Willa Hix Estados Unidos, 1910 Pelo amor, vale a pena correr todos os riscos!



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Capítulo II

Faltando poucos dias para o começo da temporada, a trupe en­saiou noite e dia. No período livre, trabalhavam no ajustes dos carros, das fantasias e na limpeza. Além disso, Jeremy conferiu mais números a quase todos, assim como fez com Norma. Até Shirley ganhou trabalho extra: passaria a cuidar da bilheteria.

Antes de partir, o circo convidou a cidade inteira para assistir ao show. Era bastante comum fazer isso todos os anos, mas Jeremy inovou ao convidar as cidades vizinhas e cobrar as entradas dos adultos em alimentos, que seriam estocados para a turnê. Também fariam um desfile pelas ruas e apresentariam dois espetáculos em um dia, exatamente como seria durante a temporada.

As crianças ficaram excitadas, e gente de toda parte apareceu, inclusive um repórter áoMilwaukee Sentinel, que Jeremy chamara. Os artistas, respeitando a decisão do administrador, fizeram uma performance irrepreensível.

— Srta. Conroy? — Jeremy chamou Lucy, que se dirigia ao vagão de fantasias.

Ela parou e se virou para ele. Não se falavam desde aquela primeira apresentação, mas Lucy sabia que Jeremy a observava em todos os ensaios. Parecia que nunca tinha nada a lhe dizer, ao contrário dos outros, com quem sempre conversava.

— Não quero que faça o giro pelo pescoço.

— Está brincando! — Ao ver que ele não brincava, quis saber: — Por quê?

— É muito arriscado.

Lucy o executara com perfeição em todos os ensaios, menos em um. No ensaio final, na véspera, ela estava cansada e desatenta, e não prendeu direito o suporte, o que resultou em uma queda na rede. Quando pulou no chão para subir e tentar de novo, ficou frente a frente com Jeremy, que nada comentou, mas a olhou pro­fundamente, dando-lhe as costas em seguida e saindo do galpão.

— Se é por causa do que aconteceu ontem, sossegue. A culpa foi minha, e não se repetirá.

— Não mesmo, porque você não fará o número enquanto eu não lhe der permissão. Entendido?

— Mas...

— Deve se aprontar agora. A primeira apresentação será em menos de uma hora.

Lucy ficou parada, atônita, mas resolveu obedecer para não ter mais problemas com os pais.

Em sua apresentação — estupenda —, sorriu o tempo todo, arrancando gritos e aplausos da platéia. Mas ao terminar e sair do picadeiro, passou por Jeremy calada e de cenho franzido.

— Srta. Conroy... Lucy! — ele a chamou.

Ela não parou e foi para seu trailer descansar para o número final. No intervalo das apresentações, checou seu equipamento de segurança e a fantasia, e foi até a casa para tomar um café.

Ao entrar na cozinha, ouviu vozes vindo do escritório. Era Harry conversando com Jeremy. Na ponta dos pés, aproximou-se para tentar escutar o que diziam.

— ...comida e bebida aos mais importantes — Jeremy dizia.

— Para isso precisaremos de um dinheiro que não possuímos. — Harry respondeu.

— Já pedi um adiantamento a Adam.

— Deve ter cuidado ao pedir mais recursos a ele. — Jeremy exalou um longo suspiro, continuando:

— Tenho que fazer o que for necessário para que isso dê certo, Harry.

— Suponho que jamais me contará a razão de ter aceitado esse trabalho, não é, filho?

Eles se calaram. Lucy estava se virando para voltar à cozinha quando escutou a resposta:

— Vou lhe dizer o seguinte, amigo: era aceitar esta missão ou ir para a cadeia.

— Entendo. Bem, filho, obrigado por ser honesto comigo.

— Garanto que não houve intenção de cometer um crime, Harry, pode perguntar a Adam. Pretendo ter sucesso aqui, e estou deter­minado a provar a mim mesmo, a você e a Adam que sou capaz.

— Deixe-me falar algo sobre Adam Porterfield. — Harry deu risada. — Você não estaria aqui se ele não acreditasse do fundo da alma em sua habilidade para colaborar conosco. E se Adam confia em você, é o suficiente para mim.

— Obrigado.

— Eu já lhe contei sobre uma vez em que...

Lucy saiu dali rápido e bateu a porta da cozinha com força. E conseguiu o resultado que pretendia.

— Shirley? É você? — Harry chamou.

— Não, papai, mamãe ainda está arrumando as malas das fan­tasias. — Lucy ignorou Jeremy, ao conversar com o pai. — Só vim para repousar um pouco.

— Jeremy comentou que fez um belo show hoje, querida.

— Estará no picadeiro à noite?

— Estarei lá, filha.

Lucy beijou-lhe a face, acenou com a cabeça para Jeremy e subiu para seu quarto.

O show da tarde atraiu um bom público, mas no noturno havia até gente em pé.

Jeremy observou a movimentação da platéia, todos com pipocas e doces, e sorrisos nos rostos. Reconheceu algumas pessoas que tinham vindo à tarde e agora retornavam. A pilha de doações de alimentos para a turnê estava imensa, e na certa os alimentaria por semanas.

A venda dos leões também melhorou seus recursos, e pagaria os salários até que o caixa começasse a fluir com a venda de entradas.

— Bem, Jeremy, devo começar? — Harry estava vestido de mestre-de-cerimônias, com um paletó comprido e vermelho e cal­ça preta dentro de botas da mesma cor. Sua cartola também ver­melha tinha uma fita preta na base, perto da aba.

— Nossa, Harry! Tenho a impressão de que você cresceu alguns centímetros.

— O salto da bota faz maravilhas por um homem baixinho. Isso me dá mais presença de palco, não acha? — Harry sorriu-lhe.

— Sem dúvida! — Jeremy deu risada. — Vamos começar o show?

Harry se dirigiu ao centro do picadeiro e fez um sinal para que a banda o anunciasse.

— Senhoras e senhores!...

Jeremy viu os artistas se alinhando para a apresentação, e seu olhar cruzou com o de Lucy, que usava roupa azul-escura de acor­do com o tema do espetáculo: "Noites Árabes". Ele não soube dizer se a expressão dela era de ira ou de interesse. Ambas pareciam possíveis para a impossível Lucinda Conroy.

O show correu bem, e os artistas pareciam empenhados naquele grande ensaio geral. Até o ato dos palhaços, que Jeremy achara tedioso, adquiriu novo colorido com as gargalhadas das crianças ao fundo.

— Senhoras e senhores, meninos e meninas de todas as idades, atentem-se ao centro do picadeiro. No alto do trapézio, o Anjo das Alturas, lady Lucinda, voará entre as estrelas.

A parte de cima da lona fora pintada de azul-escuro com estre­linhas brancas que brilhavam com a luz direcionada.

Lucy apareceu, sorrindo e segura. Trocara de roupa, e agora a sua fantasia era branca, bordada com lantejoulas, e seus cabelos, presos em uma trança com várias pérolas. Ela usava também meia-calça e sapatilhas brancas, o que lhe conferia de fato uma aparência angelical. A saia esvoaçante balançava a seus movimentos em cima do trapézio. O público aplaudiu quando ela se transferiu de uma barra para outra.

O poder de seu espetáculo não estava tão só em sua beleza e graça, mas no fluxo contínuo de seu balançar. Lucy saltava por entre as barras sem esforço, deixando a platéia boquiaberta.

Ela se preparou para o grande final em que ficava presa apenas pelos tornozelos e soltava um deles, girando no ar. Jeremy sorriu ao olhar para o público, que a acompanhava. Todos suspiraram em uníssono, e então lá estava Lucy, fazendo exatamente o que fora proibida de fazer: presa pelo pescoço, com os braços abertos, girava e girava, enquanto a saia rodopiava a seu redor, causando um efeito único.

Após o que pareceu ser uma eternidade, Lucy parou o giro e apanhou o trapézio que Ian lhe mandou. Tirando o suporte do pescoço, ela segurou a barra com ambas as mãos e balançou-se com força para ganhar velocidade. Em seguida, se soltou, caindo na rede.

A platéia ficou em pé, aplaudindo e assoviando. Lucy desceu da rede e agradeceu a todos, fazendo uma reverência. Harry foi a seu encontro e tomou-lhe a mão, guiando-a em torno do picadeiro a fim de contemplar a platéia. Os olhos dele brilhavam, e Jeremy teve certeza de que não sabia que sua filha desobedecera uma ordem.

Jeremy se dirigiu à saída dos artistas, pela qual Lucy deveria obrigatoriamente passar.

— Srta. Conroy?

Ela mandava um beijo para os fãs. Sorrindo, Jeremy pegou na mão dela como se fosse acompanhá-la ao trailer. Havia centenas de pessoas olhando, portanto, ele não ousaria fazer uma cena.

— Você e eu precisamos ter uma conversa. — Enlaçou-a pela cintura.

— Tenho de me arrumar para o final do espetáculo.

— Hoje a apresentação acabará sem você. — E ele a levou para fora.

— Estou com frio.

Jeremy tirou o paletó e colocou nos ombros dela.

— Bem, agora é necessário esclarecer uma coisa de uma vez por todas. — Ele a encarou, muito sério. — Quer você goste, quer não, sou o responsável por esta companhia. Para conseguir ajudar seu pai e o circo, preciso da cooperação de todos os membros da trupe, e isso inclui você.

— Você não sabe nada sobre o circo ou...

— Isso não está em discussão, Lucy. Ou você faz o que deter­minei, ou não se apresentará.

— O quê?! Só pode estar brincando...

— Garanto que não se trata de nenhuma brincadeira.

— Mas...

— Não há dúvidas de que é a estrela do Conroy, mas você é apenas parte do espetáculo. Não há de discordar de mim quando afirmo que todas essas pessoas vieram para ver um show, e, por mais fantástico que tenha sido seu número, ele sozinho não é su­ficiente.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Ah, vejo que entendeu! Portanto, não precisaremos mais falar nesse assunto até segunda ordem. O giro pelo pescoço está fora de questão.

Ao observá-lo melhor, Lucy constatou que Jeremy interpretara errado seu pranto. Não chorara por remorso por ter feito algo er­rado, e sim por indignação.

— Você pode ter convencido muita gente, inclusive meus pais, de que tem as melhores intenções, Jeremy. Mas em minha opinião veio para cá contra sua vontade para fazer um trabalho pelo qual não tem o menor interesse, a não ser se redimir com seu chefe. Não confio em você e farei o que estiver a meu alcance para não permitir que destrua esta companhia com sua inexperiência e ar­rogância!

Lucy atirou no chão sujo o paletó dele e caminhou decidida em direção ao picadeiro, a tempo de fazer a entrada final.

A caravana do circo Conroy possuía dois antigos vagões trans­formados em alojamento para os artistas principais, mais dois para os demais. Tinha ainda um para as refeições, outro pequeno que servia como escritório e um para confraternização, que Jeremy descobriu ser o mais disputado, pois era onde todos se reuniam para jogar cartas e conversar.

Harry, Shirley e Lucy dividiam um carro privativo. Ian preferia dormir com a equipe, e Harry insistira para que Jeremy usasse o vagão deles:

— Nós podemos ficar com aquele que era de Reggie, e Lucy dormirá com Trixie. Você terá de entreter os cidadãos importantes das localidades por onde passarmos, e é claro que, sendo tão jovem, precisará de uma companhia feminina de vez em quando. — Harry piscou-lhe, malicioso.

Jeremy ficou vermelho, mas aceitou a oferta. Não pelos argu­mentos de Harry, mas pela oportunidade de ter um refúgio para ficar a sós.

Lucy não reparava nas acomodações precárias e na falta de classe dos vagões. Também não se incomodava com a cortina a separar as camas. Para ela, aquilo era seu lar cinco meses por ano; já estava acostumada. Apesar da má conservação dos carros, a comida era sempre abundante, algo que Harry fazia questão.

Na manhã em que o trem começou á ser carregado, a trupe se surpreendeu com um vagão novo em folha, pintado e com um mor­domo especialmente contratado para servir Jeremy Barrington.

— O sr. Porterfield mandou — Harry contou à equipe, na hora do almoço. — É para Jeremy utilizar para entreter os figurões durante a turnê. Ele não precisará mais de nosso carro. Nos dá um certo charme, não acham?

A diferença era gritante, mas Harry não deixaria isso corromper seu pessoal.

— E além do mais, Jeremy não é como nós, não pertence ao circo, apesar de ter as melhores intenções. Acostumou-se à boa vida. Seu pai faz parte do Parlamento, e a família possui um castelo no campo, de acordo com o que ouvi. Será interessante saber o que todos dirão quando descobrirem que nosso administrador é um duque inglês.

O comentário teve o efeito esperado, e todos concordaram com as necessidades de Jeremy. Shirley sugeriu que ele desse uma festa para assegurar o apoio de todos. Barrington aceitou a sugestão e contratou os serviços do melhor restaurante local e dois músicos.

Todos se divertiam muito quando Harry, Shirley e Lucy che­garam. Ele não passara bem no final da tarde, e sua mulher e filha tentaram fazê-lo desistir de ir aos festejos, mas Harry insistiu.

— O garoto necessita de todo o apoio que pudermos dar, Shirley. Você sabe disso.

— Por quê? Por que se preocupam tanto com a aceitação de Jeremy? — perguntou Lucy, indignada.

— Porque, minha querida Lucy, ele é nossa salvação. Com Jeremy alcançaremos sucesso ou iremos à falência. Sem ele, sem dúvida sucumbiremos.

— Não acredito nisso. Tudo o que necessitamos é...

— Agora ouça — Shirley a interrompeu. — Seu pai sabe o que é melhor. Está na hora de você descer de seu pedestal e parar de lutar contra quem está tentando trabalhar!

— Jeremy não sabe nada sobre circo.

— Ele entende de negócios, e a esta altura é o que importa. — Harry pôs as mãos na cintura. — Agora, vá se vestir. Nós iremos à festa.

Lucy detestava discutir com os pais, e não entendia por que Adam Porterfield simplesmente não lhes dera o dinheiro. Jeremy Barrington era dispensável. Harry era muito mais qualificado para a administração.

— Lucy? — Shirley bateu na porta.

— Estou quase pronta.

Shirley entrou no quarto e se sentou na cama.

— Querida...

— Mamãe, sei o que vai dizer e até concordaria com você. Nós precisamos de auxílio, mas...

— Sem "mas", querida. Jeremy Barrington caiu do céu. Harry confia nele; por que não faz o mesmo?

— Não é algo que eu possa explicar. Tenho uma sensação de que Jeremy é... Não sei... Irresponsável.

— Ele também está se arriscando.

— Esse é outro problema.

— Vou pedir para deixar suas reservas de lado e aceitar que não sabe a história toda. Agora ande, seu pai nos espera.

— Estou pronta.

— Ficará tudo bem, minha criança. — Shirley a abraçou.

Lucy avistou Harry e Jeremy conversando. Ao contrário de to­dos, que riam e se divertiam na festa, ambos mostravam os sem­blantes sérios. Era Harry quem falava mais.

Shirley passou algumas vezes por eles, e Lucy viu o pai ace­nando com a cabeça para sua mãe. Jeremy colocou a mão no ombro de Harry, num gesto de consolo. Os dois deram-se as mãos, num cumprimento. Harry se virou para Shirley, que pareceu aliviada, e saíram. Lucy correu para interceptá-los.

— Tudo bem? — perguntou, percebendo a palidez do pai.

— Estou apenas um pouco cansado. — Harry esboçou um meio sorriso. — Vá se divertir.

O coração de Lucy bateu mais rápido. Algo não estava certo. Estivera tão ocupada com os ensaios nas duas últimas semanas que não teve tempo para dar atenção aos pais. Quando voltava, à noite, eles já estavam dormindo, além de não terem ido assistir a nenhum ensaio.

— Papai... — Lucy tocou-lhe o braço. Sorrindo, Harry se apoiou em Shirley.

— Tire-me daqui, por favor.

Lucy deu-lhe apoio do outro lado e chamou:

— Ian!

Todos ficaram em silêncio, e Jeremy se aproximou.



— Deixe que eu o levo. — E Jeremy, para espanto de todos, ergueu-o no colo, pois Harry acabara de perder os sentidos. — Ian, procure um médico.

Shirley abriu a porta do quarto, e Jeremy colocou Harry deitado no leito. Lucy ficou à soleira, olhando para o pai inconsciente.

— Lucy, pegue mais um cobertor, sim?

Ela obedeceu, a mente fervilhando, tentando entender o que se passava. Harry enfrentava problemas de saúde, e que por causa disso enviara a carta a Adam pedindo ajuda. Mas o médico asse­gurou que era apenas um problema nos brônquios, e que um clima quente e um pouco de repouso resolveriam.

Mesmo assim, a tosse persistia. Lucy o escutava tossir todas as noites, e não entendia como a mãe podia não perceber.

— Pneumonia — o médico diagnosticou, uma hora depois. — O sr. Conroy tem de ficar deitado se quiser melhorar.

Lucy, Shirley e Ian se entreolharam.

— E isso quer dizer deitado aqui, e não em uma turnê pelo país. — Shirley fez que sim, e Harry, que recobrara a consciência, mur­murou:

— O garoto conseguirá.

— É lógico que sim, papai. — Lucy sorriu para ele. — Ian e eu o ajudaremos. Não é, Ian?

O rapaz assentiu, pedindo que o pai descansasse tentando dis­farçar a emoção.

— Vá chamar Jeremy — Harry pediu a Lucy.

— Eu irei — o médico se adiantou. — Ele espera por notícias suas desde que cheguei aqui. — Fechou a maleta. — Agora, Harry Conroy, sei que é um homem teimoso, mas se não obedecer minhas ordens não me responsabilizarei pelas conseqüências.

— Ele vai se aquietar — Shirley assegurou. — Eu estarei aqui para garantir isso.

— Voltarei amanhã cedo.

Shirley o acompanhou e, em segundos, Jeremy veio ter com eles.

— Entre, filho.

Jeremy se sentou no lado oposto da cama, onde Lucy também se sentara. Harry segurou a mão de ambos.

— Quero que os dois me escutem. Conto com vocês para levar isso adiante. Precisarão um do outro para alcançar êxito, portanto, achem uma maneira de se entender, está bem?

Lucy meneou a cabeça.

— Responda, Lucy.

— Sim, papai.

— Agora posso descansar. Mantenham me informado, por favor.

— Sim, senhor — Jeremy respondeu.

— Você tem boas ideias, filho.

Ao olhar para Jeremy, Lucy constatou que ele estava de fato preocupado com Harry. Seu coração amoleceu, e ela prometeu a si mesma que tentaria ser mais paciente com o homem em quem seu pai confiava.

— Vai dar tudo certo, Harry. Como posso falhar, tendo o Anjo das Alturas como atração principal?

O carregamento da caravana durou o dia seguinte inteiro, e no final da tarde a trupe se achava pronta para partir. A companhia viajaria durante a noite para chegar ao primeiro destino.

Lucy embarcou, sentindo-se solitária sem a presença dos pais. Eles acenaram da varanda, e ela não pôde deixar de pensar se aquela seria a última vez...

Algo estava diferente na viagem à qual estava tão acostumada. Talvez fosse pela falta de Harry e Shirley; ou por ser a primeira vez em três anos sem Reggie...

— Lucy? — Trixie apareceu à porta. — Venha para cá. Ian vai tocar o banjo.

— Em um minuto. — Enxugou as lágrimas que teimavam em cair com as costas da mão.

— Seu pai ficará bem, Lucy. — Trixie a abraçou, carinhosa. — Sabe muito bem que é difícil derrubá-lo. Harry é teimoso como você! Agora, se apresse, antes que a srta. Jacoby coloque as garras naquele irmão lindo que você tem.

Não era segredo o amor de Trixie por Ian, mas ele era tímido demais para tomar uma atitude. Polly Jacoby também se sentia atraída por ele, mas Lucy suspeitava que era apenas o jogo da conquista. Assim que conseguisse o que queria, Polly partiria para outra.

Ao entrarem no vagão, Lucy suspirou, um pouco contente. To­dos os membros do circo estavam lá, rindo, fumando e jogando cartas. Ian afinava seu banjo sentado embaixo da janela. Ele era mesmo um homem bonito, de nariz grande e cabelos escuros, mas sua formosura não chegava aos pés da de Barrington. Lucy franziu o cenho. Não fazia sentido comparar os dois.

Trixie viu Polly se aproximando de Ian e correu na frente, pondo-se ao lado dele.

—Venha até aqui, Lucy, e cante conosco.

Sorridente, ela se acomodou perto do irmão, deixando Polly sem ação. Norma começou a tocar piano para acompanhar o banjo, e os amigos cantaram juntos. Outros membros da banda também apanharam seus instrumentos, e uma sensação agradável a invadiu. Quem sabe a temporada não fosse ser tão terrível...

Lucy notou Jeremy entrando no vagão justo quando lhe pediram que cantasse sozinha.

— Não pare por minha causa, por favor. Eu adoraria ouvi-la cantar, Lucy. — Jeremy se acomodou perto do piano, esticando as pernas e cruzando os tornozelos. Tirou um charuto do bolso e mordeu a ponta.

Lucy considerou não cantar, mas todos aguardavam, ansiosos, e não quis decepciona-los. Só quando terminou teve coragem de olhar para ele. Jeremy a fitava, fascinado. O coração dela bateu mais rápido, sem que Lucy compreendesse por quê.

Jeremy a aplaudiu, foi em sua direção e se curvou diante dela.

— Eu reverencio seu talento, senhorita.

Deus me ajude, ele é maravilhoso! Havia algo especial nele. Sua elegância era cativante, e o tornava um homem do qual deveria manter distância.

A meia-noite, todos já haviam se recolhido a seus dormitórios. A primeira noite era a mais difícil de conciliar o sono. Alguns conversavam, outros repassavam seus número mentalmente.

Lucy se deitou e resolveu que pelo menos tentaria descansar. Porém, como não parava de se virar de um lado para o outro no colchão, Trixie reclamou. Ela se deitou de barriga para cima, e a imagem de um copo grande de leite morno e torradas com a geléia de morango caseira de Shirley veio atormentá-la ainda mais. Virou-se de bruços.

— Lucy! Durma de uma vez! — Trixie pediu.

Tentando se aquietar, esperou a amiga dormir, para ir tomar um pouco de ar. Colocou um robe de seda por cima da camisola, calçou os chinelos e saiu dali, na ponla dos pés.

Abriu a porta que dava para o último compartimento, deixando o vento bater em seu rosto. Em geral, o último vagão era o dela e de seus pais, mas agora o carro novo em folha de Jeremy ocupava seu lugar.

Foi para o espaço aberto, e a brisa e o chacoalhar do trem fize­ram seu robe cair um pouco, expondo seus ombros. Lucy empinou o queixo e decidiu que tudo ficaria bem. Tinha de ficar.

Jeremy esticou as pernas e levantou-se da cadeira em frente à escrivaninha de madeira entalhada. Era tarde, mas seria difícil dor­mir com tantas coisas povoando sua mente. Ainda havia muito trabalho a ser feito, além de terem de achar um mestre-de-cerimônias o mais rápido possível.

Sentou-se no sofá de veludo marrom e passou os dedos pelos cabelos. No dia seguinte chegariam a Higginsville, mas faltava tanta coisa importante!

Apanhou uma almofada e a atirou do outro lado. Que saudade de Nova York, dos teatros, dos restaurantes...

Como conseguiria conduzir o circo sem Harry? Ele dissera na­quela manhã que Jeremy deveria se preocupar apenas em propor­cionar o melhor show, pois o resto aconteceria sozinho.

Sentindo-se mais calmo, mas ainda um tanto ansioso, tirou os sapatos, abriu a camisa e se deitou na cama, lembrando-se de seu pai. Lorde Barrington sempre dirigira os negócios com pulso firme e jamais se importara com seus funcionários. Quando Jeremy che­gou a Nova York para trabalhar com Adam Porterfield, teve de aprender da pior maneira que uma falha pode levar a conseqüên­cias sérias.

Pretendia ser justo em seu trabalho, porém firme. Aceitaria o conselho de Harry, esforçando-se para proporcionar o melhor show que conseguissem. Teria de estar sempre à frente da concorrência e encontrar novas atrações e surpresas ao longo da temporada.

Suspirando, abriu a janela. O vento fresco bateu em seu rosto. Aquela brisa refrescante talvez tivesse o dom de acalmá-lo. Pegou um charuto dentro da caixa que Adam lhe dera com as suas iniciais gravadas e uma taça de brandy.

Foi para o espaço aberto de seu vagão, e observou a paisagem plana. Ao virar o rosto para a esquerda, avistou Lucy saindo de seu carro. Jeremy se aproveitou do fato de ela não ter notado sua presença para analisá-la.

Ela vestia camisola e robe, e tinha os pés descalços. Seus ca­belos negros e soltos balançavam, com suavidade.

Naquele momento, ele a desejou, mas disse a si mesmo que não devia. Não iria se envolver com membros da companhia. Afinal, já tinham problemas demais para resolver. As cidades por onde passaria a turnê estariam repletas de mulheres que poderiam lhe dar prazer e ser deixadas para trás sem remorsos.

O trem balançou, e o robe escorregou dos ombros dela, deixan­do-os à mostra. Jeremy continuava sem se mover, lembrando-se do olhar dela ao terminar o giro pelo pescoço que ele a proibira de fazer. Havia algo nele... sonhos, desejos, determinação e cora­gem. Jeremy reconhecia muito bem aquele brilho, pois também o enxergava ao se mirar no espelho. Porém, o de Lucy mostrava algo mais: energia e autoconfiança.

Apreciou a pele muito branca, os lábios rosados beijando a noi­te, e sem querer apertou o copo que segurava, fazendo-o bater nas ferragens da cerca de proteção do vagão. Lucy se cobriu no mesmo instante com o robe.

— Desculpe-me se a assustei. — Jeremy se aproximou da pla­taforma. — Também vim tomar um pouco de ar.

— Eu... não conseguia dormir. — Ela amarrou o robe, imagi­nando há quanto tempo estaria sendo observada.

— Gostei muito de ouvi-la cantar.

Lucy não podia negar que Jeremy vinha se comportando como um cavalheiro, conversando com educação, mantendo uma dis­tância respeitosa. Assim, permitiu-se relaxar.

— Obrigada.

Ele apoiou o quadril na grade e bebeu um gole do brandy. A fumaça do charuto flutuava entre os dois.

— Estou surpreso que não tenha conseguido dormir. Para um novato é normal, mas você já tem muita experiência.

— Eu me apresento desde os dez anos e nunca consegui relaxar na véspera da estréia. Não adianta nem ir para a cama.

Oh, céus, por que esse homem tem de falar sobre coisas tão íntimas deforma tão aberta ? Por que estou falando com ele sobre dormir e ir para a cama?

— Também não fui capaz de conciliar o sono. — Jeremy sorriu maravilhosamente. — E posso lhe garantir que nunca tive dificul­dade para adormecer em toda minha vida. Deve ser algo no ar ou talvez...

— O quê?

— Talvez, como você, eu me importe com o que irá acontecer amanhã e nos dias que virão. Quero muito que todos nós façamos muito sucesso.

Lucy tinha plena consciência da presença de Jeremy a sua fren­te. Se esticasse o braço, poderia tocá-lo. Ele também. A camisa estava para fora da calça, e os primeiros botões abertos deixavam o peito à mostra.

— Adoro viajar à noite. — Jeremy mirou a paisagem. — E como se voássemos através do tempo e do espaço, não acha?

— Nunca pensei nisso. Mas sim, pode ser diferente de fazer o trajeto durante o dia.

Jeremy aproximou o rosto e sussurrou:

— É excitante também...

— Sim — Lucy afirmou, sem se mover.

— Não sente frio nos pés? Os meus estão gelados, e repare que uso meias.

— Jeremy, como um inglês como você considerou sair sem chinelos?!

Ele deu risada, e Lucy gostou da sensação de poder fazê-lo rir. Jeremy acariciou seu rosto com o dedão, e no mesmo instante ela se sentiu frágil.

— Tenho de entrar — Lucy falou, mas não conseguiu se mover. Jeremy assentiu com um gesto e colocou a outra mão em sua face.

Ele iria beijá-la; e, mais do que isso, ela queria ser beijada.

— É melhor que entre. — Jeremy deslizou o indicador pelos lábios dela.

Lucy tinha de se mexer. Ele a deixaria passar, mas a iniciativa teria de partir dela. Então, seu estômago roncou alto o bastante para que ambos escutassem, apesar do barulho do trem.

— Isso veio de você? Não me diga que é uma dessas moças que passam fome para manter o peso.

— Eu me alimento bem.

— Mas não hoje. Estava aflita por Harry, e não comeu nada o dia todo. — Jeremy pegou-lhe o braço.

— Solte-me.

— Só depois de alimentá-la. Você é muito importante para a trupe para se matar de fome.

Entraram no vagão particular de Jeremy sob os protestos de Lucy.

— Isso não é apropriado!

— Sente-se — ele ordenou.

Ela o obedeceu, mas, assim que Jeremy lhe deu as costas, tornou a ficar de pé. Ele colocou as mãos em seus ombros segurando-a firme.

— Sente-se, Lucy. Nada de impróprio acontecerá aqui. Vamos comer, e ninguém saberá. Se é com sua reputação que está preo­cupada.

Lucy quase riu. Jeremy não sabia mesmo nada sobre a falta de privacidade da vida na estrada.

— Todos saberão. Eu saberei e não permitirei que pense que porque sou uma artista... Que você pode... Que sou algum tipo de...

— Posso lhe garantir, Lucy, que não tenho o hábito de forçar as mulheres a fazer a que não querem. — Enquanto falava, ele punha a mesa. — Do que gostaria?

— Não estou com fome.

E seu estômago roncou mais uma vez. Ora, que traidor!

— Nota-se. Que tal um copo de leite?

Lucy salivou, mas isso ela mesma poderia pegar na cozinha.

— Srta. Conroy?

— Leite está ótimo.

— Espere um minuto, então.

Assim que ele se afastou para trás das cortinas, Lucy aproveitou para sair, arrastando os pés descalços no tapete macio.



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