultados, normalmente não apresentados por gerarem estranhamento e dificuldade de relacionamento.
PALAVRAS-CHAVE: Cotidiano, Religião, Tensões.
A religião como elemento cultural de grande influência na conduta de muitos sujeitos é aqui abordada em depoimentos dos moradores da Vila União de Jales/SP, é de difícil abordagem devido a tensões silenciadas entre católicos e pentecostais. Embora seja possível perceber que essa convivência já teve momentos de maior estranhamento, o assunto ainda gera precauções ao ser abordado. A Vila União é um bairro com moradores de baixa renda situada em uma religião central e valorizada da cidade de Jales, com uma história de luta pelos lotes que hoje ocupam, vítima freqüente de preconceito e discriminação por parte dos moradores de maior poder aquisitivo e que atribuem, de forma generalizada aos moradores dessa Vila, as responsabilidades sobre muitas das infrações à lei que ocorrem na cidade. Os depoimentos foram colhidos junto aos moradores deste bairro durante a fase de coleta de fontes para minha dissertação de mestrado e que possibilitaram a elaboração desse artigo.

Ao falar sobre religião, José Antônio, participante da comunidade católica da Vila demonstrou desconforto e expressou-se assim:


Olha, aqui nós temos a religião nossa. Só que aqui tem muitas outras pessoas de outras religião. Então a gente... Eu acho que cada um segue a sua. Nós participamos da nossa, a gente participa da vida religiosa da minha comunidade. Então, eu tenho a minha religião, participo e tenho muito prazer em participar... (...). Então, pra nós que participamos, que convivemos, a religião é muito boa. Mas tem outras religiões, eu não posso falar.2
A tensão religiosa apontada pelo depoente é um elemento que surgiu depois da fundação do bairro em 1985 e que não apareceu nas narrativas sobre os tempos de mobilização pelos lotes. Nos primeiros tempos da existência do bairro, todos se identificavam como católicos, uma situação que vem se alterando progressivamente, a ponto de a presença de evangélicos no bairro rivalizar em número com os católicos. Esta, contudo, não é também uma característica nem um fenômeno próprio da Vila União, já que o crescimento dos adeptos das Igrejas Evangélicas ocorreu em todos os grupos sociais nesses últimos vinte anos, caracterizando-se como um fenômeno nacional. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, com base em dados do IBGE3, os católicos em 1980 representavam 89,19% dos brasileiros enquanto os evangélicos somavam somente 6,55%. No ano de 2000 estes números nacionais já haviam se alterado significativamente reduzindo o primeiro para 73,9% a aumentando o segundo para 16,22%. Considerada somente a população favelada estes números se aproximam ainda mais. Entre essa população os católicos representam 63,47% e os evangélicos 20,61% e indica um crescimento maior, desse segundo grupo, entre as populações de menor poder aquisitivo, que é também o caso da Vila União.

É notável a dificuldade para falar das outras religiões, revelando-se um ponto de tensão. A esposa de José Antônio, que participava da conversa, deu continuidade ao assunto desenvolvido por seu marido: “Só que eu acho que religião a gente não deve discutir. Estas coisas não devem entrar em reportagens porque pra mim não significam nada. Tem gente que não tem nem religião. Então, vamos evitar, vamos falar da nossa”.4 A fala aponta um claro desconforto que a conversa sobre religião provoca e aponta para tensões presentes nas relações entre pessoas próximas, as vezes vizinhas e amigas, mas de credos diferentes.

Os depoimentos apontam que as diferenças de credo religioso podem influir na relação com os vizinhos: “Então hoje tem muito aquele negócio que muitos são crentes, muitos são católicos. Vizinho dá nisso, é no respeito...”.5 Aqui há indicação para que a convivência entre vizinhos de credo religioso diferenciado não seja tensa, é preciso que haja respeito pelo credo de cada um.

Os depoimentos sobre a questão religiosa foram em sua maioria de adeptos da Igreja Católica e apresentaram um ponto de tensão entre simpatizantes de diferentes religiões. Para que a convivência seja possível entre os diversos credos, suas narrativas apontam para a necessidade de respeito à opção de cada sujeito, sem debate comum do assunto. A questão religiosa tornou-se incômoda, especialmente para os católicos, porque, desde a fundação da vila, os adeptos de Igrejas Evangélicas cresceram, chegando mesmo a rivalizar em quantidade com os católicos. Não existem levantamentos precisos sobre essa questão no bairro, mas a sensação comum transmitida nos depoimentos é essa. O crescimento dos adeptos de Igrejas Evangélicas em Jales não é também um fenômeno restrito à Vila União, sendo que o mesmo pode observado em toda a cidade, acompanhando a tendência nacional.

Busco identificar alguns casos de conversão da Igreja Católica para outra Evangélica com o objetivo de perceber algumas de suas motivações para essa mudança e de como percebem sua relação com membros de outras igrejas.

Antônia deixou de ser católica “faz uns quatro anos e pouco” e passou a freqüentar a Primeira Igreja Batista de Jales, atendendo a um convite de uma conhecida que a levou para assistir a um culto, sem compromisso de continuar, caso não gostasse. Como gostou continuou porque “A palavra é bem diferente da católica. Das oração, eu gosto muito. Pra mim não tem coisa melhor... Falar a verdade pro senhor. Eu não tenho ainda bem entendimento das palavras da bíblia, que eu tô começando aprender agora”.6 Para Antônia, a pouca compreensão da bíblia, inclusive porque lê “muito pouco”, não é dificuldade porque, ao longo do depoimento, vai expressando o quanto foi bem acolhida.

A estratégia da igreja de Antônia para conseguir novos adeptos é a mesma que a levou a aderir ao ser convidada. Ela relatou assim, sua abordagem: “Vamos na Igreja hoje, fazer uma visita? Se você gostar segue, mas se não gostar, ao menos, você faz uma visita pra ver como que funciona lá dentro da Igreja. Aí, muitas pessoas eu consigo levar... Aí a gente chamando as pessoas vai. Tem muitos que vai, gosta”.7 Se a estratégia de convidar a participar sem o compromisso de continuar obtém resultado, também cria resistências e tensões: “Que às veis a gente convida, que tem outras pessoas que parece que não gosta de Igreja Evangélica, que parece que não tá gostando do convite da gente. Que é muitos que não gosta da Igreja Crente”. 8 Os que não gostam de Igreja Crente devem ser especialmente os católicos, porque os adeptos das igrejas evangélicas se aproximam mais, gerando menos tensões entre eles. E o convite para participar da sua igreja, feito por Antônia, acaba percebido como uma ameaça pelos católicos, que vêem seus fiéis aderindo a outras religiões. A questão religiosa constitui-se em espaço de disputa por sujeitos, lugares e tradições. O convite de Antônia para participar de sua igreja, que é dirigido a todos, já não teria aceitação se fosse feito a ela hoje porque “...eu não gosto de ir em outra igreja”. 9

Neste bairro onde o prédio da Igreja Católica, construído em mutirão pelos próprios moradores, tornou-se ponto de identidade e de afirmação dos moradores, acaba sendo ameaçada em sua força simbólica, representativa e de identificação, pela mudança de credo religioso dos moradores, o que acaba gerando, em muitos, a sensação de perda.

Antônia, ao falar sobre a salvação eterna para os adeptos de todas as Igrejas Cristãs, mesmo acreditando que a salvação é para todos, apresentou que este é um ponto de tensão sobre a questão, porque “Eles, os católicos acham que os crentes falam: ah, o católico quando morrer vai pro inferno, mas não tem nada a ver não”.10 Se Antônia sabe que os católicos comentam esta restrição por parte dos crentes é porque devem existir adeptos ou congregações inteiras que pregam tal condenação.

Maria Aparecida narrou que se tornou crente também atendendo a um convite, mas que foi formulado por motivo específico:


Porque as coisas estava muito difícil assim. Meu marido estava bebendo demais. Na época então dava muito trabalho, inclusive assim bebia uma cervejinha assim, ficava ruim assim, parecia que tinha algum encosto, ou alguma coisa assim, foi aonde me convidaram para ir na Igreja Evangélica, e, na época, eu comecei na Igreja do Avivamento Bíblico.11
A narrativa expressou a dependência alcoólica do marido de Maria Aparecida, que, diante do convite, o qual também foi dirigido ao marido e aceito pelos dois, passaram a participar da igreja na busca de forças para superar o vício e livrar-se dos problemas dele decorrentes.

Os depoimentos apontam que nas Igrejas Evangélicas, o uso de determinados problemas pessoais para conseguir adeptos é comum. Normalmente atribuem tais dificuldades a forças sobrenaturais, da falta de religião e de Deus. Desta forma, os pentecostais e mesmo determinados movimentos católicos, a partir de certas questões, despolitizam os problemas sociais, mesmo em um bairro que, por tanto tempo, levou uma luta por direitos fundamentais da cidadania. Fazem isso através de problemas relacionados ao alcoolismo, drogas, desemprego, discórdia familiar, problemas financeiros. Reduzem, desta forma, a luta pela cidadania em questões menores e pessoais, desvirtuando uma trajetória de luta por ter direito a ter direitos, como a dos moradores da Vila União. Mesmo a conquista à assistência em questões como as citadas acima constituem-se em mais um direito social que deve ser conquistado efetivamente.

Contudo, Maria Aparecida e seu marido encontraram na religião condições para enfrentar o vício:
Depois que começou a ir para a Igreja que melhorou, cem por cento. Porque o dinheiro que a gente ganhava, que nem eu fumava na época, que o que a gente ganhava ficava atrás de bebida pra ele e cigarro pra mim. Então, nossa era um... nada chegava. Então, depois que nós fomos para a Igreja, logo eu parei de fumar, ele parou de beber, foi onde a coisa melhorou bastante12
Há um comportamento habitual dessas pessoas de falarem sobre um tempo anterior marcado por problemas e o tempo da freqüência à igreja que transforma. Esta é uma prática comum não apenas na Vila União, basta ver os programas televisivos que exploram o antes marcado por problemas e o depois livre deles.

Além de livrar o marido do vício da dependência alcoólica, ela própria livrou-se do vício do cigarro, possibilitando melhorar bastante sua condição de vida e de seus filhos, com uma economia significativa de dinheiro que passou a ser investido em outras prioridades como a conclusão da casa. Tal mudança explica muito da sua fidelidade ao novo credo.

Porém, muitas Igrejas Evangélicas foram constituídas recentemente e não têm estrutura teológica – ou nem a buscam efetivamente -, organizativa e de pessoal capaz de garantir estabilidade e continuidade em suas práticas, normalmente improvisadas e de forte caráter individual de cada pastor. Foi numa troca de pastores que Maria Aparecida e seu marido tiveram problemas com sua igreja, a do Avivamento Bíblico, porque “chegou uns pastor diferente” e eles se afastaram. A depoente evitou comentar as diferenças desses pastores com os anteriores, mas se levou ao afastamento de dois fiéis muito ativos e que atribuem a mudança de suas vidas à participação nessa igreja, elas deviam ser muito significativas.

Ao se afastarem, os problemas com a bebida do marido de Maria Aparecida voltaram: “... aí, quando parou de ir lá, aí começou a dar trabalho de novo. ...ficou uns meis dando trabalho de novo. Aí, depois que eu falei que se ele não parasse com esse negócio, que a gente ia ter que separar, que não dava mais. Aí foi onde que ele voltou para igreja tudo certinho”.13

A igreja a que voltaram na segunda oportunidade é outra, a Assembléia Ministério de Belém, vinculada à Igreja Assembléia de Deus. Seu templo, uma casa como as demais do bairro, está localizado dentro da própria Vila União, onde o casal tem uma participação destacada e reconhecida pelos demais moradores a ponto desses me indicarem o casal para ouvir seu depoimento sobre a questão religiosa.

As relações de Maria Aparecida e seu marido com moradores adeptos de outras religiões são boas. Isso porque, para eles “...em todas as igrejas Deus está presente. A gente se sente bem, a pessoa vai, se acha que sentiu bem, ela continua, se não a gente não vai obrigar... Vai como visitante, se a pessoa gosta ela continua, se não...”.14 O ir como visitante à sua Igreja, citado pela depoente, indica a estratégia do convite para a conquista de novos fiéis que, segundo sua própria percepção, tem aumentado, embora ela indique um menor grau de tensão decorrente de tais convites. Apesar das estratégias de conquista de novos fiéis da parte dos pentecostais se basearem em problemas de forte caráter social, esta abordagem não ocorre em sua prática religiosa que os transformam em questões de falta de fé, de religião, de Deus.

A questão religiosa chega a influenciar no time de futebol da Vila União, ao mesmo tempo em que aponta para melhora nessas relações.
... Agora tá mudando, de um ano pra cá, era muito divisão de religião, né? tinha muito disso aqui. Mas agora... É, temos evangélico que joga bola, então às vezes a gente não... a gente é católico, a gente às vezes é convidado pra ir numa reunião. Não é porque a gente não é evangélico que a gente vai falar não pra pessoa. A gente vamos....15
Uma importante dificuldade vinha da proibição aos evangélicos de jogar futebol. Contudo, essa orientação vem mudando e que muitos já aceitam participar do esporte. Porém, as indicações apontam para a necessidade de o dirigente do time de futebol, que é católico, fazer concessões, aceitando convites de participar de encontros evangélicos, para que uma boa relação seja possível. Os indícios são de que essa permanente insistência dos crentes para com os católicos, para que estes participem de suas atividades, com a finalidade de conseguir sua adesão é o que mais embaraça as relações, por verem esse assédio dos crentes como impróprio e até desrespeitoso aos que seguem a Igreja Católica. Os convites e as freqüentes tentativas de convencimento, tanto assustam a pessoa convidada, quanto aos demais católicos que temem pela perda de seus fiéis.

Ao analisar as convivências entre adeptos de diferentes credos religiosos, estas apontam para a existência de tensões ocultas entre moradores de um mesmo bairro e de condição econômica e social assemelhada. São conflitos, normalmente encobertos para não aflorarem confrontos indesejados, mas que apontam para existência de valores culturais diferenciados em um mesmo grupo social que são administrados de forma a não causar maiores embaraços nas convivências cotidianas.


BIBLIOGRAFIA:

CERTEAU, Michel de, et alii. A Invenção do Cotidiano: Volume 2, Morar e Cozinhar. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.


HELLER, Agnes. “O Cotidiano e a História”. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
KHOURY, Yara Aun. Narrativas Orais na Investigação da História Social. Projeto História. São Paulo. nº 22, junho/01. pp. 79-104.
PORTELLI, Alessandro. O que faz a história oral diferente. Projeto de História, São Paulo, nº 14. Fev/1997, pp. 25-39.
_________________. “História Oral como gênero”.Projeto História, São Paulo, nº 22, pp. 9-36.
_________________. “Tentando aprender um pouquinho. Algumas reflexões sobre a ética na história oral”. Projeto História, São Paulo, n. 15, p. 13-49. abr/ 1997.
SAMUEL, Raphael. História Local e História Oral. Revista Brasileira de História, São Paulo, Vol. 9. nº 19. Set/1889/Fev.1990. pp. 219-242.
VIEIRA, Maria do Pilar de Araújo, et alli. A pesquisa em História. São Paulo: Editora Ática, 1989



 Léo Huber, Mestre em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) é Coordenador do Curso de História da FAVA, Cassilândia/MS e Professor da UNIJALES – Jales/SP e FAMA- Iturama/MG.

2 José Antônio dos Santos, 52 anos, ex-trabalhador rural e ex-pedreiro, atualmente é funcionário do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem. É Vice-Presidente da comunidade da Igreja Católica da Vila União. É morador da Vila desde sua fundação há 15 anos. Entrevista realizada no dia 01 de maio de 2003.


3 Jornal Folha de São Paulo, São Paulo, 21 de Abril de 2005, p. A 8.

4 Jerônima dos Santos, 49 anos, funcionária pública municipal na função de gari há sete anos, sendo que antes trabalhara na roça, primeiro como parceiro agrícola e depois como bóia-fria, que fez diversas intervenções. Acompanhou a entrevista do marido, José Antônio dos Santos.

5 Silvana Vieira, 23 anos, trabalha como Secretária em consultório médico. É coordenadora do grupo de jovens da comunidade da Igreja Católica da Vila União. É moradora da Vila desde sua fundação, há 15 anos. Entrevista realizada no dia 03 de maio de 2003.

6 Antônia Rosa Berçanete, 59 anos, doméstica. É moradora da Vila desde sua fundação. Já trabalhou na roça, de doméstica e vendedora ambulante de cosméticos. Atualmente não trabalha fora de casa. Entrevista realizada no dia 30 de julho de 2003.

7 Idem

8 Ibidem.

9 Ibidem.

10 Ibidem.

11 Maria Aparecida de Souza Sampaio, 38 anos, Empregada doméstica. Já trabalhou de bóia-fria durante 16 anos. É moradora da Vila desde sua fundação. Entrevista realizada no dia 31 de julho de 2003.

12 Idem.

13 Ibidem.

14 Ibidem.

15 Luciano Isidoro, 29 anos, Pedreiro. É dirigente do time de futebol da Vila União (segundo ele “toma conta do time”). É morador da Vila desde sua fundação há 15 anos, quando morava com seus pais. Nesse período esteve fora durante um curto espaço de tempo (dois anos), logo que casou, mas voltou assim que teve oportunidade. Entrevista realizada no dia 09 de maio de 2003.



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal