Vozes da Outra Margem Chico Xavier



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Minha mãe por vezes pergunta por que motivo teria eu encontrado a libertação do corpo físico, enquanto dormia, sem possibilidade de interferências humanas em meu corpo. Querida Mãe! Isso é raciocínio de quem ama, colocando o coração acima do cérebro, mas rogo ao Senhor explicar-lhe que a desencarnação, do naipe da que me sucedeu, é uma bênção autêntica do céu, porque talvez uma longa parada cardíaca me agredisse ao levantar-me e não teria alternativa senão aguentar indeterminado tempo de paralisia com os incômodos conexos. Graças a Deus, voltei assim como quem dorme para acordar no outro dia na esperança de voltar à Terra, mas desperto na imortalidade, onde tudo para nós se faz mais fácil.

Sinceramente, não posso compreender as lágrimas da querida esposa Marilu e a dor da Mãezinha Ana, sempre queixosas quanto à maneira pela qual fui desligado do corpo físico, à maneira do desparafusamento de um homem doente preso ao leito. É verdade que essa condição não era a minha, mas do ponto de vista físico eu era um doente verticalizado, prestes a se recolher para tratamento. E aqui tratamentos não me faltam.

Além da proteção de meu avô e do amigo doutor Trajano, tenho um amigo do qual o papai se lembrará. Trata-se do irmão Bertolini, que em nossa cidade nos deu tantos exemplos de humildade e serviço ao próximo. Em companhia dele e do Waldyr Antonio frequento um círculo de estudo, no qual tenho recebido muito amparo a fim de compreender a vida e entender a mim próprio.

Pai, muitas vezes ouvi suas referências a livros de importância para nossa preparação diante da desencarnação, mas não pude parar, em minha intensa movimentação de trabalho para estuda-los e anteceder-me no conhecimento da nova situação que me esperava. A sua bondade me desculpará por isso.

Descartei-me das meditações mais profundas acerca da vida, mas a verdade é que não pude me desvencilhar da necessidade de estudar, agora que a morte inesperada do corpo me impôs a obrigação de conhecer para melhorar-me e melhorar a minha própria situação.

Nesse sentido, qual lhe falo, prossigo perseguindo a minha renovação interior para conquistar novos recursos da Espiritualidade em meu próprio benefício. É nesse sentido que a companhia do amigo Bertolini me propicia grande bem, porque preciso revalorizar-me, de modo a ser um pai amigo e útil para o Renato, para o Ricardo, e para o Rodrigo e Alessandra, os filhos que a nossa querida Marilu vem preparando com sabedoria e precisão, dentro de sua bela capacidade intuitiva de Mãe amorosa e dedicada. Aliás, peço-lhe agradecer a ela por mim a bênção de paz que ela me proporciona, conduzindo os filhos com a segurança que eu mesmo não possuía.

Agradeço-lhe ao coração paterno, à Mãezinha Ana e à nossa Maria Elisa tudo o que fazem para prestigiar a minha esposa na missão educativa que ela tomou a si com tanto êxito.

De meu lado, vou melhorar no campo emocional, conquanto as saudades ainda sejam carga cerrada de preocupações em seu filho.

Mau avô é de parecer que devo prolongar o meu estágio em Limeira a fim de habilitar-me para novos serviços, e assim, reparto o meu tempo com a família, com os estudos e com as abençoadas contemplações de nossos laranjais.

Os sentimentos de filho, esposo e pai, por vezes, ainda me afloram à cabeça com a força de estranha compulsão, na qual fico a desejar compartilhar da existência que deixei, mas a prece tem me ensinado autodomínio, e tenho progredido um tanto em discernimento para aceitar a inoportunidade de meus intentos e permanecer em meu lugar próprio.

Penso que estas minhas notícias lhes farão bem, porque sempre notei a sua sinceridade em me desejando mais ampla integração com a Espiritualidade. Conforme pode notar, não perdi o que já detinha comigo e venho ampliando a minha capacidade de ver e refletir com a verdade.

Pai, peço-lhe abraçar, por mim, os seus quatro netos - Rodrigo, Renato, Alessandra e Ricardo, como estão em pensamento me abraçando.

Peço a Jesus lhe conceda vida e saúde, muita alegria e bom ânimo em todos os seus passos, para que o vejamos ao lado da Mãezinha Ana sempre contente e feliz. E, desenjando-lhe tudo aquilo que a vida nos possa doar de Bem e Belo, abraça-o, reconhecidamente, o filho e companheiro que lhe deve tanto, sempre o seu filho, muito grato,

Renato.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
10 - Maria Elisa - Maria Elisa Fumagalli de Lima, irmã.

11 - irmão Bertolini, que em nossa cidade nos deu tantos exemplos de humildade e serviço ao próximo - Foi amigo devotado do sr. Sebastião Fumagalli. “Augusto Bertolini nasceu em Luca, Itália, a 2/11/1878, e faleceu em São Paulo, Capital, a 28/8/1961. Nas últimas décadas de sua vida residiu em Limeira, SP, exercendo a profissão de viajante. Colaborou ativamente nas campanhas pró construção do Sanatório Antonio Luiz Sayão, de Araras, inclusive participando de longas viagens pelo país. Quando da organização da primeira diretoria deste hospital, assumiu o cargo de vice-presidente, e sua esposa, D. Alice, integrou o Conselho Consultivo.” (Reencontros, F.C.Xavier, Espíritos Diversos, H.M.C. Arantes, cap. 6, Nota nº 10, p.39) Ver também, no cap. 9 desta obra citada, o interessante reencontro de Chico Xavier com o Espírito de Augusto Bertolini, na cidade de Uberaba, em 1968.

12 - Waldyr Antonio - Waldyr Antonio Feola (8/5/1924 - 26/9/1978) foi antigo funcionário da Prefeitura Municipal de Limeira.

Família Pagneli


Em grave acidente automobilístico, na Rodovia Faria Lima (SP-326), a 20 de abril de 1983, toda uma família - casal Luiz César Piagneri- Rita de Cassa Piagneri e três filhos menores - que residia no Bairro Jabaquara, em São Paulo, Capital, perdeu a vida física.

Porém, um ano depois, a 11 de maio de 1984, em Uberaba, os familiares receberam confortadora e elucidativa carta mediúnica, assinada pelo Luiz César, narrando de modo objetivo e sucinto a dolorosa provação coletiva que passaram, enfatizando a assistência que vinham recebendo até então, desde a data do acidente, em ambiente hospitalar, como veremos a seguir:


Querida mãezinha Maria e querida mãezinha Valéria, abençoem-nos.

Venho até aqui tão somente, por mim próprio, com a proteção de meu avô que me serve de guia para esta nova experiência, escrever num ambiente estranho, como quem telegrafa.

Estranho o ambiente, aliás, que se me revela favorável, mas preciso informá-las de que vamos indo tão bem quanto possível.

Peço-lhes não se mergulhem nos raciocínios sobre tudo aquilo que nos pareceu uma tragédia na Faria Lima. Quero dizer à mamãe e à mamãe Valéria, que ficou sendo minha mãe pelo coração, a minha sogra e avó de meus filhos.

Não saberia contar o que sucedeu. Uma grande carreta impeliu-nos, decerto contra a vontade do motorista que a conduzia, para o outro lado da estrada onde, por um relâmpago de tempo, tive a impressão de que seguíamos viagem a salvo de quaisquer dificuldades, quando outra carreta nos apareceu de improviso sem possibilidade de freagem e o resto já sabem: o massacre foi total, Rita e eu com os filhos Luiz Eduardo, Leandro e André nada mais vimos: o nosso pensamento foi transitoriamente cassado, assim creio, porque tivemos a pressão irresistível da grande máquina sobre nós e acabamos todos desmaiados ou diluídos no impacto.

O sofrimento foi muito grande para nós quando acordamos, sob os cuidados de pessoas que nos pareciam estranhas.

Em breve tempo, soubemos que estávamos despojados do corpo físico, o corpo que nos prende à existência na Terra. Uma enfermaria ampla nos resguardava.

Ao lado de Rita estava o nosso irmão Senhor João Bosco Carbone e comigo estavam familiares queridos, com a minha bisavó comandando a assistência de que nos víamos necessitados.

E até hoje o tratamento de recomposição prossegue, porque emocionalmente estávamos alucinados. Somente agora, vamos situando cada ocorrência na faixa da realidade e estamos contando com a Bondade de Deus para saber como será o remate de nossa convalescença.

Das minudências de nosso reajuste não sei dizer o que poderia contar. Existem problemas aqui que o homem comum não entenderia, se lhe fosse exposto à visão.

Pedimos ainda para que nos auxiliem com as orações.

O amigo Padre Primo nos visita e outros amigos de Barretos nos reconfortam.

Espero mais tarde ser mais explícito. Querida Mamãe e querida sogra, mães do coração, recebam as muitas esperanças nossas e o nosso desejo de nos reconstituirmos totalmente em tempo mais curto do que o esperado.

Com ambas e com todos os nossos, os melhores pensamentos do filho e genro que as reúne num só abraço,

Luiz César Piagneri.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - mãezinha Maria - Maria Riscalli Piagneri, progenitora, esposa do Prof. Antonio Piagneri, que, gentilmente, nos enviou a foto e as identificações que se seguem. Residem em Barretos, SP, à rua 34, nº 456.

2 - mãezinha Valéria - Sua sogra, Valéria Faria Carbone, esposa de Calixto Carbone.

3 - Luiz Eduardo, Leandro e André - Filhos, todos desencarnados no acidente, com as idades de 5 anos, 3 anos, e 9 meses, respectivamente.

4 - João Bosco Carbone - Irmão de Rita de Cássia, desencarnado em 1978.

5 - Padre Primo - Exerceu, por muitos anos, o sacerdócio em Barretos e desencarnou em Brasília, DF.

6 - Luiz César Piagneri - (26/5/1948 - 20/4/1983) Engenheiro eletrônico, formado pela Faculdade de Engenharia de Barretos, trabalhava na COSIPA, em São Paulo, SP.

Napoleão Pizotti

Saudade em Dois Mundos


O Sr. Napoleão Pizzotti, desencarnado na Capital paulista, a 1º de Outubro de 1979, aos 56 anos de idade, enviou suas primeiras notícias do Mais Além através da mediunidade do saudoso Eurícledes Formiga, em 1981, orientando e consolando seus entes queridos com muito carinho. Tais notícias, corporificando suas cartas, integram o livro Olá, Amigos (Espíritos diversos, E.Formiga, E.C.Monteiro,IDE).

A 29 de setembro de 1984, em Uberaba, na reunião pública do GEP, mais uma vez o sr. Napoleão comunicou-se com sua querida esposa, pelo lápis mediúnico de Chico Xavier, esclarecendo a causa de sua desencarnação e estabelecendo interessante e oportuno paralelo entre as saudades que vivem conosco tanto no Mundo Físico, como no Espiritual.

Eis a carta do devotado esposo:
Querida Leida, Jesus nos abençoe.

Estou aqui, em companhia de meu pai Januário, para dizer a você que a intoxicação pelo formol felizmente desapareceu de minha presença.

Conquanto as saudades de você e de nossos filhos, de nossas queridas crianças e de nossos amigos, estou melhor porque, em verdade, querida esposa, não poderia continuar vivendo no corpo prejudicado pela inalação demorada do agente venenoso, em meu serviço.

Rendo graças a Deus porque estou livre daquelas consequências que me transformaram o corpo num fardo de sofrimento e mal-estar.

Ainda estou convalescente e inseguro, mas espero melhorar para demonstrar-lhe os meus agradecimentos.

Com o auxílio de Deus saberei ser-lhes útil conto com a sua fortaleza de ânimo para sentir-me sem qualquer diminuição do bom ânimo que a fé em Deus me faculta.

Meu pai foi o meu companheiro na liberação final dos meus constrangimentos físicos e você, com a sua bondade, pode imaginar a nossa emoção ao reencontrarmo-nos.

Tenho nossos filhos no coração e na memória, e espero que o Reinaldo, a Elizabeth, a Néia com a Nilzinha possam ser junto de você uma equipe de corações queridos que não lhe deixe tempo para tristeza e solidão.

Querida Leida, estimaria continuar mas ainda não me sinto forte a ponto de escrever, de modo rápido, uma série de notícias mais longas, como me recomendam aqui, para ganharmos tempo.

Meus dedos estão destreinados e meu pai é justamente o amigo que me escora na realização deste meu anseio de me comunicar com o seu carinho, para que as nossas saudades fiquem atenuadas com a troca que fizermos, porque saudades minhas e saudades suas, juntas como estão, a meu ver, serão dois pratos na balança dos nossos sentimentos, devidamente equilibrados, de maneira a seguirmos em frente com os nossos deveres, sem qualquer tisna de ingratidão para com aqueles que nos auxiliam.

Querida Esposa e minha maior amiga, receba o coração de seu velho esposo e companheiro, e sempre seu servidos reconhecido,

Napoleão Pizzotti.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - Leida - Assim chamada pelo marido, D. Aleida Costa Pizzotti, reside em São Paulo. SP.

2 - Januário - Januário Pezzote, progenitor, desencarnado em 1927.

3 - Intoxicação pelo formol (...) inalação demorada do agente venenoso, em meu serviço - De fato, os sinais de intoxicação foram aparecendo depois que o Sr. Napoleão começou a colocar vidros num shopping center, em regime de trabalho intensivo, mas espontâneo, pois era muito responsável e queria completá-lo dentro do prazo previsto. Dessa forma, permaneceu muito tempo em contato com vapores de formol, líquido que é utilizado no preparo da madeira para a colagem do cristal. Mas houve alguma dúvida dos médicos quanto à causa exata da lesão hepática apresentada, e outros exames laboratoriais seriam realizados se ele permanecesse com vida física mais alguns dias. Assim, suas palavras acima são elucidativas, evidentemente baseadas no diagnóstico feito pelos médicos espirituais.

4 - Reinaldo - Reinaldo Pizzotti, filho.

5 - Elizabeth - Elizabeth Pizzotti de Oliveira Santos, filha, casada com Cláudio de Oliveira Santos.

6 - Néia - Dulcinéia Pizzotti, filha.

7 - Nilzinha - Nilza Pizzotti, filha.

8 - Ao terminar de ler a mensagem, Chico Xavier transmitiu à Dª Aleida um recado do sr. Napoleão, pedindo para incluir na carta os nomes do genro e da nora: Cláudio e Mirian.

Selma Robles

Fácil Desencarnação, Difícil Libertação


Selma Robles, jovem acadêmica, terceiranista da Faculdade de Odontologia, da Universidade São Francisco, de Bragança Paulista, preparava-se para regressar a São Paulo, SP, onde residia, aproximadamente às 12 horas do dia 16 de agosto de 1980, quando começou a sentir-se mal. Pensou-se que seria um mal-estar passageiro, mas o seu estado de saúde foi piorando progressivamente, e duas horas após o início dos sintomas ela já desencarnava, apesar de ter sido conduzida às pressas ao Pronto Socorro do Hospital da própria Universidade onde estudava.

Diante de um quadro clínico tão agudo e fatal os médicos nada puderam fazer; nem mesmo conseguiram chegar a um diagnóstico preciso.

Evidentemente, um passamento tão repentino traumatizou a todos, especialmente tratando-se de uma moca “meiga, calma e sempre alegre, tão querida pelos familiares e colegas” no dizer de sua genitora.

Aos 29 de setembro de 1984, seus pais compareceram à reunião pública do GEP, em Uberaba, onde tiveram a felicidade de reencontrarem-se com a filha inesquecível pela psicografia de Chico Xavier.

Em longa carta, ela veio reafirmar o seu grande amor aos pais queridos e, ao mesmo tempo, solicitar-lhes mais entendimento e aceitação das “Leis de Deus que determinaram o seu regresso à Vida Espiritual”, pois sua desencarnação fora rápida e fácil, embora ela lutasse ainda em busca de uma maior e necessária libertação espiritual.

Eis as palavras carinhosas de Selma:



Querida mãezinha Nelly e querido papai Florial.

A vovó Amália convidou-me a vir até aqui para notícias. Desconheço o processo de escrever velozmente; no entanto, a vovó Amália me auxilia a grafar as palavras com rapidez e quero dizer-lhes, pais queridos, que tudo se alterou em minha nova vida.

Contar-lhes o que foi a minha surpresa, ante o desligamento do corpo que me prendia, será um capítulo demorado na minha história, e, por isso, querida mãezinha, estou na certeza de que isso não interessa.

Quando me vi longe do corpo, intuitivamente tudo compreendi.

Minha avó Amália, que se me deu a conhecer, falou por mim o que eu desejaria perguntar... O aneurisma fora um problema insopitável. Deu-me todos os detalhes do tratamento e se referia à bondade dos médicos que me amparavam sem possibilidade de me socorrer.

Desfeita a estrutura do processo enfermiço que me tomava a vida mental, o tumor adquiriu o destaque que não me deixava lugar a qualquer engano. Compreendo que a ruptura do tumor, que eu trazia sem perceber, represara de sangue todas as áreas de meu cérebro e as explicações da vovó Amália se fizeram para mim somente a confirmação do que eu percebera, mas tudo em torno de mim era diferente.

As saudades de casa invadiram minha alma toda e não consegui resistir às lágrimas que me vinham do coração.

A desencarnação, em meu caso, fora tão fácil, mas a libertação se consumou com muita dificuldade. Não posso negar aos pais queridos que lhes chorei a falta nas saudades do papai e da Liede, durante muitos dias...

O círculo das orações que me rodeava, no entanto, fortaleceu-me de novo para que pudesse pensar e ser-lhes útil.

Mãezinha querida, posso informar-lhe que estou bem; entretanto, o desajustamento a que me refiro tem me custado grande esforço.

Nesse ponto de meu comunicado, peço a meu pai e a você aceitarem as leis de Deus que me determinaram o regresso à Vida Espiritual.

As lágrimas de meu pai Florial me atingem o coração, quase que por gotas de fogo, porquanto seu a extensão do afeto com que sempre me esperou o crescimento para a vida, se possível para o trabalho junto dele mesmo.

Mãe, não me lastime, porque de nada me queixo, e se não estou integralmente feliz, isso é problema das saudades que ainda carrego.

Não me falta, porém, o apoio da esperança, e a vovó Amália, junto à vovó Maria, tudo fazem para ver-me tranquila. Os meus ideais para o futuro na Terra... mas o que recebo aqui excede aquilo que eu poderia acreditar, fosse um dia, o êxito desejado, que decerto ficaria muito aquém das alegrias que atualmente desfruto.

Creio que o regime de carência a que estou submetida vem providencialmente da Vida Mais Alta, a fim de que não me envaideça das alegrias que me cercam.

Minhas avós são duas companheiras admiráveis; contudo, no íntimo de minha alma, estão Você e o Papai Florial, suscitando-me a lembrança das tarefas que ficaram e, por isso, venho especialmente pedir-lhes preces em meu favor para que eu me esqueça da fixação em que me vejo para o returno à vida natural.

Tudo estará melhorando, diz a vovó Amália, e creio nela e na generosidade com que me trata.

Em razão de tanto amparo, só me restam motivos para agradecer e, porque não sei faze-lo como devo, estarei contando com a sua cooperação a meu benefício.

Da doença que se ocultou tão bem no meu cérebro nada mais me incomoda e, por isso, pelo ao Papai e ao seu carinho de mãe a paz de que necessito, porquanto se me entregarem a Deus, como preciso, estou certa de que os meus laços com a vida familiar não me doerão tanto no campo da própria alma.

Querida Mãezinha, isso é pessoalmente o que eu tinha a dizer-lhes e estou na certeza de que serei lembrada sem a mágoa profunda da ausência, que ainda me ensombra a alma, por vezes.

Espero que, em futuro próximo, estarei mais intimamente unida em espírito à nossa vida de lar e para isso devo rogar-lhes cooperação.

Muito carinho para Liede, rogando-lhe receber com meu pai as muitas saudades e agradecimentos da filha que ainda está presa ao amor que nos reúne e que devo transformar em saúde e vida para todos os meus.

Querida Mãezinha guarde consigo o carinho e amor, sempre amor, de sua filha que não os esquece

Selma Robles.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - Nelly e Florial - Seus pais, Nelly Capopezza Robles e Florial Robles serrano, residentes à Rua Ararigbóia, 176, Mooca, São Paulo, Capital.

2 - Vovó Amália - Amália Guerra, desencarnada em 26/4/1916, bisavó materna.

3 - Liede - Irmã.

4 - Círculo das orações - O valor da prece é sempre lembrados nas cartas mediúnicas.

5 - Peço aceitarem as leis de Deus que me determinaram o regresso à Vida Espiritual. (...) as lágrimas de meu pai Florial me atingem o coração, quase que por gotas de fogo. As mensagens do Mais Além frequentemente confirmam as palavras de Sanson gravadas em sua bela e instrutiva página: “Perda de pessoas amadas. Mortes prematuras” de O Evangelho Segundo o Espiritismo. (Allan Kardec, cap. 5, item 21.)

6 - Vovó Maria - Maria Serrano Robles, avó paterna, desencarnada em 1944.

Dra. Wânia Nunes Russo

Médica em Novos Campos de Aprendizagem


Logo após terminar o curso da Faculdade de Medicina do ABC, de Santo André, SP, em 1979, a jovem médica Dra. Wânia Nunes Russo foi acometida de grave enfermidade, que abalou profundamente toda a sua florida e dinâmica programação de vida: fazer residência em Pediatria e casar-se, pois estava noiva de um rapaz, igualmente médico, que já havia montado um consultório para trabalharem juntos.

Apesar de todos os tratamentos realizados, a doença, chamada Hodgkin, evoluiu inexoravelmente, levando-a à desencarnação, aos 17 de outubro de 1980, em São Paulo, onde residia.

A meiga e simpática Wânia partia para o Além deixando dolorosa saudade nos corações de seus entes queridos... saudade só atenuada pelas bênçãos da mediunidade, que une a Terra ao Céu...

Primeiramente, a amiga e médium Tereza serviu de correio fraterno, transmitindo pela psicografia suas carinhosas notícias aos pais inesquecíveis. Logo depois, em Uberaba, MG, na madrugada de 6 de fevereiro de 1981, apenas três meses após a desencarnação, ela escreveu longa carta, retratando suas primeira impressões do Mundo Maior.



Vendo-se em novos campos de aprendizagem, sem poder ainda aprofundar em observações, teceu, em seu afetuoso noticiário, pelo lápis de Chico Xavier, interessantes considerações em torno da Medicina terrena e dos princípios espirituais que regem a Vida, revelando-se, também, liberta do escravizante amor possessivo, como veremos a seguir:

Querida Mãezinha e querido Papai, recebam com a nossa Wanise os meus melhores pensamentos de carinho e reconhecimento nas preces com as quais rogo a Deus nos envolva em Sua Bênção.

Estou ainda muito surpreendida com o que me vem acontecendo desde outubro passado, a fim de expressar-me na segurança que desejo.

A princípio, no fim do corpo que me competia deixar, foi a luta para auscultar-me e compreender-me.

Os conflitos, porém, não se dissolveram em minhas indagações. Debati-me até que me rendesse à evidência, pela qual admiti a expressão deficitária dos conhecimentos que se adquirem ao no Plano Físico, em matéria de corpo e vida orgânica, célula e ciência de curar.

Certamente, não menosprezo a escola em que me formei para servir. A Medicina ainda não atingiu a verdade, mas está sempre em caminho certo, de vez que não aceita afirmações que as suas próprias experiências não conseguem provar no terreno das observações, repetidas e confirmadas tantas vezes quantas julgue precisas, para aceitar determinada conclusão.

Entretanto, pais queridos, eu seria demasiado ingênua se não tentasse observar as ocorrências da vida em mim mesma. Ainda assim, não obtive maiores esclarecimentos que concederia a mim própria se ainda estivesse por aí, experimentando aprender sempre mais.

Não escapei da vida e vovó Thereza, aqui em minha companhia, que o diga, porquanto se não lhe recebi o carinho sem agradecimentos, também não deixei de azucriná-la com perguntas, que ela buscou solucionar com a fé.

Dentro dessa fé, procurei reencontrar-me e renovar-me.

Aliás, não passei de aprendiz, sem maiores incursões na prática do que se me fizera um longo e laborioso currículo de lições.

Não consegui tratar de qualquer assunto nosso, do lado de cá, na base de explicações racionais, fora dos princípios da fé religiosa, porque o meu objetivo primordial era o de reconfortá-los, informando-lhes aos corações quanto à continuação da vida.

Saber alguma coisa não me evitou o mergulho no banho das lágrimas, e dessas lágrimas apenas consegui me libertar, confiando na grandeza da vida, que nos lembra a presença invisível de Deus, em toda parte.

Procurei manifestar-me pela sensibilidade e pelas mãos de nossa querida Tereza, a querida irmã pelo coração, que, de tanto se magoar ante as minhas despedidas, me deixou a porta aberta no coração, para que eu lhe falasse.

Felizmente, ela e eu conseguimos muito, porque todos vocês começaram a refletir com mais acerto e eu me via necessitada de algum diálogo com a nossa Wanise e com o nosso Roberto.

Graças a Deus, pude cortar o epicentro de nosso desespero recíproco. Peço-lhes auxiliar-me na pacificação do Roberto, ainda desajustado perante a situação. Com o amparo das Bênçãos Divinas, ele viverá e será feliz, tanto quanto merece.

Mãezinha, aqui o amor se amplia consideravelmente. A meu ver a idéia da posse desaparece. Queremos, acima de tudo, a felicidade das pessoas que amamos, sem qualquer propósito de escravizá-las, mesmo de leve, ao nosso modo de ser. A noiva se funde na confiança fraterna e se transforma em irmã nessa química de amor, a que me reporto.

Nosso caro Roberto será guiado por Deus à felicidade e creiam vocês, os familiares queridos, que me sentirei realizada em matéria de alegria com a alegria dele e com aquela alegria outra que eu possa ver em nossa casa.

Que causa física me haverá fornecido passaporte para cá, sinceramente, não sei.

A etiologia das moléstias, por aqui apresentam severas limitações, porque esbarramos em outros princípios e por estes outros princípios, eu tive de regressar à nossa moradia espiritual em outubro findo e não antes e nem depois.

Fiquemos, assim, debitados à nossa fé, já que a ciência encontra igualmente muros que não lhe cabe atravessar antes do tempo justo.

Agradeçam por mim à nossa Tereza, enquanto manifesto os meus agradecimentos à vovó Thereza, que tem sido minha nova professora de autodescoberta.

A Wanise querida, receba o meu habitual carinho.

Mãe, não me retenha bagagens. Elas pesam excessivamente sobre o nosso nome. Guarde as nossas fotos e basta. Pertencemo-nos mutuamente e isso chega.

Por agora, devo terminar, reunindo os três e todos os nossos em meu carinho.

Sou a filha sempre reconhecida,

Wânia Nunes Russo..
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - Mãezinha e Papai - Casal João Russo e Isabel Nunes Russo, residente em São Paulo, Capital, à Rua Aimberê, 803, Perdizes.

2 - Wanise - Wanise Nunes Russo, irmã.

3 - Desde outubro passado - Mês de sua desencarnação.

4 - Vovó Thereza - Thereza Sapienza Russo, avó, desencarnada em 9-8-1952.

5 - Tereza, a querida irmã pelo coração, que de tanto se magoar ante as minhas despedidas - Maria Tereza Tavares, amiga íntima, não se encontrava em São Paulo quando de seu desencarne, daí ter ficado muito magoada.

6 - Roberto - Dr. Roberto Francisco Soares Ricci, noivo.

7 - Mãe, não me retenha bagagens. Explicou-nos sua genitora: “Desorientei-me tanto que não encontrava forcas para pegar em suas roupas. Deixei seu armário fechado para evitar maior sofrimento. Depois de receber a mensagem pelo Chico fiquei com mais coragem e dei todas as suas coisas.”

8 - No Centro Espírita Perseverança, em São Paulo, a 27/3/1983, seus pais receberam confortadora carta de Wânia, psicografada pelo saudoso médium Eurícledes Formiga, assim redigida:

Querido papai, querida mamãe.

Novamente com permissão de Deus, venho às suas presenças, mais diretamente através da escrita, quando renovo minha gratidão e minha alegria, sempre que estou perto de vocês.

Hoje venho mais alegre do que habitualmente.

As notícias que me chegam são alentadoras, são boas para o meu coração. O casamento de nossa querida irmã Tereza, que nem por isso bloqueará o caminho mediúnico, por meio do qual sempre nos falamos. Que Deus ilumine sua nova estrada na vida, concedendo-lhe a felicidade que merece.

Outra notícia, por sinal, a bem dizer o motivo principal de nossa carta de hoje, é a renovação do ideal de felicidade no coração do nosso Roberto. Confesso que auxiliada ainda uma vez por vovó Thereza e outros amigos espirituais, tenho colaborado na medida do possível para que se concretizasse o sonho que nasceu na alma do nosso inesquecível irmão. Tudo correrá bem, se Deus quiser. Estou feliz pelo acontecimento, é o que posso afirmar.

Quanto a mim, depois de determinado período de aprendizado indispensável, acho-me integrando equipe de trabalho em organização hospitalar no Mundo Maior, prosseguindo assim os estudos interrompidos na Terra.

Muito me servem as orientações e as experiências nesse campo, adquiridas aí na Escola e no convívio com mestres e alunos, no abençoado terreno da Medicina.

Deixo para Wanise, como sempre, meu beijo muito carinhoso.

Para vocês, todo carinho da filha reconhecida,

Wânia Nunes Russo.”

Atividades de um Psiquiatra no Além

Dr. Luiz Antônio Biazzio
Dr. Luiz Antônio Biazzio, natural da Capital paulista, desencarnou em 21 de agosto de 1982, aos 29 anos, em Ribeirão Preto, SP, onde terminava sua bolsa de estudos para Residente 3 no Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas dessa Cidade.

Gozando aparente saúde e trabalhando normalmente, seu desenlace inesperado abalou profundamente seus familiares, amigos e colegas.

Mas ele mesmo,um ano depois (24/9/1983), pela psicografia de Chico Xavier, regressaria para esclarecer e consolar seus entes queridos, expondo os abençoados pressentimentos e uma visão mediúnica que o prepararam para a Grande Viagem.

E, numa Segunda Carta, recebida a 2 de junho de 1984, também em reunião pública do GEP, em Uberaba, atendendo rogativas mentais de sua irmã, que ela nunca havia contado a ninguém, Dr.

Luiz Antônio explica suas interessantes atividades médicas no Mundo Maior “nas áreas de uma psiquiatria nova.

Eis as suas palavras:


PRIMEIRA CARTA
Querida Mãezinha Leda, abençoe-me.

Estamos juntos neste encontro que nos foi proporcionado por amigos espirituais, de que o Toni está à frente, encorajando-me para as notícias que desejo transmitir, embora a inexperiência que ainda me assinala nesta espécie de manifestação.

Sei que os companheiros presentes me perdoarão, se lhes tomo o tempo, com a minha fala de saudade e carinho de filho que a desencarnação não aniquilou.

Vejo a nossa Maria Clara e a nossa querida amiga de sempre, Dª Didi, e volto a memorizar os dias últimos que usufrui do corpo físico.

Querida Mãezinha Leda, desde muito tempo sentia o cérebro como que esfogueado por pensamentos contraditórios.

Pressentia que os meus dias na experiência física estavam a esgotar-se; entretanto, apesar de meus conflitos psicológicos,desejaria ter ficado mais tempo e fiz o possível para que isso acontecesse.

Dias antes do colapso de forças que me alcançou de imprevisto, tive um sonho-realidade com o nosso Toni Cardeal,que estava sempre em minha lembrança.

Guardei a nítida impressão de vê-lo ao meu lado, no quarto, comunicando-me que nos encontraríamos em tempo breve.

Não consegui entender o diálogo que julguei estivesse nas intenções do querido amigo, porque o inesperado de tudo aquilo que me atingia os olhos apresentava qualquer cousa de fantástico nas fronteiras da alucinação.

Silenciei e o companheiro se despediu num aceno afetuoso, enquanto me conscientizava da própria situação, como quem estivesse dormindo e despertasse às súbitas; no entanto, em verdade, não me achava sob a inconsciência do sono.

O encontro era real e impressionou-me vivamente; entretanto, não quis comunicar-lhe o que vira, abstendo-me de qualquer confidência para com a nossa Maria Clara, receando as-sustá-la, quando, em meu coração, a lembrança do que sucedera parecia um bálsamo sobre as minhas inquietações da vida mental.

Ainda assim, tentei um entendimento com a nossa Dª Didi, no sentido de avisá-la que o Toni me convidara para um passeio, cuja realização estava, de minha parte, esperando com alegria.

A idéia da liberação da vida física não me ocorreu em momento algum, porque se o companheiro me prometia um encontro, esse encontro, a meu ver, aconteceria em alguma excursão no sonho que fiquei aguardando...

Entretanto, a realidade era outra, e na noite em que me senti absolutamente esvaído de forças, repentinamente recordei a promessa do amigo...

Alguma ruptura de vasos me atingira, porque, por mais buscasse falar, não mais encontrei a possibilidade de qualquer expressão, dentro da noite alta.

Rememorei meus estudos de medicina, revisei os meus doentes e os meus apuros na psiquiatria para definir-lhe as emoções e, em seguida, querida mãezinha, as recordações da infância e do lar desfilaram diante da minha visão íntima.

De tudo me lembrei...

De seus sacrifícios e dos sacrifícios do papai Caetano para que eu pudesse cumprir o meu ideal num curso de ordem superior; revi a querida irmãzinha Maria Clara, a perguntar-me sobre o que eu preferia para essa ou aquela merenda, e não me esqueci de nossas preces do tempo de criança...

O estudo, as exigências da vida e as lutas naturais de um rapaz que deseja atingir a própria maturação de um dia para outro, tudo, tudo estava ali comigo naqueles instantes, nos quais me sentia naufragar num mar de névoa..

Hoje sei que as Leis de Deus nos poupam os sofrimentos da chamada morte, que não é mais que a transformação, sem ser mudança radical em nós mesmos, e naqueles momentos entreguei-me de todo ao torpor que me sedava todos os nervos...

Quando despertei, vi-me ao lado de almas queridas, as Marias, minhas avós, e do Toni que sorria, ao meu lado...

Aquilo era por demais eloquente para que eu fizesse indagações; no entanto, as lágrimas me vieram do coração para os olhos.

Pensava em seu amor, em meu pai e na irmã querida e nos amigos.

Creia que a minha luta para harmonizar-me com a realidade não foi pequena.

Senti-me sob o peso de uma saudade gigantesca, mesmo porque não sei se existe algum médico preparado para morrer.

Tudo aquilo que me resumia os conhecimentos me chamava para a vida terrestre que eu deixara de modo quase imperceptível para mim.

Depois de alguns dias pude voltar à casa e rever os entes queridos.

Misturamos as nossas lágrimas no mesmo prato de aflição, porque não me via habilitado para uma compreensão maior...

Agora, porém, posso pedir-lhe calma e agradecer a todos tudo o que realizaram a meu benefício.

Peço ao papai Caetano coragem e serenidade.

Querida Mãezinha Leda, perdoe-me se voltei assim tão cedo à vida espiritual.

Hoje sei que toda criatura tem os dias contados nos computadores da Sabedoria Divina e entendo que preciso ser forte para dominar o meu próprio campo emotivo, e preparar-me para as tarefas novas que me aguardam.

Agradeço à nossa querida amiga Didi pelo bem que me fez e pelo companheiro que me deu.

Peço à nossa Maria Clara substituir-me no carinho que devo aos pais inesquecíveis.

Se alguém estranhou o caráter de minha liberação inesperada do corpo físico, não se impressionem.

Graças a Deus nunca tive qualquer tendência para o suicídio e se minha resistência terminou naquela noite inolvidável, é que os desígnios do Pai Celeste não me permitiram seguir mais além...

Querida mãezinha Leda, desculpe-me por todas as preocupações que lhes impus e esteja certa de que tudo farei para continuar merecendo a sua abnegação.

Meus sentimentos de respeitoso afeto ao papai Caetano e à Maria Clara, agradecimentos para a nossa devotada mãezinha Didi, com lembranças a todos os nossos.

E receba, querida mãezinha Leda, este reencontro de saudade e ternura, todo o coração de seu filho que lhe deve todas as alegrias que o mundo tenha proporcionado à minha vida e conserve a certeza de que sou e serei sempre o seu filho agradecido.

Luiz Antônio Biazzio.


NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - Mãezinha Leda e papai Caetano - Leda Lodovisi Biazzio e Caetano Alberto Biazzio,seus progenitores, residentes à rua Itapura, 279 - Tatuapé - São Paulo, SP.

2 - o nosso Toni está à frente, encorajando-me para as notícias que desejo transmitir - Antônio Cezar Nunes Cardeal,Toni na intimidade, desencarnado em 01/01/1973, foi amigo e companheiro inseparável do Dr. Luiz Antônio na época do CPOR/SP, turma 1972.

Toni-Espírito já enviou duas cartas aos familiares, pelo médium Chico Xavier, em 24/3/73 e 23/3/75, sendo a primeira publicada no livro Entre Duas Vidas (F.C. Xavier, Elias Barbosa, Espíritos Diversos, cap. 37 e 38, CEC).

Em ambas ele fez referências ao amigo nesses termos: “Procurei o nosso Luiz Antônio, o nosso Biazzio, que me falava em vida espiritual, diligenciando achar um caminho para reconfortá-los.

Grande amigo.

Fez prodígios para atender-me e espero que ele progrida constantemente para ser a coluna de Verdade que desejo venha ele a ser. (...) Mãezinha, venho fazendo quanto possível para me tornar entendido pelo nosso Biazzio e com o tempo as coisas melhorarão.


(Carta de 24/3/73) Na segunda carta, diz: “Auxiliem nosso Biazzio.

Digam a ele que a mediunidade é o caminho em que o prezado companheiro se realizará com mais segurança na própria profissão.

Biazzio é um coração iluminado de amor em tarefas espirituais na Terra, acima de tudo.

Deus o abençoe.

Na época do recebimento dessa carta de 1975, Biazzio cursava a Faculdade de Medicina de Uberlândia, MG, e frequentava a Mocidade Espírita local, como jovem atuante, inclusive dededicando-se à mediunidade psicográfica.

3 - Maria Clara - Maria Clara Biazzio, irmã.

4 - Dª Didi - Dª Maria Odila Nunes Cardeal, mãe de Toni, amiga da família.

5 - Pressentia que os meus dias na experiência física estavam a esgotar-se; (...) Guardei a nítida impressão de vê-lo ao meu lado, no quarto, comunicando-me que nos encontraría-mos em tempo breve.

- “Muito frequentemente o homem tem pressentimento do seu fim (...).

Esse pressentimento lhe vem dos seus Espíritos protetores que querem adverti-lo a estar pronto para partir, ou que levantam a sua coragem nos momentos em que lhe é mais necessária. (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, IDE, questão 857.)

6 - não mais comunicar-lhe o que vira (...)

Ainda assim tentei um entendimento com a nossa Dª Didi, no sentido de avisá-la que o Toni me convidara para um passeio - Escreveu- nos sua progenitora: “Uma semana antes da desencarnação, ele telefonou-me pedindo para avisar Dª Didi que tinha uma surpresa feliz para revelar a ela quando aqui chegasse,a 27 de agosto.

Por mais que eu pedisse, ele nada me informou, alegando que se tratava de uma surpresa que ele mesmo queria transmitir-lhe.

7 - e, em seguida, as recordações da infância e do lar desfilaram diante da minha visão íntima.

De tudo me lembrei...

- Esta visão rápida, retrospectiva, dos fatos mais marcantes da vida física é uma das etapas habituais do processo desencarnatório.

(Ver O Céu e o Inferno, Allan Kardec, 2ª Parte, Cap. II, Mensagens de Sanson (item 7) e de Jobard; Evolução em Dois Mundos, Espírito André Luiz, F.C. Xavier e W. Vieira, 1ª Parte, Cap. 12, FEB;

Eles voltaram, Espíritos Diversos, F.C. Xavier, H.M.C. Arantes, Cap. 12, 16 e 18, IDE.)

8 - as Marias, minhas avós - Maria Moreira dos Santos, avó paterna desencarnada na Capital paulista em 1970; Maria, bisavó materna, desencarnada na Itália, em 1923.
SEGUNDA CARTA
Querida Mãezinha Leda, vejo-a com a nossa Maria Clara e nossas amizades, rejubilando-me com isso. Continuo em minha peregrinação de trabalho, à procura do obreiro do bem que devo talhar em mim mesmo.

Agradeço a dedicação da senhora e do papai Caetano, nas atenções em meu benefício.

Compreendo o nosso encontro pelo momento de saudades, que nos cabe aproveitar para afetuarmo-nos uns aos outros.

Resgate sempre.

Resgate pelo que fizemos e por tudo de bom que ainda não conseguimos.

A nossa Maria Clara desejava receber alguma notícia do nosso trabalho na intimidade do cotidiano.

O assunto interessa a todos os que buscam observar as atividades do Plano Espiritual junto da vida humana, porque é assunto em torno da posse que anima tantas aspirações nobres e frustam numerosos planos nascentes no parque da caridade.

O estudioso de problemas psicológicos encontra aqui um campo aberto às mais valiosas investigações.

Se me fosse possível, aconselharia à família querida e a todos nossos irmãos da humanidade, aconselharia a cada um retirar alguns minutos de cada dia para indagar de si próprio o que está realmente fazendo para auxílio do próximo.

A luta em nossas paisagens espirituais ainda é grande pela necessidade de alijar, dos amigos desencarnados recentemente, a carga por vezes pesadas das falsas impressões que trazem do plano existencial de que procedem.

Sou aqui um pequeno estudioso da análise psicológica dos numerosos que afluem da Terra.

Muitos se sentem ainda na profissão que exerceram, desejando retornar aos recantos de trabalho em que se lhes desenvolviam as atividades da vida.

São proprietários de terras e sítios que estão longe de se sentirem desligados das posses dos bens que possuíam, gerando alucinações que é preciso curar pacientemente.

Muitos nos alcançam o gabinete de serviço, querendo apaixonadamente reassumir posições econômicas e afetivas que já não compadecem com a vida espiritual que começam a penetrar.

A senhora, Mamãe Leda, bem sabe que escolhi a psiquiatria para me apoiar nos conhecimentos da alma e agir segundo os métodos de nossos instrutores no mundo e,nesse mister, felizmente, quase sempre tenho o tempo ocupado nos diálogos de pacificação e esclareci- mento.

Amigos que supúnhamos orientados com clareza e segurança nos negócios a que se ajustavam no mundo vêm perguntar por devedores e credores, interesses e lucros em que se julgam prejudicados e a tarefa é muito grande no sentido de lhes prestar as informações necessárias.

Os medicamentos mais eficazes são a paciência e o amor com que lhes tentamos alcançar os corações para renovar-lhes os sentimentos.

A certeza de que todos somos de Deus, em tudo o que possuímos é o fator definitivo da cura espiritual de semelhantes companheiros dominados por interesses menos felizes.

Escolhemos o tema em estudo para dar-lhe, extensivamente à Maria Clara e ao meu pai Caetano, as notícias tão seguras quanto possível sobre os serviços de um médico iniciante na paisagem de ação em que me encontro, notícias que são igualmente dedicadas aos amigos do mundo, no sentido de auxiliá-los no despojamento gradual e construtivo das idéias errôneas que porventura mantenham sobre pessoas e situações, problemas e cousas, qual se fossem os senhores reais das circunstâncias, quando todos nós, aí no mundo, unicamente usufruímos os empréstimos da Providência Divina.

Aprender a desfrutar, sem possuir negativamente, é a fórmula ideal para o encontro com a paz.

Seja qual seja a provação,façamos a nossa parte na extinção desse ou daquele obstáculo, mas sem o propósito de que tudo nos é permitido fazer, quando esse fazer se conserva nos limites naturais da própria existência.

A maioria dos irmãos recém-desencarnados alcançam a espiritualidade quase que na condição de alienados mentais, reclamando estágios de entendimento e revisão de tudo o que vivenciaram na Terra, de modo a se desprenderem das posses que unicamente lhes serviram segundo a certidão de identidade, de que dispunham na vida física.

Quem puder trabalhar e servir intensamente para o bem geral, sabendo que se encontra nos interesses da Divina Providência e não nos interesses próprios, estará em caminho certo, porquanto já nos atingirá o plano de ação sem o fardo de enganos e ilusões que conturbam muita gente.

Creio que me fiz compreendido ao esclarecer as indagações de nossa querida Maria Clara, ao mesmo tempo que tornei extensivos os meus pobres argumentos a quantos me possam ler e ouvir.

Que na viagem terrestre cada pessoa conhecerá a fase terminal é mais do que sabido e, por isso mesmo, sem qualquer pretensão de ensinar, me referi a verdades simples da vida, acessíveis à mente de qualquer um.

Mãezinha Leda, muito grato por suas preces em meu favor.

A oração é um fio de luz que nos enriquece o novelo dos pensamentos, clareando as impressões e assegurando finalidades que efetivamente se coadunam com os nossos interesses na vida espiritual.

O meu avô Luiz e o meu bisavô Biazzio me trazem grandes contribuições de conhecimentos e, na posição do aluno desvalido de dotes especiais de inteligência, vou aproveitando.

O Toni Cardeal prossegue sustentando a nobre amizade que nos reunia os passos na Terra, conquanto presentemente estejamos em situações diferentes de serviço.

Desejamos informar à nossa irmã Dora Catalano que somos vários amigos para colaborar em auxílio a ela e contamos com o amparo de Jesus, o nosso Divino Mestre e Senhor.

Muito carinho ao papai Caetano, um abraço à querida Maria Clara, irmã do coração e a senhora, mãezinha Leda, receba a confirmação constante do imenso carinho e da gratidão imensa que lhe consagra incondicionalmente o filho devedor que deseja melhorar para ser o seu verdadeiro cooperador nas tarefas de sempre, sempre o seu filho reconhecido.

Luiz Antônio Biazzio.


NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
9 - avô Luiz - Luigi Lodovisi, avô materno,desencarnado dois meses antes de Luiz Antônio, aos 15/6/1982.

10 - bisavô Biazzio - bisavô paterno.

11 - Dora Catalano - Amiga da família, foi quem levou Dª Leda e sua filha a Uberaba, nas vésperas do recebimento dessa Carta.

Na viagem, Dª Dora confidenciou às amigas que, em suas preces, sempre solicitava auxílio do Dr. Biazzio e toda equipe do Plano Espiritual.


TERCEIRA CARTA
Querida Mãezinha Leda, a sua presença para mim significa uma bênção de Deus.

Sigo o papai Caetano e nossa Maria Clara em minha alegria ao abraçá-la.

E sou muito agradecido à nossa irmã Dora Catalano, que lhe serviu de companhia na viagem até aqui. Mãezinha Leda, fique tranquila a meu respeito.

Os meus estudos médicos não se perderam. Já estou trabalhando numa equipe de amigos que se entregaram, com fé em Deus e coração aberto, à tarefa de reconfortar os doentes, especialmente aqueles que ainda se caracterizam por extensos distúrbios mentais.

Vejo-me nas áreas de uma psiquiatria nova, em que os enfermos são amparados, a começar pela compreensão acerca deles mesmos, para que nos auxiliem a fim de que nos habilitemos a liberá-los das perturbações a que ainda se mostram sujeitos.

As suas preces foram baluartes de consolo em meu benefício, nos dias em que mais me reconhecia necessitado de estímulo para erguer-me da prostração em que caíra e recomeçar a vida como terapeuta do trabalho.

Querida Mãezinha Leda, o avô Luigi Lodovisi me recomenda pedir-lhe não se impressione com idéias negativas, com relação ao meu desprendimento do corpo físico, enquanto dormia.

Não faltaram amigos que me atribuíam injustamente a decisão de dopar-me com uma super-dose de anestésicos para favorecer a minha desencarnação.

Isso não é verdade.

O trabalho sempre foi o meu processo de preparar o sono tranquilo da noite e não supunha que a minha vida no campo cardíaco fosse tão frágil.

O médico, muitas vezes, está interessado em exames laboratoriais dos clientes perante os quais mais se sentem vinculados e se esquecem de que eles também são gente humana igual aos outros.

De quando a quando a dor precordial me visitava; entretanto, isso para mim não era surpresa, porque o desequilíbrio sempre surgia depois que eu carregasse alguma criança forte.

O meu problema é que não tive tempo para recorrer à cardiologia, deixando sempre o assunto para outro dia, mas esse “outro dia” na existência de quem trabalha, atendendo aos seus próprios compromisssos, é muito difícil de chegar.

A parada cardíaca veio de surpresa e não mais acordei do sono a que me entregara.

Esta realidade, querida mãezinha Leda, é bem a nossa.

Eu não teria coragem de me anular a comprimidos e nem tinha recebido formação para isso.

Sob essa razão é que lhe confio quanto me aconteceu, para que a sua bondade esqueça qualquer comentário menos feliz da parte de criaturas que julgam turvar-nos a consciência, delirando a nosso respeito com impressões incompatíveis com a verdade.

Tudo vai bem quando a nossa consciência está bem e por isso apenas as saudades de seu filho é que ainda são muitas.

Quero dizer à nossa irmã Dora Catalano que em minhas andanças no serviço já me encontrei com o nosso irmão Gianocaro e que ele prossegue trabalhando com amor em benefício dos necessitados.

Querida Mãezinha Leda, com um beijo em sua face, sou o filho de sempre.

Não posso esquecer-me de que o amigo Toni Cardeal está conosco e envia aos queridos pais um abraço de muitas saudades e reconhecimento.

Querida santa, minha querida mãe, receba o coração de seu filho sempre reconhecido

Luiz Antônio Biazzio.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
12 - Carta também recebida pelo médium Chico Xavier em reunião pública do GEP, a 18/10/85.

13 - recomeçar a vida como terapeuta do trabalho - Como psiquiatra do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e do Hospital Psiquiátrico de Brodósqui, SP, aplicava em seus pacientes, com muito entusiasmo, a terapia ocupacional.

14 - não se impressione com idéias negativas com relação ao meu desprendimento do corpo físico, enquanto dormia - Luiz Antônio reafirma aqui o que dissera na Primeira Carta: “ Se alguém estranhou o caráter de minha libertação inesperada do corpo físico, não se impressionem.

Graças a Deus nunca tive qualquer tendência para o suicídio.”

Essa sua preocupação com os familiares é fundamentada, pois a suspeita de suicídio, feita na época, foi divulgada, havendo, então, repercussão desagradável e mesmo traumatizante, no meio familiar, que nunca poderia aceitar tal hipótese devido ao equilíbrio interior que Luiz Antônio sempre revelou aos entes queridos e à sua formação espiritualista.

Assim, os reflexos dessa suspeita ainda se faziam sentir até a ocasião do recebimento dessa Carta.

No dia 22/8/82, notada a ausência de Luiz Antônio pelos seus colegas, num encontro programado para essa data, manhã de domingo, e considerado a sua falta também na reunião clínica da noite do dia anterior, esses foram ao seu apartamento, onde ele residia sozinho.

Na falta de resposta aos sons da campainha, providenciaram o arrombamento da porta, encontrando-o morto, em sua cama, como se estivesse dormindo.

Não havia sinais de violência, nem de roubo.

Na autópsia realizada no mesmo dia 22, pelos legistas da Delegacia Regional de Ribeirão Preto

(B.O. nº 07798/82), não foram encontrados sinais de lesões corporais e os órgãos internos já estavam em estado de decomposição, sem lesões macroscópicas aparentes.

Exame microscópico (histológico) não foi realizado, mas no exame toxicológico do material colhido (sangue e vísceras), geralmente feito de rotina nestas circunstâncias, foi detectada a presença de um ácido barbitúrico, daí a suspeita precipitada de suicídio, divulgada entre seus colegas.

O suicídio teria sido, então, provocado por uma ingestão excessiva de barbitúrico, caracterizando uma intoxicação exógena.

Porém, o Laudo do Setor de Toxicologia, nº 473/82, expedido em 17/9/82, revela que se procedeu apenas o exame qualitativo, feito rotineiramente, que somente detecta a presença de substâncias; e não o exame quantitativo, que determina a quantidade de droga e permite, quando acima de certo valor, o diagnóstico de intoxicação exógena.

Esse último exame só é realizado quando solicitado especificamente e com material adequadamente colhido.

A Conclusão do referido Laudo foi a seguinte: “Pelos resultados obtidos nas análises procedidas, conclui-se que, no material enviado, foi detectada a presença de um derivado do Ácido Barbitúrico.”

O resultado desse exame não qualitativo não surpreendeu a família de Luiz Antônio, pois o mesmo estava sob tratamento, há muitos anos, de uma disritmia cerebral, com um neurologista de São Paulo, tomando diariamente “Gardenal” - nome comercial do Fenobarbital, que é um derivado do ácido barbitúrico.

Lemos na carta mediúnica que a causa mortis real foi uma doença cardíaca (talvez impossível de ser comprovada na autópsia, mesmo com exame microscópico, pois os órgãos internos já estavam em estado de decomposição) que a sua irmã confirma com essas palavras, em carta datada de 14/6/86: “Quanto ao problema do coração é verdade Há tempos ele vinha se queixando de dor no peito. Ultimamente ele não podia carregar muito peso; até a bicicleta que ele havia comprado já não a usava mais, pois cansava-se logo após algumas pedaladas.”

Depreende-se do exposto que, do ponto de vista científico, nada se poderia afirmar quanto à causa da morte de Luiz Antônio e, portanto, sua Certidão de Óbito (Registro Civil do 1º Sub-distrito de Ribeirão Preto, nº 9.927) está correta “Causa da morte: Indeterminada.”

Só ele mesmo, Luiz Antônio, Espírito, poderia esclarecer a razão de sua passagem para o Mais Além e o fez de forma clara e convincente em suas cartas mediúnicas, desdizendo totalmente a nuvem de inquietação que envolvia seus entes queridos, provocada pela suspeita de suicídio.

15 - já me encontrei com nosso irmão Gianocaro - Reynaldo Gianocaro, desencarnado em 12/5/81, era amigo da Dra.

Ângela, filha de Dª Dora Catalano.

Esse recado de Luiz Antônio foi surpreendente, pois atendeu a um pedido mental de Dª Dora, presente à reunião pública.

Reflexos Espirituais

de um Transplante de Coração

Roberto Igor Porto da Silva


O primeiro transplante cardíaco no Rio Grande do Sul.” “Transplante de coração.

Medico diz que a cirurgia foi um sucesso técnico.” “Diretor do Instituto de Cardiologia está entusiasmado com o resultado.”
Essas foram algumas das manchetes estampadas pela imprensa gaúcha nos dias que se seguiram ao transplante realizado em Ari Vacari Zagar, no Instituto de Cardiologia de Porto Alegre, a 1º de junho de 1984, com o coração doado pelo jovem Roberto Igor Porto da Silva, acidentado gravemente de moto quatro dias antes.

Uma conduta altamente caridosa... em pauta um grande avanço da ciência ...

Mas, nos bastidores do acontecimento que ocupava, merecidamente, várias colunas dos jornais, padecia um coração materno pela perda do filho querido, sofrimento agravado pelo transplante, que D. Izar Porto Silva, em sua simplicidade, não entendia com clareza.

Ela não havia sido consultada a respeito, pois a autorização do transplante partiu de sua filha Magali, que acompanhava muito de perto o irmão hospitalizado, e o grande movimento em torno da questão foi desfavorável para sua alma sensível.

Inclusive, a notícia do transplante, que sua filha pretendia retardar alguns dias, chegou-lhe aos ouvidos, pela imprensa, já no dia seguinte do falecimento de Roberto.

“Eu não descansaria enquanto não soubesse exatamente como foi o acidente e se meu filho aceitou ou não a decisão de Magali. ” - escreveu-nos D. Izar em atenciosa carta.

De fato, várias vezes ela deslocou-se de Porto Alegre a Uberaba, na expectativa de receber mensagem de Roberto pela psicografia de Chico Xavier.

Na quarta viagem, finalmente, seu filho comunicou-se transmitindo-lhe muito consolo e os esclarecimentos almejados.

Nessa carta, que a seguir transcrevemos, destacamos a interessante experiência de Roberto em seu reingresso no Mais Além, descrevendo seus padecimentos e ressaltando os reflexos benéficos decorrentes da doação de seu coração carnal:
Querida mãezinha Izar, aqui estou eu a pedir-lhe a bênção.

Os ponteiros do relógio giram na esfera a que se aprisionam, contando as horas, mas o nosso amor está acima do tempo.

Mamãe, pedi aos mentores amigos me permitissem contar-lhe como foi a minha queda com fratura do crânio.

Minha moto me obedecia sem relutância na sede de velocidade a que me habituara.

Sempre estimei passeios no campo ou a grande distância para sentir os dedos invisíveis do vento afagar-me o rosto.

Aquelas excursões a sós, procurando o ar puro, junto das árvores, eram para mim uma festa permanente.

As estradas abertas pareciam me convidar à renovação de meus próprios pensamentos.

A moto dialogava comigo sem palavras, atendendo-me os requisitos de movimento e largueza.

Foi assim que me acostumei a correr e a fazê-la veloz.

Não havia experimentado o perigo de colher alguém nas ruas ou nos caminhos.

E eu estava a toda velocidade possível, quando me capacitei de que um homem estava a minha frente, sem meios de se afastar, parecendo-me doente e necessitado de proteção.

Seguir adiante seria aniquilar-lhe o corpo e eu não queria isso.

Percebi que me entregaria a grande risco, contudo não vacilei.

Coloquei em ação toda a capacidade do freio de que dispunha e fiz uma parada instantânea.

Mal vira a máquina estancar sob a pressão de minha vontade firme e a velocidade repentinamente cortada, como que se vingou de mim, atirando-me para longe.

Caí desamparado e percebi que estava faceando o maior perigo de minha vida.

Não pude erguer-me.

Minha coluna parecia-me quebrada e a cabeça entrou empane, porque não mais consegui coordenar as minhas idéias.

Percebi que me apanhavam cuidadosamente, mas não pude discernir coisa alguma.

Estava reduzido a um trapo sanguinolento;entretanto, não ignorava que me conduziam a um hospital.

Ouvia vozes sem entendê-las, porque a minha própria vida estava se afastando de meu entendimento.

Escutei as palavras lavadas de pranto de nossa Magali, a quem os médicos endereçavam uma solicitação que não entendi.

Minha atenção esgotava-se na falta de resistência a que chegara.

Pensava em si, Mãezinha Izar, com ânsia de ouví-la perto.

Nada conseguia falar e quanto mais se acentuava a dor que eu sentia no peito, vi o papai ao meu lado, convidando-me a segui-lo.

Outros amigos o acompanhavam e me recomendavam saísse da apatia a que estava me acomodando, de modo a segui-los com urgência.

Mãe, deixei o meu corpo, como quem se afastava de uma roupa que se fizera imprestável, e logo de saída, conquanto me sentisse privado da visão, senti uma dor muito grande no tórax.

Os amigos de meu pai me solicitaram esquecesse o vigor daquela agulhada que me transtornava todo o ser; no entanto, eles se apressaram em me auxiliar com o magnetismo curativo e a dor desapareceu.

Soube mais tarde de que naquele momento eu tivera o coração do corpo físico arrancado para servir ao transplante que favoreceria um homem que se avizinhava da morte.

Meu pai informou que a medida fora autorizada por minha irmã e deu-me a conhecer a utilidade da providência, de vez que eu não mais recuperaria o corpo quebrado até a medula.

Explicou-me que era justo o trabalho que se fez, entregando-se o meu coração, que ainda pulsava, ao irmão doente que, com isso, poderia continuar vivendo, e esclareceu-me com tanta lógica que acabei aderindo, reconhecendo que a Magali, vendo-me quase morto, do ponto de vista físico, permitira que o meu coração servisse para alguém que necessitava dele.

Logo que me confessei agradecido, e satisfeito com a medida, notei que o coração em meu corpo espiritual pulsava forte e robusto.

Conto-lhe a minha experiência para que não se impressione com o que aconteceu, por quanto da queda de que fora vítima não mais levantaria.

Estou, Mãezinha Izar, satisfeito por ter tido oportunidade de doar o coração, que se abeirava da imobilidade, a uma outra pessoa que com isso se beneficiaria.

Segundo pode o seu generoso coração concluir, seu filho está feliz por ter encontrado o ensejo de cooperar em auxílio de alguém na hora da liberação que se achava prestes a se consumar.

Agradeça, mamãe, à Magali, por não haver vacilado no momento em que eu seria obrigado a largar o próprio coração ao endurecimento inútil, a praticar involuntariamente um ato que me fez mais confortado na Vida Maior, quando eu não mais teria oportunidade de revê-la junto a mim.

Estou reconhecido e pode crer que, se viesse a repetir-se a provação de que fui objeto, eu próprio teria pedido com acenos para que retirassem de meu corpo todas as peças que se mostrassem suscetíveis de prestar auxílio a alguém.

Sinto-me renovado e espero que o seu carinho esteja feliz com o gesto involuntário que me compeliu a aprender que toda a dádiva de nós esmos obtém as melhores respostas da vi- da.

Mais uma vez peço-lhe agradecer a Magali o bom senso com que agiu em meu caso e, com as muitas saudades de sua presença em minha nova vida, beijo-lhe as mãos queridas.

O filho reconhecido de sempre, sempre seu Roberto.

Roberto Igor Porto Silva.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - Psicografia de Francisco Cândido Xavier, em reunião pública do GEP, Uberaba, MG, na noite de 05-4-1985.

2 - Mãezinha Izar - D.Izar Porto Silva, residente à Rua Visconde Pelotas,185 - apartamento 303 - Porto Alegre, RS.

3 - A descrição do acidente, feita por Roberto Espírito, foi confirmada pela sua mãe.

4 - Escutei as palavras lavadas de pranto da nossa Magali - Naqueles momentos sua irmã lhe dizia que ele iria se recuperar do acidente.

5 - vi o papai ao meu lado - Seu progenitor, Tuyuty Jung Silva, desencarnou em 19-12- 1976.

6 - Mãe, deixei o meu corpo (...) e logo de saída (...) senti uma grande dor no tórax - Como o processo desencarnatório não estivesse completo, ainda ligado ao corpo físico pelo cordão fluídico, Roberto sentiu reflexos da cirurgia.

7 - o coração em meu corpo espiritual pulsava forte e robusto - O corpo espiritual referido é o perispírito ou corpo perispiritual,que é também formado por órgãos (entre eles o coração), pois ele é o “molde fundamental” para a formação do corpo físico, em cada encarnação.

“Dentro das leis substanciais que regem a vida terrestre, extensiva às esferas espirituais mais próximas do planeta, já o corpo físico excetuadas certas alterações, impostas pela prova ou tarefa a realizar é uma exteriorização aproximada do corpo perispiritual, exteriorização essa que se subordina aos imperativos da matéria mais grosseira, no mecanismo das heranças celulares, as quais, por sua vez, se enquadram nas indispensáveis provações ou testemunhos de cada indivíduo.” (Emmanuel, F.C. Xavier, O Consolador, FEB, Questão nº 30.)

(Ver também “Gênese dos órgãos psicossomáticos”, do Cap. IV, Primeira Parte, Evolução em Dois Mundos, André Luiz, F.C. Xavier e W Vieira, FEB.)

8 - Estou, Mãezinha Izar, satisfeito por ter tido oportunidade de doar o coração - Se o transplante não conferiu maiores vantagens ao enfermo receptor, que faleceu três dias após a operação, devido a complicações renais, o Dr. Ivo Nesralla, chefe da equipe cirúrgica, declarou à Revista Manchete (Rio de Janeiro, RJ) que o procedimento teve êxito técnico, enfatizando: “Se tivermos condições, faremos outra cirurgia idêntica amanhã mesmo.

É um recurso derradeiro, mas que deve ser usado”

9 - Roberto Igor Porto Silva - Nasceu e desencarnou em Porto Alegre, respectivamente em 18-11-1959 e 01-6-1984.

Era funcionário de uma empresa e foi acidentado quando se dirigia ao trabalho habitual.

Casa de Eurípedes no Mundo Maior


Quando o sr. Edem recebeu em Uberaba, pelo lápis mediúnico de Chico Xavier, a 16 de junho de 1984, afetuosa carta de sua progenitora, D. Noêmia Natal Borges, prima de Eurípedes Barsanulfo, não esperava que, juntamente com notícias mais ligadas ao seu reduto familiar, ela trouxesse amplo noticiário da grande família “euripidiana” já domiciliada no Plano Espiritual.

De fato, além dos consanguíneos, existe imensa família de corações, encarnada e desencarnada, gravitando em torno do missionário sacramentano que se doou à Humanidade, num apostolado de amor dos mais expressivos. Pois, em suas múltiplas funções: de destacado homem público, como jornalista e vereador; de emérito professor, com inovações pedagógicas avançadas para a época, aplicadas no Colégio Allan Kardec, que ele fundou em 1907; e de dedicadíssimo espírita, atuante em várias áreas, como orador, doutrinador e especialmente médium, dotado de várias faculdades, destacadamente a de cura - ele soube exemplificar a fé viva, o trabalho perseverante e a caridade sem limitações.

E bem sabemos, suas atividades no Mais Além continuam, invariáveis, desde a sua desencarnação, em 1918.

Não é de estranhar, portanto, que a “Casa de Eurípedes”, localizada no Mundo Maior, conforme descrição da mensagem que transcreveremos a seguir, seja uma imensa instituição, “de extensão difícil de ser mostrada com frases terrestres”, refletindo, naturalmente, a extensão de recursos espirituais que irradiam desse tão querido servidor de cristo:


Meu querido Edem,

Deus nos abençoe.

Agradeço a sua bondade filial, tendo a obtenção de notícias minhas.

Continuo melhorando, com calma e fé viva em Deus. A morte ou a separação do corpo pesado, quando se tem a consciência tranquila é semelhante ao entardecer, sem nuvens.

Sabia, de antemão, que não precisava temer visões terrificantes e nem dificuldades sem recursos para transpô-las. A prece foi para mim uma luz e uma bênção.

De certo, o coração materno parecia rebentado pelas saudades, que começavam a invadir as minhas forcas. Ainda assim, as saudades não conseguiram destruir a minha paz e consegui dormir no grande sono, agradecendo a Deus sem lamentações a vida simples de mãe que eu tivera.

Os filhos eram a minha riqueza, o tesouro íntimo que eu transportaria comigo para a existência nova. Os braços vigorosos de parentes e amigos me sustentaram, para que o magnetismo do corpo inerme não me influenciasse com apelos inúteis e pude repousar realmente, procurando embora identificar aqueles rostos amigos que me sorriam.

Notei instintivamente que não me cabia esforçar-me em demasia e deixei-me conduzir pelas afeições queridas que me acolhiam com tanto amor. Creio que se não fosse a bênção do sono reparador de que me vi beneficiada, não teria forças para me afastar da família que morava e continua morando em meu coração.

Gastei alguns dias, segundo imagino, para acordar, de todo, com bastante lucidez e fui informada de que estava admitida à Casa de Eurípedes, onde cada coração dispõe de espaço suficiente para aprender e renovar-se. Ali reencontrei a querida vovó Meca, o pai Manoel, a Eulice, a Mariquinhas, o Homilton, e quanta gente, meu Deus, que me lembrava o tempo em que perguntava pelos desencarnados queridos sem resposta.

Não sei como descrever a moradia de nosso querido Eurípedes, porque numa extensão difícil de ser mostrada com frases terrestres, ali se dividem o Lar, a Escola, o Hospital, o Recinto da Oração e os Parlatórios para diálogos entre os residentes e os visitantes à procura de orientações, incluindo os amigos ainda encarnados que chegam até nós em transitório desdobramento para receberem instruções que conseguem guardar de memória, quando despertam no mundo, como intuições e lembranças que muitos consideram fantasia.

Ali, numa união fraterna em que se entrelaçam os nossos melhores sentimentos, estavam Amália Ferreira, Maria da Cruz, Maria Duarte, Sinhazinha Cunha, e outras muitas companheiras de ideal e trabalho, cuja companhia nos facilita o aprendizado do amor verdadeiro.

Dentre os mais novos companheiros recém-chegados, destaco a Corina, em preparativos para novas atividades na benemerência do ensino; o Ismael, do Alcides, comprazendo-se em acompanhar a mãezinha e a esposa, os filhos e descendentes com o amor que lhe conhecemos; o Jerônimo, sempre atraído para as boas obras de Palmelo; a Edalides, ainda presa a São Carlos: e muitos outros amigos do bem que, unidos, nos inspiram a felicidade de crer no amor fraterno e no trabalho sem qualquer idéia de recompensa.

Como observa, estou a me renovar, porquanto, não mais confinada ao círculo doméstico, posso retornar aos meus ideais de natureza superior, na procura de conhecimentos novos. Isso não me faz esquecida do afeto e do carinho familiar. A nossa querida Sílvia Regina e os netos Fabiano, Fabíola e Edem Junior, para eu referir unicamente ao seu lado, estão em meu íntimo como sempre.

Meu filho, continue acreditando na eficácia do bem e não admita o mal em suas cogitações de homem correto.

Não devo alongar-me. Por isso mesmo, por seu intermédio, deixo a todos os que nos fazem familiares e amigos as minhas muitas lembranças, pedindo ao seu carinho receber o carinho imenso da sua mamãe

Noêmia.

Noêmia Natal Borges.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - Edem - Edem Araújo Borges, farmacêutico, residente na Praça Comendador Quintino, 31, em Uberaba, Minas.

2 - Vovó Meca - Meca era o apelido familiar de Jerônima Pereira de Almeida (Sacramento, MG, 11/10/1859 – 29/1/1952), mãe de Eurípedes Barsanulfo. Na verdade, tia de Noêmia, mas nos últimos tempos de sua vida física era chamada por quase todos, carinhosamente, de vovó Meda.

3 - Pai Manoe - Trata-se, provavelmente, do Dr. Manoel Soares, grande colaborador do Grupo Espírita Esperança e Caridade, de Sacramento, como médium receitista e psicofônico. Sete meses após sua desencarnação ocorrida em Sacramento, a 19/11/1937, enviou bela carta ao seu filho Labieno, pelo médium Xavier, em Pedro Leopoldo, MG, a qual integra o livro Enxugando Lágrimas (F.C. Xavier, Espíritos Diversos, Elias Barbosa, IDE,Cap.9.)

4 - Eulice - Eulice Dillan, irmã de Eurípedes, desencarnada em 1928.

5 - Mariquinhas - irmã de Eurípedes, desencarnada em 1971. 

6 - Homilton - Jornalista, poeta, professor e orador, Homilton Wilson foi um dos mais destacados irmãos de Eurípedes. Espírita dinâmico, muito colaborou com o Grupo Espírita Esperança e Caridade e com o Colégio Allan Kardec, do qual foi diretor e professor. Desencarnou no Rio de Janeiro, em 1971.

7 - Amália Ferreira - Amália Ferreira de Mello (Sacramento, MG, 1888-1963) foi devotada secretária de Barsanulfo por muitos anos e co-fundadora do Lar de Eurípedes. É um dos autores espirituais do livro Reencontros (F.C. Xavier, Espíritos Diversos, H.M.C. Arantes, IDE, Cap. 13 e 14).

8 - Maria da Cruz - Dedicada seareira, foi pioneira da Campanha do Quilo em Sacramento e co-fundadora do Lar de Eurípedes. Desencarnada em 1965. Biografada no Anuário Espírita 1975, p.109.

9 - Maria Duarte - Mais conhecida por D. Cota, foi contemporânea de Barsanulfo.

10 - Sinhazinha Cunha - Eurídice Cunha, mais conhecida por Sinhazinha, irmã de Eurípedes, desencarnada em 1963.

11 - Corina - Professora, jornalista e escritora, Corina Novelino (1912-1980) sempre revelou grandes virtudes que caracterizam um espírito missionário. Co-fundadora e diretora do Lar de Eurípedes, também dirigiu, por longos anos, o Colégio Allan Kardec, de Sacramento. Em 1957, psicografou o livro Escuta, Meu filho, de Aura Celeste, e, em 1978, terminou o seu grande trabalho de pesquisa: Eurípedes - o Homem e a Missão (Ed. IDE), obra fartamente documentada e ilustrada. Foi biografada no Anuário Espírita 1981 e em Grandes Vultos do Espiritismo (Paulo A. Godoy, FEESP, S.Paulo, SP).

12 - Ismael, do Alcides - Ismael Vilela, filho do casal Elith Irani Vilela (irmã de Barsanulfo) e Alcides Vilela.

13 - Jerônimo - Jerônimo Cândido Gomide, mais conhecido por Jerônimo Candinho (1888-1981), foi aluno e discípulo de Eurípedes. Fundou em Goiás, a cidade espírita de Palmelo, que concentra suas atividades em torno de várias obras assistenciais e culturais, especialmente os trabalhos de cura do Centro Espírita Luz da Verdade (Anuário Espírita 1983, p. 189.)

14 - Edalides, ainda presa a São Carlos - Edalides Milan de Rezende, virtuosa irmã de Barsanulfo, desencarnou em São Carlos, SP, a 03/3/1984, três meses antes do recebimento dessa carta. (Anuário Espírita 1985, p. 143.)

15 - Silvia Regina - Esposa de Edem Araújo Borges. Fabiano, Fabíola e Edem Junior são os filhos do casal.

16 - Noêmia Natal Borges - (03-11-1907/18-9-1982). Filha de Olímpio Cassimiro de Araújo (irmão de Hermógenes Ernesto de Araújo, “Vô Mogico”, progenitor de Barsanulfo) e Cassimira Maria de Jesus. Desencarnada, aos 74 anos, deixou viúvo Manoel Borges de Oliveira. Seu filho Edem prestou-nos o seguinte depoimento, em carta de 21/6/86: “No momento em que recebi a carta mediúnica de Mamãe Noêmia, me senti bastante sensibilizado. Ela foi uma pessoa muito compreensiva, conformada e humilde, dedicando toda sua existência ao próximo, principalmente aos familiares, fazendo jus ao lugar que ocupa na Espiritualidade. Dentro dos recursos de que era possuidora, sempre se dedicou profundamente ao Espiritismo.”

Nova Mensagem de Clóvis Tavares
Nosso abnegado confrade Clovis Tavares, professor de História e de Direito Internacional Público, deixou o mundo físico aos 69 anos, na Santa Casa de Misericórdia de Campos, RJ, a 13 de abril de 1984.

Precocemente revelou ardorosa dedicação ao ideal espírita, pois com apenas 20 anos de idade, em 1935, fundou a Escola Jesus Cristo, de Campos, da qual foi seu diretor doutrinário desde a fundação. No jornalismo, sempre colaborou com vários órgãos doutrinários; e, na literatura, deixou-nos obras de grande valor, tais como: ida de Allan Kardec para as Crianças, Amor e Sabedoria de Emmanuel, Trinta anos com Chico Xavier.

Sete meses após sua desencarnação, em 29 de novembro de 1984, Clovis Tavares voltou a dialogar com seus entes queridos que deixou na Terra, pela mediunidade de Chico Xavier, em bela e esclarecedora mensagem que fundamentou o Capítulo 12 da obra Caravana de Amor. (F. C. Xavier, Espíritos diversos, H. M. C. Arantes, IDE.)

E, recentemente, em reunião pública do GEP, em Uberaba, na noite de 9 de agosto de 1986, o referido médium psicografou nova mensagem do Professor Clovis, endereçada aos seus familiares e companheiros da Escola Jesus Cristo, com oportunos e preciosos comentários, úteis para todos que labutam na seara espírita, conforme veremos a seguir:



Querida Hilda,

Peço a Jesus nos abençoe junto aos amigos que nos acolhem com a amizade de sempre, reunindo você e as nossas companheiras de viagem, nossa Ruth e nossa Gilda, em minhas vibrações de paz e reconhecimento.

Agradeço todas as suas reflexões do silêncio em torno do seu Clovis e sou profundamente grato ao seu culto de amor inextinguível.

Nossos filhos estão aí, confirmando a felicidade que nos uniu, e hoje, véspera do Dia dos Pais, presto homenagem a você, mãezinha devotada e valorosa de todos eles, que permanecem por dentro de minha ternura e gratidão.

Você vem agindo nas tarefas de nossa Escola e a sua sede de maior extensão de temas evangélicos em nossa casa de trabalho é igualmente minha. Felicito-me vendo todos os amigos, a partir de nosso Rubens, consagrados à revivescência da Boa Nova em nossa instituição e particularmente rejubilo-me com as suas atividades conjugadas às de nosso Celsinho para que as lições de Jesus e do cristianismo apostólico sejam reavivadas em nossa Escola de paz e amor.

Quanto mais se desdobra o tempo, mais intensamente reconheço o imperativo dos ensinamentos de Jesus, não só na nossa querida Escola, mas em todos os lugares atingidos pelo clarão imortal de nossos princípios renovadores.

Não desprezo a ciência, porque isso seria contra-senso em minhas atitudes, mas encareço a necessidade de harmonização da criatura humana com a elevação, a responsabilidade e a fé no amparo divino, que o homem não pode menosprezar sem graves consequências, sobretudo, nos setores da educação.

Sensibiliza-me o esforço dos grandes membros e amigos da humanidade, convidando os nossos irmãos para a convivência com o divino Mestre, sem que eles, os nossos irmãos, de modo geral, se abalancem a fixar a atenção na bússola do sentimento religioso, o único suscetível de conciliar-nos com as leis do Universo e da Vida.

A robotização dos processos educativos, induzindo as crianças, tanto quanto jovens e adultos, à ausência do trabalho nas leiras do amor ao próximo, é capaz de acentuar a influência do materialismo negativista e destruidor em nossas fileiras, exterminando preciosas promessas de ação para o levantamento do mundo melhor.

Rodo ao Rubens e à nossa Ruth Maria, nossos devotados companheiros, incentivarem as palestras evangélicas em que os corações se preparem para a era nova sem a hipertrofia da inteligência, ruinoso método de acender a fatuidade e o separatismo entre aqueles que foram convidados a honorificar o Senhor com as suas palavras e com suas próprias vidas.

Teorizações estéreis não faltaram no tempo do Cristo entre os homens. Gregos e romanos se conjugavam em experiências e afirmativas que a Idade Média sepultou em montes de cinza. E desses montes de cinza emergiram, sempre mais claras e mais construtivas, as instruções do inesquecível Nazareno, começando na Renascença em alvoradas de esperança e grandeza, e culminando até o nosso século de conflitos que, sem qualquer ofensa ao progresso, ser-nos-á possível considerar por desumanos.

Todos os movimentos que tendem a enquadrar os esclarecimentos espírita-cristãos e as atividades mediúnicas em investigações descabidas, embora a riqueza palavrosa com que se manifestam, apenas significam esquecimento das aquisições espirituais do mundo cristão que continua rogando trabalho, solidariedade, apaziguamento e confiança em Deus e em Suas leis.

Se dispomos de caminho laboriosamente construído pelos cristãos de todas as épocas - caminho para o nosso encontro com o Divino Emissário do “amai-vos uns aos outros” - por que havemos de gastar tempo e serviço nos empreendimentos marginais que pretendem edificar avenidas de luxo no conhecimento humano? Com o fim, embora, de alcançar a estrada certa para as convicções consoladoras, enriquecendo a doutrina de luz, complicam as sendas de evolução para milhares de pessoas que se apóiam na oração e na fé para se realizarem no melhor que são capazes de fazer.

Por que uma preleção sobre as galáxias para grande número de nossas irmãs que lutam nobremente pela sustentação da vida familiar, quando no momento o que solicitam é esperança e reconforto para se manterem fiéis aos compromissos assumidos?

Por que favorecer evidente elitismo entre os nossos companheiros, quando todos eles sentem fome de apoio na fraternidade real, para se sentirem úteis?

Nunca nos foi possível a discriminação entre ricos e menos ricos, ou entre pessoas virtuosas e aquelas julgadas distantes das qualidades espirituais que embelezam as almas.

Quando me refiro aos “menos ricos” é porque não compreendo possa existir pobreza ou penúria diante do Cristo de Deus. Os chamados pobres serão realmente pobres ou somos nós os mais ricos de conhecimento que lhes sonegamos a herança de socorro e amor que lhes compete no inventário dos bens que Jesus nos legou?

Essas indagações me afloram ao pensamento, examinando as suas aspirações e as do Celsinho no sentido de se intensificar a evangelização autêntica em nossa instituição de luz e vida.

Com estes enunciados, desejo a você e aos nossos filhos dedicados à obra do Senhor o êxito desejável nessa recomposição de valores adentro de nossa casa que pertence à escola de Jesus Cristo, com Jesus Cristo na cátedra dos corações.

Continuo trabalhando e agradeço ao Senhor a bênção de prosseguir na vida espiritual num vasto esquema de ação que não me concede tempo a divagações.

Aos nossos filhos, o abraço do Carlinhos e o meu próprio, com os nossos votos de paz e alegria em auxílio a todos.

A nossa querida mãezinha Dona Maria chegou até nós escoltada pela legião de afetos que ela soube cultivar, e prossegue no tratamento que lhe agracie com a recuperação completa.

A você e aos nossos filhos reitero as minhas saudades, mas sem que essas saudades signifiquem lamentação ou inércia, porque, na essência, são desafios a trabalharmos mais com o melhor de nossas limitações e possibilidades pela vitória do bem e da luz em todos os corações.

Saudando as nossas irmãs Ruth e Gilda, com os nossos melhores votos de paz, rogo a você receber a confiança no imenso amor do seu, sempre seu companheiro e servidor muito grato de todos os dias,

Sempre seu

Clovis.
NOTAS E IDENTIFICAÇÕES
1 - Hilda - Profa. Hilda Mussa Tavares, esposa, cooperadora na Escola Jesus Cristo (EJC), residente em Campos, RJ, à Rua Benta Pereira, 112. Seu valioso depoimento sobre a mediunidade de Chico Xavier integra o livro Luz Bendita (F.C. Xavier, Emmanuel, Testemunhos diversos, Rubens S. Germinhasi, IDEAL, S.Paulo, SP, pp. 65/72.)

2 - Ruth e Gilda - Senhores Ruth Monteiro e Gilda Duncan Tavares, cooperadoras da EJC, presentes à reunião pública de Uberaba.

3 - Nossa Escola - Escola Jesus Cristo (Instituição Espírita de Cultura e Caridade), fundada por Clovis Tavares, sob inspiração espiritual de Nina Arueira, em 27/10/1935, com sede própria à Rua dos Goitacases, nº 177, em Campos, RJ, mantém vários Departamentos e Serviços.

4 - Rubens - Dr. Rubens Fernandes Carneiro, advogado, atual Diretor Doutrinário da EJC.

5 - Celsinho - Celsinho Vicente, filho, professor de História, cooperador da EJC.

6 - Carlinhos - Carlos Vitor Mussa Tavares, primogênito do casal. Desencarnou a 10/2/1973, após 17 anos de abnegado sofrimento. Pela psicografia de Chico Xavier, já enviou seis poesias de notável beleza e espiritualidade, sendo a primeira divulgada nos livros Entre Duas Vidas (F.C. Xavier, Elias Barbosa, Espíritos Diversos, CEC, Uberaba) e Tempo e Amor (F.C. Xavier, Clovis Tavares, Espíritos Diversos, IDE, Araras, SP).

7 - Mãezinha Dona Maria - D. Maria Mussa, sogra, desencarnada a 14/7/1986.

8 - Clovis - “Sebastião Clovis Tavares nasceu em São Sebastião, distrito de Campos, RJ, a 20/01/1915. Desde tenra idade demonstrava pendores acentuados de profunda religiosidade.

Pelos inexplicáveis caminhos de Deus, teve como preceptor das primeiras lições do Cristianismo Puro o Padre Émile Des Touches que lhe transmitiu também os primeiros rudimentos de língua francesa, bem como um grande amor à sua França. Émile Des Touches descendia de família de nobres e renunciou a títulos e bens para dedicar-se a trabalho missionário em terras brasileiras. O seu carinho pelo então menino Clovis o fazia trata-lo na intimidade dos estudos de “Mon petit enfant”, e dessa maneira se identifica através de Chico em sua primeira comunicação para o nosso amigo.

Cresceu Clovis sob a austeridade da disciplina paterna, enriquecendo o seu saber de forma integral.

Aos 17 anos, acadêmico da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, depara-se com o Parnaso de Além-Túmulo, conhecida obra mediúnica psicografada por Francisco Cândido Xavier. Mesmo sem ter ainda lido o recém editado volume, nunca mais pôde se esquecer daquele nome que, segundo ele declarava muitas vezes, passou a exercer sobre ele um singular fascínio. Dentro dele manifestava-se um impulso incontido de conhecer o jovem médium de Pedro Leopoldo.

Com 20 anos de idade, depois de vivenciar experiências no campo político, como estudante de direito, experiências essas mais ligadas ao idealismo e entusiasmo jovem que clamava pela justiça social, ao lado de sua noiva Nina Arueira, vê-se, a 18 de março de 1935, diante de um fato que veio mudar totalmente o roteiro de sua vida: a morte inesperada de sua amada Nina Arueira. Nina, espírito de escol, jovem inteligente e brilhante, dotada de grandes virtudes morais, intelectuais e espirituais, foi a estrela guia indicadora do caminho que levaria nosso Clovis ao encontro do Mestre, que seria mais tarde o grande amor de sua vida: Jesus Cristo.

Em outubro de 1935, funda a Escola Infantil Jesus Cristo comprovando o seu ideal de conduzir a criança pelos caminhos reais da espiritualidade, assim como, por bondade divina, tivera a felicidade de ele mesmo ter recebido, em sua primeira infância, esses ensinamentos.

O seu primeiro contato com Chico Xavier se deu em 1936, e, através dessa amizade que já nasceu grande, sustentou-se em Clovis a louvável iniciativa da transformação da Escola Infantil Jesus Cristo e Escola Jesus Cristo, Instituição Espírita de Cultura e Caridade. Temos a certeza de que essa estima a Chico Xavier, depois do grande amor que dedicava a Jesus Cristo, era uma das coisas mais importantes de sua vida.

Orador de singulares valores, tornou-se Clovis conhecido em todo meio espírita do país, tendo levado sua palavra inspirada, simples e convicta a muitas cidades e estados de nossa Pátria, embora a sua preferência de recolher-se ao anonimato, trabalhando com afinco na seara que o Mestre lhe destinou: a Escola Jesus Cristo.

Deixou-nos, além de muitos artigos escritos na imprensa local e espírita do país, e de pregações evangélicas gravadas, algumas outras dignas de registro: A Vida de João Batista, 3 vol., FEB, Rio, 1942; Os Dez Mandamentos (a Lei de Deus explicada às crianças), Lake, S.Paulo, 1950; Vida de Pietro Ubaldi, Lake, 1952; Histórias que Jesus contou, Lake, 1955; Meu Livrinho de Orações (preces para crianças), Lake, 1956; Vida de Allan Kardec para as crianças, Lake, 1957; Trinta Anos com Chico Xavier, IDE, Araras, SP, 1980; Amor e Sabedoria de Emmanuel, IDE, 1981; Tempo e Amor, co-autoria com Francisco C. Xavier e Espíritos Diversos, IDE, 1984; De Jesus para os que Sofrem, IDE, 1984.

Concluiu ainda em sua profícua existência mais duas obras de altíssimo teor doutrinário e espiritual: Mediunidade dos Santos e Apostilas de Didática do Evangelho, que, se deus quiser, serão publicados em breve.

No ano de 1984, Clovis estava ainda em plena atividade na Escola Jesus Cristo, onde sempre foi o diretor doutrinário, quando no dia 13 de abril, segundo deixa entrever em sua primeira mensagem por Chico Xavier, em novembro do mesmo ano, foi convocado pelo Plano Espiritual Superior a assumir a Escola Jesus Cristo, do Mundo Maior, situada na Cidade Nosso Lar, no Ministério do Auxílio, fundada mais ou menos dez dias antes da fundação da Escola Jesus Cristo de nossa Campos.

Ter-se-ia muito mais para dizer de nosso querido amigo e benfeitor Clovis Tavares, sem querer ferir o seu espírito humilde e fiel aos princípios cristãos do “silêncio e trabalho”. Fica, no entanto, registrado aqui o principal: Clovis Tavares foi um apóstolo do “trabalho sem férias” da seara cristã e espírita, consciente de que a sua dedicação deveria se dar em tempo integral.” (Profa. Hilda Mussa Tavares)

9 - Depoimento da Família - Esta segunda carta mediúnica foi divulgada pelos familiares do Prof. Clovis, em impresso bem confeccionado, que apresentou na última página o seguinte depoimento, sob o título “Algumas Considerações”:

“Esta segunda Mensagem de nosso querido Clovis despertou em nós, seus familiares, a necessidade imperiosa de tecer alguns comentários sobre o seu tema central que, como a primeira, comprova a preocupação maior de sua vida terrena - o estudo da palavra do Cristo e a prática cada vez mais crescente do “amai-vos uns aos outros”.

Em ambas as mensagens recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier, constata-se a autenticidade dessa sua mais forte linha de pensamento pela explicitação clara de suas idéias sobre “teorizações estéreis”, “hipertrofia da inteligência”, “edificações de avenidas de luxo no conhecimento humano”, sempre comentadas em suas aulas e pregações na Escola Jesus Cristo.

A simplicidade do Evangelho sempre o encantou e, sábio e culto como era, reconhecido em nossa comunidade como uma das pessoas mais letradas e professores mais respeitados, nuca aceitou para si títulos de inteligência ou destaque que o afastassem de sua opção definitiva de vida: ensinar e estudar, estudar e trabalhar, educar e estudar, estudar e servir, sempre comunicando os ensinos de Cristo da forma mais singela, como o próprio Cristo fez, a fim de que aquelas pessoas mais humildes pudessem lhe apreender a essência do pensamento.

Ressalta-se aqui a surpresa de que fomos apanhados quando da abordagem nesta carta da “robotização dos processos educativos”, por ter sido tema de conversas na intimidade da família e de questionamento em estudo feito em sala de aula da própria Escola Jesus Cristo, nos dias que precederam à recepção da mensagem por Chico, sem que este tivesse conhecimento de tal fato.

Avaliar o quanto a Escola Jesus Cristo recuperou de estímulo e de confiança com esta mensagem é impossível, mas é incontestável que a partir dela foi-nos permitido, por acréscimo de misericórdia divina, redescobrir novos valores para o nosso trabalho com Jesus.

O que dizer da mediunidade de Chico, a não ser o que o próprio Clovis já dissera em sua passagem por este mundo - em livro de sua autoria -: “... faz revelações sobre o Mundo Maior, afirma e reafirma evidências extraordinárias, consoladoras, insofismáveis, a atravessar quase todo este século vinte, de ponta a ponta”?



Para ele, nosso querido Chico, o único presidente honorário de nossa Escola Jesus Cristo, pela amizade estreita que sempre o uniu ao nosso Clovis e aos nossos pobres corações, por todas as luzes que humildemente acende nos caminhos deste mundo, com heroísmo apostólico, rogamos as bênçãos do Céu, agora e para sempre, na Terra e na Eternidade.

A família Clovis Tavares.”

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