Willa Hix Estados Unidos, 1910 Pelo amor, vale a pena correr todos os riscos!



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O Maior Amor do Mundo

Gone Courting

Willa Hix



Estados Unidos, 1910

Pelo amor, vale a pena correr todos os riscos!

A sorte de Lucy, anda lhe pregando peças: além de seu noivo ter fugido com sua rival, ele levou também seu dinheiro, e para completar, ela precisa se submeter às ordens do novo administrador do circo no qual se apresenta. Jeremy Barrington é o homem mais arrogante que Lucy já conheceu, mas também o mais charmoso e atraente do mundo...

Jeremy descobre que tem talento para administrar um circo. 0 maior problema é lidar com Lucy Conroy, uma das estrelas do show. Uma mulher tão temperamental e audaciosa quanto a sua beleza. E quando misteriosos furtos e sabotagens começam acontecer, pondo em risco a honestidade de Jeremy, ele e Lucy, se aliam para descobrir a identidade do impostor. Unidos pelo mesmo ideal e por uma atração irresistível, Jeremy precisa convencê-la de que, juntos, eles podem encontrar o maior amor do mundo!



Digitalização: Néia

Revisão: Vaneska V.




Copyright © 2002 by Willa Hix

Originalmente publicado em 2002 pela Kensington Publishing Corp.

PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY, NY - USA

Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

TÍTULO ORIGINAL: Gone Courting

EDITORA Leonice Pomponio

ASSISTENTE EDITORIAL Patricia Chaves

EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Angela Carvalhaes Renoldi Copidesque: Maria da Penha Faria Revisão: Regina Elisabete Barbosa

ARTE Mônica Maldonado

ILUSTRAÇÃO Thomas Schlück

MARKETING/COMERCIAL Silvia Campos

PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi

PAGINAÇÃO Dany Editora Ltda.

© 2007 Editora Nova Cultural Ltda.

Rua Paes Leme, 524 - 10e andar - CEP 05424-010 - São Paulo - SP - www.novacultural.com.br

Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley Moore

Willa Hix começou a escrever suas histórias quando estava no ginásio, colaborando para o jornal do colégio, como redatora e revisora. Ela escrevia contos infantis, histórias de detetive e aventuras, até finalmente publicar seu primeiro romance e alcançar um sucesso estrondoso.

"O cenário circense e os personagens secundários compõem um pitoresco pano de fundo para uma intensa história de amor."



- Romantic Times
"Com uma história que revolve a excitação do circo, um romance apaixonante e um mistério a ser solucionado, Gone Courting é um livro fabuloso!"

- A Romance Review

Querida leitora,

Quem não fica fascinado diante da apresentação de acrobatas, trapezistas e outras atrações circenses, que provocam na gente aquele friozinho na barriga e que a gente nunca mais esquece? Pois é nesse cenário, do maior espetáculo da Terra, que se desenrola o romance que você vai ler a seguir. A história de Jeremy e Lucinda protagonizando O Maior Amor do Mundo, igualmente emocionante, igualmente inesquecível...

Tenho certeza absoluta de que você vai amar!

Leonice Pomponio Editora



Capítulo I

Lucy Conroy não era uma pessoa de muita sorte. A idéia de se casar, ter filhos e um lar de verdade se evaporou quando seu noivo, Reginald Dunworthy, a abandonou. Ela já deveria saber que não se podia confiar em um domador de leões arrogante e ingrato, que aprendera com seu pai tudo o que ele precisava saber sobre os animais, além de ter lhe fornecido sempre os melhores leões para suas apresentações.

Como se abandoná-la não fosse o suficiente, Reginald ainda a trocou pela sua maior rival, Eleanore Wilson, trapezista e principal estrela do Circo Irmãos Parnelli. Eleanore foi a primeira mulher a apresentar o número em que se fica preso apenas pelos tornozelos no trapézio mais alto do picadeiro. Um truque que ambas apren­deram juntas quando ainda eram amigas e se apresentavam pelo Extraordinário Circo Conroy. Eleanore se aproveitou do sucesso desse número para trocar de companhia e se mudou para os Irmãos Parnelli.

Lucy ficou arrasada quando Reggie foi embora levando todo o dinheiro que ela economizara para seu futuro. Ele era o único que sabia de seu sonho de levar uma vida comum e ter uma residência fixa; e também onde escondia suas economias.

Faltava apenas uma temporada de espetáculos para que Lucy tivesse o suficiente para comprar uma pequena propriedade às mar­gens do lago Michigan que ela vira durante a excursão pelo Estado de Wisconsin. Lucy fizera muitos planos ao lado de Reggie. Eles teriam meia dúzia de filhos, flores no jardim e...

Pare! Ordenou a si mesma, balançando-se no trapézio. Ele não merece nem uma lágrima. Mas elas rolaram por seu rosto assim mesmo. Suspirando, Lucy ficou em pé na barra e se balançou tão alto quanto pôde.

— Lucy! — Ian, seu irmão, a chamou. — Harry quer falar conosco.

Lucy e Ian foram adotados por Harry e Shirley Conroy ainda crianças, mas tinham o costume de chamá-los pelo nome quando se tratava de assuntos profissionais. Eram empregados do circo como todos os outros, e não recebiam atenção especial por serem filhos dos proprietários.

— Estou indo. — Lucy pulou para a rede de proteção com uma facilidade incrível. Ficou deitada ali por um momento, observando a barra ainda balançando sobre sua cabeça.

— Você está bem?

— Eu ficarei.

— Porque aquele homem não é digno de seu sofrimento, minha irmã.

Ela prendeu os cabelos e vestiu a capa, e o pranto correu mais uma vez.

— Eu o amava, Ian.

— Querida, o que você amava era a idéia de amá-lo, isso sim. — Ian a abraçou. — Reggie se foi há um mês. Já é a hora de seguir em frente. Além disso, Reggie nunca teve os mesmos sonhos que você; e se importava apenas consigo próprio.

— Mas...

— Sabe que estou certo, Lucy. — Puseram-se a caminhar em silêncio.

Ian tinha razão. Ela fora uma tola ao pensar que poderia mudar o noivo. A verdade era que Reggie prometeria qualquer coisa por alguns beijos e pela esperança de levá-la para a cama, por isso ficara até então a seu lado. Ele mesmo dissera que era um desafio domá-la, mas pelo visto Eleanore fora uma presa mais fácil.

— Reginald me roubou — comentou, enfim. — E isso eu não esquecerei.

— Será muito difícil conseguir provar, Lucy.

Os irmãos chegaram à porta dos fundos da velha casa da fazen­da, que funcionava como sede, durante o inverno, para toda a trupe, e lar dos Conroy quando não estavam excursionando.

— De qualquer maneira, creio que algo muito sério vem acon­tecendo. O tom de Harry não era dos melhores quando me pediu que reunisse o grupo.

Entraram na cozinha, aquecida pelo grande fogão. Shirley Conroy lhes ofereceu café e pediu que se juntassem aos demais no salão da frente.

Harry estava encostado na mesa em que planejava as tempora­das do circo, e seu semblante parecia cansado. Com artrite nos quadris e uma tosse persistente, aparentava mais do que seus ses­senta anos. Lucy se envolvera tanto com seus próprios problemas que não percebeu que a saúde de seu pai piorara bastante naqueles dias frios.

Shirley fitava o marido, preocupada com seu estado, com as contas a pagar, com a temporada que viria. Era a segunda esposa de Harry e quinze anos mais nova que ele, mas o casal se amava profundamente, sentindo-se completos na companhia dos dois fi­lhos adotados.

Escolheram Lucy e Ian no orfanato e lhes deram amor, carinho e uma profissão. Shirley não podia ter filhos, e àquela altura os irmãos já não tinham mais esperança de serem adotados. De fato, os céus os abençoaram, pensou Lucy, servindo uma xícara de café para a mãe, que sorriu e aceitou.

A sala estava lotada com os funcionários do circo, mas apenas Lucy vestia uniforme. Os outros usavam trajes normais e poderiam trabalhar em qualquer lugar, com a exceção de Ida, a encantadora de serpentes, que sempre tinha um réptil enrolado no pescoço, ou uma echarpe de penas. Havia também os trigêmeos idênticos, da família Jacoby. Eles eram contorcionistas e nunca se afastavam uns dos outros.

Todos pararam de falar quando Lucy entrou no recinto. Isso passou a acontecer sempre, desde que foi abandonada por Reggie. Os colegas se apiedavam dela e não sabiam como agir, o que a aborrecia mais ainda.

— Bom dia, pessoal.

— Bom dia, Harry — murmuraram.

Estava clara a tensão, o nervosismo deles, pois tinham adivi­nhado e temido que aquele dia ainda chegaria.

— Vocês sabem que enfrentamos sérios problemas nos dois últimos anos. A virose dos elefantes, gente indo embora atrás de melhores salários, outros abandonando a carreira. — Suspirou e se apoiou com dificuldade na mesa. — A boa notícia é que nosso maior investidor, o Fundo Porterfield de Nova York, está man­dando ajuda para nos reerguermos. Shirley e eu resolvemos e con­cordamos que chegou a hora de alguém com experiência em ne­gócios assumir a administração do circo. Adam Porterfield sele­cionou um de seus melhores administradores para vir até aqui e tomar conta do Conroy por um tempo.

Um burburinho tomou conta da sala. Alguns protestavam contra um forasteiro de Nova York assumir o negócio; alguns queriam entender o que aquilo significava.

— Escutem, por favor. Adam é o filho mais velho de Clayton Porterfield. Clay foi um amigo muito querido, e após sua morte Adam assumiu seu negócio. Confiaria minha vida a ele, pois Adam é igual ao pai. O rapaz que virá é da Inglaterra, e eles tiveram muito sucesso lá com companhias circenses. Além disso, ele tem um título, se estão interessados. Sir Jeremy Barrington.

O falatório recomeçou, e Harry ergueu os braços a fim de acalmá-los.

— Parem com isso. Se Adam diz que o moço é bom, nós lhe daremos uma chance. Já estamos três semanas atrasados com a temporada. Querem seus empregos ou não?

Os artistas se aquietaram mais uma vez.

— Tenho mais algumas boas notícias. Como sabem, Reginald Dunworthy nos deixou um mês atrás para se juntar ao Parnelli. Hoje cedo recebi uma ligação de Nick Parnelli se oferecendo para comprar King e Duke.

— Não! — Lucy gritou, e os demais acompanharam seu pro­testo.

King e Duke eram dois dos três leões que Reggie utilizava em seu número. O terceiro era Tut, mas estava velho, cansado e cheio de dores.

—Acalmem-se! Nick está disposto a pagar muito bem por eles, o que nos ajudará demais. Não se esqueçam de que não temos um domador de leões para substituir Reggie, por isso aceitei a oferta. — Harry começou a tossir, assustando os empregados.

— Quando o tal Barrington chega? — um deles perguntou de­pois que Harry tomou um gole de água.

— Amanhã ou depois, espero.

—O que ele vai fazer? — a encantadora de serpentes quis saber.

— Por acaso o camarada sabe domar leões? — Ao ouvir a colega, todos riram.

— Duvido. Ele é um homem de negócios, não esqueçamos disso. Adam disse que Barrington adora o mundo dos espetáculos; portanto, vamos torcer para que dê certo.

Os comentários recomeçaram.

— Barrington necessitará de nosso apoio, pois virá aqui para nos ajudar. Vamos escutá-lo e deixar que trabalhe.

Lucy olhou para o pai, receosa. Confiava nele e em Shirley, mas sentia que Harry não acreditava muito no que dizia. Parecia muito preocupado com o que o inglês faria com seu circo. Ela passou a mão nos cabelos e sorriu para o pai.

— Vamos, Lucy, me ajude com o almoço, pois Solly se atra­palhou de novo — Shirley a chamou.

— Estou indo. — Virou-se para Ian. — O que você ouviu?

— Sobre Barrington? Trata-se de um duque ou lorde, que tra­balha para Adam há muitos meses. Ele falou para Harry que o inglês tem talento para administrar tudo o que envolva espetáculos, e garantiu que Barrington virá nos auxiliar a reerguer o circo, e não vendê-lo.

— Bem, é um começo.

Jeremy Barrington olhava, desanimado, a paisagem pela janela do vagão. Não via nada além de campos e fazendas desde que o trem deixara Chicago. Avistava de vez em quando uma ou outra cidade, que na verdade não passava de estação ferroviária com algumas lojinhas ao redor.

Impressionara-se com a vibração de Chicago, muito parecida com Nova York, e ainda apreciara uma noite maravilhosa em um hotel fino e assistira a uma peça de teatro. Agora, a caminho de Wisconsin, observando a visão que não mudava, lembrou-se de que Adam, seu amigo e mentor, lhe prometera uma surpresa para quando chegasse ao destino. No entanto, conhecendo o senso de humor dele, tinha até medo do que o esperava.

Adam se divertira ao designar Jeremy para trabalhar no campo por muitos meses, administrando um grupo artistas circenses sem capacidade para manter um negócio lucrativo.

Jeremy jurara que se redimiria com Adam Porterfield; afinal, cometera um erro por ser zeloso demais, tirando dinheiro dos fun­dos de um cliente para investir em uma oportunidade que julgara ser excelente. Adam entendeu que Jeremy não tivera a intenção de roubar ninguém, mas seu funcionário por ter sido tão estúpido resolveu lhe dar uma lição mandando-o para Wisconsin.

Jeremy acendeu um charuto e aceitou o brandy que o comissário lhe oferecia. O serviço do trem era de primeira qualidade, mas à medida que se distanciavam de Chicago a tripulação se tornava menos sofisticada, muito diferente do padrão nova-iorquino.

Jeremy abriu a pasta com o portfolio sobre o Extraordinário Circo Conroy, que Adam lhe entregara. A companhia era grande e fizera muito sucesso até dois anos atrás, quando a saúde do pro­prietário piorou e os invernos foram extremamente rigorosos. So­mando aos problemas econômicos que atingiram o centro-oeste do país, o circo perdeu algumas atrações para outras companhias e viu a venda de ingressos despencar. O grupo continuou perdendo recursos, e uma virose atingiu a manada de elefantes reduzindo-a à metade. Esses animais eram parte importante da companhia, que se gabava de ter a maior manada de paquidermes da Terra.

Desenrolou alguns pôsteres antigos e outros novos, e percebeu que a qualidade das impressões também declinara. O pôster de cinco anos atrás era ilustrado com uma longa lista de atrações, e o do último ano, com apenas três. Ali constavam como atrações principais o Magnífico Reginald Dunworthy e seus Reis da Flo­resta, A Maior Manada de Paquidermes da Terra, e Lucinda Con­roy, o Anjo das Alturas. Como atrações secundárias, Trixie LaMott e Bucko, seu Cavalo Maravilhoso; Jacoby, os Irmãos Voadores, Acrobatas e Contorcionistas; e Babbo, um palhaço em cima de uma minúscula bicicleta.

Jeremy observou a ilustração de Lucinda Conroy. Ela parecia pequena e frágil vestida com um uniforme branco bordado com lantejoulas, mas ainda assim mostrava autoconfiança em seu olhar.

De acordo com as últimas informações que recebera de Adam, o domador de leões deixara a companhia, e a manada de elefantes definhara. Pelo visto, a srta. Conroy se tornara a única atração principal do Circo. Era filha do proprietário, e Jeremy se perguntou se ela teria condições de atravessar toda a temporada com aqueles ombros magros.

Voltando a fitar a paisagem que não mudava, ele pensou em sua irmã de criação, Olívia, que ficara em Nova York. Ela lhe dera apoio e vendera as jóias da mãe falecida para ajudá-lo, além de levá-lo à estação e garantir que tudo daria certo. A verdade era que Jeremy se sentia um peixe fora d'água. O que sabia sobre espetáculos circenses? Como lidar com pessoas tão diferentes dele?

Suspirando, olhou para os papéis em seu colo, atento às infor­mações sobre as demais companhias. Quem eram e como conse­guiram ter sucesso, enquanto o Conroy falhou? Evidente que todos passaram por momentos difíceis e adversidades, mas alguns per­maneceram de pé, e essa era sua missão: reerguer com sucesso o Extraordinário Circo Conroy.

O trem chegou à estação, e Jeremy se preparou para descer olhando em torno sem acreditar no que via: uma fila de camelos guiada por um senhor de barba atravessando o que parecia ser a rua principal.

— Precisa de algo, senhor? — um menino magro, de rosto um tanto sujo, lhe perguntou.

— Sim. Quero ir ao estabelecimento do sr. Conroy.

— O senhor não é daqui, certo?

— O estabelecimento do sr. Conroy, por favor.

— Fica logo ali, pode ir andando. — O menino apontou para uma construção do outro lado de uma pequena ponte pela qual a fila de camelos atravessava.

— Muito obrigado. — Jeremy deu-lhe uma moeda e se dirigiu ao local indicado.

— Obrigado! — gritou o garoto, satisfeito com a gorjeta. — Não se preocupe, levarei sua bagagem até o circo. Não se preocupe com nada, senhor!

—Por favor, não precisa...—Jeremy tentou explicar que ficaria no hotel, mas o menino já desaparecera.

Depois resolveria aquilo. No momento tudo o que importava era descobrir que punição Adam Porterfield lhe reservara.

Lucy prendeu os joelhos na barra e balançou-se de cabeça para baixo no trapézio. Acabara de ensaiar seu número e sentia a brisa que entrava pela porta aberta do galpão. Ainda era primavera, mas aquela manhã parecia de verão.

Passado o choque inicial, ao ser deixada por Reggie, Lucy con­centrou toda sua energia em seu número, determinada a superar Eleanore Wilson. Lucinda Conroy não seria apenas a estrela do Extraordinário Circo Conroy, mas a melhor trapezista do país. O dinheiro que poupara estava perdido, não havia como provar que Reggie o roubara, mas ela jurou para si mesma que se vingaria dele.

Balançando-se com força, preparou-se para mais um movimen­to, soltando os joelhos e pendurando-se apenas pelos tornozelos nas laterais.

— Vá com calma agora, sinta o movimento — Ian falou, olhan­do para cima.

— Como foi? — Lucy se sentou na barra e logo respondeu à própria questão: — Tive a impressão de que fui um pouco desa­jeitada. Vou repetir.

Mais uma vez pendurou-se pelos joelhos e balançou-se com os braços apontados para o chão, firme no movimento. Cerrou as pálpebras e imaginou como fazer o número com perfeição.

Podia escutar Babbo falando, o barulho de Cora, a maior ele­fanta do Conroy, os membros da companhia conversando. Esta­vam todos por lá, uma vez que a temporada começaria em apenas algumas semanas.

Lucy franziu a testa e abriu os olhos ao escutar a voz de um desconhecido vindo de fora. Parou de se balançar e fitou a porta do galpão, à espera da entrada do estranho.

Logo avistou Jeremy Barrington. Não havia dúvida quanto a isso. Ele usava um terno bege-claro que realçava o tom castanho de seus cabelos sob o chapéu-coco. No bolso do paletó, um lenço branco milimetricamente dobrado, e a gravata de seda dourada arrematava sua elegância. No bolso lateral, um relógio de ouro. Seu rosto estava barbeado, uma surpresa devido à moda de bigodes e barba curta que conquistara os cavalheiros.

Ela não era a única a observá-lo. Todos os membros da trupe pararam seus ensaios para ver aquele que tinha por missão salvá-los da falência total. Lucy sabia que aquela poderia ser a última temporada do circo. Harry deixara claro que Barrington os salva­ria... ou fecharia tudo de uma vez.

Jeremy deu a impressão de ter sentido algum cheiro que o de­sagradou. Seus sapatos de couro, embora sujos de lama, denun­ciavam que ele vinha da cidade grande.

— Primeiro de Maio está chegando — Lucy falou para Ian. Mesmo se Jeremy tivesse escutado não teria entendido, uma vez que a expressão era usada apenas no circo. Significava "ama­dor", e qualquer um chamado de Primeiro de Maio era considerado ridículo.

— Lucy, você se lembra do que papai disse — Ian a repreendeu. Ela voltou a se balançar, ignorando a admoestação do irmão.

Seus cabelos negros e longos acompanhavam o movimento com graça, mas não estava mais concentrada no número, e sim no fo­rasteiro mandado para recuperar as Finanças da companhia.

— Se Adam Porterfield acha que ele pode impedir nossa falên­cia, espero sinceramente que Deus nos ajude — comentou consigo mesma.

— Boa tarde — Jeremy se dirigiu a Ian, tocando a aba do chapéu com a ponta dos dedos.

Lucy parou para observá-los. Era evidente que Jeremy preferia estar em qualquer outro lugar do que ali, e ela pensou em como proceder enquanto ele tentava falar com o seu irmão.

— Será que você pode me...

E foi quando aconteceu. Num átimo, o jovem dândi voou pelos ares e caiu de costas em cima dos excrementos dos elefantes, nos quais escorregara.

— Uma vez no circo, é imprescindível que se preste muita aten­ção ao lugar onde se pisa. — Ian lhe estendeu a mão.

Lucy deu risada, balançou-se no trapézio segurando a barra com as mãos e, com uma pirueta perfeita, aterrissou na rede acima de Jeremy.

— Olá — cumprimentou-o.

Como suspeitava, ele não notara sua presença, e assustou-se quando a viu na rede. Jeremy deu um passo para trás e tornou a pisar nos excrementos, caindo pela segunda vez.

— Vocês não têm pás para remover isso? — indagou, irritado, tentando se limpar com o lenço que tirou do bolso.

— Eu cuido disso, senhor. — Ian correu para fora do galpão.

— E você é... — perguntou a Lucy.

— Bem, nós certamente sabemos quem você é.

Ela desceu da rede com uma pirueta e passou por ele, balançando os cabelos que iam até a cintura. Sem se voltar para trás, saiu dali, indo em direção a casa. Fitou Cora, piscou-lhe e disse-lhe:

— Você o recebeu à maneira do circo, hein, garota?

O animal pareceu considerar e balançou a tromba para Lucy, que riu. Sentia-se melhor, agora que conhecera Barrington, e não tinha dúvidas de que ele iria embora em uma semana.

Ao entrar na residência, avistou Harry e Shirley sentados à me­sa, organizando papéis. Desde o anúncio da vinda de Jeremy, eles não paravam de recolher dados sobre a administração do Conroy.

Lucy se serviu de uma xícara de café e comentou:

— Ele chegou.

— Então é melhor eu ir me apresentar — Harry afirmou, depois de receber o olhar de aprovação de Shirley.

— Talvez o bom homem queira primeiro trocar de roupa. — Lucy assoprou de leve a bebida fumegante. — O inglês caiu. Duas Vezes. — Tomou um gole. — Pisou nas sujeiras da Cora. Duas vezes.

Shirley tentou conter o riso tapando a boca, mas em segundos estava gargalhando junto com a filha.

— Por favor! — Harry franziu o cenho, mas o canto de sua boca começou a tremer, e por isso deu-lhes as costas. — Parece que Barrington vem vindo. Shirley, é melhor pegar uma toalha molhada. Ele tentou limpar os fundilhos com as mãos, e agora... Bem, precisará da toalha molhada.

Mãe e filha gargalharam de novo.

— Quietas! Ele está subindo as escadas. — Harry lhes fez sinal para que parassem. — Sir Jeremy? Sou Harry Conroy. Adam in­formou que chegaria hoje, mas pensamos que seria no trem da tarde.

Ele deixou Jeremy entrar na cozinha, e Lucy percebeu o quão alto era perto de seu pai.

Shirley entregou-lhe uma toalha e uma xícara de café.

— Sir Jeremy, esta é minha mulher, Shirley. E acredito que já conheceu Lucy.

— Não fomos formalmente apresentados. — Barrington a en­carou.

— Lucy é nossa filha, a estrela do show — Shirley apressou-se em dizer.

— Sério? — Jeremy arqueou uma sobrancelha.

— Sério — Lucy respondeu.

Jeremy se limpou com a toalha e bebeu um gole de café. Em seguida, dirigiu-se a Harry:

— Minha bagagem ficou na estação, e um rapazinho garantiu que a traria para cá. Será que poderia mandar alguém interceptá-lo e dizer que ficarei no hotel?

— O hotel da cidade está fechado para reforma. — Lucy esbo­çou um largo sorriso. — Meus pais arrumaram um quarto para você aqui.

— Aqui? Mas não quero atrapalhar...

— Imagine! — Shirley meneou a cabeça. — O escritório de Harry fica nesta casa, e será melhor para você trabalhar.

— Entendo.

Lucy aguardou, divertidíssima, enquanto ele procurava por ou­tra desculpa para não se hospedar lá.

— Bem, então será que pode pedir ao menino que traga meus pertences para cá?

— Agora mesmo — Harry se prontificou.

Como aquele arrogante ousava tratar seu pai como um simples criado? Por que não carregou a própria bagagem, como qualquer homem faria?

— Seu quarto já está pronto — Shirley explicou-lhe. — Fica no andar de cima, com a janela oposta ao celeiro e ao galpão. Não tem muito aroma, se é que me entende.

Jeremy se mostrava bastante assustado.

— Sr. Conroy, disse que há um escritório para que eu possa trabalhar...

— Arrumamos uma mesa e boa iluminação em seus aposentos mesmo. Acredito que queira ver os livros, não é?

— São aqueles? — Jeremy apontou para a papelada em cima do tampo.

— Esses são...

Barrington se sentou e recolheu as folhas com rapidez, juntando-as em uma pilha.

— Se me fizer a gentileza de mostrar onde fica meu quarto, lerei isto lá enquanto espero minha bagagem.

— Eu lhe mostrarei — Lucy interveio. — Afinal, deu a meu pai a tarefa de recuperar suas malas, não é?

Jeremy deixou que Lucy seguisse na frente, e ela se arrependeu por não ter trocado de roupa após o ensaio. Podia sentir que ele a olhava enquanto subiam a escadaria.

Ah, deixe que olhe!

— Shirley lhe reservou o melhor aposento, claro.

— Por quê? Como são os outros?

— Menores do que esse, mas o dormitório dos funcionários fica atrás do celeiro. — Lucy girou a maçaneta, e os dois entraram no ambiente espaçoso. — Irá dividir o banheiro no final do cor­redor com o restante da família.

— Entendo.

Jeremy foi até a janela. Lucy notou que a expressão dele era de desgosto total, como se estivesse chegando à prisão para cumprir sua sentença. Ela chegou até a ter pena dele.

— Vou deixá-lo, agora.

Lucy fechou a porta com delicadeza, perguntando-se de que maneira alguém como Jeremy Barrington acabara em um lugar tão inóspito como o interior de Wisconsin, envolvido com um grupo de artistas circenses.

Antes de descer, passou em seus aposentos para se refrescar e se trocar. Na próxima vez que se encontrasse com Barrington, estaria vestida de maneira apropriada.

Jeremy continuava olhando desolado a paisagem que se desortinava. O campo verde era permeado por flores e algumas árvores frutíferas. Bucólico e completamente diferente de Nova York.

No terreno imenso havia muitos animais e vagões coloridos, nos quais a trupe viajava. As mulheres, reunidas, costuravam uma lona enorme, decerto a cobertura do circo.

Lembrando-se dos eventos daquela manhã, agradeceu aos céus por apenas duas pessoas terem presenciado suas quedas em cima dos excrementos. Então era aquele o castigo que Adam lhe preparara. Ele teria de reerguer a companhia e transformá-la em um negócio rentável. Mas como?!

Suspirando, enterrou a cabeça entre as mãos e apoiou os coto­velos na mesa. Porém, foi surpreendido por uma batida na porta.

— Sua bagagem chegou, senhor.

Jeremy foi atender, e um homem muito musculoso entrou, car­regando as malas. Com um movimento suave, colocou-as ao lado da cama e estendeu a mão.

— Bruno Jacoby, um dos irmãos Jacoby.

— Jeremy Barrington. — Cumprimentou-o um tanto receoso, mas espantou-se com a delicadeza do gigante, que não lhe esmi­galhou os dedos, como esperara. — O que você e seus irmãos fazem aqui no circo?

— Um pouco de tudo. Malabarismo, pirâmide humana, palha­çadas, quando Babbo se excede na bebi... Quer dizer, quando é necessário ajudar no número do palhaço.

— Babbo?

— Ah, Babbo é o palhaço principal. Ele é uma lenda.

— E está me dizendo que ele bebe?

— Bem, uma vez ou outra todos nós...

— Sr. Jacoby, estou ansioso para ver seu número. Muito obri­gado por ter trazido minha bagagem. — Conduziu-o à saída.

— Estamos satisfeitos com a sua presença aqui, sir. — Bruno fez uma reverência e se foi.

Jeremy viu Lucy na escada e notou que ela trocara de roupa e prendera os cabelos, parecendo mais velha e elegante.

— Srta. Conroy?

— Sim?

— Gostaria de saber quando terei o prazer de assistir a sua apresentação. Afinal, é a estrela da companhia.



— Tenho de ajudar Shirley com o almoço. Dois funcionários da cozinha foram embora na semana passada.

— Isso não responde a minha questão. Aliás, está adquirindo o hábito de nunca me responder.

— Ian e eu ensaiamos de manhã, e os irmãos Jacoby, à tarde.

— E à noite?

— Como?

— O dia tem vinte e quatro horas, srta. Conroy. Precisamos de um pouco para dormir e nos alimentar, o resto está disponível para melhorar o show, não acha?



— Eu... Nós...

Jeremy gostou de vê-la sem ação. Lucy piscou seus olhos azuis sem saber o que dizer.

— Será que pode fazer a gentileza de dizer a toda a trupe que teremos uma reunião hoje à noite, no picadeiro? Às sete horas está bom? — Jeremy se virou para entrar de novo no quarto, mas voltou.

— Ah! E eu vou almoçar com os funcionários, se puder avisar à sra. Conroy, por favor.

— Não deseja mais nada? — Lucy indagou, em um tom carregado de sarcasmo.

— Por enquanto, não. — Seco, Jeremy fechou a porta.

Lucy desceu a escada bufando de raiva. Quanta arrogância daquele homem! Entrou na cozinha e começou a ajudar a mãe com os pratos. E, devido a seu estado de espírito, quase quebrou vários.

— Devagar com esses pratos, menina, senão teremos de almoçar nas panelas. — Shirley cuidava da comida. — Há algo que queira me dizer?

— Aquele sujeitinho! Ele... — Balançou a cabeça, furiosa. — Precisamos de um pouco de consideração aqui. Não é nossa culpa o que está acontecendo com o circo.

— Talvez em parte seja, minha querida.

— Como pode pensar assim? — Passou a distribuir as travessas na mesa. — Sinceramente, mãe, o que mais poderíamos ter feito? Tentamos tudo!

Harry entrou naquele momento.

— Eu deveria ter admitido os problemas um pouco mais cedo, filha. Fui orgulhoso demais para aceitar a necessidade de auxílio, meu orgulho prejudicou a todos.

— Você jamais prejudicaria alguém. — Lucy o olhou com ter­nura.

— De qualquer maneira, terá de se acostumar com Jeremy aqui, garotinha. — Harry sorriu e acariciou o rosto dela. — Será melhor para você.

— Vou tentar.

Lucy deixou a cozinha para tocar o sino que avisava da hora do almoço. Em instantes, o ambiente ficou repleto de gente famin­ta. Mas uma cadeira permanecia vazia, e ninguém se serviu, à espera do forasteiro.

— Acho que devemos comer — Ian sugeriu, por fim. Todos concordaram e começaram a conversar sobre os mais diversos assuntos. Pouco depois, Lucy avistou Jeremy parado à soleira. Ele trocara de roupa, limpara os sapatos e voltara a ser um bem-sucedido homem de negócios. Todos se calaram. Os homens se mostravam desconfortáveis, e as mulheres, maravilhadas.



Ele não é tão bonito assim, Lucy pensou, tentando se concentrar em seu prato.

— Por favor, sente-se, sir Jeremy — Harry o convidou. Jeremy tomou assento diante de Lucy.

— Olá para todos. Por favor, continuem sua refeição, mas peço que dispensemos as formalidades. Não é necessário que me tratem por sir. Afinal, estamos na América, não é mesmo?

— No coração dela. — Harry esboçou um largo sorriso. — No entanto, não devemos nos precipitar. Seu título pode ajudar a ven­der mais ingressos.

— Tem razão, pode ser uma desculpa interessante para explicar o início tardio da temporada. "Direto da Inglaterra" ou coisa do tipo.

— Ótimo! — Harry achou graça.

Aos poucos, a conversa fluiu entre todos, um tanto forçada, na verdade, mas muito melhor do que o silêncio constrangedor. Quan­do terminaram, Barrington ficou de pé, e todos se calaram.

— Em poucas semanas terá início a nova temporada, o que nos dá pouco tempo para aprimorar o espetáculo e fazer os ajustes necessários. Espero que vocês trabalhem duro, provem seu valor ou deixem a companhia.

Diversos protestos tomaram conta do recinto.

— Se não concordarem, sugiro que deixem o circo agora mes­mo. Estejam preparados para uma demonstração do espetáculo hoje, às sete horas, no picadeiro. Isso é tudo, obrigado.



Isso é tudo ?! Lucy encarou o pai, que parecia tão surpreso quan­to os demais, mas nada comentou. Ela não podia acreditar que Harry iria deixar aquele idiota interferir na vida deles. Todos se levantaram e se foram, e Lucy começou a retirar a louça.

— Sr. Barrington... — Harry começou.

— Por favor, Harry, podemos nos chamar pelo primeiro nome, não é mesmo?

— Sim, Jeremy, creio que se todos nos tratarmos com infor­malidade, os membros da companhia ficarão mais confortáveis com sua presença por aqui.

Lucy procurou ficar por perto a fim de escutar o que seria dito. Jeremy Barrington estranhou o que Harry disse, e tossiu de leve.

— Não pode estar falando sério... Sugere que todos tratem a mim e a você pelo primeiro nome?

— Isso mesmo. Você é bom com os números, mas eu sou bom com as pessoas. Sobretudo com artistas de circo, pois, quando o dia de trabalho termina, nós continuamos juntos. Somos uma família.

— Então o problema pode estar exatamente nisso. Ao que tudo indica, seu pessoal está precisando de um pouco de disciplina, de...

— Não, Jeremy. — Harry balançou a cabeça. — Nós temos apenas uma chance, e teremos de usar nossas forças.

O que isso quer dizer?, Lucy se perguntava, guardando os copos.

— Lucy querida, pode me ajudar aqui? — Shirley a chamou. Ela respirou fundo, contrariada.

— Estou indo, mãe...

Jeremy passou a tarde toda trancado em seu quarto, imaginando uma estratégia para salvar o circo. Antes de chegar ao Conroy, achava que lhe ocorreria uma idéia de como ajudá-los, ao conhecer a companhia. Adam lhe mostrou outros casos de intervenções de alguém de fora que tiveram êxito, como os Irmãos Ringling, em Baraboo. O caso do Conroy era diferente, pois, justo quando co­meçava a fazer sucesso, tudo desmoronou ao mesmo tempo. Fal­tavam apenas duas semanas para o início da temporada e, na opi­nião de Jeremy, precisavam de pelo menos dois meses para que ficasse tudo perfeito.

Ele não desceu para o jantar; pediu uma bandeja com a refeição em seus aposentos. Sentia que havia alguma pista para salvar o circo, e que Adam não lhe dissera de propósito.

Encontrar-se-ia com os artistas mais tarde para assistir a suas performances. O que tinha na cabeça quando pediu essa apresen­tação? E se os achasse amadores? O que faria? Esperava encontrar um negócio, e Harry lhe falara sobre família, na hora do almoço.

Jeremy de modo algum se preparara para um relacionamento mais pessoal. Ainda mais quando todos o olhavam com um misto de ceticismo e esperança.

Pela janela, avistou vários membros da trupe andando de lá para cá, parecendo mais confortáveis e tranqüilos, talvez por terem per­cebido que Jeremy não tinha condições para administrar o circo.

Lucy saiu da casa e circulou o terreno. Várias pessoas falaram com ela, que não respondeu. Dava a impressão de estar determi­nada a fazer algo.

Jeremy sabia que estava sozinho na residência, e atravessou o corredor, a fim de observar por outra janela para onde ela ia. Ao abrir a porta, se deu conta de que entrara no quarto de Lucy. Hesitou por um momento, mas disse a si mesmo que só iria olhar pela vidraça, não bisbilhotar. Então, deixou a porta aberta e a viu ca­minhar em direção ao picadeiro, vestida com seu uniforme bri­lhante coberto por uma capa vaporosa.

Ian saiu do galpão logo depois, demonstrando preocupação. Virou-se para dentro, falou alguma coisa e ergueu os braços, re­signado, voltando a caminhar em direção a casa. Jeremy esperou mais um pouco, mas Lucy não saiu de lá.

Quando ia deixar o quarto, viu a coleção de panfletos de Lucy em uma estante. Havia pôsteres de dez anos atrás, quando ela ainda era a Pequena Lucinda, a Mini-Acrobata. Na temporada seguinte, já fazia parte dos Conroy Voadores; três anos depois, seu nome aparecia como o principal, e passadas mais três temporadas, já era a Fantástica Lady Lucinda, o Anjo das Alturas.

Havia várias fotos também. Em uma, ainda criança, era levan­tada no ar por um Harry muito mais vigoroso e saudável. Jeremy não deixou de notar que ela se transformara em uma mulher muito atraente, e sorriu ao concluir que não era imune a seu charme. Lembrou-se de Lucy subindo as escadas a sua frente e do uniforme de ensaio justo em seu corpo, realçando suas formas perfeitas de atleta.

Em muitas fotografias ela aparecia com o domador de leões, Reginald Dunworthy. No canto da prateleira estava um pequeno retrato de um chalé com um lago adiante. Voltando a atenção para os pôsteres, Jeremy notou que a cada temporada a companhia mu­dava o uniforme, os números e as músicas.

— É um espetáculo... — ele tentava ler a frase, um tanto apa­gada pelo tempo.

— O que pensa que está fazendo?!

Jeremy não a ouvira entrar na residência, e muito menos subir as escadas. Fitou-a assustado; ela usava meia-calça de bailarina, o que impedira que seus pés fizessem ruído. Ou talvez estivesse apenas muito concentrado nos programas e nas idéias fantásticas que lhe ocorriam.

Sorriu para ela com a certeza de que, apesar da baixa estatura, Lucy Conroy era uma mulher feita e sabia muito bem o que queria.

— Vamos deixar as coisas bem claras, sr. Barrington. — Ela empinou o queixo da mesma maneira como estava retratada no pôster. — Você e Adam Porterfield podem administrar o circo por um tempo, mas aqui é meu quarto, e espero que o respeite. Estamos entendidos?

— É uma tentativa de ameaça, srta. Conroy? — Jeremy não se conteve e flertou com ela.

— Eu... O quê?

— Gostaria de saber se há um "se não..." em seu charmoso discurso. "Fique longe de minhas coisas se não..."

— Se não, sir Jeremy, serei forçada a aceitar a oferta de uma das inúmeras companhias que me procuraram para deixar o Conroy.

Jeremy sabia que ela jamais deixaria a família, mas resolveu fingir que levava aquilo a sério.

— Muito bem. — Ele se virou para a janela. — Nesse caso, terei de me precaver, para o caso de isso vir a acontecer.

E permaneceu parado, fitando a paisagem sem dizer mais nada.

— Vai ficar aí?

— Evidente que não. Há muito trabalho a fazer, não há, srta. Conroy?

Jeremy guardou os programas na prateleira e se foi. Lucy cerrou os punhos e olhou para o teto, com vontade de gritar. O homem estava lá fazia menos de vinte e quatro horas e já a tirara do sério em diversas ocasiões.

Abriu o armário, procurando as sapatilhas, mas sentou-se na cama. Jeremy Barrington tinha flertado com ela? Não, impossível, decidiu, levantando-se. Se bem que os olhos verdes dele brilha­ram quando aceitou sua ameaça, e ela pôde ver que tivera vontade de rir...

— O pretensioso acha que pode me convencer com seu char­me... — murmurou, alcançando a sapatilha embaixo da cama. — Bem, veremos quem derrotará quem, sir Jeremy.

— Veremos — ele respondeu.

Lucy se assustou, virou-se e o encontrou encostado no batente, de braços cruzados.

— Com licença. — Ela se ergueu rápido. — Tenho de me pre­parar para a apresentação que solicitou.

— Então acho que precisará disto. — Jeremy atirou em sua direção a sapatilha que Lucy deixara cair, na pressa em sair dali.

Jeremy entrou no galpão onde ficava o picadeiro improvisado para os ensaios e encontrou todos reunidos, a sua espera.

— Boa noite, senhoras e senhores. Em apenas duas semanas começaremos nossa vigésima primeira temporada. Espero coope­ração e dedicação total nesse período, e se não se sentirem capazes disso, como eu sugeri no almoço, poderão ir embora pela manhã. Devemos a nossos companheiros uma decisão ainda esta noite, para que os que desejam ter sucesso possam trabalhar.

Lucy olhou para as pessoas ao redor, e testemunhou resignação e raiva. Será que Jeremy não entendia que não precisavam de mais nenhuma baixa no circo? Para que dar o mesmo ultimato duas vezes no mesmo dia? Ou talvez fosse isso mesmo o que ele queria... O coração dela disparou.

— Permitam-me ser bastante direto — ele prosseguiu. — Posso não ter experiência com circo, mas entendo de entretenimento. Conheço os seres humanos e imagino o quanto estão dispostos a pagar pelo espetáculo. Não quero nenhum questionamento sobre minhas táticas, pois algumas podem parecer bizarras para vocês.

Ele fez uma pausa, mas ninguém se manifestou, até que Harry deu um passo à frente.

— Será que posso dizer uma ou duas palavras, Jeremy?

— Sem dúvida, Harry.

— Pois bem. Estamos juntos há anos, meus amigos, e Shirley e eu ficamos muito agradecidos por permanecerem conosco durante minha enfermidade e todos os problemas do ano passado. Mas necessitamos de ajuda, e sei que Adam Porterfield é um ho­mem excelente. Portanto, se Adam nos mandou Jeremy, devemos trabalhar com ele e aceitar o que propõe.

Jeremy também sabia que Adam era leal e amigo, e tinha co­nhecimento da longa amizade entre as famílias. Por mais zangado que estivesse com ele, Adam jamais colocaria o negócio dos ami­gos em risco. De alguma maneira, sentia que poderia fazer a dife­rença para os Conroy e, ao se dar conta disso, sorriu orgulhoso, estufando o peito.

— É o que tenho a dizer a vocês. A partir de agora, respondemos a Jeremy.

Todos ficaram em silêncio, até que Ian começou abater palmas, estimulando os companheiros. Harry piscou para Jeremy, que se emocionou com o gesto daquele senhor franzino.

— Obrigado, Harry. Obrigado a todos. E agora, eu gostaria muito de assistir ao espetáculo.

Deixando o picadeiro, ele se sentou em uma cadeira, enquanto todos se preparavam. A banda se posicionou, e Jeremy torceu para que a música encobrisse o som do gerador, alto demais.

Harry se aproximou, um tanto sem jeito.

— Se não se importa, Jeremy, serei o mestre-de-cerimônias neste ensaio.

— Não temos um mestre-de-cerimônias?

— Temo que não.

— Está bem.

Jeremy suspirou, indagando-se o que mais aconteceria.

Jeremy assistiu a todos os atos sem fazer nenhum comentário. Vez ou outra anotava algo em sua caderneta de couro.

Lucy chegou mais perto, para observá-lo melhor. Ele ocupava sua cadeira com as pernas cruzadas, como se fosse o dono de tudo.

Tirara o paletó e arregaçara as mangas da camisa, deixando os antebraços à mostra ao entrelaçar os dedos na nuca. De vez em quando suspirava, corria os dedos pelos cabelos castanhos e es­crevia algo mais.

A fumaça do charuto que Jeremy acendeu preencheu o ambien­te. Ele franziu os olhos para enxergar através dela. O aroma per­correu o espaço entre os dois. Lucy notou que ele era magro, mas não como Ian. Era mais encorpado e mais alto também. Ao fla­grar-se observando detalhes de que não precisava, ela enrubesceu, mordendo o lábio.

— Preparada para seu número, srta. Conroy? — Jeremy in­dagou, sem olhar para trás.

— Minha apresentação vem logo após a dos irmãos Jacoby. — Ela se pôs ao lado dele. — O que está achando do espetáculo? Não disse nada e escreveu muito pouco.

Sem se desviar do picadeiro, naquele momento tomado pelos elefantes, Jeremy fechou a caderneta, dizendo:

— Tenho muitas idéias!

— A seqüência do show segue uma lógica, sabia?

— Estou certo de que sim, srta. Conroy.

— Então me perdoe, mas por que tenho a impressão de que pretende mudá-la?

— Os espetáculos têm de ter um pouco de surpresa. — Sorrindo, Jeremy viu uma mulher estendendo sozinha a rede do trapézio. — Quem é ela?

— Norma Cox, mulher de Arnie Cox, o treinador de elefantes. — Jeremy meneou a cabeça e fez mais uma anotação.

— É a próxima, srta. Conroy?

— Sim, sr. Barrington.

Nos minutos que se seguiram, Jeremy nada disse, e muito me­nos escreveu. Logo no começo do ato de Lucy, compreendeu por que era chamada de Anjo das Alturas. Seus movimentos fluíam com perfeição, e a banda, que para seu alívio era excelente, a acom­panhava com uma romântica sonata.

O número tinha momentos de parar o coração, e Jeremy engoliu em seco quando Lucy, sentada no trapézio, se pendurou por apenas um tornozelo em um rápido movimento. Quando a música chegou ao clímax, Ian entregou-lhe um cabo, que Lucy apanhou enquanto outro trapezista segurava a barra.

Jeremy tentou adivinhar o final, mas jamais previu o que veria a seguir. Ela soltou o cabo e, em vez de cair na rede, continuou lá no alto, presa pelo pescoço com os braços abertos como uma bai­larina de caixinha de música. Os longos e negros cabelos escon­diam o suporte que prendia o cabo em torno do pescoço. O coração de Jeremy quase parou, tanto pela beleza de Lucy quanto por sua audácia.

Todos os membros da trupe aplaudiram com entusiasmo, para surpresa de Jeremy. Ian a desceu com cuidado até a rede, onde Lucy tirou o suporte do pescoço, sorrindo, feliz. Com destreza, saltou para o chão e agradeceu com uma reverência. Os aplausos continuavam, e muitos foram abraçá-la no picadeiro.

Jeremy se levantou e se dirigiu a eles, ainda abalado com a cena que acabara de presenciar.

— Foi muito impressionante, srta. Conroy.

— Obrigada. — Ela o encarou. — Ian e eu estamos trabalhando em um suporte que me permitirá fazer esse número sustentando-­me apenas pelos dentes.

— Lucy, você sabe o que eu acho... — Ian tentou protestar.

— Ainda tem de ser aprimorado, mas até agora nenhum artista aperfeiçoou o giro pelo pescoço, portanto, temos de usar isso a nosso favor.

— Discutiremos a respeito depois. — Jeremy a fitou no fundo dos olhos até ela se desviar.

— Lucinda? — Harry a chamou.

— Sim, papai? — respondeu, corando.

Jeremy notou que Harry fora o único a não aplaudi-la.

— Você se arriscou demais. — Harry pôs a mão em seu ombro e a levou para fora.

— Eu sei, papai, mas...

Jeremy não conseguia mais escutar o que diziam. Lucy, exci­tada como uma criança que ganhara um brinquedo novo, falava com Harry, que pôs o dedo em riste para que ela parasse de falar e disse-lhe algo. Jeremy sabia que o patriarca da companhia ficara tão assustado quanto ele.

— Bem... Temos ainda dois números para ver. Acho que não há problemas em apresentá-los sem um mestre-de-cerimônias.

Ao final, Jeremy reuniu os artistas, menos Harry e Lucy, que não retornaram ao galpão.

— Muito obrigado a todos pelo esforço de hoje. Constatei que ainda há bastante trabalho a fazer, mas talento não lhes falta. Por favor, estejam aqui amanhã às nove horas. Boa noite.

Todos começaram a se movimentar, e Jeremy saiu dali pisando no chão com todo o cuidado, temendo pisar em algo muito macio...

— Sra. Cox? — chamou pela mulher enorme que vira pouco antes ajudando no picadeiro.

— Sim, senhor?

Ela era muito alta e forte, e colocou as mãos na cintura espe­rando que Jeremy prosseguisse.

— Já considerou ter um número só seu?

Norma ficou olhando para Jeremy por um momento e depois começou a gargalhar, surpreendendo-o.

— Oh, essa é boa! Arnie, venha aqui, o sr. Barrington acabou de...

— Estou falando sério.—Jeremy cumprimentou o marido dela, que se juntara a eles.

— Está?

— O que Norma faria exatamente, senhor?



— Pelo que vejo, sua mulher é muito robusta. Entenda bem, não tenho a menor intenção de ofender a dama.

— Isso ela é mesmo. — Arnie sorriu. — E capaz de me pegar no colo com facilidade.

— Verdade?

— Sim, senhor — Norma afirmou, orgulhosa.

— Vocês devem saber que toda nossa concorrência tem um número de homem forte.

— O senhor quer que eu me vista de homem?

— Não. Quero que se vista de mulher e se torne Norma, a Mulher mais Forte do Mundo.

Arnie e Norma olharam para ele, entreolharam-se e tornaram a olhá-lo.

— Pode dar certo, querida. Você pode...

— Eu posso! — Norma interrompeu o marido e sorriu para Jeremy, abraçando-o com força. — Obrigada sr. Barrington! Nem sei o que dizer! Ei, Trixie! — gritou, virando-se para o dormitório. — Adivinhe!

Antes de partir, Norma segurou o rosto de Jeremy com as duas mãos e deu-lhe um beijo ruidoso na testa.

— Ela sempre quis ter um número. — Arnie apertou a mão dele. — Muito obrigado, senhor.

— Não há por quê.

Jeremy deixou que a sensação de ter feito algo maravilhoso o invadisse, à medida que caminhava para a casa, assoviando.

Lucy o observava de sua janela. Viu quando Jeremy parou para uma amigável conversa com os Cox e pensou que cumprimentava Norma por toda a ajuda que ela proporcionara. Não combinava com a postura dele, mas aquele homem tinha mania de surpreender.

Harry ficou aborrecido com a filha por ela ter se arriscado sem antes conversar com ele e Shirley.

Shirley fora uma trapezista pioneira quando jovem, e Lucy se espelhava na mãe, sempre pedindo conselhos. E pela primeira vez ensaiara escondido. Apenas Ian sabia, e mesmo assim a ajudou a contragosto. Quando Harry a chamou de "Lucinda", sentiu o co­ração bater acelerado e soube que levaria uma bronca. Ainda tentou tratá-lo carinhosamente de "papai", mas não adiantou. A conversa entre eles não foi muito agradável:

—Você sabe o que poderia ter acontecido lá em cima? — Harry indagou, ao saírem do galpão.

— Mas...

— Sem "mas", mocinha! Espere até sua mãe saber disso. Quan­tas vezes ela lhe falou para nunca tentar algo inédito sem ensaiar à exaustão?

— Mas...

— Lucinda, eu sei por que está fazendo isso e não permitirei.

— Certo, papai. — Lucy o abraçou. — Mas, papai, não foi maravilhoso?

Harry não pôde evitar um sorriso de orgulho.

— Foi magnífico, Lucy. Nunca vi nada igual em toda minha vida.

Ao chegarem em casa, Harry contou a Shirley sobre o número e disse que a filha precisaria da colaboração dela para aperfeiçoa-lo. Shirley escutou com atenção, fazendo perguntas e se mostrando tão animada quanto Lucy, que lhe prometeu apresentá-lo no dia seguinte.

Naquele momento, de sua janela, via Jeremy se despedir de Norma e Arnie e vir para a casa. Escutou a porta se abrir e se fechar, e os passos dele nos degraus. Jeremy parou por um mo­mento. Teria considerado vir ao quarto dela? Logo depois, contu­do, entrou em seus aposentos, e Lucy respirou aliviada, só então se dando conta de que prendera a respiração por todo aquele tempo.

— Está se comportando como uma menininha ridícula — disse a si mesma, penteando os longos cabelos em frente ao espelho. — O que a fez pensar que esse homem teria interesse em bater a sua porta?



O fato de que quando nossos olhares se cruzaram, depois de minha apresentação, vi algo maior do que interesse profissional.

— Que absurdo! Não aprendeu nada com os erros do passado? Esse camarada é do mesmo naipe de Reggie. Portanto, não é nada difícil imaginar o que ele pode querer de você.



Jeremy se preocupou comigo.

— Preocupou-se com o futuro do negócio, isso. sim. Ele sabe que você é a estrela do espetáculo, portanto, seu ganha-pão.

Mas...

— Meu Deus! — Lucy balançou a cabeça, encarando sua ima­gem refletida. — Vá dormir, garota. Terá semanas pela frente para fazer papel de boba, se é essa sua intenção.


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