Vozes da Outra Margem Chico Xavier



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Vozes da Outra Margem


Chico Xavier

Espíritos Diversos

Índice
Marco Antônio da Silva ........................................................................................ 03

Renato Fumagalli .................................................................................................. 07

Família Piagneli .................................................................................................... 13

Napoleão Pizotti .................................................................................................... 15

Selma Robles ........................................................................................................ 17

Dra. Wânia Nunes Russo ...................................................................................... 20



../../../../../../A-Rogério/Espiritismo/Livros/Obras do Chico para arrumar/281 - VOZES DE OUTRA MARGEM/vozes_outra_margem_16.htmDr. Luiz Antônio Biazzio ..................................................................................... 23

../../../../../../A-Rogério/Espiritismo/Livros/Obras do Chico para arrumar/281 - VOZES DE OUTRA MARGEM/vozes_outra_margem_16.htmRoberto Igor Porto da Silva .................................................................................. 32

Casa de Eurípedes no Mundo Maior .................................................................... 36

Nova mensagem de Clóvis Tavares ..................................................................... 39

Marco Antônio da Silva

Diálogos Íntimos
Após um acidente de automóvel, Marco Antonio da Silva, foi hospitalizado numa clínica do Rio de Janeiro, onde se submeteu a delicada cirurgia de crânio, mas não evoluiu bem, vindo a falecer cinco dias depois, aos 11 de abril de 1984, de parada cardíaca.

A sua desencarnação deixou esposa, pais e demais familiares inconsoláveis. Porém, transcorridos nove meses, seu pai, sr. José Maria Campos da Silva, estimulado pela filha Áurea, que na época era a única simpatizante do Espiritismo na família, dirigiu-se a Uberaba, e nessa primeira viagem reencontrou-se com o filho querido, pela psicografia de Chico Xavier, ao participar de uma reunião pública do Grupo Espírita da Prece, na noite de 25 de janeiro de 1985.

Com carinhosa e elucidativa carta, Marco conseguiu levantar o ânimo de toda a família, revelando-se unido a todos, espiritualmente, na luz da fé em Deus. Em poucos meses, ele já havia superado as grandes e habituais dificuldades iniciais de adaptação, mostrando-se muito conformado e confiante.

E em cartas subsequentes, datadas de 16 de maio e 31 de agosto de 1985, como veremos adiante, sentindo-se mais à vontade com o correio mediúnico, ele adentra com muita naturalidade em questões pessoais e familiares, integrando-se mais e mais com seus entes queridos, em proveitosos e fraternais diálogos íntimos.


PRIMEIRA CARTA
Meu querido pai José Maria, lembrando-me da mãezinha Eunice, peço-lhes para que me abençoem.

Papai, venho até aqui com o meu avô Camilo e com a vovó Maria Campos, para dizer-lhes que tudo segue comigo na luz da fé em Deus.

Maria Creuza e a nossa Camilinha estão em meu pensamento e lastimo a parada cardíaca que me liberou da experiência física, porque tanto desejava prosseguir com a família; no entanto, meu avô Camilo me faz refletir nas Leis Divinas que escolhem o melhor para nós e não tenho razão para me queixar.

Não sabia que a Bondade Celeste me reservaria afeições tão queridas deste outro lado da existência, mas vejo que em Capelinha tesouros de amor nos estão endereçados, com os meus avós e parentes queridos. Isso não me faz esquecer os meus deveres de filho, esposo e pai; no entanto, sinto-me mais corajoso para enfrentar os dias que hão de vir.

Peço-lhe, meu pai, reconfortar a nossa estimada Creuza e proteger a nossa pequenina, tanto quanto isto se lhe faça possível. Sei que o senhor não se descuidará desse amparo que vem a ser amparo a mim próprio e agradeço-lhe, pedindo a Jesus o recompense.

Meu intuito é apenas o de tranquliza-los e rogo à Maria Creuza fé em Deus e confiança na vida, na certeza de que Deus nunca falha. Com a esperança em dias melhores, o ambiente que ainda persiste, com a nossa separação temporária, se fará mais claro e promissor.

Pai querido, com o meu beijo à filhinha e todo o meu amor à esposa querida, envio lembranças ao Carlos Henrique e, reunindo a sua bondade com a bondade da mãezinha Eunice, beija-lhes, reconhecidamente, as mãos, o filho agradecido, muito agradecido de sempre,

Marco Antônio da Silva
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES

1 - pai José Maria e mãezinha Eunice - Seus pais, José Maria Campos da Silva e Eunice Salerno da Silva residentes na Av. Suburbana, 1496, Bloco 3, Entrada B, Apart. 304, bairro Benfica, Rio de Janeiro, RJ.

2 - avô Camilo -Camilo Antonio da Silva, avô paterno, desencarnado em 03/4/1978.

3 - vovó Maria Campos -Maria Campos, avó paterna, desencarnada em 27/5/1926.

4 - Capelinha - Cidade mineira, berço natal da família paterna.

5 - Creuza e nossa pequenina -Maria Creuza de Andrade da Silva, esposa, e Camila Andrade Silva, com um ano e três meses de idade na época da desencarnação de seu pai.

6 - Carlos Henrique - Carlos Henrique da Silva, irmão.

7 - Marco Antonio da Silva - Nasceu em 13/4/1955. era subgerente de grande laboratório farmacêutico. Contou-nos seu progenitor que Marco, embora católico, gostava de ler livros espiritualistas, inclusive espíritas. Esses livros foram encontrados em sua biblioteca, atrás de outras obras, pois o filho os escondia para não contrariar seu pai, que condenava tal leitura. “Pela minha formação religiosa eu não os aceitava” afirmou-nos sr. José Maria, nas dependências do Grupo Espírita da Prece, em Uberaba. “Só mudei de opinião com o recebimento das cartas mediúnicas. Eu vim pela dor.”

8 - Para melhor entender o tema central da Segunda Carta, é útil esclarecer que o irmão Carlos Henrique, Carlinhos na intimidade, achou que Marcos havia se esquecido de seus irmãos, não os mencionando na Primeira Carta, pois interpretou a frase: lembranças ao Carlos Henrique como um recado dirigido a um amigo, gerente de Banco.
SEGUNDA CARTA
Meu querido pai José Maria e querida mãezinha Eunice, estas minhas páginas não possuem qualquer reclamação.

Desejo apenas esclarecer ao meu querido irmão Carlinhos que não me tornei desmemoriado diante da morte. As mudanças são muitas nesta vida diferente a que as circunstâncias me trouxeram, mas não me esqueci dos familiares queridos.

O Carlos Henrique, que mencionei em meu comunicado, é ele mesmo. Carlinhos é sempre Carlinhos e não devemos esquecer isso. Escrevendo para a família numa sala repleta de gente simpática, mas efetivamente desconhecida, coloquei, em meu noticiário de afetivos, gestos que me tornaram um tanto cerimonioso, sem necessidade. Agora mais integrado neste grupo fraterno, posso chama-lo pelo nome familiar de meu irmão Carlinhos, embora sem desprezar o nosso amigo Carlos, do Banco.

Informo ainda ao estimado mano que temos quatro irmãs que nomearei na pauta da nossa intimidade. A gorda, por trazer algum peso a mais; a amarela, porque traz consigo traços das flores amareladas; e a Áurea e Janete que recusaram os nossos apelidos.

Certidão de Identidade, o Carlinhos poderá consultar em nossa casa mesmo; e não precisa agora esclarecer que estou vacinado, porque o corpo não me permite atualmente. E como deixei aí a nossa querida Maria Creuza e a nossa Camilinha, esposa e filha sempre queridas, não preciso reportar-me à maioridade.

Isso não vale por repreensão, mesmo de leve, porque somos irmãos de alma e coração, sem qualquer nuvem prevendo rixas.

Acontece que, em me comunicando aqui pela primeira vez, era eu recruta inexperiente, desejando demonstrar algum traço de educação e de inteligência.

Agora, espero eu ficaremos novamente em paz um com o outro, muito embora as nossas vidas em planos diferentes. Desejo ao Carlinhos muito progresso nas tarefas que abraçar e conto com ele para que a nossa Camilinha possa crescer tão bem como sempre desejávamos.

Querido papai José Maria e querida Mãezinha Eunice, com a minha querida esposa, recebam o abraço muito saudoso do filho que lhes pertence em nome de Deus,

Marco Antonio da Silva.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
9 - A gorda - Sua irmã,Maria das Graças.

10 - a amarela - Sua irmã Sandra.

11 - Áurea e Janete - Irmãs.
TERCEIRA CARTA
Meu querido pai José Maria e querida mãezinha Eunice, muito grato pelo carinhoso cuidado com que me vestiram as idéias e as palavras para conhecimento dos irmãos de trabalho e de ideal. O salmo 23 de David foi sempre o meu recanto predileto nas letras bíblicas, e a inclusão dessa peça em minhas pobres notícias foram para mim motivo de muita alegria e bom ânimo para trabalhar.

Prossigo para a frente, não mais fixando a memória naquelas horas de expectativa que me antecederam a desencarnação. Aquele piso de corredor que me fizera uma antecâmara de amargar, mas, por fim, a cirurgia que me antecipou o passaporte para a grande viagem foi um barato de vinte e cinco mil mangos, que poderiam ter sido aproveitados na educação de nossa Camilinha, quando o cheque e o tempo adequado fariam a realização dos meus sonhos de ver a filha querida com amplo domínio nas matérias que lhe farão a cultura da inteligência.



Entretanto, o que foi não mais será e aqui estou para reafirmar os meus votos de felicidade à Maria Creuza, a esposa dedicada, e à filhinha, que se desenvolve com os encantos da flor humana que eu tanto desejava acompanhar. Apesar disso, procuro segui-la e auxiliar-lhe os passos iniciantes na vida, tanto quanto mantendo o otimismo e a esperança na companheira querida.

Não vou escrever muito, porque a turma está sem tempo de fazer um tempo igual ao de ontem à noite, quando me retirei do fim da fila, e todas as caudas de filas são pontos de incerteza em que o “sim” e o “não” se misturam a cada hora que se escoa.

Desejava trocar as nossas saudades e isso creio que esta carta nos fará o obséquio de realizar. Saudades aliviadas, voltam a crescer e doer no dia seguinte a cada reencontro entre os que se amam e por isso, esperemos o amanhã para vermos como isso é uma verdade patente.

A gente fala e ouve, e depois quer ouvir mais e falar amplamente. Por isso fico por aqui, com o meu carinho à nossa querida Maria Creuza e à nossa Camilinha, e lembranças ao Carlinhos, meu irmão, e um abraço para a Gorda e para a nossa estimada Amarela, junto de Áurea e Janete.

Aqui me perguntam porque apelidei a Maria das Graças com o nome de Gorda e apelei para o humor, afirmando que todas as pessoas pertencentes às graças da vida não podem ser magricelas; e se nomeio à Sandra com o apelido de Amarela, é porque a querida irmã traz no peito um coração de ouro amarelo,qual derivado da luz solar. Creio que me saí bem, porque as irmãs queridas são todas notáveis pelo carinho e pela bondade de sempre.

Meu querido pai José Maria, não considere esta carta um noticiário estreito, porque senão cansaremos em demasia os amigos que nos acolhem e receba, com a Mãezinha Eunice, o amor imenso, com as imensas saudades do filho que pede a Jesus os conserve sempre mais unidos e mais felizes, sempre o filho e companheiro muito grato,

Marco Antonio da Silva.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
12 - carinhoso cuidado com que me vestiram as idéias e as palavras - Refere-se à impressão gráfica das suas duas primeiras cartas mediúnicas. No preâmbulo da Segunda foi colocado o Salmo 23 de David, por sugestão da esposa, página que ele sempre lia à noite.

13 - vinte e cinco mil mangos - Marco sempre usava a gíria mango para se referir a dinheiro. Na época, a Clínica cobrou 25 milhões de cruzeiros (vinte e cinco mil cruzados) pela cirurgia realizada.

14 - ontem à noite, quando me retirei do fim da fila - Naquela época, havia reunião pública às sextas-feiras no GEP, quando ele não conseguiu redigir sua carta.

Renato Fumagalli

Desencarnação Imprevista, Quase um Sonho...
Desencarna-se de mil modos... E, em todos eles, a Providência Divina se faz presente através de Benfeitores Espirituais que nos assistem com técnicas especializadas, dando-nos forças e orientação no instante dessa Grande Mudança, na qual deixamos o veículo físico e regressamos ao Mundo Maior.

Aqui comparece Renato Fumagalli com sua interessante experiência, relatada em três cartas mediúnicas, quando num processo de desencarnação totalmente imprevisto pelos seus familiares, foi amparado pelo Espírito do avô, já a postos no momento certo, levando-o a se confundir, inicialmente, com um “sonho-realidade”.

Naquela noite, de 8 de janeiro de 1985, Renato havia deitado aparentando saúde perfeita. Mas, naquele sono derradeiro da existência carnal, sofreu provável enfarte fulminante do miocárdio, com apenas 39 anos de idade.

Três semanas após a Primeira e pequena Carta, escrita em 28 de setembro de 1985, com o objetivo maior de consolar e esclarecer sua filha de 12 anos, redigiu nova e longa Carta, aos 29 de outubro, igualmente pelo médium - Chico Xavier, em Uberaba, explicando com detalhes sua valiosa experiência, vivida em seus primeiros passos na Pátria Espiritual.

A Terceira Carta só viria bem mais tarde, aos 23 de junho de 1986, com informações preciosas e reveladoras de um maior discernimento depois que começou a frequentar um círculo de estudo em sua Nova Vida.
PRIMEIRA CARTA
Querida Malu, querido papai Sebastião com a mamãe Ana, e todos os nossos.

Peço que Jesus nos proteja.

Desculpe-me se o coração parou de repente, à feição de motor sem combustível.

Querida Malu, sigo os seus pensamentos de amargura e saudades, que se identificam com os meus.

Fui recebido pelo meu avô Ambrósio, que me ampara com dedicação que não sei como retribuir.

O papai Sebastião tem me auxiliado com muito devotamento, através das preces e dos pensamentos positivos para o meu bem. Sou grato a ele.

Marilu - os nossos meninos vivem por dentro do meu coração. A Alessandra, o Rodrigo, o Renato e o Ricardo moram espiritualmente comigo, qual se eu lhes fosse um grande espelho em que acabam todos em meu caminho.

Meu objetivo com esta carta ligeira é o de revê-los e abraça-los a todos, mas principalmente quero pedir à nossa querida Alessandra que o papai sente muita saudades de sua presença de filha afetuosa e que nós dois nunca poderíamos brigar um com o outro. Amo a querida Alessandra com todos os meus melhores sentimentos e espero que ela esteja tranquila. Não desejo vê-la preocupada ou imaginando que o papai ficou sentido por alguma bagatela de que não me lembro. O que sei é que adoro a nossa filhinha e quero muito bem os nossos rapazes, hoje meninos, no entanto grandes jovens que nos proporcionarão muitas felicidades no amanhã.

Queridos pais e querida Malu, não me sendo possível escrever mais, peço-lhes receber um jardim muito grande de agradecimentos e saudades do esposo e filho reconhecido de sempre,

Renato Fumagalli.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - Marilu - Marilu Carvalho Fumagalli, esposa, residente em Limeira, SP, à Rua Boa Morte, 312.

2 - papai Sebastião e mamãe Ana - Sebastião Fumagalli e Ana Chiaradia Fumagalli, seus progenitores, residentes tembém em Limeira.

3 - Avô Ambrósio - Ambrósio Fumagalli, desencarnado em 1971.

4 - O papai Sebastião tem me auxiliado (...) através das preces e dos pensamentos positivos - Fato plenamente confirmado pelo Sr. Sebastião, espiritualista, que, todas as noites, desde a desencarnação do filho, ora e vibra positivamente em benefício dele.



5 - Alessandra, Renato, Rodrigo e Ricardo - Seus filhos, na época das duas primeiras Cartas com as idades de 12, 10, 10 (gêmeos) e 8 anos.
SEGUNDA CARTA
Querida Marilu, pelo ao Altíssimo para que a paz permaneça conosco.

Você fez muito bem resolvendo vir até aqui, em companhia de nossa irmã, porque as saudades têm sido o meu clima constante.

De nada me queixo, porque isso seria ingratidão para com aqueles que velam por nós, mas desejava escrever a você, dizendo que não é tão fácil para o homem acomodar-se com as imposições do afastamento compulsório do corpo físico, justamente quando a vida familiar está começando.

Decerto que procuro de minha parte estabelecer o clima de paciência e resignação de que especialmente nós dois devemos dar testemunho. No entanto, surgem os momentos, quais os desta semana que hoje termina, que há tanta dor por dentro da alma, que registra os sentimentos, ao lado daqueles que mais amamos. É uma desinibição medicamentosa.

Onde me encontro, disponho de todos os recursos para demonstrar tranquilidade e bom ânimo. No entanto, saiba você que semelhante atitude de contemporização é quase impossível.

Você não pode imaginar a minha surpresa naquela noite aparentemente calma. Vi-me em sonho, ao lado de meu avô Ambrósio. Vi um sonho-realidade, no qual o via tão claramente, como se estivéssemos juntos em plena luz.

Conversamos pelas ruas e, de minha parte, observava que o ar estava mais leve e mais puro. Em dado momento, um amigo se aproximou de nós e estendeu-me a mão fraterna. Meu avô apressou-se em apresentá-lo: “Veja Renato, aqui é o nosso amigo Dr. Trajano Barros de Camargo, um companheiro e um Amigo de todos os momentos.” O recém-chegado sorriu, aumentando o meu espanto e diligenciou tranquilizar-me, afirmando: ”Já sei, meu caro rapaz. A nossa estranheza é muito grande nestes momentos.”

Aquele homem simpático e aquela voz... Não cheguei a tremer de susto; no entanto, admirei-me, como era natural. Estava ciente de que o Doutor Trajano fora um homem correto e de rara nobreza, mas sabíamos que estávamos dialogando com um amigo morto. Muitas vezes atravessara a rua que lhe guarda o nome, e de pronto nada consegui responder. Meu avô explicou-me que eu era um recruta, um novato naquela situação e o Doutor Trajano me colocou à vontade.

Manifestei o desejo de voltar à nossa casa e os dois me acompanharam.

Entramos, desde que o Doutor Trajano possuía o aval do meu avô Ambrósio para agir com intimidade. O Amigo permaneceu em nossa sala-de-estar e volvi ao quarto. Quis acordar o meu próprio corpo; entretanto, a mudança havida me estremeceu. Meu corpo, de que me orgulhava tanto na boa apresentação, estava imóvel.

À medida que os meus receios cresciam, o meu corpo espiritual, em cuja posse já havia entrado sem perceber, se mostrava mais consistente, esforcei-me um tanto mais; no entanto, sucedera o imprevisto com o qual nunca poderia contar. A minha máquina física estava inerte. Pasmo e arrasando-me de dor, indaguei de meu avô se aquilo era a morte. E o avô Ambrósio, compadecendo-se de mim, fixou um gesto afirmativo em resposta. Senti-me envolto num clima de gelo e caí nos braços de meu avô que me aconselhou a retirada.

Confesso a você, querida Marilu, que chorei convulsivamente, por mim, por você, por meus pais e por nossos filhos e não tive outro recurso senão aceitar o braço que o avô Ambrósio me oferecia para sair.

O Doutor Trajano, experiente e generoso, aproximou-se de nós e deliberou amparar-me. Foi quando me estirei nos braços de ambos os benfeitores e entrei num desmaio indescritível.

Despertei ignorando o tempo que despendera para tornar a mim próprio. A casa que me acolhia era simples e agradável. Uma senhora que me solicitou chama-la por Ana,que é o nome de minha mãe, se incumbia de prestar-me todos os favores que uma enfermeira de família concede a um doente.

Acho que me deixara cansado, neurotizado e difícil. O avô Ambrósio pediu-me calma e aconselhou-me a retornar ao hábito da prece por elemento de fixação de minha própria serenidade. No entanto, por dentro de meu cérebro fatigado só havia restos de petições que minha mãe, nos tempos de menino, me ensinava a cultivar. Assim mesmo, destes restos fiz uma recomposição provisória e roguei a Deus me desse forças para aceitar a vida nova.

Começou para mim outra existência muito diversa daquela que me fora habitual. Asserenando o íntimo, pude rever você e os nossos filhos, compreendendo que a nossa amargura se identificava uma com a outra. Abracei meus pais e beijei as nossas crianças. A Alessandra me abraçou com mais força ante o meu abraço, enquanto o Rodrigo, Ricardo e Renato sorriam, recordando o papai.

Não devo tomar tanto tempo aos Amigos que nos hospedam e vou terminar. Peço a você coragem e paz. Não se sinta enfraquecida ou sozinha. Estarei com você sempre que as circunstâncias me permitirem os abençoados períodos de voltar ao lar e conto com sua fortaleza de fé e otimismo, já que os seus cuidados atualmente se revestem de dupla função.

Saibamos interpretar as ocorrências com a força mental que os acontecimentos nos exigem e confiemos na Providência Divina.

Um ábaco ao papai Sebastião e à mãezinha Ana. Beijos em nossa querida Alessandra, que vejo agora um tanto mais conformada, e o abração em nossos garotos que precisam sempre de nós e que nos cabe honrar com a nossa dedicação. Para você, os pensamentos de carinho e confiança dos nossos tempos de noivado, com a certeza de que nos reencontraremos no grande futuro com todo coração seu, sempre seu,

Renato Fumagalli.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
6 - amigo Dr. Trajano Barros de Camargo - Engenheiro e Pioneiro da Indústria, desencarnado em 1930, foi patrão e amigo do avô Ambrósio. Em justa homenagem, seu nome foi dado a uma das principais ruas da cidade de Limeira.

7 - Meu corpo, de que me orgulhava tanto na boa apresentação - Escreveu-nos D. Marilu: “De fato, ele era uma pessoa que cuidava muito da apresentação de seu vestuário, com barba sempre bem feita, cabelos bem penteados, tudo impecável.”

8 - Ana - Provavelmente trata-se da bisavó materna, desencarnada em 1931.

9 - A Alessandra me abraçou com mais força ante o meu abraço, enquanto o Rodrigo, Ricardo e Renato sorriam - “Um dia, Alessandra levantou-se de manhã e disse que tinha sonhado com o pai. Ela estava na sala com os irmãos, quando Renato entrou, vestido de pijama, e a abraçou. Disse Alessandra que, nesse momento, ela chegou a sentir o calor de suas costas.” (D.Marilu)


TERCEIRA CARTA
Querido papai Sebastião.

Rogo a deus abençoar-nos.

A saudade é sempre um imã abençoado, atraindo os corações dos que se amam, tenho recebido os seus pensamentos tanto quando os da Mãezinha Ana, de nossa querida Marilu e da querida Maria Elisa.

É isto mesmo. Muita gente crê que a família não se transporta para cá, onde somos informados de que residimos temporariamente no Mais Além da vida física, num tipo de existência tão semelhante à que levávamos aí; no entanto, a Natureza não dá saltos e é preciso nos acostumemos a reconhecer que os degraus aqui prevalecem para todos.

Por enquanto, em meu caso, somos o que éramos e estamos no lugar que nos compete, sem quaisquer concessões solenes que nos façam diferentes dos companheiros de desencarnação recente.

Pai, agradeço-lhe a compreensão e as reflexões do silêncio, nas quais lhe posso transmitir ao campo intuitivo muitas das realidades em que presentemente me encontro.
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